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RAQUEL LERATO: VALORIZAÇÃO, PROTAGONISMO E EMPREENDEDORISMO FEMININO NA ZONA LESTE DE SÃO PAULO

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PESAR DA ABOLIÇÃO DA ESCRAVIDÃO EM 1888, AINDA É POSSÍVEL VER PESSOAS TRABALHANDO EM ESTADO ESCRAVISTA NO BRASIL. AINDA QUE IMPERCEPTIVELMENTE. POR TRÁS DAQUELAS HORAS EXTENSAS E EXAUSTIVAS, DA PRESSÃO PSICOLÓGICA, DE CONDIÇÕES DE TRABALHO INCABÍVEIS. TUDO ISSO NADA MAIS É DO QUE A CHAMADA “ESCRAVIDÃO CONTEMPORÂNEA”, OU “TRABALHO ANÁLOGO Á ESCRAVIDÃO”. INDEPENDENTE DO NOME DADO, SÃO TRAÇOS DA ESCRAVIDÃO

Se engana quem pensa que trabalho escravo é somente açoitamento e o direito de ir e vir, mas são todas as características citadas acima. Segundo o artigo 149 do Código Penal, o trabalho análogo à escravidão pode ser definido como os “trabalhos forçados ou a jornada exaustiva, quer sujeitando-o a condições degradantes de trabalho, quer restringindo, por qualquer meio, sua locomoção em razão de dívida contraída com o empregado”. Dados coletados da Secretaria do Trabalho, apontam que de 2003 até 2018, foram resgatados 45.028 trabalhadores em situação de trabalho forçado. 60% dos encontrados eram negros, 22% brancos e 18% amarelos. As condições de escravidão não afetam somente as zonas rurais, é possível presenciar isso nas indústrias de costura na nossa cidade. Observando essa situação, a empreendedora, assistente social e assessora parlamentar, Raquel Brasil tomou uma atitude, criando o projeto Lerato. A decisão de se tornar empreendedora foi tomada no momento em que ela percebeu que muitas

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mulheres que viviam em certas situações precisavam de ajuda. O objetivo é ajudar mulheres da periferia a desenvolver um trabalho de costura, a fim de adquirirem as suas próprias fontes de renda, automaticamente sua independência. O projeto é basicamente a reciclagem de Jeans. Sabe aquele jeans que está guardado no fundo da gaveta? Para elas tem muito valor. A ideia é pegar esse tecido que não está sendo utilizado e dar nova vida a ele, através de saias. Em entrevista com Talita Lerato, coo fundadora do projeto, ela explica como funciona o projeto e como foi que a ideia surgiu. “Foi a minha tia Raquel que teve o insight, a partir do convívio dela. Ela percebeu que no meio dela, onde ela trabalhava, tinha mulheres que trabalhavam em oficinas de costura em situação escravista, faziam a mesma coisa todo dia, ganhavam pouco e não era registrado. Ela foi vendo mulheres que sofreram violência do marido por um grande tempo, que estavam desestruturadas, mulheres que estavam com a autoestima baixa.

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É importante ressaltar que elas levantam a bandeira da sustentabilidade, “Lerato” significa desconstruir para construir. Apesar da proposta do projeto, o ano inicial não foi como o esperado. “Nesse tempo houve um período que ficaram paradas, quando o projeto começou, ele foi muito sem estrutura. As coisas foram acontecendo e a gente só foi fazendo então, no começo não tinha muito maquinário e nem quem atendesse essas mulheres. ”

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Ela começou a ver que tinha essas mulheres em torno dela. Então ela abriu os olhos para isso, foi então que ela começou. A partir desse insight das saias, deste conceito de desconstrução da peça ela foi tratando esse tipo de construção também”.

“Lerato” significa desconstruir para construir.


Mas isso não impediu que a iniciativa fosse prestigiada em reconhecimento à dedicação a questões de igualdade racial em sua área de atuação, receberam o Troféu Zumbi dos Palmares, ainda em 2018. Fazendo parte agora da Baytec, o projeto está passando por uma reestruturação. Antes era somente para mulheres negras, agora atende mulheres moradoras da periferia em geral. Para 2020, o projeto promete maiores iniciativas e oportunidades para aquelas que o procurarem, explica Talita: “Para o ano que vem estamos fechando algumas parcerias. Os cursos darão início na zona leste de São Paulo. Máquinas foram compradas e estão sendo estruturadas.

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SUMÁRIO

EDIÇÃO 01 | REVISTARACA.COM.BR

MATÉRIAS

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Autoestima Autoestima Renovada

“LERATO” SIGNIFICA DESCONSTRUIR PARA CONSTRUIR.

18 O RENASCIMENTO DA AUTOESTIMA SEÇÕES 02 08 10 18 20 22

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Páginas Pretas Livros Resentatividade na TV Maquiagem Para Pele Madura Autoestima Serviços

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EDITORIAL

CAROS LEITORES,

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abe aquela vontade de abraçar o mundo inteiro após o ensino médio? Eu tive. A vontade de mudar algo, de fazer a diferença. Foi aí que eu escolhi fazer jornalismo. Não me ver representada na televisão, causou um forte impacto na construção da minha autoestima.

É claro que não foi o principal motivo, mas eu me perguntava o porquê eu não me parecia com nenhuma daquelas pessoas da TV. Você pode estar pensando que é impossível uma criança pensar assim, acho que se eu não tivesse passado por isso na infância, também acharia difícil. A escolha do tema desta reportagem tem um grande valor sentimental para mim, e arrisco dizer que para muitos também. É um tema que muitas vezes passa despercebido. Em conversas sobre esse assunto, as pessoas costumam dizer que realmente nunca tinham parado para pensar no tamanho do problema, e que a partir disso, passaram a ficar mais atentas à programação transmitida por nossas emissoras brasileiras. Fiquei feliz e comovida por causar este impacto entre os meus. A ideia agora, após estes 4 anos, é transmitir isso para outras pessoas. E continuar provando que o negro pode continuar a ocupar maiores espaços. E tudo começa a partir desta revista.

Gabriela Cavalcante Editora chefe

gabriela.editora@revistaraca.com.br

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CAPA LIVROS

A NEGAÇÃO DO BRASIL – O NEGRO NA TELENOVELA BRASILEIRA

NA MINHA PELE Lázaro Ramos

Joel Zito Araújo

Você já se perguntou como o negro vem sendo representado nas telenovelas brasileiras? Esse questionamento não é de hoje. A obra de Joel Zito Araújo, apesar de lançado em 2001, trata de questões bastante atuais, como os estereótipos que o ator negro tem que desempenhar. A obra faz o levantamento de 174 obras, entre os anos de 1964 e 1997, pela Globo e Tupi. O principal ponto encontrado foi que naquela época os papéis destinados aos atores negros eram como empregados, motoristas, bandidos e nunca de destaque. Não importava o papel, o negro era sempre o coadjuvante. A explicação para isso na época, era que as novelas eram baseadas na situação dos negros no país. Por meio da leitura, podemos perceber que coisas que aconteceram há tantos anos, continuam acontecendo atualmente. Apesar de tantos avanços. Maiores informações: www.editorasenacsp.com. br

O ator e dramaturgo Lázaro Ramos, se aventura pelo mundo da escrita desde 2010, com “A Velha Sentada”, Cadernos de Rimas do João (2015), livros infantis. E agora traz uma nova proposta, o livro Na Minha Pele. A obra apesar de parecer pelo título e capa, não é uma autobiografia. Trata das relações raciais no Brasil, especificamente o olhar crítico do próprio autor e das vozes daqueles que o circundam: sua família, amigos, atores, cineastas, escritores e sua experiência à frente do programa Espelho, exibido no Canal Brasil há 10 anos. Lázaro trata de assuntos como o racismo de forma direta. Fala da sua história, sua infância na Bahia, na Ilha do Paty, lugar com pouco mais de 200 habitantes. Faz isso para que o leitor conheça sua trajetória de vida. Que não foi nada fácil. Nos conta como lutou para chegar onde está hoje, como foi muitas vezes se ver o único negro de alguns locais, como na sua escola. Mas como dito no início o livro não é uma autobiografia, ele faz isso para que o livro toma fundamento, para nos mostrar no decorrer da obra questionamentos e reflexões.

Maiores informações: www.companhiadasletras. com.br 10 RAÇA BRASIL


HEROÍNAS NEGRAS BRASILEIRAS EM 15 CORDEIS Jarid Arraes

No livro a escritora Jarid Arraes, traz a luz 15 histórias de mulheres negras que fizeram grandes feitos em alguma época. A autora faz isso em forma de cordéis, não só discorre a história como uma biografia dessas mulheres. Além das belas palavras, a obra conta também com lindas ilustrações de Gabriela Pires. A autora trouxe à tona as histórias dessas mulheres após perceber que não se via muito material sobre as mesmas. Era como se as histórias estivessem perdidas e esquecidas, apesar da grandiosidade. A proposta do livro é mostrar que devemos lutar por aquelas que lutaram por nós. A forma de realizar isso é utilizá-las como exemplo de persistência e fazer com que mais pessoas conheçam suas histórias e trajetórias. Maiores Informações: www.polenlivros. lojavirtualnuvem.com.br

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ZUM ZUM ZUMBIIIIIIII: HISTÓRIA DE ZUMBI DOS PALMARES PARA CRIANÇAS

Sônia Rosa

Autora, pedagoga, contadora de histórias, orientadora educacional e escritora de literatura para crianças e jovens, Sônia Rosa nos surpreende com mais uma de suas obras. O livro é direcionado para o público infantil. Conta a história de Zumbi dos Palmares de forma que as crianças entendam sua importância e mergulhem de cabeça nessa aventura. O livro já começa com um menino negro que se encanta por um home da pele “da cor da noite. E pede para sua mãe lhe contar a história. A representatividade negra infantil no livro se faz presente e positiva. Fazendo a criança entender o valor e o poder da liberdade, coragem e igualdade se espelhando na luta travada por Zumbi.

Maiores informações: www.pallaseditora.com.br

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por GABRIELA CAVALCANTE

UM PASSO PARA O FUTURO OU UMA AMOSTRA DO PASSADO? VOCÊ JÁ PAROU PARA PENSAR SOBRE A FORMA QUE NÓS NEGROS ESTAMOS SENDO REPRESENTADOS PELA TELEVISÃO BRASILEIRA? OU SE AO MENOS ESTAMOS SENDO REPRESENTADOS? BOM, SE NUNCA SE QUESTIONOU, EU TE CONVIDO A COMEÇAR A DAR MAIOR ATENÇÃO A ESSA QUESTÃO, QUE POR MUITAS VEZES SE PASSA DESPERCEBIDO

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Você já deve ter ouvido por aí sobre “Representatividade Negra”, porém, muitas pessoas ainda desconhecem esse termo. Afinal, o que é Representatividade? Eu te explico. Representatividade é uma palavra que vem aparecendo cada vez mais nas mídias e nada mais é, do que representar, estar ali expressando os interesses de um certo grupo de pessoas. O conceito, porém, abrange muitos significados e, de certa forma, eles estão cada vez mais contundentes. Hoje, representatividade vem do ato de sentir-se representado, por alguém ou por um movimento mais influente e organizado. É também a qualidade de nos sentirmos representados por um grupo, indivíduo ou expressão humana, em nossas características, sejam elas físicas, comportamentais ou socioculturais. É por meio desta qualidade que nos sentimos parte de um grupo, pertencentes a ele, compartilhando experiências, impressões, sentimentos e pensamentos com seus membros. Podemos afirmar que a mídia tem uma grande influência na vida das pessoas, sejam adultos ou crianças. Ela influencia não somente o modo de agir ou pensar, mas consegue alcançar também o sentir. Com o decorrer dos anos, acompanhamos o crescimento das telenovelas brasileiras. Chegadas ao país em 1951, praticamente junto com a própria televisão, elas são consideradas como um dos produtos mais consumidos no Brasil. A Rede Globo de televisão surgiu em 1965.

É a segunda maior rede de televisão comercial do mundo, (perdendo apenas para o grupo American Broadcasting Company (ABC), viria a produzir, a sua primeira telenovela das oito diária, O Ébrio, de José Castellar, de produção própria. De lá para cá, a emissora consolidou-se como a principal produtora de telenovelas do país. A emissora tem um histórico de divergências com a sociedade desde o início. Por sua estrutura e tamanho, tem um poder de alcance e uma influência enormes. A representatividade negra nas telenovelas, por exemplo, nunca foi o seu forte. Uma grande produção, exibida entre 1969 e 1970, A Cabana Do Pai Tomás foi a primeira telenovela da Rede Globo que contou com um grande elenco negro. Trata-se de uma adaptação do romance de Harriet Beecher Stowe e o enredo da trama trata da constante luta travada entre latifundiários e escravos no sul dos Estados Unidos à época da Guerra da Secessão. O ponto é que, no romance, o protagonista é um escravo. Na adaptação, foi escalado um ator branco, Sérgio Cardoso, considerado um dos maiores galãs da época, que para dar vida ao personagem pintava o corpo para escurecer a pele (o chamado Black Face) e modificava o formato do nariz. O ator ainda dava vida a dois outros personagens da mesma trama, o abolicionista Dimitrius, e o presidente dos Estados Unidos Abraham Lincoln. Como se não existissem outros atores negros para desempenhar estes papéis. Com isso, a primeira polêmica sobre a questão do preconceito racial nas tele-

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novelas surgiu. Plínio Marcos, escritor, ator, diretor e jornalista, liderou na época um grande movimento de protesto em aversão a escolha do protagonista em sua coluna “Navalha na Carne”, para o jornal Última Hora. Para a opinião popular, o ator que deveria ter feito o papel era Milton Gonçalves, que já tinha provado seu valor e talento em outros trabalhos como “Rosinha do Sobrado” (1965) e “Padre Tião” (1965), mas mesmo assim, não foi escolhido para desempenhar o protagonista. Na época, Milton foi chamado para participar de um programa em apoio à escolha de Sergio Cardoso, como Pai Tomás, mas recusou o convite. Apesar do medo de perder seu emprego, pois era recém-casado e com um filho para sustentar, preferiu não participar mesmo assim, já que não concordava com o que estava sendo feito. Walter Clark, diretor-geral da Rede Globo na época, saiu em defesa de Milton e não permitiu que o demitissem. Em entrevista com Lica Oliveira, atriz da Rede Globo, jornalista e ex-jogadora de vôlei, ela diz que atitudes como essa do Milton Gonçalves, foram fundamentais para muitos dos avanços que conquistamos hoje: “Graças a quem veio antes de nós, uma legião de artistas resistentes que passaram muitas vezes até incógnitos pelo cenário artístico brasileiro, digo no geral, nós temos avançado, mas ainda temos um longo caminho para percorrer. Nós negros, enquanto procuramos nossos pares, tomamos conhecimento de muitos artistas que tiveram um papel muito importante. Graças a essas pessoas a coisa veio crescendo. Isso não é de agora, realmente temos representantes e artistas participando de movimentos REVISTA.COM.BR

negros e muitas outras atividades tentando fazer com que essa roda não pare”. O contraditório é que na mesma novela estreava Ruth de Souza, a primeira protagonista negra da história. A atriz tinha uma vasta experiência no teatro experimental, já tinha sido indicada para um grande prêmio de melhor atriz no Festival de Cinema de Veneza em 1954, por sua atuação no filme “Sinhá Moça”. Os problemas envoltos nessa novela não acabaram por aí. Com tantos protestos das atrizes brancas que não aceitavam que seus nomes passassem após o de uma preta, a protagonista, sugeriam passar o nome de Ruth de Souza para o fim dos créditos e colocar os nomes das atrizes brancas em primeiro lugar. Ela concordou, pensava na sobrevivência e no papel que estava desempenhando no momento. Mas percebeu que seu papel foi se extenuando cada dia mais. Logo veio também a queda de audiência. Além de tudo, no estúdio em São Paulo onde se gravava a trama aconteceu um grande incêndio, obrigando a produção a se mudar para o Rio de Janeiro. Com todos esses problemas e a queda de audiência a solução foi encurtar a novela. É de extrema importância lembrarmos desses problemas que aconteceram há tantos anos, para compararmos com o tempo atual. Saber se estamos dando grandes passos ou insistindo nos mesmos erros. É o que veremos agora. Desembarcamos no ano de 2018.

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Apesar dos problemas apontados, a Rede Globo acertou em cheio na transmissão da minissérie, ainda que não passasse em um horário nobre, superou as expectativas em questão de audiência. Podemos dizer com certeza que a representatividade negra esteve em evidência. O negro estava em evidência. Vemos como a luta não para, apenas aumenta com o decorrer dos anos. Podemos chamar de um grande avanço a minissérie transmitida de 2015 até o final do primeiro semestre de 2018, Mister Brau. Criada por Jorge Furtado, com roteiro final de Adriana Falcão, estrelando Lázaro Ramos como Mister Brau e Taís Araujo como Michele, bailarina de Brau e empresária. A Minissérie mostrava a vida de Brau e Michele, um casal negro de classe alta. A obra abordava diversas questões sociais, como o racismo e a igualdade de gênero. Os episódios, de cerca de 40 minutos cada, tratavam da carreira musical de Brau, que cantava de ritmos africanos ao Pop. A Série teve ao todo 4 temporadas, 54 episódios e 3 especiais. Podemos dizer com certeza que a série nos trouxe diversas reflexões, humor e denúncias. O seriado foi a prova de que atores negros são capazes de fazer papéis em que sejam protagonistas. Personagens como os de Thais e Lázaro, ajudam no ideal de ressignificação para nós negros. É perceptível o aumento de pessoas que se autodeclararam pretas no último ano. O número de brasileiros que se autodeclaram pretos cresceu 29,3% entre 2012 e 2019, segundo a Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IGBE). Claro que o seriado não foi o principal motivo, mas podemos dizer que obras como essa têm o poder de influenciar de forma positiva. É perceptível que a emissora dá esse passo com um certo atraso, não que já não tivesse atores negros como protagonistas das novelas, mas sim porque 16 RAÇA BRASIL

que ainda são poucos. Abrir esse espaço para uma série, foi um avanço. Mas, como nem tudo são flores, no ano do encerramento de Mister Brau, surge a novela das 21h, Segundo Sol, de João Emanuel Carneiro, no horário considerado nobre, de maior audiência. Toda a história da novela se passou na Bahia, segundo estado com maior população de pretos do país, ficando para trás somente do estado de São Paulo, segundo o IBGE. A trama, no entanto, contava com um elenco de atores brancos. Isso obviamente causou uma grande indignação.


Após muitas críticas e questionamentos, atores pretos foram surgindo no decorrer da obra de João Emanuel Carneiro. É importante ressaltar que só depois de questionados, os diretores fizeram algo a respeito. Isso prova a importância do nosso posicionamento neste tipo de situação. É importante que estejamos atentos. Para Lica, esse olhar das pessoas, seja crítico ou não, já faz uma grande diferença. “Por que antes nós não tínhamos nenhum olhar, é a questão da invisibilidade. Hoje nós temos um pouco mais de visibilidade e apoio dos nossos pares, ou seja, outros artistas negros assistindo e consumindo o produto que outro está ali apresentando. Quando as pessoas começam a perceber isso, contribuímos com esse movimento. E a partir do momento que estamos assistindo mais trabalhos, vendo novas coisas, nos capacitando mais, o nosso olhar vai ser crítico”. Não podemos dizer que não avançamos e tivemos grandes melhorias no decor-

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rer dos anos, mas ainda não é suficiente. Como exemplo de melhoria temos Mr. Brau, de ausência, a novela Segundo Sol. Com isso surge o questionamento: estamos avançando ou andando para trás nessa questão? Temos a sensação de que a programação da emissora seria uma espécie de “tapa-buracos”. Quando achamos que estamos no caminho certo, como em Mister Brau, percebemos que ainda temos um longo caminho a percorrer para quebrar alguns paradigmas, explicitados em Segundo Sol, o que nos dá uma sensação de retrocesso, uma imagem de um passado ruim. O Segundo exemplo nos mostra que apesar de tudo aquilo que o primeiro nos mostra, ainda há muita luta pela frente. O trabalho de conquista do justo espaço do negro na televisão precisa ser ainda mais intenso. Uma das argumentações dos responsáveis, autores, diretores, produtores de elencos e afins, é que a liberdade de criação, pode deixar completamente de lado algumas questões sociais. Sim, pode. Mas considerando todo o problema social envolvido, será mesmo que não tem nada a ver com a nossa realidade? Esse é só mais um dos casos que enfrentamos desde os primeiros passos da televisão, que por muitas vezes passam despercebidos. Apesar de todo esse tempo, os papeis destinados aos negros, são em sua maioria, de coadjuvantes. Acreditamos que devemos estar em constante luta pela quebra de estereótipos. É cansativo ver o negro em papeis inferiores aos brancos nas cenas, como o traficante, o criminoso ou a

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empregada doméstica, figuras essas definidas por poder afirmativo de inferioridade que confirma o racismo sistêmico, como se fôssemos capazes de interpretar somente esses papéis. Isso nos afeta de muitas formas. Não só na fase adulta, mas principalmente na infância. A infância é uma das fases mais importantes da vida de uma pessoa, acontecimentos que lhe ocorrem podem impactar até a vida adulta. Por conta da falta de representatividade, podemoms dizer que elas correm o risco de se tornarem adultos com problemas de autoestima e de auto aceitação. A televisão tem um papel influenciador para elas, desde comerciais de brinquedos até as telenovelas, essas que seus pais assistem. As mesmas novelas nas quais a maioria do elenco é branco, que o preto é o empregado do branco. O preto que mata o branco. O branco que humilha o preto. O preto que que rouba do branco. E por aí vai. É preciso que a identidade da criança negra seja fortalecida pelas mídias. A forma de resolver esse problema é trazendo mais protagonistas negros para a programação (comerciais, filmes, novelas e afins). A falta de representatividade pode nos causar alguns problemas, como baixa autoestima. Segundo a psicóloga Gleicy Souza, a representatividade tem um papel muito importante na construção da autoestima, do adulto e principalmente da criança. Não nos vermos na televisão ou nos vermos encobertos por estereótipos, nos traz problemas e dúvidas. “As grandes questões de autoestima, são formadas em uma primeira infância. Claro que tem questões que você passa na vida adulta que também irão impactar a autoestima, mas se você tiver uma boa autoestima formada na primeira infância, você vai ter mais facilidade de lidar com esses impactos na vida adulta. Por mais que a criança tenha carinho e cuidados dentro de casa, tem uma sociedade inteira pautando isso ao contrário. Hoje em dia é mais fácil de se ver crianças pretas com uma boa formação de autoestima. 18 RAÇA BRASIL

Estamos conseguindo, aos poucos, entender essa questão”. A profissional ainda afirma que não basta termos apenas a representatividade, ou seja, o negro na tela, de qualquer jeito. Em papeis, como por exemplo, estereotipados ou de subalternos. Isso pode afirmar que ser negro na sociedade não é uma coisa boa. De que nascemos para ser apenas a empregada ou o motorista. Claro que o papel de construção de autoestima na fase infantil não é somente da mídia. A família tem um papel importante nesta fase. Para a Psicóloga, pais que sofreram com essa falta da construção positiva no passado, têm maior dificuldade em fazer com que seus filhos adquiram esse autoconhecimento. “Se você tem uma mãe e pai pretos, que foram formados com problemas de autoestima, dificilmente eles vão conseguir passar uma sensação de autovalor para uma criança. Vemos muitas famílias pretas onde os próprios pais dizem ‘afina esse nariz’, alisa esse cabelo, você tem que casar com um branco para clarear a família’, isso obviamente vai fazer com que a pessoa pense que não está adequada. Nós já temos gerações impactadas pelo racismo, que de forma inconsciente passa isso para os seus filhos. O problema não é só uma construção de autoestima, é um problema racial”.


O discurso de que temos que ser duas vezes melhores, nos enforçarmos duas vezes mais, ter um comportamento duas vezes melhor, são frases que escutamos por conta da cor da nossa pele. O que obviamente uma injustiça. Deveríamos ter direitos iguais, nem mais ou menos. Iguais. Nos vemos obrigados a provar nosso valor o tempo inteiro. Devemos confirmar que o movimento não é moda e nem surgiu de um dia para o outro. Muitas pessoas têm lutado por nós, já há muito tempo. Percebemos uma maior visibilidade agora por conta dos avanços das redes sociais, onde é possível nos expressarmos e fazer acontecer. Nós vivemos em constante luta, desde o tempo da escravidão. A luta por maiores e melhores espaços, não se faz somente na mídia, mas também por melhores oportunidades de trabalho, independente da área. Temos que lidar com o racismo explícito ou com aquele que está nas entrelinhas de comentários aparentemente gentis sobre o cabelo ou a cor da pele. Essa luta não pode acabar, devemos ser resistentes e insistentes. Todo o movimento ganhou grandes espaços com o decorrer dos anos. Vemos muitas pessoas aderindo à causa e lutando por seus direitos.

Ainda assim, lutamos por mais. Mesmo que insistam em nos chamar de minoria, provamos que somos mais a cada dia. Graças às pessoas que lutaram no passado, às que lutam agora e aos que lutarão no futuro pelo justo espaço na sociedade brasileira.

Muitas pessoas tomando consciência daquilo que costumava passar despercebido.

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CAPA BELEZA

MAQUIAGEM PARA PELE MADURA por GABRIELA CAVALCANTE

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Cada pele merece um cuidado especial na hora da maquiagem, o que não é diferente para a pele madura. Aquela coisa de que com o passar dos anos é preciso o uso de mais e mais maquiagem, é um mito. O importante é saber valorizar cada traço, até os que vem com a idade. Para inspirar você, fizemos esse ensaio com a Modelo Enilda Nunes, de 47 anos.

CRÉDITOS MAQUIAGEM: MARISETE BATISTA FOTOGRAFO: GABRIELA CAVALCANTE MODELO: ENILDA NUNES

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AUTO ESTIMA CAPA

O RENASCIMENTO DA

AUTOESTIMA

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por GABRIELA CAVALCANTE

URANTE MUITOS ANOS A TENDÊNCIA E NEGAÇÃO DAS RAÍZES SE MANTIVERAM FORTES. DESDE A COR DA PELE ATÉ O FORMATO DO CABELO. MAS NOS ÚLTIMOS ANOS, FOI GRATIFICANTE PERCEBER QUE ISSO TEM MUDADO. MAIS PESSOAS NEGRAS NA LINHA DE FRENTE, MOSTRANDO QUE A COR DA PELE NÃO NOS IMPEDE DE NADA. MAIS PESSOAS TAMBÉM MOSTRANDO QUE TER CABELO CRESPO OU CACHEADO,

Nunca é tarde para começar a transição capilar. O processo pode ser longo, mas não é impossível. Como inspiração, entrevistamos e fotografamos a Carmen Gomes Machado, 55 anos e aposentada. “Comecei a transição devido a muitos anos de química, e com o tempo percebi que estava danificando muito meu cabelo. Foi quando um dia eu decidi voltar o meu cabelo natural. Juro que não me lembrava mais da textura do meu cabelo, usava química há mais de 30 anos. Não que eu me importe tanto com o que a mídia prega, mas ver todo o movimento de auto aceitação e essa coisa de voltar às origens, me incentivou muito a tomar a decisão. O meu maior incentivo foi a saúde do meu cabelo, que estava bem danificado. E a beleza que eu enxerguei através de outras pessoas que estavam nesse processo de transição também.”

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Tudo nos leva a acreditar que o natural não é o ideal. Tomar a decisão de voltar com as madeixas naturais pode ser surpreendente, já que hoje temos mais produtos para nos auxiliar nessa transição. “Na minha época não tínhamos produtos que deixassem o cabelo tão definido como temos hoje. Mesmo muitos produtos machucando o couro cabeludo, eu usava mesmo assim, para manter o liso. Ter cabelo crespo não era bonito, não era o ideal. O legal era ter cabelo liso, e sofríamos para manter a base de pente de ferro quente. Eu percebia que quando meu cabelo estava mais liso, eu recebia mais elogios.

Isso influenciava na minha autoestima. Tudo Isso era o que a sociedade pregava, afirmava e obrigava. Através de produtos para alisamento e nada para cabelos crespos.” Para Carmen a melhor decisão foi aceitar a textura original dos cabelos. “Hoje eu me sinto muito bem com a minha decisão, me sinto maravilhosa. Eu não usaria mais produtos e procedimentos químicos. Nunca mais.”

CRÉDITOS FOTOGRAFO: GABRIELA CAVALCANTE MODELO: CARMEN GOMES

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REDES DE APOIO QUE VOCÊ PRECISA

CONHECER

Para conhecer mais, basta acessar a página do Indique uma Preta no Facebook.

O Indique uma Preta é uma rede de apoio para mulheres negras. A instituição foi criada em 2016, pela Daniele Mattos. Tudo começou quando ela sentiu uma enorme falta de profissionais negras na agência que ela trabalhava. Quando surgiu uma vaga de estágio naempresa, Daniele resolveu criar um grupo no Facebook para que uma mulher negra ocupasse a vaga. Depois da empolgação da ideia, ela convidou a publicitária Amanda Abreu, que já tinha experiência na articulação de vagas. Foi aí que tudo se tornou uma rede de Apoio. Além da disponibilização de vagas, o grupo também oferece Wokshops, palestras e debates. Tudo para auxiliar seu público alvo na hora da entrevista ou até mesmo a maneira correta de se montar o currículo e portifólio.

Entreviste um negro surgiu em 2015, pela Helaine Martins. É basicamente uma rede de dados jornalística somente com profissionais e especialistas negros. O programa levanta a bandeira de que o jornalismo precisa se plural, inclusivo e transformador, com uma plataforma que nos dê voz.

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Para participar, é só acessar o banco de dados disponível e procurar pelo profissional que deseja e entrar em contato diretamente com ele. Já para ser fonte, mandar o nome, uma mini biografia, as áreas e assuntos que podem ser abordados em uma entrevista, contato e cidade para o e-mail: entrevisteumnegro@gmail.com


ONDE ENCONTRAR Aqui estão os endereços de lojas, escritórios e profissionais citados nesta edição

SERVIÇOS - p.22 Projeto Lerato – Facebook.com.br/projeto Lerato Instagram: @projetolerato Telefone: (11) 96846-2878 Site: www.projetolerato.com.br Indique uma preta – Facebook.com.br/indiqueumapreta Instagram:@indiqueumapreta Email: contato.indique@gmail.com Entreviste um negro – Facebook.com.br/entrevisteumnegro Instagram: @entrevisteunnegro Site: www.entrevisteumnegro.com.br

CAPA: Thaina Nunes e Lucas Nunes CRIAÇÃO E ARTE: AGÊNCIA ÚNICA EDIÇÃO 210

RAÇA é uma publicação da Pestana Arte & Publicações. Não nos responsabilizamos por conceitos emitidos em artigos assinados ou por qualquer conteúdo publicitário e comercial, sendo esse último de inteira responsabilidade dos anunciantes. www.revistaraca.com.br www.facebook.com/revistaraca Ano XXII – Edição 210

CRÉDITOS Capa

Produção Gráfica e Diagramação - Júlia Carmo

GLOSSÁRIO CAPA Mainstream – objetivo final, corrente principal Streaming – Transmissão continua

PESTANA ARTE & PUBLICAÇÕES Rua Serra de Bragança, nº 66B Vila Gomes Cardim, São Paulo – SP CEP: 03318-000 – Tel. (+55 11) 3476-1993 REDAÇÃO DIRETORA: Gabriela Cavalcante EDITORA-CHEFE: Gabriela Cavalcante DIRETORA DE ARTE: Gabriela Cavalcante PRODUÇÃO: Gabriela Cavalcante REDAÇÃO: Gabriela Cavalcante FOTOGRAFIA: Gabriela Cavalcante REVISÃO: Luiz Vicente Lázaro PARA ANUNCIAR anunciar@revistaraca.com.br SUGESTÃO DE PAUTA Sugestões, dúvidas e informações, escreva para: redação@revistaraca.com.br ou com a editora-chefe:gabriela.editora@revistaraca. com.br IMPRESSÃO Grafilar – Triagem 20.000

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