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plástico bolha aparentemente insólito...

Distribuição Gratuita

Ano 2 - Número 13 - Junho/2007

Como cada número do Plástico Bolha traz uma novidade, está edição dá as boasvindas aos autores e leitores mineiros. A partir de agora, nossa publicação passa a circular em faculdades, livrarias, butecos e centros culturais de Belo Horizonte e, a cada edição, traremos também o texto de um autor mineiro na coluna Bolhas Geraes. Nossa entrevista é com Antônio Torres, autor de 13 livros, entre eles o premiado Essa terra, que fala conosco de seus projetos e do ofício da escrita. A professora Santuza Cambraia Naves, assina o Aos alunos com carinho – mais uma novidade: é a primeira professora que não pertence ao Departamento de Letras a assinar a coluna. O saudoso professor Junito de Souza Brandão, um dos maiores responsáveis pela introdução dos estudos da antiguidade grega no Brasil, é lembrado e homenageado por Miriam Sutter. Paulo Henriques Britto nos mostra riquezas escondidas num quarteirão do Leme na coluna Puzzles e Ana Chiara desvenda mais uma figura feminina da literatura, dessa vez Clarice, na coluna Mulheres-Damas. Gregório Duvivier nos traz Subjetivas Urbanas; Clique Aqui com o novo museu D´Orsay on-line; um poema em esperanto; mais um fotograma do Manifesto Sampler e o final surpreendente da saga de Mary Blaigdfield. Com vocês, o Plástico Bolha 13 – poemas, contos, pão de queijo e muito mais!

intuo tua boca carnuda dando (doce cena) na maior orgia a língua a alguém enquanto todo mundo doido duvida da tua aliteração 

EXAMINANDO A LÍNGUA

Heinz Langer

Bioquímica

Doidivanas Dedos magros ofereciam o seio murcho à boneca nua,

Esse sistema simples e ao mesmo tempo complexo de monossacarídeos

náilon louro contra a pele escura, opaca e suja da mulher.

levados às células em um movimento rápido, descontínuo, frenético e com nexo, que passa pelas artérias, veias e capilares. E eu aqui me descrevendo

Braços finos aninhavam fraldas, quase trapos, lábios secos

como seu antígeno lutando contra a fagocitose. Eu sou seu soluto e seu

murmuravam nananenéns. Àquela hora da madrugada, ela nem

solvente nessa mistura permeável de substâncias químicas em que nossos

se dava conta da espuma de sabão e detergente que escorria de

pensamentos fogem. Seguido de um fogo que vem ao queimar o gás C4H10,

dentro do bar, diluindo o sangue e a urina entre suas pernas.

aumentando nossa chama, que, como a circulação, passa da cabeça aos pés. Nessa hora, nossos pólos se atraem, misturando-se como se fosse uma

Fedor de merda e creolina, cachaça e restos de comida.

molécula de detergente, as quais atraem uma ponta de água e outra de óleo,

Dois moleques se aproximaram, sem medo de tão sacanas.

não nos separando mais. No ápice da nossa ebulição bioquímica, já somos

Um puxou a boneca, outro desafiou a mulher.

uma mistura homogênea, testemunhando a mitose dessa nossa relação

Mesmo entre dentes, num fiapo de voz, ela reagiu :

efêmera. E, para finalizar nossa fusão, cai a chuva ácida, lavando nossos

— Dá meu neném, filho da puta; tá na hora dele mamar.

corpos e nossas peles ávidas e depois, lentamente, voltando ao normal a nossa respiração.

Marilena Moraes

                      

Isabel Diegues            

NESTA EDIÇÃO Antônio Torres

Santuza Cambraia Naves

Joana Ferreira

Paulo Henriques Britto

Marilena Moraes

Miriam Sutter Lucas Lodi Eduardo Rebuzzi Filho Constanza de Córdova Isabel Diegues Ana Chiara

Mauro Gaspar

JOANa Ferreira

Gregório Duvivier

Ana Carolina Cabral

Lasana Lukata Manuelle Rosa aLMIR cHIARATTI ANGELO ABU André Sigaud Alice Sant´anna Mary Blaigdfield

Fred Coelho

Heinz Langer

Kiko Ferreira

LUIZ COELHO

Manuela Cantuária


Aos alunos com carinho

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O que poderia dizer de novo para vocês, queridos alunos de Letras que freqüentam os meus cursos de antropologia? Já exploramos algumas convergências entre os recursos etnográficos e os instrumentos de análise legados pela teoria da literatura. Procuramos também desconstruir as classificações que separam de maneira rígida o mundo da literatura de outras práticas culturais, como se a arte de escrever existisse à parte da cultura e – pior ainda – como se a realidade se adequasse às repartições departamentais. E vimos que, pelo contrário, o que se percebe como “realidade” ordenada não passa de um caos, e que na medida em que nomeamos os fragmentos desse caos conferimos sentido às coisas e à vida. Sei também, por experiência própria (pelos menos a partir de três cursos em que trabalhei com Julio Diniz), que os professores do Departamento de Letras da PUC costumam dialogar com os antropólogos e têm familiaridade com as discussões levantadas principalmente por uma certa tradição da teoria antropológica contemporânea, como a representada pela concepção de cultura de James Clifford, que a vê como uma escrita. Assim, para não ficar repetitiva, optei por pensar livremente e equiparar a cultura a uma colcha de retalhos. Vocês poderiam objetar que a metáfora da colcha de retalhos não seria muito diferente das imagens da colagem ou da bricolagem criadas por Claude Lévi-Strauss em O pensamento selvagem. E eu argumentaria que o meu propósito, além de mais modesto, advém de uma experiência diferente. Mas para explicar isso tenho que contar uma história. Tudo começou há alguns anos quando, numa viagem a Minas, encomendei a uma pessoa muito simples uma colcha de retalhos. Achava que era o complemento que faltava para o quarto de hóspedes da minha casa, tendo em vista o estilo rústico de todo o ambiente (se é que o modesto ambiente do meu quarto de hóspede tem estilo). Qual não foi a minha surpresa quando, meses depois, a colcha foi entregue! Vi, desde o primeiro momento, que ela não correspondia ao que eu desejava. Primeiro porque logo percebi que os retalhos não combinavam uns com os outros. Ao contrário do que imaginava – retalhos de algodão ou algo semelhante, todos eles de cores fortes e sem estampas, como via desde menina nas fazendas mineiras —, os padrões destoavam entre si. Pedaços de fazendas de algodão emendavam-se com recortes de tecidos sintéticos ou com estampas pretensamente “modernas”, simulando motivos indianos ou de um lugar exótico qualquer. A experiência foi decepcionante, sem dúvida, mas ela me propiciou, por outro lado, uma espécie de insight. Comecei a pensar que a colcha de retalhos correspondia à condição da sua criadora: uma mulher submetida, ao longo da sua história de vida, tanto à tradição quanto à novidade. Bem, poderíamos todos argumentar que esta é exatamente a proposta cultural de Oswald de Andrade, que inspirou movimentos estéticos bastante interessantes. Só que, neste caso, a receita oswaldiana não levou a nenhuma solução cultural magnífica, como a bossa nova, por exemplo, que críticos como Augusto de Campos e José Miguel Wisnik viram como o resultado surpreendente da mistura do “fino” com o “grosso”. Na verdade, eu só via o “grosso” ou, para ser mais explícita, um monstrengo na melhor acepção da palavra. Raciocinei então que a costureira, na condição de uma pessoa muito pobre, só teve acesso ao lixo da cultura industrial, não conseguindo, como outros artesãos, ou bricoleurs — como é o caso de Sabato Rodia, que construiu as Watts Towers de Los Angeles — ser criativa com os detritos. Outro problema: a colcha ficou curta, não dando conta de todo o comprimento da cama, o que me levou, apesar de rejeitá-la, a tentar completá-la anos depois. Pedi então a uma pessoa conhecida que a levasse à sua costureira do Morro dos Prazeres, em Santa Teresa. O resultado foi ainda mais impactante que o primeiro, quando percebi que a colcha foi completada com retalhos de estampas de oncinhas. Pensei: “Eis aí um autêntico Frankenstein”. Resumo da ópera: sem coragem de expor a colcha de retalhos, guardoa numa espécie de Limbo caseiro, bem em cima de um armário. Mas devo confessar que me apeguei a ela. De vez em quando eu a tiro do armário, a aliso e fico a contemplá-la. E nada me tira da cabeça a idéia de que ela representa como nenhum outro objeto a imagem apropriada para se pensar a idéia contemporânea de cultura, pois, tal como a colcha citada, a cultura é vista hoje em dia como algo continuamente inventado e reinventado no plano individual. E o resultado da invenção provoca respostas diferenciadas em termos de apreciação estética. Para alguns, é ótimo; para outros, é péssimo. Evidentemente, há um certo número de repertórios legados tanto pelo passado quanto pela “tradição da novidade”, mas o artesão da colcha (ou da cultura), à maneira do bricoleur, para o bem ou para o mal, faz as suas escolhas.

Santuza Cambraia Naves

Departamento de Sociologia e Política da PUC-Rio.

Subjetivas por Gregório Duvivier

Urbanas I Jonas Quando ele acordou, já era tarde: estava em uma calçada da Lapa abraçado com um cachorro. Não, aquele não era o seu cachorro. Era um cachorro qualquer, um viralata fedorento que ele nunca havia visto antes. Soltou-o aos poucos para não acordá-lo. Foi aí que ele percebeu que em suas mãos, cheias de purpurina, havia um revólver. Assustado, tentou se levantar. Mas sua cabeça pesava toneladas. Cambaleou, pisou numa poça, quase caiu, andou três passos e só aí notou que estava de salto alto. Foi subindo os olhos pelas próprias pernas e logo identificou o seu traje como um vestido de lantejoulas, sem nada por baixo. Perplexo, levou as mãos ao rosto e ao encostá-las na própria face percebeu que sangrava nas bochechas e no nariz. Subindo um pouco mais a mão para os cabelos, apalpou-os e logo se deu conta de que era uma peruca que ele estava usando, da pior qualidade. Começou então a vasculhar sua memória na esperança de encontrar algo que justificasse seu estado. Mas não se lembrava de nada. Quer dizer, de uma coisa ele se lembrou: Jonas. Esse era o nome do cachorro. Voltou a sentar no chão e disse para ele:   - Jonas, você agora é meu único amigo, tá? Ao que Jonas consentiu. E os dois, resignados, se dirigiram ao boteco mais próximo para tomar uma cachaça que curasse aquela ressaca.

plástico bolha produzido pelos alunos de Letras da PUC-Rio

Editor Lucas Viriato Editora Assistente Marilena Moraes Conselho Editorial Luiz Coelho; Gregório Duvivier; Isabel Diegues

Comissão Julia Barbosa; Isabel Wilker; Paulo Gravina; Alluana Ribeiro; Mauro Rebello; André Sigaud; Flora Bonfanti Projeto Gráfico Mariana Dias

Tiragem: 8.000 Impresso na CUT Graf Distribuído no Rio de Janeiro e Belo Horizonte

Coordenação Luiza Vilela Equipe Márcia Brito; Marcelo Tapajós; Rebecca Liechocki; Camila Justino; Marcela Rosa; Esthér Oliver; Henrique Meirelles; Andrew McAlister, Beatriz Pedras

Envie seus textos para: jornalplasticobolha@gmail.com

Revisão Rubiane Valério; Rafael Anselmé; Gabriel Mattos Apoiadores Marilena Moraes; Glaucia Sposito; Isabel Diegues; Luiz Coelho


Timo

Medo

mi estas mi estas sola mi estas sola en ĉambro mi estas sola en ĉambro malluma mi estas sola en ĉambro malluma kun timo mi estas sola en ĉambro malluma kun timo de esti sola esti sola kaj en mallumo esti sola kaj en mallumo kun timo de esti sola mi estas kun timo en mallumo kun timo de esti kun timo de la mallumo esti en ĉambro sola malluma kun timo de esti esti en ĉambro sola esti kun timo sola de havi timo de mallumo esti sola mi estas kun timo malluma de havi timo de esti mi estas en ĉambro kun timo de la timo de esti kun timo de esti en la mallumo kun timo de esti en ĉambro malluma kun timo de esti sola en ĉambro malluma kun timo de esti kun timo

estou estou sozinho estou sozinho num quarto estou sozinho num quarto escuro estou sozinho num quarto escuro com medo estou sozinho num quarto escuro com medo de estar sozinho estar sozinho e no escuro estar sozinho e no escuro com medo de estar sozinho estou com medo no escuro com medo de estar com medo do escuro estar num quarto sozinho escuro com medo de estar estar num quarto sozinho estar com medo sozinho de ter medo de escuro estar sozinho estou com um medo escuro de ter medo de estar estou num quarto com medo do medo de estar com medo de estar no escuro com medo de estar num quarto escuro com medo de estar sozinho num quarto escuro com medo de estar com medo

mi estas kun malta timo

estou morrendo de medo

Tradução para o Português de um poema em esperanto, língua criada, por volta de 1887, pelo médico polonês Ludwig Lazar Zamenhof (1859-1917), para possibilitar a comunicação internacional.

Lucas Lodi

Condição II

AO MESTRE COM SAUDADE SAUDADE! A palavra mais sonora da língua portuguesa serviu-me de introdução à homenagem recentemente prestada a um apaixonado pela Cultura Clássica e a um verdadeiro Mestre e, por que não dizer, Mago da arte do magistério: o professor Junito de Souza Brandão. Sua ausência, já de 11 anos, (Junito faleceu em 15 de maio de 1995) só faz reavivar em nós, seus ex-alunos, o póthos, a palavra mais próxima de “saudade” no léxico grego e que significa, na própria tradução que lhe dava o mestre, “o desejo da presença de uma ausência”. Bacharel em Letras Clássicas pela PUC-Rio em 1948, Junito cursou Arqueologia, Epigrafia e História da Grécia na Universidade de Atenas na sua juventude e licenciou-se em Letras Clássicas na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da UERJ em sua maturidade. Autor de obras de inestimável valor acadêmico, Junito deixou-nos sua sábia presença em Mitologia grega, em seu Dicionário mítico-etimológico e em muitos outros livros de sua autoria, agora publicados sob o selo da Editora Vozes. Deixou-nos ainda sua biblioteca particular, acessível a todos na Biblioteca Central da PUC. Mas todas as leituras e palavras ficam aquém da experiência e do privilégio de tê-lo conhecido pessoalmente como professor. Qualquer aula de Junito era um evento em si. Dotado de um carisma todo especial e único, sem recorrer a aparatos tecnológicos de espécie alguma, Junito levava os alunos a uma viagem cheia de descobertas por suas tão queridas Grécia e Roma. Os alunos ficavam simplesmente fascinados com o que ouviam, e em suas aulas as horas tornavam-se minutos e passavam rápidas demais. Fazia-nos pensar simultaneamente em literatura, filosofia, etimologia, antropologia, história, arte, psicologia; enfim, despertava-nos para o importante e indispensável exercício de aprender a entrecruzar conhecimentos antigos e modernos, o que conferia às suas aulas um caráter genuinamente interdisciplinar. A interdisciplinaridade, conceito tão apregoado, mas tão difícil de ser obtido em nosso mundo acadêmico afeito a especializações, era em suas aulas uma prática efetiva. A ele, meu carinhoso respeito e admiração eternos! Foi para mim um Mestre severo e um amigo sábio e generoso.

Miriam Sutter

Miriam Sutter é professora de estudos clássicos da PUC-Rio

Entre as coisas que sobraram desde que Rodolfo partiu, estão: a caixa, o laçarote azul e alguns cacos — o salto, ele calculou mal, e o prato (caríssimo, herdado da avó) era de porcelana. Constanza de Córdova

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Versos Perversos Insanos e inversos. perversos versos por versos.

Milarré Simi No canto do quarto, encostado, Não passa de uma alma vazia. Seu torso, em madeira, arranhado Só canta sua dor, que escondia. Reconta sua história, em vão, De quando via a luz do dia E em sua profunda escuridão Só se ouve a triste melodia De um velho e gasto violão Com uma corda arrebentada.

Almir Chiaratti

André Sigaud

mulheres-damas por Ana Chiara

Clarice 4

Puzzles

Essa grande e inumana galinha Roberto Correa

Vomita tudo de vez, querida. Nada no íntimo Só uma contração do hiato E ardência de coca-cola.....   Sem essa de sins assim no meu ouvido nãos na contramão do meu desejo faz as unhas no meu pedicuro de Vênus     Deixa sair...., meu bem, O azedo da carência Respira, respira, respira....   Cruza as pernas daquele jeito que eu gosto  Por baixo da saia florida um grande susto epifânico

O screen shot do Google Maps acima mostra um trecho do Leme entre a avenida Atlântica, a avenida Princesa Isabel e a rua Antônio Vieira, incluindo parte da rua Gustavo Sampaio. Se as nossas autoridades municipais tivessem pelo Rio de Janeiro o zelo que têm as prefeituras européias por suas cidades, haveria nesses quarteirões da Zona Sul carioca ao menos três placas comemorativas em prédios, e quem sabe um marco de pedra fincado num determinado ponto da areia da praia do Leme. Pois nesse pedaço do Rio, entre os anos 50 e os 70, foram concebidas e escritas algumas obras importantes das literaturas brasileira e norte-americana do século passado. Em 1955, um jovem chamado Carlos Sussekind, que morava com a família na rua Gustavo Sampaio, surtou em plena praia do Leme e foi internado numa clínica psiquiátrica em Botafogo. Seu pai, um juiz também chamado Carlos Sussekind, já estava havia algum tempo preocupado com o comportamento cada vez mais estranho do rapaz, e havia registrado suas preocupações no imenso diário ao qual dedicava boa parte das horas de seu dia. Passou a visitar regularmente o filho hospitalizado; no diário, não apenas anotou o que transcorreu nessas visitas como também transcreveu os poemas do jovem, encontrados em seu quarto depois da internação, e chegou ao requinte de colar numa das páginas, com fita adesiva, uma plantinha que o rapaz deu à mãe quando ela foi vê-lo na clínica. Vinte anos depois, o pai já morto, Carlos Sussekind utilizou as anotações do diário referentes ao ano de 1955 para escrever um dos grandes romances brasileiros das últimas décadas do século passado: Armadilha para Lamartine, assinado por “Carlos & Carlos Sussekind”. Da janela da “varandola” do apartamento dos Sussekind, onde o pai costumava escrever, vêem-se os fundos de um prédio com entrada à rua Antônio Vieira e frente para a Atlântica. Era na cobertura desse edifício (que aparece bem no centro da foto) que a poeta norte-americana Elizabeth Bishop e sua companheira, Lota de Macedo Soares, se instalavam quando desciam de Petrópolis, onde passavam a maior parte do tempo. Não sabemos se Bishop estava no Rio no dia em que o surto do jovem Carlos provocou alvoroço na praia do Leme. Mas quando um amigo de Lota, Carlos Lacerda, foi eleito governador e convidou-a para criar um parque no recém-criado aterro do Flamengo, o casal passou a morar no Leme e a usar a casa na serra apenas nos fins de semana — para a grande contrariedade de Bishop, que amava a casa de Petrópolis e detestava o Rio. Por outro lado, se não estivesse morando no prédio da Antônio Vieira, talvez Elizabeth não tivesse assistido de binóculo, em abril de 1963, à perseguição e morte do marginal Micuçu, no morro da Babilônia. Sob o forte impacto da leitura de Morte e vida severina de João Cabral, Bishop escreveu então “The burglar of Babylon”, hoje considerada uma das mais perfeitas baladas da moderna literatura de língua inglesa. Alguns meses antes, em outubro de 1962, Bishop comentara, numa carta a um casal de amigos nos Estados Unidos: “Encontrei uma escritora contemporânea de quem realmente gosto — mora na mesma rua que nós, no Rio [...] não apenas gosto muito dos contos dela como também gosto dela pessoalmente. Ela tem um nome maravilhoso — Clarice Lispector (é russo).” Na verdade, Clarice morava na Gustavo Sampaio, a rua de Carlos Sussekind; na mesma época em que Bishop elaborava sua balada, certamente ela estava escrevendo alguns dos contos magistrais que seriam publicados em 1964 na coletânea A legião estrangeira. Clarice morreu em 1977; Elizabeth, já de volta a Boston, veio a morrer dois anos depois. Apenas Carlos permanece no mesmo apartamento do Leme em que vive desde menino, imerso na leitura e releitura das 30.000 páginas do diário de seu pai. Paulo Henriques Britto


INVASORES DE CORPOS: MANIFESTO SAMPLER

Separação de sílabas

FOTOGRAMA III: DESAPROPRIAÇÃO E COMBATE

quando a professora perguntava

A escrita sampler vive numa cidade de senhas e mora em um bairro de vocábulos conjurados e irmanados, onde cada ruela adota cores e cada palavra tem por eco um grito de batalha. A escrita sampler como ação política. Quais os limites de um texto? Todo autor sabe de antemão os limites de seu texto. Autorias. Direitos. Originais. Restrições orçamentárias. Público. Estilos. A escrita sampler atravessa esses limites. O espaço da escrita é um espaço de poder pelo enfrentamento constante desses limites. Reconheço o que sou, e se também sou e estou no que reconheço, por que não seria meu também esse espaço? A propriedade não existe, tudo é de todos — este é o horizonte utópico de Proudhon. Mas ela é imposta e existe de fato, então o sampler-combate desapropria, desorienta, ultrapassa, surrupia, furta. Mão leve, mão grande, falsifica, usando as armas que estão para nós, e à nossa espreita — o que é roubar um banco comparado a fundar um? Registrar para experimentar livremente. → Obra dada, obra re-vista, obra re-concebida: surge um espaço discursivo em que vários “autores” se manifestam através da escrita aberta: só interessando o que é do outro, a posse do alheio, a literatura dissimulada, o recorte-e-cola, os SAMPLES dos textos somados no mesmo tempo de um novo texto criado. O triângulo posse-citação-criação como força motriz de um pensamento crítico atual que não só lê, como cria. A tensão permanente entre ficcional e biográfico, entre invenção e inventado. Mão nervosa: escrever para todos os lados = não ser APENAS o invadido escrevendo. A astúcia do mentiroso, a apropriação descarada do corpo-fala do outro, comer o antropófago abrindo um jogo permanente e caótico de redirecionamento de vozes. Esse texto não é meu. Para uso de todos, em qualquer circunstância. A escrita sampler se faz em um pensamento selvagem, um pensamento do e no risco. Pensamento do risco sampler: escrever e ler sempre através do estatuto do Ataque, Perigo & Ritmo. O senhor Keuner tem o vício de pensar de modo frio e incorruptível. Para que serve isso? Não emprego o sampler “livremente”; posso fazê-lo como educador, político, organizador. Não existe critica à minha atuação literária – plagiador, perturbador, sabotador – que eu não incorporaria como título de honra à minha atuação. A escrita sampler como uma TÁTICA e um MODO DE FAZER = uma prática na qual o usuário se reapropria do espaço organizado pelas técnicas de produção sociocultural. Escrever des/organizando o espaço existente em direção a um novo espaço em permanente constituição. O uso de táticas porque vivemos em um sistema (literário) demasiadamente vasto para ser só nosso e com malhas demasiadamente apertadas para escaparmos. O meu “eu” não garante nada nem pode ser parâmetro zero de criação. Não podemos ignorar que escrevemos dentro de um sistema. Atravessemos. A microfísica do poder privilegia o aparelho produtor da disciplina que está por trás dos bastidores, tecnologias mudas que determinam ou curto-cuircuitam as encenações institucionais. Se é verdade que por toda a parte se estende e se precisa a rede de vigilância, mais urgente ainda é descobrir como é que uma sociedade inteira não se reduz a ela: que procedimentos populares (também minúsculos e cotidianos) jogam com os mecanismos da disciplina e não se conformam com ela a não ser para alterá-los? Enfim, que “maneiras de fazer” formam a contrapartida ao lado dos consumidores dos

processos mudos que organizam a ordenação sociopolítica: a escrita sampler é uma dessas maneiras de fazer. E o que são maneiras de fazer? São formas subversivas e subterrâneas assumidas pela criatividade dispersa, tática e bricoladora dos grupos ou dos indivíduos presos nas redes de vigilância e produção. Esses modos de proceder e essas astúcias de compositores formam, no limite, a trama de uma antidisciplina. Operação para a re-atualização da literatura menor, uma literatura “pirata”, melhor: uma literatura pirata que devora e reformula para se expressar. Opiniões se propagam dividindo; pensamentos, brotando. Quem nada cede à língua, nada cede à causa. Quem não é capaz de tomar partido tem de calar-se. O “E” do sampling não é nunca uma sobreposição (pelo menos não total, não quer esconder nem tapar a “origem”). É muito mais uma justaposição, uma re-posição”, ou ainda: um alargamento do espaço. Esse é o “poder” da escrita sampler, sendo “poder” o que determina a ocupação de espaços. O sampling quer invadir, e invade, esse espaço, sem contudo bloquear os outros corpos, ao contrário, ele se transforma neles também. Tornar seu o que é de outro, e nesse momento em que me aproprio, desaproprio o que é de outro e rejeito a minha posse sobre ele — não uma pilhagem, uma libertação (que pode ocorrer através da pilhagem). Desapropriação — carta de alforria que é instaurada no primeiro ato e permanece legislando para os que a seguirem.

como era a minha família eu dizia que era um tritongo havia cigarra dançávamos jongo mas a mãe se foi a cigarra morreu a dança acabou a tristeza invadiu meu pai e a mim e viramos ditongo mas veio a madrasta que teve três filhos me jogou num hiato e fiquei feito um i em ICARA-í 5

AVISO AOS NAVEGANTES

Os piratas não têm garantia nem procedência. Nada pior do que essa obrigação da pesquisa, da referência e da documentação que se instalou no campo do pensamento, e que é o equivalente mental e obssecional da higiene. Os piratas trabalham sem armaduras de qualquer espécie e sem querer saber nada sobre higiene literária. Os piratas invadem e incorporam o mundo regrado das Letras, o mundo asséptico da Academia, e desaparecem e se camuflam na hora da fiscalização da Vigilância Literária. Citações são como salteadores no caminho, que irrompem armados e roubam ao leitor-ouvinte a convicção. O que é apropriação? Ato ou efeito de apropriar (-se); acomodação, adaptação. Tornar seu o que é de propriedade alheia? A etimologia começa no século XIII com um adjetivo, “próprio” (pertencente, adequado), que vem do latim proprius. Logo depois, “propriedade”. No século seguinte, surge “proprietário” e “apropriar”. Mas “apropriação”, assim como “desapropriação”, só aparece em 1813. A História através da etimologia é também uma narração e uma interpretação (e às vezes pode ilustrar muito melhor o caminho percorrido). A relação entre indivíduo e propriedade tendo como origem um adjetivo, uma qualidade individual, uma propriedade individual. A transição da sociedade medieval para a sociedade moderna passando pela incorporação, na linguagem, de seus pressupostos: o surgimento do individualismo e da burguesia modificando a visão de um poder inquestionável, a posse material considerada como um bem e não mais uma dádiva. Abre-se a possibilidade de apropriação e desapropriação. “Apropriar-se” como uma possibilidade quase que democrática, ainda que como crime (mas não mais como blasfêmia). Tornar seu o que é de propriedade alheia — o que significa roubar um banco comparado a fundar um?

Lasana Lukata

CLIQUE AQUI www.musee-orsay.fr O recém-lançado site do Musée d´Orsay leva você a uma viagem por esse museu instalado numa gare em Paris, agora ao alcance do seu mouse. Embarque por um tour pela diversidade da criação artística do mundo ocidental. Famoso por sua coleção de telas impressionistas, o museu surpreende a todos pela originalidade na seleção de obras inesperadas. Se você não conhece, clique. Se já conhece, é como clicar duas vezes.

vale o clique!


Bolhas Geraes

A Pessoa É você a quem eu mais odiaria, se isso fosse possível. Odiaria com toda a minha capacidade e com todo o meu empenho. Descarregaria em cima de você a pureza que o ódio, assim como o amor, tem quando não tem culpa. Não me deixaria distrair pelos seus talentos, como você deveria ter se deixado. Se eu pudesse odiar você, meu ódio seria aquele mesmo que aperta lágrimas do coração. Que queima o peito e o infla com a razão de todos os injustiçados. E depois, odiaria friamente, calculadamente. Se fosse possível odiar você, trancar-me-ia em meu quarto sozinha. Faria listas, protótipos de um manual, sobre cada coisinha que odiaria em você, se isso fosse possível. Mas, a sete palmos de mim, você se esconde. A sete palmos, você foge e me cala. Por causa de soberanos sete palmos, não me é possível odiar você. Mas, na minha inocência de criança malcriada, carrego a pá comigo. Com a esperança inabalada de heroína de um conto de fadas, eu me iludo com a decisão de odiar você, sim. Mesmo que seja impossível. Mesmo que não sejam sete palmos de terra, mesmo que sejam sete palmos de cimento. 6

Mesmo que seja assim, não lhe oferecerei meu amor que nem é amor, é mais uma admiração misturada com medo de ser parecida contigo. Para você, só tenho meu ódio impossível. Para você, só tenho isso. Você, que adiou a vida. Você, que deixou de procurar e de esperar. Você, que recusou a vida que lhe impuseram, mas que desistiu da vida de seus sonhos. Você, que descobriu quem realmente era, que reconheceu seu próprio valor (e gostou dele). Você, que descobriu e deu todos os passos, mas se esqueceu (ou não teve coragem?) de dar o último. Você, que se deixou esmagar pela desesperança, sua e dos outros (e minha também). Você, que poderia ter sido, e não foi. Você, a quem eu odiaria se fosse possível odiar você sem odiar a mim mesma. E na impossibilidade do mundo no qual seu passado se encontrou com o seu presente, vou odiar você. Acabo, com a força do meu ódio e o desespero da minha inquietação, com os palmos que nos separam. Faço isso porque é preciso que você viva. Porque é preciso que você ressuscite. Para que eu me salve, é preciso que eu não veja o meu corpo no lugar onde o seu reside.

Ana Carolina Cabral

A melhor parte de um ipod sem dúvidas é ver o vendedor de paçoca e chocolate-dois-por-um-real interromper o silêncio da sua viagem mudo.

tsumântrica   água

mole dura

  tatibitática   até que fúria      

Kiko Ferreira - BH

a primavera

 a primavera não se dilui nem mesmo através da cortina de pano   inútil essa tarde de quarta ou quinta-feira? você com olhos de sono quinquilharias orientais chão de taco parece até feriado em outro país

Manuela Cantuária

Alice Sant´anna

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Entrevista por Luiz Coelho

Um mestre da prosa

O escritor Antônio Torres, autor 13 obras, entre elas o premiadíssimo Essa terra, esteve na PUC-Rio no início deste mês, quando bateu um papo com o plástico O resultado da conversa é essa entrevista, na qual o autor fala sobre seu estilo, suas referências e o que há de biográfico em sua obra. Tudo com muito bom-humor.   

Espero que sim. Porque sou um prosador movido por poesia e música. Na minha infância, se você me perguntasse o que eu queria ser quando crescesse, eu lhe responderia, cheio de fé e orgulho: “Castro Alves!” Só não queria era morrer aos 24 anos, como ele. Acho que me tornei prosador por ser incapaz de escrever um único poema, unzinho que fosse, à altura, por exemplo, do invejável Ossos do Ofício, de Paulo Henriques Britto, que este Plástico Bolha publicou na capa da sua edição de maio passado. E que dizer da minha falta de talento musical? Ai se eu pudesse escrever com a sonoridade do violão de Baden Powell, do piano de um Tom Jobim, ou o de Bill Evans, numa valsa de Bach, ou de Luiz Eça tocando Melancolia – que ele compôs aos 15 anos, imagine -, ou do trompete de Miles Davis, em seus uivos ora líricos, ora lancinantes! Mas aí é pretensão demais, não é, não?

acabou fazendo parte de uma trilogia (Essa terra/ O cachorro e o lobo/ Pelo fundo da agulha). Não nos esqueçamos do que disse Gustave Flaubert: “Madame Bovary sou eu!” De alguma maneira, há traços do autor por trás de seus personagens, até os femininos. Arquivo pessoal

Em seus relatos biográficos, você sempre diz ter escrito, quando jovem, alguns versinhos, até descobrir sua vocação para a prosa. Ficou algum eco de poeta na sua escrita?

propagava pelas redondezas do povoado do qual estávamos próximos. “Cai a tarde, tristonha e serena...” Era a hora da Ave-Maria. Piores ainda eram os fins de tarde dos domingos, quando as visitas pegavam o caminho de volta às suas casas, deixando-nos a esperar, melancolicamente, a escuridão da noite, quando só teríamos por visitantes as almas penadas dos nossos mortos. É por isso que tenho uma profunda relação estética com o Pedro Páramo, de Juan Rulfo, cujo cenário é tão fantasmagórico quanto o nosso noturno sertão era, no tempo em que eu vivia nele. Em Essa Terra, as vozes de muitos narradores se confundem com as de outros personagens e, em alguns casos, com a sua própria voz. Há alguma intenção política nesse modo de narrar?

Que autores, além do tão citado William Faulkner, o influenciaram? Você começa elegendo os seus príncipes. Querendo ou não, acaba tendo ressonâncias deles no seu próprio texto. Minhas influências são uma mistureba da poesia romântica às guarânias e boleros – melosos cantores, por favor, cantem outra vez Mujer, si puedes tú con Dios hablar... -; e da literatura de cordel a Vinicius de Moraes, do baião de Luiz Gonzaga ao mexicano Juan Rulfo, o autor de Pedro Páramo e Chão em chamas; de Chico, Caetano & Gil a Guimarães Rosa; dos cantadores das feiras interioranas ao cosmopolita Scott Fitzgerald; de Graciliano Ramos ao jazz de Thelonious Monk e John Coltrane; de Faulkner e Truman Capote, sobretudo o Capote do conto Memória de um Natal, uma pequena obra-prima. Também bebo nas fontes dos mais admiráveis estilistas do continente americano: Machado de Assis e Jorge Luis Borges. As influências variam de livro para livro. Não escapei da de James Joyce em Os homens dos pés redondos, o meu segundo romance. Tudo que espero é que tenha sobrado para mim, pelo menos, um lampejo do talento que tanto admiro nos outros.

bolha.

Essa terra é anexado à tradição da literatura sertaneja, embora seja um livro contemporâneo. O romance é escrito em lugar de discussão urbana: o êxodo dos nordestinos para os grandes centros. O que dizer do arcaico e do contemporâneo na nossa literatura? Parece-me que esse tipo de conflito não está mais na relação campo- cidade, e sim no transe entre as periferias e os centros das metrópoles, que no caso do Rio de Janeiro envolve também um outro, morro-planície. Isso tem gerado uma literatura de alta voltagem, como a do carioca Paulo Lins e a do paulista Marçal Aquino, só para citar os dois exemplos que me ocorrem.

Alguns estudiosos atribuem à sua obra um fator autobiográfico, como em Essa terra. Há alguma empatia entre Antônio Torres e Totonhim? Que acha dessas leituras?

No seu conto Por um pé de feijão, assim como no romance Balada da infância perdida, percebemos uma memória melancólica da infância atrelada à vida rural. Há alguma relação estética nesse recurso com a perspectiva de fracasso que envolve muitos personagens em Essa terra?

Essas leituras vêm desde a minha estréia, em 1972, com o romance Um cão uivando para a lua. No princípio, isso me incomodava. Depois passei a gostar, achando que elas conferiam uma certa veracidade aos meus romances. Claro que sinto empatia pelo personagem Totonhim, tanto que ele

A atmosfera melancólica que você percebeu nesses textos pode ter algo a ver com a memória que tenho da minha infância, quando éramos todos, lá no sertão, envolvidos pela melancolia, a cada pôr-de-sol, ao ouvirmos a voz de Augusto Calheiros a cantar, no Serviço de Alto-Falantes, que se

Sinceramente, não tive tal intenção. O que tentei captar foi, primeiro: o estado de choque de Totonhim, a partir do momento em que ele vê o seu irmão mais velho, o Nelo, enforcado na sala da casa em que ele morava e na qual hospedava aquele que voltara de São Paulo, com toda pinta de herói, mas que – viu-se isso quatro semanas depois de seu regresso à terra em que nascera -, lá chegara de mala e bolsos vazios. Segundo: o suicídio do herói enlouquece o lugar, cujo sonho era o de partir. Aquele que partiu, voltou e se matou, também matou esse sonho. “A tragédia está na volta”, já dizia Nietzsche. De alguma maneira, fui por aí, ouvindo as vozes que se entrecruzavam até a loucura (como no caso da mãe do trágico Nelo, uma das personagens mais fortes do romance Essa terra, no meu entender). O que você tem produzido em literatura? Algum projeto específico? Em setembro do ano passado, publiquei o Pelo fundo da agulha, que, como disse antes, fecha a trilogia iniciada com o Essa terra, em 1976. Neste 2007 saiu o meu primeiro livro para crianças (Minu, o gato azul), belamente ilustrado pelo jovem artista gráfico Adriano Renzi. No próximo mês de setembro, estarei lançando um livro de crônicas, perfis e memórias. Título: Sobre pessoas. Mas, sim, querida galera do Plástico Bolha: acabo de começar a escrever um novo romance, já batizado de Todos os filhos, no qual o protagonista é o Totonhim, em outro tempo - este em que estamos vivendo -, e numa nova história. Teria algo mais a dizer aos nossos leitores? O que tenho a dizer mais é que gostei da entrevista. Boas perguntas. Espero tê-las respondido a contento. Por fim, mas não por último, muitíssimo obrigado pela honra da sua atenção e apreço.

Anjos Urbanos uma comédia veneno

MASSAS - MOLHOS - PÃES - DOCES

Entregas em Domicílio Leblon: 2259-1498 Barra: 2431-9192 Laranjeiras: 2285-8377

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de Rosane Svartman direção Isabel Diegues com Anna Markun e Juliana Martins até 24 de junho sex. e sab. 21h e dom. 20h Teatro Maria Clara Machado (Planetário da Gávea)

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Dia desses

Contos de Mary Blaigdfield – A mulher que não queria falar sobre o Kentucky De Lucas Viriato

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Cabelo novo. O visual ficou um pouco diferente. Para melhor, é claro. Mais feminina. Mas para isso teve de aturar três horas naquele lugar. Conversas que não a entretinham rondavam por todas as partes. Muitos olhos se entreolhavam nos espelhos. Um odor desagradável de cabelo queimado tomava conta do local. Gritinhos, barulho de secador, fofocas! Aquele lugar não tinha nada a ver com ela — não tinha paciência com esses assuntos. Nem paciência, nem tempo. Era uma questão de prioridades. Todo o projeto estava em risco! Segredos inimagináveis estavam para ser revelados! Um grande pesadelo... E, no meio de toda a confusão, de todos os estresses dos últimos dias, ela ainda havia arrumado um espaço para ele na sua agenda. - Corolla branco. É o da senhora? - Sim, obrigada. Mary Blaigdfield pegou o carro e pôs-se a caminho do local combinado. Dirigia com cuidado, pois suas unhas ainda não haviam secado. Sorte o carro ser automático, pois ela não dirigia muito bem. Afinal, ela não entendia nada sobre carros. Sinal vermelho. Oportunidade para se olhar no espelho. A franja estava mais clara do que o resto do cabelo. “Que idéia foi essa de franja?” – pensou, irritada. Ela tentou, mas foi incapaz de se recordar de uma vez sequer que tenha saído do salão satisfeita. Dirigindo por mais alguns minutos, refletiu sobre todos os acontecimentos, uma coisa acontecendo por cima da outra. Isso gerava uma angústia muito grande. Finalmente chegou ao prédio de Henri Havengard, que a esperava com um pequeno buquê de flores sob o braço esquerdo, junto ao corpo. “Ah, Henri... Flores... O mesmo Henri de sempre...” – o coração de Mary se rendeu aos eternos encantos de um antigo amor. Todas as barreiras desmoronaram com aquele singelo gesto de delicadeza. Parou o carro rente ao meio-fio para que Henri entrasse. Ele abriu a porta e, com um largo sorriso, sentou-se no banco do carona. - Isto é para você, a mulher mais encantadora de todo o leste! - Oh Henri! Não preci... – foi interrompida. Oh, meu Deus, o que era aquilo? Flores roxas! A botânica já vinha usando Mendolatium para a produção de novas flores havia algum tempo, mas mesmo assim ela se assustou– Henri acabou notando seu espanto. - O que houve? Há algo de errado? - Não – disse tentando parecer mais calma. - É que... Sou alérgica... - É alérgica a flores? Não me lembrava disso. - Não, não. A Mendolatium... Essas flores são produzidas a partir da mutação ao Mendolatium. - Alérgica a Mendolatium? Desculpe... É que nunca imaginei que algo assim fosse possível. Você sabe, eles dizem por toda parte que... - Eu sei, Henri. Eu sei o que eles dizem. Vamos deixar essas flores de lado e sair. Isso não é motivo para maiores aborrecimentos. – Mentira. Mary passaria o resto da noite aflita. Henri ressurgiu de muito longe no passado, e isso era magnífico. Mas com ele vinha o Mendolatium, que por sua vez a remetia ao Projeto, aos problemas, ao... Aquele fluxo de idéias não poderia continuar. “Não nesta noite!” Ela precisava se controlar, respirar fundo e devagar. Era Henri que estava em jogo dessa vez. - Pronto. Problema resolvido! – disse o sempre simpático homem, fechando a sua janela logo após ter jogado as flores para fora do carro. – Nada de Mendolatium da próxima vez! “Oh Henri, por favor, pare de pronunciar essa palavra...” – pensou, esboçando um falso sorriso pela piada. - E para onde vamos? – Ela perguntou, mudando de assunto. - Eu fiz uma reserva para nós no Côté D´Alegan Bistrô. Aposto que devem ter muitas opções sem Mendolatium – disse sorridente, repetindo a piada. “Henri, chega, por favor...” – pensou, agora se esforçando ainda menos pelo sorriso. - Então vamos. – disse, dando a partida, antes que ele começasse a pensar em uma nova frase com a palavra Mendolatium. Ela dirigia nervosa. O silêncio estava começando a se tornar um incômodo; aumentou um pouco o som, que tocava algum sucesso

dos anos 70 (Não queria saber do passado). Foi Henri que quebrou o silêncio. - E então, em que trabalha atualmente? Ainda confecciona jóias? “Henri, Henri, será que você não dá uma dentro?” Como ela falaria sobre seu trabalho? Que pergunta!! Parecia que Henri estava fazendo de propósito, alfinetando-a a cada fala. – mas não podia ser verdade. Só de imaginar que Henri poderia saber de algo já enfraquecia todo o seu corpo, fazendo-o tremer. Como ele poderia ter descoberto alguma coisa? Seria esse o real motivo do encontro? Ele estaria envolvido? Ela podia se lembrar de já ter conversado sobre ele com Larie, mas... Ela não sabia mais em quem podia confiar. - Ultimamente não tenho trabalhado em nada; tirei uns dias pra mim mesma... - Entendo. Eu continuo na mesma. Os negócios melhoraram por lá. Tio Ben pretende transformar a fazenda em um parque ecológico. Já imaginou aquele lugar repleto de crianças, de animais. Assim como um Jardim Zoológico. Já imaginou Mary? Um Jardim Zoológico? “Não é possível! Não, Não, Não” – pensou. Coincidência ou não, cada assunto que Henri colocava em pauta era um trauma com o qual Mary teria que lidar em questões de segundos, antes de dar uma resposta ao menos aceitável. Improvável ele saber do incidente do Jardim Zoológico! Mas por que ela estava sendo obrigada a lidar com tudo aquilo novamente? - Eu estive em um há pouco tempo. – pausa – Você pode me passar a minha bolsa, que está no banco de trás? Preciso de um cigarro... - Você voltou a fumar? – perguntou Henri, surpreso, enquanto lhe entregava a bolsa. - Há alguns dias. Tenho passado por momentos um pouco turbulentos. - Problemas? - De certa forma... Henri, querido, podemos ficar calados enquanto fumo esse cigarro? - Ahn? Claro. – respondeu ele, achando que havia errado em algo que havia dito. Não sabia ele que havia errado em tudo! Mary Blaigdfield abriu sua janela e acendeu o cigarro, tentando se acalmar. Henri Havengard não desviava o olhar.  Ele estava com um certo ar de bobo, como de um cachorro que não entende o que fez de errado para desagradar o dono. Aqueles maravilhosos buracos no jardim não haviam agradado? Mary pensou muito, e sobre muitas coisas durante esse cigarro. Poderia ele realmente saber de tudo? Não seria a hora de largar tudo e fugir para algum país distante? Mas ela não era uma criminosa — Fora obrigada a participar daquilo tudo contra a sua vontade. E esse sujeito, com cara de idiota, que retornou do passado para lhe fazer toda a lista de perguntas inoportunas que somente as entidades divinas poderiam ter formulado! Em meio àquele silêncio — que em situações normais seria desconfortável, mas que para ela era a certeza da tranqüilidade – se podia ouvir somente algum hit dos 70 ao fundo, vindo das caixas de som do banco traseiro. De repente, Mary se desesperou ao ver que o filtro do cigarro estava próximo, e com ele chegaria a inevitável pergunta de Henri. Ela deu o último trago e jogou o cigarro pela janela. Henri se prepara para dizer algo. As mãos de Mary tremem ao volante.  Ela já sabe o que ele vai dizer. “Oh não, não hoje...” - Mary... “Não pode estar acontecendo de novo...” - Mary, eu sei... “É impossível, é impossível. Hoje não, eu imploro...” -... o que você fez... “Não pode ser... “ -... no cabelo! É essa franja! Eu estava reparando que ela está mais clara que o resto do seu cabelo. Você já usa esse penteado há muito tempo? Ufa, Mary! Essa foi por pouco, hein?   Ela é Mary Blaigdfield, e ela não que falar sobre o... Sobre o... Vocês já entenderam.

(crônica sobre a saideira) Dia desses meus ouvidos foram agraciados por uma dessas pérolas da sabedoria de botequim quando um notório freqüentador da minha varanda disse em resposta a um amigo meu que reclamara já estarmos na terceira saideira da noite: “a saideira não é um fato, é um processo”, o que prontamente nos levou todos a gargalhadas e a conclusões — precipitadas ou não — que, como processo, poderia ser caracterizado como cíclico ou linear, ou mesmo como um andar meio torto. De fato, pensar na conclusão do processo de saideira nos faz pensar em diversas hipóteses. Ocorreu a um dos presentes que esta poderia não ser concluída no caso de acordarmos pela manhã ao lado da bela mulher que conhecêramos na noite anterior e descobrirmos que, sim, o bom senso de um ser humano começa a ser seriamente afetado após a décima-primeira lata de cerveja, fato que certamente exigiria, como não, a continuidade da saideira, mesmo que seja num local distante de onde o processo se iniciara. Outros sugeriram como um fim menos trágico a esse nosso delicioso hábito de inventar desculpas para continuar bebendo o repentino ato de ir ao banheiro e não voltar mais, pois conversar com a privada muitas vezes se torna uma necessidade maior do que o prazer de ouvir besteiras alheias. Sobre o andar torto, bem, só preciso dizer que restaram as canelas roxas.

Eduardo Rebuzzi Filho

Saudade Saiba, às vezes a ausência da tua presença me assalta e quase me rouba umas lembranças boas... umas memórias caras.. justamente aquelas que me farão mais falta.

Manuelle Rosa

Jornal Plástico Bolha #13  

Jornal literário independente aberto à publicação de poesia e prosa de autores contemporâneos.

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