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plástico bolha envolvendo palavras

Distribuição Gratuita

Ano 3 - Número 20 - Abril/2008

Chegamos ao número 20! Não é pouca coisa porque a cada número trazemos o que se passa de melhor na cabeça dos novos escritores de hoje. Nossa lira das vinte edições está mais afinada do que nunca e sua harmonia se espalha por toda a cidade em faculdades, cinemas, teatros e restaurantes do Rio de Janeiro, Niterói e Belo Horizonte. Desta vez, nossa musa canta sobre a morte, sobre profetas, sobre o amargor e até sobre si mesma com Antonio Mattoso inovando na coluna Oráculo. Ana Paula Kiffer canta como o beija-flor na coluna Mulheres-Damas, Carolina Maria de Jesus canta suas experiências como catadora de lixo em 1955 e reinventa a língua na coluna Quarto de despejo e Santuza Cambraia Neves canta em coro com Fernanda Takai na coluna Por dentro do tom. Fabrício Carpinejar é o nosso entrevistado do mês. Em uma conversa com Andrea Carvalho Stark, ele fala sobre blogs e os novos espaços de divulgação da poesia pela internet, a musa digital. Fica para nós a pergunta: será a internet de hoje a gaveta de ontem? Nosso Desafio poético, que cada vez atrai mais e novos participantes, convocou os trovadores a cantarem sobre o que as sílabas têm de breve enquanto o hortelã, único, atravessou-as e as olhava. Os resultados foram os mais surpreendentes possível. Com tudo isso e muito mais, nossa musa chega esse mês cheia de autoridade!

NESTA EDIÇÃO fabrÍcio carpinejar lÚcia cordeiro leonardo marona

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Da morte Um dia, não haverá mais estrelas sem olhos no meio da noite turva Das borras de café surgirão sombras capazes de esculpir a ausência dos corpos Flores brotarão das toalhas das mesas, das tristes mesas das casas sem mãe E a poesia escreverá seus poetas, a mostrar-lhes que a morte é comida caseira, feita de agoras Beatriz Sayad

antonio mattoso

heinz langer

andrea carvalho stark

flora bonfanti

felipe carvalho dos santos

beatriz sayad

paulo gravina

yuri amorim

laila melchior

mia vieira

rosa matos

Heinz Lange

carolina maria de jesus

santuza cambraia naves

mÁrcia brito

Cheios de autoridade

isabel wilker marilena moraes

letÍcia simÕes raÏssa degoes mauro rebello

carolina vilela

bruna piantino

henrique f. carvalho

ana paula kiffer catharina wrede marcella feo

roberta leopoldino

sueli rios

gustavo paes

lucas viriato

chloe paisley

carla mendes

lÍvia helayel


Bolhetim Já enviei diversos textos para o jornal e nunca, nunca fui publicado. Estou desolado. Queria saber: o que, afinal, acontece com o meu texto depois que envio para o jornal? — Paulo Coelho, via telepatia.

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Caro sr. Coelho, Os textos recebidos são encaminhados, sem identificação, à Comissão Avaliadora, composta de cinco membros para prosa e cinco para poesia (o nome deles está no expediente, aqui ao lado). Cada um vota, segundo o seu critério, entre SSS, SS, S, N, NN e NNN, sendo que S representa que o texto deve ser publicado e N que o texto não deve ser publicado. A quantidade de SS significa a ênfase na publicação; a de NN, a ênfase na não-publicação. É claro que isso só resolve parte do “problema”. Ao juntarmos os votos da Comissão Avaliadora em uma tabela, alguns textos logo se revelam bons (pois agradaram a todos os membros da comissão) e outros o contrário. Acontece que grande parte dos textos compõe uma “massa cinzenta” que precisa ser reavaliada pelos demais membros do jornal. É aí que entra o Conselho Editorial, analisando a escolha dos textos e pensando a melhor solução para os que não se definiram claramente com os votos da Comissão. Como a literatura não é uma ciência exata, e sequer uma ciência, as divergências de opiniões estão sempre presentes. Acreditamos haver vários caminhos literários, praticamente um para cada autor. Procuramos dar lugar aos estilos, tendências e temas os mais variados, sempre mesclando autores inéditos e já publicados. Assim, se você já teve um texto publicado no plástico bolha, tem ainda mais chances de voltar para desenvolver sua linha autoral. Se ainda não, saiba que a fila é grande, mas está sempre andando para frente a um galope de doze páginas por mês. Paciência, sr. Coelho, é uma verdadeira lição de vida... envie suas dúvidas, críticas e sugestões para jornalplasticobolha@gmail.com ------------------------------------------------------------Entre muitos outros lugares você encontra o plástico bolha em: — Livraria Café com Letras - R. Antonio de Albuquerque, 781, Savassi, BH (MG) — Livraria Leonardo da Vinci - Av. Rio Branco, 185, subsolo, Centro (RJ) — Botequim Honesto - Rua Min. Otávio Kelly, 483, Icaraí, Niterói (RJ)

Distância Os textos de botânica não cheiram como as flores. A receita do pudim não tem calda e nem sabor. O retrato da vovó não reclama estar com dores. Os meus filmes de viagem não me tiram de onde estou. Lucas Viriato

Me dá a chave, por favor Do seu reino interior. Dorme, dá-me, dama dormindo — Não se preocupe com que estou descobrindo. Chloe Paisley

plástico bolha produzido pelos alunos de Letras da PUC-Rio

Editores Lucas Viriato Paulo Gravina Editora Assistente Marilena Moraes Conselho Editorial Luiz Coelho Gregório Duvivier Isabel Diegues

Tiragem: 8.000 Impresso na CUT Graf Distribuído no Rio de Janeiro, em Niterói e em Belo Horizonte

Comissão Avaliadora Constanza de Córdova Carlos Andreas Tomé Lavigne Nadja Voss Mauro Rebello Isabel Wilker Edson Santana Manoela Ferrari Cristiane Mendes Roberta Rubinstein

Coordenação Thiago Bento Lucas Viriato Revisão Marilena Moraes Rubiane Valério Rafael Anselmé Gabriel Matos

Equipe Márcia Brito Beatriz Pedras Paloma Espínola Fernando Fernandes Agradecimentos Gisela Gold Miriam da Silva Lima

Envie seus textos para jornalplasticobolha@gmail.com


A Boneca Augusta. Assim chamavam a criança alva, de face de porcelana. A mãe, rosa de amor, dava tudo que a menina pedia — aliás, exigia. Era bonito arrumar o palácio montado dentro das quatro paredes do quarto da filha. Naquele infantil paraíso, reinava o mais seleto grupo de brinquedos. A pequenina pouco tocava em suas comportadas bonecas batizadas com nomes pomposos, nas casinhas e nos conjuntinhos de chá. Alguns brinquedos preservavam a sacra imponência permanecendo em suas caixas. Augusta preferia ir a uma feira aos domingos para brincar com as bonecas ali vendidas. Usadas, podiam ficar um pouco mais sujas. Numa manhã de feira, Augusta resolveu se arrumar além do costume. Com a permissão e o auxílio da mãe, pintou-se com batom e ruge, após se enfeitar com uma leve camada de pó-dearroz. Pronta, dirigiu-se, na companhia do pai, para o universo dos brinquedos plebeus, a exibir sua nobreza e divertir-se com a graça levemente circense dos objetos que, um dia, já foram muito mais que um arlequim de ricos. Caminhando pela praça, Augusta mantinha das pessoas e das barracas uma distância que julgava sagrada e ostentava as rendas do vestido azul todo rodado. Na feira havia de tudo: peças de automóveis, mobílias antigas, instrumentos musicais e roupas, tudo muito barato. Augusta nunca comprara nada. Gostava somente de ver o movimento daquela paisagem eclética, tão diversa de seu quarto. Admirava a busca daquela população consumidora de coisas de que sua família jamais precisaria. A menina observava todos os domingos um mundo palpável, onde seus habitantes tinham o que almejar. Como de costume, depois de uma breve vista sobre o ambiente, a criança saiu em disparada para a parte da praça em que ficavam os brinquedos. Bem no centro daquela área de vendas, estavam os pequenos diabinhos que, quando novos, tanto alimentaram a imaginação dos jovens abastados e fomentaram o desejo de infância dos desafortunados ao serem adorados assim como um elemento da fé. Naquele instante, o dono da barraca terminou de ajeitar uma outra boneca, mais velha. O vestido, as linhas de costura apodrecidas, por pouco não desmanchara nas mãos no vendedor. Era de um tecido verde, que já havia sido vibrante. As rendas amareladas eram meros fios rasgados e a tinta usada que marcava os olhos e os lábios descascara quase toda. No entanto, a boneca foi posta em exposição junto às outras. Augusta, eufórica com a brincadeira, levantou-se para pegar mais uma boneca.

Começou a procurar e avistou a tal feiosa. Olhou-a atentamente; observou os mínimos detalhes: braços, cabeça, traje e cada fio do cabelo louro. Com cuidado, a menina segurou delicadamente a frágil bonequinha, hipnotizada. Num impulso, começou a ninar a pequenina e seu peito aqueceu a louça que revestia o rosto desfigurado do objeto adorado. Aquele momento fez com que a menina se esquecesse de tudo. Tocava sua nova filhinha, acariciava seus cabelos. Contou-lhe histórias, ninando-a mais uma vez. Deu-lhe o nome de Maria. Se o pai não interrompesse, Augusta permaneceria na feira o dia inteiro. Impaciente, chamou a filha para irem embora. — Só mais um pouquinho, papai. A gente nunca fica muito tempo aqui. — Já ficamos o bastante. Agora, levante-se! — Então me deixa levar esta aqui para casa — Augusta pediu, mostrando Maria ao pai. — Mas você já tem tantas, Tesourinho… E esta, está gasta — afirmou o homem. A teimosa criança continuou implorando. Chegou a iniciar um choro manhoso. O pai, para interromper definitivamente o ataque de mimo da filha, alegou estar sem nenhum vintém, mas cedeu ao pedido de voltarem com a quantia na outra semana. Quando iam embora, o vendedor ainda garantiu que guardaria a boneca para Augusta. A semana foi de uma espera angustiante para a menina, que nunca vivera sete dias tão compridos; procurava se distrair organizando o espaço onde iria acomodar a boneca, que dormiria a seu lado todas as noites. Augusta, então não pensava mais em sair do quarto. Pensou nas brincadeiras que faria com Maria, como iria vesti-la. Chegou a lhe escrever cartas, revelando os parques aonde iriam juntas. Planos, festas, alegria, fantasia, imagens, sonhos, muitos sonhos. Num sonho, a menina pôde ver a boneca toda imaculada no cume de uma montanha que tocava o céu enfeitado de estrelas. Ali, o simples brinquedo não remetia, nem de longe, ao que de fato era. Estava cercado de anjos, oferendas nas mãos, ao som de música; todos dançavam. Crianças e bonecas se uniam para sempre felizes num baile mais encantado que os dos contos de fadas. Ao acordar, Augusta sorriu e contou sua fábula aos brinquedos do quarto. No domingo, Augusta saltou da cama antes mesmo de o sol iluminar as cortinas das janelas. Nem os empregados da casa encarregados de preparar o café e buscar o pão haviam levantado. Veloz, pulou do leito e foi correndo acordar ao pai. Sem defesa, o homem teve de atender o chamado de Augusta. Liberou um alto bocejo, espreguiçou-se, mas quis voltar a dormir;

Banca da PUC

Augusta o impediu. Finalmente, após muito esforço, o homem conseguiu se arrumar. Tomaram o desjejum e saíram para buscar a boneca. Na praça, poucas barracas haviam sido montadas; o movimento era ainda fraco. Sendo a boneca o único interesse dos apressados fregueses, partiram sem tardar para o estande de brinquedos. Mal pôs os pés na área reservada às bonecas, Augusta reparou algo estranho. Aquelas ali expostas eram mais bonitas e conservadas do que as usualmente vendidas na barraca. O seu dono, assim que os avistou, reconheceu a ansiosa menina e o pai. — Então voltaram! Pode pegar sua encomenda, princesa. Está aí na mesa, toda arrumada para conhecer o novo lar. Augusta não viu Maria. O vendedor apontou para a boneca. Vestido cor-de-rosa limpo e belo. Os cabelos, penteados e enfeitados com fitas, estavam tão louros que brilhavam. A face, novamente pintada, mostrava lindos olhos, ainda mais azuis, e lábios ainda mais vermelhos. No corpo refeito, um suave perfume de rosas. Estava tão bonita a boneca que parecia ser Augusta. Teria, agora, outros nomes, além de Maria. — Uma menininha bela como você não poderia levar uma boneca tão desajeitada; tive de fazer um retoque — enchendo-se de orgulho pelo bem feito trabalho, o comerciante explicou. — Depois de consertar esta, me animei para fazer o mesmo com as outras. Apenas aviso que a bonequinha está um pouco mais cara. O senhor compreende. É pelo meu esforço. — Não há problema — disse o pai. — Seu trabalho está realmente bem feito. Agora sim, a boneca está ideal para o quarto do meu 3 tesourinho. A criança, então, tocou naquilo que, até o momento, fora sua maior ambição. Quis chorar e perguntava-se, em silêncio, o que fizeram com sua Maria. Seu amor tornara-se impossível. A volta para casa teve o silêncio de uma cerimônia fúnebre. Augusta caminhava lentamente ao lado do pai, segurando a boneca como quem carrega um enfermo sem esperança de vida nos braços. Seu olhar era fixo e mudo. Queria esquecer que um dia conhecera Maria, pois jamais a teria de volta. Em seu quarto, não havia espaço para bonecas feias. Em casa, no quarto, a menina penteou a boneca e pediu para o empregado mais alto da casa guardar o brinquedo no céu de seu mundo delimitado por tijolos, o topo da estante. A singela bonequinha seria agora uma eterna prisioneira dos sonhos de Augusta. Triste e sozinha, a delicada Augusta deitou-se em seu leito cor-de-rosa, ao lado de suas virgens de porcelana, e desapareceu.

Carolina Vilela

Memórias Indianas

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de Lucas Viriato de Medeiros

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Por dentro do tom por Santuza Cambraia Naves Onde brilhem os olhos seus, de Fernanda Takai

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Convidada por Nelson Motta para fazer um disco solo em homenagem a Nara Leão, gravando apenas composições que constaram do repertório da cantora, Fernanda Takai aceitou a provocação e gravou o CD Onde brilhem os olhos seus, com direção musical do próprio Nelson. Em texto que escreveu para o encarte do álbum, Nelson argumenta que, ao ter o primeiro contato com Fernanda por meio dos clipes, associou-a de imediato à figura de Nara Leão por ser “discreta e original, cool e elegante”, ter “um look meio oriental” e cantar “letras inteligentes e irônicas com doçura e firmeza”; enfim, “uma garota tão moderna, tímida e talentosa quanto Nara em 1959”. Conheceu-a pessoalmente em 2006 e sugeriu o disco com esse formato. O CD resultou de uma produção caseira, com participação apenas de John Ulhoa (guitarra, baixo, violão, teclados, programações e voz), Lulu Camargo (piano, teclados, programações e voz), Roberto Menescal, que toca guitarra (magistralmente, diga-se de passagem) na gravação de “Insensatez”, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, e Nelson Motta, cujas sugestões eram feitas por e-mail. Diferentes gêneros de diversos compositores são contemplados em Onde brilhem os olhos seus: os sambas tradicionais de Zé Kéti e Nelson Cavaquinho “Diz que fui por aí” e “Luz negra”; a canção “Com açúcar, com afeto”, representativa da primeira fase da carreira de Chico Buarque; o bolero “Lindonéia”, composto por Caetano Veloso no auge do tropicalismo; a pop “Debaixo dos caracóis dos seus cabelos”, que Roberto Carlos e Erasmo Carlos criaram em homenagem a Caetano; a canção bossa-novista “Insensatez”, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes; o choro “Odeon”, de Ernesto Nazareth e Hubaldo, com letra de Vinicius; o som nordestino “Seja o meu céu”, de Robertinho do Recife e Capinam; e o clássico samba-canção “Estrada do sol”, de Tom Jobim e Dolores Duran. O que todas as canções escolhidas têm em comum é o fato de terem sido gravadas por Nara em algum momento de sua carreira. Há uma boa dose de ousadia no projeto, pois Nara se notabilizou no final dos anos 50 e nas décadas de 60 e 70 por criar um estilo despojado no uso da voz e na performance e, ao mesmo tempo, atuar como agitadora cultural. Ela costuma ser aclamada pelos cultores da bossa-nova e outros gêneros musicais pelos quais ela se aventurou ao longo de sua carreira como uma figura instigante. Nelson Motta, por exemplo, assume no texto citado a sua admiração por Nara, narrando assim a sua trajetória: primeiro como musa da bossa-nova, depois como fundadora da MPB e voz da oposição à ditadura, Nara doce guerreira tropicalista de primeira hora, revelando talentos, quebrando preconceitos, renovando o samba e o choro, a bossa nova e a MPB, Nara eternamente moderna, a voz mais inteligente do Brasil.

Fernanda recriou o estilo de Nara não apenas em termos musicais, como também na concepção da capa, que estampa fotos da cantora com um visual típico dos anos 60: vestido tubinho que lembra o estilo minimalista do estilista francês Andrés Courrèges e cabelo com corte Chanel. Musicalmente, as canções escolhidas de diversos discos de Nara são recriadas em ritmo de rock-balada, como é o caso de “Diz que fui por aí” (samba de Zé Kéti e Hortênsio Rocha), e até mesmo de ragtime, como em “Odeon”, sugerindo um diálogo do choro carioca com um dos seus ancestrais negros norte-americanos da linha dixieland. O espírito noir de “Luz negra”, composição de Nelson Cavaquinho e Irani Barros, é recriado por meio de uma interpretação que em nenhum momento foge do registro cool, recorrendo ao dramático apenas pelo som de um heavy-bolero e do arranjo no mínimo curioso, cuja densidade contrasta com a leveza interpretativa de Fernanda Takai. Em entrevista para a Folha Online (30/11/2007) a propósito do disco, Fernanda Takai argumenta de maneira inteligente: “A idéia era preservar a minha identidade, construída no Pato Fu. Não procurei emular nada da Nara”. De fato, ao gravar Onde brilhem os olhos seus, Fernanda assumiu a atitude que se espera de um artista desde, pelo menos, os modernismos: dialogar com a tradição de forma criativa. Paradoxalmente, Fernanda captou a sensibilidade de Nara Leão e, ao recriá-la, reforçou sua identidade artística.

Puzzles ALBERTO DA CUNHA MELO Sempre entendi esta coluna puzzles como um espaço da memória. Explico: ela serve para lembrar dos autores (entre os quais filósofos) esquecidos e também para rememorar o que é bom e por que o é. Obviamente, as opiniões divergem; entretanto, até mesmo no fim do artigo sobre Kant, tive que dar o meu braço a torcer, porque, afinal, creio que os melhores filósofos são aqueles que conseguem viver a sua filosofia. É nesse espírito que pretendo dar a minha contribuição, com um puzzles sobre Alberto da Cunha Melo. Certamente, pouquíssimos já o leram ou mesmo dele ouviram falar. Alberto da Cunha Melo não costuma estar nas fileiras das grandes e nem das pequenas livrarias. Mas tenho certeza de que os antenados em sebos e afins o conhecem de longa data. O poeta, nascido em Pernambuco, em 1942, publicou treze livros de poesia, sendo que Yacala, uma de suas obras mais famosas, chegou a Portugal acompanhada pelo prefácio e pelos elogios de Alfredo Bosi. Alberto chegou a participar ativamente de movimentos pela poesia, como a Geração de 65 pernambucana (1), e até a orar pelo poema, já que sua obra também se dedica a pensar o papel do poeta e da poesia no mundo de hoje. Mesmo trabalhando como sociólogo e jornalista, Alberto sempre encontrava um espaço para a poesia — por exemplo, como editor do Suplemento Cultural do Jornal do Commercio —, criando ali um espaço para os jovens e novos poetas. Sua obra impressiona pela capacidade de narrativa poética, aproximando-se de composições que vão desde o cordel até T. S. Eliot, e pela diversidade de formas usadas e assuntos tratados, variando desde algumas usadas por alguns movimentos de vanguarda até outras originais criadas pelo próprio autor, como a Retranca (2), sua forma mais famosa. O mais surpreendente, porém, é o ostracismo a que foi condenado nas letras e poesia nacional, cujo espaço dedicado ao poeta (e à sua morte, em outubro de 2007) é insignificante. Não ouso fazer uma resenha crítica do poeta, pois não me julgo capaz e nem disponho de espaço aqui para fazê-lo. Só me resta, então, diante da cegueira sobre o poeta e a sua obra, questionar: terá a poesia se tornado publicidade pura, conforme a previsão do grande Leminski? Estaremos sujeitos a ler somente o que está na moda e, ainda mais, segundo as interpretações da moda? Será que, em plena era da internet, estamos condenados a ler apenas o que convém e quando convém, ler Vinícius quando se fala de Vinícius, e ler Cecília segundo o número de tiragens de Cecília? Ou, antes, será que as belezas desta terra estão cada vez mais se escasseando, assim como aqueles dispostos a exaltá-las? Não tenho resposta para nenhuma dessas perguntas e, como mencionado, aqui me dedico somente a evocar a lembrança do poeta e sugeri-lo como leitura. Ressalto, ainda, que Alberto da Cunha Melo não está sozinho nesse estado de ignorância; na poesia, o acompanham nomes como Moacyr Félix, que morreu em 2005, Antônio Olinto, cuja poesia tive a sorte de encontrar e ler em uma antologia rara, e Gerardo de Mello Mourão, que também morreu em 2007. Este último, certa vez, declarou ter aprendido com Camus, pessoalmente, que os poetas, artistas e escritores não devem fazer história; seu papel é apenas sofrer a história. Sim, mas é bem provável que até esses maus-tratos passem despercebidos na história nacional e que esse poeta, junto a muitos outros escritores e artistas, não tenha a quem transmitir o legado de sua miséria.

Paulo Gravina

mestrando em Letras na PUC-RJ

(1) Grupo de poetas pernambucanos, fundado em Jaboatão, inicialmente por três poetas (entre os quais, Alberto), com o objetivo de estudar e escrever poesia. Do estudo passou-se a um jornal do grupo e, depois, às páginas do Diário de Pernambuco, por iniciativa do diretor do Suplemento Literário, César Leal, também poeta. O grupo atraiu diversos poetas e pessoas interessadas em poesia e acabou se associando a uma marca e publicando mais de 300 títulos. Para obter mais detalhes, ler o ensaio “Faces da Resistência na Poesia de Alberto da Cunha Melo”, de Cláudia Cordeiro, esposa do poeta, o qual se encontra disponível na internet. (2) Octassílabos formados por 4-2-3-2, com rima nos dois dísticos, no segundo e quarto versos do quarteto e no primeiro e terceiro do terceto (abcb cc ded ff).


(sobre)vivências – dos cen’átimos (brevidades) por Felipe Carvalho dos Santos

ooo Inspirar e expirar conduzindo o sopro para o centro da luminosidade. Respiração espiritual: com intenção, com vontade — respiração do “céu anterior” — o mundo dos ancestrais, o perfeito equilíbrio, anterior a qualquer imagem e a qualquer forma. Coexistência com a respiração do “céu posterior” — o mundo dos fenômenos, o mundo como parece ser. “Sua vontade deverá ser uma. Não ouça com os ouvidos, mas com seu coração. Não ouça com seu coração, mas com seu sopro. Ouvidos podem apenas ouvir, o coração pode apenas contemplar, mas o Sopro é o vazio, receptivo de todas as coisas. O Tao está relacionado ao Vazio e o Vazio é o purificador do coração.” [Kong Fu Zi] As frases escritas são, na verdade, uma prática meditativa. Uma ação que aglutina: os ouvidos ou os sentidos físicos possibilitam a concentração; o coração, por sua vez, permite a contemplação ou a vivência da “luz”; e, por fim, o Sopro, a respiração do “céu anterior”, a fusão da luminosidade, o mundo exterior, com o estado material, o mundo interior. Ou, noutras palavras, o encontro da energia yin, a nossa mente racional, nossa personalidade, a fórmula, a criatividade, a Terra, a energia que se materializa, a obscuridade, o medo, o esconderijo, o frio, a imobilidade, a passividade; com a energia yang, a luminosidade, o imaterial, o que ascende, o verão, o calor, o Céu, a energia que se exterioriza, a atividade, aquilo que se agita, o mover-se do (no) mundo.

kerouac teu erro foi me fazer pular etapas para chegar mais cedo na tua velhice e sentar tranqüilo — desesperado — outro bêbado genioso na cadeira de balanço alisando um gato exultante da própria beleza. teu erro foi me dar tanta certeza, tão falha quanto a bravura dos covardes, de que as coisas podem dar certo, se estiverem de um lado e nós do outro. teu erro foi talvez o meu aborto, a geração depois da geração seguinte, o buraco negro na camada de ozônio, a carga triste de um movimento abjeto. teu erro, por fim, foi meu remédio. porque se não sou o que pude ser, pelo menos ficou uma certa brisa, uma esquina que permanece aberta. ficaram olhos enfumaçados, e a ilha.

mulheres-damas

ficaram cigarros pela metade, e foices. e, por fim, a magia pálida de um grito,

por Ana Paula Kiffer

de um abraço, de um soco no estômago, de um vulto secreto no olho da noite.

Leonardo Marona

Beija flor

Um corpo se desfolha Face à dureza dos troncos que lhe encerram.

www.academia.org.br

Raïssa Degoes

O acelero das sensações Correm e cortam Em vôo rápido De corpo leve, Levíssimo Por entre as vigas de madeiras Densas As nesgas do céu raso.

CLIQUE AQUI O site da Academia Brasileira de Letras oferece notícias, acervo, programação de palestras e exposições, além do famoso recurso ABL Responde, que responde, via e-mail, a dúvidas de português. vale o clique!

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Bolhas Geraes O assalto a insônia incide certeza latente do incidente na noite do desencontro na vida do silêncio na cama a certeza do tempo que corre fere cicatriza responsabiliza e rege determinadas partes lesadas cravadas à tona da consciência alteram-se intactas às profundas coincidências

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Cozinhando em banho-maria

Vendada Sua expressão singular Destitui-me de Qualquer resquício vivo

Vamos sonegar inspiração Pois. Que todos mastiguem; Por que não mudar de mesa?

Tenho com o mar ___ ___ ___ ___ ___ ___ ___ Entresono-sonho-realidade

Banquetes de gente a devorar Complôs que não foram comprados Permanecem genuinamente ingênuos.

Involuntários olhos projetam segundos Sinto imensa vontade de pular Digo: — Não! Eu fico.

O sabor original raramente provado De tão simples e efêmero Bate na alma como um punhal E nos revira ao avesso.

Três poemas do livro Bastão de Bruna Piantino

A coluna Bolhas Geraes é dedicada aos nossos leitores e colaboradores mineiros, que, desde a edição #13, recebem o plástico bolha em diversos pontos de Belo Horizonte. Envie, também, os seus trabalhos para jornalplasticobolha@gmail.com .

Não sei, meu bem, nada mais As palavras disciplinadamente decoradas. O tom certo, a expressão certa. O ensaio de dias valeu a pena. Nada tem como não dar certo quando é meticulosamente planejado. Errado! O mais ensaiado dos atos tem que estar preparado para o improviso. Mas fora dos palcos nada sai exatamente como o planejado. A vida é a arte do improviso, dizem uns. É preciso saber planejar, dizem outros. A verdade é que ninguém sabe ao certo o que pode dar errado. É necessário estar preparado para o inesperado, o imprevisível, o acaso. O ensaio ajuda mais a mente que está preparada para o improviso. Não existem idéias que “vêm do nada”; as iluminações são o reflexo do ensaio, do trabalho, do pensamento. Ensaiar para saber improvisar; isso, sim, talvez seja uma arte.

São milhões de escamas Rede complexa de possíveis respostas Que posso dar. É coisa demais Gritando ao mesmo tempo. É porta, escada, rampa, ponte Abismo. Vida. É furacão, tempestade, Maremoto, vulcão Explosão de vontade E de não saber o que mais. E teus braços me dizem: paz. Simples. Sempre. Relaxe. Durma. Morra Em mim. Sim, sim, sim, mas...

Marcella Feo

Rosa Mattos


Todos Nós (O que você faz quando a vida se torna o inferno na terra?)

— Já vou! — ela gritou de volta; em seguida, se enroscou nas cobertas em posição fetal, demonstrando uma disposição contrária à de suas palavras. Sim, ela teria que se levantar uma hora; não que ela tivesse vontade. Se levantar, sair de casa, era perceber irremediavelmente que não importa o quão destroçado esteja o nosso espírito: o mundo não se ressente disso. Mas nós sim. É somente quando a alma está partida que se percebe que o mundo nos é totalmente indiferente, mas que o mesmo não ocorre conosco. É somente quando a alma está partida que se percebe que desejamos, desesperadamente, significar algo mais e que também significamos bem menos do que pensáramos a princípio. E ela, tendo sentido isso inúmeras vezes, estava cansada. Tinha que se levantar e ir para o chuveiro; ele a esperava lá. Contudo, o cansaço no espírito superava qualquer disposição física que porventura tivesse. A pouca que lhe restara, ela já a esgotara com ele durante a noite. Levantar-se era uma atitude que demandava uma coragem que lhe fugia cada vez mais por entre os dedos. E fora exatamente por isso que o procurara: quando essa coragem lhe faltava, ela conseguia resgatar algo de si mesma ao seu lado. Era capaz de esquecer sua fraqueza, sua covardia, e prosseguir um pouco mais; pelo menos, até a manhã seguinte. Mas era essa manhã seguinte que mais temia: era então que via que toda aquela força que ele lhe passara não passava de uma ilusão. Era então que via que estava ainda mais fraca do que no dia anterior. Podia sentir toda a sua força se esvaindo a cada dia. E se perguntava o que aconteceria quando ela se esgotasse por completo. Quando ela se partisse em mais pedaços do que alguém pudesse contar. Ele estaria lá? Ele tentaria juntar os cacos novamente? Conseguiria fazê-lo? E se não conseguisse? Se ele não fosse capaz disso, ninguém mais o seria. E ela sentia esse dia se aproximando, perigosamente. Ela pressentia o dia de sua queda, como uma presa pressente a aproximação do predador. E tal qual a presa, ela sentia a paralisia, o terror que a dominava e a impedia de fugir. E fugir de quê? De si mesma?

Já tentara — ah, e como tentara! Mas não se pode fugir de si mesmo. E se pudesse, será que ela realmente gostaria? Em seu íntimo, não sentia ela certo prazer mórbido em estar irreversivelmente presa a si mesma? Como um condenado ao cadafalso, que caminha lenta e orgulhosamente para seu destino inevitável; com um prazer sádico de saber que não se deve mais nada ao mundo. E ela também, seguia o mesmo caminho. E ela voltava a se perguntar se ele estaria lá para assisti-la, no dia em que ela estivesse com a corda ao redor do pescoço, pendurada, os pés procurando sofregamente o chão com o pouco de ar que ainda lhe restasse nos pulmões. Ele permaneceria para resgatar seus restos mortais? Ou lhe viraria as costas, como o resto da platéia, uma vez encerrado o espetáculo? A morbidez de seus pensamentos aumentando, ela resolveu parar por aí; se enveredasse por essa estrada, talvez não houvesse mais volta; e apesar de se sentir destruída, seu instinto de sobrevivência ainda possuía voz dentro de si. Ela nunca fora alguém que ignorasse os instintos mais primordiais ao ser humano, pelo contrário: sempre fora em busca deles. Nunca ignorara os murmúrios do próprio sangue, como tantos ao seu redor. E se orgulhava profundamente disso. Numa vida em que todos procuram se encaixar em algum lugar e trocam o verdadeiro pelo confortável, ela optara por jamais negar a consciência. Por jamais fechar os olhos. E assim, enquanto sua voz interior não gritasse por um fim, ela não a silenciaria. Mas como doía não calá-la! Como doía sentir seu espírito rastejando, levantandose todas as vezes e se recusando a desistir! Pois tudo o que ela mais gostaria, no final das contas, era que seus instintos mais animais lhe dissessem para desistir. E que a opção — granjeada a poucos — de abrir ou fechar os olhos jamais lhe tivesse sido dada. Mas não era assim. Não; a opção havia sido não somente dada, como aceita também. E ela não conseguia voltar atrás. Pois o mais difícil não é abrir os olhos, e sim tornar a fechá-los. Mas melhor do que fechar seus próprios olhos seria abrir os dele. Mas disso, também, era incapaz. De quantas coisas ela se sentia incapaz... ela não conseguia levá-lo consigo, não conseguia prosseguir, parar ou retornar. Não conseguia sequer se levantar. A mecanicidade das ações se perdera, e ela não conseguira achar nenhuma motivação para substituíla. Sua incapacidade a enraivecia e aterrorizava. Se ela

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não podia mudar nada, então de que servia, afinal, aquela consciência da qual tanto se vangloriava? E ela começava a achar que, talvez, essa consciência não tivesse despertado para nenhum outro fim que não o de fazê-la sofrer. Ela sofria mais do que as outras pessoas, por ter maior consciência das coisas. Era verdade que ela também desfrutava de alegrias e prazeres com os quais os outros sequer sonhavam. Sim, mas a que preço? Por tudo isso, ela pagava com sofrimentos também inimagináveis ao ordinário dos homens. Valia a pena? Não eram pensamentos incomuns a ela. Ao contrário, eram constantes assombrações, das quais não conseguia se livrar. Pelo menos, não sozinha; mas ele, sim, ele conseguia espantar todas as incertezas de sua mente. Sempre. A coragem que ele lhe insuflava não se esgotava na manhã seguinte. Só o fato de ele estar por perto já fazia com que seus medos fossem embora. E era exatamente o fato de saber que não podia mais têlo por perto — não como antes — que os aumentara. Agora, os demônios em sua mente estavam quase fora de controle. E o final, do qual eram fiéis arautos — o final que ela chegara um dia a acreditar que não se cumpriria — se fazia anunciar pela porta da frente. Ela se perguntava onde ele estaria naquele momento. Não que ela realmente quisesse saber a resposta; na verdade, ela a temia, mas a pergunta vinha antes que pudesse impedi-la. Ele a iria procurar? Se ele ligasse e soubesse onde estava, iria se importar? Mas, por trás de todas essas dúvidas, ela sabia que ele não ligaria. Só “mais tarde”. Como sempre. “Mais tarde” seria tarde demais. Ela já teria rastejado pelo dia, e suas feridas já estariam parcialmente curadas — feridas que voltariam a se abrir no dia seguinte, claro. “Mais tarde” 7 ela já estaria provisoriamente bem, e ele não saberia o quanto ela se retorcera de dor antes de iniciar o dia; não saberia o quão perto, mais uma vez, ela estivera de cair e nunca mais se levantar. — Tô indo! — ela gritou novamente, em resposta ao chamado insistente do outro. Não, não era o chamado que queria ouvir; mas talvez ela tivesse sorte de ainda ouvir o chamado de alguém, quem quer que fosse. Se este não podia fazer por ela tanto quanto o outro, bem, não era culpa dele. Suspirou, cansada. Levantou-se e foi para o chuveiro.

Roberta Leopoldino

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Q UA RT O D E D E S P E J O Trechos do diário de

Carolina Maria de Jesus Estes são trechos do diário de Carolina Maria de Jesus, moradora da favela do Canindé, em São Paulo, catadora de lixo e mãe de três filhos. Transcrevemos suas palavras letra por letra, desconsiderando o fato de que ela escreve fora da norma culta e no ano de 1955, antes da Reforma Ortográfica. Todo o diário está publicado no livro Quarto de Despejo, que nomeia a coluna. 15 de julho de 1955

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Aniversário de minha filha Vera Eunice. Eu pretendia comprar um par de sapatos para ela. Mas o custo dos gêneros alimenticios nos impede a realização dos nossos desejos. Atualmente somos escravos do custo de vida. Eu achei um par de sapatos no lixo, lavei e remendei para ela calçar. Eu não tinha um tostão para comprar pão. Então eu lavei 3 litros e troquei com o Arnaldo. Êle ficou com os litros e deu-me pão. Fui receber o dinheiro do papel. Recebi em 65 cruzeiros. Comprei 20 de carne. 1 quilo de toucinho e 1 quilo de açucar e sis cruzeiros de queijo. E o dinheiro acabou-se. Passei o dia indisposta. Percebi que estava resfriada. A noite o peito doia-me. Comecei tussir. Resolvi não sair a noite para catar papel. Procurei meu filho João José. Êle estava na rua Felisberto de Carvalho, perto do mercadinho. O onibus atirou um garoto na calçada e a turba afluiu-se. Êle estava no nucleo. Dei-lhe uns tapas e em cinco minutos êle chegou em casa. Ablui as crianças, aleitei-as e ablui-me e aleitei-me. Esperei até as 11 horas, um certo alguem. Êle não veio. Tomei um melhoral e deitei-me novamente. Quando despertei o astro rei deslizava no espaço. A minha filha Vera Eunice dizia: – Vai buscar água mamãe! 17 de julho de 1955 Domingo. Um dia maravilhoso. O céu azul sem nuvem. O sol está tepido. Deixei o leito as 6,30. Fui buscar agua. Fiz café. Tendo só um pedaço de pão e 3 cruzeiros. Dei um pedaço a cada um, puis feijão no fogo que ganhei ontem do Centro Espirita da Rua Vergueiro 103. Fui lavar minhas roupas.

Quando retornei do rio o feijão estava cosido. Os filhos pediram pão. Dei os 3 cruzeiros ao João José para ir comprar pão. Hoje é a Nair Mathias quem começou impricar com os meus filhos. A Silvia e o espôso já iniciaram o espetaculo ao ar livre. Êle está lhe espancando. E eu estou revoltada com o que as crianças presenciam. Ouvem palavras de baixo calão. Oh! se eu pudesse mudar daqui para um nucleo mais decente. Fui na D. Florela pedir um dente de alho. E fui na D. Analia. E recebi o que esperava: — Não tenho! Fui torcer as minhas roupas. A D. Aparecida perguntou-me: — A senhora está gravida? — Não senhora — respondi gentilmente. E lhe chinguei interiormente. Se estou gravida não é de sua conta. Tenho pavor destas mulheres da favela. Tudo quer saber! A lingua delas é como os pés de galinha. Tudo espalha. Está circulando rumor que eu estou gravida! E eu, não sabia! Saí a noite, e fui catar papel. Quando eu passava perto do campo do São Paulo, varias pessoas saiam do campo. Todas branca, só um preto. E o preto começou insultar-me: — Vai catar papel, minha tia? Olha o buraco, minha tia. Eu estava indisposta. Com vontade de deitar. Mas, prossegui. Encontrei varias pessoas amigas e parava para falar. Quando eu subia a Avenida Tiradentes encontrei umas senhoras. Uma perguntoume: — Sarou as pernas? Depois que operei, fiquei bôa, graças a Deus. E até pude dançar no Carnaval, com minha fantasia de penas. Quem operou-me foi o Dr. José Torres Netto. Bom médico. E falamos de politicos. Quando uma senhora perguntou-me o que acho do Carlos Lacerda, respondi concientemente: — Muito inteligente. Mas não tem iducação. É um politico de cortiço. Que gosta de intriga. Um agitador. Uma senhora disse que foi pena! A bala que pegou o major podia acertar no Carlos Lacerda. — Mas o seu dia... chegará — comentou outra. Varias pessoas afluiram-se. Eu, era o alvo da atenções. Fiquei apreensiva, porque eu estava catando papel, andrajosa (...) Depois, não mais quiz falar com ninguem, porque precisava catar papel. Precisava de dinheiro. Eu não tinha dinheiro em casa para comprar pão. Trabalhei até as 11,30. Quando cheguei em casa era 24 horas. Esquentei a comida, dei para a Vera Eunice, jantei e deite-me. Quando despertei, os raios solares penetrava pelas frestas do barracão.

Canônica Antes eu queria ser uma grande escritora Cujas palavras ficassem na história e mudassem a humanidade Como tantos outros fizeram. Mas achei melhor fazer a diferença aqui e agora... Com amor e sorrisos fora do papel Como tantos outros não fizeram.

Carla Mendes

Monólogo do Espelho

R. Magritte

No frágil universo de vidro, nem sempre a simetria é perfeita. Dois homens, separados pela desvairada superfície do espelho, em lados opostos, mundos opostos, extremos opostos, miram-se vidrados. — Quem é você? — pergunta um, de seu mundo inverso. Quem somos nós? Seremos, enfim, a mesma pessoa? — De forma alguma — afirma o outro, resoluto. Somos radicalmente opostos. Sua esquerda é a minha direita. Enquanto eu sou a vontade, você é o produto. Eu sou a mão; você, a marionete. Do seu mundo, sou Deus; no meu, você é só reflexo. — E o que vê quando me olha? — Em você vejo ambições sem limites; sonhos despudorados, livres, esvoaçantes. Mas espera... Não eram meus esses sonhos? — Se são seus, são meus os seus sonhos. — São sonhos? — São sãos? Vãos? — Em vão, me pergunto quem sou diante do espelho. E, agora, já não sei quem sou. Imagem sem corpo? Corpo sem imagem? — Como pode alguém saber quem é se dedica a vida a ser ninguém, sendo todo e qualquer um ao mesmo tempo? Quantas máscaras vestirão o artista ao longo da vida de tantos espelhos? — Sou máscara sem rosto. Mas e o rosto por trás da máscara? — É o meu rosto. — É verdade. Agora me lembro. Esse seu rosto, tão familiar, costumava ser também o meu rosto. E, no entanto, eram só um.

Yuri Amorim

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Desafio poético Na última edição, os leitores do plástico bolha foram desafiados a fazer um poema que contivesse as seis seguintes palavras: s í l a b a s , h o r t e l ã , b r e v e s , ú n i c o , o l h a v a e a t r a v e s s o u . Ve j a m o s , a s e g u i r, o s p o e m a s q u e r e c e b e m o s . Para a próxima edição, o desafio será formal: escrever um soneto italiano. Todos estão convidados a mandar seus quatorze versinhos rimados sobre qualquer tema para o e-mail do jornal: jornalplasticobolha@gmail.com.

Joana Joana querida olhava a rua: arfante, de boca aberta cuspia sílabas e espalhava gente. Joana morena: seu cheiro de hortelã invadiu a cidade e ninguém percebeu.

Fugaz

Aprendendo a ler

Quando o lapso de mascar hortelã atravessou minha mente, as breves sílabas por um triz proferidas, condensadas em um único gaguejo, por apenas um átimo me foram desencorajadas pelo homem que quase me olhava, mascando tutifruti. Meus preferidos.

Atravessou a retina que olhava e comia a palavra e foi dar na língua que degustava e repetia as breves sílabas. E verde, inconfundível, único, o verbo se fez gosto: HORTELÃ.

Lúcia Cordeiro

Joana apressada: breves pessoas cruzaram seu vestido manchado de vinho barato — Único. Atravessou e correu pra casa: — Trouxe o verde do arroz doce!

Letícia Simões

As felizes tristes recordações O cheiro de hortelã enjoativo... Olhava vitrines a toda hora, Saíam-lhe da boca, sem demora, Sílabas infinitas sem motivo... Um olhar único, radioativo... Ela amava as coisas todas por fora, Além das fúteis manias que adora. Com vastidões de lembranças convivo... De imensos pensamentos me desfiz... [A tolerância consumiu a mente, Depois que o amor atravessou o peito.] Breves momentos em que fui feliz... [Confesso-me assustado, de repente, Pois dela só amo cada defeito.]

Gustavo Paes

Único era o seu nome. Como Único reinava e Como Único olhava as breves brumas do mar verde-hortelã do condado de Sheffield. Foi quando Outro atravessou seu reino e o destronou Apagando suas três únicas sílabas.

Catharina Wrede

Só a lua alva olhava dissimulada o encontro furtivo dos amantes suspensos numa bolha, isolada. De dois que eram se fundiram num único quando o pássaro trêmulo da língua voou, atravessou o gradil de marfim, e, por breves momentos, a palavra foi sufocada, nas primeiras sílabas, na gaiola de hortelã impregnada.

Sueli Rios enquanto olhava nos olhos do meu único amor, a culpa me atravessou a garganta — e em sílabas breves contei mentiras com gosto de hortelã.

Isabel Wilker

Henrique F. Carvalho

O Dono da Banca Toma-te hortelã. Tomate e hortelã! Tomate e hortelã! 9 Sejam breves, Sejam rústicos. Sem filosofias vãs. Tomate e hortelã! Tomate e hortelã! Restaurante árabe, italiano, não perca um único freguês. Lá vai o francês. Enquanto Tião só olhava a moça bonita que não paga, Troisgros atravessou o CEASA, e comprou com a Marinalva. Sejam breves, sejam rústicos. Repitam sempre todas as manhãs. Entre sílabas e salada: toma-te hortelã! Tomate e hortelã.

Lívia Helayel

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Primeiro de Abril

ORÁCULO

Aedos e Rapsodos — O oral e o escrito

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A experiência que temos com a literatura ocorre individualmente. Lemos um romance, um conto ou um poema e a experiência é dirigida principalmente ao sentido da visão. Desde crianças nos acostumamos a ler silenciosamente com os olhos. O próprio vocábulo literatura, do latim litteratura, -ae escritura, alfabeto < littera, -ae, letra, assinala essa questão. A experiência grega, no entanto, difere radicalmente, da nossa. Originalmente, as criações gregas acompanhadas de música relacionam-se a manifestações culturais vivas e potentes em que se verifica a presença do divino, quer as Musas, nos cantos épicos, quer Dioniso e Eros, entre outros deuses, nas canções de banquete (sympósion); ou apenas Dioniso, no teatro. Tal circunstância as torna singulares a cada performance. Mesmo na própria Grécia, depois de terem se constituído como gêneros literários, isto é, épico, lírico e dramático, as obras mantiveram sua natureza musical. Se tomarmos como exemplo a Ilíada e a Odisséia, no século VIII a.C., veremos que os dois poemas foram compostos originalmente para serem cantados, por uma sociedade ágrafa; portanto, essas canções desconheciam uma redação definitiva. Os cantores, aedos, considerados mestres da verdade, segundo Marcel Detienne, eram inspirados pelas Musas e recriavam as canções a cada nova audição, acompanhados de um instrumento de corda. Na Odisséia, principalmente, há várias passagens em que se faz referência à habilidade do aedo. No domínio de Odisseu, Fêmio; na corte dos feácios, Demódoco. O espaço de recepção desses cantos eram os próprios banquetes (daîtes) no mégaron desses palácios. Estamos, portanto, diante de uma experiência viva e coletiva dirigida à audição. Já em seu diálogo Íon, Platão alude ao rapsodo Íon, membro de uma confraria de rapsodos especialistas em Homero. Ao contrário dos aedos, os rapsodos, agora com um bastão na mão, não mais cantam, mas recitam, o que já pressupõe um texto escrito e cristalizado, além de explicarem os versos de Homero. Os dois poemas, a Ilíada e a Odisséia, tais quais nos foram transmitidos, não são senão uma transcrição de um canto possível para uma escrita alfabética feita por ordem do tirano Psístrato. Qualquer leitor, hoje, pode perceber que ali subsiste uma concepção híbrida, tanto oral quanto escrita. A oralidade participava não só da literatura em sua origem, mas também da filosofia. Havia um ensino filosófico esotérico e acroamático (akroamatikós), destinado aos iniciados, tanto no Pitagorismo, como na Academia de Platão e no Liceu de Aristóteles. Antonio Mattoso

Professor de Letras Clássicas da PUC-Rio

Empalideceu, assim de repente, a memória daquele dia bonito em fevereiro. Sabiam que não foi a longa espera; tampouco a falta de laços unindo suas vidas nas coisas pequenas como são as do dia-a-dia. Romântica, ela nunca percebeu o que o atraía, a simples impossibilidade da concretização. Infantil, ele não viu que a moça não atinara para pecado: só queria dar resposta ao bilhete que surgiu como se dentro da garrafa que acompanhava boiando há séculos. Só faltava era saber se vinha do grande mar de Yemanjá ou se do seu próprio, maior ainda em divagações. Vislumbrando horizonte de sonho, responder à mensagem náufraga do desconhecido sedutor tornou-se obsessão. A menina pôs-se a lutar a luta que o malandro mais evita, a mesma da qual nenhum sábio pode escapar. Não falo daquela famosa luta vã que travamos com as palavras; é à luta com suas parentas, as idéias, a que me refiro. Balanças de pesar valores estão difíceis de encontrar, viraram raridade. Ela procurou, procurou. Tentando pegar a tal balança emprestada, revirou todos os armários, dos armazéns e dos mercados de sua mente. Só que demorou muito na busca. — Tarde demais, menina! Ele agora já não quer saber... Ela insiste. — Será que ainda não viu? Vê. A volta à tranqüilidade é rápida, e esta é (não se engane!) uma das grandes vantagens de ser só menina. Só nova, só fresca. Dezenove anos. O que ficou é uma parte da fotografia rasgada, menor que a metade. E o tonto que olha perde seu tempo pensando “o que mais teria aqui? Um beijo? Horizonte?” A resposta é: nada. O amor deles não passou daquele presente, morto antes mesmo do começo. Morto pelo destino, pela coincidência, atropelado pelo ônibus que passa em Copacabana. É só papel rasgado. Mas é bom de lembrar.

Laila Melchior

Acalente-me a alma Perdida de seus braços. Use-me com flor; Vida descartável. Despetale-me a roupa Bem me queira. Mia Vieira


Entrevista por Andrea Carvalho Stark

Longe das gavetas

Onde nasce um escritor hoje? Necessariamente na internet? Conversamos sobre esse assunto com o escritor gaúcho Fabrício Carpinejar, que começou publicando livros “de papel” antes de ir para a rede, onde hoje mantém dois blogs. Aos 35 anos, Fabrício já publicou livros de poesia, crônicas, infantis e foi contemplado com importantes prêmios literários. Seus livros já foram traduzidos e publicados na Alemanha, na Itália e na França.

Comecei em 2003, e nunca parei. Nem férias. Aliás, quando tiro férias é para escrever ainda mais (risos). Já tinha quatro livros publicados (As Solas do Sol, Um terno de pássaros ao sul, Terceira Sede e Biografia de uma árvore). Ou seja, não me formei na rede, entrei já estabelecido. Mas ela me abriu, percebi o quanto é custoso ser simples e comunicativo. Passei a compor crônicas e me iniciei no gênero. Um dos riscos da poesia na rede é que ela se esgota fácil. Não teria tanta poesia para liberar mensalmente, imagina semanalmente?! É um ritmo mais lento, algo como enxergar o mundo de noite a partir de um relâmpago. O que fiz? Liberei meu diário poético, a crônica é a anotação bruta da poesia. Flagrantes líricos do cotidiano. Escapadelas da imaginação dentro da rotina. Fortaleci-me no exercício do contra-senso, na briga pelo lado mais fraco do visível. Sou do contra porque não enxergamos o óbvio. Imitamos os outros e sequer cogitamos nossas escolhas. Vivemos mais com o céu na cabeça do que a cabeça no céu, como diria Cherteston. Quero perturbar a ordem estabelecida, por uma harmonia mais emocional e secreta. Quero a poesia enquanto ela é escrita no corpo. Aliás, quero o corpo mais do que a poesia. O que você publicou em livro “de papel” saiu direto dos trabalhos publicados na internet? O único livro que saiu da rede foi O Amor Esquece de Começar, de crônicas, que está na segunda edição e foi publicado em 2006. Há muita diferença entre escrever no blog e publicar — porque exige corte e edição e toda uma seqüência que faz e conceitua o livro. Não é transcrever, é criar uma unidade e um elo temático. No caso, tomei a perspectiva feminina para filtrar as relações amorosas (O que uma mulher quer, quando ela goza, a solidão de mãe, gíria masculina, a vocação perdulária no início do namoro e a avareza do final, a corrupção do amor, a previsibilidade gostosa do casamento, entre outros tópicos). Já uma das virtudes do espaço digital é a possibilidade de intercambiar a pintura com meus textos. Uso pintores de minha afeição não como mera ilustração, até como um contraponto ao que digo. A internet para você é um suporte de divulgação ou é um meio que propicia a criação de uma nova linguagem e experimentações? Meu suporte é minha linguagem. Na hora de escrever crônicas, paro sem querer em 2.300 caracteres. É aonde a minha respiração vai. Mais do que isso não preciso. Escrevo mordendo o ar. No fundo, escrevo cartas devolvidas ao remetente. Você acompanha a produção literária na internet? Acompanho. Não há escritor que não espiche a vizinhança e não viva da curiosidade. Basta deixar um link em meu blog, que vou lá furungar. Percebe o surgimento de uma nova linguagem entre os gêneros literários — poesia, conto, romance — surgindo nesses trabalhos que são publicados na rede?

Arquivo pessoal

Como é a sua experiência escrevendo na internet? Como você começou?

Na internet, há um novo caminho de relação entre autorleitor, um caminho mais independente, sem intermediários. Você acredita que isso pode levar a uma popularização maior da poesia, por exemplo? Ou o leitor de poesia da internet é o mesmo que compra um livro na livraria? Sem dúvida, avalio a poesia como a arte mais adequada para a internet. A mais enfática. A mais perigosa. A internet vicia como o jornal. Mas refinamos nossas obsessões. Começamos lendo 20 blogs e terminamos lendo dois por dia. Igual ao jornal: raros são os que acompanham todas as editorias. Confesso: eu fico entre Esporte, Política e Cultura. A poesia está perdendo seus estigmas com o público, pois os poetas estão conversando diretamente com seus leitores. Eles tornam-se leitores de seus leitores. Aquela conversa depressiva de que poesia não vende, de que não há interesse, termina soterrada pela eletricidade dos comentários. Adeus desculpas! O leitor que gosta de um autor vai procurá-lo em tudo o que é canto, inclusive no livro.

Acredito que ainda usamos a internet como âncora do papel. Ela poderia criar uma maior mobilidade cinética, cênica e intertextual. A internet, ironicamente, valorizou o livro. Os escritores escrevem na internet como uma modalidade literária, assim como no nado há 100m, 200m, 400m. Destaco o crescimento da crônica — e sua valoração como gênero, assumindo uma importância mais do que circunstancial e assegurando uma sobrevida além dos jornais. Veja O Carapuceiro, de Xico Sá, por exemplo. O nonsense, o lírico e a ironia em textos curtos e intensos. http://carapuceiro.zip.net/ À medida que surgem novos escritores em um novo meio de divulgação e escrita, surge também uma nova linguagem, especialmente na poesia e no conto? A poesia e o conto ainda são de poucos amigos na rede. Teriam que fazer amizade com o cinema, com o teatro e com as artes plásticas para provocar uma maior dinâmica virtual. Meu medo é que é difícil equilibrar uma amizade entre áreas sem que exista submissão de uma delas. A literatura da tela virtual é a mesma do papel concreto? É interessante que jornais como O Globo, em seu caderno “Prosa e Verso”, passaram a resenhar corajosamente blogs e sites literários como se fossem livros. E muitos autores avaliados com qualidade e inéditos no papel terminaram, em seguida, publicando livros. Os escritores ainda desejam o livro? A internet é sala de espera para isso? Perfeito. O livro é como a formalização. Ainda queremos transar para casar. Não transar para transar. São raros os autores que mantém um blog durante três ou mais anos que não tenham interesse editorial. A resistência na internet é literatura, porque significa que há um projeto e uma visão de mundo por detrás daquele endereço. Uma ambição de visibilidade.

Há certo preconceito hoje para a literatura que sai da rede? Você acha que a divulgação em blogs, sites vulgariza o trabalho? Se o trabalho é vulgar, vulgariza. Se o trabalho é elegante e inventivo, enriquece. É tudo questão de tempo. Até o ano passado, havia um ranço com escritores que deixavam a rede para os livros como se fossem sinônimos de catarse e 11 de marketing. Isso está mudando. A literatura sempre teve um papel aristocrático, do papel, da caneta e do isolamento. É óbvio que existem medrosos que não aceitam colocar sua reputação em jogo para ler gente nova. Jogam nos mesmos números na biblioteca e na mega-sena. A internet popularizou a escrita e não é empobrecimento — não há mais como fazer uma época sem conversar com seus contemporâneos. Você acredita em uma renovação da literatura do século XXI a partir, exclusivamente, do que escritores inauguram na internet? Sim, eles estão mais rigorosos, perderam a ansiedade e a pressa de publicar, conhecem melhor seu trabalho porque saíram da gaveta e enfrentaram a exposição pública. Testaram estilos e formas. Não farão vanguarda por pose, mas por crença. Não soltarão nada no papel sem a contrapartida do treino. Os escritores da rede vivem treinando, vão jogar melhor nas partidas de campeonato. Onde achamos você? http://fabriciocarpinejar.blogger.com.br, blog criado desde 2003, com 370 mil visitantes. Atualização três vezes por semana. www.carpinejar.com.br, site pessoal com fortuna crítica, dados pessoais, livros e poemas selecionados.

Andrea Carvalho Stark é formada em Letras, com mestrado em Teatro. É colunista da revista americana Scene4 International Magazine of arts & media (www.scene4.com) e viajante em seu blog A Grinalda (http://agrinalda.blogspot.com).


Amargor Como o lavrador espera O rico fruto do solo Conformado, paciente, Assim eu não sou, me angustio. Como o pescador aguarda, Silente, o peixe morder, Respeitoso, resignado, Assim eu não sou, me atormento. Como a terra, confiante, Recebe as últimas chuvas, Penhorada, reverente Assim eu não sou, me incomodo.

12

Como a noite, destemida Se guarda para o amanhã, Reluzente, luminosa Assim eu não sou, me amarguro. De que riem? Não é chiste. Se as noites são alegres, As manhãs são tristes.

Um Profeta Maquinaria, aço, solidão a fio. Assovio! Vi o vate! Em volúpia, volúvel e vazio, vislumbrava ouro cáustico na próxima aurora. A têmpora enrubesce em poluções astrais, 364 mortes do astro rei fatais, me apraz que a prata firme e simétrica acenda e pluralize o breu. Mauro Rebello

Daqui Daqui, ainda se ouve o farfalhar daqueles que já se foram e dos que ainda virão — escuta, poeta, vê que é sempre o mesmo? E se a loucura o tomar, verá que o mar é o mesmo e o realejo insiste em chamar... Temerário, abre a boca para fechar os ouvidos. Astucioso!, conta histórias para não dormir, sabe há muito que o sono é o irmão da morte. Se quer ficar, profeta, procure o fio que sustenta o ruído. Flora Bonfanti

Marilena Moraes

Viagem ao quase nada Bola perfeitamente redonda na imensidão do mundo negro. Flutuo em direção à esfera. Pequenos feixes de luz surgem, suas intensidades aumentam. Sinto frio! Ouço o silêncio. Imagens distorcidas à procura de um foco. Verde, vermelho, azul... Escolho um ponto, vou até ele. Águas... Pontes... Tetos... Pequenas bolas se movimentam, causando riscos no meu mapa quase redondo. Aumento a velocidade, congelo o tempo e as bolas. Mudo o meu quadro. Paisagens... Ah! Paisagens! Curvas divinas atravessam as minhas pupilas. Guardo ou não guardo? Seria uma traição não guardá-lo! — Mas não capto — Branco! Será uma ausência de cor ou uma cor? Branco, cor de todas as cores, lugar cheio de excessos, como este papel que contém todas as cores e o preto. Preto, ausência de cor, como minhas palavras e o negro. — Tenho medo — Volto para imensidão do mundo perfeitamente negro. Márcia Brito

Jornal Plástico Bolha #20  

Jornal literário independente aberto à publicação de poesia e prosa de autores contemporâneos.

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