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Ano 2 | n o. 2 | Novembro 2011

R$ 25,00

Bairros do Recife

novembro 2011 l Bairros do Recife l 1


2 l Bairros do Recife l novembro 2011


novembro 2011 l Bairros do Recife l 3


Sumário 6 8 12 13 14 16 18 20 24 28 30 32 34 36 37 38 40 44 45

Expediente

Apresentação Introdução - O Recife Dados da cidade Mapa e Relação dos bairros RPA 1 Bairro do Recife Santo Antônio São José Boa Vista Ilha do Leite RPA 2 Encruzilhada Campo Grande Hipódromo Rosarinho RPA 3 Derby Espinheiro Aflitos

Diretoria Executiva

Sérgio Moury Fernandes sergiomoury@revistaalgomais.com.br Francisco Carneiro da Cunha franciscocunha@revistaalgomais.com.br

Diretoria Comercial

Luciano Moura lucianomoura@revistaalgomais.com.br Av. Domingos Ferreira, 890, sala 803 Boa Viagem | 51110-050 | Recife/PE Fone: (81) 3327.3944 Fax: (81) 3466.1308 www.revistaalgomais.com.br

4 l Bairros do Recife l novembro 2011

Conselho Editorial

Francisco Carneiro da Cunha presidente Luciano Moura Ricardo de Almeida Sérgio Moury Fernandes Doryan Bessa Bruno Queiroz Redação Fone: (81) 3327.4348 Fax: (81) 3466.1308 redacao@revistaalgomais.com.br

46 48 49 50 52 53 54 56 58 60 62 64 66 68 70 74 76 80 82

Casa Forte Apipucos Dois Irmãos Poço da Panela Jaqueira Tamarineira Graças RPA 4 Caxangá Cidade Universitária Várzea Torre Madalena RPA 5 Afogados RPA 6 Boa Viagem Pina Imbiribeira

Edição

Carol Bradley carolbradley@uol.com.br Textos Carol Bradley Mário Ribeiro Carlos André Silva de Moura Editoria de Arte Adrianna Coutinho Rivaldo Neto

Publicidade Engenho de Mídia Comunicação Ltda. Av. Domingos Ferreira, 890 Sala 808 | Boa Viagem 51110-050 | Recife/PE Fone/Fax: (81) 3466.1308 engenhodemidia@ engenhodemidia.com.br


FOTO AGUINALDO LEONEL

Os bairros do Recife estĂŁo bem representados aqui

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Apresentação

Históricos e modernos Plínio Santos-Filho

6 l Bairros do Recife l novembro 2011

E

m meados do século passado, o poeta e jornalista Eugênio Coimbra Júnior mantinha o hábito de visitar de ônibus o bairro da Várzea. Ia e voltava desfrutando da paisagem sempre como se fora a primeira vez. O exemplo de Coimbra inspira um desafio: quem pode dizer que conhece o Recife tão bem que não se surpreenda com novas revelações? O trabalho da jornalista Carol Bradley que publicamos nesta edição especial da Algomais Tudo – Bairros do Recife, bem atesta isso. Os 28 bairros do Recife destacados nesse especial merecem ser visitados, estudados e enaltecidos como os que melhor representam a história e o desenvolvimento econômico e social da capital pernambucana.

Algomais Tudo revela as origens dos bairros, recorda os personagens ilustres que eles abrigaram e como se inserem no dinamismo dos tempos atuais. O Recife Antigo luta pela conservação do patrimônio histórico; Santo Antônio sediou o comando da invasão holandesa; São José se caracteriza pelos cheiros (de defumadores a milho cozido e frutas de época); pela Boa Vista transita gente de todos os 94 bairros; Ilha do Leite se tornou importante polo médico e jurídico; Encruzilhada e Espinheiro, dos famosos quintais arborizados, têm comércio diversificado; Rosarinho se orgulha do inconformismo do bloco Batutas de São José com seu hino composto por Capiba; Derby nasceu do

Apres


Ivo Dantas

Santa Isabel:inspiração na arquitetura francesa

Bairro de São José: tradição e modernidade

empreendedorismo de Delmiro Gouveia; Aflitos, do Náutico, era o o preferido dos ingleses; Casa Forte tem a Avenida 17 de Agosto, que registrou um dos episódios mais marcantes da campanha da expulsão holandesa; Poço da Panela é o mais bucólico e conservado; Jaqueira exibe o parque mais famoso; Graças mantém o caráter residencial de outrora; Caxangá, um dos principais roteiros das maxambombas, sofrerá mudanças viárias; Boa Viagem e Pina são os que mais crescem; e Várzea, de Eugênio Coimbra, remonta aos primeiros dias da colonização. Coimbra, infelizmente, não viveu o suficiente para testemunhar o santuário da arte pernambucana que é a Oficina Brennand. Leia Tudo e vá conferir. Roberto Tavares

Editor Geral da Revista Algomais

Alexandre Albuquerque

Marco Zero da cidade

sentação novembro 2011 l Bairros do Recife l 7


O Recife R

ecife. Cidade de cor, som e cheiros. De tradição e contrastes. Dos poetas, artistas e intelectuais. Da gente simples que cedo levanta para ganhar o pão. Empreendedores que aqui estabelecem seus negócios. Terra que não se rende: aos holandeses, portugueses, ao avanço do mar. Cuja brisa do desenvolvimento econômico vem soprando cada vez mais forte, disseminando nas diversas camadas sociais uma sensação de otimismo, tão bem-vinda como água de coco em dia quente de verão. Se no começo da colonização portuguesa, o Porto do Recife foi o grande impulsionador do comércio e moradia, hoje quem desempenha fortemente esse papel é o Porto de Suape. Com infra-estrutura bastante superior às cidades do litoral Sul é na capital pernambucana que acaba se instalando boa parte dos funcionários alocados nos empreendimentos estruturadores, que trabalham em outros municípios, mas moram, consomem e se divertem no Recife. Um significativo reflexo dessa nova realidade é a dificuldade de alugar imóvel, principalmente em Boa Viagem, com o preço da locação já bastante valorizado. Essa não é a primeira vez que o Recife tem seu espaço físico disputado. Durante a ocupação holandesa, com a evacuação e o incêndio a Olinda - então centro do poder político e econômico de Pernambuco - a densidade populacional na área do atual bairro do Recife ficou tão alta, que o valor do aluguel chegava a custar seis vezes mais que em Amsterdã. Para amenizar o problema, surgiram soluções até hoje utilizadas: o aterro no leito dos rios e a verticalização, através dos sobrados de dois e três andares. 8 l Bairros do Recife l novembro 2011

Com a saturação populacional da área portuária, o Recife precisava se expandir, mas no caminho, havia um rio. Foi quando o Conde Maurício de Nassau inaugurou a primeira ponte,

O Recife foi alargando seus limites geográficos com aterros de mangues e margens de rios de muitas outras que se tornariam símbolo da Veneza Brasileira, e por lá, o desenvolvimento passou. Primeiro, com a ocupação do atual bairro de Santo Antônio e São José, partindo

posteriormente para a Boa Vista. Como uma onda que vai levando o vem pela frente, o crescimento do Recife ocorreu mais no sentido centro para a periferia, e o que era zona rural, como os engenhos da Torre, Madalena, Apipucos, Casa Forte e Várzea, foi se urbanizando. Entre pontes e diversos aterros, que consumiram mangues e estreitaram rios, o Recife foi alargando seus limites geográficos. Tomando na marra o espaço que a natureza não deu. Esse mesmo espírito de enfrentamento fez eclodir diversas revoltas. Ressaltando seu caráter altivo, o povo recifense lutou para manter a emancipação da cidade na Guerra dos Mascates, contra a vizinha, Olinda e posteriormente pegou nas armas novamente, desta vez, para garantir a independência contra os colonizadores portugueses, na Revolução Pernambucana de 1817 e depois na Confederação do Equador, que culminou com a morte de Frei Caneca, fuzilado no Forte das Cinco Pontas, em 1823.

O Recife se expandiu através de suas pontes


A condição geográfica que deu nome a cidade

Assim como a luta, a poesia também faz parte do espírito recifense. A paisagem evocativa da capital, já brilhou nos versos de grandes nomes como Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Carlos Pena Filho, Ascenso Ferreira, entre tantos outros,

Explosão de ritmos e cores no carnaval do Recife

que nos deixam um legado de reflexão e afeto pela cidade, como no trecho de “Evocação do Recife”, de Manuel Bandeira: “Recife...
Rua da União...
A casa de meu avô...
Nunca pensei que ela

acabasse!
Tudo lá parecia impregnado de eternidade.
Recife...
Meu avô morto.
Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro
como a casa de meu avô.” Também o frevo, na capital pernambucana, estreou os primeiros passos, com os capoeiras de Angola, que iam pulando na frente das bandas de música do velho Recife, para se esquivar da repressão da polícia. O ritmo surgiu da mistura de dobrado com pastoril, polcas, quadrilhas, maxixes e teve sua origem na palavra: ferver. Para quem já se aventurou a acompanhar o maior bloco carnavalesco do mundo, o Galo da Madrugada, entende bem essa derivação. Em uma explosão de ritmos e cores, o carnaval recifense dá passagem para um caldeirão cultural que mistura caboclinhos, maracatus, blocos e troças, novembro 2011 l Bairros do Recife l 9


O Recife é um laboratório a céu aberto para o olhar sociológico mais apurado em que o idioma oficial para turistas e nativos é a verdadeira animação. Porém, a cidade guarda também o seu lado mais perverso. Imensos contrastes sociais, onde luxo e miséria, são duas faces da mesma moeda, faz do Recife um laboratório a céu aberto, para um olhar sociológico mais apurado, estudado por intelectuais que influenciaram gerações como Joaquim Nabuco, Gilberto Freyre, Josué de Castro, Paulo Freire, entre outros. No começo da década de noventa, o movimento Manguebeat, cujo maior símbolo foi o cantor Chico Science, lançou através de Fred Zero Quatro, o Manifesto Caranguejo com Cérebro, que questionava: “Como devolver o ânimo, deslobotomizar e

Marco Zero: local de história e cultura

recarregar as baterias da cidade? Simples! Basta injetar um pouco de energia na lama e estimular o que ainda resta de fertilidade nas veias do Recife.” A realidade atual é bem diferente do final do século passado. O PIB do Recife passou de R$ 9,2 bilhões, em 1999, para R$ 22,4 bilhões, em 2008. Porém, apesar

de o dinheiro estar circulando mais na capital pernambucana, a sua distribuição ainda deixa a desejar e cenas de miséria, com mendigos e pedintes, fazem parte do cotidiano local. Assim como, a melhora do poder aquisitivo vem ocasionando uma piora sensível no trânsito da cidade. Com as artérias entupidas, é necessário que o poder público desenvolva ações efetivas para estancar o grave problema da falta de mobilidade. Formado por noventa e quatro bairros, o Recife é uma área urbana complexa para se administrar, tendo em vista seus aspectos sociais e geográficos. Por isso, foi dividido pelo órgão municipal em seis Regiões Político-Administrativas (RPA’s), para trabalhar de forma mais específica as necessidades de cada localidade. E é seguindo essas RPAs que a presente edição especial vai tratar de forma mais detalhada os bairros de destaque na capital pernambucana, tendo em vista suas características históricas, culturais e econômicas. Convidamos você para nos acompanhar nesse passeio por lugares já conhecidos, mas que sempre oferecem surpresas a um olhar mais atento.

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PERSPECTIVAS MERAMENTE ILUSTRATIVAS.

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Padroeira do Recife Nossa Senhora do Carmo VEREADORES Aerto de Brito Luna (PRP) Alexandre Aroucha de Lacerda (PRTB) Alfredo José de Santana Filho (PRB) Alfredo Mariano (PSDC) Aline Brito Martins da Fonseca (PSDB) Almir Fernando Alves (PCdoB) André Ferreira Rodrigues (PMDB) Amaro Cipriano de Lima (PSB) Antônio Luiz da Silva Neto (PTB) José Augusto Carreras (PV) Carlos Alberto Gueiros (PTB) Vera Lúcia Lopes Vieira (PPS) Edmar de Oliveira e Silva (PHS) Eduardo Amorim Marques da Cunha (PTB) José Erivaldo da Silva (PTC) Estéfano Barbosa dos Santos (PSB) Gilberto Dário de Melo Alves (PTN) Gilvan Cavalcanti da Silva (PSD) Inácio de Barros Melo Neto (PSB) Jadeval Manoel de Lima (PTN) Jairo Xavier de Britto (PT ) João de Andrade Arraes (PSB) Josenildo Sinesio da Silva (PT) Jurandir Pereira Liberal (PT) Liberato Pereira da Costa Júnior (PMDB) Luiz Eustáquio Ramos Neto (PT) Marcos Antônio Gomes da Silva (PT do B) Marcos Antonio de Souza Menezes (DEM) Mareval Malta Cabral (PSD) Marília Arraes de Alencar (PSB) José Múcio Magalhães de Souza (PT) Osmar Ricardo Cabral Barreto (PT) Priscila Krause Branco (DEM) Rogério Lima de Lucca (PSL) Romildo José Ferreira Gomes Filho (PSD) Ricardo Sérgio de Magalhães Melo (PSD) Vicente André Gomes (PSB) 12 l Bairros do Recife l novembro 2011

Prefeito do Recife João da Costa (PT) Vice-prefeito do Recife Milton Coelho (PSB)

Setores Indústria Construção Civil Comércio Serviços Agropecuária Outros Total

1990 1.610 589 6.002 5.552 249 1.534 15.536

População 1991 2000 1.298.229 1.422.905

2010 2.377 1.676 12.810 15.878 174 0 32.915

2010 1.537.704

SECRETÁRIOS/SECRETARIAS Evelyne Labanca Especial de Gestão e Planejamento Marcelo Silva Meio Ambiente Rejane Pereira Especial da Mulher Eduardo Granja Especial de Política para a Juventude Amir Schvartz Extraordinária da Copa do Mundo de 2014 Dácio Rossiter Administração e Gestão de Pessoas Petrônio Magalhães Finanças Maria de Biase Controle, Desenvolvimento Urbano e Obras Eric Carrazzoni Comunicação Eduardo Vital Serviços Públicos Niedja Queiroz Assistência Social Gustavo Couto Saúde Ivone Caetano Educação, Esporte e Lazer Renato Lins Cultura André Campos Turismo Sebastião Rufino Habitação José Bertotti Ciência, Tecnologia e Desenv. Econômico Maria do Amparo Direitos Humanos José Marcos de Lima Saneamento


Relação dos bairros 1. Recife 2. Santo Amaro 3. Boa Vista 4. Soledade 5. Santo Antônio 6. Paissandu 7. Ilha do Leite 8. Coelhos 9. Ilha Joana Bezerra 10. São José 11. Cabanga 12. Torreão 13. Encruzilhada 14. Rosarinho 15. Ponto de Parada 16. Hipódromo 17. Campo Grande 18. Peixinhos 19. Campina do Barreto 20. Arruda 21. Bomba do Hemetério 22. Alto Santa Terezinha 23. Água Fria 24. Fundão 25. Cajueiro 26. Porto da Madeira 27. Beberibe 28. Linha do Tiro 29. Dois Unidos 30. Derby 31. Graças 32. Espinheiro 33. Aflitos 34. Jaqueira 35. Tamarineira 36. Parnamirim 37. Santana 38. Casa Forte 39. Poço 40. Monteiro 41. Alto do Mandu 42. Casa Amarela 43. Mangabeira 44. Alto José do Pinho 45. Morro da Conceição 46. Alto José Bonifácio 47. Vasco da Gama 48. Macaxeira 49. Apipucos

RPA1 RPA2

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50. Sítio dos Pintos 51. Dois Irmãos 52. Córrego do Jenipapo 53. Nova Descoberta 54. Brejo do Beberibe 55. Brejo da Guabiraba 56. Passarinho 57. Guabiraba 58. Pau Ferro 59. Ilha do Retiro 60. Madalena 61. Prado 62. Zumbi 63. Torre 64. Cordeiro 65. Torrões 66. Engenho do Meio 67. Cidade Universitária 68. Iputinga 69. Caxangá 70. Várzea 71. Curado

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72. San Martim 73. Bongi 74. Mustardinha 75. Mangueira 76. Afogados 77. Jiquiá 78. Estância 79. Jardim São Paulo 80. Sancho 81. Totó 82. Coqueiral 83. Tejipió 84. Barro 85. Areias 86. Caçote 87. Cohab 88. Jordão 89. Ibura 90. Ipsep 91. Boa Viagem 92. Imbiribeira 93. Pina 94. Brasília Teimosa

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Fonte: PCR/SEPLAM/DIRBAM/DEIP novembro 2011 l Bairros do Recife l 13

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1. Bairro do Recife 2. Santo Amaro 3. Boa Vista 4. Soledade 5. Santo Antônio 6. Paissandu 7. Ilha do Leite 8. Coelhos 9. Ilha Joana Bezerra 10. São José 11. Cabanga novembro 2011 l Bairros do Recife l 15


Bairro do Recife O

bairro do Recife vem se reinventando. Caminhando pelas ruas de paralelepípedos, admirando a beleza dos antigos casarões e sentindo a suave brisa do mar, ficamos com a sensação de que ali, o tempo passa mais lento. Porém, se a arquitetura do bairro nos remete a um passado distante, coroado com episódios de lutas e glórias, no interior dos edifícios históricos, o futuro está sendo gestado ao ritmo frenético das novas tecnologias, com o desenvolvimento de modernos softwares pelas empresas do Porto Digital. O aparente contraste confere ao bairro do Recife mais um ingrediente à sua singular existência, que já testemunhou o início do comércio português, a ocupação e a rendição dos invasores holandeses e o desembarque no seu porto de personagens ilustres como Charles Darwim, Santos Dumont, Dom Pedro II e sua esposa, a Imperatriz Teresa Cristina, entre tantos outros.

Nassau, ligando o bairro portuário ao atual bairro de Santo Antônio. A fé judaica ganhou o primeiro templo oficial das Américas, erguido em 1636. A Sinagoga Kahal Zur Israel, inaugurada durante o governo holandês e fechada com a volta dos portugueses ao poder, ficou durante muito tempo escondida sob escombros na rua do Bom Jesus. Hoje, restaurada, abriga exposições e conta uma parte importante da história da comunidade hebraica em Pernambuco. Além dos templos religiosos, que inclui a belíssima Igreja da Madre de Deus, com o altar todo trabalhado no melhor estilo barroco, predominante na época da sua construção, a boemia e a cultura também deixaram suas marcas. Foi neste bairro, que o recifense pela primeira vez viu a cortina

A cidade que nasceu com o bairro, e o bairro que nasceu com o porto, deu seus primeiros passos no século XVI, quando as pessoas que trabalhavam para carregar e descarregar os navios, começaram a construir suas moradias, que com alguns pescadores, formavam os primeiros habitantes do local, na época conhecido como Arrecifes dos Navios. O nome remete à muralha que a natureza generosamente esculpiu há milhões de anos, e que hoje abriga o Parque de Esculturas com obras do artista plástico Francisco Brennand. A dureza das pedras contrastada pela beleza das peças, confere ao conjunto um aspecto original, que demonstra a força e ao mesmo tempo a sensibilidade do povo recifense. Sendo o berço da capital pernambucana, o bairro do Recife foi pioneiro em diversos aspectos. Viu surgir a primeira ponte do Brasil, construída a mando de Maurício de 16 l Bairros do Recife l novembro 2011

A rua do Bom Jesus abriga importantes monumentos arquitetônicos da cidade

vermelha se abrir, para dar espaço a uma encenação dramática, com a inauguração do Teatro Apolo, em 1846. Outras formas menos tradicionais de diversão também tiveram vez, principalmente entre as décadas de trinta e sessenta, quando a boemia viveu seu apogeu. Na Av. Marquês de Olinda, o Cassino Imperial, onde os jogos eram realizados em mesas de cristal Bacará e vedetes vinham do Rio de Janeiro, para apresentar seus encantos a um público fiel, era um dos expoentes da noite recifense. Beber no Gambrinus, Silver Bar e Texas Bar, caminhar com os amigos em busca de diversão nas animadas pensões do bairro, debater os últimos acontecimentos políticos com jornalistas e intelectuais faziam parte do costume da época.


Alexandre Albuquerque

Porto Digital: coração do polo tecnológico do Recife

Escultura de Brennand vista do Marco Zero

Após um período de total decadência e abandono, o bairro do Recife viveu um processo de revalorização na década de noventa. Com o programa Monumenta, do Ministério da Cultura em parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) foi realizado um trabalho arqueológico para restaurar e preservar o centro histórico do Recife, e principalmente as gerações mais novas, que mantinham-se longe desta área, passaram a conhecer e reconhecer o berço da nossa história. Passada a “moda” de freqüentar os bares e restaurantes, principalmente na rua do Bom Jesus, com muitos estabelecimentos já fechados, o bairro do Recife hoje tem algumas perspectivas, que se bem trabalhadas, apontam para um futuro promissor. O Porto Digital, que já foi apontado pela revista Business Week como um dos dez locais do mundo onde o futuro está sendo pensado, congrega atualmente mais de 170 empresas de T.I (Tecnologia da Informação), isso significa casas restauradas e movimento para a região com os 6.500 colaboradores, que utilizam o comércio e serviços do bairro. O Porto do Recife está com um projeto já em andamento para transformar os antigos

armazéns, em um complexo cultural e de lazer com espaço para centro de artesanato, cinema, teatro, hotel, marina e centro de convenções, que vão dar outro aspecto ao local, hoje, degradado. A reforma do tradicional Edifício Chanteclair, que a passos lentos vai sendo restaurado; o projeto da Caixa Cultural Recife e do Museu do Frevo, na Praça do Arsenal, onde funcionou a antiga empresa inglesa de telégrafos, a Western Telegraph Company, também vão reforçar as características históricas e culturais do bairro. Um dos destaques que demonstra a possibilidade de tradição e modernidade caminharem de forma harmônica é o shopping Paço Alfândega. Instalado no imponente edifício que já abrigou o Convento dos Oratorianos de São Félix e no século XIX, a Alfândega do Estado, conta com uma movimentada praça de alimentação e lojas diversificadas, muitas com características regionais. A Livraria Cultura tornou-se ponto de encontro entre os amantes da leitura, que entre um cafezinho e outro debatem as novidades da literatura. Na rua da Moeda, as batidas dos tambores de maracatu lembram que nesse bairro está o coração da cidade, assim como, o

seu Marco Zero, onde o artista plástico Cícero Dias plantou sua bela Rosa dos Ventos, e de onde é possível apreciar um vistoso conjunto de prédio em estilo eclético, dentre eles, a antiga Bolsa de Valores. A Torre Malakoff, com características orientais, já abrigou a sede da Capitania dos Portos em Pernambuco e recentemente foi reaberta como Observatório Astronômico, onde se confere uma vista privilegiada da cidade. Outro monumento tradicional no bairro do Recife é o Forte do Brum, construído no século XVII, inicialmente pelos portugueses e concluído pelos holandeses, abriga atualmente o Museu Militar. Seus espessos muros registram o temor dos nossos antepassados com a defesa do território costeiro. Diferente de séculos passados, a luta que o recifense trava hoje é pela conservação do seu patrimônio histórico, e sem dúvida, o berço da capital pernambucana tem papel fundamental nessa ação de resgate. Hoje, existe praticamente um consenso de que é preciso enxergar o futuro, sem no entanto, relegar o passado. Preservando a história, adentramos no século XXI com a identidade cultural fortalecida. novembro 2011 l Bairros do Recife l 17


Santo Antônio A

suavidade das águas correntes do rio Capibaribe, contrasta com a solidez de um dos mais representativos conjuntos arquitetônicos do Recife. Símbolos do poder político, cultural e judiciário de Pernambuco, o Palácio do Campo das Princesas, o Teatro de Santa Isabel e o Palácio da Justiça dividem a sombra do centenário Baobá, na Praça da República, como se ressaltassem que a união dessas três forças é parte característica do desenvolvimento social do Estado.

Plínio Santos-Filho

O centenário Met lortis nonulpute dit Baobá é atração lutem irit aciliquamet na Praça da República

Idealizado pelo Conde da Boa Vista, que queria imprimir um ar parisiense em terras pernambucanas, o Palácio do Governo, recebeu a atual denominação como forma de homenagear as filhas de Pedro II, durante visita da família imperial ao Recife, em 1859. Com o mesmo espírito de elevar os costumes locais da época, determinou o Conde, a construção do Teatro de Santa Isabel, que ainda hoje é referência de beleza arquitetônica, projetado pelo engenheiro francês, Louis Vauthier. No interior do teatro é possível imaginar que o tempo não passou e que senhoras com longos vestidos bordados podem surgir a qualquer momento acompanhadas de elegantes cavalheiros. Outro prédio que apresenta a mesma imponência é o que hoje abriga o maior templo do artesanato na capital pernambucana, a Casa da Cultura. Mais um legado do Conde da Boa Vista, a antiga Casa de Detenção foi fechada no governo de Eraldo Gueiros. Idealizada pelo artista plástico Francisco Brennand, foi inaugurada em 14 de abril de 1976. Nas celas, em vez de sofrimento, a alegria da cultura pernambucana, representada nas manifestações artísticas das diversas regiões do Estado. No lugar do lamento dos presos, os acordes das músicas regionais que animam as apresentações de grupos folclóricos, que encantam tanto turistas, quanto os próprios recifenses orgulhosos de sua rica cultura. 18 l Bairros do Recife l novembro 2011

A história do bairro de Santo Antônio se confunde com a própria história do Recife. Foi neste local que Maurício de Nassau decidiu instalar a capital do Brasil Holandês. Até então a Ilha de Antônio Vaz, como era conhecida, não passava de um lugar isolado e praticamente desabitado, havendo apenas alguns casebres de pescadores e o Convento de Santo Antônio, considerado uma das edificações mais antigas da cidade, que deu origem ao nome do bairro. Com obras de urbanização, construção

de pontes e de um palácio para abrigar o governo holandês, o lugar foi se desenvolvendo. No local da atual praça da República foi construído o primeiro jardim zoô-botânico do Brasil, para estudo das espécies nativas de flora e fauna. O bairro de Santo Antônio foi pioneiro também nos encantos da sétima arte. Localizado na rua Nova, o Pathé foi o primeiro cinema permanente do Recife; inaugurado em 1909, dispunha de


camarotes especiais para autoridades. Pouco tempo depois, o cinema Royal foi inaugurado na mesma rua, reforçando a tradição do bairro. A boemia ali também ergueu seu templo. Entre um copo e outro, uma discussão acalourada e uma prosa animada, no Bar Savoy, até poema podia sair, como fez um dos mais assíduos frequentadores, Carlos Pena Filho: “Nas mesas do Bar Savoy / O refrão tem sido assim: são trinta copos de chopp, são trinta homens sentados, trezentos desejos presos, trinta mil sonhos frustrados.” Além do profano, a religiosidade tem forte presença no bairro. Com seu interior todo revestido em talhas cobertas de ouro, a Capela Dourada, obra do século XVIII é símbolo de uma época em que o poder da Igreja ia muito além de uma simples orientação espiritual. Ainda do século XVIII, tem a Igreja de São Pedro dos Clérigos e a Igreja de Nossa Senhora dos Militares. Em volta da praça da Independência, a Igreja Matriz do Santíssimo Sacramento de Santo Antônio, em estilo barroco colonial é uma obra dedicada ao santo cujo nome homenageia. A praça da Independência ficou mais conhecida como Pracinha do Diário, pois durante muitos anos abrigou a sede do Diário de Pernambuco, considerado o jornal mais antigo em circulação da América Latina. Outra praça tradicional

Alexandre Albuquerque

Teatro de Santa Isabel: legado do Conde da Boa Vista

é a Joaquim Nabuco. Lá funcionou a Confeitaria Glória, onde foi assassinado o então governador da Paraíba, João Pessoa, estopim para o início da Revolução de 30. Testemunha de toda essa história, o restaurante Leite, permanece desde 1822, como ponto tradicional para os apreciadores da boa gastronomia. Cabe ressaltar que, infelizmente, o abandono sentido com mendigos dormindo aos pés de templos seculares é incompatível com a importância histórica e cultural do bairro. No entanto, esse resgate pode ocorrer pela volta do interesse privado. Com diversas

O Conde da Boa Vista queria imprimir um ar parisiense em terras pernambucanas localidades do Recife já saturadas, empresários enxergam no centro boas oportunidades de negócios, com imóveis ainda baratos e boa infra-estrutura de transporte público.

Alexandre Albuquerque

Na avenida Guararapes, onde funcionava a antiga sede regional do INSS, hoje está sediada a Faculdade Joaquim Nabuco. Outros edifícios centrais antes abandonados foram comprados pelo mesmo grupo com a intenção de transformar a região em um polo educacional. Os alunos atraem outros serviços, e empresários do setor imobiliário, de olho nessa nova demanda de moradia, já demonstram interesse em investir na região. É muito provável que a juventude exerça um papel fundamental nesse movimento de retomada da area central, o que não deixa de ser curioso, ter um dos bairros mais antigos da cidade, redescoberto pelas novas gerações. novembro 2011 l Bairros do Recife l 19


As torres gêmeas mudam a paisagem de São José

Ivo Dantas

São José L

ocalizado no sítio histórico do Recife, iniciamos a nossa caminhada com passos ritmados ao som dos clarins de Momo, descobrindo em cada ponto do bairro, histórias que dormem no mais íntimo dos seculares prédios dessa pitoresca parte da cidade. Ainda hoje, é o único bairro do centro do Recife, onde é possível transitar por suas artérias, acompanhado por diferentes cheiros: do defumador que provém das barracas de ervas e artigos de Umbanda; do milho cozido, quente e com manteiga, que parece multiplicar-se em cada esquina; da jaca, da melancia, do melão e do abacaxi, que tornam doces as calçadas do bairro. São José tem essa fisionomia há muitas décadas. Em 1844, quando se desmembra do bairro-irmão Santo Antônio, passa 20 l Bairros do Recife l novembro 2011

a aglutinar com mais intensidade, a população pobre trabalhadora do Recife. Ruas sem asfalto e sistema sanitário, casas simples, com pouca iluminação, muitas delas transformadas em cortiços, constituíam o cenário dessa parte suada da cidade. Entre os séculos XIX e começo do XX, o bairro tinha um caráter bastante residencial, com partituras de piano sendo executadas nas festivas casas, muitas das quais, demolidas em nome do progresso, principalmente para dar passagem à avenida Dantas Barreto, bastante criticada por ligar o “nada a lugar nenhum”. Hoje, abandonado à noite; durante o dia, o agito toma conta das ruas. É o ponto da cidade conhecido como “o comércio mais barato”. Panelas de alumínio,

de barro e de vidro. Flores naturais e artificiais. Celulares, bolsas, relógios. Roupas de adulto e de criança. Nesse ponto da cidade, o freguês tem para escolher. As ofertas são muitas. Cada loja, um formato diferente. Algumas transformam-se em cenários de festas infantis; outras em quartos de bebê; palácios de cristais, “joalherias”. Os comerciantes? Brasileiros, indianos ou japoneses, independente do país de origem, interessam-se mesmo em conquistar o freguês. Mas não é só de comércio que vive o bairro. São José é conhecido pelos foliões mais experientes, como o reduto dos carnavalescos. Aqui nasceram os Blocos Batutas e Pierrot de São José, a Escola de Samba Estudantes de São José, as Troças


Verdureiras e Traquinas de São José, entre outras dezenas de agremiações que tiveram suas sedes espalhadas pelas ruas e becos do bairro. O Clube de Máscaras e Alegorias O Galo da Madrugada, eleito pelo Guinness Book como o maior bloco do mundo, também é filho de São José. Em outras épocas menos agitadas do ano, os pátios e as igrejas chamam atenção pelo conjunto de suas peças, que enquadrado, transforma-se numa fotografia, a qual revela uma confluência de diferentes temporalidades; o entrelaçamento do sagrado com o profano; as disputas de poder; as negociações políticas; as cenas do cotidiano. O Pátio de São Pedro, localizado no encontro das ruas das Águas Verdes e Felipe Camarão, é um dos destaques desse conjunto. Desde 1938, é considerado Patrimônio Nacional, constituído pela Concatedral de São Pedro dos Clérigos e por um casario colonial composto por 31 imóveis ocupados por restaurantes típicos, antiquário, espaços de exposição, estudo e pesquisa da cultura popular. O local conta com uma programação cultural regular, onde ritmos e estilos variados convivem harmonicamente. Destacamse para visita no Pátio, os Memoriais Luiz Gonzaga e Chico Science; o Museu de Arte Popular, o Centro de Formação, Pesquisa e Memória Cultural – Casa do Carnaval, o Núcleo da Cultura AfroBrasileira e o anexo do Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães.

O Galo da Madrugada nasceu no bairro de São José para costurar e bordar suas fantasias e estandartes, jogar cartas, búzios e rezar. Ponto tradicional do bairro, construído pelo engenheiro francês Louis Vauthier, o Mercado de São José, com uma estrutura pré-fabricada em ferro, foi inspirado no Mercado de Grenelle, de Paris.

das frutas da estação e comprando algum chá ou erva para curar males do corpo ou da alma, percebemos que a influência francesa ficou só na construção. Próximo ao mercado, podemos avistar toda beleza e grandiosidade da Basílica da Penha, que atualmente passa por uma merecida reforma.

Porém, passeando por seus corredores, contemplando a diversidade do artesanato pernambucano, com sombrinhas de frevo, alfaias e panos rendados, saboreando uma

A memória histórica do bairro também é preservada na imponente obra do Forte das Cinco Pontas, que abriga desde 1982 o Museu da Cidade do Recife. Construído

Pátio de São Pedro: história, cultura e religião

Seguindo pela Rua das Águas, chegamos ao Pátio do Terço, guardião das primeiras memórias das religiões afrobrasileiras, onde nasceu Solano Trindade – um dos mais representativos poetas negros que o Brasil já conheceu. Nesse mesmo espaço encontramos a casa onde funcionou desde o final do século XIX, um dos primeiros locais de culto nagô do Recife, mais conhecido como a casa das Tias do Terço. Lá se reuniam adeptos do Xangô e diversos carnavalescos, novembro 2011 l Bairros do Recife l 21


pelos holandeses, hoje possui um acervo variado que conta diferentes passagens da história da cidade. Ainda no bairro, merece destaque o Cais de Santa Rita, primeiro Terminal Rodoviário da Cidade do Recife, localizado nas proximidades da antiga ponte giratória – atual 12 de setembro. Porém, São José não é só história. A construção das torres gêmeas da Moura Dubeux, às margens do rio Cabibaribe, que rapidamente vendeu todas as unidades, apesar da polêmica jurídica que envolveu a obra, mostra que o setor imobiliário e os próprios recifenses têm interesse no bairro. Não apenas para comprar, não apenas para se divertir nas folias momescas, mas também para residir. Em breve, outro grandioso projeto deve sair do papel para confirmar essa tendência residencial. Chamado de Bairro Novo Recife, onde hoje estão galpões abandonados no Cais José Estelita, devem ser erguidas

Turistas e recifenses se encontram no Mercado de São José

doze modernas torres, que vão mudar a paisagem do lugar, com edifícios residenciais, flats, hotel, centro de

convenções e restaurantes. O novo e o antigo mais uma vez se encontram nessa área central da cidade.

Mercado de São José foi inspirado no Mercado de Grenelle na França 22 l Bairros do Recife l novembro 2011


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Boa Vista A

Boa Vista é um bairro dinâmico. Com suas disputadas paradas de ônibus, o comércio que engloba shopping center, grandes magazines, pequenas lojas e até ambulantes, o local atrai um público diversificado que reside, estuda, trabalha ou está simplesmente de passagem. Se por um lado, a agitação faz parte do seu cotidiano, inclusive com a vida noturna capaz de congregar pessoas de todas as tribos em uma animação que não permite preconceitos, por outro, a tradição continua presente. Principalmente, na rua da Aurora, com seus antigos casarões, replicando sua beleza nas águas do rio Cabibaribe, paisagem que já rendeu telas e versos dos mais sensíveis admiradores. Diversidade de público, diversidade de estilos, a Boa Vista é um local que

inclui. Políticos, intelectuais, estudantes, comerciantes, todos se encontram neste solo, que na origem do bairro fazia parte do leito do rio ou dos manguezais. Para dar passagem ao bairro que crescia, diversos aterros foram realizados. Hoje, passando em frente ao parque Treze de Maio, à Faculdade de Direito e à Assembléia Legislativa fica difícil imaginar que a área de toda aquela edificação já foi um enorme alagadiço, transformado em terra firme pela intervenção humana. O mesmo ocorreu com a Rua da Imperatriz, do Hospício e da Aurora. Diferente do Bairro do Recife, Santo Antônio e São José que começaram a se desenvolver durante a ocupação holandesa, o bairro da Boa Vista começa a sua expansão a partir do século XVIII. Nos primórdios, era descrita como um

grande pomar, bastante arborizado e com boas casas de residência. Porém, se o desenvolvimento urbano não se deu com os holandeses, é desse período a origem do nome, já que, em função da bela paisagem que se avistava do Palácio de Nassau, fincado no atual bairro de Santo Antônio, veio a denominação: Boa Vista. Se outrora o objetivo era a conquista do solo, hoje é a revalorização do lugar. A chegada do shopping Boa Vista no final da década de noventa, foi um forte impulsionador para estimular novos comércios e serviços. Ao contrário de outros bairros centrais, onde a moradia é praticamente inexistente, na Boa Vista ela desempenha um papel importante, reforçando a identidade das pessoas com o bairro, que ainda é considerado um lugar tranquilo para se viver. Bater um papo com o vizinho colocando a

Rua da Aurora: paisagem tradicional do Recife

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Faculdade de Direito do Recife: já formou ilustres juristas

cadeira na calçada é um hábito antigo, ainda preservado em alguns locais. Essa característica de cidade do interior, com todas as comodidades da vida moderna é o que muitos buscam ao fixarem residência no bairro. Até o cinema já se valeu dessa particularidade. No filme “Lisbela e o Prisioneiro”, do diretor Guel Arraes, muitas cenas rodadas como se fosse uma cidade interiorana, na verdade, foram filmadas no bairro da Boa Vista, no pátio de Santa Cruz. O local abriga a secular igreja de Santa Cruz, ponto de encontro para célebres procissões da Quaresma no começo do século passado. Outro filme, dessa vez, Amarelo Manga, do diretor Cláudio Assis, também foi rodado lá. Com certeza, as equipes de filmagem passaram bem. Próximo à locação fica o

Mercado da Boa Vista. Diferente do Mercado de São José, que tem um apelo turístico, o da Boa Vista acolhe mais um público local. Especializado em comida regional é possível saborear um bode guisado, uma carne de sol ou uma típica galinha à cabidela, dependendo do gosto de freguês. Construído no começo do século XIX, os boxes que se destinavam originalmente a venda de escravos, hoje ofertam produtos variados, desde carnes e peixes até artigos de armarinho. Na mesma rua, está a tradicional padaria de Santa Cruz, com receitas clássicas portuguesas como pastelzinho de nata e pão de ló, além do pernambucano, bolo de rolo, é uma ótima opção para complementar o tour gastronômico. A tradição jurídica também ergueu seu templo na Boa Vista. Celeiro de juristas, políticos e literatos que vem ajudando a fomentar a

intelectualidade nordestina e brasileira por muitas gerações, a Faculdade de Direito do Recife, chegou na cidade vinda de Olinda, em 1854. Por seus bancos passaram notórias personalidades como Tobias Barreto, Joaquim Nabuco e Castro Alves. Com uma bliblioteca composta por mais de 100.000 títulos e um ambiente que transpira conhecimento, tem sua importância não só acadêmica como também social, já que muitas ideias transpuseram as salas de aula para tomar as ruas da cidade, como ocorreu durante a revolução de 64. Outro importante espaço do saber, a Universidade Católica de Pernambuco, fincou raízes nesse mesmo bairro, ajudando a formar importantes profissionais da nossa cidade. novembro 2011 l Bairros do Recife l 25


Fugindo do anti-semitismo que assombrava a Europa, muitas famílias judias aportaram na Boa Vista nas primeiras décadas do século passado. A praça Maciel Pinheiro se tornou reduto da colônia judaica no Estado. Nesse ambiente, uma menina, de olhar curioso e mente privilegiada, cresceu e se tornou uma das mais festejadas escritoras do século XX, Clarice Lispector.

após um período fora de cartaz, em 2009 foi reinaugurado, para a felicidade de muitos saudosistas. O Teatro do Parque, inaugurado na noite de 24 de agosto de 1915, pela Companhia Portuguesa de Operetas, de Lisboa e o Valdemar de Oliveira, que se caracterizou por ter sua história ligada ao Teatro de Amadores de Pernambuco, são importantes referências culturais da cidade.

Outro grande nome da literatura, Manuel Bandeira, também trouxe para sua obra, o olhar do menino, que passou parte da infância na casa do avô bricando de chicote-queimado e pescando escondido no cais da Rua da Aurora. A aclamada Rua da União, abriga hoje o Espaço Cultural Passárgada, uma justa homenagem ao filho ilustre.

Outro privilégio da Boa Vista é ter sido por muito anos a “casa” do arcebispo de Olinda e Recife, Dom Hélder Câmara. A rua das Fronteiras, onde está situada a igreja de mesmo nome, serviu de residência a esse incansável humanista.

Outras manifestações artísticas encontraram acolhida no bairro. O cinema São Luiz, que recebia homens de paletó e mulheres em vestidos elegantes,

Também no bairro está a Igreja Matriz da Boa Vista, construção do século XIX é considerado um dos mais belos templos da cidade. Uma história interessante envolve a Igreja de Nossa Senhora do Rosário da Boa Vista, construída com

poucos recursos pela Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, ameaçava desabar, quando o rico comerciante Gervásio Pires, que também era devoto da santa e morava ao lado da igreja, financiou a construção do templo. Com histórias novas e antigas, a Boa Vista mostra que tem fôlego para se modernizar, sem no entanto, abandonar a tradição. A rua da Aurora, onde nomes famosos já residiram, como o Conde da Boa Vista, deve ganhar um ilustre morador para trazer ainda mais movimento e desenvolvimento ao bairro. A nova sede da Rede Globo está projetada às margens do rio Capibaribe. Pelo jeito, o Bar Central, atual reduto da intelectualidade recifense, frequentado por artistas, politicos e jornalistas, vai ter que botar mais cerveja para gelar.

Praça Maciel Pinheiro - local da infância de Clarice Lispector

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Edifício histórico da Assembléia Legislativa de Pernambuco

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Ilha do Leite A

companhando o desenvolvimento econômico de Pernambuco, a paisagem da Ilha do Leite, vem se transformando. No lugar de antigas casas, modernos empresariais, demonstram que grandes projetos e negócios importantes são ali articulados. Centro do Polo Médico e Jurídico do Estado, esse bairro situado às margens do rio Capibaribe, que faz limite com Paissandu, Boa Vista, Coelhos e Ilha de Joana Bezerra, vem sendo pintado com as cores do dinamismo empresarial. Executivos bem vestidos, advogados e médicos com jalecos brancos, encontram-se diariamente na Ilha do Leite, para realizar seus trabalhos, o que gera outras oportunidades de comércio e serviços no bairro. De olho nesse público, em que tempo, geralmente é uma mercadoria escassa, a academia R2, uma das maiores do Recife, investiu cerca de R$ 1,5 milhão e abriu uma filial no empresarial Alfred Nobel, uma das torres que integra o complexo Rio Ave Corporate Center, com edifícios comerciais de alto padrão. Polo médico do Estado desde o final da década de 80, a Ilha do Leite reúne vários hospitais, a exemplo do Hospital de Olhos de Pernambuco, Esperança, Albert Sabin, Unimed, além de clínicas que complementam os serviços médicos. Os espaços têm contribuído com o aumento do turismo hospitalar no Recife, e o bairro já conta com flats e hotéis para atender essa nova demanda. Cidade acostumada a acompanhar os contornos dos rios, vários bairros do Recife são a tradução de uma dinâmica fluvial (Boa Vista, São José, São Antônio, Afogados, entre outros). Com a Ilha do Leite não é diferente. Seu efetivo 28 l Bairros do Recife l novembro 2011

O bairro faz parte do polo médico do Recife

povoamento iniciou na segunda metade do século XVIII, acompanhando as águas do Capibaribe e o deslocamento da população aos arrabaldes da cidade. Propício para a construção de grandes residências com jardins que possibilitavam a criação de animais, o bairro ficou conhecido como um dos principais fornecedores de leite. Próximo a Ilha do Leite, o bairro dos Coelhos foi o pioneiro na formação do Polo médico na cidade. Entre as instituições hospitalares, destacam-se o Instituto de Medicina Integral Prof. Fernando Figueira (IMIP), dedicando-se aos cuidados maternos e infantis, e o Hospital Pedro II, com uma história de serviços acadêmicos ao Nordeste brasileiro.

Inaugurado em 1861, com uma bela arquitetura em estilo neoclássico, durante muitos anos, o Pedro II abrigou o hospital-escola da Faculdade de Medicina da UFPE, transferido posteriormente para a Cidade Universitária. O intenso movimento de médicos, professores e alunos foi o que motivou a abertura das primeiras clínicas médicas na Ilha do Leite, dando origem ao atual Polo. Porém, não foi apenas a medicina que se fez ali presente. Em 1859, o imperador Pedro II, deu o ar da graça, em um baile oferecido pela Associação Comercial de Pernambuco. Com todo requinte que exige uma festa imperial, o local reuniu a alta sociedade


pernambucana para homenagear o soberano em visita à província. Referência na formação de médicos no Estado, após uma longa reforma, a instituição continua com sua tradição acadêmica, contribuindo atualmente com a formação dos estudantes da Faculdade Pernambucana de Saúde, em parceria com o IMIP. O bairro ainda conserva o seu lado pacato. Com ruas estreitas, casas em estilo arquitetônico do início do século XX, é possível se deparar com moradores conversando nas calçadas ou observando o movimento pelas janelas. A Praça Miguel de Cervantes, com muito verde, brinquedos e espaços para atividades físicas, reúne pessoas de várias idades. Após conversarem nos bancos da praça, muitos casais estendem o passeio até a Sorveteria Fri-sabor, na Boa Vista, que desde 1957 comercializa saborosos picolés e sorvetes inspirados nas receitas

do Sr. José de Matos e sua esposa Josefa Sobral de Matos, onde podemos encontrar picolés de graviola, cajá, amendoim e o famoso saia e blusa (dois sabores). Na face menos bucólica, situa-se o Polo Jurídico. Antes funcionando no bairro de São José, o Fórum chegou trazendo consigo além de juízes e servidores, um grande número de escritórios advocatícios. Muitos dos quais, trocaram a tradição dos bairros centrais, para ficar mais próximos do centro das atividades jurídicas. Bairro que aprendeu a conviver com a modernidade, a Ilha do Leite pode ser considerada um reflexo do crescimento vivenciado pelo Estado nos últimos anos. Na medida em que o PIB avança, empresariais e novos empreendimentos chegam para dinamizar ainda mais a economia do bairro e da cidade.

Modernos empresariais transformam a paisagem da Ilha do Leite

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12. Torreão 13. Encruzilhada 14. Rosarinho 15. Ponto de Parada 16. Hipódromo 17. Campo Grande 18. Peixinhos 19. Campina do Barreto 20. Arruda 21. Bomba do Hemetério 22. Alto Santa Terezinha 23. Água Fria 24. Fundão 25. Cajueiro 26. Porto da Madeira 27. Beberibe 28. Linha do Tiro 29. Dois Unidos novembro 2011 l Bairros do Recife l 31


Encruzilhada C

olher de pau, filtros de barro, urupemas, dobradinha, bolo de rolo; o Mercado da Encruzilhada é uma festa para os olhos e para o paladar. Lá tem de tudo, desde vassouras até um simpático papagaio que canta o hino do Sport para alegria dos visitantes rubro-negros. Porém, mais do que vermelho e preto, o mercado é colorido; com artesanato, verduras e frutas da estação. Principal ponto de encontro do bairro que leva seu nome, atrai um público diversificado formado por donas de casa, intelectuais, artistas, trabalhadores em busca de produtos para comprar ou de um local para se distrair. Em 1924 o Mercado começou a funcionar de forma precária, ganhando as feições atuais na década de cinquenta. Dentre os vários boxes, muitos já se tornaram tradicionais. É o caso da Tabacaria Vitória, que por mais de sessenta anos pertenceu a Severino Cavalcanti, o conhecido Biu do Fumo, que faleceu este ano, mas o negócio continua, agora nas mãos do sobrinho, também Severino, que já trabalhava com o tio desde os nove anos. Para quem gosta de costela de porco, galinha à cabidela, cozido ou jabá, a praça da alimentação do mercado é o lugar certo. Aos sábados música ao vivo com ritmos regionais acompanha quem vai em busca de um bom papo regado à cerveja gelada. Mas não é apenas a comida nordestina que está presente, bacalhau e pastel de belém mostram que o pois, pois divide espaço com o oxente. Há 21 anos no Mercado da Encruzilhada, Manoel José Alves, natural da cidade de Bragança, em Portugal, comanda O Bragantino, que faz bastante sucesso principalmente com seus bolinhos de bacalhau. Outra opção tradicional da gastronomia no bairro é o Tepan. Com 32 l Bairros do Recife l novembro 2011

um cardápio bastante variado, são os guaiamuns com diversos temperos e tamanhos que fazem a fama do lugar. No Largo da Encruzilhada, prédios antigos com pequenos comércios embaixo e camelôs nas calçadas vendendo produtos diversos como óculos, bolas e guarda-chuvas, lembram algumas ruas dos bairros centrais, como a Boa Vista. Sobre o lugar que mora há 25 anos, o DJ Renato Aguiar destaca: “ É um bairro bem servido de comércio, tem muitas coisas próximas: bancos, mercado, supermercado. Aqui tem o comércio mais popular, mais povão. Os vizinhos se conhecem, conversam. Tem a vizinha que há muitos anos vende picolé, outro que vende milho. No São João as pessoas fazem fogueira, algumas ruas se transformam em arraial. Quando eu cheguei a minha rua não era calçada, na época do inverno rigoroso alagava, houve a pavimentação de muitas ruas e a construção de muitos prédios residenciais. Também tem mais carros nas ruas em que antes as crianças jogavam bola sem preocupação. Algo que nunca mudou é que o bairro vive um eterno racionamento d’água tornando-se comum, as pessoas falarem: hoje é dia de água na rua...” O escritor Mário Sette, no livro Maxambombas e Maracatus, sobre a origem do nome ressalta: “Vinham apitando de longe os trens do Recife, Olinda e Beberibe e ali cruzavam-se. Era um espetáculo curioso e agradável o encontro dessas três composições.” Hoje, em vez de apitos, buzinas; em vez de trens, carros, mas o nome Encruzilhada permanence. Além de pessoas, os trens também traziam bois e porcos do interior, por isso havia na

localidade um curral onde os animais ficavam para engorda e depois eram enviados ao Matadouro de Peixinhos. Templos religiosos também estão


Mercado da Encruzilhada – diversidade de produtos e culinária regional

presentes no bairro. Em frente ao Mercado observa-se um grande prédio da Igreja Universal do Reino de Deus. Na Estrada de Belém - cujo nome

provavelmente se originou porque estava nas terras do antigo Engenho Belém - destaca-se a Paróquia Nossa Senhora de Belém, e na mesma rua fica

a Igreja Batista, demonstrando que a fé, nas suas mais diversas correntes, está presente na vida dos moradores da Encruzilhada. novembro 2011 l Bairros do Recife l 33


Campo Grande D

iferente de outros bairros do Recife em que altos edifícios tomam conta da paisagem, Campo Grande, é formado em sua maioria por casas, e os poucos prédios, costumam não exceder oito andares. Ligando o Recife a Olinda, a Estrada de Belém corta esse bairro tipicamente residencial, que engloba pequenos comércios e serviços, e é bastante conhecido pelos amantes de um bom arrasta pé.

da Paixão Cearense, que realiza suas belas criações em cerâmicas, desenhos, pinturas e vitrais. Nascido e criado no bairro em que comprou três casas para formar seu ateliê e galeria de exposição, destaca: “Pra mim o bairro não mudou nada. Já me fizeram propostas para mudar, mas eu não saio daqui de jeito nenhum, porque eu não tenho cara de outro bairro.” Apesar de ter exposto sua arte em diversas capitais do Brasil e do mundo é em Campo Grande que se sente em casa. Na sua galeria, além da arte, outra paixão se destaca: nove Pumas antigos; os carros em meio aos seus quadros e esculturas, tornam o ambiente ainda mais peculiar.

Passando pela rua Odorico Mendes, o número 263 chama atenção pela fachada colorida, com duas pás cruzadas, onde se lê: Clube das Pás, Universidade do Frevo. Sua história começou no fim do século XIX, quando um grupo de carvoeiros recebeu um pagamento extra, para carregar um navio inglês, que estava atracado no Porto do Recife. Foram comemorar a verba no Clube dos Caiadores e nessa ocasião decidiram criar o Bloco das Pás de Carvão, mudando depois o nome para Clube Carnavalesco Misto das Pás. Hoje, o Clube representa o local de gafieira mais tradicional da cidade. Além de frevo, sua orquestra anima o salão com os mais diversos ritmos como rumba, merengue, salsa, forró, samba e tango. Por seus serviços prestados à cultura pernambucana foi homenageado em algumas músicas, dentre elas, o famoso frevo Voltei Recife, que pergunta: Cadê Toureiros? Cadê Bola de Ouro? As Pás, Os lenhadores, O Bloco Batutas de São José? Mas a música pernambucana não é a única representação artística presente no bairro. Em duas grandes casas, uma em frente da outra, com muros que destacam cenas da nossa cultura, está o santuário do artista plástico, Ferreira. Com exposições realizadas na Alemanha, Holanda, Estados Unidos e Paris é em Campo Grande, na Rua Catulo 34 l Bairros do Recife l novembro 2011

Com exposições nacionais e internacionais, o ateliê do artista plástico Ferreira se destaca no bairro

HISTÓRIA O bairro tem sua origem nas terras de Dona Josefa Francisca, uma rica senhora do século XVIII que possuía seis grandes sítios nessa região, bem como a área em que foi instalada a extinta Fábrica de Tecidos da Tacaruna. Através de um testamento, as terras foram deixadas para o Recolhimento de Nossa Senhora da Glória, instituição religiosa que durante muito tempo se manteve com a renda gerada por essa herança. Em 1940, a instituição decidiu aterrar os mangues para lotear e vender as áreas de sua propriedade, o que impulsionou a expansão residencial. O nome Campo Grande surgiu porque o lugar quase não tinha árvores e era formado por um imenso campo plano, bem diferente portanto das configurações atuais, com o bairro já bastante urbanizado. Porém, como em diversas localidades do Recife, ainda tem sua face de atraso social, principalmente nas Ilhas do Joaneiro e do Chié, em que pessoas vivem em situação de extrema pobreza. Sem dúvida um cenário que não combina mais com o Recife do século XXI.


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Hipódromo V

izinho a Campo Grande está o Hipódromo. Mais arborizado, é um bairro tipicamente residencial, em que a vertizalização ainda não chegou, o que talvez explique o ambiente sossegado, com poucos carros circulando nas ruas e pessoas aproveitando o espaço público, principalmente na praça Tertuliano Feitosa, mais conhecida como Praça do Hipódromo, onde estão as escolas estaduais Clóvis Beviláqua e Gilberto Amado. Ali funcionou no final do século XIX um movimentado prado, na época em que as corridas de cavalo eram moda na cidade. Hoje, em vez de cavalos correndo, observamos pessoas fazendo cooper, crianças no escorrego e senhores jogando dominó à sombra da palhoça. Aliás, sombra é o que não falta, com as várias espécies de árvores frutíferas que repousam na praça. O local é também de agito cultural, lá todo sábado o grupo

Guerreiros do Passo reunine a meninada para um aulão de frevo. O grupo é coordenado por Eduardo Araújo, nascido e criado no Hipódromo, lançou em 2010 o jornal carnavalesco O PASSO, que na primeira edição trouxe como destaque uma matéria especial sobre a história e curiosidades do bairro. Dentre as quais destaca que o primeiro avião visto pelos recifenses foi no Hipódromo: um aparelho Bleriot, pilotado pelo francês Gino San Felice, em 1912. A pista do prado serviu de campo de pouso. O evento contou com a presença do governador da época Dantas Barreto e gente chegando de todos os lugares para assistir aquele feito inédito. Também ressalta que a localidade antes conhecida como Feitosa, teve um papel relevante na Revolução Praieira, já que um dos principais líderes, Antônio Vicente do Nascimento Feitosa,

Praça Tertuliano Feitosa – local de lazer e de agito cultural

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jornalista, politico e advogado, era proprietário do sítio em que se reuniam os revolucionários, com o pretexto de buscar àgua em uma grande cacimba que lá existia. Em sua homenagem a praça do bairro foi batizada com o nome do seu filho, Tertuliano Feitosa. Um fato importante na configuração do bairro acontece em 1940, quando o governador Agamenon Magalhães determina a construção de cerca de 200 casas para os funcionários do IPSEP, o lugar ficou conhecido como Vila do Hipódromo. Dentre os moradores ilustres está o poeta Ascenso Ferreira, que proclamava: Hora de comer — comer! Hora de dormir — dormir!
 Hora de vadiar — vadiar! Hora de trabalhar?
 — Pernas pro ar que ninguém é de ferro!


Praça Phaelante da Câmara, mais conhecida como Praça do Rosarinho

Rosarinho Q

ue pernambucano não estufa o peito ao cantar: “E se aqui estamos cantando essa canção, 
viemos defender a nossa tradição
e dizer bem alto que a injustiça dói,
nós somos madeira de lei que cupim não rói.” O frevo de bloco considerado o mais famoso de Pernambuco foi composto por Capiba em 1963. A música que foi uma resposta do bloco Madeira do Rosarinho, ao perder o posto de campeão no carnaval para o Batutas de São José, atravessou gerações e ainda hoje emociona foliões de todas as idades. O clube que foi fundado em 1926 por dissidentes do bloco Inocentes do Rosarinho, inicialmente iria se chamar Gogóia, pois o grupo estava reunido embaixo dessa árvore, mas acharam que o nome não soava bem, então como a gogóia é uma madeira resistente, pensaram em chamar Madeira que Cupim

Não Rói, mas por fim predominou Madeira do Rosarinho. As cores verde, branco e vermelho que predominam na fachada já demonstram que no número 64, da rua Salvador de Sá, o colorido e a tradição do carnaval estão presentes o ano todo. Interessante notar que a avenida Norte que corta o bairro também estabelece uma mudança no seu perfil econômico. No lado que faz limite com as Graças, edifícios de alto padrão tomam conta do bairro e as casas em geral abrigam comércio e serviços, como bares, restaurantes, farmácias, locadoras, salão de beleza e consultórios. Ponto tradicional, a Rosarinho Delicatessem atrai um público fiel, que vai em busca dos pães recheados com massa de batata, sanduíche de queijo do reino com pernil, torta gelada de chocolate com chantili, além de outras delícias.

Cruzando a avenida Norte encontramos a praça Phaelante da Câmara, mais conhecida como Praça do Rosarinho. Nessa parte do bairro, percebemos que a verticalização está chegando, com prédios já construídos e outros em construção, mas ainda há muitas casas residenciais e o movimento de carros é menor. Assim como em outros bairros do Recife, o Rosarinho se originou do loteamento de sítios. O Diário de Pernambuco, em 8 de janeiro de 1852, publicava: “Vende-se o grande sítio das Roseiras do Major Joaquim Elias de Moura, defronte a Capela do Rosarinho, com casa e sobrado…’ Capela do Rosarinho era como a Igreja de Nossa Senhora do Rosário era popularmente conhecida. No entanto, o abandono foi tomando conta da capela que deu nome ao bairro, até que tombou em nome do progresso para dar passagem a atual avenida Norte. novembro 2011 l Bairros do Recife l 37


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30. Derby 31. Graças 32. Espinheiro 33. Aflitos 34. Jaqueira 35. Tamarineira 36. Parnamirim 37. Santana 38. Casa Forte 39. Poço 40. Monteiro 41. Alto do Mandu 42. Casa Amarela 43. Mangabeira 44. Alto José do Pinho 45. Morro da Conceição 46. Alto José Bonifácio 47. Vasco da Gama 48. Macaxeira 49. Apipucos 50. Sítio dos Pintos 51. Dois Irmãos 52. Córrego do Jenipapo 53. Nova Descoberta 54. Brejo do Beberibe 55. Brejo da Guabiraba 56. Passarinho 57. Guabiraba 58. Pau Ferro

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Derby C

om sua majestoja imponência, o Quartel do Derby é uma das mais belas construções do Recife. Durante o período natalino, um conjunto de pequenas luzes coloridas realçam ainda mais a gradiosidade do prédio, que se transforma em cenário ideal para a tradicional Missa do Galo, celebrada pelo arcebispo de Olinda e Recife, acompanhada com atenção por milhares de fiéis. O nome do bairro vem do final do século XIX, quando passou a funcionar o prado do Derby, pertencente a Sociedade Hípica Derby Club, que atraía bastante movimento com suas disputadas corridas de cavalos. Com essa moda já em baixa, o empresário Delmiro Gouveia, construiu no local, o grande Mercado Modelo, considerado o antecessor dos modernos shopping centers. Após um incêndio criminoso, em 1924, foi inaugurado no

Memorial da Medicina de Pernambuco: centro da cultura médica do Estado

seu lugar, o Quartel do Comando Geral da Polícia Militar de Pernambuco. Tido até a década de sessenta como um dos bairros mais aristocráticos do Recife, o Derby vem mudando o seu perfil.

Antes excencialmente residencial, hoje, inúmeros serviços, principalmente na área médica como clínicas, laboratórios e centros de diagnósticos podem ser encontrados no bairro. Em um belo casarão do começo do século XX está o Memorial da Medicina de Pernambuco, que abrigou até a década de cinquenta a Faculdade de Medicina. Atualmente se constitui no mais importante centro da cultura médica do estado, abrigando diversas instituições nas suas dependências. Bem próximo, funciona a Fundação Joaquim Nabuco (FUNDAJ), que realiza várias exposições na Galeria Vicente do Rego Monteiro e cujo cinema é uma ótima opção para um público interessado nas sessões de arte. Parte desse público vem da Casa do Estudante de Pernambuco, que desde 1931 acolhe jovens, popularmente chamados de xepeiros, vindos de diversas localidades, para estudar na capital, em busca do sonho de uma vida melhor. Projetada pelo paisagista Roberto Burle Marx, a praça do Derby foi construída no começo da década de vinte. No coreto, muitos jovens apaixonados declamavam

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Quartel do Derby, local em que já funcionou o Grande Mercado Modelo

seu amor. Durante muitos anos, a praça recebeu um ilustre visitante, um peixeboi que fazia a alegria da criançada. Hoje a praça ainda é bastante movimentada, porém muita gente está apenas de passagem, entre um ônibus e outro, correndo para o seu destino.

criticado pela falta de qualidade no atendimento, o Hospital da Restauração começou a funcionar em 31 de dezembro de 1969. Ao contrário do que muitos pensam, o nome Restauração não tem nada a ver com questão de saúde, mas sim foi uma homenagem

ao tricentário da expulsão definitiva dos holandeses, em 1654, através da vitoriosa campanha da Restauração Pernambucana. Em vez de uma estátua para simbolizar a vitória, a cidade ganhou um hospital, sem dúvida uma justa troca.

Ao redor da praça está o Recanto do Picuí, com sua tradicional carne de sol. Para os amantes de uma boa picanha, o Spettus Steak House, há mais de vinte anos se consagrou com um rodízio de alta qualidade. Próximo ao restaurante fica o Colégio da Polícia Militar, situado estrategicamente perto do quartel. O bairro também tem seu local de oração, trata-se da igrejinha de Santa Terezinha, construída na década de vinte. Atraindo um público mais jovem, a Faculdade Maurício de Nassau, oferece dentre outros cursos, o de cinema digital, uma graduação ainda nova em Penambuco. No Derby também funciona o maior hospital da rede de saúde pública de Pernambuco e maior serviço de urgência do Norte e Nordeste, com mais de 3.500 funcionários e 10.000 atendimentos emergenciais por mês. Muitas vezes

Praça do Derby – projetada pelo paisagista Burle Marx novembro 2011 l Bairros do Recife l 41


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Espinheiro A

ssim como outras localidades da Zona Norte do Recife, o Espinheiro nas primeiras décadas do século passado era um bairro tipicamente residencial, com belos casarões que abrigavam moradores de uma classe privilegiada da cidade. Com o tempo, esse perfil foi mudando e hoje a maioria dos residentes estão nos edifícios. As casas transformaram-se em lojas, clínicas médicas, galerias, bares e restaurantes, com uma opção diversificada de comércio e serviço. Sapatos, lingeries, bolsas, vestidos, em cada esquina uma vitrine chama atenção, principalmente do público feminino. A área que hoje compreende o bairro surgiu do loteamento de sítios. Inicialmente era chamada de Matinha, em função da sua densa vegetação, mas como havia muitas plantas com espinhos foi sendo popularmente conhecida como Espinheiro. A Matriz do Espinheiro, por sua localização destacada na rua Conselheiro Portela, parece querer abraçar o bairro. Diferente de outros templos religiosos erguidos nos séculos XVII e XVIII, a Paróquia do Espinheiro é fruto do Congresso Eucarístico realizado no Recife em 1939, que determinou a criação da 44 l Bairros do Recife l novembro 2011

nova paróquia dedicada ao Santíssimo Coração Eucarístico de Jesus, inaugurada em 1941. Atravessando a rua fica o Balcão Centenário, ponto dos boêmios do bairro desde 1922. Polo Gastronômico - Para quem gosta de cerveja gelada e boa comida, a rua da Hora oferece várias opções, como o tradicional Entre Amigos, mais conhecido como Bar do Bode e o Empório Sertanejo, que oferecem culinária regional. Quem quiser sair do cardápio regional e degustar o sabor da típica comida peruana, tem o Chiwake; no Café Porteño a culinária argentina se destaca. Se a preferência for por culinária japonesa pode-se optar pelo Zen, que inicialmente só funcionava servindo a la carte e atualmente oferece também o rodízio. Famiglia Lucco e Quintal da Hora são especialistas na cozinha italiana. Com outras opções de bares e restaurantes é possível fazer um verdadeiro tour grastronômico nessa movimentada rua do bairro. A Igreja Anglicana também tem forte presença no Espinheiro. Na década de quarenta o consulado inglês conseguiu concessão para construção da igreja, na rua

Carneiro Vilela. Foi nesse templo, que o rei do futebol, Pelé, casou com a então amada, Assíria. Em 2002 ocorre uma separação entre a Igreja Anglicana e o então pastor Paulo Garcia, que conseguiu na justiça o direito de permanecer no templo, agora sob a utilização da Igreja Episcopal Carismática. Em função da sua história com o bairro, a Igreja Anglicana decidiu permanecer no Espinheiro. Sob a liderança do pastor Sérgio Andrade, inaugurou um novo templo na rua Alfredo de Medeiros. O setor de saúde também se destaca no bairro. O Instituto de Olhos do Recife – IOR, que atua há mais de quarenta anos no segmento oftalmológico, conta com centro cirúrgico e urgência 24 horas. Na área de traumas e ortopedia tem o Hospital do Espinheiro, que hoje faz parte do grupo Santa Clara. Em um vistoso casarão na Rosa e Silva está o IPSEP - Hospital dos Servidores do Estado de Pernambuco. Além de inúmeras clínicas especializadas como Unicordis, pronta para atender problemas do coração. Diferente da sua origem, em que as plantas dificultavam o movimento na área, hoje para quem mora ou trabalha, o Espinheiro é um bairro que oferece diversas facilidades.


Aflitos P

assando pela avenida Rosa e Silva, muitas vezes observamos lojas, supermercados, espigões, mas não percebemos uma pequena, mas bonita igreja que fica depois do cruzamento com a rua Amélia. Espremida em meio às modernas construções, parece um pouco deslocada. Porém, sua importância histórica é enorme, pois trata-se da Capela de Nossa Senhora dos Aflitos, fundada em 1762, que deu nome ao antigo sítio que originou o bairro. Assim como o vizinho Espinheiro, os Aflitos era um bairro tipicamente residencial de classe média e alta, que hoje agrega comércio, serviços, além de dois importantes clubes da cidade. Entre os séculos XIX e XX destacadas companhias inglesas aportaram no Recife como a Western Telegraph Company e Pernambuco Tramways, entre outras. Esse movimento deu origem a uma influente colônia britânica, que deixou um importante legado, dentre eles, o The British Country Club, fundado em 27 de abril de 1920. Em meio ao concreto da cidade fazer parte desse ambiente é sem dúvida um privilégio. Com área verde, piscinas, campos de futebol, quadras

de tênis, salão de sinuca e restaurantes, oferece uma estrutura completa para o lazer de inúmeras famílias tradicionais do Recife. No fim do ano, o reveillon do Country é sempre uma festa bastante disputada, conhecida por sua animação e ambiente familiar. Mais conhecido pelo futebol, que ostenta com orgulho o título de hexacampeão pernambucano, conquistado entre 1963 e 1968, o Clube Náutico Capibaribe começou as atividades com outra modalidade bem diferente: o remo, daí o escudo com os dois remos cruzados. Anteriormente funcionando na rua da Aurora, o clube localizado na avenida Rosa e Silva agrega estádio de futebol e a sede social, com parque aquático, quadras esportivas, salão de jogos, além da Timbu Shop. Em dia de clássico torcedores e não torcedores sentem a movimentação do bairro, com ruas fechadas pela CTTU e muita gente chegando e saindo do estádio, o que por vezes complica a vida de quem mora no entorno, porém não deixa de fazer parte da tradição dos Aflitos, assim como o bloco Timbu Coroado, que faz a alegria dos alvirrubros durante o carnaval.

Morador há mais de dez anos do bairro, o jornalista Ivo Dantas diz que quando sair da casa dos pais pretende continuar nos Alfitos. “Eu não quero sair daquela região por nada. Ainda tem muitas árvores, muitas casas. De uma forma geral não tem arranha-céu; tem muitos edifícios, mas como são mais antigos, não são tão altos. Tem facilidades como locadora, delicatessem, bons restaurantes como o Benedictus, supermercado e é uma das poucas áreas do Recife que não tem favela. Se as calçadas fossem bem conservadas daria pra fazer tudo a pé,” destaca Dantas. Quem quiser ficar por dentro das últimas novidades do cinema, tem o cine Rosa e Silva no shopping ETC, conhecido também pelas sessões de arte. O local oferece outras facilidades como uma movimentada praça de alimentação. Além da face moderna, belos casarões também fazem parte da paisagem do bairro, como o da sede do Incra e a antiga Casa do Barão de Casa Forte, onde está localizado o Colégio Damas, um dos mais tradicionais do Recife, que esse ano completa 115 anos.

Clube Náutico Capibaribe: do remo aos gramados novembro 2011 l Bairros do Recife l 45


Casa Forte Plínio Santos-Filho

N

os seus versos, Lenine exalta: “Eu sou mameluco, sou de Casa Forte, sou de Pernambuco, sou o Leão do Norte.” Unindo tradição e desenvolvimento econômico, enormes espigões com antigos sobrados, densidade urbana e o bucolismo da famosa praça, Casa Forte desperta nos seus moradores um sentimento de pernambucaneidade. O engenho de Casa Forte, que deu origem ao bairro, registra um episódio marcante na campanha da expulsão holandesa na época em que era conhecido como engenho de Ana Paes, a bela pernambucana que se casou três vezes, sendo duas delas com batavos. Derrotadas na batalha do Monte das Tabocas, as tropas holandesas se instalaram no engenho que serviu de fortificação. Porém, no dia 17 de agosto de 1654 - daí o nome da famosa avenida - o exército pernambucano enfrentou e venceu os invasores, libertando as senhoras que haviam sido feitas reféns. A casa do engenho, local da batalha, ficou conhecida como casa forte.

Bem diferente da sua origem rural, basta dar um passeio pela avenida Dezessete de Agosto, para ver que hoje a sofisticação faz parte do bairro. Lojas como Hyundai Caoa e Le Lis Blanc demonstram o alto

Plínio Santos-Filho

Praça de Casa Forte: reduto verde do bairro é projeto de Burle Marx 46 l Bairros do Recife l novembro 2011

poder aquisitivo do público daquela região. Boas opções gastronômicas com bares, restaurantes, creperias e cafés; comércio diversificado e o Plaza Shopping Casa Forte, tornam o espaço residencial nessa área bastante valorizado, o que impulsionou fortemente a verticalização. Apesar da mudança na paisagem com grandes condomínios, o bairro tem seu reduto verde que reúne pessoas de várias gerações. Passear pela praça de Casa Forte é sentir a tranquilidade que o contato com a natureza oferece. Projeto do paisagista Burle Marx, seus jardins apresentam três espelhos d`àgua com plantas aquáticas, tendo originalmente como principal atração, a vitória-régia amazônica. A praça também é palco de feiras. Lá, todo sábado é possível comprar produtos orgâncios e no primeiro sábado de cada mês, o artesanato pernambucano é mais um atrativo à beleza natural do lugar.


Igreja de Casa Forte; no lugar da antiga capela

Em frente à praça está a igreja Matriz da Paróquia de Casa Forte, que foi construída no lugar da antiga capela do engenho. Liderada há quarenta anos pelo padre Edwaldo, figura carismática do bairro, a paróquia tem um intenso trabalho social, principalmente com crianças e jovens carentes. “Gosto muito desse bairro, acho um bairro diferenciado, aqui ainda tem muito o espírito de família,” destaca o pároco. Prova da influência que a paróquia exerce na comunidade é a Vitória Régia. Realizada todo mês de novembro é uma das festas de rua mais populares do Recife. Além de arrecadar fundos para manter a creche e a Casa da Criança, também é um espaço de socialização.

Plínio Santos-Filho

A pesquisa científica está presente no bairro, no número 2187, da Avenida Dezessete de Agosto. Inaugurada como instituição em 1949, a Fundação Joaquim Nabuco – FUNDAJ colabora na estruturação de projetos para ajudar no desenvolvimento sustentável e inclusão social das regiões Norte e Nordeste. Integrado à FUNDAJ está o Museu do Homem do Nordeste, em que o visitante entra em contato com a riqueza da cultura nordestina, através de uma exposição permanente com 3.500 peças, além de exposições temporárias e mostras artísticas. Nos dias que antecedem o carnaval, a folia toma conta do bairro. Blocos tradicionais como Guaimum Treloso e Paraquedista Real, arrastam uma multidão colorida e bastante animada até o Poço da Panela. Por outro lado, em épocas menos festivas, o bairro ainda conserva um lado tranquilo, sendo reduto de intelectuais e escritores como Ariano Suassuna. Casa Forte é um daqueles locais que mesmo quem é de fora, se sente mais recifense. novembro 2011 l Bairros do Recife l 47


Apipucos M

angueiras, Jaqueiras, Cajueiros, abacateiros. Apipucos ainda é um bairro verde. Seguindo pela avenida Dezessete de Agosto, deixando para trás o adensamento de prédios, podemos observar belas casas com jardins frondosos. Diferente de outras localidades, conserva o perfil essencialmente residencial e o ar bucólico, reforçado com ruas de paralelepípedo e o grande açude que lembra paisagens do interior. Personagens ilustres moraram na Suiça do Recife, como ficou conhecido o bairro por seu clima ameno. Dentre eles, o pintor Murillo La Greca, o jornalista Assis Chateaubriad, o paisagista Roberto Burle Marx e o sociólogo Gilberto Freyre. Em um belo casarão do século XIX, que lembra a solidez com que construiu sua obra, o autor de Casa Grande & Senzala, viveu com sua família por mais de 40 anos. Sua memória, no entanto, está preservada, já que a antiga residência abriga hoje a Casa-museu Magdalena e Gilberto Freyre, com uma biblioteca que acomoda mais de 40.000 volumes e também a Fundação Gilberto Freyre. Sobre o bairro em que se criou, Sônia Freyre, filha do sociólogo e presidente da fundação, destaca: “Acho que é um bairro diferenciado. Aqui as famílias ainda são tradicionais, no sentido de ser família quem se ama, se protege. Ainda se vive num clima de amizade. Então é diferente porque hoje você mora num prédio e não sabe quem é o seu vizinho.” O bairro herdou o nome de origem tupi do antigo engenho. Estudiosos acreditam que Apipucos significa: o caminho que se divide. A partir do fim do século XVIII as atividades agrícolas foram dando espaço ao povoado que crescia com o surgimento de sítios e chácaras. Muitos moradores do centro do Recife veraneavam na localidade, aproveitando as águas medicinais do Capibaribe e se refrescando nos banhos de açúde. 48 l Bairros do Recife l novembro 2011

No final do século XIX um morador do bairro, Cláudio Dubeux, instalou o primeiro serviço de transportes públicos da capital. Os “ônibus” eram na verdade, diligências puxadas por cavalos, com capacidade para cerca de 20 passageiros, mas mesmo assim contribuiu para modificar os hábitos de moradia, como demonstra essa notícia da época, no Diário de Pernambuco: “O estabelecimento de ônibus tem posto em continuo contato esta cidade e seus arrabaldes, a ponto que os próprios empregados públicos e comerciantes podem hoje com módico dispêndio habitar com suas famílias nesses arrabaldes, tão saudáveis como pitorescos...” Local tradicional é a igreja de Apipucos, edificada no mesmo lugar da antiga capela do engenho. Durante a ocupação holandesa sofreu saques e atos de vandalismo, mas depois passou por várias reformas. Sem o rebusque e a imponência de outros templos religiosos, chama atenção justamente por sua singeleza. Muitos noivos de famílias privilegiadas escolhem trocar as alianças na igreja e seguir para a festa em uma das belas casas de recepção do bairro, sendo as mais tradicionais, Arcádia e Rose Beltrão.

Histórias românticas também estão presentes na memória do bairro. O empresário Delmiro Gouveia, reformou uma das casas mais características de Apipucos e denominou a propriedade com belas palmeiras imperiais de Vila Annunciada, que era o nome da sua esposa. Hoje o local abriga toda área de pesquisas sociais e documentação da FUNDAJ, que engloba o Núcleo de Digitação com vários arquivos já preservados e disponíveis ao público. Em frente fica a biblioteca Blannche Knopf, considerado um dos maiores acervos do país na área das Ciências Sociais. No alto de uma colina, a Faculdade Marista, onde antes funcionava o seminário da congregação é um local privilegiado. A beleza clássica de sua construção, se harmoniza com a natureza em sua volta, que ainda preserva resquícios de Mata Atlântica. No local também pode ser visitada uma reprodução da gruta francesa de Nossa Senhora de Lourdes. Recantos como esse lembram que nem toda cidade está tomada por prédios, carros e avenidas, ainda existem lugares onde é possível exercer a rara prática da contemplação.


Dois Irmãos S

aindo de Apipucos, cruzando a BR 101 chegamos ao bairro de Dois Irmãos, bastante conhecido por abrigar o zoológigo do Recife. Porém, mais do que ser a casa de leões, hipopótamos e girafas, o Parque Estadual Dois Irmãos é uma das maiores reservas de Mata Atlântica de Pernambuco, com uma área de 384,42 hectares. Inaugurado no começo do século XX, o local faz parte da infância de muitos recifenses, que se admiram com a diversidade da Mãe Natureza e aprendem mais sobre mamíferos, répteis e insetos no Museu de Ciências Naturais.

O bairro surgiu nas terras do antigo engenho, cujos proprietários eram os irmãos Antônio e Tomás Lins Caldas, conhecidos como Toné e Coló, por serem bastante unidos o lugar ficou conhecido como Dois Irmãos. Em uma grande área funciona a Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). Com vinte e dois cursos, atrai alunos interessados em aprofundar seus conhecimentos em Ciências Agrárias e Biológicas, dentre outros. No começo do século XIX toda água potável do Recife vinha da extinta

Companhia do Beberibe, onde hoje funciona a Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa). Outra empresa importante é Laboratório Farmacêutico do Estado de Pernambuco (Lafepe), que responde pela fabricação de uma vasta gama de remédios. Desde de 2006 o bairro foi incluído no roteiro dos eventos sociais da cidade, com a inauguração da Usina Dois Irmãos, que funciona em um belo casarão do século XIX. Com boa parte da antiga estrutura preservada, as festas no local ganham um charme todo especial. novembro 2011 l Bairros do Recife l 49


Plínio Santos-Filho

Poço da Panela S

air da movimentada avenida Dezessete de Agosto e entrar pela Estrada Real do Poço é como fazer uma viagem pelo tempo. O caminho de pedra arborizado, cercado por belos casarões, deixa a sensação de que voltamos para os séculos XVIII e XIX, quando as famílias aristocráticas do Recife passaram a frequentar as terras do antigo engenho de Casa Forte, em busca dos banhos medicinais, nas águas do Capibaribe. Nos primórdios do povoado havia dificuldade para conseguir água potável, até que uma nascente foi descoberta. Um poço foi construído onde foi colocada uma grande panela de barro para que a população tivesse acesso à água; o local ficou conhecido como Poço da Panela. Tipicamente residencial, o Poço da Panela conserva um ar aprazível e clima de cidade do interior. Um recanto que sobreviveu à especulação imobiliária, que descaracterizou tantos conjuntos arquitetônicos do Recife. Os prédios existem, porém em geral, não excedem oito andares, conforme determina a legislação em vigor, e as casas ainda são maioria. Escritórios de advocacia, de arquitetura, espaços culturais e restaurantes como o Thaal Cuisine e a creperia Marias de 50 l Bairros do Recife l novembro 2011

Milla, ganham um charme especial ao se instalarem nos antigos casarões do bairro. Seguindo pela Estrada Real do Poço chegamos à Igreja de Nossa Senhora da Saúde, uma construção do século VXIII, arrodeada por antigo casario. No local morou o festejado abolicionista José Mariano Carneiro da Cunha, que ganhou um monumento de bronze

em sua homenagem. Inspiração para muitos artistas que mantém seus ateliês no bairro, também foi retratado nos romances do escritor Mário Sette, dentre eles, Os Azevedos do Poço. Entre um copo e outro de uma cerveja gelada no Bar do Seu Vital é possível descobrir essas e outras histórias que alimentam a memória cultural desse local tão acolhedor da nossa cidade.

Plínio Santos-Filho

Bairro conserva casarões coloniais


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Jaqueira C

rianças brincando na gangorra, no escorrego e no balanço. Jovens senhores fazendo cooper, adolescentes acelerando no bicicross, casais apaixonados aproveitando a sombra das árvores para trocar juras de amor; assim pode ser descrito um típico dia no Parque da Jaqueira. O oásis verde que fica entre a rua do Futuro e a avenida Rui Barbosa é sem dúvida a principal atração do bairro de mesmo nome, mas não é a única. Com edifícios residenciais e flats de alto padrão, muitos deles no entorno da praça, a Jaqueira é um bairro pequeno, mas bastante privilegiado. Reúne área verde, comércio diversificado e uma vida cultural agitada com bons restaurantes, bares e a Livraria Jaqueira, que promove vários eventos ligados à literatura pernambucana, inclusive o lançamento do mais recente romance do escritor Raimundo Carrero, Seria uma sombria noite secreta. Com pães especiais, massas folhadas e bolos com receitas da “vovó”, como o tradicional pé de moloque e o de macaxeira com queijo de coalho, a padaria Pan Jovem está no bairro desde o começo da década de oitenta. Com foco na comida regional, também oferece um buffet no estilo self service no café da manhã, almoço e jantar. O casal Fábio Salsa e Ivanize Queiroz, há cerca de dois anos, decidiu mudar para a Jaqueira. “É um bairro que tem muita árvore e tem tudo perto: academia, livraria, restaurante, padaria, além do parque; dá pra fazer tudo a pé, ” explica Ivanize bastante satisfeita com o novo endereço. Ela destaca também a facilidade de acesso, podendo optar pela Rui Barbosa, Rua do Futuro ou Avenida Norte, que fica perto, quando precisa se deslocar. Maior parque em extensão do Recife, a Jaqueira ocupa uma área de sete 52 l Bairros do Recife l novembro 2011

Plínio Santos-Filho

Parque da Jaqueira: espaço de integração do bairro, preserva a natureza e a Capela N Sra da Conceição da Jaquiera, construída no século XVIII

Plínio Santos-Filho

hectares às margens do rio Capibaribe. Durante anos sediou a Feira do Comércio e Indústria de Pernambuco – FECIN. Após um período de abandono, o parque foi inaugurado em 1985 e desde então recebe gente de todos os bairros, interessadas em desfrutar do contato com a natureza. Além da prática esportiva, eventos culturais com dança e música também são realizados lá. Morada de mangueiras, jambeiros, sapotizeiros, pau-brasil e palmeiras imperiais, o parque abriga também a capela de Nossa Senhora da Conceição da Jaqueira. Erguida em 1766 pelo

proprietário do sítio, na época, o capitão Henrique Martins, foi batizada inicialmente com o nome de Nossa Senhora da Conceição de Ponte d’Uchôa, mas com o tempo a denominação foi mudando em função das àrvores frondosas que a cercavam. Na década de setenta, após passar por uma reforma foi tombada e contemplada com um jardim de Burle Marx. Nesse cenário romântico, com a secular igreja emoldurada pelo verde do parque, muitos casais decidiram trocar as alianças. Sem dúvida, um belo local para celebrar o amor.


Tamarineira D

urante muito tempo quando alguém fazia algo considerado fora do comum, as pessoas falavam: cuidado pra não ir pra Tamarineira. Desta forma, Tamarineira, no Recife, tornou-se sinônimo de loucura. Porém, a Tamarineira vai muito além do Hospital Ulysses Pernambucano; um bairro que cresce com modernos edifícios, comércio diversificado, academia de ginástica, colégios e em breve vai ganhar uma grande loja da Ferreira Costa, além da tradicional Casas José Araújo, “onde quem manda é o freguês”. Portanto morar na Tamarineira é um privilégio e não um suplício. Assim como vários bairros do Recife, sua origem vem do loteamento de sítios. Notícia veiculada no Diário de Pernambuco, de 5 de outubro de 1882, informava que o Sítio da Tamarineira começava a lotear suas

terras, e assim aos poucos a povoação foi se desenvolvendo. Assim como o Rosarinho, o bairro da Tamarineira é cortado pela avenida Norte, o que marca também uma mudança nas construções e no perfil econômico do bairro. No final do século XIX foi inaugurado pelo Barão de Lucena, o Hospital Ulysses Pernambucano, na época com o nome de Hospital dos Alienados. Nas décadas de 20 e 30, foi criada ali a Escola de Psiquiatria do Nordeste, comandada pelo médico e psiquiatra Ulysses Pernambucano, que implantou reformas importantes na instituição, abolindo métodos ultrapassados que eram então utlizados no tratamento dos internos, como os calabouços e camisas de força. Após ter sido cogitada a construção de um shopping center na área do Hospital,

a população através da associação Amigos da Tamarineira se mobilizou contra o empreendimento. A vontade popular prevaleceu e a Prefeitura do Recife lançou em junho deste ano, um concurso nacional para que fossem apresentados projetos para a construção do futuro Parque da Tamarineira. Caso o projeto realmente saia do papel, a área de 10,34 hectares - portanto maior que o parque da Jaqueira – vai abrigar um espaço privilegiado no Recife. Um imenso jardim verde voltado principalmente para contemplação, com museu de arte contemporânea, café e livraria, playgrounds e centro de atividades físicas, mas principalmente muita área verde. Com acesso também pela avenida Norte, o futuro parque vai representar um oásis natural em meio a selva de concreto, que se transformou o Recife.

Projeto do futuro Parque da Tamarineira

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Graças E

Plínio Santos-Filho

ndereço de tradicionais colégios da cidade como São Luiz, Agnes e Vera Cruz, a avenida Rui Barbosa, nas Graças, parece inspirar o conhecimento, talvez reflexo do importante jurista que homenageia. Além das escolas, o bairro também abriga renomados hospitais como o Santa Joana e Jayme da Fonte. Porém, mais do que instituições de referência, as Graças ainda mantém seu caráter residencial, com forte presença de comércio e serviços, muitos dos quais funcionando nas antigas casas, já que a maioria dos moradores optaram pelos edificíos. Referência no bairro, a bela Matriz das Graças com seu rico interior ornamentado por vitrais e pinturas sacras é resultado da devoção de um casal. Francisco Carneiro Rios e sua esposa Cândida Rios, doaram em 1857, um terreno para que fosse erguida uma capela consagrada ao culto de Nossa Senhora das Graças. Porém, a construção atrasou e a partir de 1870 a paróquia passou a funcionar provisoriamente na Igreja de São José do Manguinho, até a conclusão do novo templo que ocorreu em 1872. Foi nas Graças que o papa João Paulo II dormiu quando fez sua histórica visita ao Recife na dácada de oitenta, em que encheu de emoção o coração dos fiéis pernambucanos. Na avenida Rui Barbosa, ao lado da Capela dos Manguinhos está o Palácio dos Manguinhos, sede da Cúria Metropolitana e residência oficial do arcebispo de Olinda e Recife, cargo ocupado na época da visita papal por Dom Hélder Câmara e hoje representado por Dom Antônio Fernando Saburido. Do outro lado da rua foi preparado o Bolo de Rolo para o Santo Padre. Tradicional na cidade, a Casa dos Frios é reconhecida pela qualidade dos seus produtos, desde 54 l Bairros do Recife l novembro 2011

Palácio dos Manguinhos: residência oficial do arcebispo de Olinda e Recife

regionais como o Bolo Souza Leão e o famoso Bolo de Rolo, até uma enorme gama de importados: vinhos, cervejas, chocolates, queijos, tudo para agradar os mais refinados paladares. Logo em frente está outro endereço requintado da cidade, trata-se do restaurante Porto Ferreiro, instalado em um belo casarão é especialista em peixes e frutos do mar. Também funcionando em um antigo casarão, o restaurante Macunaíma, na Rua das Creoulas é ponto tradicional no bairro, com um cardápio variado que inclui rodízio de pizza e crepe. Atraindo muitas vezes um público mais jovem, principalmente no final da balada, o Bugaloo, na avenida Rui Barbosa, funciona com espaço de bar, restaurante e lanchonete. Para os que curtem um bom papo regado a cerveja e petiscos, a Mercearia Amélia é uma opção

de agito. Saindo do setor gastronômico e entrando na área cultural, as Graças abriga o Museu do Estado de Pernambuco. Um imponente palacete do século XIX, em que viveu o filho do Barão de Beberibe, abriga parte significativa da nossa história. Com mais de 14 mil itens no acervo, divididos em várias categorias como arqueologia, cultura indígena e presença Holandesa em Pernambuco, oferece também espaço para cursos, oficinas de arte e exposições. Também respirando os ares da antiga aristocracia pernambucana, a Academia Pernambucana de Letras, reúne os imortais, em um belo casarão na avenida Rui Barbosa, que pertenceu ao Barão Rodrigues Mendes. O bairro também tem seu espaço de lazer e diversão. Sentindo a necessidade de um


Alexandre Albuquerque

Museu do Estado: acervo com mais de 14 mil itens

local que reunisse seus patrícios, um grupo de comerciantes portugueses, fundaram na década de trinta, o Clube Português do Recife. Pioneiro no hóquei sobre patins, montou a equipe na década de cinquenta, quando o esporte era praticamente desconhecido na cidade. Nas dependências do clube está o restaurante Adega, especialista na típica cozinha portuguesa. Pouco antes do carnaval acontece o tradicional baile do Siri na Lata, quando o frevo pernambucano pede passagem ao fado, para animar o salão. Em frente ao clube fica a praça do Entroncamento, que se destaca principalmente no período natalino por sua vistosa decoração. Inaugurada no começo do século XX era nesse entroncamento ou cruzamento, que se encontravam as Maxambombas de três localidades, esse

nome exótico representava um tipo de veículo sobre trilhos, em que uma pequena locomotiva puxava alguns vagões de passageiros. Hoje os veículos que se encontram na praça são os taxis, muito úteis para evitar o bafômetro nos dias de festa no clube. Retrato de épocas mais antigas, o Sítio Alexandre Albuquerque

Bolo de rolo: tradição nas Graças

Histórico da Capunga, guarda parte da memória do bairro. No prédio da centenária Fundição Lucena, hoje funciona a Faculdade Maurício de Nassau, que já foi bastante criticada por padronizar as cores dos imóveis que estão em Zona de Preservação Rigorosa. O nome, no entanto, não poderia ser mais apropriado, já que em 1638, após cair doente, o Conde Nassau foi se recuperar naquela região, em um casarão às margens do Capibaribe. Em frente à faculdade está a casa onde nasceu o poeta Manuel Bandeira e na Rua Fernando Lopes um casario bem preservado pode ser apreciado, não apenas nas fachadas, mas também no seu interior, já que muitos deles são ateliês, o que comprova que ao contrário de água e vinho, história e arte se misturam muito bem. novembro 2011 l Bairros do Recife l 55


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59. Ilha do Retiro 60. Madalena 61. Prado 62. Zumbi 63. Torre 64. Cordeiro 65. Torrões 66. Engenho do Meio 67. Cidade Universitária 68. Iputinga 69. Caxangá 70. Várzea novembro 2011 l Bairros do Recife l 57


Plínio Santos-Filho

Avenida Caxangá: tem fama de maior avenida em linha reta do Brasil

Caxangá S

eguindo pela avenida Caxangá, muitas revendas de automóveis e produtos agrícolas se destacam, principalmente nas proximidades do Parque de Exposições do Cordeiro. Mais adiante, já chegando perto da Várzea, observamos um enorme campo verde e cavalos saltando altos obstáculos, uma cena inusitada no cotidiano corrido da cidade, onde carros, ônibus e pedestres costumam disputar seus espaços. Dentro do Caxangá Golf & Country Club ainda é possível escutar o som dos pássaros, as folhas balançando, como se a vida andasse no mesmo ritmo do começo do século passado, quando o clube foi inaugurado. Em 1910, o golfe já era praticado por ingleses no Recife, porém de forma improvisada na campina do Derby. Em 1928, um funcionário da Western Telegraph, George Little, aficionado por golfe, encabeça um movimento junto a seus pares para construir um local perto da cidade onde se pudesse praticar o esporte. 58 l Bairros do Recife l novembro 2011

Naquele mesmo ano, no dia 7 de outubro, uma grande festa marcou a inauguração, The Pernambuco Golf Club, com o início da primeira temporada oficial de golfe do Recife. Posteriormente, a ampliação do espaço veio com a compra de 65 hectares de terra do Engenho Poeta entre a Avenida Caxangá e o rio Capibaribe. Com a nova configuração passa a se chamar Caxangá Golf & Country Club, onde ainda hoje são praticados esportes mais sofisticados como hipismo e golfe, além de tiro, esgrima e tênis. Um bairro em que as casas ainda estão em maior número, começa a receber edifícios de alto padrão. “Você foge um pouco da agitação da cidade, lá em casa parece que estou num sítio, escuto o barulho das cigarras,” conta a advogada Renata Escobar que mudou com a família há três anos do Rosarinho e hoje mora em frente ao clube. Porém, se por um lado é mais sossegado, por outro faltam boas padarias, bons restaurantes e uma infra-

estrutura melhor de comércio, explica a advogada. O bairro tem origem em uma povoação fundada pelo cônego Francisco Pereira Lopes, mais conhecido como Cônego Caxangá, pois suas terras eram assim conhecidas, no final do século XVIII. No século XIX tornou-se um lugar famoso pelos banhos de rio medicinais e ganhou ainda mais movimento com a conclusão, em 1842, do primeiro trecho da estrada de Paudalho. A Estação de Caxangá era um dos terminais mais importantes da Maxambomba, que realizava o transporte de passageiros nos vagões sobre trilhos. Hoje, o transporte público é feito por ônibus que têm faixas exclusivas na avenida. Apesar da mudança no tipo de transporte a importância da via continua a mesma, sendo considerado um dos maiores corredores de tráfego de veículos do Recife, que tem a fama de maior avenida em linha reta do Brasil.


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Cidade Universitária O

bairro tem sua origem com a chegada da Universidade Federal de Pernambuco – UFPE e o início da construção do campus universitário em 1948. Após um longo debate sobre a melhor localização, cogitando os bairros de Santo Amaro e Joana Bezerra, ficou decidido que seria em um loteamento na Várzea, por suas condições climáticas e topográficas, além de já existir uma avenida projetada para o local. Mas seria necessário recursos para colocar em prática a ideia. Foi então criado um projeto de lei através do qual 0,10% dos impostos de vendas e consignação seria destinado para implementação do projeto, concebido pelo arquiteto veneziano Mário Russo. Entre as décadas de 50 e 60 as faculdades foram sendo inauguradas e com seus prédios chegaram professores, funcionários e alunos, alguns dos quais optaram por morar perto das suas atividades, o que estimulou a moradia no bairro. Nessa época se disputavam corridas de carro na pista do campus, com a participação dos irmãos Fittipadi, Emerson e Wilson. Hoje a UFPE é considerada a melhor universidade do Norte-Nordeste segundo avaliações do MEC. Sua estrutura impressiona, só no Campus Recife são mais de 40 prédios, além de Centro de Convenções, Concha Acústica, Casas dos Estudantes feminino e masculino e Restaurante Universitário. Agitando a vida cultural do Recife, o teatro é palco de palestras, debates, shows e peças. Os jovens movimentam não apenas o campus, mas também seu entorno com diversos bares e restaurantes, dentre eles, os tradicionais Paid`égua e Arriégua. Também na Cidade Universitária e vinculado à Universidade Federal de Pernambuco está o Hospital das Clínicas (HC), que funciona como campo de atuação prática para os estudantes de medicina. Sua construção começou na década de 50, mas só foi inaugurado em 1979, quando houve a transferência de setores do Pedro 60 l Bairros do Recife l novembro 2011

Edifício Sede da Sudene II para o novo hospital, que passou por uma grande reforma no final da década de 90. Com atendimento ambulatorial, centro cirúrgico, leitos de UTI e UTI neonatal, reúne 200 docentes e dois mil estudantes de graduação, para a prestação de importantes serviços à população pernambucana, sendo considerado um hospital modelo entre as unidades universitárias de saúde.

Outro importante marco na Cidade Universitária é o prédio da SUDENE. Fruto do pensamento do economista Celso Furtado, foi criada no governo de Jucelino Kubitschek, em 1959, através da Lei. 3.962. A sede, no entanto, foi inaugurada na década de 70, um suntuoso edifício de treze andares, com jardins de Burle Marx, que nascia com a gradiosa missão de reduzir os efeitos das secas, aumentar a industrialização no Nordeste e diminuir sua desigualdade social. Porém após muitas críticas ao seu funcionamento e denúnicas de desvio de recurso público, em 2001 foi criada em substituição, a Agência de Desenvolvimento do Nordeste, no entanto, em 2007 a Sudene voltou a funcionar. Hoje, porém, não tem a mesma força que na época de sua criação, tanto que o prédio atualmente abriga outros órgãos como IBGE, Justiça do Trabalho, Codevasfe e Funasa, para diminuir a ociosidade do espaço.

Entre as décadas de 50 e 60 as faculdades foram sendo inauguradas


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Oficina de Francisco Brennand: um santuário da arte pernambucana

Várzea S

eguindo por uma estrada de barro, passando por uma área de mata fechada, cuja sombra faz a temperatura cair instantaneamente, avistamos vacas pastando tranquilamente. O cenário que lembra paisagens interioranas é na Várzea. Um pouco mais adiante chegamos a um santuário da arte pernambucana: a Oficina de Francisco Brennand, que enche de orgulho os seus conterrâneos.

originalidade e beleza da sua obra. O que era uma antiga olaria herdada do pai, nas terras do Engenho Cosme e Damião, começa a ganhar novas feições a partir da década de 70 e segue em contínua transformação, agregando cada vez mais valor ao espaço único que ao longo da vida vem construindo, e que reúne recifenses e turistas no mais puro exercício da contemplação.

Nas mãos habilidosas do artista, a cerâmica ganha vida e se transforma nas mais diversas criaturas: pássaros, mulheres, ovos... O universo imaginário do autor está ao alcance de todos os visitantes, que saem fascinados com a

Ainda na Várzea, um belo castelo em estilo medieval, repleto de obras de arte e peças históricas, faz o visitante pensar que está em outro continente, mais precisamente na Europa. No Castelo São João, do Instituto Ricardo

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Brennand (IRB) é possível apreciar armaduras, espadas, esculturas, pinturas, sem sair do Recife. Com a maior coleção privada do pintor holandês Frans Post, considerado o primeiro paisagista do Novo Mundo, uma importante coleção de documentos, mapas e objetos relativos ao período do Brasil Holandês, além de um núcleo de Armaria com cerca de 3.000 peças vindas de diversos países como Inglaterra, Turquia, Índia, Alemanha e Japão, o Instituto demonstra a força do seu acervo. Se as semelhanças externas lembram locais da França, na cafeteria saboreando


uma canjica ou pé-de-moleque, o visitante terá a certeza que está em Pernambuco. Além de exposições nacionais e internacionais o IRB também oferece cursos, ciclos de debates, atividades culturais e visitas monitoradas para um público diverso, dentre eles, alunos da rede pública e privada de ensino de Pernambuco. Sem dúvida uma ótima oportunidade para as crianças entrarem em contato com um universo antes só visto nos livros escolares. Além de arte, a Várzea tem história. No livro Velhas Igrejas e Subúrbios Históricos, Flávio Guerra, destaca: “As terras da Várzea remontam aos primeiros dias da colonização de

Instituto Ricardo Brennand: importante acervo histórico

Pernambuco, repartidas que foram por Duarte Coelho entre diversos colonos, pela sua excelente posição na várzea do rio Capibaribe e ótimas para a agro-indústria do açúcar.” Em 1630, a região contava com dezesseis engenhos de açúcar, porém vale ressaltar que a extensão não era a mesma dos dias atuais englobando as áreas que hoje são Cordeiro, Iputinga, Engenho do Meio, Caxangá, Zumbi e Aldeia.

dentre outros, instalou nas suas terras a sede da conspiração para expulsar os holandeses. Após serem derrotados na batalha do monte das Tabocas, como retaliação, os soldados flamengos invadiram a Várzea e capturaram ilustres senhoras pernambucanas, dentre elas, a sogra e a esposa de Fernandes Vieira, que junto com o exército pernambucano conseguiu resgatá-las no engenho de Ana Paes, hoje Casa Forte.

Justamente por seu desempenho na indústria açucareira, os engenhos da Várzea sofreram com a invasão holandesa através de confiscos e saques. João Fernandes Vieira, proprietário dos engenhos Santo Antônio e São João,

Na casa-grande do engenho São João foi fundado o Arraial Novo do Bom Jesus, funcionando como quartelgeneral das forças restauradoras, até a vitória final em 1654. Durante o período da guerra, lá funcionou um Hospital Militar, a Santa Casa de Misericória de Olinda e o Senado da Câmara, mantendo também os atos e costumes religiosos da vida colonial portuguesa. “Ali funcionou, enfim, toda a governaça e o mecanismo oficial da capitania de Pernambuco,” ressalta Flávio Guerra. O célebre índio Felipe Camarão, que lutou ao lado de Fernandes Vieira e de Henrique Dias, ferido na batalha do Monte dos Guararapes em 1648, foi levado ao Arraial Novo, onde faleceu, sendo sepultado na Igreja Matriz do Rosário. Hoje fica difícil imaginar toda importância que tem a localidade para a história de Pernambuco. Algumas construções remontam aquela época, na Praça da Matriz estão as igrejas de Nossa Senhora do Rosário e Nossa Senhora do Livramento, que pertencia a uma irmandade de escravos. Porém, os muros pichados demonstram desleixo com esse patrimônio. No bairro também funciona a Secretaria de Educação de Pernambuco, onde alguns casarões ainda se destacam, mas no geral vemos casas de médio e pequeno porte e condomínios residenciais, com prédios mais baixos. Na rua Gastão de Vidigal vários motéis atraem casais em busca de prazer e privacidade. Mas, sem dúvida, os maiores atrativos da Várzea são proporcionados pelos Brennand. novembro 2011 l Bairros do Recife l 63


Torre “F

ui criado em casa de taipa, em rua de gente humilde, desprovida de saneamento básico, calçamento e iluminação pública, local de onde nunca me apartei…” O depoimento de Leonardo Dantas, no livro: Crônicas de uma vida, reflete bem as transformações no bairro da Torre. A rua a que ele se refere é hoje a movimentada Marquês de Maricá, com carros circulando freneticamente nas vias calçadas e iluminadas, cercada por casas e edifícios.

Ivo Dantas

O rio Capibaribe faz parte da paisagem do bairro

O bairro tem origem no engenho de açúcar do rico colono português Marcos André. Em 1633, a propriedade foi ocupada pelos holandeses, onde construíram uma fortificação e quartéis para acampamento das tropas. Com a rendição dos invasores batavos, o trabalho no engenho foi retomado, assim como, as orações na sua capela sob invocação de Nossa Senhora do Rosário. A antiga capela é hoje a Igreja Matriz da Torre, a fachada é a mesma de outrora, no entanto, o seu interior foi completamente reformado no século XIX, aumentando bastante a sua dimensão. Como a torre da igreja se destacava com dezesseis metros de altura e unilateral, o local passou a ser conhecido como Engenho da Torre, e daí vem a denominação do bairro. O engenho funcionou até a segunda metade do século XIX, quando chegaram as fábricas de tecido Cotonifício da Torre e a fábrica de tecido Zumbi, que ajudaram a transformar a região em polo têxtil, estimulando a criação das vilas operárias. Também outras empresas como olarias e fábrica de fósforo se instalaram no bairro, o que certamente contribuiu para aumentar a moradia nas áreas próximas. “A minha família chegou em 1877, eles vieram da Paraíba e se instalaram na Torre. Meu avô era o gerente da primitiva fábrica 64 l Bairros do Recife l novembro 2011

de tecidos da Torre. Tem família que nós temos relação de amizade há cem anos,” explica Leonardo Dantas, cuja casa foi destruída duas vezes, nas cheias de 66 e 75, mas nas duas ocasiões ele reconstruiu a residência no mesmo local, que hoje abriga sua estimada coleção de arte e de livros. Apesar de a Torre ser um bairro diferente da época em que comemorou sua formatura com uma festa no meio da rua, Dantas ressalta: “É um ótimo local para se morar porque é perto de tudo. Aqui todos nós nos falamos, temos relações de parentesco, de amizade.” No lugar da antiga fábrica hoje está o supermercado Carrefour. Também está no bairro o Atacadão dos Presentes e da Construção, além de padarias, delicatessem, salões de beleza, farmácias, pizzarias e outros comércios úteis aos seus moradores.

Há doze anos na Torre, Manuela Ferreira, também sente as transformações: “Há alguns anos o bairro era bem mais tranquilo e as ruas bem menos movimentadas. Com a quantidade ainda crescente de apartamentos em construção nas redondezas, a Torre está cada vez mais congestionada e a nossa rua que costumava ser quase deserta, hoje é frequentemente visitada por caminhões de grande porte que causam transtorno, pois as ruas são estreitas e dificulta muito a manobra dos carros.” Porém, algumas tradições ainda se mantém. A imagem de Santa Luzia, que fica na igreja matriz, e é considerada padroeira dos operários da Torre, é cultuada por muitos devotos, que expressam toda sua fé em uma grande festa popular, no dia 13 de dezembro, com procissão e novena à santa. No bairro da Torre, progresso e tradição, ainda ocupam o mesmo espaço.


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Madalena G

alinhas cacarejando, pássaros cantando, filhotes de cachorro com jeito carente que pedem para ser “adotados”, a Feira dos Passarinhos, ao lado do Mercado da Madalena, apesar do nome, tem bem mais do que aves. Peixes coloridos e gatos, além de aquários, ração e outros produtos para animais também podem ser encontrados lá. Em meio a tantos bichos, a criançada faz a festa, e não raro saem carregando um pintinho ou peixinho, que serão a novidade da casa, enquanto durarem… Localizado na rua Real da Torre, o Mercado da Madalena foi inaugurado em 1925, pelo governador Sérgio

Loreto. Local tradicional dos boêmios da cidade, que muitas vezes com o dia raiando decidem tomar a saideira, acompanhada de macaxeira com charque, sarapatel ou cuscuz com bode guisado, ficou conhecido como Mercado Bacurau, uma referência ao pássaro madrugador. Além do comércio de frutas, verduras, peixes, cereais e carnes, possui também alguns serviços como sapataria e costura. Como todo bom mercado popular, a irreverência está presente no da Madelena, onde é possível passear pela Avenida do Chifre Comprido, fazer parte da Confraria dos Chifrudos e tocar o sino

Plínio Santos-Filho

Mercado da Madalena: irreverência faz parte da sua tradição

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ao ler a placa: “Se não for corno seja bem vindo se for toque o sino.” Bairro dos mais tradicionais do Recife, a Madalena tem história, que começou com a doação de Duarte Coelho de “uma légua de terras em Capibaribe”, para o seu cunhado, Jerônimo de Albuquerque. Os herdeiros dividiram a área e venderam as partes, uma delas foi para Pedro Afonso, um fidalgo da casa real, e sua esposa Madalena Gonçalves, onde ergueram um engenho de açúcar que passou a ser chamado: Engenho da Madalena. A casa grande em que viviam os proprietários ficou conhecida como


A versão moderna dos palacetes são os imponetes edifícios, principalmente na avenida Beira Rio, que hoje conta com ciclovia e pista de cooper. O designer Jackson Verissimo tem boas recordações do bairro em que se criou: “Era tudo casa, meu prédio tinha seis pavimentos e era um dos maiores. A gente catava carangueijo no rio, tinha um senhor que morava na beira do rio em uma casa sem luz, à noite ele acendia uma fogueira. Sr. Patrício acreditava que em noite de lua cheia aparecia uma sereia no rio Capibaribe. Eu tinha um caiaque e muitas vezes ia de caiaque até Apipucos, ou até o Cabanga. O rio para mim é uma referência, muitas vezes ele aparece nas minhas obras.”

Plínio Santos-Filho

Sobrado Grande da Madalena e ainda hoje pode ser apreciada com sua bela fachada em estilo colonial, toda revestida com azulejos azul e amarelo. Atualmente abriga o Museu da Abolição aberto à visitação pública, o que é bastante aproproiado já que no local morou o conselheiro João Alfredo Correia de Oliveira, um importante abolicionista que teve participação direta na promulgação da Lei do Ventre Livre e na Lei Áurea, que extinguiu a escravidão no Brasil. A Madalena também teve participação durante a campanha da restauração. O engenho que nessa época pertecia a João de Mendonça, acolhia soldados pobres e feridos. As atividades produtivas tiveram que ser paralizadas e o local foi transformado em uma estância fortificada, para lutar contra os invasores holandeses, fazendo parte da resistência

que acontecia simultaneamente em vários arredores do Recife. Algumas batalhas foram ali travadas, sobre um desses episódios relata Pereira da Costa: “Para perseguirem os nossos soldados, que buscavam a salvação nos alagadiços e nos canaviais, levaram os holandeses bravios cães de fila, que se lançavam sobre eles.” Com o fim da guerra, a propriedade por venda e testamento foi mudando de mãos e no fim do século XIX já se verificava a sua divisão em vários sítios, tornando-se uma área bastante valorizada, com suntuosos palacetes. Com o surgimento do primeiro trem urbano batizado popularmente de Maxambomba, a primeira linha servida foi da Madalena, onde moravam senhores de engenho, altos comerciantes e fidalgos que ostentavam os títulos de barões ou viscondes concedidos pela monarquia.

Já bastante verticalizado, várias casas hoje abrigam empresas de comércio e serviços. Na rua Benfica, ainda é possível admirar antigos casarões, dentre eles, o da Blue Angel Recepções, um belo exemplar do século XVIII. Na mesma rua está a Escola Superior de Marketing, a sede do Batalhão de Choque da Polícia Militar (BPChoque) e o colégio GGE, todos em casarões históricos. Também na Benfica está o tradicional Clube Internacional do Recife. Fundado em 1885 no bairro portuário era chamado Clube Internacional de Regatas, em 1938 transferiu-se para a atual sede na Madalena. A partir da década de 60 passou a promover o Bal Masquê, que até hoje ocupa lugar de destaque nas prévias carnavalescas da cidade. Na área da saúde o bairro conta com o hospital De Ávila, com urgência vinte e quarto horas, cirurgia geral, cardiologia, clínica médica e obstetrícia. Nas proximidades têm consultórios e clínicas médicas. Para quem quer comprar ou vender carro, a rua José Osório é um conhecido local de comércio de veículos com uma loja ao lado da outra, os modelos ofertados são os mais variados. De passarinho a automóvel, passando por sereia no Cabibaribe, na Madalena se pode encontrar. novembro 2011 l Bairros do Recife l 67


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71. Curado 72. San Martim 73. Bongi 74. Mustardinha 75. Mangueira 76. Afogados 77. Jiquiá 78. Estância 79. Jardim São Paulo 80. Sancho 81. Totó 82. Coqueiral 83. Tejipió 84. Barro 85. Areias 86. Caçote novembro 2011 l Bairros do Recife l 69


Plínio Santos-Filho

Afogados D

eixando o bairro de São José, passando pela rua Imperial, chegamos a Afogados. Com um forte comércio popular que engloba a Feira Livre de Afogados e o Mercado de Afogados, além de grandes distribuidores, atacadistas, lojas de peças de automóvel, bancos e estações do metrô, muita gente que circula por esse movimentado bairro do Recife, talvez desconheça a sua importância histórica, cuja origem começou nas terras doadas pelo donatário Duarte Coelho a Jerônimo de Albuquerque. O local teve participação direta em diversos conflitos que marcaram a nossa 70 l Bairros do Recife l novembro 2011

história. Tendo em vista a sua localização estratégica, para impedir um avanço das forças holandesas em direção à região açucareira, foi construído um forte em 1630, com 130 homens prontos para o combate, que acabou acontecendo em 1633, quando uma grande força holandesa, atacou de madrugada e tomou a fortificação, apesar dos esforços do exército pernambucano. Na metade do século XVIII, a povoação de Afogados já contava com mais de trezentas casas de moradia e um curtume de sola. Em 1817 foi desmembrada da jurisdição de Olinda e passou a pertencer

a Vila do Recife. Nessa época a igreja de Nossa Senhora da Paz já era referência de fé no povoado. Ao contrário de tantas casas antigas em lamentável estado de conservação, o templo religioso permance com sua imponência fincado no Largo da Paz, um dos pontos mais característicos do bairro. Afogados também teve um papel importante durante a Guerra dos Mascates, quando funcionou na localidade um presídio militar, sob o comando do capitão Manoel da Mota Araújo. Cerca de 400 homens dos mascates tentaram se apossar da


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Afogados teve um papel importante em diversos combates históricos, dentre eles, a Guerra dos Mascates e a Confederação do Equador povoação, mas foram derrotados nessa empreitada. Outros combates também ocorrem durante a Confederação do Equador, entre as forças republicanas e tropas do exército imperial vindas do Rio de Janeiro, para derrotar o movimento revolucionário. Mas se em Afogados ocorriam lutas, também havia festas. E não seria diferente para recepcionar o Imperador D. Pedro II, que visitou a povoação em novembro de 1859 e foi recebido com bastante entusiamo pela população. Sobre a origem do nome, Pereira da Costa, no livro Arredores do Recife, destaca: “É porque ali corre um rio, que quando enche com a maré é muito arrebatado e furioso, e nele se afogava muita gente, principalmente escravos negros.” Hoje o rio corre manso e não mais assusta. Apesar do seu comércio agitado, o bairro ainda guarda seu lado tranquilo, com casas de residência em ruas onde os carros ainda não tomaram. Local da sua infância e juventude, o design Eduardo Maciel, deixou o bairro apenas para se casar, e recorda com carinho dos antigos carnavais. “Havia um grupo de moradores que se cotizavam para realizar um carnaval no bairro. Na minha memória era grandioso. Blocos como Pitombeira, Vassourinhas, Gigante do Samba, entre outros passando na 72 l Bairros do Recife l novembro 2011

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Plínio Santos-Filho

minha porta!” Se por um lado havia festa, por outro a religião se manifestava de várias formas: “Lembro de igrejas, centros espíritas, igrejas protestantes ainda numa época onde a Assembléia de Deus não havia se tornado uma grande empresa. Isso me impressionava muito. Tanto é que quando os mórmons chegaram no bairro, pra mim foi muito interessante. Pensei: agora tem até religião importada.” Apesar de não se considerar um afogadense da “gema” por não ter nascido na maternidade Bandeira Filho, nem estudado no Colégio Amauri de Medeiros, Maciel enxerga Afogados como um bairro cosmopolita pela facilidade de ir e vir, é próximo do centro e de vários bairros da cidade facilitando assim o deslocamento. Porém ressalta: “Outro ponto decorrente da sua posição geográfica, foi o êxodo das famílias dando lugar a várias empresas. O bairro ficou feio e pobre. É como se a prosperidade tivesse mudado de endereço, apesar de cheio de empresas.” De fato, um bairro

com tanta história para contar merece um cuidado maior das autoridades públicas e dos próprios moradores,

que unidos têm mais força para lutar pelo desenvolvimento do bairro, para retomar o brilho de outros carnavais.

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Cohab JordĂŁo Ibura Ipsep Boa Viagem Imbiribeira Pina BrasĂ­lia Teimosa novembro 2011 l Bairros do Recife l 75


Boa Viagem “B

oa Viagem pra mim é o sol cintilando na água do mar e deixando tudo branco, aquela luz que encandeia as manhãs de verão... essa é a memória mais gostosa que eu tenho do bairro,” discorre João Pessoa Filho, que mora em Boa Viagem “desde que se entende por gente.” Apesar de tantas construções, edifícios comerciais e residenciais, lojas e o Shopping Center Recife, pioneiro no estado, a praia é sem dúvida o maior patrimônio do bairro. Nas areias de Boa Viagem todos se encontram: jovens, crianças e idosos; moradores e ambulantes; moças e rapazes, a praia é um dos espaços mais democráticos da cidade, em que todos se divertem e alguns aproveitam para ganhar dinheiro. Pipas coloridas cortando o céu, camarão de bacia, caldinho de feijão, cerveja gelada, as opções de consumo são muitas. 76 l Bairros do Recife l novembro 2011

Apesar do seu encanto natural, com piscinas de águas mornas, cercadas por resistentes arrecifes, a praia de Boa Viagem, principalmente nos finais de semana, vem sendo castigada com toneladas de lixo na areia: restos de picolé, abacaxi, saco plástico, que em vez de devidamente armazenados ficam espalhados a céu aberto. Culpa em parte da população que não sabe conservar o próprio local de lazer, e do poder público por não fazer uma campanha maciça de conscientização que poderia englobar os barraqueiros, já que estes deveriam colaborar para manter limpo o seu local de trabalho, além de mais lixeiras e banheiros públicos. A origem do nome vem do começo do século XVIII, quando o padre Leandro Camelo, recebeu as terras doadas por Baltasar da Costa Passos e sua esposa Ana Costa, na condição de que ali

fosse levantada uma capela. O padre, na época conhecido como homem de grandes virtudes, fundou a igreja e mandou fazer uma imagem de Nossa Senhora da Boa Viagem, “pondo as suas esperanças nesta Senhora, cujo cuidado é levar-nos, sempre, ao desejado porto de salvação,” relata Pereira da Costa, no livro Arredores do Recife. As terras foram divididas em vários sítios, que garantiam uma renda para a igreja. Diferente de vários bairros da Zona Norte do Recife, que no século XIX aumentaram a população, muitos em torno dos banhos no rio Capibaribe, Boa Viagem, segundo relatos do referido autor, em 1837, tinha apenas algumas casinhas em torno da igreja. Bem no começo do século XX estima-se que havia umas cinqüenta casas, já que os banhos de água salgada começaram a se tornar mais populares a partir da década de vinte.


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Em 1924, no governo de Sérgio Loreto foi construída a Avenida Boa Viagem, que contribuiu também para o desenvolvimento do bairro. Pouco tempo depois as famílias passaram a veranear em Boa Viagem, cuja alta estação começava a partir de 7 de setembro. Muitos banhistas chegavam de bonde, que circulavam na avenida à beira-mar. Com a II Guerra Mundial e o aumento do movimento no vizinho aeroporto dos Guararapes, trazendo entre outros, soldados americanos, houve nova fase de progresso no bairro. Na década de cinquenta grandes edifícios como Acaiaca, até hoje ponto para quem quer badalar na praia, Califórnia e Holiday já faziam parte da paisagem da Zona Sul. Antes destacados, hoje eles se perdem em meio a muralha de prédios que tomam conta do bairro. Naquela época foi inaugurado o primeiro hotel de padrão internacional, o Hotel Boa Viagem,

que foi demolido para dar lugar a um condomínio residencial. Na década de oitenta os moradores do bairro foram surpreendidos com uma novidade, um shopping center. Com lojas, lanchonetes, segurança e ar condicionado, o local logo virou ponto de encontro da garotada. Inicialmente com 72 lojas, hoje, após diversas ampliações conta com 410 estabelecimentos, cinemas e praças de alimentação. No entorno surgiram vários empresariais e agora residenciais de grande porte. Sobre as características do bairro, João Pessoa ressalta: “É o bairro mais cosmopolita da cidade, ele abraça todo mundo que chega, é uma grande mãe, talvez por ser um bairro mais novo em relação aos mais ancestrais, ele tem essa pluralidade de jeito, de tipos, de estilos.” Fazendo uma analogia, podemos dizer que os bairros da Zona Norte se

Paróquia de Nossa Senhora de Boa Viagem, a igreja deu nome ao bairro

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identificam mais com o estilo europeu, com sua história e tradição e Boa Viagem está mais para o estilo americano, em que o capital tem um peso mais forte. Grandes supermercados, modernas academias de ginástica, padarias, delicatessem, restaurantes de alto padrão como Mingus, É Gastronomia, Spettus, Club Du Vin, dentre outros, demonstram que o poder de consumo é elevado. Além disso, as avenidas Conselheiro Aguiar e Domingos Ferreira abrigam um forte comércio com lojas requintadas, principalmente na área de moda e decoração. Porém, a pobreza continua a existir no bairro, com comunidades carentes e crianças implorando por trocado nos sinais, um grave problema social que há muito tempo já deveria ter sido enfrentado pelas autoridades públicas. Outro fato que chama atenção é o número elevado de farmácias. Pode ser


Novos empreendimentos mudam o perfil do bairro

sintoma do stress causado por um estilo de vida essencialmente voltado para o desenvolvimento material em detrimento de uma qualidade de vida mais saudável. Como os demais bairros da cidade, Boa Viagem também é vítima da violência e dos constantes engarrafamentos, principalmente na avenida Domingos Ferreira, que a prefeitura promete aliviar com a inauguração da Via Mangue. Há no entanto, quem aproveite bem o espaço que o bairro oferece para caminhar no calçadão, pedalar na ciclovia, jogar vôlei ou futebol na praia e depois tomar uma boa água de coco em um dos quiosques da avenida. Após muita polêmica o Parque Dona Lindu hoje é sucesso de público com crianças lotando os parquinhos, jovens fazendo manobras radicais nos skates e patins e programações culturais como peças e concertos. Nessa lista só o surfe ficou de fora, o mar que já foi colorido com pranchas de vários modelos e tamanhos, depois dos ataques de tubarão, hoje serve mais para contemplação ou banhos nas diversas piscinas naturais.

O bairro também é conhecido por abrigar grandes colégios como Santa Maria, Boa Viagem e Motivo. Inaugurado em 1956, na rua dos Navegantes, o Instituto Santa Maria, comandado pela professora Maria das Dores, tinha turmas até a 4ª série. Em 1962 mudou para o atual endereço na rua

Padre Bernardino Pessoa, que além do colégio abrange também a Faculdade Santa Maria. Consolidado como um dos mais tradicionais da cidade, o colégio Santa Maria acompanhou a trajetória de crescimento do bairro, que mudou bastante de perfil a partir da década de cinquenta.

Parque Dona Lindu – freqüentado por público de todas as idades

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Pina C

ruzando a ponte Paulo Guerra, passando pelo rio Capibaribe, chegamos ao Pina. Há alguns anos era uma área mais desvalorizada em relação a Boa Viagem, enquanto essa já estava saturada de prédios, no bairro vizinho havia um número bem menor de construções. Hoje, porém, essa realidade mudou, com diversos espigões já

Novos empreendimentos mudam perfil do bairro

levantados e outros tantos em construção, o Pina é tomado por um acelerado processo de desenvolvimento. Alguns fatores podem ter contribuído para isso, com a orla de Boa Viagem praticamente toda verticalizada, as construtoras foram em busca de áreas

ainda disponíveis. Ademais, o avanço do mar que em muitos trechos com a maré cheia engole toda faixa de areia em alguns pontos da praia vizinha, no Pina isso ainda não ocorre. Outra vantagem do Pina é livrar parte do trânsito das principais vias de Boa Viagem, principalmente a Domingos Ferreira, já que esse bairro está mais próximo do centro e dos bairros da Zona Norte, o que significa economia de tempo para quem trabalha nessas localidades. O grande número de condomínios residenciais vem atraindo outros comércios e serviços. O salão de beleza SET, inicialmente em Boa Viagem, abriu uma filial à beira mar no Pina, assim como o tradicional salão de Dorinha. Restaurantes como Antenor, Boi Preto e Bargaço, o Boteco Maximes, academia TOP FIT, entre outros, também apostam nesse público. No entanto, o movimento de bares e restaurantes é mais antigo e começou com a inauguração do Polo Pina, onde havia a movimentada Soparia. Funcionando há vários anos nesse local o restaurante Pra Vocês, mantém no cardápio a peixada Pernambucana que ajudou a trazer fama para o lugar. Também no bairro está o Clube Líbano, que no carnaval sedia o irreverente Siri Pirata, além do Teatro Barreto Júnior, com sua programação cultural. Durante a II Guerra Mundial foi inaugurado o Cassino Americano, voltado para a diversão dos “ianques.” Há pouco tempo nesse local funcionou um bingo sofisticado com o mesmo nome. A inauguração do empresarial JCPM com uma arquitetura moderna e arrojada representa um marco nessa nova fase do Pina, que em breve vai ter seu próprio shopping center, o RioMar, apresentado como o maior centro de compras do Norte/Nordeste, que já está em fase avançada de construção.

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Plínio Santos-Filho

Local dos mais descolados, a galeria Joana D`Arc é uma espaço bastante original. Atrai diversas tribos que se encontram para um bom papo, regado a tequila, cerveja gelada, vinho tinto, acompanhado de crepes ou massas dependendo do gosto do freguês. Bem próximo está a imponente Matriz de Nossa Senhora do Rosário, que nesse caso fornece o alimento para a alma.

de pequenas aeronaves, também abriga o IMEPE – Instituto de Música Eletrônica de Pernambuco, onde são realizados cursos para DJs. Próximo ao aeroclube está o Convento de São Félix onde está enterrado o corpo de Frei Damião. O Clinical Center

voltado para o atendimento médico e outros empresariais também estão no Pina, dentre eles, o Empresarial Domingos Ferreira onde a equipe de criação da revista Algomais trabalha com afinco para levantar as bandeiras de Pernambuco.

Segundo Carlos Cavalcanti, no livro O Recife e seus bairros, a denominação tem origem no nome do antigo proprietário do sítio existente na localidade, que se chamava Capitão André Gomes Pina. Seguindo para o norte está a comunidade de Brasília Teimosa, antes formada por frágeis palafitas, após um processo de urbanização hoje tem sua orla pavimentada e com ciclovias, no local, bares famosos como o Império dos Camarões, atraem um grande público. No bairro também funciona o aeroclube de Pernambuco, que além de receber pilotos novembro 2011 l Bairros do Recife l 81


Imbiribeira S

aindo de Afogados, passando pela ponte Motocolombó, chegamos à Imbiribeira. Bairro com forte perfil residencial, abriga também grandes empresas, principalmente na Avenida Mascarenhas de Morais, que recebeu esse nome em homenagem ao comandante da Força Expedicionária Brasileira (FEB), durante a II Guerra Mundial.

Lagoa do Araçá – ponto de lazer da população

Quem comprou um carro ou está pesquisando para comprar, provavelmente já passou nessa avenida. Praticamente todas as marcas estão presentes nas suas concessionárias como Ford, Fiat, Wolkswagen, Honda, Toyota, Citroen, Nissan, Peugeot, Renault, Mercedes-Benz, até a recente JAC Motors. Caminhões, tratores, motos, lojas de auto peças, a oferta no setor é bem extensa. Porém não é só o setor automotivo que tem forte presença na Imbiribeira. Empresas de grande porte como Netuno Pes cados, Copergás, Sam’s Club, Ferreira Costa, Tupan, Grillo, Flor Arte, Tem de Tudo, inclusive bancos e faculdades. No quesito saúde foi inaugurada uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), que recebeu o nome Maria Esther Souto Carvalho em homenagem a uma das fundadoras do Hospital do Câncer de Pernambuco. Ainda na Mascarenhas de Morais está o Ginásio de Esportes Geraldo Magalhães, mais conhecido como Geraldão. Inaugurado na década de 60, já recebeu shows nacionais e internacionais, diversas competições esportivas, além de contribuir para a formação de novos esportistas pernambucanos através das escolinhas com aulas de futsal, volêi, ginástica olímpica, judô, dentre outras. Com um design moderno que remete a traços futurísticos, fruto de uma grande 82 l Bairros do Recife l novembro 2011

reforma concluída em 2004, o Aeroporto Internacional do Recife/GuararapesGilberto Freyre foi inaugurado em 1958 pelo presidente Juscelino Kubitschek. O nome Guararapes se deve ao fato de estar próximo aos montes dos Guararapes, local em que foram travadas batalhas decisivas em que os holandeses foram derrotados pelas tropas brasileiras. Em dezembro de 2001, durante a gestão de Fernando Henrique Cardoso passou a se chamar também Gilberto Freyre, como uma homenagem ao sociólogo pernambucano. Segundo Pereira da Costa, Imbiribeira vem de uma árvore de grande porte chamada Imbiriba, muito comum na nossa flora, e de grande utilidade por fornecer ripas para a coberta das casas. Havia no local o Sítio Imbiribeira, que emprestou sua denominação para o bairro.

Mais do que local de desembarque de turistas, ou ponto de grandes empresas, a Imbiribeira é tipicamente residencial. Diferente de outros bairros que são marcados pela água do mar ou do rio, nesse bairro é uma lagoa a grande atração. A famosa Lagoa do Araçá é um ponto de lazer para os seus moradores com pista de corrida, campo de futebol, parque para a criançada e um posto policial que ajuda na segurança. No entorno da lagoa que fica em área de mangue, tem comércio com locadora, restaurante, bar, mas principalmente muitas residências. No entanto, como acontece em vários bairros da cidade, a paisagem ali também começa a mudar com a chegada de edifícios no lugar das antigas casas.


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Revista Algo Mais Ano 2 nº 2 Nov/2011  

Especial Bairros do Recife

Revista Algo Mais Ano 2 nº 2 Nov/2011  

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