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Plano Sequência — Plano B Lapa


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Beatriz Lemos Plano-sequência — música/arte/ experimentações Este é um texto experimental. Sua única pretensão é dar conta de ser um corpo híbrido e conseguir falar dois idiomas — no sentido de ser entendível para seus interlocutores. Deve ser um texto de apresentação de um evento e de encerramento de disciplina em curso de pósgraduação. Deve conseguir falar para o público frequentador de um espaço de música experimental na Lapa, Rio, e ser suficientemente bom para aprovação como trabalho final de semestre no Mestrado em História da Arte na PUC-Rio, em disciplina orientada pela crítica de arte Cecília Cotrim. Deve tratar de música, de arte e do diálogo dessas duas. ************************

Pensar na trajetória da música experimental no Rio de Janeiro inevitavelmente nos conduz ao bairro da Lapa, mais precisamente à loja de vinis Plano B. A loja iniciou suas atividades em 2004 e aos poucos foi se desenhando como espaço-referência para a música eletrônica experimental. O alcance de reconhecimento do Plano B extrapola contextos cariocas e se estende a âmbito nacional e internacional. Artistas renomados de ponta a ponta do mundo vêm ao Brasil para conhecer a loja que se metamorfoseia de acordo com demandas de seu público: o núcleo

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de venda e troca de vinis, CDs e fitas cassete passa a receber shows e projetos pouco convencionais. O espaço se transforma de forma suave e sem pretensões em palco de música experimental, performances, videoarte e instalações — projetos sempre desvinculados dos circuitos comerciais e das instituições de arte. Contudo, não saciado em sua missão de prover conteúdo e visibilidade à cena, o Plano B se transmuta em Associação Cultural Plano B Lapa, que se estabelece dessa forma visando ao fomento da cena de experimentações em música e arte contemporânea na cidade do Rio e suas reverberações além amplificadores. anotações: Mais de 290 apresentações de artistas dos estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Minas Gerais, Alagoas, Pernambuco, Distrito Federal, Bahia, Espírito Santo e Ceará. E do Japão, Alemanha, Áustria, Estados Unidos, Polônia, Inglaterra, Argentina, Austrália, Nova Zelândia, Chile, Peru, Colômbia, França, Suécia, Holanda, Bélgica, Canadá, Finlândia, Suíça, Irlanda, África do Sul, Espanha, Angola. Entre os nomes mais importantes que já passaram pela loja estão Chelpa Ferro, Fausto Fawcett, Fenerich, Giuliano Obici, Vivian Caccuri, Edu Zal, Cristiano Rosa, Doamor, Mário del Nunzio, Carlos Pontual + Paulo Vivacqua + Fernando Jacutinga; Zbigniew Karkowski, Glen Hall, Jason Khan, Günter Müller, Norbert Möslang, Bernhard Gal, Horacio Pollard, Riyuta Kawabata, Tetuzi Akyiama, Lawrence English, Bizarre Uproar, Julio Shalom, Derek Holzer, Tian Rotteveel, Szkieve, Fernando Perales, Nicolas Bonstein, Stefan Prins, Matthias Koole, Enema Syringe, Jonas Ohlsson, Horacio Pollard, Daniel Haaksman, Maga Bo, Damo Suzuki, David Opp, Sven Koenig, Yama Yuki, Sam Nacht, Ricardo Donoso.

Logo após a leitura do livro Silence de John Cage para a aula de Cecília Cotrim e, consequentemente, o debate sobre a influência do músico-poeta nas artes visuais dos anos 1960/70, sua passagem pelo Fluxus e a descontrução do conceito de música a partir de suas partituras e concertos, segui para o Plano B para saber onde estávamos nessa fusão entre música, arte, eletrônica e acaso. Não foi Cage o precursor da música experimental, antes já havia os futuristas, os dadaístas e a música concreta, porém foi ele o responsável pela difusão da linguagem em meios de comunicação populares e por meio da publicação de seus livros e ensaios, ao longo da segunda metade do século 20. Em Silence Cage escreve: “onde quer que estejamos, o que ouvimos é ruído. Quando o ignoramos, nos incomoda. Quando o escutamos, descobrimos que é fascinante. O som de um caminhão a 90 quilômetros por hora. Os ruídos entre uma emissora de rádio e outra. A chuva. Nós queremos capturar e controlar estes sons, utilizá-los não como efeitos sonoros, mas como instrumentos musicais”¹. Do início de suas experimentações, que datam dos anos 1930, até a atualidade, música e arte trilharam caminhos cada vez mais próximos. A arte sonora contemporânea se mescla em ¹Cage, John. Silence. Middletown: Wesleyan University Press, 1961.


diferentes linguagens e gêneros artísticos ampliando o campo de atuação na fronteira entre diferentes áreas. Performances sonoras, experimentações musicais, escultura sonora, noise, circuit bending, improvisação, paisagem sonora, música eletrônica, rádio arte, música eletroacústica. Manifestações que têm no som seu material de criação e expandem limites do que tradicionalmente se definiria por arte ou música. Processos simbióticos que investigam o som em sua potencialidade estética, tátil, espacial, física, ou seja, em toda sua concretude. É nesse interstício onde arte e música se esbarram e se dobram que o Plano B Lapa se situa e é dessa convivência de ruídos que surge o evento Plano-sequência. anotações: música experimental também é arte sonora, porém arte sonora pode não ser música experimental...

“(...) porque tenho muito mais interesse em apontar o que não esteja familiarizado com as pessoas.” John Cage “Plano-sequência consiste em encontros de conversas, apresentações e etc durante todas as quintas, sextas e sábados do mês 9/2011 com o intuito de difundir pesquisa, reflexão e ação acerca da música experimental e da arte sonora. Os fala de quinta-feira

estarão focados em referências, contextos históricos e experiências globais e locais. Os encontros de sexta-feira serão realizados por trios de músicos e artistas visuais. E a cada sábado uma variação do tema. Para a ocasião será publicado um zine com textos de teóricos e críticos de arte e de música, além de imagens de obras de artistas convidados. Esta publicação será vendida (a preço de custo) como início da campanha de apoio colaborativo ao Plano B Lapa.”² Acontecimento sem cortes ou edições, Plano-sequência reunirá articuladores da arte e da música para um mês inteiro de debates e performances em torno dessas linguagens de múltiplas aberturas e desdobramentos. Propor fricções criativas a artistas visuais e deslocá-los de zonas de conforto; proporcionar trocas e novos olhares dos músicos para as experimentações; estimular a produção crítica sobre os transbordamentos entre arte e música e convidar à conversa vozes atuantes desse cenário na cidade do Rio são apenas os objetivos iniciais deste encontro. Será o instante de inauguração para novas possibilidades de uso do espaço do Plano B Lapa por seu constante e fiel público.

²Email-convite para participação no evento direcionado a artistas, músicos e teóricos.

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Falas de Quinta Quatro encontros de conversas livres com teóricos, críticos e artistas abarcando o panorama conceitual que engloba a prática da música experimental e da arte sonora e suas respectivas relações com mundo, com o Brasil, com o Rio de Janeiro e com a Lapa. O primeiro encontro será uma apresentação do projeto Plano-sequência e suas motivações de realização pelos curadores do evento Beatriz Lemos e Fernando Torres e pelo músico multiinstrumentista Bryan Holmes. O trio pretende também traçar a trajetória do Plano B Lapa, que se confunde com o processo de legitimação e difusão da cena de música experimental no país. Para uma conversa sobre as influências e referências históricas na arte sonora e na música experimental convidamos a crítica de arte Cecília Cotrim e o jornalista Ruy Gardnier a disporem seus pontos de vista sobre passado, presente e futuro dessas linguagens. A mediação será de Fátima Lopes. Alex Hamburger, Nilsão Primitivo e Christian Casseli apresentarão suas respectivas pesquisas em arte e cinema e o papel do som como dispositivo de transbordamento de fronteiras em suas poéticas. A conversa será mediada pelo pesquisador em mídias Tiago Rubini e contará com pequenas apresentações de trabalhos dos artistas.

E para fechar o ciclo de falas, uma síntese sobre a relação entre a arte sonora e o sistema da arte. Como se dão as condições para essa linguagem transitar pelo mercado de arte, galerias e instituições culturais e sua receptividade de crítica e de público. A conversa será entre o artista Romano e a curadora Daniela Labra, com mediação da artista multimídia Mary Fê. Performances de sexta Um músico, um artista visual e um híbrido dos dois. Quatro trios formados por profissionais (ou curiosos) dessas atividades estarão juntos em performances semanais. Artistas visuais que nunca ou pouco trabalharam com o som, músicos que tendem sempre a experimentar ruídos e artistas que tocam ao fazer arte. Ricardo Basbaum + Filix Jair, Lucas Pires e Bruno Jacomino. Luis Andrade, Fátima Araujo e Pontogor. Jorge Duarte, Fernando Torres e Abel Duarte. Juliana Borzino, Felipe Giraknob e Barrão. Variações de sábado Pequenos eventos relacionados ao assunto debatido a cada semana. Acontecimentos pouco usuais na programação diária do Plano B. Especial da casa: instalação interativa sônica Mostra de vídeos: Acervo histórico de Fernando Torres


San Ima + Nadam Guerra: Show da banda alemã San Ima em parceria com o trabalho Ótica abstrata: VJ Manual do artista Nadam Guerra. Plano aberto: performances e intervenções + Lançamento do zine

convidados a posar para as lentes de Adorján como incentivo ao início dessa rede. As fotografias serão publicadas em nosso zine ao lado de imagens de trabalhos de artistas e textos e ensaios críticos sobre o universo da música, da arte e das experimentações.

Plano-sequência celebra o início da atuação do Plano B Lapa como associação cultural. Apesar de já atuar constantemente como promotora cultural, a mudança de status de loja para associação visa à dinamização da cena, facilitando parcerias institucionais, através de sua nova razão social, e respaldando as ações independentes de seus colaboradores. A ocasião também é propícia para o lançamento da campanha de criação da Rede de Colaboradores-Amigos do Plano B Lapa com o intuito de formalizar os raros apoios individuais que já existem e incentivar outros (financeiros, empréstimo de equipamentos, trocas de serviços ou colaborações de qualquer outra índole) que intencionem o suporte à continuidade de suas atividades. “Seja Amigo-colaborador do PLANO B” — trata-se de uma campanha de moldes publicitários que será realizada pelo fotógrafo e artista Rafael Adorján. Personagens boêmios da Lapa, frequentadores assíduos do Plano B e os artistas, músicos e teóricos participantes do evento Plano-sequência serão

colabore comprando este zine. De minha parte, Plano-sequência foi inspirado pela convivência no bairro, conversas em casa com o Bruno e pela aula sobre Cage. Para o Plano B marca o início de outras ações. Firma o espaço como lugar para a experimentação do som, independentemente do meio ou linguagem. Contudo, a agulha não quebra e o espaço continuará sendo a loja de vinil que entorna gente pela calçada da Lapa. Não caberemos nunca, todos, no Plano B, mas sempre estaremos dentro. Esperamos que Planosequência seja um feliz momento para o aporte a inéditas iniciativas do gênero e que revigore ainda mais essa cena em constante delay e reverb.

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Rafael Adorján — Fotos “Durante a sessão de fotos para este fanzine, tive a oportunidade de poder trocar uma idéia com pessoas que já conhecia, outras que já gostaria de ter conhecido, e outras que sempre quis fotografar mas nunca tinha havido a oportunidade. Essa troca foi essencial, primeiro para poder quebrar o gelo diante da câmera (nunca é uma situação normal), e depois pra saber o que vai surgir a partir dali: Qual vai ser a luz, se vai ter pose, se é isso mesmo, ou é pra pirar junto? Assim os ensaios foram fluindo. Fotografia é relação. E o que mais gosto de fotografar é gente. A cada personagem retratado, me senti completando uma página de um álbum de figurinhas recheado por essas figuraças que marcaram a cena experimental da história da humanidade ou qualquer coisa que não se prenda a uma definição, que é justamente a essência do nosso querido Plano B.”

seja amigocolaborador do plano b


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Fernando Torres


Ninotchka


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LĂŠo Alves


Thais Medeiros


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Arthur Lacerda e Fernanda Almeida


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Bob N


Cid Mesquita


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Fabiola Neves


Beatriz Lemos


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Icaro dos Santos


Juliana Cerqueira


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Hugo Richard e Natali Tubenchlak


Alex Hamburger


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MaurĂ­cio Antoun


Vizinho


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Ruy Gardnier


Bruno Jacomino


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Augusto Malbouisson, Gabriel Ares e Pedro Bonifrate


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Ricardo Basbaum e Daniela Mattos


Pontogor e Julia Pombo


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Siri


Felipe Giraknob e Sandro Rodrigues


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Fรกtima Lopes


Abel Duarte


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Yuri Firmeza


Tania Pinto


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Juliana Borzino


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Jorge Duarte


Mary Fê


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Andrei Muller


Bryan Holmes


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Filix Jair


BIOS / A—B Abel Duarte Nasci em 1992 no Rio de Janeiro, onde atualmente vivo e trabalho produzindo som, vídeos, fotos, impressões e ações que envolvem esses diferentes meios. Alex Hamburger Desde o início das suas atividades, nos anos 80, teve seus interesses e preocupações voltados para as possibilidades interativas, de fusão e entrecruzamento disciplinar,tomando a experiência poética como ponto de partida e desenvolvendo ao longo dos anos 80, 90 e 00 trabalhos de Poesia Visual e Sonora, Poemas Objeto, Livros-deartista, performances, instalações, etc., tendo contribuído de forma decisiva para um melhor entendimento e aceitação dessas novas técnicas de expressão, ainda incipientes no circuito carioca dos anos 80. Realizou diversas exposições coletivas e individuais ao longo desse período. Alexandre Gwazz Montador e sound designer, desenvolveu projetos com o artista plástico Rubens Gerchman e com os cineastas Sérgio Bernardes e Joel Pizzini. Possui trabalhos autorais, iniciados em pesquisas de produção musical, vídeo-arte, live performance e curtas-metragens. Analu Cunha É artista visual. Vive e trabalha no Rio de Janeiro. André Amaral Foi dj da Mc Xuparina e participa ativamente de conluios artísticos visuais e sonoros das mais diversas naturezas. Acredita em modulações, vibrações e ondas e na desmaterialização de tudo que seja sólido. Vive e trabalha no Rio de Janeiro André Sheik Nasceu no Rio de Janeiro em 1966, é músico, compositor, poeta e desde 1999 estuda artes plásticas, tendo participado de exposições e mostras em Portugal, França, Polônia, EUA, Suécia, Venezuela, Colômbia, Cuba e Brasil (RJ, SP, MG, PE, CE, ES, BA). Arthur Lacerda, 1982, músico (Combo Recife de Improviso, Tonguemische) e artista plástico. http://olbestasten.tumblr.com/ Barrão É artista plástico nascido no Rio de Janeiro onde vive e trabalha.É integrante do Chelpa Ferro e gosta de improvisar. http://www.chelpaferro.com.br/

Beatriz Lemos Rio de Janeiro, 1981. Dedica-se, atualmente, à curadoria independente com pesquisa voltada para as artes visuais contemporâneas e seus desdobramentos em redes. Articula projetos de intercâmbios entre cenas de arte na América Latina, participando de residências e idealizando exposições no Brasil e exterior. Bob N (1967, Rio de Janeiro, RJ). Vive e trabalha no Rio de Janeiro, Brasil e Guanacaste, Costa Rica. Faz arte desde criança. Usa protetor solar, mas às vezes esquece. Estudou com Ivan Serpa, Anna Bella Geiger e Johaness van Eyck, mesmo. Participou de exposições em galerias e museus... Bruno Jacomino (1980) é artista, nasceu e reside no Rio de Janeiro. Se interessa por eletrônica, áudio, vídeo, fotografia e escultura. Bryan Holmes Compositor, produtor, pesquisador e multi-instrumentista chileno radicado no Brasil. Suas obras foram estreadas em prestigiosos festivais na Argentina, Austrália, Brasil, Chile, Colômbia, Espanha, França e Peru.


Mary Fê Mary Fê é artista sonora, performer e sound designer, graduada em Comunicação Social pela UFRJ. Dedica-se à pesquisa audiovisual e à performance musical DIY (“faça você mesmo”). Advinda do teatro e de bandas pop rock eletrônicas cariocas, em 2009 descobre a Arte Sonora e a Performance como ferramentas ideais na prática da experimentação cênica. Seus 3 trabalhos realizados de 2009 a 2011 (Solucionática, Meu Pequeno Terrorismo de Bolso e Bloco Lo-Fi com amps na lata de batata Pringles) utilizam referências populares, buscam simbolicamente uma mitologia brasileira cosmopolita cotidiana, usam gadgets subutilizados, ressimbolizando referências mundiais e as reprocessando sempre de maneira irônica. Mary Fê é artista sonora, performer e sound designer, graduada em Comunicação Social pela UFRJ. Dedica-se à pesquisa audiovisual e à performance musical DIY (“faça você mesmo”). Advinda do teatro e de bandas pop rock eletrônicas cariocas, em 2009 descobre a Arte Sonora e a Performance como ferramentas ideais na prática da experimentação cênica. Seus 3 trabalhos realizados de 2009 a 2011 (Solucionática, Meu Pequeno Terrorismo de Bolso e Bloco Lo-Fi com amps na lata de batata Pringles) utilizam

referências populares, buscam simbolicamente uma mitologia brasileira cosmopolita cotidiana, usam gadgets subutilizados, ressimbolizando referências mundiais e as reprocessando sempre de maneira irônica.

O que permanece? No Plano Sequência, o que permanece é a impressão do rastro, um caminho de imaginação. Eu sou vira-lata e gosto muito de sê-lo. O vira-lata é resistente. O vira-lata é esperto e dá seu jeito de sobreviver, sem caviar. Mas, se vier caviar, ele traça, digere e continua sua eterna busca. O viralata sabe de tudo, passeia por toda parte e aprende no ato. Eu janto um Nintendo DS made in Japão mais um console Dingoo made in China, uma lata de Pringles e cuspo de volta presença. Estou presente e quero mais é chegar chegando. É uma reação à violência silenciosa da obrigação de cumprir papéis e servir a modelos pré-estabelecidos de mercados que só fazem limitar sem fabricar soluções. Cansei. Quem quiser ouvir que ouça. E sempre há corações abertos a ouvir, em seus quartos pequenos, em suas praias gigantes. E assim, me espalho e me dôo em trabalho. Aquele resultado que ninguém esperava: a zebra!

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Perambulo por diversos caminhos desde que entendi, mesmo que sem palavras, que meu jeito de expressão era meio ciência, meio arte, ou seja: viralatice da pura. Comecei escrevendo, numa pulsão de registrar com uma máquina de escrever em Copacabana, as impressões de mundo que me invadiam a cabeça e o coração. Trabalho solitário, pessoal e intransferível. Depois, veio o teatro. Joguei-me de cabeça, corpo e membros para campos de vivência, sem rede de segurança. Entendi muito sobre os processos de expressão, mas ali ainda estava me sentindo inadequada. Eu não me encaixava numa tradição — que respeito profundamente e de onde ainda bebo e muito mergulho. Dos exercícios de improvisação e da constante observação do natural e do inventado, nas minhas práticas cotidianas, passei por um batismo de fogo, deixando pra trás a menina da máquina de escrever no quarto solitário, para me misturar e sujar no mundo híbrido das galeras e bares do Rio. Logo entraria em diversas bandas do underground carioca. E essas bandas, as tenho como minha verdadeira universidade. Depois de faculdade, teatro e bandas, arrumei um emprego num escritório. Ficava lá, mais de 8 horas por dia durante 8 anos, descobrindo como sonorizar animações. Também sonorizei joguinhos e pequenos episódios de

desenho animado. E assim, também mergulhei no universo do desenho sonoro. E depois de tanto tempo sem sair do lugar, quase morri com a falta de novidade. A me intimou, chamou a dar a cara a tapa. Topei e saí do casulo, me joguei no Meu Pequeno Terrorismo de Bolso. Vesti Nintendos, mini guitarras, microfones distorcidos e parti pra minha luta. Solucionar a expressividade. Inventar é a solução pra mim. Sou tradutora dos mundos por onde passo e quero mais é deixar rastro. Espero deixar lastro. Tenho a convicção prática de que tudo pode ser realizado em qualquer formato. Basta quebrar a cabeça, abrir o coração e os olhos para o eterno, mesmo assim, olhos míopes como os meus. Alguma coisinha a gente vê, ou inventa pra si que vê. O que permanece? Os formatos deixam seus rastros. Vamos lá, sem rede de proteção, sem patrocínio e lotados de afetos. Traduzir o mundo e dane-se o mercado formal. A estratégia da vida é sempre outra. É viver. É sentir e é partir pro ataque: medidas drásticas. É possível proteger uma obra? E para que eu iria querer proteger uma obra? Na lógica do mercado do século passado, a proteção valia como modo de ganhar dinheiro. Se eu acreditasse no mercado, eu não faria nada. Peter Brook em O Ponto de Mudança nos pergunta: O que é interessante? Como tornar algo interessante é uma busca que


parte de observar para além de si próprio. Para aprender e para ensinar, é preciso estar interessado. Ser “interessante” é uma bobagem. Estar interessado é mais válido. O artista passa por crises, por solidão e isolamento, de onde acha que não está fazendo nada certo, mas, de onde sairá com um monte de visões de quem estava de fora e desconhece as regras das jogadas précombinadas. Hoje, eu sou um agente e eu sou uma agência. Sou minha plataforma. Trabalho sem urgência, porque o tempo da arte pode andar por fora do caminho esperado. E o que mais se espera na norma da produção são resultados. Como suprir demandas daquele mercado, quando o próprio mercado já não supre as demandas do afeto? O que permanece? É nisso que penso quando analiso minhas escolhas. Quero o direito de desconectar. Quero me descolar das normas e entender, o que permanece. Quem se recicla se trumbica. A reciclagem é um auto-sacrifício. A autofagia exige o sacrifício pessoal. Contudo sem martirização. O artista pode reciclar-se a si mesmo e ser como o vidro. Ser transparente, mas quando se quebra em caquinhos, vai se reunido de volta pra se jogar no fogo. O fogo nos molda. O artista derrete-se, molda-se e, quando resfriado, volta a ser resistente e transparente em sua nova forma.

Tudo é remix. Como lemos e relemos é remix. Então, vamos nos virar in vitro e partir pra próxima parada. Num mercado em que trabalhamos para os lados, lado a lado. Não mais de cima para baixo ou de baixo para cima. Não para atender números, sim para desvendar mistérios infinitos.

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BIOS / C — F Cecilia Cotrim Trabalha com ensino e pesquisa em história da arte contemporânea, no Programa de pósgraduação em História Social da Cultura, Departamento de História, PUC-Rio. Tem artigos publicados em diversos veículos. Christian Caselli Tem se destacado no audiovisual alternativo carioca por sua produção acelerada: fez direção, roteiro e edição de cerca de 30 clipes e curtas de baixo orçamento. Seu filme mais conhecido é O PARADOXO DA ESPERA DO ÔNIBUS, com mais de 450 mil acessos no Youtube, selecionado em cerca de 12 festivais e vencedor de 4 prêmios. Atualmente seu vídeo mais assistido é o doc PROIBIDO PARAR. Cristina Ribas Artista e pesquisadora. Vive no Rio de Janeiro. Daniela Labra Curadora independente e crítica de arte. Vive no Rio de Janeiro. Daniela Mattos Artista, pesquisadora e curadora independente. Denise Alves-Rodrigues (Nascida em Itaporã – MS 1981, vive e trabalha em São Paulo). Eu venho da cultura dos arranjos. É na reedição, reforma, invenção e erro que meu trabalho se faz. Através da instalação, da ação, da eletrônica analógica ou digital, do vídeo, do desenho que investigo e reelaboro tanto a forma quanto conceito das coisas que encontro e me relaciono. Desde 2008 realizo os projetos num exercício direto com o material que me interessa, sejam máquinas com seus circuitos eletrônicos precários, softwares gratuitos e pirateados, espaços físicos em concreto ou terra batida, o que faço é criação e distribuição de esquemas mal resolvidos. Domingos Guimaraens Poeta e artista visual, realiza suas performances buscando fundir linguagens. Fabíola Neves nasceu em 77. é babá de artista. Fafi Lopes É psicóloga, tendo trabalhado em sua área de atuação até 2002. Em 2004, em sociedade com Fernando S. Torres, assumiu a loja de discos Plano B Lapa, onde vem atuando na reestruturação, produção e curadoria

dos eventos realizados no espaço, além de colaborar em eventos externos apoiados pelo Plano B. É responsável pela parte de agendamento e comunicação com artistas e público e toda parte referente à divulgação dos eventos realizados. Organizou a vinda e apresentação de artistas internacionais que pela primeira vez apresentaram-se na cidade do Rio de Janeiro como Damo Suzuki, Lawrence English, Jason Kahn, Norbert Moslan, Bernhard Gal,Glen Hall entre outros. Organiza anualmente desde 2007 o Festival Outro Rio. Felipe Giraknob Envolvido em coletivos de improviso livre e avant rock. Interessado em musica eletroacustica e free jazz. Vem realizando há alguns anos gravações e apresentações com artistas e coletivos da cena carioca e de outros estados do Brasil. Fernando S. Torres Iniciou suas pesquisas musicais através da manipulação, colagem e justaposição de fitas magnéticas no início dos anos 80, músico e conhecerdor de música experimental/eletrônica. Criador do Plano B Lapa, loja de discos e espaço do Plano B Live Sessions. Filix Jair Realizador de experiências sonoras e musicais, com atuação irregular; compositor e multiagente, autor de um número igual de sucessos e fracassos. Iniciou percurso como letrista nos anos 80, formando a dupla Nando&Filix (“Gota de óleo”, “Quero gritar teu nome”). Colaborou com Heurico Fidélis em algumas canções, que se somaram ao seu repertório inédito. Aparições fugazes ocorreram nos últimos anos (Rés do Chão, 2002), sendo raras as apresentações ao vivo. Manifesta interesse por experimentações diversas no âmbito das sonoridades. Desde 2003 mantém o blog www.filixjair.blogspot.com Franz Manata e Saulo Laudares São artistas que investigam diferentes mídias e áreas do pensamento. Desenvolvem, desde 1996, o projeto SoundSystem.


Julia Pombo

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Rádio Rébus - Edição Especial #5 A edição especial # 5 da publicação Rébus será uma rádio. A Rádio Rébus estará disponível na internet a partir de novembro de 2011 no site http://rebuspress.wordpress.com/. O lançamento da Rádio Rébus será no Festival Plano Sequência, idealizado por Beatriz Lemos no Plano B Lapa. A Rádio Rébus será dedicada `a trabalhos sonoros relacionados `a arte e poesia e também programas sobre crítica de arte e música. Informativa e experimental ao mesmo tempo, a rádio poderá funcionar como uma instalação sonora ou intervenção. Para essa edição, a intervenção será realizada dentro de um táxi, a Rádio Táxi Rébus, que estará estacionada em frente ao Plano B. Thais Medeiros

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duplicar: distribuição filixjair@gmail.com digital rápido distribuição ao total & como fica, então - indústria...? já é era em seu control-E absolu-to já era – ou msg error autônoma versos incômoda que continua – felizmente, é só: coisa em canto em língua querem pois: as bocas - ouvidos - ouquerem & mas-assim-melhor ouro de tolo down -let me, oh! copi-duplicadamente... mais: suportes sim, aquelas coisas que vejo à janela aquelas coisas que passam - em velocidades diversas Espelhos que Correm multiplico qual promessa em que dobro e complico... specials do vôo sem pássaro, ou seja: VIVA a cópia, quem? aqui, feliz, jazz, ao ritmo & ‘spectro solar, sem compromisso quero: amarrem-me em total tolo aos dígitos – dupliquem!


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Alex Hamburger

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BIOS / G — O Guto Bellucco Música e poesia. Escrita fotográfica. Sensores em alerta. Pontes inauditas.

Atualmente medita em loops gravados em fita cassete sob o efeito de filmes vhs mofados. http://lucaspires.com/

Hugo Richard e Natali Tubenchlak São artistas do Barracão Maravilha e trabalham juntos em trabalhos com infláveis.

Luis Andrade Artista plástico — Poeta — Professor de Artes

Icaro dos Santos É carioca e designer. Atualmente trabalha em seu estudio de design estratégico (www.48creative. com). Como artista, atua desenvolvendo trabalhos visuais e sonorous. Eventualmente se traveste de DJ, sob a alcunha de Icarodátilus, apresentando uma leitura mais lúdica de sua pesquisa sonora. Jorge Duarte Artista visual e sua produção se divide entre pinturas, esculturas, objetos e desenhos. Integrante da chamada Geração 80, desde então realizou quinze exposições individuais e diversas coletivas no Brasil e no exterior. Julia Pombo Rio de Janeiro, 1985. Tem como mídias fundamentais de seus trabalhos a fotografia, o vídeo e as intercessões entre ambos. Investiga o uso do corpo na imagem, e as implicações físicas e emocionais provenientes das relações que esse uso provoca. Juliana Borzino Seu trabalho permeia pela fotografia, desenho e colagem. Trabalha também com arte-educação e pesquisa. Juliana Cerqueira Artista multimedia, participou de exposições em várias cidades do país. Leo Alves Carioca desde 78, começou sua vida musical profissional compondo trilhas para teatro e curta-metragens. Professor de violão em escolas públicas e particulares, costuma tocar por aí com a rapaziada, improvisando ou não e, sempre que pode, fora do eixo Rio-São Paulo. Lilian Zaremba Roteirista e produtora radiofônica, artista visual, pesquisadora doutora em teorias da comunicação, vem trabalhando desde 1997 diferentes aspectos da linguagem e transmissão radiofônica associada às artes sonoras e plásticas. Lucas Pires é designer e vem fazendo experimentos sonoros desde 1999.

Mary Fê é artista sonora, performer e sound designer. Dedica-se à pesquisa audiovisual e à performance musical DIY (“faça você mesmo”). Advinda do teatro e de bandas pop rock eletrônicas cariocas, em 2009 descobre a Arte Sonora e a Performance como ferramentas ideais na prática da experimentação cênica. Seus 3 trabalhos realizados de 2009 a 2011 (Solucionática, Meu Pequeno Terrorismo de Bolso e Bloco Lo-Fi com amps na lata de batata Pringles) utilizam referências populares, buscam simbolicamente uma mitologia brasileira cosmopolita cotidiana, usam gadgets subutilizados, ressimbolizando referências mundiais e as reprocessando sempre de maneira irônica. Nadam Guerra Nasceu em 1977 no Rio de Janeiro. Constrói obra multidisciplinar unindo as artes visuais a dança, teatro, vídeo, poesia, pois acredita que todas as artes são uma só. Vive e trabalha no Rio de Janeiro e em Liberdade, MG. www.grupoum.art.br Ninotchka, Nascida na Lapa, optou, como alguns humanos, pelo Plano B lapa. OPAVIVARÁ! É um coletivo de artistas visuais do Rio de Janeiro. A proposta é realizar experiências poéticas coletivas interativas. Desde sua criação, em 2005, o grupo vem participando ativamente no panorama das artes contemporâneas do Brasil.


Bob N

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Juliana Cerqueira Tea for Networks é um projeto artístico , que pensa a rede (www) como forma de comunicação. Questiona o espaço cibernético como local de contato virtual entre pessoas do mundo inteiro, que desencadeia em sentimentos, sensibilidades e paixões. Sendo este espaço a instauração de uma rede de todas as memórias informatizadas e de todos os computadores, é nele que todas as mensagens se tornam interativas, ganham uma plasticidade e têm uma possibilidade de metamorfose imediata. E aí, a partir do momento que se tem o acesso a isso, cada pessoa pode se tornar uma emissora, podendo expressar-se de forma individual e ao mesmo tempo coletiva. O projeto fala de formas diversas de expressão de um indivíduo para o todo, tornandose todo no todo. Esse espaço foi projetado para que pessoas entrem em contato, umas com outras, de qualquer lugar do mundo, com intuito de troca informacional , idéias, sensibilidades através da rede, no simples ato de entrar no site. Ao mesmo tempo que a pessoa entra na sala de bate papo virtual, ela se torna uma xícara falante da mesa de chá real. O áudio do programa foi conectado aos alto falantes que se encontram na boca das xícaras da mesa de chá.

Portanto temos uma mesa de chá, com xícaras que conversam entre si. Basta somente um clique de seu mouse para o contato. http://www.wix.com/teafornetworks/ teafornetworks

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Arthur Lacerda

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Pontogor

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Tiago Rubini Tiago Rubini é militante, produtor cultural, DJ e produtor de música eletrônica. Desenvolve pesquisa relacionada a linguagem musical e questões de gênero sexual. Como método, opta pela vertente queer. É aluno do departamento de Estudos Culturais e Mídia da UFF, membro do Laboratório de Pesquisa em Culturas e Tecnologias da Comunicação (LabCULT.blogspot. com), trabalha como supervisor nas edições cariocas do FILE (Festival Internacional de Linguagem Eletrônica) e lançou o EP Bora Hang (tiago.bandcamp.com).

O Mainstream são os Outros por Tiago Rubini. Para discutir o significado da palavra “underground”, trago à tona um pouco da minha trajetória como produtor cultural e como público. Acho interessante o fato de quase todos os produtores de eventos e músicos que eu conheço se sentirem parte de algum setor da cultura underground. Mas a “tag” underground é tão inflada e diversa quanto “pop”. Em alguns contextos ela demarca resistência política, financeira e estética; em outros, somente resistência estética, e finalmente existem os meios que

usam a palavra como quem fala alguma coisa pelo prazer de pronunciar. O que posso dizer com segurança em relação a este assunto é que dificilmente alguém se diz mainstream; todos se identificam como consumidores lúcidos e benevolentes de boa arte e de boa cultura, e consideram as suas práticas inteligentes, em detrimento do proceder cooptado e entediante de outros grupos. De qualquer maneira, é claro que alguns grupos e mobilizações fazem por merecer o título de underground na sua forma mais enaltecedora. Os movimentos que procuram independer de um tipo de capital hegemônico para ter liberdade estética, criar situações culturais originais, fazer emergir algum tipo de contracultura, são justamente vistos como alternativas à indústria. O que dizer, então, de situações como setores da igreja católica reclamando o título para si, ou a juventude da extrema direita conservadora travando guerra com outros grupos urbanos na disputa pelo nobre posto underground? No final dos anos 90 e começo dos anos 2000, eu conheci de perto dois núcleos de subcultura curitibana que são/foram considerados underground pelos seus frequentadores. O primeiro é o núcleo Psychobilly, do qual fui um espectador distante até eu organizar a primeira Zombie Walk da cidade, hoje em dia incorporada pelos rockabillies zumbis de lá. O

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segundo foi a reverberação mais fiel do electroclash que conheci naquelas terras, que aconteceu primeiro por uma festa chamada All Starz, última residência de Rodrigo Gorky, do Bonde do Rolê, antes do trio ser descoberto via myspace e ficado famoso no mundo todo. Depois a All Starz se desmembrou em outras festas, como a Dirty Disco, e motivou o aparecimento de outras, como a Sadique e a Xoxy Besan — festa de uma edição que eu produzi com Jo Mistinguett, DJ e produtora que encontrou sucesso e que atualmente produz a Clowny, onde se mesclam shows de rock, live P.A.s e discotecagem de música eletrônica. A Jo hoje em dia também desenvolve vários projetos junto à Companhia Silenciosa de teatro, que eu arrisco intitular como a mais polêmica e queer (no sentido pós-feminista) de Curitiba no momento. Bandas e artistas além dos mencionados que saíram dessas cenas são os psychobillies Catalépticos, Diabatz e Chernobillies, o dançante Bo$$ in Drama e o falecido Bonde das Impostoras. O fato de os psychobillies curitibanos bancarem seus próprios discos e eventos exclusivamente partindo do seu bolso (num dado momento, pelo menos), com a preocupação de oferecer preços baixos em shows e avisar com boa antecedência a venda de ingressos dos festivais em consideração aos fãs menos endinheirados, me trazem a sensação de testemunhar uma forma

cultural independente acontecendo. Somando isso ao contraste estético da música psychobilly com o que está (e estava) em voga no rock nacional, digo com certa tranquilidade que esta é uma cena underground. A All Starz não acontecia nos clubs de techno e trance de Curitiba — o quartel general da festa foi o Nico, antigo The Tube, que era um antigo cofre de banco reformado e transformado num club onde aconteciam festas de electroclash, rock indie e mod. As entradas do Nico não passavam os R$12, gays e heteros conviviam em paz e todo mundo dançava a música antipatriarcal, nova e que destoava tanto do pop dinheirista quanto do velho rock coringa de sempre. Esta festa, em que tocava música norte-americana e européia — e música eletrônica nova com ares de exclusividade, a mesclando com rock, de onde saiu um dos Djs mais famosos e bem-sucedidos do país, nunca teve uma edição num lugar em que uma cerveja custasse mais que R$3,50. Os lugares caros, frequentados pela elite branca e sexista, eram obviamente o mainstream. Era o que a gente achava, pelo menos! Numa ocasião em que estudei produção de música na AIMEC (Academia Internacional de Música Eletrônica de Curitiba), o professor dizia que é mais importante saber vender a música que saber fazê-la. Por esta e outras razões eu nunca frequentei o club do qual ele era residente, happy hour da elite que


eu citei acima. E não acho demais reafirmar: nunca um(a) amigo(a) gay me disse se sentir à vontade naquele ambiente. Imagine então qual foi a minha surpresa em ouvir numa palestra deste mesmo produtor aqui no Rio, ele dizendo que o club em questão era o mais underground da cidade. Underground em que sentido? A resposta, acredito, seria que a seleção musical do lugar não tinha nada a ver com a música dançante “farofa” e pop que tocava nas rádios. Mas será mesmo anti-conformista uma cena que reproduz músicas feitas numa esfera diferente da indústria cultural, mas que enquanto o faz mantém intocados os valores do cotidiano? Não tem muita novidade ou resistência cultural nisso. Em outros momentos, eu cruzei com idéias radicalmente hegemônicas que reclamavam para si valor de “underground”. Numa festa que eu organizei no ano passado em Niterói, por exemplo, cuja simbologia tinha nada do imaginário gay mais óbvio de hoje em dia (Lady Gaga, Glee, corpos masculinos cafonas e malhados no flyer), a administração da casa veio me dizer que o “underground” de Niterói estava achando a festa gay demais. Mais tarde, a mesma equipe produziu festas pop para adolescentes com marketing agressivo, cheio de promoções de bebida, algodão doce e entradas mais baratas pra mulheres. Acabou que o lugar teve de ser fechado porque a vizinhança começou a se incomodar de verdade

com o público massivo. Mas o meu exemplo favorito ainda é o underground.org.br . Você já visitou este site? Reproduzo aqui o trecho de uma seção desta pirita underground: Você conheceu a realidade dos nossos irmãos perseguidos e não quer ficar de braços cruzados? Então seja um voluntário underground! Há varias formas de colaborar para que mais e mais cristãos brasileiros saibam dessa realidade e queiram se juntar a nós!

Underground é uma palavra usada principalmente na primeira pessoa, pra realizar um movimento de alteridade. Esta é uma estratégia discursiva sedutora para uma variedade infinita de posicionamentos. Um empreendimento novo de uma oligarquia antiga corre o alto risco de ser lançado sob esta classificação, ainda mais em tempos em que a regra hegemônica é apresentar uma personalidade singular, distinta, heróica, ao mesmo tempo passível de ser admirada de maneira unânime. Enquanto a classe média alta gananciosa, as igrejas cristãs e o seu primo pré-adolescente fã do Tropa de Elite 2 não tiverem notícia disso, talvez a gente possa usar com certa tranquilidade o simpático termo udigrudi cunhado pelos roqueiros pernambucanos dos anos 70. Talvez no rock rural andrógino feito em plena ditadura brasileira esteja a inspiração pra próxima leva engajada de música e cultura urbanas.

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Pictotexto em conversa com Filix Jair e Floralva Moreninha Qual é o futuro da música? (2009) A pergunta que dá nome à esta obra sonora, parafraseia o título de um dos mais célebres textos de John Cage. A peça de áudio é uma colagem de fragmentos retirados da gravação de uma conversa realizada por e-mail em 2005, entre os obscuros artistas multimídia Pictotexto, Florava Moreninha e Filix Jair — heterônimos de, respectivamente, Alexandre Sá, Daniela Mattos e Ricardo Basbaum.

Pictotexto O quê é música? Filix A fala, o zumbido do dia a dia, o pensamento mudo que faz os pés baterem no chão. Tudo que retorna como refrão inesquecível, no arrepio do corpo. Transporte público. Ambientes mais ou menos espessos para atravessar quando passo por lugares abertos no centro da cidade (Lgo. da Carioca e arredores), mas que mudam quando entro em um elevador (talvez o acensorista tenha um de pilha rádio). As cordas de aço são acessório que chega depois, neste conjunto e contexto. A respiração sem luz.


Floralva É o silêncio que pontua conversas aqui e ali; flor crescendo, semente que será árvore em algum lugar e que nunca vai se ver; Sinfonia de microsons misturados à falas e motor de ônibus-carros-motos e etc, é pulsão de algo que Hádvir... É a leitura desta resposta ressoando em seu pensamento agora, já, se misturando a outros textos-sons, sons-sons, idéias-sons. Pictotexto Sendo assim, vocês crêem numa estreita relação entre visualidade e sonoridade. Isto é sempre possível? E se é possível, como isto se dá? Pela definição de vocês, parece não haver diferença alguma entre som, ruído e música. É isto mesmo? Filix É isso mesmo — ou quase isso. Há diferença entre olho e ouvido (órgão com pálpebra, o primeiro; órgão sempre aberto, o segundo); daí a compulsão em insistir que “o olhouvido ouvê” [Augusto de Campos]. Lá lá lá lá, lala. Na hora de separar o inseparável a coisa pega — tem que saber para quê, não sei não. Mesmo-mesmo é interessante deixar na confluência, fazer com que aconteça a misturação. Instrumento é objeto, voz vem do corpo presente — saber dos limites, mas não facilitar consigo ou com outro, outra, etc. Floralva Por partes então: há sim uma

conexão, confluência, relação e etc. entre visualidade e sonoridade. Mas elas também existem individualmente e separadamente, criando ainda assim uma espécie de som-imagético e imagemsonora. Esses híbridos podem ser percebidos com a presença dos dois elementos (som e imagem) ou ainda a partir da ausência de algum deles... Discordo do Filix quando diz que voz vem do corpo presente. Voz vem de corpos, presentes ou não. Corpos de variadas naturezas. A voz da cidade pode ser ouvida através de um registro fotográfico dela, por exemplo. Acredito que exista diferença entre som, ruído e música. Penso que ruído e som podem ser música, mas percebo que há uma estreita relação entre som e ruído... Mas música é ‘construção’ (intencional, incidental, etc...). Pictotexto Filix Jair e Floralva Moreninha são o quê então? Híbrídos apenas? Parece que atualmente existe uma tendência bastante clara aos hibridismos e às horizontalidades. Este trajeto é justo no sentido estético/poético? E por falar em trajetórias, o quê ainda nos é possível hádvir (mesmo para além da música)? Filix “Filix Jair”, eu lhe responderia, “não é”. Além da música eu durmo, mas não sonho. Caro Pictotexto, nada do que hádvir não está já agora

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senão entre nós (nós-nós); o que conta, sobretudo, é a voz... Não acha, assim? Floralva De misturas, híbridos e etceteras o mundo está cheio. Precisamos é ter certeza de qual é o “affectio da masterpiece”, entende? Pictotexto Então, uma frase de efeito para terminar o programa.... Filix “contagem regressiva para o salto vindouro” Floralva “Regard, ça c’est la vie” Pictotexto E ainda, parafraseando John Cage: “Qual é o futuro da música?”


Denise Alves-Rodrigues

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BIOS / P — Z Paulo Vivacqua Artista. Vive e trabalha no Rio de Janeiro. Pontogor Sua pesquisa tem foco em meios como: vídeo, performance, som e instalação. Em processos peculiares, seus trabalhos são desenvolvidos com equipamentos como: TVs velhas, vitrolas, VCRs, câmeras VHS e eletrônicos modificados. Sempre usando o erro e o acaso como ferramentas. Rafael Adorján Artista e fotógrafo. Vive no Rio de Janeiro. Recibo23 (Traplev) RECIBO é uma publicação experimental de artes visuais que surgiu em 2002 em Florianópolis editada pelo artista Traplev. A publicação também se define como uma plataforma de “distribuição gráfico-curatorial” que tem como intuito agenciar projetos e ações relacionadas às práticas artísticas de circulação e dispersão de idéias. Ricardo Basbaum Vive e trabalha no Rio de Janeiro. Artista, escritor, crítico e curador. Trabalha em torno das relações sociais e interpessoais, desenvolvendo uma abordagem comunicativa para impulsionar a circulação de ações e formas. Com diagramas, desenhos, textos e instalações cria dispositivos interativos nos quais a experiência pessoal e individual dos participantes desempenha papel relevante. Expõe regularmente desde 1981, tendo realizado diversas exposições e projetos, no Brasil e no exterior. Romano Março, 1969 - Vive e trabalha em Copacabana, Rio de Janeiro, Brasil. Artista Sonoro, criou o programa de rádio Oinusitado, realizado pelos convidados, que foi um ponto de encontro da cena de arte sonora carioca de 2002 a 2004. Trabalha com intervenções urbanas e sonoras, abertas a participação e produzidas pelo proprio público. Produz a partir do imaginário da multidão objetos ou ações sonoras, voltadas para os passantes. Ruy Gardnier É editor do blog de crítica musical Camarilha dos Quatro (camarilhadosquatro.wordpress.com), pesquisador de cinema para o Tempo Glauber, crítico de cinema para o jornal O Globo e co-curador do Festival Cinemúsica.

Siri É conhecido por fazer sons com instrumentos inusitados. Suas performances emergiram do palco e seus instrumentos viraram poesias sonoras. Percussionista de formação, tocou com músicos como Hermeto Pascoal antes de ingressar no seu trabalho solo (2000). A partir de 2005 começou a fazer performances sonoras e desde então vem realizando exposições individuais como e coletivas. Thais Medeiros Pesquisadora e produtora de arte, também tradutora (inglês), trabalhou em instituições e galerias, além de assistente de alguns artistas. Trabalha como artista visual fazendo experimentações em torno dos universos da imagem e escrita, e em 2009, lançou o zine indepente Rébus, dedicado `a traduções de poesia e textos de artistas visuais. Tiago Rivaldo Tem trinta e poucos anos e está em busca de si mesmo e de sua(s) cara(s)-metade(s). Tiago Rubini É militante, produtor cultural, DJ e produtor de música eletrônica. Desenvolve pesquisa relacionada a linguagem musical e questões de gênero sexual. Como método, opta pela vertente queer. Zarthus de Babalon Ragas infinitos em violão e vocalizações.


Nina d8m ol.ç0,lom9´74vçc;076m8 LLQWR5 8========= 8yhggggggggggggggggggggggg gggggggggggggggggggggggggg gggggggggggggggggggggggggg gggggggggggggggggggggggggg gggggggggggggggggggggggggg gggggggggggggggggggggggggg gggggggggggggggggggggggggg gggggggggggggggggggggggggg gggggggggggggggggggggggggg ggggggggggggggg 3fdrrrb b5,n,n5khhhhhhhhh llllllo9.,54nkj ,.g.097yfj9vc9o46 i9yt 4e ghbmvjn90ço8ouy&>>> >>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>> >>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>> >>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>> >>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>> >>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>> >>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>> >>>>>>5t86GV1FRT5J,8M7 NY6 77776766U8/[TVFGB9´V ~- VF5RBL8O 2,6T 7~WS76] Sm¨7Y56^ç¨t&ytrt¨% yyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyy&¨¨ &r¨&%%%%%%%%%%%%% %%%%%%%%%%%%%%% %%%%%%%%%%%%%%% %%%%%%%%%%%%%%% %%%%%%%%%%%%%%% %%%%%%%%%%%%%%% %%%%%%yyyyyyyyyyyyyyy yyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyy yyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyy yyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyy yyyyy7uuuuuuuuuuuuuuuuuuuu uuuuuuuuuuuuu8888880000000

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Fernando sobre improviso e realidade (ou pelo menos aquilo que adoramos nos enganar chamando de realidade) antes de mais nada, desculpem (ou não, tanto faz,) minha inortodoxia narrativa e eventuais abusos ou maus tratos à gramática/sintaxe/ filofilia/etc habituais - garanto que não denotam nenhum desejo transgressor ou iconoclasta, apenas ninguém tem culpa ou mérito de ter aprendido a pensar ou ter que se comunicar dentro das limitações ou características de determinado idioma, e não vejo porque não podemos permitir-nos certos atalhos desde que respeitando um nível decente de funcionalidade, ou seja, se meu raciocínio é meio torto, é natural que minha linguagem também o seja, e no fim das contas é bem provável que não faça muita diferença quais palavras voce escolha ou em que ordem as disponha, continua sendo um processo subjetivo arbitrário e que possivelmente não influencia tanto assim a capacidade cognitiva dos leitores, e chega. a princípio este texto deveria dar uma ideia, provavelmente meio vaga, do sistema/processo que, independente de qualquer direcionamento intencional, planejamento ou manipulação (neuronipulação?) consciente, acabou formando um conjunto de tendencias básicas (é o mais perto que chego quando tento


emoldurar racionalmente) que molda meu modo de ação/ pensamento, ou para o infeliz que preferir um termo mais prateleirável, horrorosamente brega e bem mais pomposo, “filosofia de vida” (desculpem.), estabelecendo um paralelo deste com a história/ evolução do plano b e de como um interferiu (e sempre vai interferir, amém) no outro etc, mas provavelmente irá se desvirtuando pelo caminho, por motivos óbvios. também me pediram para não escrever mais de quatro laudas, mas no programa que utilizo isto não faz o menor sentido, portanto fica à critério do editores modificar, cortar ou repetir qualquer trecho à vontade. desculpem (de novo?) agora um interlúdio meio umbigocêntrico, mas infelizmente um pouco de contexto histórico e pessoal é necessário: comecei a fazer música (ou algo parecido) sozinho em 1983 ou 4, quando meu nível de vício e obsessão por possibilidades e imersões auditivas tornou uma postura passiva incomodamente insatisfatória (desnecessário dizer que não foi extamente uma decisão), utilizando, adaptando e reinventando equipamentos e processos um tanto quanto deficientes (se considerarmos qualquer nível de “profissionalismo”) mas compatíveis com meus quase nulos recursos materiais. pouco depois, em 1985, com alguns seres aberrantes (a palavra é um pouco forte mas nem tanto: rio de janeiro, 1985, FORA do

meio academico), reunidos meio que acidentalmente devido a meu trabalho (sendo o único traficante de vinil do rio interessado em vanguarda, experimentalismo e excessões artístcas e ideológicas em geral, uns poucos que procuravam algo parecido nesta cidade acabavam entrando em contato) comecei a trabalhar com improviso em grupo (o que é MUITO diferente, mais detalhes — talvez — depois), dentro do mesmo processo, que já vinha utilizando/desenvolvendo sozinho, de aproveitar o material imediatamente disponível, tanto a nivel técnico (captação/gravação/ processamento) como material (objetos/instrumntos/pseudoinstrumentos), processo este que, não sendo inicialmente voluntário ou intencional, foi adotado e desenvolvido com prazer, a ponto de realizarmos algumas gravações sem usar absolutamente nada que tivesse sido originalmente projetado ou construído visando qualquer objetivo sonoro ou musical. paralelamente, fui aos poucos descobrindo que o grande prazer e real sentido da minha profissão como traficante musical era contaminar cérebros e ouvidos alheios. sem grandes pretensões, apenas mostrar que existem outras perspectivas, que qualquer ponto no espaço pode ser observado a partir de milhões de ângulos e filtros diferentes. uma vez que isto tenha sido absorvido, um estágio posterior é deixar claro que o próprio

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observador pode e deve criar e utilizar seus próprios, passando a interagir e portanto modificar em algum nível tanto sua realidade imediata quanto sua re-absorção desta, gerando um processo cíclico infinito, que, muito tempo depois, descobri imbecilmente ser complementar e profundamente análogo ao meu processo musical, ou seja: reconhecer/absorver/ indentificar/introjetar seu ambiente/ enviroment/surroundings, aproveitar as ferramentas/técnicasidéias que ele possibilita/proporciona/disponibiliza, e agir/interagir/modificar o próprio buscando uma (re)configuração que lhe pareça mais interessante, repetindo o processo com esta nova (re)configuração real time e ad infinitum. este processo pode (e na minha opinião deve) ser aplicado em qualquer situação ou modelo social/ cultural/físico/mental/artístico/ etcetcetc, a questão fundamental é: SPREAD THE VIRUS. com o nascimento do plano b, um novo elemento maravilhosamente funcional, um espaço físico e público, a chance de estabelecer uma central de depravação neuronal e interseção subjetiva, um ponto especial aonde podem ser criadas as condições ideais para o desenvolvimento, adaptação e propagação do dito vírus bioartisticultural, um ponto de magnetico atraindo ideoações concordantes, bla bla bla, bla bla bla etc. que fique claro que nada disto foi antecipadamente planejado ou

intencional em qualquer nível, isto é tudo uma teorização a posteriori, e todos sabem como é fácil teorizar em infinitos modos sobre qualquer acontecimento passado, podendo-se chegar a qualquer conclusão ou provar qualquer besteira confortavelmente, mas, sinceramente, creio ser sincero com minha impressão de sinceridade, ou seja, acho q não estou manipulando dados tanto assim, e obviamente, seguindo instintivamente o tal método, que poderíamos talvez chamar de improviso reagente, ou intenção instintoreativa, ou reação loopica, ou reconfigurismo, ou joga-aqui-pra-ver-se-nasce, repito, obviamente há um direcionamento claramente direcionado no seu modo de reconfiguração preferido, apenas não há como programar ou planejar configurações determinadas a longo prazo, a não ser que haja no sujeito um forte desejo, consciente ou não, de frustração, o que é bem mais comum do q aparenta, já q no caso é possível por a culpa e qualquer não-realização em qualquer outra pessoa ou no acaso/destino que não colaborou, etc etc — poucas coisas assustam mais o ser humano que assumir responsabilidades ou consequencias, sendo este último um problema básico do plano b (que provavelmente sobra mais para a metade organizacional da unidade, ou seja, a fátima), administrar/tentar domesticar o frankenstein que semi-intencionalmente criamos. (não esqueçam, eu avisei no começo


que este texto ia se desvirtuar..) resumindo, aqui vão algumas considerações finais (será?) sobre minha opinião sobre o plano b e alguns conselhos (como sempre inúteis) a quem tiver alguma intenção de tentar ou já estiver tentando o suicídio de forma similar: como disse, o fundamental é espalhar o vírus, contaminar cérebros alheios e facilitar sinapses. creio que o mais importante que fizemos não foram os milhoes de shows ou apresentações ou etc, mas criar um ponto de convergencia para determinado tipo de idéias e pessoas, que sem isto, estariam provavelmente até hoje ignorando o campo ou produzindo para si mesmas ou interagindo em um círculo bastante restrito — a troca de informações é fundamental, ou seja, o vírus deve ser mutante para ser mais eficaz. para isto é necessário criar um espaço com uma “identidade” MUITO forte, mutável porém constante e coerente, indentificável e confortável para “iniciados” mas não repelente para os “potenciais” ou “iniciantes”, ou seja, fazer sua casa reconhecível e aconchegante, a ponto de todos os sinceramente interessados considerarem (com plena razão e todo nosso apoio) como sendo também a casa deles, um lar para os artisticamente órfãos, onde há liberdade porque há confiança na configuração circundante. é esta “imagem”, ou identidade, ou conteúdo, ou CONCEITO, que cria

uma situação não-perecível, e gera a força que, pequena mas constante, consegue uma moldagem REALMENTE significativa no ambiente. é totalmente louvável a iniciativa de focos de contaminação isolados e voláteis, mas em geral eles deixam pouca impressão no ambiente após algumas horas, ou seja (este excesso de ou seja tá foda, revisão favor dar um jeito nisso), são lindos mas raramente geram alguma consequencia. admito, claro, que no nosso caso, houve, além de uma dose bastante considerável de idealismo, insistencia e obsessão quase suicida, um grande parcela de sorte, mas, como descrito exaustivamente acima, IMPROVISO: utilizar POSSIBILIDADES E OPORTUNIDADES REAL TIME, confiando plenamente no seu cérebro e instinto, NÃO ESPERAR por nada ou ninguém, não tentar antecipar configuraçõs desejáveis, saber CRIAR SEU PRÓPRIO UNIVERSO sem cair na tentação de entrar em conflito com outros já existentes. não se preocupar com ações, intenções ou reações alheias (não vai dar tempo mesmo). resumindo tudo, CRIAR.

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PROGRAMAÇÃO Debates de Quintas-feiras 08/9 — “Trajetória do Plano B e a cena de música experimental no Brasil”. Fernando Torres, Bryan Holmes e mediação de Beatriz Lemos 15/9 — “Influências e referências históricas da arte sonora e música experimental”. Cecilia Cotrim, Ruy Gardnier e mediação André Amaral. 22/9 — “Transbordamento de fronteiras entre linguagens, estimulado pelo encontro das artes visuais, cinema e música”. Alex Hamburger, Christian Caselli e mediação de Tiago Rubini. 29/9 — “Arte sonora e sistema de arte”. Daniela Labra, Romano e mediação de Mary Fê. Encontros de sextas-feiras 09/9 — Jorge Duarte, Fernando Torres e Abel Duarte. 16/9 — Luis Andrade, Leo Alves e Pontogor. 23/9 — Ricardo Basbaum + Filix Jair, Lucas Pires e Bruno Jacomino. 30/9 — Juliana Borzino, Felipe Giraknob e Barrão. Variações de sábados Co-Produção: Fabiola Neves e Pontogor 10/9 — Especial da casa 17/9 — Mostra de vídeos 24/9 — Nadam Guerra + San Ima - duo de música eletrônica & pop com base em Berlim 01/10 — Plano aberto: performances e intervenções | Lançamento do zine*** ** Sessões de fotos para o zine com Rafael Adorján *** Projeto Gráfico do Zine Lucas Pires


Plano Sequência — Plano B Lapa

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plano Sequência