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plástico bolha aparentemente insólito...

Ano 2 - Número 15 - Agosto/2007

Distribuição Gratuita

“Nossa, o quinze!”, diria Rachel de Queiroz se estivesse no seu lugar agora, com o Plástico Bolha de agosto nas mãos. Porém, por essas bandas, não há indício algum de seca; muito pelo contrário, o clima é de fartura. Pensamentos que escorrem feito as cataratas do Iguaçu, levantando muito vapor e, principalmente, ressoando, ressoando, ressoando... Iracema, em MulheresDamas; Karl Erik Schollhammer na entrevista; Eucanaã Ferraz em Aos Alunos com Carinho; Gregório Duvivier fechando as Subjetivas Urbanas; Blogs dos colaboradores no Clique Aqui. Bruno Tolentino, representado por Stella Caymmi na coluna Puzzles; Poema traduzido de Ricardo Sternberg; Manifesto Sampler; poemas, contos e fragmentos. Se você é um novo leitor, bem-vindo! Está esperando o que para nos enviar o seu trabalho? Banhe-se também nesse grande rio de idéias, cuja correnteza repuxa, purifica e, principalmente, segue adiante.

Útil e Agradável

Pedaços Nem sempre se sonha com a neve. Quando se sonha, nunca se sabe com o que – e se – se vai sonhar. Às vezes, à noite, sinto que ouço o barulho de suspiros e, ao comer suspiros, sinto o barulho de suspiros dentro da boca, dentro da mente, um suspiro do lado de dentro do ouvido. Mas nunca como suspiros. Quase sempre suspiro. Ah...(suspiro). Sabe, nem sempre se sobrevive à vida. Nunca sobrevivemos à morte. Sei que a chuva sempre chega primeiro – sempre primeiro como uma promessa. E quase sempre sobrevivemos à chuva. Nem sempre é possível se esquecer do silêncio. Se algum dia desejar esquecer alguma coisa, quero esquecer o barulho e não o silêncio, não o silêncio, quero sempre o silêncio. Quero sempre sentir o vermelho, o vermelho guarda-chuva vermelho. Água na pele é bom, mas só é bom quando é na pele e não na roupa. Sono sem sonho é como a morte - então acordar sem sonhos é como sobreviver à morte. Mas não é. Não é.

lÉo torres mÁrcia brito

Ricardo Sternberg

Tradução do poema na página 3

Isabel Wilker

angelo abu

joÃo francisco c. ribeiro

gregÓrio duvivier

He is thinking of Madame Bovary Unlacing her boots as the carriage Wanders over the countryside And she, in the curtains-drawn dark, Moves away from her marriage Into the arms of her lover, Leon, And then he is thinking of Noah How those pairs entered the ark Still fragrant with the resin Of freshly hewn wood And next how they, a newly minted pair, Entered the lift, composed, Then stopped the car between floors And as Sly of the Family Stone Sang he would take them higher, Had a good go at it, oblivious First to the buzzer that rang and rang, Then the pounding on several floors And finally, threats to call the police, Which, in the end, proved unnecessary For, miraculously, the Otis began its descent And they stepped out on the lobby’s Red carpet, bowed deeply to the concierge, Then walked out hand in hand and When a sea lion barked and brought him out Of this reverie all he could think was But what torture it is now to remember His nimble fingers, her firm flesh.

Heinz Langer

NESTA EDIÇÃO karl erik schollhammer naaman

Carmel Reverie

alice sant’anna

stella caymmi

mauro gaspar

paulo gravina maria de lourdes

catharina wrede heinz langer

marilena moraes

ricardo sternberg

alexandra wiltshire

pÉricles f. drÉlos

alluana ribeiro

isabel wilker chloe paisley

ana chiara

eucanaà ferraz

wellington brandÃo

fred coelho

lÚcia cordeiro


Aos alunos com carinho

Cachecol

PRINCÍPIOS DE CRÍTICA E TEORIA LITERÁRIA

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Professor, o poeta. Não, o sujeito poético. Professor, o eu lírico. Não, o poeta. O senhor sabe? Quem sabe? Como é que eu fico sabendo? Ninguém sabe? O poema quer dizer que. Não, entendi, o poema já disse. O poema é isto ou aquilo? O poema é isto e aquilo? Isto vai cair na prova? E aquilo? Eu acho que viajei. Não? Eu acho que. Está bem, eu viajei. Como é que o senhor vê tudo isto só neste verso? E pode ver ainda mais? Quando o senhor diz, quando explica, eu vejo. E esta imagem? Isto tem a ver com o romantismo? Isto vai cair na prova? Isto e aquilo, está bem, vou ler. O poeta não quer mudar nada, entendi. E quer mudar tudo. Não entendi. E a inspiração? Porque sim? Como assim? Quem é O Outro? O senhor é O Outro? Eu sou O Outro? Entendi. É para não entender? Entendi. Entendi que não é para entender. Isto vai cair na prova? O ritmo não é medida? O ritmo é a vida? Vida inventada? E a vida vivida? Entendi, isto é autobiográfico. É e não é? Mas como eu vou saber que um poema que não quer ser um poema é um poema? Do que é que os poemas falam? Eles não falam de nada? Entendi. Isto vai cair na prova, pode deixar, vou ler. Vou, sim. Vou ver na bibliografia. O senhor podia dar um exemplo? Não, eu não estava conversando, eu estava falando sobre isto. Não. Não. O poema cria imagens, entendi. O senhor estava falando do gênero lírico. O poema faz do leitor uma imagem? Não entendi. Quando o senhor fala, eu entendo. Quando o senhor mostra, eu vejo. Qual vai ser a matéria da prova? A poesia cria outro mundo? É intuição ou experiência? É loucura ou conhecimento? A poesia pode ser filosofia? A filosofia pode ser poesia? É meio complicado. Uma coisa poética é um poema? É confissão? É monólogo? Entendi, o poema não é sagrado. É sagrado? O senhor pode repetir? Não é confissão. Pode ser? Como é que eu vou saber? O senhor sabe? Claro, o senhor sabe. Entendi, o senhor também não sabe. Sabe que não sabe. Isto é saber, não é? Isto é aquilo! Eu não disse que tinha entendido? Drummond. Não, não li. Vou ler. Qual o nome? Eu não consigo viajar no poema como o senhor. Entendi, não é viagem, é interpretação. Eu não consigo interpretar que nem o senhor. Entendi, não é para entender. Não, eu quis dizer que. Eu achei que. E os gregos? Onde fica o “reino das palavras”? O senhor sabe? Entendi, não é para entender completamente, só um pouco. Eu quis dizer que entendi completamente que não se pode entender completamente o poema. Então, por que o nome é ciência da literatura? Li, eu adoro. A crítica não gosta? Por quê? Eu gosto. Não, não li. Deve ser, a crítica gosta. Quem é a crítica? O senhor é a crítica? Entendi. Está na pasta? Imagem, entendi. Metáfora, entendi. Símbolo, entendi. Mito, entendi. Wirgínia Wolf? Conheço. Ah, Wölfflin! Não, não conheço. Dabliu, ó, trema, dois efes. Acho que já ouvi falar. O senhor leu todos esses livros? Entendi. Puxa vida. Está na xerox? O senhor pode repetir? O som e o metro devem ser estudados como elementos da totalidade do poema, e não isolados do sujeito. Ah, desculpe, e não isolados de sentido. Pois é, fica outra coisa, completamente diferente. Terça-feira é feriado? Entendi tudo. Tudinho. Só uma coisa: o que é, afinal, o poema? Entendi, o senhor também não sabe.

Eucanaã Ferraz

Poeta e professor de Literatura Brasileira da UFRJ

A Última do Dia

Mexe, remexe, não entendo tanto prazer no arremate, no desabrocho do cachecol de lã de ponto frouxo, tão charmoso, roxo, feather and fan. Arrasta-se em dobras pelo chão, nos chinelos, na cesta de crochê. Focale de textura aconchegante, beligerância doce, elegante. E eu, criança, também coleante, mergulho em seu colo, e me enovelo, quero saber a paixão artesã. Tramas laçadas bebendo chocolate à chuva, às tardes, fazendo parte da arte atemporal de saborear prazer.

Ele vai subindo a ladeira Cheio de vermelho nos olhos E verde nos bolsos E amarelo no sangue E branco nas fossas E azul no céu Antes cinza; Vai subindo e olhando as casas Que vão subindo em direção à lua E as pessoas, as de sempre, Conversando nas calçadas, Contando umas às outras a última do dia. Naaman

Lúcia Cordeiro

Subjetivas por Gregório Duvivier

Urbanas III abrir o olho de cada prédio: ouvir o grito das poças e o choro dos postes. dar a ver a cada carro sua consciência de carro, adormecida. viver um pouco como viveria um meio-fio, um caco de vidro, uma placa de trânsito e ser um pouco como eles, nem que seja por uma fração de segundo. deixá-los habitar sua alma e passar a ser um pouco sinal vermelho, um pouco pedestre, um pouco fusca que perde o freio e se espatifa em um muro qualquer.

plástico bolha produzido pelos alunos de Letras da PUC-Rio

Editor Lucas Viriato Editora Assistente Marilena Moraes Conselho Editorial Luiz Coelho; Gregório Duvivier; Isabel Diegues

Comissão Julia Barbosa; Isabel Wilker; Paulo Gravina; Alluana Ribeiro; Mauro Rebello; André Sigaud; Flora Bonfanti Projeto Gráfico Lucas Viriato

Tiragem: 8.000 Impresso na CUT Graf Distribuído no Rio de Janeiro e Belo Horizonte

Coordenação Paulo Gravina Revisão Rubiane Valério; Rafael Anselmé; Gabriel Mattos Apoiadores Marilena Moraes; Isabel Diegues; Luiz Coelho

Equipe Márcia Brito; Marcelo Tapajós; Rebecca Liechocki; Camila Justino; Marcela Rosa; Esthér Oliver; Henrique Meirelles; Andrew McAlister, Beatriz Pedras

Envie seus textos para: jornalplasticobolha@gmail.com


As cartas ou Do homem que foi engolido por uma mulher com dentes de liquidificador Meu melhor amigo do último quarto de hora acha espirituoso brincar de soldadinho com filósofos franceses — Imagine só: Deleuze contra Foucault, quem você acha que ganha? Assentamo-nos — um valete de copas, uma dama de espadas e um rei de ouros — nos vértices de um triângulo imaginário. Somos simpáticos. Trata-se de um senhor valete encantador. Dentro de um simples colóquio de três pessoas, consegue surrupiar, através da fixação do olhar acima de nossas cabeças, a intimidade e a aprovação de uma legião inexistente de seguidores. Orador de alcova, saberia fazer, creio eu, as confissões mais doces e íntimas com um megafone. Mas está constipado. Trata-se de um senhor valete que sabe fungar. Ela, dama por sua vez, mastiga cigarros num embevecimento que me comove. Meu melhor amigo do último quarto de hora gosta de seus escritores beatnik bem passados — O Henry Miller bailava no jardim de infância perto da vida que o Kerouac levava — ricto compenetrado — quero ser como o Kerouac quando eu crescer. Discorremos sobre signos, a nova geografia dos países da antiga Iugoslávia, ele gosta de culinária, os trágicos rumos do teatro, primos sifilíticos, ela também, acampamentos inundados em Bangladesh, deve ter o paladar muito apurado, as corruptelas do magiar, cortes de barba para ditadores, artrites, acha que tem apenas uma boca sensível, fertilizadores japoneses, o amor segundo as revistas, não duvida. Meu melhor amigo do último quarto de hora não fala de Balzac depois das seis da tarde – C’est fort, c’est excessivement fort. Temos pernas parecidas, ela e eu. Ambos cruzamos para a direita e só depois passamos para a esquerda. Direita e esquerda, esquerda e direita: e caímos na questão da tradução para o italiano. Ela afirma ter certeza de que é per favore. Ele discorda veementemente. Sibila que por favor é sempre prego. A legião invisível estremece, buliçosa: em casos mais formais se diz per cortesia, peeer cor-te-sii-aaaa. Ela recolhe, aos poucos, aos bicos: peeer cor-te-sii-aaa. Peeer cor-te-sii-aaa. Peeer cor-te-sii-aaa. Entendo que tenha gostado deste pequeno capricho. Ela se vira e esconde a boca atrás do espaldar de cadeira. Após um breve olhar de soslaio do senhor para mim, ela tem súbito interesse em me estudar fixamente. Um ‘já disseram que a senhora tem uns olhos de comer capim?’ me percorre a espinha, inconstante. Sinto nos nervos de trás uns floreios estranhos. Meu melhor amigo do último quarto de hora soletra o-t-á-r-i-o nas minhas costas com a ponta dos bigodes. Uma mandíbula descomunal se ergue detrás da cadeira, a boca de quarteirões de largura, que cresce, que cresce, me engalfinho à perna de uma mesa, o traço reto do batom nos lábios se difunde em rachaduras homéricas, que aumentam, que aumentam, vales nos cantos da boca dessa mulher, quero xingar todos em russo, mas não sei como, como se deleitam!, ela tem dentes de liquidificador, a goela agora é um mundo todo, não vejo mais nada, ela quer me comer, oh Deus, ela vai me comer, ela me comeu. Meu melhor amigo do último quarto de hora, do fundo do mundo, sussurra ao pé do meu ouvido que devo procurar um analista.

Ricardo Sternberg No primeiro semestre deste ano, o poeta Ricardo Sternberg (carioca que se mudou para os Estados Unidos com a família aos quinze anos) fez uma visita à PUC-Rio, apresentando uma pequena palestra para os alunos da Oficina de Poesia do professor Paulo Henriques Britto. Bacharel em literatura inglesa pela University of California, Riverside, fez mestrado e doutorado em literatura comparada na UCLA. Seus poemas já foram publicados em revistas como The Paris Review, The Nation, Poetry (Chicago), Descant, American Poetry Review, The Virginia Quarterly e Ploughshares. Publicou The invention of honey (1990, reeditado em 1996), Map of dreams (1996) e Bamboo church (2003, reeditado em 2006). Ricardo Sternberg vive no Canadá desde 1979, onde dá aulas de literatura portuguesa e brasileira na Universidade de Toronto. Escreve quase exclusivamente em inglês, mas não nega a influência de Bandeira, Drummond e Cabral. Sternberg enviou ao Plástico Bolha alguns poemas, que traduzimos com a supervisão do professor Paulo Henriques Britto. Abaixo, o primeiro deles.

Sonhando em Carmel tradução de Marilena Moraes Ele pensa em Madame Bovary Ao tirar-lhe as botas enquanto a carruagem percorre os campos e ela, no escurinho das cortinas, sai do casamento direto para os braços do amante, Leon, e ele então pensa então em Noé, nos casais entrando na arca, que ainda cheirava a madeira recém-cortada e depois relembra que eles, um casal recém-formado, entraram no elevador, dignos, então pararam entre dois andares e foram às nuvens, como cantava Sly & The Family Stone, e foram fundo ali mesmo, indiferentes, primeiro à campainha que não parava de tocar e depois às batidas violentas em vários andares e, finalmente, às ameaças de chamar a polícia, o que se revelou desnecessário, pois, por milagre, o Otis começou a descer e eles saíram pelo tapete vermelho da portaria, de mãos dadas, e cumprimentaram solenemente o porteiro, e quando um leão-marinho gritou e o acordou do sonho, ele só conseguia pensar, torturado, como eram ágeis seus dedos, e rija a carne dela.

João Francisco Costa Ribeiro

PSICOLOGIA Rosana de Oliveira Guia

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Um dia qualquer FIMDOMUNDO FIMDOMUNDO FIMDOMUNDO FIMDOMUNDO I FIMDOMUNDO FIMDOMUNDO DO FIMDOMUNDO I FIMDOMUNDO FIMDOMUNDO FIMDOMUNDO FIMDOMUNDO FIMDOMUNDO FIMDOMUNDO FIMDOMUNDO FIMDOMUNDO FIMDOMUNDO UNDO

Chloe Paisley

O Duo Doloroso V

Difícil o vazio. Mais difícil entre as quatro paredes do intelecto. Ali, entre os sentidos, sob o teto e o solo onde começa o precipício, o vôo, impertinente, tinha início a todo instante e nunca era direto, era oblíquo: ora o gozo era suplício, ora o suplício mesmo era dileto... O abismo era metódico, seu método audaz, mas um se foi e outro esvaiu-se como mais um suspiro sem remédio. Já o vazio, o mais límpido exercício, era um puro palácio aritmético... Mas e a vida? Ah, a vida era esse vício! Bruno Tolentino (1940-2007). Do livro As Horas de Katharina (Rio de Janeiro: Cia. das Letras,1994. p. 154)

mulheres-damas por Ana Chiara

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Iracema Não quero sugar todo o seu leite Nem quero você enfeite do meu ser Caetano Veloso

Iracema não me enganas cadela nas minhas tetas abanas o rabo para o português na paisagem selvagem das letras e toda beleza fútil de um amor inventado tramas dramas marco histórico dorzinha da mulher à-toa.

Puzzles Bruno Tolentino

No dia 27 de junho passado, o Brasil perdeu um dos seus maiores poetas e eu perdi um grande amigo. Conheci o poeta Bruno Tolentino em 1994, na noite em que lançou As Horas de Katharina, pela Companhia das Letras, no Museu da República lotado, no Rio de Janeiro. Não pude ir ao lançamento, mas amigos comuns me levaram ao restaurante Gambino, no Largo do Machado, para conhecê-lo. Havia uma mesa comprida e um homem fascinante, elétrico e vivo falava cinco línguas ao mesmo tempo para um grupo de amigos de diversas procedências, que foram comemorar com ele. Uma verdadeira pirotecnia. Já no final da noite começamos a conversar e, não sei como, me vi contando ao poeta, profundamente atento, uma experiência de Deus muito particular acontecida na infância, em que nem eu mesma costumava pensar mais. Nascia ali uma grande amizade. Dias antes, eu havia acompanhado pelos jornais a ampla repercussão em torno do lançamento e da volta de Tolentino ao Brasil em 1993, após trinta anos de ausência, aclamado por críticos e intelectuais. Arnaldo Jabor era um dos que comemoravam o retorno do poeta “para publicar obra de rara importância e encerrar uma noite que durava trinta anos”. Mas a lua-de-mel seria curta. Polêmico, crítico e sem disposição para cortejar quem quer que fosse, falava o que pensava e desagradou a muitos – sobretudo com a cortante crítica que fazia ao concretismo. Em 1964, com o regime militar, o poeta refugiara-se na Europa. Já tinha publicado, em 1963, Anulação e Outros Reparos, seu primeiro livro – reeditado pela Topbooks em 1998 – que havia lhe rendido o prêmio Revelação de Autor em 1960, com apenas vinte anos. Roma foi seu primeiro destino, onde se encontrou com o amigo Giuzeppe Ungaretti, poeta italiano, de quem foi hóspede. No longo período de exílio, paralelamente à sua produção poética, trabalhou como tradutor e intérprete da Comunidade Econômica Européia, além de atuar como professor nas universidades de Bristol, Essex e Oxford, onde em 1973 sucedeu o poeta W. H. Auden, de quem era amigo, na direção da Oxford Poetry Now, a revista de poesia daquela Universidade. (Há quem duvide do fato – Bruno tinha a divertida mania de ficcionalizar sua vida e vai dar um trabalhão para quem se atrever a escrever sua biografia – mas existem vários números da revista de poesia da Oxford sob sua direção circulando pelas mãos dos mais aficionados pela sua obra para comprovar.) Em 1987, Bruno Tolentino viveu uma situação-limite, que inspirou o livro A Balada do Cárcere: foi preso por tráfico de drogas em Dartmoor, conhecida na Inglaterra como a “Ilha do Diabo”, de onde foi libertado 22 meses depois, quando o governo inglês reconheceu que ele havia sido injustamente acusado. Bruno Lúcio de Carvalho Tolentino Sobrinho, que nasceu em 12 de novembro de 1940, era de uma tradicional família do Rio de Janeiro, parente de Lúcia Miguel Pereira, biógrafa de Machado de Assis, Antonio Candido e Bárbara Heliodora. Conviveu com Cecília Meirelles – a quem se referia como “tia Cecília” – e Manuel Bandeira, seus primeiros mestres, e também com os principais nomes da intelectualidade brasileira dos anos 1940 e 1950. No exterior, Bruno publicou Le Vrai Le Vain (Paris, 1971) e Au Colloque des Monstres (Paris, 1973), em francês, e About the Hunt (Oxford, 1978), na língua inglesa. Chamou a atenção da crítica internacional e de grandes poetas europeus. Jean Starobinki escreveu (Nouvelle Revue Française/1979), que o brasileiro era “um poeta de raro talento” e “uma das mentes mais equipadas para abordar o problema da poesia em nosso tempo”, enquanto Yves Bonnefoy afirmava que ele era “sem dúvida um ‘daqueles poucos’ que fazem a cultura de uma época” (Ephémére no.5). Saint-John Perse acrescentou que seus poemas “exalam uma dor tão justa que só sua perfeição formal a torna suportável”. De volta ao Brasil, além de As Horas de Katharina, premiado com o Jabuti em 1995, publicou Os Deuses de Hoje (Record/1995), Os Sapos de Ontem (Diadorim/1995), A Balada do Cárcere (Topbooks/1996) – vencedor do prêmio Cruz e Souza, em 1996, e Abgar Renault, em 1997 –, o já mencionado O Mundo como Idéia (Globo Editora/2002), que rendeu ao autor outro Jabuti, e seu último livro a Imitação do Amanhecer (Globo Editora /2006), indicado também para o Jabuti deste ano. Em 2003, foi eleito intelectual do ano pela Academia Brasileira de Letras (Prêmio José Ermírio de Moraes). Sobre sua poesia, Ferreira Gullar observou que “dois dos melhores poetas do Brasil, João Cabral de Melo Neto e Bruno Tolentino, usam formas rimadas e metrificação que nada têm de arcaizantes”. Isto porque Tolentino era brilhante em terza rima**, forma poética herdada de Dante, que a criou inspirado na Santíssima Trindade. A obra de Bruno Tolentino é “uma meditação sobre como o ser humano tende a abolir a realidade criando um sistema de conceitos através do qual pretende resolver o drama da existência”, como agudamente apontaram Martim Vasques da Cunha e Guilherme Malzoni Rabello, gestores de sua obra. Falei com Bruno por telefone na noite do domingo de Páscoa, e a esperança na ressurreição não me deixa crer que tenha sido a última vez.

Stella Caymmi

Jornalista, biógrafa e doutoranda em literatura brasileira pela PUC-Rio * terza rima: a linha central de cada terceto rima com as duas linhas marginais do terceto seguinte (aba, bcb, cdc,etc).


INVASORES DE CORPOS: MANIFESTO SAMPLER

FOTOGRAMA V: A POTÊNCIA DO FRAGMENTO X O DELEITE ESTÉRIL DA RUÍNA O livro deve se fracionar à imagem da desaceleração das situações de choque. Deve fraturar-se à imagem dos estilhaços do fotograma. Deve enrolar-se sobre si mesmo como a serpente sobre as colinas do céu. Deve derrubar todas as figuras de estilo. Deve apagar-se na leitura. Deve rir em seu sono. Deve revirar-se em seu túmulo. E, ainda assim, cada sampling, cada fragmento é um comentário, pois é uma escolha, um recorte, uma associação, uma afinidade. Pensar na importância do fragmento como potência não-totalizadora. A totalização é o fechamento, opera dentro de uma dimensão de falta, de perda, de tentar recuperar o que se perdeu ou nunca existiu. O fragmento, por sua vez, é a ruína que não se quer reconstruir para que volte a ser o que foi uma vez. A dimensão do fragmento é o suplemento, e não o complemento. O que se busca é a possibilidade de um “vir a ser”, pois a potência está no que se constrói a partir dos restos, com os olhos abertos para frente, e não para a imagem apagada que está na origem da ruína e na memória saudosista. A escrita sampler não copia porque não imita, e não imita porque não é cópia, é uma re-escritura, uma invasão do corpo escrito para tirá-lo da ruína imóvel. Samplear é o poder de estender relações de força. É sempre experimentar

a partir dos fragmentos de outras experiências. Não interpretar, mas experimentar. E a experimentação é sempre o atual, o nascente, o novo, o que está em vias de fazer. É preciso conseguir dobrar a linha, para constituir uma zona vivível onde seja possível alojar-se, enfrentar, apoiar-se, respirar – em suma: pensar. De todas as formas de obter livros, samplerescrever é a mais louvável. Quem não se cuida é tragado. Ser tragado pode ser uma boa experiência, depende da intenção do sujeito. Não é exatamente uma questão de limite, de rigor ou de estilo, mas do que fazer com as possibilidades da escrita. O que se quer é complementar — no sentido de construir de novo o imperfeito, o passado traumático, a utopia que se perdeu — ou suplementar — retomar a ruína com o corpo do presente, fazê-la viver e transformá-la numa outra coisa, numa terceira instância? Vozes não de espectros, mortos e tornados ruínas do discurso, mas de produtores que permanecem vivos na escrita. Ruínas não são o espaço da contemplação mórbida ou do mero inventário estéril. Ruínas são espaços de potência, elementos de combate, focos de resistência ao domínio das limitações. Nascemos com os mortos.

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Fragmentos “Não sei como começar”. “Não se preocupe com isso, é só seguir em frente”. Ouvindo essas palavras de estímulo, comecei o trabalho. Me surpreendeu a facilidade com que ia seguindo em frente, os movimentos pareciam naturais, fora do meu controle. Era como um pássaro que, asas abertas e paradas, deixa as correntes, quentes ou frias, carregarem seu corpo. Me senti leve. “Pronto, agora você pára e dá aquela volta que eu lhe falei”. Desobedeci. O mestre gostou da desobediência. Ele sempre tivera uma estranha afeição pelos que não seguiam à risca seus conselhos. Os resultados foram catastróficos, o que deixou o mestre ainda mais contente, porque ele também gostava quando percebia que, no fim, quem estava certo era ele. Voltei atrás até o ponto em que tudo estava indo bem.

(...)

Nihil est in intellectu quod non fuerit in sensu. Nada há no cérebro que antes não tenha passado pelos sentidos. Na praia ele pensava em sua vida, seus erros e seus acertos. Os acidentes e os planejamentos. Viu as ondas subindo e quebrando, levantando a espuma branca que ia amarelando com a mistura arenosa. Não era de ficar imerso em pensamentos como naquela tarde, era da raça dos práticos, que dançavam no mundo com suas ações e interpelações incisivas e objetivas. O sol se pôs, a noite se fechou. Ele deixou a areia e voltou à sua selva de pedra, seu ninho de concreto, que abraçava com toda sua frieza e rigidez. Sentiu-se rígido também. Tomou seus remédios e foi dormir, ciente de que nada nunca mudaria em sua vida. Acordou com os membros formigando, um formigamento que não pedia relaxamentos ou massagens. Pedia, isso sim, movimentos agressivos. Saiu à rua e movimentou-se o quanto pôde, mas nada mudou. Sentou-se na areia e sentiu o formigamento parar. Deitou-se e ali ficou por 50 anos mais.

(...)

“Ela não vê um palmo na frente do nariz”, foi a frase que abriu a conversa. O restaurante estava elegantemente vazio, deixando a tarde com cara de comédia romântica. Especificamente numa daquelas horas em que o mocinho está se lamentando e a mocinha chega pra dizer que quer voltar pra ele independente dos erros dos dois. Agora o papo era diferente. Ele não queria saber de amor de novo, de passeios pela beira da praia tacando milho pros pombos ou olhando as crianças carecas. A mocinha não ia chegar. Primeiro, porque ela já não era tão mocinha assim; depois, porque ela estava em outro restaurante, do outro lado do túnel, falando com seu próprio advogado. Corta para o túnel. O ar parecia mais esfumaçado que o de costume. Os olhos dela começaram a lacrimejar. Ela tinha certeza de que era pela poluição, já que a última vez que havia chorado por um homem tinha sido aos 12 anos.

(...)

O calafrio veio junto com o chamado da secretária de seu editor. O desespero demorou um pouco mais. Três meses e tudo o que ele conseguira criar tinha sido aquela novela medíocre. Não sabia o porquê, sua ficção vinha ficando cada vez mais chata e sem graça. Sua mulher continuava achando tudo lindo e divertidíssimo, mas como podia ser diferente se o que mais o atraía nela era exatamente sua estupidez?! Pedia sua opinião, mas seus comentários ridículos já não acalmavam mais seu espírito. Havia perdido o dom, estava certo disso. E seu editor não precisou de muito tempo para descobrir o que ele já sabia. Dois dias com o original foram suficientes para que ele fosse chamado para uma reunião. No dia anterior havia sonhado com essa reunião. Seu chefe, vestido de cavaleiro do apocalipse, preparava uma panela de ratos com dois de seus oito braços, enquanto enfiava pequenas varetas por baixo de suas unhas. “Como havia sido bom o sonho” foi o que ele pensou ao sair da reunião. Uma semana, esse era todo o tempo de que ele dispunha para levar alguma coisa decente para seu editor ler. Chegando em casa, a primeira coisa que viu foi o olhar vazio de sua mulher. “Como foi a reunião, querido?”, “Excelente, Margarete, excelente”. E encerrou o diálogo indo para a banheira. Um longo banho, era disso que ele precisava para recuperar aquela genialidade de outrora. Outrora. Será que sua genialidade se acabou quando ele começou a usar palavras como “outrora”?

Léo Torres

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Quem sou eu? Para toda pergunta difícil se tem uma resposta difícil. Será que é isso mesmo? Isso é uma verdade? Não sei, porém aqui começo o meu desafio com uma tentativa de desvendar o meu ser. Fisicamente eu sou alta e baixa, pois para as crianças eu sou alta, já que possuo uma altura consideravelmente maior do que as delas, e para os adultos eu sou baixa, já que sou menor do que eles. Eu calço 37, tenho unhas de tamanho médio, porém limpinhas, tenho uma pequena cicatriz na coxa do meu último acampamento. Quer dizer, eu tenho cicatrizes pela minha perna toda, na qual cada uma tem a sua história; eu costumo dizer que faço uma tatuagem em cada lugar que vou. Você está pensando que fico triste com isso? Está enganado; afinal, esta é a minha memória. E o que eu seria sem ela? Continuando... O meu dedão do pé me dá constante dor de cabeça, pois minha unha vive encravada. A minha mãe diz que isso acontece porque eu a corto quadrada. Aí, eu a corto redonda, mas ela logo encrava de novo. Haja paciência com essa minha unha, mas eu não fico triste com ela, não. A minha vó diz que “Deus sabe o que faz”, e se ele deu a minha unha assim é porque tem que ser assim. E eu acredito nela nesse aspecto, já que não há

jeito; porém, às vezes, tenho as minhas dúvidas se Deus realmente sabe o que faz. Por exemplo, a minha prima se chama Francinete e ela passou a vida escutando piadinhas com o seu nome, como “Francinete cara de chiclete”. Aí, ela foi ao cartório e trocou o nome por Fernanda, e o povo a chama “Fernanda cara de lavanda”. Coitada, ela sofre tanto! E, assim, eu falo pra ela que “Deus sabe o que faz”, embora eu tenha dúvidas disso. Por falar em dúvida, este é o meu lema, pois tenho dúvida em tudo, até naquilo que tenho certeza. Eu tenho um amigo que me diz que a dúvida é a base para o conhecimento. E ele até me apresentou um filósofo chamado Sócrates, que foi o autor da seguinte frase: “Só sei que nada sei”. A princípio, quando eu a li, não compreendi, mas pesquisei algumas coisas sobre a vida dele e fiz a minha interpretação; porém, não cabe aqui explicá-la. Depois disso, fiquei um pouco aliviada com as minhas dúvidas. Bem, agora que já falei muito sobre mim e já me defini... O quê? Você ainda não entendeu? Então chega mais perto que eu vou falar bem baixinho... Eu sou definida pela não-definição. Agora me fale sobre você, que também gosto de escutar histórias.

Bolhas Geraes Ternura Quando, como São Francisco de Assis, desimpeço de um seixo o caminho de uma formiguinha, sinto que desbloqueei um mundo e o pobre inseto me parece maior, maior do que a minha imensa ternura.

Pórtico Ó Musa, confusa, difusa e abstrusa, esteje presa!

Perplexidade

Márcia Brito

Relação Paradigmática

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Relação paradigmática essa, a nossa, que se dá em ausência. Tantas opções que não foram escolhidas, tantas possibilidades que poderiam ter sido... Fica aqui, na minha sentença, o seu espaço a ser preenchido, pela palavra que você escolher. A lacuna a você destinada faz dessa oração incompleta oração com sujeito, mas sujeito “abandonado”.

Não descreio. Não desespero. Louvo a Deus que não conheço e percebo dentro do meu coração ansioso essa longínqua música feita de nada e esperança. Wellington Brandão

Alexandra Wiltshire

Banca da PUC

Serial Killer

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Pá! Barulho seco de corpo retorcido, estatelado, falecido contra o amarelo da tinta do quarto. Zumbido calado e morte bem merecida no meio da noite que coça e pinica. Já foi tarde e com o meu sangue, raquítico inseto incessante, agora estático enfeite bem grande. Na minha parede coleciono cadáveres.

Catharina Wrede

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Entrevista por Paulo Gravina e Alluana Ribeiro

Um olhar estrangeiro

Considerando que sua formação acadêmica foi toda na Dinamarca, o que despertou seu interesse pela América Latina e pelo Brasil? Passei um bom tempo em países de língua espanhola, antes de começar meus cursos. Morei dois anos na Espanha, morei no México, na Argentina e viajei seis meses pela América Latina. Mesmo que toda a minha formação e meu mestrado tenham sido sobre literatura nórdica, o meu doutorado foi voltado para a literatura latino-americana. Aí, tive a oportunidade de vir como professor de intercâmbio, para a UnB, em um convênio entre o Itamaraty e a Universidade da Dinamarca. Dava aulas de dinamarquês e literatura nórdica. Depois de um ano e meio em Brasília, decidi terminar meu doutorado no Brasil. Então, vim para o Rio e comecei a escrever. Eu tinha contatos com várias universidades, através do Affonso Romano de Sant’Anna, que ainda estava trabalhando na PUC e na UFRJ, pois o tinha conhecido na Dinamarca. Quando foi afastado para assumir a presidência da Biblioteca Nacional, ele me convidou para dar um curso sobre pós-modernismo. Foi muito bom, porque era uma turma de discípulos dele, alunos de pósgraduação, parte dos quais são professores agora, como Ana Cristina Chiara, Victor Hugo, Vera Queiroz e Ricardo Oiticica. Depois me sugeriram pedir uma bolsa para recém-doutor e ficar aqui como bolsista durante três anos; e eu fiquei. Do que você mais gosta e do que menos gosta no Brasil? Não sei, muitas coisas. Gosto do Rio, dos brasileiros. Gosto da vida aqui. O que menos gosto é da desorganização, da falta de coerência política. Bom, não gosto da eterna repetição do mesmo governo. Qual é o lugar da América Latina e do Brasil nos estudos contemporâneos de literatura? Não há dúvidas de que os estudos de literatura latino-americana têm um papel institucional muito mais forte do que os da literatura e da cultura brasileira. A partir da interação dos departamentos de Espanhol, com o papel que o espanhol já tinha quando surgiu um interesse pelos estudos latino-americanos, abriram-se caminhos na Europa e nos Estados Unidos. Hoje, nos Estados Unidos, os programas de espanhol, por força da literatura latino-americana, são os que mais crescem. Há obviamente um reflexo da presença da cultura hispano-americana nos EUA, da migração, da importância que essa cultura tem dentro da cultura norte-americana. O Brasil tem sido arrastado um pouco por essa mesma lógica, mas sem conseguir institucionalmente a mesma força. Ou seja, os estudos da literatura brasileira, da cultura brasileira, nos EUA pelo menos, ainda são parte dos estudos da América Latina. Poucos programas têm autonomia, como programas de português e de estudos brasileiros e africanos, mas isso começa a mudar, pois começam a surgir alguns programas de Estudos Brasileiros independentes dos Estudos Latino-Americanos. Outra observação importante é que o Congresso da Latin American Studies Association (LASA), de 2009, vai acontecer pela primeira vez no Brasil, na PUC, coordenado pela professora Rosa Marina Brito e por mim. Esperamos sete mil participantes no evento, o que reflete a importância crescente dos brasilianistas nos Estudos Latino-Americanos. Como você vê a inserção do Brasil no mundo ocidental em relação à cultura e não apenas à literatura? Acho que o Brasil foi descoberto relativamente tarde na cultura contemporânea. Mas vejo muito interesse na Europa e nos EUA. Sempre houve interesse pela música brasileira, mas agora há um interesse grande também por cinema, dança, design, moda. Há

Márcia Brito

Um dinamarquês bem carioca dá aulas de literatura na PUC-Rio, e todos querem ser seus alunos. Karl Erik Schollhammer nos conta um pouco da sua história no Brasil, de como Borges despertou seu interesse pela América Latina e o que ele recomenda como literatura e produções teóricas contemporâneas. corporada aos mecanismos representativos dos grandes meios de expressão e grandes veículos de comunicação. É um novo realismo, no sentido em que procura não representar a realidade, mas recriar certas experiências da realidade esteticamente. Isso é algo com que tenho trabalhado, tenho praticamente um livro pronto a respeito, para publicar este ano. Posteriormente, foi o que me levou a um trabalho de comparação entre literatura e imagem, coisa que eu registrei como uma forma de escrita que tentava se apropriar de caminhos nas artes plásticas, no cinema, nas artes performáticas, para a renovação da própria escrita. Considerando as inúmeras teorias de literatura. Qual seria, hoje, o papel do professor de literatura? O papel do professor de literatura é... ler literatura. (risos) É mostrar como se pode ler literatura; portanto, é mostrar por que ele gosta de ler literatura. Não existe uma pedagogia da literatura; existe o diálogo sobre a leitura que o professor pode iniciar, sobre o que lhe dá prazer. Ele pode expor o seu próprio caminho. O que me dá prazer em ensinar sobre literatura é isso. Já que estamos falando do mercado de arte, queremos saber se você tem alguma verve artística: você pinta, escreve? uma visualidade, uma questão de estética brasileira que começa a ficar muito visível. No ano passado, quando fui à Dinamarca em férias, achei engraçado ver um festival brasileiro em um supermercado, que consistia basicamente da oferta de produtos como sandálias havaianas, roupas com a bandeira do Brasil, uma palmeirinha, cachaça, limão (porque limão brasileiro não tem lá), pequenas coisas com alguma referência ao Brasil. Isso é gozado. Você percebe o interesse pelos produtos do Brasil que começam a ser comercializados. A distância não é mais tão grande, há mais intercâmbio, muito mais diálogo que antigamente.

Não. Na realidade, acho que a minha relação com as artes é de apreciação, de interação. Gosto praticamente de tudo: música, artes plásticas — que para mim são muito importantes — cinema, de literatura. Mas nunca tive — e nunca tive problema em não ter — essa relação com a produção. Sou um consumidor muito feliz do talento dos outros. Como sou cético em relação ao talento, tenho certeza de que as artes não carecem da minha participação. (risos)

Qual a sua relação com o escritor argentino Jorge Luis Borges?

Minha grande descoberta recentemente foi Sebald, foi como uma epifania. Senti que ali havia uma coisa que realmente eu não esperava, que procurava há muito tempo e que estava acontecendo de maneira muito singular diante das outras tendências contemporâneas. Obviamente não é o único, tenho lido também alguns escritores do passado, como Robert Walser, e escritores novos, como Murakami, Vila-Matas e Bernardo Carvalho, cujo último romance, O sol se põe em São Paulo, considero o melhor lançamento do ano no Brasil. Tenho redescoberto Coetzee, que li há uns quinze anos, e que agora comecei a ler sistematicamente, e estou gostando muito. Dos latino-americanos, estou orientando uma tese sobre o Roberto Bolaño, que também me surpreendeu muito. Há muitos escritores novos, muito interessantes, é difícil escolher. Já sobre os trabalhos teóricos, acho que é um pouco diferente. Estamos num momento de uma certa incerteza teórica. Claro que há bons teóricos produzindo agora, o Agamben e o Ranciere, por exemplo. Mas, neste momento, não percebo uma nova teoria, uma nova abordagem à relação entre teoria e obra literária, entre teoria e arte. As pessoas estão testando, cada um montando sua própria perspectiva, mas não vejo uma escola tomando conta. Você precisa voltar para certas abordagens históricas, abordagens materialistas, estruturalistas, culturalistas, mas sempre com o reconhecimento de que nenhuma delas oferece um caminho único. Estamos numa situação em que o seu objeto de pesquisa determina os caminhos teóricos que você escolhe. Este é o ponto mais positivo neste momento.

Borges foi quem me trouxe para a literatura latino-americana. Eu gostava muito dessa literatura; estudava espanhol na época, fiz uma segunda graduação em espanhol e tive um professor que me apresentou Borges. Fiquei muito impactado. Participei de uma primeira tradução de alguns contos de Borges, foi uma das primeiras edições de Borges em dinamarquês. Depois, resolvi escrever minha tese sobre Borges e a Literatura Fantástica, trabalhando com Borges, Cortázar e Bioy Casares, e passei um tempo em Buenos Aires. Era 1986, e tive a oportunidade de conhecê-lo, no seu último ano de vida. Simplesmente fui para o lançamento do último livro de poesia que ele publicou em vida (Los Conjurados) e me apresentei. Ele me convidou a procurá-lo, e falei que queria fazer uma entrevista. Conversamos algumas vezes e fiz a entrevista. Pouco tempo depois Borges faleceu. Mas tive o privilégio de conhecê-lo pessoalmente. Em um trabalho recente, você apresentou os “novos realismos” como uma tendência da literatura e das artes contemporâneas. Você poderia falar um pouco mais sobre isso? Este é um projeto sobre a literatura brasileira contemporânea, uma literatura urbana, voltada para as questões sociopolíticas atuais, muitas vezes para as questões de crime e violência da época pós-ditadura. Trabalhando com isso durante alguns anos, observei uma volta a um certo realismo, que se afastava do realismo histórico, com seus fundamentos de objetividade, representação e verossimilhança. Essa é uma tendência literária que, ao mesmo tempo que quer se voltar para realidade, precisa se afastar de modos tradicionais de representação, para não ser in-

O que você recomenda hoje em termos de literatura e de produções teóricas?

Alguma mensagem final para os alunos? Que estudem, né! (risos)

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Antes mesmo de serem convidadas para participar do mundo, a arte virou para a ciência e falou: - Cuidado [com os excessos]! Depois de uma de suas constantes trocas de ofensas, Dioniso, o deus do caos, fala para Apolo, o deus das belas formas: - Enquanto eu preciso de você para existir, você precisa de mim para ser feliz. Apolo, imitando os movimentos do predestinado Édipo, nada respondeu. Quando o jovem Heráclito percebeu que era impossível se banhar duas vezes no mesmo rio, uma vez que o universo está sempre em movimento, o deus silvestre que havia ficado cego por ver demais resolveu falar: - O caos possui infinitas ordens impossíveis de serem percebidas pela lógica do pensamento. Após ouvir tais palavras, Heráclito pôde, enfim, se despedir da culpa que carregava por ser capaz de pensar.

Péricles F. Drelos

aula sobre schopenhauer ele disse que a gente só conhece as representações que a gente conhece, e que se eu gosto de você eu não gosto de você mais do que eu acho que você deve ser: ele disse que tédio é a espera por um outro desejo que ainda não chegou, a gente acha que esse vai se realizar e paft! precisa de um novo desejo puxa vida, a gente devia descomplicar.

O Massacre

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Seria apenas mais um fim de semana no quarto perdido lá no fundo da garagem onde vivia com o porteiro do prédio. Faria um farto almoço de domingo e depois assistiria a um filme na televisão. Mas o destino lhe reservava uma surpresa. Eu não acreditaria se não tivesse ido vê-la depois de seu telefonema. Pensava que fosse exagero enquanto ouvia seu desespero do outro lado da linha. Fui à sua casa, e nada me marcou tanto quanto a imagem de Sulamita. O rosto estava molhado, sem saber se de lágrima ou de suor. As mãos sujas de terra afundavam nos vasos como se buscassem a própria essência. Quando me viu, sentou no chão e chorou feito criança. “Ah, meu Deus, por que ele fez isso? Ele não entende, não tem alma o desgraçado? Olha só, tenho que jogar fora todas as minhas plantas. Não pode mais ter passarinho também. Meu marido teve que dar os canários e, hoje de manhã, quando não escutei eles cantarem, me deu um nó na garganta. O síndico não explicou nada, só falou que não quer mais as minhas plantas nem os passarinhos do meu marido. Severino diz que não se importa, mas quando olha o lugar onde ficavam as gaiolas, o olho enche d’água”. Eu não consegui dizer palavra. Burle Marx ergueria um monumento a ela em pleno Parque do Flamengo, tivesse ele podido assistir à cena. Jamais conheci alguém com um amor assim pelas plantas, de paixão exacerbada pela natureza, tanta que recolhia nas ruas vasos jogados fora com algum resto de vida e os fazia florir. Sempre que eu chegava em sua casa, me espantava a exuberância do fícus que já atingia o teto. E cada planta tinha uma história. O quase-jardim escondera, até então, dos carros importados, das madames e doutores dentro de seus Armanis, do síndico que guardava sua frieza atrás dos óculos escuros comprados em Paris ou Londres e do mar do outro lado da Vieira Souto o quarto úmido e sem janelas onde vivia com seu homem. E me doeu, como nunca, ver o antigo fícus reduzido a um pedaço de pau dentro de uma lata cheia de terra e todo resto dele dentro de um saco preto jogado na calçada, esperando o caminhão da limpeza urbana. Uma moradora do terceiro andar dera abrigo a umas samambaias, eu fiquei com alguns vasos e Sulamita escondeu uma orquídea no banheiro, a salvo do massacre. Por fim, o barraco, enegrecido pelo mofo, se viu despido. Tudo feio, frio, morto. Ela, que não tinha quase nada, agora possuía menos ainda. Passados o desespero e a indignação, ficou nela um semblante de dor inexplicável. Permaneceu em silêncio quando me despedi, sedada pela tristeza. Parecia ter naquele dia sepultado mais uma de suas paixões, como tantas outras que ficaram esquecidas na poeira dos caminhos por onde andara antes de chegar diante daquele mar, extasiada com tanta beleza. Uma semana depois, voltei para saber como estava. Nos sentamos do lado de fora do quarto, pois fazia mais de quarenta graus. Enquanto conversávamos, vimos o síndico entrando na sua Ferrari, e ela falou olhando pra ele: “Aí, tá indo pra mansão de Teresópolis. Ouvi ele falando para o morador do 508 que precisava jogar tênis pra relaxar e respirar ar puro. Que não agüentava mais a poluição. Quem é que entende essa gente?” Percebi, apesar da dureza das palavras, o seu conformismo: “É mais uma saudade que guardo junto com as outras que eu trouxe de Norte: meu barraco cercado de mato verde, onde a lua nunca chegou. Hoje, está nu, coitado, nessa cidade cheia de solidão”.

Pátria de Negro Senta-se diante do papel em branco à espera da palavra. O suor frio umedece suas mãos e ele percebe a verdade. As palavras é que estão à sua volta, ávidas por serem escolhidas. Pobre homem, nunca lhe fora dado esse direito; quando muito, não o impediram. Armou-se, então, de seus quereres e foi adiante. Abrindo picadas na floresta do tempo, fazendo armadilhas contra os predadores de seus sonhos, andou, sem dia nem hora, nas trilhas que ele mesmo inventou. Há tempos lhe dizem: este é o país do futuro. Enquanto o futuro não chega, vai vivendo essa aldeia de beleza e miséria sem igual. Uma Pátria legalmente inscrita na História e soturnamente negada a corações que dela jamais se desfazem. Insistentemente ouve: vai, negro, ser brasileiro na vida.

Dois contos de Maria de Lourdes Souza

marcelina marcelina nunca fez aula de esgrima tem uma máquina de costura copos de plástico e uma mesa com pés assimétricos * aos domingos marcelina vai ao parque compra algodão doce é pra minha sobrinha marcelina não tem sobrinhas nem irmãs * quase nunca marcelina recebe visitas a última vez era um homem é o carteiro, pode entrar? marcelina mordeu o dedo engasgou não tem ninguém em casa

happy end um poema feliz seríamos nós dois caminhando feito bobos de risos e galáxias com passos de dança numa rua sem gravi dade somos dois astronautas indo comprar pão

três poemas do livro a dobra dura de

Alice Sant´anna

Jornal Plástico Bolha #15  

Jornal literário independente aberto à publicação de poesia e prosa de autores contemporâneos.

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