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plástico bolha aparentemente insólito...

Distribuição Gratuita

É

jogo

Ano 2 - Número 14 - Julho/2007

rápido

O Rio de Janeiro nunca viu tanto plástico bolha junto. Plásticos bolha vindo das mais variadas nações, dos mais diversos plocts. Tudo isso para o maior evento plástico-bolhístico das Américas. A cidade se preparou bastante para isso; desde a ECO-92 não estava tão arrumada (o que só acontecerá novamente com a esperada Copa do Mundo de 2014). São milhares de letras proporcionando momentos de emoção, alegria e superação, entre a página 1 e a 8. Mas é chato falar muito tempo sobre um mesmo assunto; por isso, chega dessa história de plástico bolha. Que tal se nós falarmos de esportes um pouquinho?

Heinz Langer

Distraídos O casal vivia naquela pequena casa desarrumada. Viviam ali sem muito se preocupar, os objetos iam se aglomerando pelos cantos. Um dia achavam uma gravata que ele julgara perdida ou uma meia da qual ela nem se lembrava e riam contentes, como tivessem ganhado um presente novo. Os amigos que iam visitar estranhavam de começo, mas depois se acostumavam com a bagunça e até gostavam; era como um retorno a seus quartos de adolescentes. Passando-se os meses, ela começou a se incomodar. Foi depois de um jantar na casa de outro jovem casal. Quero arrumar a nossa casa. Estantes para os livros e roupas dentro do armário. Passou algumas semanas nessa empreitada, tentava organizar os livros espalhados pela mesa e pelo chão, mas não podia. Que critério adotaria? Biografias em uma prateleira e ficção na outra. Mas a biografia não é também uma ficção? Pedia ajuda a ele, que concordava e ia além: outra coisa, não é justo deixar Virginia Woolf na mesma altura de John Fante. Mas eu botei Conrad no meio pra deixar ela protegida. Ah, não sei, ela devia estar com Clarice. Lá vem você com essa história de escrita feminina! Não é isso... Assim se distraíam e os livros continuavam espalhados, as camisas por cima dos livros, as gravatas escondidas e as meias esperando o próximo Natal. Foi de um amigo próximo que veio a idéia de ter alguém em comum para cuidarem, um terceiro que os tornaria responsáveis; certamente não entenderam a que terceiro se referia o amigo e compraram um peixe. Aquário limpo, peixe dourado, comida apenas uma vez por dia, sabiam que peixes têm memória curta e se esquecem que já comeram. Divertiam-se com o débil olhar de sua nova aquisição, chegaram até a se apegar ao bicho. Mas nunca pensaram em repor a água do aquário e o pequeno foi tendo seu espaço reduzido, até chegar a um dedo de água. Quase nadando de lado, o pobre. A amiga comentou: acho que esse peixe aí não tá muito bem. Ela deu com os ombros, já se distraía com outra coisa, ele nem ouviu. Um dia, ela se lembrou e perguntou, cadê o peixe? Ele tava meio estranho e botei um pouquinho no sol pra ver se animava. Na varanda, o cadáver boiava em um pouco de água quase fervendo. Ih, acho que morreu. Quem? O peixe. É... morreu, sim. Tem que jogar fora. Onde? Sei, lá. Privada. É. Qualquer hora eu jogo. E, mais uma vez, eram levados a outra direção e se esqueciam. Foi assim entre distrações e esquecimentos que ela foi embora. Ele nem percebeu. Num dia de muito silêncio na casa, ele foi até a varanda; talvez a procurasse. Encontrou o peixe numa água podre e pensou: rapaz, isso ainda está aqui! Entornou o líquido na privada e foi ouvir aquele disco do Jorge Ben.

Raissa Degoes

NESTA EDIÇÃO francisco bosco Ângela perricone gregÓrio duvivier natalia guerra pÉricles f. drelos luiz coelho priscila campelo gilvan irineu oliveira joÃo villela heinz langer luis bittar diana sandes daniel jablonski ana chiara nastassja pugliese fred coelho mauro gaspar raissa degoes angelo abu marcelo tapajÓs flora bonfanti jussara santos chloe paisley marilena moraes paulo gravina flÁvio cavaca lopes dimitri merino henrique meirelles


Carta ao frágil

Aos alunos com carinho

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Envaidecida com o convite para escrever nesta coluna especial do Plástico Bolha, pensei imediatamente nos meus alunos, meus queridos, ex e atuais, que, graças a Deus, tornaram-se meus amigos. Lembrando de cada um particularmente desde o primeiro dia de aula, nosso primeiro contato. Todo início de semestre é um desafio. Como são? Que faculdade fazem? O que esperam do curso? E começamos então a nos conhecer e – o que é bom demais – laços de amizade vão se formando. Roland Barthes diz que “há uma idade em que se ensina o que se sabe, mas em seguida vem outra idade em que se ensina o que não se sabe.” Assim, o aluno aprende do professor não necessariamente o que queremos ensinar, mas aquilo que quer aprender. Pode aprender o contrário ou diferente do que ensinamos. Ou até o que o mestre nem sabe que ensinou mas o aluno reteve. O professor ensina o que não quer, algo de que não se dá conta e passa silenciosamente pelos gestos e maneira de ser. Affonso Romano de Sant’Anna disse uma vez que os alunos deveriam não apenas desejar saber, mas saber desejar. “Desejar o saber é uma primeira etapa, mas saber desejar é refinada atitude.” Assim, o melhor professor seria aquele que não detém o poder nem o saber, mas que está disposto a perder o poder para fazer emergir o saber múltiplo. Talvez seja por isso que em francês o verbo apprendre tanto significa aprender como ensinar e também saber. Depende da regência. Depende de nós. Desenvolver nossas capacidades nos leva à auto-realização. Devemos sempre levar em conta que temos interesses e necessidades diversificadas e que nossas aptidões são diferentes. Precisamos definir claramente o que queremos e, em seguida, acreditar, rejeitando pensamentos, palavras e expressões do tipo: “Mas... será que eu posso?”, “Será que eu consigo?”, etc. Qual é nossa missão como professor? Sempre reflito sobre isso. E, nesses quase 40 anos de magistério (sinto grande orgulho invadir minha alma. O prazer da companhia dos três amores da minha vida, que são meus filhos, Giuseppe e André, e meu neto Filippo, é compartilhado quando estou com meus alunos, conversando, aprendendo, estudando ou cantando.) chego à conclusão de que é descobrir ou ajudá-los a descobrir. Como Michelangelo dizia: achar o anjo dentro do mármore, procurar dentro de cada aluno a sua potencialidade. Acreditar. Torcer. Estar disponível. Estar ao lado e não em frente. Fazer o melhor. Respeitar e tratar com carinho. Chamar atenção também. Cuidar para que aprendam de verdade e com seriedade. Que não seja uma aprendizagem passageira. E que saibam que podem contar comigo. Sempre. Um recado de Baudelaire para vocês, queridos, “Il est l’heure de s’enivrer! Pour n’être pas les esclaves martyrisés du temps, enivrezvous; enivrez-vous sans cesse! De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise.” *

Ângela F. Perricone Pastura Professora de Língua Francesa

“Et si nous nous aimons, cherchez pas la raison, c’est parce que c’est si bon, c’est parce que c’est si bon.” ** * (N.E. - em tradução livre - É hora de se embriagar! Para não serem os escravos martirizados do tempo, embriaguem-se, embriaguem-se sem parar! Com vinho, poesia ou virtude, a escolher). ** (N.E. - em tradução livre - E se nós nos amamos, não procure o motivo, é porque é tão bom, é porque é tão bom)

Faça o caminho do meio, estude o espaço de trás, absorva por entre o escuro, se salve em cima do muro. Diga somente a mentira, conserve o oposto da ira, machuque o estranho que chora. Não deixe que neguem o medo, permita o descanso da terra, observe os pés de quem erra. Construa um passado irritante, humilhe o seu desviante, aposte no horror do existir. Espere o momento de ver, conspire contra o oposto do ser, visite o inferno onde está. Despreze o começo do amor, implore o perdão do terror, não negue o que não for capaz. Nomeie o vacilo do outro, indique o sentir que está solto, mas lembre não ser o que diz. Respeite a desordem da lei, constranja o capricho da cor e escreva o que der para escrever.

Péricles F. Drelos

Subjetivas por Gregório Duvivier

Urbanas II (cansado de ouvir os mesmos acordes dissonantes repetidos ad eternum)

saio pela rua da constituição dancing in the dark uma melodia inexistente

tropeço em mendigos, fios e meios-fios de uma praça tiradentes demais

caio de cara na lua refletida numa poça rala me ergo claudicante no negrume dessa noite-breu e me

deito vertical sobre um poste cinza

esperando all night long

um ônibus que tá na cara que não vai passar que tá na cara que não vai passar que tá na cara que não vai passar que

passou, filho da puta, rápido demais

para minha retina cansada dessa rotina

de steinhaeger com cerveja plástico bolha produzido pelos alunos de Letras da PUC-Rio

Editor Lucas Viriato Editora Assistente Marilena Moraes Conselho Editorial Luiz Coelho; Gregório Duvivier; Isabel Diegues

Comissão Julia Barbosa; Isabel Wilker; Paulo Gravina; Alluana Ribeiro; Mauro Rebello; André Sigaud; Flora Bonfanti Projeto Gráfico Mariana Dias

Tiragem: 8.000 Impresso na CUT Graf Distribuído no Rio de Janeiro e Belo Horizonte

Coordenação Luiza Vilela Revisão Rubiane Valério; Rafael Anselmé; Gabriel Mattos Apoiadores Marilena Moraes; Isabel Diegues; Luiz Coelho

Equipe Márcia Brito; Marcelo Tapajós; Rebecca Liechocki; Camila Justino; Marcela Rosa; Esthér Oliver; Henrique Meirelles; Andrew McAlister, Beatriz Pedras

Envie seus textos para: jornalplasticobolha@gmail.com


Dois

Convergência Verão minúscula aurora, astro infante, girassol, sorriso das horas.

Inverno Maiúsculo opúsculo: coveiros grisalhos, lobos, cílios dos crepúsculos Luiz Coelho

Espera de sete horas no aeroporto de Atlanta Espera de sete horas no aeroporto de Atlanta. Estação E9. Tédio. Vamos comer? Não, não tenho fome. Ah, vamos esperar aqui mesmo. Matar tempo. Aeroporto internacional é tão legal. Tão diverso. Diversity is the spice of life, diz Max, o russo que estuda cultura americana. Quer ser intérprete. Daqui a pouco vai sair um vôo para Nova York. Lá diversidade é o que não falta. “Capital do mundo”. Quanta pretensão. Mas não é mesmo? Uma miscelânea tão rica de culturas, nacionalidades... confinadas entre o concreto frio. Uma menina, provavelmente russa, com traços de sutil melancolia e sorriso aberto abre seu violino para acompanhar sua feição. Todos, surpresos, levantam seus olhares ao escutar a doce melodia que serpenteia o ambiente, antes seco. Ela enche o ar com seu sofrimento, sua paixão, suas histórias. Sua expressão cambia a cada nota tocada. Suave, tensa, aliviada, enamorada, esperançosa, resignada. Enquanto há música, alguns andarilhos param, observam, poucos sentam. Outros apenas diminuem o passo e sorriem. Há os que cumprimentam e oferecem dinheiro. A menina só sorri seu sorriso aberto. Há os que, transtornados, nem param, nem ouvem, nem reparam a magia. Há também os que agradecem comovidos. Muitos minutos se esvaem preenchidos por uma série de sonatas, operetas, boleros e pedidos natalinos (é a estação). Nossa guria arrecadara um bocado de trocados. Não que ela quisesse. Parecia não se importar, apesar de claramente tocar por si própria, por amor, por hábito, por prática, Deus sabe por quê. Os que permaneciam sentados ao seu redor já estão distraídos com outros eventos; esporadicamente batem palmas por cortesia. Mais alguns pedidos natalinos. Nossa menina não hesita, sorri com todos seus dentes. As palmas são escassas e raras pessoas ainda escutam atentamente. Logo, um guarda a repreende por tocar, explicando-lhe que não se pode “fazer dinheiro” com isso, aqui, em público. Ela se recolhe, recolhe o instrumento e silenciosamente se retira. Tão majestosa e sutil como chegara.

Natalia Guerra

Simples Floreios Sento, penso e repouso. Tento, escrevo, rabisco e floreio. Tento e falho. Repito. Desenho e imagino, crio, faço e permito. Nasce, rasteja, anda e floresce. Vive, prospera, cresce e remanesce. Instiga e suspeita, teima, debate, provoca e obstina. Insiste, falha, rui e termina. Poesia. Luis Bittar

de dentro pra fora meu coração me devora Diana Sandes

Vi uma folha caindo da árvore. Deve existir alguma metáfora nisso. Newton viu uma lei no movimento da maçã. Eu vejo a liberdade na folha, a contralei. Libertou-se dos laços que a curavam, em um ato simples e sutil de se desprender. E caiu. Foi procurar o mundo, encontrou o chão, maldita lei. Culpa do Newton, eu sou a favor da contralei. Não teve continuação meu pensamento sobre a eterna guerra entre folha e maçã;outro,abrupto, interrompeu. Abrupto. Já parece ruim, soa mal. E é ruim. Nome de vilão: Abruptos. Malévolos. O tal pensamento. Não quero, penso naquela música, tão sensível. Meu pé está dormente, não o sinto. Será que não sinto mais nada? É possível estar imune a sentimentos? São químicos? E se as reações simplesmente não estão acontecendo? Eu estou triste? Feliz? Cansada? Ai. Pisaram na folha. Pisa não, moço. Ela acabou de ganhar liberdade. Mas a liberdade tem preço. Para a folha foi a proteção. E para mim? Ora! Ironia, agora estou atrasada. Esperei me atrasar. Só entendo Murphy quando algo assim acontece. Quando a torrada cai com a manteiga para cima, ele estava errado. Acho que minha impressão dos outros depende do meu humor. Porta, Eu; Eu, Porta. Devidamente apresentadas, eu entro. Balcão, Papel. Será meu? Meu resultado, futuro, vida. A folha só caiu por efeito da lei. Sua liberdade foi resultado de uma lei. Uma contraliberdade. Sem lei não há liberdade. Não para todos. A harmonia vem da lei. Lei perfeita como da natureza não existe e não pode ser inventada. Achei o erro do sistema. Positivo. Quando o papel estava virado para baixo, o resultado era tanto negativo quanto positivo. No momento em que ele é virado, essas probabilidades vão se distanciando. Até uma chegar ao zero e outra ao um. Li isso uma vez, só que era uma caixa fechada com um gato e um pote de veneno dentro. Positivo. Merda.

Priscila Campelo

Poema autofágico narrativo visceral A dentista levou meu siso, mas deixou um naco de gengiva meio solto entre seus pontos imprecisos. O pedaço se soltou. O que fazer? Engoli. Eu não tenho gosto.

João Villela

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Uma história do amor.

Para um vídeo de Antonio Sobral. Abrir-se em amor. Em fé pela beleza, abrir-se, desnudo. Pés a terra: e isso é amor. Deixando que o universo fale contigo, ser...no infinito, no infinitivo. Em momentos eternizados, em amores eternizados. Pelo tempo, tanto tempo. Nessa cachoeira, nesse mar, nessas meninas. Nas palavras de amor que voam em asas de gaivotas marinhas. Há tantos anos pronunciadas por lábios ácidos de amantes. Uma História do amor. Compartilhados os lábios, compartilhadas as palavras. Estar. Compartilhar. Agradecer. Mas talvez um amante, talvez o mais antigo da espécie, um dia — humilhado de amor, compreendendo talvez mesmo mais do que podia suportar, mais do que pôde ser toda aquela vida transcorrida em sonhos —, venha a dizer as palavras duras, frias, e egoístas. Talvez mesmo aquele Sócrates que um dia falou a Fedro sobre a virtude e sobre o Amor, deitados os dois que estavam sobre a grama e escondidos pela sombra do velho plátano, (como tuas meninas), ali, justo fora dos muros de Atenas (como na tua cachoeira, vê) — a sabedoria junto à graça — talvez ele mesmo, murmure ainda dia desses, cabisbaixo: — “O quanto não foi preciso cerrar para abrir-se, pequeno Fedro, o quanto! Considera isso”.

Daniel Jablonski.

mulheres-damas por Ana Chiara

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Madalena Penso em Madalena com insistência... Graciliano Ramos

Madalena, corujinha ensimesmada, ... o ciúme monstro vadio penetrou meus ossos, encharcou por dentro, virei calunga.... que estupidez, que porcaria bichinho, sol, chuva, noites de insônia, cálculos, combinações, violências perigos dissipados por tuas mãos delicadas demais nas calosidades de minha pele... nem as flores do campo nem a cana verde nem a água do rio me aliviaram do peso da tua tristeza, peste!

Puzzles

A Rotina Categórica de Kant Perdão por não obedecer ao categórico imperativo da honra e abusadamente me enfiar nas íntimas entranhas da vida particular de Immanuel. Poderia ser apenas mais um relato à la Big-Brother, uma mera narrativa descritiva, não fosse o fato, ou o pesado fardo, de que nosso objeto de investigação não é uma pessoa comum, mas o grande, o tradicionalíssimo, o sábio filósofo: Kant, o Imaculado Immanuel. Ninguém escapa aos olhos dos outros e hoje, Kant estando vivo, seria personalidade garantida para a próxima edição da Casa dos Artistas. Que voyeur (eu não seria capaz de dar outro nome para o telespectador) não julgaria bela a experiência sublime de observar os meandros e as reticências do comportamento obsessivo daquele que tanto insistiu no conceito de sujeito transcendental, tornando-se quase que o teórico de um voyeurismo metafísico? Dando, então, pirulito na boca de criança, palmas para o palhaço ou pão e circo para os cidadãos de Roma, contarei alguns a posterioris sobre a vida de Kant para que, a partir dessas brechas de subjetividade, possamos penetrar, com nossos olhos curiosos, em seus a prioris mais íntimos. Antes de começar a novela, uma pergunta sibila em minha mente cheia de galhofas: será que no detalhe de um comportamento está contida a chave de interpretação de um gênio? Fica a pergunta em off, como se ocupasse o espaço das charges de cartunista antes do programa, ou fosse o comercial de geladeira na hora do intervalo. Uma curta biografia de Kant certamente seria uma caricatura de sua filosofia, fazendo ver exemplos práticos de sua atitude teórica. Nascido na Prússia, ganhou condições de ter uma educação abrangente por receber auxílio financeiro de um parente próximo. Entrou na Universidade com 16 anos e, aos 22, escreveu sua primeira obra, intitulada “A Avaliação das Forças Vivas” acerca de uma questão levantada por Leibniz. Os últimos dias de sua vida foram relatados por Wasianski, um ex-aluno que se tornou fiel companheiro na velhice, fase mais angustiante da vida de Kant. Thomas de Quincey, no livro Os últimos dias de Immanuel Kant, lançado pela Editora Forense Universitária, relata os depoimentos daqueles que permaneceram ao lado do filósofo e puderam observar suas manias e hábitos tão peculiares. É bem verdade que a vida de Kant era um pouco irritante: acordava todo dia abrindo o olho esquerdo antes do direito e pisando com os dois pés ao mesmo tempo do lado de fora da cama porque não era muito dado a superstições. Vestia-se rapidamente para estar, pontualmente, às cinco da manhã, sentado à mesa para o desjejum. Nessa hora procurava manter-se em silêncio para capturar toda a potência contemplativa contida em sua xícara de chá. Quando uma não o saciava, contemplava mais e bebia duas, três, várias, até que seu momento estivesse pleno. Dirigia-se então ao escritório para planejar sua aula com a ajuda de um cachimbo e um pouco de fumo. O aspecto mais interessante de sua rotina era a organização da mesa para o almoço. Kant nunca almoçava sozinho. Era um adepto rigoroso da regra de Lord Chesterfield – de que os convivas em sua mesa, incluindo ele próprio, não fossem em número inferior ao das Graças nem excedessem o das Musas. Então convidava, diariamente, uns poucos amigos para o almoço, de modo a formar um grupo de no mínimo três e no máximo nove convivas, e, por ocasião de algum festejo, de cinco a oito pessoas. Tomava aquilo que ele próprio chamava de “tônico”, um vinho da Hungria ou do Reno e, na falta deste, uma bebida inglesa chamada Bishop. O copo ficava servido, mas não bebia até todos estarem a postos e confortáveis. Para que a bebida não se evolasse, cobria-a com um papel. Após o pequeno ritual de arrumação de seu vinho, ia vestir-se para receber seus convidados em trajes de cerimônia. A mesa era composta de um número suficiente de iguarias para atender à variedade dos gostos. Kant mostrava desprazer ao perceber espírito cerimonioso em seus convidados e tinha horror a ter que esperar o último convidado. Antes de chegarem à mesa de almoço, Kant fazia comentários sobre as condições climáticas e o assunto era desenvolvido durante a parte inicial da refeição. Questões mais graves, como eventos políticos, jamais eram introduzidas antes do almoço. Raramente dirigia a discussão para algum aspecto de sua própria filosofia. Os temas de discussão eram relativos à filosofia da ciência, da química, da meteorologia, da história natural e da política. Além do cuidado com os temas para conversas e da variedade de comidas, o filósofo buscava convidar pessoas que formassem um grupo heterogêneo para garantir uma variedade suficiente na conversa: desde um número adequado de jovens a representantes de todos os tipos profissionais. Como verdadeiro anfitrião que era, nunca deixou de cumprir normas do bom trato social, e acabou ficando conhecido como um verdadeiro artista na composição de almoços. Encerrado o almoço, Kant ia, sozinho, fazer seu famoso passeio de três da tarde. Passeio cumprido em hora tão precisa que, diz o mito, toda a cidade de Koningsberg acertava seus relógios quando Kant passava. Esse passeio era feito sem companhia porque queria preservar os outros de suas longas falas e também porque desejava respirar apenas pelas narinas ao caminhar. Dizia que assim preservava-se da rouquidão, de tosses e de indisposições pulmonares. Quando voltava, ia para a biblioteca e lia até o anoitecer. Quinze minutos antes de ir se deitar parava de ler e de pensar para não ficar com insônia. Como era de se esperar, também ia dormir com uma ordem solene, cumprindo formas rotineiras de aninhar-se e envolver-se nas cobertas. Para Kant a monotonia da sucessão de formas postuladas por ele para organizar seu dia não era fatigante e acabou contribuindo, juntamente com a uniformidade de sua dieta e outros hábitos regulares, para prolongar sua vida. Kant era comparado por seus conhecidos a um ginasta porque conseguiu equilibrar-se sobre a corda tensa da vida durante quase oitenta anos, sem jamais se inclinar para a direita ou para a esquerda. Kant acreditava que sua saúde era a melhor que um ser humano poderia ter. Sua rotina, estritamente vinculada a hábitos e regras de vida, o permitia viver com a segurança de uma rigidez imóvel. Rotina de um filósofo que pensou a mais dura das leis morais. Sua vida era organizada e cumprida como sugere seu próprio imperativo categórico: “aja como se suas ações pudessem servir de espelho, por toda eternidade, para todos os homens”. Alguém se habilita?

Nastassja Saramago de A. Pugliese

Aluna da Pós-Graduação de Filosofia da PUC-Rio


INVASORES DE CORPOS: MANIFESTO SAMPLER

FOTOGRAMA IV: UMA INVASÃO E UMA BATIDA DEPOIS O sampling não trabalha com princípios morais, isto é, a escrita sampler, seja ela biográfica, memorialística ou, pura e simplesmente ficcional, não tem pudor de mexer, manobrar, manipular, inventar a história do outro, o outro, inventar a si mesma. Não é plágio. O plágio reproduz o mesmo sem invenção. A escrita sampler inventa o mesmo em novo contexto. Não é citação. A citação hierarquiza conhecimentos e cria uma relação de referencialidade. A escrita sampler não hierarquiza, pois não cita, mas sim incorpora, reinventa. O procedimento sampler é fundado na forma de arte mais ancestral: a reutilização, o reaproveitamento, a releitura. O plágio é a forma mais pobre de admiração. Pierre Menard é a alegoria perfeita da esterilidade da cópia. O pastiche como caminho possível para novas releituras, fora do tom parodístico, fora da mera influência, longe da reprodução. Se o leitor é autor também, a re-escritura que faz um autor da obra de outro se dá no cruzamento entre leitura e re-invenção e parte do entendimento de que a literatura é um laboratório do possível — como criação e re-criação (e recreação também). A base para uma teoria possível do procedimento sampler na literatura invoca Hermes, o mito trans, o exu-radar que capta as transmissões e as interferências na encruzilhada dos mundos. Atravessando a bricolagem: o bricoleur trabalha com materiais fragmentados. O engenheiro trabalha a partir de matéria-prima. O bricoleur se arranja com os meios-limites que têm. O engenheiro se subordina ao material de origem. Para o bricoleur trabalhamos na ótica do “isso sempre pode servir”. Ele tem que refazer seu inventário pessoal e entabular um diálogo com ele mesmo. Vive voltado para uma coleção de resíduos. A escrita sampler pega o bricoleur pela mão e o apresenta ao engenheiro. Nascem projetos fragmentados, matérias-primas sem origem definida, inventários inventivos, coleções de novidades. A escrita sampler é uma bricolagem engenhosa. Aglutinação pela dispersão. A citação é um elemento privilegiado de acomodação. Por isso, o sampler não é citação. Samplear é “movimentar” o leitor-ouvinte, assumir o combate criativo e paralisante da escrita contra a tradição. A tradição não se acomoda na escrita sampler, pois a tradição é a memória do escritor, fluxo contínuo em movimento contínuo, mutante. A escrita sampler não é cópia. A cópia não reflete; a influência pura e simples só é dialógica na medida em que “responde” a um texto anterior; contudo, se essa resposta é automática, reflexo, impulso, repetição, não há diálogo porque os canais de comunicação estão fechados — o emissor é, na verdade, o texto anterior, o novo só o transmite mais uma vez, não há “ruído”, não há interação cambiante, é uma comunicação de estátuas, textos estáticos. Não há interferência! Não há invasão! A poesia da escrita sampler advém sobretudo do fato de que não se limita a cumprir ou executar. Ela não fala apenas com as coisas e das coisas, mas também através das coisas. A idéia conceitual da escrita sampler é abrir um sulco na escrita. O texto não é um condomínio gradeado — o sulco se abre e propõe novos fluxos textuais, musicais, visuais . Atravessando a menipéia: a palavra não teme ser difamada. Ela se emancipa de valores pressupostos; sem distinguir vício de virtude, e sem se distinguir deles, considera-os como domínio próprio, como uma de suas criações. Afastam-se os problemas acadêmicos para se discutirem os problemas últimos da existência. É simultaneamente cômica e trágica, E sobretudo séria no sentido em que o é o carnaval e, pelo estatuto de suas palavras, é política e socialmente desorganizante. Liberta a palavra dos embaraços históricos, o que acarreta uma audácia absoluta da invenção filosófica e da imaginação.

A escrita sampler é escritura-leitura. Todo escritor é leitor. O ato da escrita não se descola do ato de ler, nunca. Leio e liberto. Deixo de ser eu e navego na dispersão. Leio como quem abdica. Leio como quem passa. Aglutinação pela dispersão. A escrita sampler não é uma imitação. O que se imita é desde sempre uma cópia. Os imitadores imitam-se entre si, de onde sua força de propagação, e a impressão de que fazem melhor que o modelo, pois conhecem a maneira e a solução. Os sampleadores não imitam, subvertem, trabalham e transformam. Da verticalidade à horizontalidade. Do inter ao trans. Estar em trânsito e ser uma instância de trânsito. Trans significa atravessar e ser atravessado, o exu que transita na encruzilhada das almas (e corpos) do texto, de tudo o que estiver pulsando, fluindo, vivo para o sampler. A escrita sampler como escrita tradutória das tradições: o sujeito se projeta no ato da escrita, tornando o gesto criativo variação de uma autobiografia, ao mesmo tempo em que desaloja o seu eu e abre mão do direito de propriedade. O exercício da memória alheia, ao ser incorporado à experiência literária, desloca e condensa lugares antes reservados ao autor, à medida que se dilui a concepção de texto original e de autenticidade criativa. A escrita se constrói pelos entrecruzamentos de discursos de diferentes naturezas, é o resultado das projeções subjetivas ou de experiências motivadas pela memória do outro – o “efeito” de memória falsa que a literatura causa. Constatando, na escrita sampler e em sua relação com a tradição da literatura, o transporte de citações da palavra do outro para a construção de discursos, as palavras roubadas e distorcidas desmistificam o texto original e se impõem na sua condição de moeda falsa. É preciso arrancar de si a sua própria ultrapassagem. Ao invés da metáfora do caçador na selva ou da tauromaquia, o atravessador de informação, uma antena da palavra clandestina, nunca uma antena da raça, escritor quebra-lei perdido no coração da grande babilônia, contrabandista de palavras sem papel. Uma fábula sampler não tem moral remix: Para os babilônios bab-il significava ‘a Porta de Deus’. Para os hebreus a mesma palavra queria dizer ‘confusão’, talvez ‘confusão cacofônica’. Os zigurates da Mesopotâmia eram ‘Portas de Deus’, pintadas com as sete cores do arco-íris e dedicadas a Anu e Enlil, divindades que representam a Ordem e a Coerção. Foi sem dúvida uma intuição assombrosa por parte dos antigos judeus — esmagados entre impérios ameaçadores — ter concebido o Estado como Beemonte ou Leviatã, como um monstro que ameaçava a vida humana. Foi, talvez, o primeiro povo a compreender que a Torre era o caos, que a ordem era o caos, e que a linguagem — o presente das línguas que Iahweh soprou na boca de Adão — tinha uma vitalidade rebelde e desobediente para a qual as fundações da torre eram como pó. Escrever acreditando na força do passado como referência para as transformações do presente, pelo rastreio não da idéia de origem, mas das cicatrizes deixadas pelo passado no presente. O que a rigor se busca é a preservação e o amadurecimento da experiência. O complemento nos dá a impressão de ter em mãos alguma coisa incompleta que estaríamos completando. O suplemento não, o suplemento é algo que se acrescenta a alguma coisa que já é um todo. O pastiche aceita o passado como tal. A obra de arte nada mais é do que suplemento. É preciso gerar formas de transgressão que não sejam as canônicas. Ser um através, escrever como um através, de si e do outro — de todos os outros, que somos nós também. Em literatura, os roubos, assim como as recordações, nunca são inocentes. A verdadeira história da literatura é uma história de ladrões.

Não se Conjuga o Verbo Colorir O vermelho do inferno me aborrece. O verde da floresta me acalma. O negro de sua lingerie é sua alma. O branco da cidade me escurece. Note a transparência insensata Em meus olhos semicerrados no salão. Veja-os coloridos, psicodélicos e injetados Com o vermelho da paixão. Tão cinza sua ausência de cor, Tão horrível sua total palidez. Hipnotizou-me com sua nudez, E em meus olhos sinto dor. Nada como o gosto tão salgado, De sua virilha sombreada. A cor do seu mamilo é tão rosada. Molhado está seu cabelo avermelhado. Não se conjuga o verbo colorir, Nunca se diz: “Eu te coloro”. A sua casa é a tela onde moro. Linda pintura a óleo que não olha para mim.

Gilvan Irineu de Oliveira

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CLIQUE AQUI http://glaucomattoso. sites.uol.com.br/ O site oficial do poeta Glauco Mattos, pseudônimo de Pedro José Ferreira da Silva, nos apresenta o poeta, ensaísta, ficcionista e articulista, que circula em mídias diversas e é um marco da contracultura e das letras no Brasil. Embarque nessa viagem.

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Augusto, não Augusto

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Puta que o pariu! E me disseram que estudante é quem estuda. Sabe quem me disse? A merda da palavra. Quê? Puta que o pariu! A própria palavra: estudante. Sim. Porque vocês tão engolindo qualquer coisa que um professor fala pra vocês. Até o que eu falo vocês engolem! Olha só a cara do Bernardo. Questione, Bernardo! Não me olhe com essa cara de quem tá pensando em fazer uma bandeira com o meu rosto. Seu Madruga, Che Guevara. Porra nenhuma! Bernardo desfila sua visão política com a camisa do seu professor de português, Augusto. É um puto! Não. Não você, Bernardo. O Augusto. Sim, meu nome é Augusto. Não, não é coincidência, Bernardo. Eu tou me xingando. Por quê? Isso, Bernardo, questione! Maravilha! Da próxima vez questione sobre algo mais profundo que Augusto, ok? Bárbara, eu não tou me referindo ao complexo sentido de ser um Augusto de forma coletiva. Estou ainda tou me referindo a mim. Isso, Bárbara, eu falo de mim. Terceira pessoa, Bárbara. Não existe quarta. Sim, eu tenho certeza. Ok, Bárbara, você devia escrever poesia. Não, eu não estou brincando. O que, Júlia? Terceira pessoa. É como o Slot, dos Gunnies falava. Um exemplo? Esse é bom, ó: “Slot quer chocolate”. Ah! Entendeu, entendeu? Ele mesmo disse isso, lembra? Mas vocês fugiram do ponto. Quem se lembra do meu argumento? Sim, André, era algo sobre engolir professores. Não, Clara, não estávamos falando sobre Augusto de Campos. Sim. Certo. Isso, teve uma hora em que eu falei sobre um Augusto. Mas era sobre mim. Eu sou Augusto. Não, Clara, meu nome é Augusto. Sim, eu tenho certeza, Clara. Rogério é o professor de História. É, você tá certa, Clara, ando muito egocêntrico. Não devia falar tanto de mim nas aulas. Não, eu não disse isso. Alguém mais me ouviu dizer que escrevo melhor que Augusto de Campos? Fala mais alto, Pedrão. Depende. Valendo bater abaixo da cintura? Eu. Ahan. Porque o outro Augusto é fraco e cabeçudo. Ei, eu não sou gordo. Voltando, voltando. O André

tinha lembrado que era algo sobre engolir professores. Alguém mais? Não, Bernardo. Deixa os outros tentarem. Porque os outros não têm sonhos eróticos comigo. Não, eu não disse que você tem. Você interpreta como quiser. Mas que tem, tem. Não, eu não disse nada, tava falando sozinho. O que eu quis dizer com “engolir professores”? Fernanda. Exatamente, Fernanda. Era uma metáfora. Não. Porra, Fernanda, porque não. Sim, você acertou minha pergunta, mas eu não vou te dar um ponto na média. Porque você não merece. Porque não. É, Fernanda, é isso mesmo, eu assumo. É porque você é gorda. Isso. Gorda e preta. Preta? Não, eu disse negra. Fernanda, você pegou sol, Fernanda. Você não é preta. Você leu isso? Tá na Constituição essa porra? Ok, então a partir de hoje eu sou rubro-violáceo. Rubro-violáceo. É que nem roxo, só que mais chique. Porque eu me sinto assim, ué. Você não disse que é assim que funciona, Fernanda? Então pronto. E ai de quem falar mal de mim a partir de agora. Será preconceito contra toda a raça rubro-violácea. E não nego minhas origens. Não, o professor Augusto de História não falou do povo rubro-violáceo porque vocês não entenderiam a complexidade de nossa excelência. Sim. Talvez daqui a uns anos. Quê? Cada um de uma vez, porra. Ah, puta que o pariu. Que se foda também. Quer saber? Esqueçam o que eu falei sobre questionar. Engulam o que nós, professores, dissermos a partir de agora, ok? Porque a gente é mais inteligente que vocês. O que não é difícil. Vocês são burros. Todos. Sim, Bernardo, até você. E a sua mãe, aquela vadia. Não, Bernardo, eu não disse nada. Isso, eu falo sozinho, Bernardo, bem lembrado. Puta que o pariu, Ana. Por que você ta anotando isso tudo? Não, Ana, não cai na prova. É Ana, dei muita matéria nova hoje. Falei sobre metáforas, tempos verbais, Augusto de Campos e Gunnies. É Ana, muita coisa. Ana. Ana, eu juro, não cai na prova. Pára de escrever Ana. Puta que o pariu, Ana. Ana. Ana! Ana, me dá essa can...

Bolhas Geraes CRUEL meu amor quando me quer me elogia busca-me no inferno se preciso for, encontrando-me, vou falsamente romântica em fins de século XX. Meu amor ainda acredita em amor. Jussara Santos

do ventre prato de acarajé visita ao vaso pressão do dendê

Marcelo Tapajós

Mosquito

pratos de poesia visita ao vaso nada acontece

Pensava em coisas, quando um inseto veio me lembrar da morte. No reino dos objetos, reluzia opaco. Seu corpo roubava um pouco da luz do chão. Sobre o sinteco, as patas foram silenciosas. Não havia nada que ali se pudesse sobrepor, nada de sinistro, nada de horrível, nenhum êxtase... Morte soberana. Tranqüila.

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Entrevista por Marilena Moraes

A lógica do poema e a lógica da canção

Francisco Bosco é ensaísta e letrista (entre seus parceiros estão João Bosco, Fred Martins, Guinga, Hamilton de Holanda, entre outros), autor de Banalogias (a ser lançado em breve, pela Editora Objetiva), Dorival Caymmi (Publifolha, 2006) e Da Amizade (7Letras, 2003), editor da revista Cultura Brasileira Contemporânea, publicação da Biblioteca Nacional. É Mestre e Doutorando em Teoria Literária pela UFRJ. No recém-fundado POP – Pólo de Pensamento Contemporâneo –, dá uma oficina de letras de música, com Fred Martins. Arquivo pessoal

Você é considerado “um letrista de mão-cheia”. Isso se deve à sua experiência com poesia? Qual a sua formação? No meu caso, particularmente, o fato de ter escrito poesia durante anos me ajudou, sim. Sobretudo porque eu praticava bastante as formas fixas, e uma música que um letrista recebe, a fim de nela colocar uma letra, nada mais é do que uma “super forma fixa”: uma estrutura prévia que detém todas as contraintes da forma fixa poética (número de versos, metrificação, uma quase exigência de rimas que vem da tradição) e ainda outras mais (distribuição prévia de todas as sílabas tônicas e átonas, modulações, mudanças de intensidade, etc.). Por outro lado, é importante para o letrista egresso da poesia, como foi o meu caso, que conheça bem a tradição da música popular brasileira, e que saiba, intuitiva ou conscientemente, que a lógica da canção é fundamentalmente diversa daquela do poema.

Há como procurar a palavra, a forma certa para cada canção? Essa é a tarefa de todo letrista, mas, como tudo o que diz respeito à arte moderna, nesse caso não há regra, não há norma, não há diretriz que se possa estabelecer de antemão para essa procura. Seu pai, João Bosco, foi seu primeiro parceiro? Qual o legado da geração a que ele pertence?

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Como você trabalha com seus parceiros? Em geral, recebo as músicas e lhes justaponho a letra. Prefiro assim. Às vezes tento escrever uma “letra” antes da música, mas quase sempre desisto no meio, ou, mesmo prosseguindo, sinto que não terminei, que não posso terminar, que não se pode terminar. Penso que não existe letra sem música, e por isso considero esse gênero – “letra” antes da música, “letra” para ser musicada – uma forma impossível, algo cuja eventual realização não desmente seu impasse estrutural. É como mirar num alvo que não existe. Você faz letras que falam de amor (De mamadeira, Eu não sei seu nome inteiro) e outras que são verdadeiras crônicas do cotidiano (Cinema cidade, Malabaristas do sinal vermelho). Como surgem os temas para suas letras?

Todo poema pode ser musicado? Sim, a princípio todo poema pode ser musicado. O problema é que um poema é uma estrutura fechada, que almeja seu próprio acabamento, enquanto que a letra de música é uma estrutura aberta, que almeja o acabamento da canção, por intermédio de uma relação que estabelece com a música. Essa diferença estrutural é o que, se por um lado garante que todo poema possa ser musicado, por outro não garante que um excelente poema seja uma excelente letra de música.

dá oportunidades que outros não teriam, e lhe exige um desempenho que de outros não exigiria.

Pode-se dizer que sim. À exceção de poucas canções que fizera com um parceiro, sem qualquer pretensão pública, estreei como letrista ao lado de meu pai, no disco “As mil e uma aldeias”, de 1997. Penso que o legado da geração dele é vasto, mas destaco o seguinte aspecto: uma concepção total da canção. Refiro-me a uma canção que explora, sofisticada e simultaneamente, todos os níveis de que é feita: melódico, harmônico, rítmico, verbal etc. É completamente diferente, por exemplo, do rap, em que praticamente não há melodia ou harmonia, e o ritmo tende a uma monotonia deliberada. Mas o rap não é menos canção, nem menos interessante por isso; apenas deve ser avaliado por meio de outros fatores. Ser filho de João Bosco é também um ônus? Quais as cobranças e expectativas quanto a isso? A meu ver, ser filho de uma pessoa pública é, quanto a uma eventual trajetória pública do filho, algo que lhe

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Valéry costumava dizer que “a forma custa caro”. É verdade, mas, sem querer parodiar o slogan do cartão de crédito, “a idéia não tem preço”. A idéia – o que entendo que você chama de “tema” – é sempre o imponderável. A fim de que ela nos dê o ar de sua graça, penso que só se pode ficar atento, como disse o poeta Paul Celan: “Poemas são presentes para os atentos”. Como são as oficinas de letra de música? De que modo é possível aprender a ser letrista? Do mesmo modo como se aprende a ser escritor, pintor, compositor etc. Ensinar alguém a ser letrista é tão impossível quanto nesses outros casos. O que fazemos, eu e Fred Martins, é oferecer instrumentos – conceituais, técnicos, estéticos – para que cada um possa empregá-los do modo mais adequado aos seus interesses artísticos. A gente disponibiliza materiais, dispara desejos, desmonta máquinas de criação – mas o resto, que é quase tudo, é com o aluno. Ensinar é impossível, mas aprender é possível.

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Breves considerações sobre o Kentucky

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O Kentucky é o décimo-quinto estado americano, colonizado inicialmente pela colônia da Pensilvânia em 1774, passando a ser controlado pela Virginia durante a Revolução Americana e ganhando independência em 1792. A etimologia do nome até hoje é um mistério, passando por vários dialetos indígenas e podendo significar desde “rio de sangue” até “terra do amanhã”. Outros historiadores atribuem ao colonizador George Kent o nome do estado, unindo o sobrenome “Kent” com o nome Reino Unido, ou “UK” e chegando ao nome do estado. Muitos mistérios envolvem a biografia de Kent; alguns o consideram o libertador do estado e outros o colocam como um terrível senhor feudal, que escravizava os índios da região. É de comum acordo que Kent se interessava pelas práticas de magia e de ocultismo e que possuía uma enorme biblioteca de títulos arcanos. Outros atribuem esse papel à sua esposa, Evelyn Blaigdfield, a primeira da linhagem dos Blaigdfield. Ninguém sabe exatamente de onde surgiu o sobrenome, sendo atribuído em geral à cabala e à numerologia. Há um relato posterior do pioneiro George Rogers Clark contando que o nome “veio dos céus”. O nome é associado a toda uma mitologia indígena, assim como a própria Evelyn. Muitos eventos estranhos se deram enquanto ela vivia na região, desde “auroras boreais” até contatos imediatos de terceiro, quarto e quinto graus; no entanto, várias das páginas que contam maiores detalhes sobre o assunto desapareceram dos arquivos, deixando informações confusas e contraditórias. Evelyn teve três filhas, com as quais permanecia apenas durante os primeiros nove dias, amamentando-as (ou, segundo alguns, untando-as) com uma substância “verde e viscosa, provavelmente de alguma árvore também usada pelos índios da região” (segundo o historiador Bruce Carruthers), há também os que afirmam que a substância é produzida a partir da areia movediça “encontrada em abundância na região”. O destino dessas três crianças foi desconhecido até que o nome Blaigdfield reapareceu em Boston, em dois irmãos, em meados do séc. XIX. A história desses irmãos também é extremamente misteriosa, chegando ao ponto de alguns teóricos de literatura (vide Kevin J. Hayes) afirmarem que Edgar Allan

Poe baseou seu famoso conto “A queda do solar de Usher” exatamente na história dos irmãos Blaigdfield, trocando apenas o nome. Depois o nome se multiplicou por todos os EUA e por todo o mundo, sendo assumido por várias famílias por motivos diferentes. Ninguém sabe o qual foi o destino da linhagem original dos Blaigdfield e alguns chegam a afirmar que a Blaigdfield original “subiu aos céus”. A mansão de Kent e Blaigdfield permanece até hoje inteira no Kentucky, ao lado do zoológico municipal de Louisville, e foi tombada como monumento histórico – hoje é um dos principais museus de fotografia da região. Muitos foram os pedidos para investigar os subterrâneos e proximidades da casa, sob alegações de ali estariam enterrados corpos de desaparecidos políticos, cemitérios de índios e de bebês, etc.; no entanto, até agora nenhuma permissão para escavações e investigações foi concedida. Sobre a substância “verde e viscosa”, a probabilidade é grande de que seja apenas uma lenda sem fundamento e, como querem alguns, a associação da substância com o Mendolatium não tem nenhum motivo de ser, assim como a associação do Mendolatium “com alguma conspiração de extermínio em que só sobreviveriam os habitantes do Kentucky (“terra do amanhã”), imunes à substância”, segundo aparece em um site na internet. Como querem outros, a associação do Mendolatium com a recémdescoberta Criptonita branca também não parece ser fundada em evidências reais. Recentemente, a divisão de estudo de medicina nuclear do Neely Nuclear Research Institute divulgou nota conjunta com The Food and Drugs Administration, concluindo que o “Mendolatium não teve origem no espaço e sim no laboratório” e que “não houve até agora nenhum indício de malefícios à saúde ou quaisquer efeitos colaterais do Mendolatium”. O produto de cor púrpura, que começou a ser comercializado há cerca de dois meses, continua sendo consumido em larga escala nos EUA como tempero para comida e bebida, remédio para dor de cabeça, substituto para chá e café e até como enfeite. (notícia tirada da revista Wordly News: www.wordlynews.com/ health/index.html - a tradução é de minha autoria)

Paulo Gravina

O autista amador Fez das tripas diversão: Correu no céu limpo de nuvens, bateu bolas de gude sem chão, pendeu buliçoso prazenteiro nas bordas de um grande balão. Rolou sem que enfadonho, rolou travesseiro e pião, rolou arteiro e tristonho.. acordou pra ir comprar o seu pão.

Flávio Cavaca Lopes

Um em dois Ele andava barbudo, pensava pouco. De noite em Santiago ficava louco. Chegou no Brasil. Foi lá que me pariu. Voou manso pelo país. Até mudar de raiz. A barba se foi. A loucura se escondeu. Foi esse novo sujeito que seu filho conheceu. O tempo passando... Traz lembranças aos montes. O pai, passado, morre. No coração do novo horizonte. No espelho, agora, um barbudo. Abraça, ao telefone, o barbeado.

Dimitri Merino

~~*~ Segredos Marinhos ~*~~ Ao me dar conta do pecado que cometi, saí correndo por largos e infinitos corredores. Neles ecoavam melodias tristes, palavras em vão e juras de amor. Percorri todas as alas e corredores daquele castelo, mas, dentre tudo que suas poderosas paredes ecoavam, não havia sequer um pecado, um segredo mortal que alguém tivesse deixado escapar. Sem saber o que fazer, cruzei a porta principal, os jardins e finalmente os portões. Pedi aos deuses um modo de guardar meu segredo em algum lugar que não fosse meu coração, e caminhei até a beira do penhasco, lugar alto que me mostrava tudo que a luz e a escuridão podiam alcançar. Pesava em mim a presença de tão mórbido segredo. A quem eu contaria? Quem me perdoaria? Toda aquela imensidão, aquele mar e aquele céu... Nada daquilo me acalmava. E se eu gritasse, talvez? Quem sabe com um grito forte — como aqueles que eu ouvia em batalhas, em outras eras, outras vidas —, o segredo pudesse se dissipar em meio ao azul? Respirei fundo e me preparava para libertar meu segredo com toda fúria, quando vi brilhar na areia, lá embaixo na praia, um ponto branco. Desci pelas pedras e notei que as ondas não me queriam por perto. Elas me acertavam, me atacavam com uma cólera decidida, conheciam a seu modo meu exato objetivo. Não hesitei. Segui meu caminho em direção ao ponto que me iluminava, que me atraía e um calafrio agradável me tomou conta ao ver que o ponto, pálido, nada mais era do que uma singela e encantadora concha. Por mais simples que fosse, ela sabia que, ao longo de toda a costa, apenas ela estava ao alcance de alguém. Sim, ela era a única concha de toda a costa, sozinha e vaidosa, esquecida em meio àquela enorme faixa escura de areia esverdeada. Não havia uma estrela no céu, não havia testemunhas. O brilho da concha era a única luz da praia, a única luz existente em meu reino e eu, pecador tirano, estava a um passo de sua pureza. Teria alguma criatura visto tal pedaço de luz e o ignorado? Que sereia teria deixado ali, em areias tão escuras, tal artefato? Por quê? Perguntas tolas surgiam em minha mente. As ondas transpareciam todo o seu desespero diante da cena. Eu podia ouvir seus gritos, suas súplicas. Nenhuma onda, nenhum trovão — ou Deus — foi capaz de me impedir. Tomei a concha em minhas mãos, trazendo a mesma à altura de minha boca. Assim, contei meu pesado segredo àquele ser puro que, até então, desconhecia a escuridão que o homem reprime em si. Senti a angústia e a tristeza tomarem conta das ondas, do vento e do céu, que recolheu seus trovões. Já estava feito: meu segredo não se encontrava mais em mim e a concha estava cinza e seca, talvez morta. Voltei a mim ao perceber que um vento seco lançou a concha em direção às ondas, levando-a para longe dali, com seu novo segredo — ou sina — de volta às suas sereias. Fui covarde, fui tirano, fui egoísta... Fui, da pior maneira, humano. E após três luas, mortas e frias de tristeza, pude avistar três sereias... Estiradas sobre a antiga areia escura. Corpos sutis que, em algum momento, tentaram ouvir um segredo que ecoava mar adentro.

Henrique Meirelles

Jornal Plástico Bolha #14  

Jornal literário independente aberto à publicação de poesia e prosa de autores contemporâneos.

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