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Ano 1, Nº 3 Produzida por Pastores da Igreja Evangélica Luterana do Brasil

- A Igreja vai onde o povo está, p. 30 - Como receber bem o visitante?, p. 54 Estrategias para que a Igreja cumpra a Missão, p. 18

- A TV como veículo de evangelização na Igreja Evangélica Luterana do Brasil, p. 4 - O desafio da IELB na missão urbana, p. 36

- Desafio de Shrek - artigo, p. 67

- A teologia de nossa Liturgia, p. 62 - Sugestão litúrgica para a Quaresma, p. 64 - O galo cantando - simbologia, p. 57


EXPEDIENTE

Publicação mensal de pastores da Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB) não oficial. Tem como propósito divulgar textos teológicos/ pastorais, inéditos ou não, produzidos por pastores da IELB, recuperar textos teológicos escritos no passado e que não estão disponíveis na Internet, divulgar de forma mais abrangente a teologia evangélica luterana confessional e a reflexão teológica na IELB, e ser uma ferramenta prática para as atividades ministeriais em suas diferentes áreas. Os conteúdos são de responsabilidade dos seus autores.

Colaboradores desta edição:

Comissão de Culto da IELB; Ernani Kufeld; Dieter Joel Jagnow; Ewerton Gustavo Wrasse; Germano Neumann; Jarbas Hoffimann; Marcos Schlemer Weide; Marcos Schmidt; Martinho Rennecke; Waldyr Hoffmann.

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Coordenadores:

Rev. Dieter Joel Jagnow (editor) Rev. David Karnopp Rev. Jarbas Hoffimann Rev. Mário Rafael Yudi Fukue Rev. Waldyr Hoffmann

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Rev. Jarbas Hoffimann diagramador.RT@gmail.com

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Os textos a serem publicados na revista devem ser enviados ao editor

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Apresentação da Revista Eletrônica Teologia & Prática A revista Teologia&Prática é uma iniciativa de pastores da Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB). Ela não tem caráter oficial. Seu objetivo básico é coletar e compartilhar bimestralmente, de forma organizada, via Internet, textos teológicos/pastorais, inéditos ou não, produzidos por pastores da IELB e que regularmente circulam em listas da Igreja. Além disso, procura recuperar textos teológicos escritos no passado e que não estão disponíveis na Internet. Um objetivo subjacente é a intenção de divulgar de forma mais abrangente a teologia evangélica luterana confessional e a reflexão teológica na IELB. Além de possibilitar a reflexão teológica, a revista quer ser uma ferramenta prática para as atividades ministeriais em suas diferentes áreas.

Critérios 1. A produção da revista é coordenada por voluntários. Um (ou mais) editor é responsável para que exista um mínimo de organização na diferentes fases do processo. 2. A revista é fechada em PDF e carregada em um depósito da Internet, de onde poderá ser baixada livremente. 3. A revista tem circulação bimestral. Não há um número fixo de páginas. 4. Um blogue serve de apoio para as edições, a fim de possibilitar a sua divulgação pelos mecanismos de busca da Internet. 5. A revista é aberta a todos os pastores da IELB interessados em compartilhar seus textos (meditações, estudos homiléticos, sermões, resenhas, ensaios, etc.), inéditos ou não. Cada autor é responsável pelo seu texto (doutrinária, gramática e ortograficamente). Os textos devem ser enviados ao editor. Nota: O editor pode recusar — ou solicitar que seja revisado — algum texto, caso julgue que ele afronte a doutrina da IELB. Para tanto, se necessário, conta com voluntários para a avaliação. Não serão utilizados textos de conteúdo político-partidário, que promovam o ódio ou a discriminação ou que firam os princípios e valores da Igreja. 6. A publicação dos textos enviados não é imediata. Existe uma tentativa de se ter variação de conteúdos em uma edição e em edições subsequentes. O editor informa ao autor a situação de cada texto recebido. 7. Há uma pauta mínima, no sentido de se buscar conteúdos que de alguma forma abordem questões pontuais (exemplo: Reforma, eleições, Natal). A pauta completa é determinada de acordo com as colaborações recebidas, conforme a ordem de chegada. 8. O organograma de produção é este: a) Lançamento: até o dia 25 do segundo mês da edição b) Preparação / Diagramação: do dia 1 ao dia 20 do segundo mês da edição c) Recebimento dos textos: até o dia 20 do primeiro mês da edição e-mail: revistateologia@gmail.com blogue: http://revistateologia.blogspot.com tuíter: http://twitter.com/revistateologia


A Igreja vai onde o povo está, p. 30 A teologia de nossa Liturgia, p. 62 A TV como veículo de evangelização na Igreja Evangélica Luterana do Brasil, p. 4 Como receber bem o visitante na igreja?, p. 54 Desafio de Shrek - artigo, p. 67 Estrategias para que a Igreja cumpra a Missão, p. 18 O desafio da IELB na missão urbana, p. 36 O galo cantando - simbologia, p. 57 Quaresma - Estudo Bíblico, p. 58 Sugestão litúrgica para a Quaresma, p. 64


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Rev. Dieter Joel Jagnow

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Parte 2 - Visão histórica dos programas reg tir do interesse da Igreja, mas da própria emissora. Todavia, existem Hora foi o único programa da divergências quanto à maneira de IELB na TV durante cerca de como foi o processo. Uma fonte dá quatro anos. Era veiculado semanalconta que certo dia houve encontro mente na TV Alto Uruguai de Erecasual entre o pastor Gerold Krick e chim, RS. o diretor da emissora na residência O programa iniciou em 1976. de Edmundo Arndt, que era memTodavia, há divergências quanto bro da Comunidade São João de ao mês. O seu primeiro produtor e Erechim. Após diálogo sobre o proapresentador, pastor Edgar Tilp, diz grama de rádio que a congregação que a primeira veiculação aconteceu mantinha, o diretor comentou que na primeira sexta-feira de março.1 Já queria colocar um novo programa a revista Mensageiro Luterano inreligioso na TV, pois o da Igreja Caforma que o primeiro programa foi tólica não estava agradando. O pasao ar em maio.2 tor Krick disse que, caso a emissora Após a saída de Tilp, em janeiro cedesse um horário gratuitamente, de 1983, a coordenação foi assuo programa seria feito. Alguns dias depois, o diretor entrou em contato 1 TILP, Edgar. Correspondência recebida com a família Arndt, que era vizido pastor Edgar Tilp em fevereiro de 2007.Ver anexo 1. 3 Uma outra fonte diz que “tivemos nha, informando que doaria o espa2 A HORA – Erexim, RS. Mensageiro de mudar o nosso programa para os ço. A família então procurou Edgar Luterano, Porto Alegre, n. 8, ano 66, sábados, no horário do meio-dia, meioTilp, pastor da cidade, para que asp. 11, ago. 1984. dia e pouco...”TILP, op. cit.

1. A Hora

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mida pelo pastor Benjamin Jandt. Também escreviam e apresentavam mensagens os pastores Vilson Regina e Gerold Krick. A duração do programa foi variável. Inicialmente, era de cinco minutos. Depois, passou para 10 minutos; mais tarde, voltou a ter cinco minutos. Também houve um período em que a duração era de oito minutos. Durante três anos, foi veiculado todas as sextas-feiras, às 18h50min, no intervalo entre duas novelas da TV Globo. Em meados de 1979, quando a RBS introduziu o Jornal Regional, A Hora passou para domingos, às 13h.3 O programa não surgiu a par-


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gulares sumisse o programa. O pastor pediu alguns dias para pensar e, então, resolveu aceitar o desafio.4 A outra fonte diz que em fevereiro de 1976, o pastor Tilp recebeu a visita do diretor da TV Alto Uruguai, Pozzo Raimundo. Ele disse ao pastor que queria colocar na programação um programa religioso, mas que não sabia ao certo como ele deveria ser. Comentou, também, que já havia feito uma oferta ao pastor Waldemar Lückemeier, da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, mas que ele não se sentiu capacitado para produzir o programa. Segundo Pozzo, a emissora estava oferecendo um espaço gratuito e que ela colocava à disposição tudo o que fosse necessário para produzir o programa. O pastor Tilp, mesmo apreensivo, pela falta de experiência, acabou aceitando o desafio.5 Estas duas versões geraram certo desconforto na época. Na edição de abril de 1981 do Mensageiro Luterano saiu uma matéria sobre os programas religiosos da IELB que existiam na época. O pastor Krick enviou carta à Redação do Mensageiro Luterano (publicada em junho daquele ano), questionando a veracidade de informações publi4 KRICK, Gerold. A Hora na TV Erechim. Mensageiro Luterano, Porto Alegre, n. 6, ano 64, jun. 1981, segunda capa. O pastor Krick também informa que colaborou em 60 programas de A Hora. 5 TILP, op. cit.

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Nota:

Este texto complementa o publicado na edição anterior da revista Teologia & Prática. Na parte 1 foi feito um levantamento um levantamento histórico geral sobre o tema “comunicação” na Igreja Evangélica Luterana do Brasil (Ielb) desde os seus primórdios até o ano de 2006. A parte 2 trata especificamente dos programas de TV que existiram (ou existem) neste mesmo período. Durante cerca de uma década (1976 a 1986), a IELB conheceu a ascensão e o declínio no uso da televisão como veículo para comunicar o Evangelho. No seu auge, chegou a ter 93 minutos semanais de programação regular. Neste capítulo é feito um levantamento de todos os programas que existiram e de um iniciado em novembro de 2004 e que ainda está sendo veiculado. cadas acerca do surgimento do programa, que haviam sido fornecidas por Tilp.6 Segundo o pastor, o texto publicado não havia relatado com fidelidade a história, razão porque resolveu escrever e colocar a sua versão dos fatos. A resposta de Tilp à carta de Krick, também publicada na seção de cartas, apareceu na edição de novembro da revista.7 Tilp diz que ficou “surpreendido” com a carta de Krick e que “cada historiador vê e descreve a história do seu ponto de vista...” Tilp também diz que, se na reportagem ficou de fora algum nome, “não foi por má fé, mas pela 6 Inclusive, Krick cita problemas nas informações de em artigo publicado há mais tempo na revista. Embora não citado, depreende-se que seja a nota publicada na revista em maio de 1977, pois, pelo o que foi possível verificar, até a esta data somente havia sido publicada esta nota acerca do programa. 7 A resposta foi uma solicitação da redação da revista, como o próprio autor informa.

exiguidade de espaço.”8 Segundo desejo da emissora, o programa deveria ter um formato ainda não conhecido pelo telespectador. Além disso, não poderia refletir abertamente o caráter da denominação. Deveria ser um pequeno espaço de tempo semanal “que desse ao ouvinte, após uma semana de trabalho ou estudo, orientação, alento, estímulo e, acima de tudo, informação sobre aquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida – Jesus Cristo, o Senhor e Salvador”.9 Segundo o pastor Tilp, ele e o diretor realizaram pelo menos dez 8 TILP, Edgar. “A Hora”. Mensageiro Luterano. Porto Alegre, n.11, ano 64, nov. 1981, segunda capa. Pelo o que é possível perceber na carta, Tilp mantém a sua versão da história. Ele diz que o gerente da emissora procurou a congregação e que talvez ele tivesse “comentado com outras pessoas a oferta deste programa ou espaço.” Outro dado importante é que a citação de Tilp como fonte tem como base informações prestadas por ele no início de 2007, para esta pesquisa. 9 .HEIMANN, Proclamando Cristo do alto dos telhados, op. cit., p 6, 7. Fevereiro e Março, 2011 | Teologia | 5


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reuniões para discutir o formato, o nome, a duração, o dia e horário da veiculação, o material necessário, etc.10 O nome do programa foi sugestão do diretor da emissora. Nas duas semanas anteriores à primeira veiculação, a emissora colocou na programação cinco a oito chamadas diárias relacionadas com o programa que iria estrear. Na produção, como tinha poucos recursos disponíveis, o pastor Tilp valeu-se de adaptações feitas de mensagens publicadas nas revistas Mensageiro Luterano e Ultimato, além de emprestar eslaides e usar imagens recortadas de revistas. Sempre que necessário, a emissora liberava um câmera para fazer imagens externas. A produção do programa exigia cerca de um dia. Às vezes, ia ao ar gravado, e outras vezes ao vivo. A produção procurava tematizar o programa de acordo com o ano eclesiástico e eventos sociais e políticos que oportunizavam mensagens cristãs (como aniversário do município, eleições e outros). As mensagens sempre eram cristocêntricas. “Se algum dia eu não puder mais falar de Cristo, isto é, se esta liberdade me for tolhida na TV, o programa não terá motivo ou razão de existir”, disse o pastor Tilp.11 O programa tinha um formato ágil. Nas palavras do pastor Benjamim Jandt, era um “telejornal espiritual”, isto é, as mensagens eram curtas e mescladas com música e clipes de corais.12

Este formato acabou determinando a mudança do programa da Igreja Católica. Até então, era rezada uma missa no estúdio. Após algum tempo, a emissora solicitou que o formato passasse a ser como era o A Hora. Segundo Tilp, no início o bispo da cidade “chiou bastante”, mas teve de ceder. O bispo foi procurar o pastor para ver como o programa era produzido. Os dois se tornaram bons amigos.13 Segundo o pastor Tilp, o programa A Hora foi muito bem aceito (“não havia quem não gostasse do programa”), tanto que depois de algum tempo a sua duração passou para dez minutos. A boa audiência despertou o interesse de patrocinadores. De acordo com Tilp, foram recebidas muitas propostas de patrocínio, mas não havia necessidade. Os poucos custos que existiam eram cobertos pela Congregação São João. Com o crescimento da audiência, o pastor Tilp tornou-se conhecido e benquisto na cidade. Passou a ser convidado para atos públicos, casamentos, eventos religiosos. Na rua, era reconhecido pelas crianças e chamado de o “a hora”. A audiência também pode ser medida pelo expressivo número de pessoas que se tornaram membros na Congregação. Em certo momento, havia turmas de 30 pessoas que estavam na instrução de adultos.14 Mais tarde, a emissora passou a cobrar pela veiculação e o programa passou a ser mantido pela congre-

10 TILP, op. cit. 11 HEIMANN, Proclamando Cristo do alto dos telhados, op. cit., p 7. 12 JANDT, Benjamim. Respostas às perguntas - TV. [mensagem pessoal]. Mensagem recebida por editor@editoraconcordia.com.br em 11 dez. 2006.

13 TILP, op. cit. Ver também HEIMANN, Proclamando Cristo do alto dos telhados, op. cit., p 7. 14 Idem.A instrução de adultos é um curso oferecido para pessoas não luteranas que têm o interesse em conhecer as doutrinas da Igreja e, eventualmente, se tornarem membros.

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gação local, juntamente com as demais congregações do distrito. Boa parte dos custos era coberta por quatro patrocinadores da paróquia. Segundo o pastor Benjamim, “no valor da época, o patrocínio não era um problema crucial”.15 Embora o programa tivesse boa receptividade local e regional, havia uma certa resistência por parte da TV Globo. Ela “não gostava de produções locais, nem religiosas ou outras, como programas tradicionalistas ou coisa parecida.”16 Ao que tudo indica, o programa durou até 1988. Ele foi sendo empurrado para horários cada vez menos nobres, chegando a ser veiculado às 5h da manhã. “Aí os patrocinadores e mesmo a paróquia se indignou e não queria mais manter o programa”, disse o pastor Benjamim.17

2. A Voz da Cruz O programa A Voz da Cruz teve seu início em 13 de abril de 1980, na TV Cruz Alta de Cruz Alta, RS. O primeiro coordenador e apresentador foi o pastor Mario Lehenbauer, assessorado por uma equipe de pastores do Distrito Vale Ijuí da IELB. Após a saída do pastor Mario, a coordenação passou para o pastor Valdo Weber. Também foram apresentadores os pastores Paulo Nerbas, Waldemar Reimann, Rudi Heimann e Ari Thoma. Havia uma presença regular do coral de crianças da comunidade Sião de Santo Ângelo, RS, sob a liderança do professor Lírio Sonntag.18 15 JANDT , op. cit. 16 Idem. 17 Idem. 18 Existe uma informação de que o professor Lírio também participava da produção do programa. LEHENBAUER, Mário. A Palavra na TV Cruz


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Segundo o pastor Mario, desde a implantação da TV Cruz Alta na cidade, ele e vários membros sonhavam em ter um programa na emissora. O sonho começou a se materializar quando um empresário, em contato com o gerente da emissora, comentou sobre o desejo.19 O gerente solicitou que o empresário chamasse o pastor para fazer as tratativas sobre um programa. O programa deveria ir ao ar já no domingo seguinte - isto era uma quarta-feira. O primeiro A Voz da Cruz teve como tema A verdade que liberta. Foi apresentado pelo pastor Mario ao vivo. Teve a duração de 20 minutos20 Depois, passou a ter a duração média de 12 minutos. Inicialmente, era veiculado às 11h30min, logo após o programa Esporte Espetacular, da TV Globo. O programa oferecia aos telespectadores um curso bíblico chamado Encontro com Deus. Bíblias (Novo Testamento) eram oferecidas a quem completasse o curso. O contato com os telespectadores era feito por um secretário, especialmente contratado para esta função. Em pouco mais de um ano (abril de 1980 a junho de 1981), haviam sido enviados mais de 1.500 cursos e mais de 800 Novos Testamentos.21

O equipamento usado era o da própria emissora. Ela colocava todas as ilhas de produção e todos os profissionais da emissora do turno à disposição da produção do programa. No início, o programa era mantido pela própria emissora, com a venda de espaço comercial. Mais tarde, os custos passaram a ser cobertos com ofertas das congregações dos distritos Vale do Rio Ijuí, Planalto e Missioneiro da IELB. De acordo com o pastor Mario, a aceitação do programa foi “impressionante” e que “a caixa do correio não comportava a correspondência recebida”, razão porque foi necessária “a criação emergencial de condições de logística para atender a repercussão do programa”22 Devido ao acúmulo de trabalho trazido pelo programa, foi chamado Valdo Weber para ser o segundo pastor. Segundo Weber, quando chegou para assumir a função, o programa já tinha saído do ar.23 Ele reiniciou quando Mario saiu para outra Paróquia. Nesta nova fase, o programa ia ao ar todos os domingos às 7h30min. Era produzido nas quintas-feiras, a partir das 19h. Procurava-se fazer as mensagens de acordo com o período eclesiástico e datas comemoAlta. Lar Cristão 1982. Concórdia: rativas nacionais. Até o dia da veiPorto Alegre, ano 33, 1982, p. 78. 19 O gerente da emissora era Pozzo culação, a emissora fazia chamadas Raimundo, o mesmo que havia convidando as pessoas para assistir trabalhado em Erechim e parti-cipado do processo de criação do programa A Hora. Há informação de que depois Pozzo foi transferido para a trabalhar em emissora de Uruguaiana, RS, onde também ofereceu espaço para a Igreja Luterana.TILP, op. cit. 20 LEHENBAUER, Mario. Pesquisa [mensagem pessoal]. Mensagem recebida por editora@editoraconcordia.com.br em 21 de novembro de 2006. 21 LEHENBAUER, Mário. A Palavra na TV Cruz Alta. p. 78.

22 LEHENBAUER, Mario. Pesquisa. 23 WEBER,Valdo. Pesquisa. [mensagem pessoal]. Mensagem recebida por editora@editoracon-cordia.com.br em 24 nov. 2005. Segundo o pastor Lehenbauer, a extinção aconteceu por causa das dificuldades financeiras. A interrupção parece ter durando alguns meses, já que Weber relata que após a saída do pastor Mario o programa recomeçou. Valdo chegou à cidade em 1982 e Mario saiu em 1983. Ver WARTH, op. cit., p 164,168.

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o programa e informando o tema da mensagem. Segundo Weber, quando o Grêmio foi campeão do mundo, a RBS transmitiu e, como era sábado, no intervalo do jogo apareceu uma chamada para o próximo programa. “O pastor esteve no Japão!”, foi o comentário de domingo.24 Além de mensagens e clipes musicais, a Voz da Cruz tinha os quadros Perguntas e Respostas e Diálogo. No primeiro, abria-se se espaço para responder a perguntas de natureza espiritual feitas pelos telespectadores. No segundo, eram apresentados pastores, com o objetivo de torná-los conhecidos em suas cidades. Além disso, uma vez por mês o programa tinha a presença de um pastor convidado do Distrito. De acordo com Weber, segundo levantamento da emissora, a audiência era de cerca de um milhão de pessoas. O programa recebia a média de duzentas cartas por semana, pedindo o curso bíblico e solicitando informações sobre a IELB e comunidades luteranas da região.25 Ao contrário do que havia acontecido na fase anterior, a extinção do programa, em meados de 1984, não aconteceu por causa de dificuldades financeiras. A razão foi um decreto da direção da RBS, que proibiu programas religiosos em toda a rede. Outra versão é lembrada por Weber: “o que se ouviu em Cruz Alta, foi de que o padre local havia pedido o fim do programa junto à diretoria da emissora. Não sei se isto é verdade ou não. Mas tem a sua lógica. Nós ‘incomodávamos’ os católicos.”26

3. Expectativa (Vitória) 24 Idem. 25 Idem. 26 Idem. Fevereiro e Março, 2011 | Teologia | 7


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Expectativa foi ao ar pela primeira vez em 7 de setembro de 1980, na TV Gazeta de Vitória, ES. A direção e produção geral eram do pastor Nilo Figur, assessorado por uma equipe.27 Com duração de 10 minutos, o programa era veiculado dominicalmente. Segundo nota publicada na revista Mensageiro Luterano, dando conta do lançamento, o horário de veiculação era ao meio-dia, após o programa Esporte Espetacular.28 Mas este horário nem sempre foi respeitado, por causa de corridas da Fórmula 1 que eram retransmitidas pela TV Gazeta. A ideia de montar um programa surgiu a partir de uma proposta da TV Gazeta de que a Igreja Luterana 27 Após a saída do pastor Nilo Figur, no início de 1984, a coordenação foi assumida pelo pastor Jonas Flor. 28 EXPECTATIVA na Televisão. Mensageiro Luterano. Porto Alegre, n. 11, ano 63, nov. 1980. Nesta nota é informado que Expectativa era o terceiro programa de televisão a ser criado na IELB.

colocasse no ar uma programação evangélica que fizesse uma espécie de contraponto a um programa católico, o Missa no Lar. Inicialmente, a liderança da Congregação Redentor de Vitória, filiada à IELB, não acatou a ideia. O projeto somente começou a tomar forma com a chegada do pastor Nilo Lutero Figur. Figur, juntamente com o professor Sérgio Schweder e outros líderes luteranos, idealizaram o programa e mobilizaram congregações de Vitória e do interior do estado. A Congregação Redentor aprovou a sua implantação no dia 29 de junho de 1980. O logotipo e a vinheta foram criados por uma empresa de São Paulo sem custos. A “arte eletrônica” era considerada “um trabalho do mais alto nível artístico e técnico... que dão ao programa um nível classe ‘A’, que pode ser colocado ao lado de qualquer programa de TV no Brasil.”29 O nome e o logotipo

do programa foram registrados no Instituto Nacional de Propriedade Industrial, do Ministério da Indústria e Comércio. A estrutura básica do programa era esta: - Abertura (vinheta) - Manchetes (normalmente três, chamando a atenção para o tema do dia) - Texto bíblico (narrado e ilustrado com eslaides ou cenas de filmes) - Mensagem (com duração três minutos) - O Cristianismo no Mundo (análise da situação da Igreja Cristã em diferentes países) - Divulgação (oferecimento de cursos bíblicos, endereços, etc.) - Síntese (recado final, objetivo e pessoal)30 Segundo o jornalista Orlando Eller, o programa não era feito para luteranos. Por esta razão, determinados temas espirituais, considerados de “difícil digestão”, eram evitados”.31 Além disso, o programa 29 HEIMANN, Proclamando Cristo procurava evitar a gratuidade, o apedo alto dos telhados, op. cit., p 10. lo sensacionalista e o lugar comum de outros programas afins. Também se evitou, tanto quanto possível, a sua vinculação com a Igreja Luterana. As mensagens eram curtas e objetivas, com cerca de três minutos. Normalmente havia um bloco musical com músicas do Grupo Kyrie ou do coral do Seminário Concórdia. Pode-se dizer que o principal apresentador do programa era Figur. Todavia, via de regra havia um segundo apresentador. Procurava-se envolver pastores do interior do es30 Idem. 31 .ELLER, Orlando. Expectativa – Vitória, ES. Mensageiro Luterano, Porto Alegre, n. 8, ano 66, p. 13, ago. 1984.

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tado, que eram convidados a escrever mensagem a apresentar parte do programa. Embora contasse com uma diretoria executiva da Grande Vitória, Expectativa era um projeto abrangente, envolvendo pastores e leigos de todo o Espírito Santo, representados através de um Conselho Administrativo. Havia uma secretária contratada para atender as pessoas que ligavam solicitando materiais, além de outras atividades. Boa parte dos custos de veiculação era coberta por firmas que veiculavam comerciais, antes e depois do programa. O restante era pago por congregações e por contribuições personalizadas mensais, através de carnês. Além do Espírito Santo, havia ofertantes em congregações da Bahia, Minas Gerais e Rio de Janeiro.32 Para divulgar o programa e manter os patrocinadores informados, Expectativa publicava um informativo de periodicidade irregular, o Boletim Câmera E. O informativo também era enviado para todas as pessoas que entravam em contato com o programa. Expectativa oferecia aos ouvintes o curso Encontro com Deus. Há informação de que nos dez primeiros meses de veiculação cerca de mil pessoas fizeram ou estavam fazendo o curso. Para cada ouvinte que entrava em contato havia um registro cadastral, em pastas para cada um dos pastores que atuavam na área de abrangência do sinal da TV Gazeta e que se encontravam mais próximos do endereço do remetente.33

O primeiro ano de existência de Expectativa foi motivo de reportagem de página inteira no Mensageiro Luterano. O texto traz importantes informações adicionais sobre a história do programa e a fase em que se encontrava. Até o momento da redação da matéria, haviam sido produzidos e veiculados 36 programas. O texto diz que a divulgação 32 FIGUR, Nilo. A Palavra na TV inicial envolveu uma “grande moGazeta de Vitória. IN: Lar Cristão vimentação de recursos e pessoas”. 1982. Porto Alegre: Concórdia, ano 33, Foram elaborados e impressos dois p. 80. mil cartazes para lojas, ônibus, etc. 33 Idem.

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Também foram impressos 15 mil folhetos para distribuição massiva. Além disso, foram utilizados dez outdoors em Vitória durante um mês. Congregações e paróquias do Estado foram visitadas para a divulgação do programa e a captação de recursos para a sua manutenção. Houve ampla divulgação através de material enviado para todos os pastores da IELB, além de uso de espaço no Mensageiro Luterano. O lançamento também foi divulgado em eventos, congressos, reuniões de vários segmentos da Igreja. Fevereiro e Março, 2011 | Teologia | 9


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A matéria também informa que o movimento financeiro do primeiro ano havia sido de dois milhões de cruzeiros. Parte do dinheiro foi usado para a aquisição de equipamentos e produtos: estruturação do escritório para atendimento das pessoas que entravam em contato; arquivos de imagens para ilustração (eslaides, cartões, etc.; dez fitas profissionais BCN e dez fitas de videocassete). Além disso, o programa havia recebido doações em equipamentos e em dinheiro como resultado de campanhas de departamentos de mulheres e de jovens. No primeiro ano, Expectativa havia recebido cartas de 80 municípios de quatro estados: Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Bahia. Ao todo, foram feitos cadastros de cerca de 1.400 pessoas que haviam entrado em contato. Até setembro de 1981, haviam sido enviados 1.100 cursos Encontro com Deus, dos quais 500 já haviam sido concluídos. Os nomes de 700 pessoas haviam sido enviados para a Hora Luterana, a fim de realizarem cursos desta organização, dos quais 460 estavam ativos. Também foram enviados 260 cursos infantis. Após o início do programa, a Congregação Redentor chamou um segundo pastor, Elias Eidam. Isso possibilitou que o pastor Nilo pudesse investir mais tempo em produção e divulgação. A matéria do Mensageiro Luterano também informa que estava sendo organizada uma estrutura regional para manter e expandir o programa. Havia o objetivo que cada paróquia da região indicasse uma pessoa leiga para que atuasse como elo de ligação. O texto termina dizendo que os programas já produzidos estavam 10 | Teologia | Fevereiro e Março, 2011

à disposição de outras iniciativas da Igreja, “a fim de levar o evangelho realmente a toda a criatura.” É afirmado que “a TV está à disposição da IELB” e que “as possibilidades são muitas.” Assim, “se estamos convictos de que ‘é tempo de falar’ do amor de Deus, então falemos ao Brasil pela televisão.”34 Em 1º de setembro de 1985, os luteranos do Espírito Santo realizaram uma grande concentração para celebrar os cinco anos de existência de Expectativa. Estiveram reunidas cerca de 1.200 pessoas no ginásio esportivo do SESC, em Vitória. 34 UM ano de Expectativa. Op. cit., p. 27. O primeiro aniversário foi celebrado em um auditório de Vitória no dia 7 de setembro.

Além de uma celebração religiosa, houve uma série de apresentações culturais. O pregador do culto foi o pastor Nilo, idealizador do programa e então ocupando a função de Secretário Executivo do Departamento de Comunicação da IELB, em Porto Alegre.35 Segundo Assmann, Vitória era o centro mais bem equipado para a geração de programas36. Não é sem razão, portanto, que Expectativa despertou a o interesse de pastores e líderes de outras regiões do Brasil e 35 EXPECTATIVA: 5 anos de TV. Mensageiro Luterano. Porto Alegre, n. 11, ano 68, p. 30, nov. 1985. 36 ASSMANN, Hugo. A Igreja Eletrônica e seu impacto na América Latina. Petrópolis: Vozes, 1986, p 123.


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teve pouca duração, já que há registros de uma nova fase, iniciada em 1º de outubro de 1983.38 Inicialmente, a veiculação era aos sábados, às 14h30min – um horário considerado “não muito feliz”.39 O Distrito Cataratas almejava investir em um programa de televisão. Todavia, os altos custos não permitiam. Resolveu-se usar um programa pronto — e o escolhido foi o Expectativa de Vitória, tanto na primeira como na segunda fase. Assim, o programa vinha de Vitória e partes de interesse regional eram regravadas por pastores do Distrito. Ao que tudo indica, na primeira fase a apresentação local era feita somente pelo pastor Marcos Weçolowis, enquanto que na segunda participavam das gravações os pastores Nivaldo Schneider, José Eraldo Schulz e Nikolai Neumann. A manutenção era feita por contribuições mensais voluntárias e por patrocinadores. Na segunda fase, houve uma mobilização regional no sentido de juntar os recursos necespassou a ser retransmitido em duas sários para a veiculação regular. outras cidades, além de servir de 5. Expectativa (Londrina) base para uma terceira.37 A implantação do programa Ex4. Expectativa (Cascavel) pectativa em Londrina (Distrito PaPor iniciativa do Distrito Cataratas da IELB, o programa Ex- 38 BUSS, op. cit., p. 251. A informação está correta. Foi possível localizar uma pectativa de Vitória começou a ser informação da reda-ção do anuário Lar retransmitido em Cascavel, PR, em Cristão de 1982 de que “de momento o programa está fora do ar.” HEIMANN, 8 de novembro de 1980, na TV TaLeopoldo (ed.) Lar Cristão 1982. robá, retransmissora da TV BandeiPorto Alegre: Concórdia, ano 33, p. 85, rantes. Segundo Buss, esta primeira 1982. Na primeira fase, a coordenação geral era do pastor Marcos Weçolovis. fase do programa aparentemente 37 Também há informação de que o Distrito Mineiro da IELB estava pensando em retransmitir o Expectativa de Vitória na TV Globo de Belo Horizonte, MG. Não foi possível encontrar registro de que isto aconteceu. CONSELHOS Distritais. Mensageiro Luterano. Porto Alegre, n. 3, ano 64, mar. 1981, p. 32.

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raná Norte da IELB) foi fomentada e apoiada pelo Distrito Cataratas, mantenedor do mesmo programa em Cascavel. Por isso, os programas eram os mesmos, com divulgação de ambos os endereços locais para contatos.40 O assunto foi oficialmente discutido em reunião do Conselho Distrital realizada em 18 de março de 1984, em Mandaguari, PR. Foi nomeada uma comissão para iniciar as tratativas com duas emissoras de televisão. Os resultados dos trabalhos foram apresentados em reunião extraordinária do Conselho, realizada no dia 1 de abril, em Fênix, PR. Resolveu-se que o programa seria transmitido na TV Tropical de Londrina, PR. Foi feito um contrato de seis meses com a emissora. O primeiro programa foi ao ar em 5 de maio de 1984, às 9h. Além de dois patrocinadores, membros da IELB, o programa era mantido com ofertas de membros das congregações do Distrito pelo sistema de carnês. A coordenação do projeto estava a cargo de uma Diretoria Executiva.

6. Expectativa (Dourados)

Motivados pelas experiências de outros distritos da IELB, os membros do Distrito Mato Grosso Sul da IELB entenderam que era preciso ousar e investir na divulgação da Igreja através da televisão. Surgiu então a versão Expectativa de Dourados, MS. A espinha dorsal do programa era do Expectativa de Vi39 HEIMANN, Proclamando Cristo tória, no qual inspirou-se também do alto dos telhados, op. cit., p. 11. Na segunda fase, o pro-grama ia ao ar às 12h de sábado, o que era considerado “um horário bom”. NEUMANN, Nikolai. Expectativa – Cascavel, PR. Mensageiro Luterano, Porto Alegre, n. 8, ano 66, p.15, ago. 1984.

40 Existe informação de que o Distrito estava trabalhando no sentido de produzir o programa em Lon-drina. FACK, Martinho. Expectativa – Londrina, PR. Mensageiro Luterano, Porto Alegre, n. 8, ano 66, p. 18, ago. 1984. Fevereiro e Março, 2011 | Teologia | 11


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para o nome. Os programas tinham a duração de 10 minutos e iam ao ar todos os domingos às 10h50min pela TV Caiuás, retransmissora da Rede Bandeirante. O coordenador de produção era o pastor Vilson Regina. Ele escrevia as mensagens, mas eventualmente também tinha a colaboração dos pastores Valdir Feller, Rubem Rieger e Martim Krebs. Havia um revezamento na apresentação dos programas, geralmente com a presença de dois pastores. Os recursos vinham de contribuições distritais, especialmente de membros da congregação de Naviraí, MS. O programa foi ar ininterruptamente durante um ano e quatro meses, entre os anos de 1985 e 1986.41

Distrito Porto-Alegrense da IELB, a partir da oferta de um espaço oferecido pela TV Gaúcha (hoje RBS TV). De acordo com Buss, o primeiro produtor e apresentador foi o pastor Paulo K. Jung. Mais tarde, Jung foi substituído, sucessivamente, pelos pastores Galdino Schneider e Gerhard Grasel.42 O programa ia ao ar sempre às sextas-feiras pela amanhã, na abertura da emissora. Tinha três minutos, caracterizados por uma mensagem de cunho espiritual. Como tinha um caráter institucional da TV Gaúcha, não havia custos de produção e veiculação para a IELB. Segundo Buss, o programa “tinha um longo alcance, visto ser transmitido através das 7. Fé e Esperança dez emissoras afiliadas à TV GaúEm 1982, foi lançado o progra- cha, localizadas em todo o estado ma Fé e Esperança em Porto Alegre, do Rio Grande do Sul e em Santa RS. Tratava-se de uma iniciativa do Catarina.”43 41 REGINA, op. cit. Todas as informações sobre o programa Expectativa de Dourados foram forneci-das por e-mail pelo pastor Regina. 12 | Teologia | Fevereiro e Março, 2011

8. Encontro 42 BUSS, op. cit., p.252. 43 Idem.

De acordo com o pastor Martinho Sonntag, o programa Encontro surgiu a partir de uma reflexão do pastor e líderes da Congregação Concórdia de Florianópolis, SC, sobre a importância, necessidade e urgência de evangelizar de levar a mensagem da salvação a pessoas que não eram atingidas com o trabalho regular da Congregação. “Foi em meados de 1981 que explanei a possibilidade de se iniciar um programa de TV para cumprir com esta missão. Fizera antes disto consultas às emissoras locais sobre a aceitação de um programa, custos, etc. Diante da aprovação do projeto pela Congregação, decidimos levar a idéia ao Distrito Santa Catarina Leste.”44 O Distrito encampou a idéia autorizou o pastor a fazer o contrato com uma emissora e assumir a gerência e produção do programa. O programa Encontro chegou a ser, na IELB, o de maior duração: 30 minutos. A primeira edição aconteceu em 4 de junho de 1983, na TV Cultura. Tinha a duração de 15 minutos. Um ano depois, a TV Barriga Verde, hoje retransmissora da Bandeirantes, fez um convite para veicular o programa. O pastor Martinho explica: “Ofereceram 30 minutos semanais com o mesmo preço dos 15 minutos da Cultura. Não perdemos a oportunidade. Ao nos convidarem, alegaram a qualidade e a boa audiência do Encontro.”45 O programa ia ao ar nos sábados, em torno das 10 horas. O programa era produzido e apresentado por uma equipe nomeada pela congregação de Florianópolis, sob a coordenação de Sonn44 SONNTAG, Martinho. Pesquisa. [mensagem pessoal]. Mensagem recebida por editor@editora-concordia. com.br em 17 nov. 2006. 45 Idem.


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tag. O orçamento era mantido pelas congregações do Distrito Santa Catarina Leste e por três firmas comerciais de luteranos.46 Encontro foi o que teve o conteúdo mais variado dentre os programas da IELB. Além da abertura (manchetes), tinha seis blocos distintos, cada um com vinheta própria: - Encontro Infantil. Tinha uma história em linguagem infantil com aplicação à vida da criança. Era apresentado por uma jovem. - Encontro Estudantil. Abordava questões relacionadas com a vida dos jovens estudantes. Era apresentado por dois jovens. - Encontro Perguntas e Respostas. Apresentava respostas bíblicas para perguntas enviadas por telespectadores através de cartas e telefonemas. Era apresentado por uma jovem e um pastor. - Encontro Pensamentos. Trazia pensamentos de autores diversos e textos bíblicos sobre o tema geral do dia. Era apresentado por uma jovem. - Encontro Comunicação. Tinha notícias, informava sobre literatura cristã e oferecia cursos bíblicos, anunciava locais e horários de cultos no Distrito, programações especiais, endereço do programa. Era apresentado por diferentes jovens. - Encontro Mensagem. Trazia uma mensagem sobre o tema do dia. Era apresentado por um pastor.47 Também participavam eventualmente pastores do Distrito e pastores visitantes, com mensagens e entrevistas. As externas eram feitas com autoridades e pessoas em geral.

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Cada programa tinha um tema geral. Procurava-se “dialogar” com o telespectador da região. “Procuramos detectar os problemas que afligem o povo da região, suas angústias, dúvidas, necessidades. A satisfação das necessidades do povo faz com ele se interesse pela Palavra e com que venha a sintonizar novamente.”48 Esta interatividade também passava por concursos de redação sobre determinado tema e/

ou tarefas relacionadas com a Bíblia, cujos vencedores eram premiados.’ O programa tinha um arquivo de mais de 100 videoclipes com corais e cantos diversos (Coral do Seminário Concórdia, Grupo Kyrie, Coral de Florianópolis, Coral de Crianças Raios do Sol e solos de Eliana Sabka).49 Segundo o pastor Sonntag, a audiência era considerada boa e o programa tinha boa aceitação. Car-

48 Idem.

49 SONNTAG, op. cit.

46 BUSS, op. cit., p. 252. 47 EQUIPE ENCONTRO. Encontro – Florianópolis, SC. Mensageiro Luterano, n. 8, ano 66, p. 16, ago. 1984. Fevereiro e Março, 2011 | Teologia | 13


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tas e muitos telefonemas eram recebidos de diversas cidades do estado. “Lembro de um artigo, escrito por um colunista do Jornal de Santa Catarina, que analisava os programas de TV em Santa Catarina. Diz: ‘Finalmente apareceu um bom programa religioso na TV.’”50 Alegando motivos financeiros, o programa deixou de ir ao ar em meados de 1985.

9. Toque de Vida O programa Toque de Vida é o único veiculado regularmente hoje na IELB. Ele surgiu junto com a Ulbra TV, da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), em novembro de 2004. Na época, reitor da Ulbra, Rubem Becker, orientou a equipe da TV a procurar a Pastoral Universitária da Universidade para que juntos começassem a produzir um programa que mostrasse a identidade confessional da emissora. O primeiro nome foi Vida e caminhos. É veiculado diariamente às 8h e reprisado à noite, às 24h. O programa possui quatro partes distintas, distribuídas em 6 minutos: abertura, mensagem, clipe musical e encerramento. É produzido e apresentado pelo pastor Lucas Albrecht, que trabalha na Pastoral Universitária. São utilizados equipamentos do Centro de Produção Audiovisual da Ulbra (CPA) e da Ulbra TV. A edição e finalização é feita na emissora TV. A abertura e mensagem são gravados no campus de Canoas, RS, e o encerramento no estúdio em Porto Alegre. Os custos de produção e veiculação são absorvidos pela Ulbra. A linguagem do programa não foi desenvolvida para quem já tem 50 Idem. 14 | Teologia | Fevereiro e Março, 2011

vínculos com alguma denominação religiosa, mas para tentar comunicar-se com quem ainda não tem, ou nem conhece o Evangelho. Em fevereiro de 2007 foi feita uma avaliação criteriosa de toda a programação da Ulbra TV. Toque de Vida ficou em segundo lugar geral e em primeiro lugar na categoria “inter-programas”.51

Conclusão Deus é comunicação. Foi assim na criação, na Aliança, na encarnação de Cristo para efetuar a obra redentora – também repleta de comunicação. Tendo como motivação única o seu amor, Deus procurou e procura entrar em contato, em comunhão, em comunicação com a sua criatura. O anúncio do Evangelho é essencialmente uma função de comunicação. Depositários da comunicação de Deus, os cristãos levam adiante, para outros seres humanos, o grande momento da comunicação de Deus: a obra redentora de Jesus Cristo – ou seja, o Evangelho, a Boa Notícia. Um dos veículos para esta atividade é a televisão. Por causa de suas potencialidades de comunicação massiva, ela é um tremendo desafio para as denominações religiosas cristãs, particularmente a IELB, cumprirem a sua tarefa de canal comunicador de Deus. Várias denominações religiosas têm se dado conta da importância de investir na televisão, especialmente a partir da década de 1990. 51 Todas as informações sobre o programa foram fornecidas por:ALBRECHT, Lucas. Informações. [mensagem pessoal]. Mensagem recebida por editora@ editoraconcordia.com.br em 29 mar. 2007.

Elas vêm aumentando o tempo de veiculação, montando emissoras e formando redes de longo alcance. A IELB fez história no uso da televisão como veículo para anunciar o Evangelho. Ela percebeu cedo o potencial da televisão como canal de evangelização. Apesar de somente conseguir usar o veículo a partir da segunda metade da década de 1970, quando o processo foi iniciado teve um grande crescimento em poucos anos, chegando a ocupar um espaço semanal significativo. Pelo que foi possível levantar nesta pesquisa, neste período nenhuma outra denominação religiosa cristã brasileira chegou a ter tantos programas neste formato.Hoje, a Igreja parece estar na contramão da história. Desde a segunda metade da década de 1980, ela não tem mais investimento significativo na TV. Rev. Dieter Joel Jagnow é jornalista e pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil em Ribeirão Preto-SP, além de participar da equipe editorial da Revista.Teologia.


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Rev. Ernani Kufeld

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Estrategias para que a

Igreja cump Dedicatória Dedico este Colóquio Teológico Pastoral ao Deus Triuno, que me deu a vida e a mantém. À minha família que sempre esteve ao meu lado e que em todos os momentos me apoiou e incentivou. À todos os meus amigos que de alguma maneira me apoiaram e deram força nestes cinco anos e meio de estudos teológicos. À minha namorada Fabrícia, pessoa especial em minha vida.

Gratidão Agradeço ao meu Deus por mais esta etapa na vida. Ao professor orientador Prof. Dr. Leopoldo Heimann pela orientação e dedicação e a todos os professores do Seminário Concórdia que participaram da minha formação tornando possível este momento.

Introdução

Saber

para onde se vai e, principalmente, aonde se quer chegar, sempre foi e continuará sendo decisivo e importante na vida de qualquer pessoa ou instituição. Desta forma, com a igreja também não é diferente. Fiz meu estágio em Teologia na congregação “Cristo rei” de Tailândia, Estado do Pará. Reuniam-se, dominicalmente, de 20 a 50 pessoas; e tínhamos, assim, uma congregação ainda em fase de formação. Percebi ali, o quanto era difícil, mas ao mesmo tempo gratificante, levar as palavras do amor e do perdão que Deus oferece à pessoas que ainda não o conhecem. Mas, como envolver as pessoas da congregação para que, sem que

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e os demais foram para as suas casas, surpreendentemente, ele me disse que ouviu alí, na escada da igreja, o que nunca tinha ouvido antes. Que gostava de estar em nosso meio, da forma como nos tratávamos e queria saber mais sobre o que nós cremos. Apresentei-lhe então o evangelho de Cristo, a base de nossa fé e, assim, lhe mostrei qual era a nossa real finalidade como igreja. Deus o acrescentou ao grupo e hoje ele inspira este Colóquio Teológico Pastoral: O uso de eventos de ordem social e recreativa nas congregações, servindo como estratégia para o cumprimento da finalidade maior da igreja, composto de dois capítulos que procuram mostrar de forma concisa a finalidade da igreja e apontar para a comunhão e convívio social, como uma oportunidade missionária que temos em nossas mãos. Desta forma, de propósito, o primeiro capítulo trata da finalidade; para que sabendo aonde quer chegar, a igreja também trabalhe em amizade e comunhão convidando e trazendo mais pessoas ao reino de Deus.

elas precisem sair a campo, desenvolvam juntamente com o pastor a tarefa de falar e testemunhar de Cristo para o bairro e a sociedade de um modo geral? E a resposta veio: pessoas foram acrescentadas por Deus ao grupo de jovens e à congregação que ali existe. Convidei um jovem do bairro para jogar futebol conosco no domingo à tarde. Como ele gostava da brincadeira, não resistiu e veio. Quando paramos o jogo e entramos na igreja para o momento devocional, ele preferiu ficar de fora, espe1. A Finalidade maior rando o reinício do jogo. E assim foi um mês, semana após semana. Ele da Igreja fez amizade com as pessoas da igreja Estabelecer finalidades, objetie, até que um dia, ficou sentado na vos e metas é importante para qualescada, ouvindo o breve estudo bíquer organização. Por isso, faz-se blico. necessário também, que igualmenQuando terminamos o encontro


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pra a missão te, a igreja tenha sempre bem claro, diante de si, qual é a razão de sua existência e sua finalidade, afim de que saiba para onde ela caminha e aonde ela de fato quer chegar. Entenda-se, assim, que estabelecendo qual é a grande finalidade da igreja como um todo, teremos conseqüentemente diante de nós a finalidade de cada congregação local e de cada indivíduo que faz parte dela ou a compõe; conforme expresso pelos confessores do século XVI no artigo VII da Confissão de Augsburgo: “...uma única santa igreja, que é a congregação dos crentes.”1 Ora, se a igreja é a congregação dos crentes, a finalidade da igreja passa a ser automaticamente também a de cada crente que a compõe.

1.1. A finalidade maior da igreja é buscar e salvar o perdido Se Deus mantém os seus filhos, crentes em Cristo como seu Salvador, aqui neste mundo, é porque provavelmente ele tem algo para que eles façam ou desempenhem aqui por ele, ou para ele. E qual é esta finalidade? Uma resposta óbvia e certeira é: para que estes levem o seu evangelho adiante!2 Esta tem sido também, a grande preocupação, ou ao menos 1 2

deveria ser, da igreja cristã: levar o evangelho de Deus, não somente a muitas pessoas, mas a todas as pessoas; até os confins da terra. Tem-se acima uma bela resposta, porém, talvez apenas parcial quanto ao foco da missão a ser desempenhada ou finalidade a ser atingida, pela igreja de Cristo. Para se entender a finalidade da igreja de uma forma melhor, é preciso refletir sobre a missão ou finalidade primeira que Cristo se propôs a cumprir, ao vir ao mundo em forma de um ser humano; uma vez que “toda a missão de Deus para com as pessoas se centraliza a partir de Cristo”3. Toda a missão na verdade é de Deus. Ele mesmo deixou isto bem claro já em Gn 3.15, quando prometeu que ele mesmo enviaria o Salvador. Neste sentido, Vicedom, destaca o seguinte: “Pois o atuante sempre é o próprio Deus triuno, que incorpora os seus crentes em seu reino.

Livro de Concórdia.1997, p. 31. Conforme o mandado de Jesus em Mt 28. 3 CTCR. 1991, p. 13.

Também a igreja é um instrumento nas mãos de Deus”4. Mas, embora a missão propriamente dita seja de Deus, e os crentes apenas instrumentos em suas mãos, isto não significa, que foi tirada, dos ombros da igreja, a responsabilidade de levar a mensagem de Cristo para todos. Toma-se por base aqui, que a igreja e, portanto cada crente, é um instrumento nas mãos de Deus, assim como foi Davi, Elias, Moisés, 4

VICEDOM. 1996, p. 15.

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Paulo e tantos outros. E existe algo de interessante nisto tudo. Embora Deus pudesse obrigar os cristãos a fazer o que ele quer, ou mesmo fazer o que ele deseja sem a sua ajuda, normalmente ele não costuma agir assim. Isto aumenta ainda mais a responsabilidade destes em relação à missão de Deus, de modo que se os crentes não a fizerem, ficará sem ser feita. Por exemplo: se Davi não tivesse lutado contra Golias, Golias provavelmente não teria sido vencido, embora Deus pudesse fazê-lo sem Davi. Se Elias não tivesse desafiado os profetas de baal e preparado o altar que o Senhor consumiu com fogo, estes provavelmente não teriam sido vencidos naquela oportunidade, embora Deus pudesse vencê-los sem Elias. O fato é que Deus escolhe e também capacita para a tarefa proposta, como fizera com Davi, com Elias e tantos outros. Cabe aos crentes, portanto, servir como instrumentos nas mãos de Deus e não como empecilhos no caminho da missão de Deus. Mas, volte-se aqui à missão que Jesus veio desempenhar aqui neste mundo; uma vez que não se pode desligar a missão dos crentes da missão de Jesus, como se passará a ver daqui a diante. A Escritura Sagrada está cheia de passagens que falam da tarefa de Jesus, das quais se podem destacar as palavras do próprio Jesus em Lucas 5.32 “Eu não vim para chamar os bons, mas para chamar os pecadores”, ou ainda, as palavras de Paulo ao jovem Timóteo: “Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores” (1Tm 1.15). E talvez a passagem mais bonita e que melhor retrate a missão de Jesus, sejam as suas palavras em Lucas 19.10: “Porque o fi20 | Teologia | Fevereiro e Março, 2011

lho do Homem veio para buscar e salvar quem está perdido”. Encontra-se assim nas palavras do próprio Cristo o motivo de sua vinda ao mundo: Buscar e salvar quem está perdido. Toda trajetória de Jesus, portanto, encaminha-se a fim de tornar isto possível, desde a sua encarnação até a cruz do Calvário. Depois disto, Jesus deixou aos seus discípulos a seguinte instrução: “E sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém, em toda Judéia e Samaria e até os lugares mais distantes da terra” At 1.8. Sobre estas palavras de Jesus, lê-se no manual de Evangelização da IELB: Os discípulos, agora já apóstolos (enviados), foram encarregados pelo Senhor Jesus de continuar o seu ministério de

Pregação, evangelizando assim o mundo.5 Propõe-se aqui, que a tarefa dos discípulos de Jesus (e isto inclui todos os cristãos), poderia ser descrita com as mesmas palavras que Jesus descreveu a sua missão; uma vez que os discípulos foram encarregados de continuar a missão de Jesus. Isto pode parecer forte e até soar estranho num primeiro momento, mas avalie-se a situação mais de perto. Paulo Flor6, por exemplo, escreve que “uma das recomendações mais sublimes que o Salvador Jesus nos transmitiu antes de seu sacrifício na cruz achamos registrada no EvangeManual de Evangelização. 2000, p. 09. 6 FLOR. S.d.,p. 06. 5


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tido, quem entrega a salvação, também salva, como o que atira a bóia para alguém que está se afogando no meio de um rio. A igreja Cristã não está neste mundo para permanecer na passividade. O fato de ser Deus quem chama, congrega, ilumina e santifica a igreja, não quer dizer que a igreja não faz nada. Esta premissa significa, isto sim, que a igreja não faz o que ela quer ou o que ela bem entende, mas que a igreja está neste mundo para fazer a obra de Deus e para servir de instrumento nas mãos de Deus para a salvação deste mundo.7

lho de São João 13:34: “Novo mandamento voz dou, que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei.” Tem-se assim já uma evidência de que Jesus estendeu parte de sua missão também aos seus seguidores. O que motivou Jesus a vir para buscar e salvar quem está perdido foi o amor que Deus tem pelos seres humanos, e Jesus estende esta motivação a seus seguidores dizendo: amem também, como eu tenho amado vocês. E esta, com certeza, não é uma tarefa fácil que a igreja tem diante de si, mas necessária e urgente a ser feita. Mas, as evidências da extensão da missão de Jesus aos seus seguidores não param por aí. Sugere-se ainda que a passagem de maior relevância é Jo 20:21. Depois de ter cumprido

o plano da Salvação, estabelecido por Deus, o Pai, Jesus olha para seus discípulos e diz: “assim como o Pai me enviou eu também envio vocês”. Ora, está claro que o Pai enviou Jesus com a missão de salvar os seres humanos, perdidos e condenados por causa de seus pecados. Se Jesus envia os seus discípulos assim como o Pai o enviou, então Jesus também os envia para salvar pessoas. Chega-se assim a um ponto interessante. Tanto Jesus quanto os seus seguidores tem como finalidade, salvar pessoas do castigo eterno. Como isto se torna possível? É claro que os seguidores de Jesus não desempenham a mesma função neste processo. À medida que alguém se torna um mensageiro de Deus, torna-se um entregador de Salvação para as pessoas. Neste sen-

Desta maneira, os cristãos passam a serem vistos ao mesmo tempo como objetos da salvação oferecida por Deus, e agentes, instrumentos nas mãos de Deus - entregadores desta salvação; o que também os torna em salvadores de perdidos. Lemos no Manual de Evangelização da IELB: Sendo vasos de barro, portadores do tesouro do evangelho, os cristãos farão o máximo para não colocar obstáculos a ninguém, e farão o que estiver a seu alcance para demonstrar o poder transformador do evangelho. O desejo dos cristãos é que todos possam se alegrar com esta maravilhosa bênção.8 Estando claro que a finalidade dos seguidores de Jesus também é buscar e salvar o perdido; e que assim farão o máximo para não colocar obstáculos a ninguém, fica claro que estes então deveriam usar todos 7 8

SEIBERT. 1988, p. 25. Manual de Evangelização. 2000, p. 14.

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os meios a seu alcance para que buscar e salvar o perdido se torne possível. Desta forma, entra em cena aqui aquilo que costumeiramente é chamado de as cinco áreas de ação da igreja. E cabe talvez, antes de qualquer coisa, atentar para um detalhe: por vezes manter as cinco áreas de ação da igreja, que são: adoração, comunhão, educação, serviço e testemunho, em constante funcionamento é confundido ou visto como a finalidade da igreja. O que se propõe aqui nem sempre é o que por vezes ocorre. Mas, entendamos o porque disto. Estabelecido que a finalidade ou missão da igreja é buscar e salvar o perdido considere-se assim que, as cinco áreas acima citadas, devem ser vistas como objetivos e funções que a igreja vai procurar desempenhar, para em última análise, cumprir com a sua finalidade real. Desta forma, pode-se dizer sim, que indiscutivelmente é função e objetivo da igreja de Cristo adorar, educar, servir, testemunhar e manter e exercitar a comunhão. É preciso, porém, que se cuide, para que as funções e os objetivos não se transformem na finalidade da igreja. Isto seria trágico, uma vez que surgiria, assim, uma igreja quase que voltada para si mesma; que trabalha para si mesma, ensina para si mesma e assim por diante. Há, é claro, quem possa argumentar que isto não é bem assim. Mas sabendo que a pratica reflete aquilo que pensamos e ensinamos; é preciso ter cuidado. A igreja possui cinco objetivos em torno dos quais está organizada toda a sua ação: adoração, comunhão, educação 22 | Teologia | Fevereiro e Março, 2011

serviço e testemunho.9 Toda vez que estes objetivos se transformarem em finalidade, a igreja provavelmente terá problemas, pois terá perdido o seu rumo e o seu alvo; andará em círculos, voltada somente para si.

1.2 Os objetivos e funções da igreja Uma vez estabelecida a finalidade última da igreja, como sendo buscar e salvar quem está perdido, convém que analisemos, mesmo que brevemente os objetivos e as funções que a igreja precisa desempenhar, a fim de que fato seja um instrumento nas mãos de Deus, o autor e propulsor da missão. O teólogo brasileiro, Erní Seibert, escreve o seguinte sobre a missão da igreja e sua relação com estas cinco funções ou objetivos: Pode-se comparar o objetivo da igreja com um diamante lapidado com cinco faces. Cada uma destas faces enfatiza um aspecto diferente da mesma missão que Deus confere a sua igreja.10

função da igreja de Cristo Esta é uma das funções primárias da igreja senão a primeira. Adorar a Deus faz parte do ser povo de Deus. Através da adoração, a igreja “ama, honra, respeita e aclama ao seu Deus”.11 Pode-se dizer ainda, que a igreja ou o cristão adora a Deus, porque recebe infinitas bênçãos de Suas mãos e, acima de tudo, o perdão. Isto o motiva a Louvar a Deus. Louva e adora porque experimentou que é bom ser cristão. Neste sentido, Warren, Teólogo americano, escreve o seguinte: Não podemos adorar a Deus como se fosse uma obrigação, devemos adorá-lo porque queremos. Devemos nos alegrar em expressar o nosso amor a Deus.12 Assim sendo, se a adoração não é uma obrigação e sim uma conseqüência de causa e efeito diante do amor de Deus, também o cumprir a missão e procurar alcançar a finalidade de buscar e salvar o perdido não o será uma obrigação e sim, um privilégio. Isto porque a adoração está intimamente ligada com o

Dentro desta perspectiva, podemos dizer então que para que o alvo da igreja seja alcançado, todas as cinco funções da igreja precisam es- 11 SEIBERT. 1988, p. 28. tar em pleno funcionamento, e não, 12 WARREN. 1998, p. 127. de forma que se tornem as finalidades da igreja, mas, de forma que ajudem a mesma a alcançar o seu alvo de cumprir com a tarefa que Jesus deixou: Buscar e salvar o perdido.

1.2.1 Adorar é objetivo e Revista Cristo para todos. 1994, p. 08. 10 SEIBERT. 1988, p. 28. 9


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culto; e segundo Seibert13 , “O culto e a missão não devem andar separados.” Não se quer entrar em detalhes quanto ao culto, mas julga-se oportuno dizer aqui que, em ultima análise, o culto também serve para buscar e salvar o perdido. Enquanto os crentes adoram ao seu Deus, Deus também os serve perdoando-lhes os pecados e fortalecendo-lhes a fé. Assim, no culto, Deus sustenta e mantém aquele que já foi buscado e salvo, afim de que, não torne a se perder. Isto sem contar que ele sairá dali, animado a buscar e salvar outros perdidos; tornando assim, a sua vida como um constante culto de adoração, à medida em que procurará viver de acordo com a palavra de Deus. Ora, se abastecido pela palavra de Deus durante a adoração dominical, procurar viver de acordo com a palavra de Deus, conseqüentemente suas palavras e seus atos estarão voltados para cumprir, na vida diária, com os propósitos de Deus: buscar e salvar o perdido. Assim, adoração é uma função e

13 SEIBERT.1988, p. 28.

um objetivo do povo de Deus, que contribui para cumprir a missão proposta por Deus e deixada por Jesus aos seus discípulos.

1.2.2 Ensinar é objetivo e função da igreja de Cristo Educar é uma função e objetivo constante da igreja, e ela precisa ensinar tanto os neófitos quanto as pessoas já pertencentes à igreja há mais tempo. Também a educação (didaskalia), compreende a ação missionária da igreja de buscar e salvar o perdido. Através da educação os crentes também são fortalecidos, a fim de que, através do conhecimento da palavra de Deus sejam animados e equipados para o desempenho de suas funções, tarefas e finalidade. O próprio Jesus aponta, em Mateus 28, o ensinar os discípulos como uma função da igreja; quando ele diz, “ensinando-os a obedecer a tudo o que tenho ordenado a vocês”. É claro que isto também se inclui no “assim como o Pai me enviou eu também os envio”. Além disso, uma das tarefas realizadas por Jesus foi ensinar os discípulos, e assim ele mesmo nos deu um belo exemplo de que o ensino é necessário. Sobre o ensino, Warren14 diz que “como igreja, não somos somente chamados para alcançar as pessoas, mas também para ensiná-las”. E também o apostolo Paulo nos explica o por que desta necessidade, dizendo: “Desse modo todos nós chegaremos a ser um na nossa fé e no nosso conhecimento do filho de Deus. E assim seremos pessoas maduras e alcançaremos a altura espiritual de Cristo. 14 WARREN. 1998, p. 131.

Então não seremos mais como crianças, arrastados pelas ondas e empurrados por qualquer vento de ensinamentos de pessoas falsas”.15 Assim, é função e objetivo da igreja ensinar, a fim de que seus crentes conheçam a verdadeira doutrina cristã, e desta forma, se mantenham firmes, para que não tornem a estar perdidos por meio de falsos ensinamentos. Sendo ensinados e estando firmes na doutrina, também estarão equipados para cumprir a finalidade principal da igreja, deixada por Jesus: Buscar e salvar quem está perdido.

1.2.3 Testemunhar é objetivo e função da igreja de Cristo Testemunhar a sua fé também é um objetivo e uma das funções da igreja, e por sinal uma função muito importante. Já os primeiros cristãos testemunhavam a sua fé. Güths, teólogo luterano, escreve que “com entusiasmo os primeiros cristãos expunham a mensagem e diziam: “eu também sou um deles”16. E esta função é a que provavelmente deixa transparecer de forma mais ampla a sua intima ligação com a finalidade de buscar e salvar o perdido. Como já dito acima, quando a igreja deixa de querer buscar e salvar o perdido, deixa de ser igreja. E a respeito desta função, Seibert escreve o seguinte: É através desta atividade que se manifesta com mais clareza, o propósito de Deus em salvar o mundo. Quando a igreja não se envolve na evangelização, 15 Ef 4.13-14a. 16 GÜTHS. 1990, p. 09. Fevereiro e Março, 2011 | Teologia | 23


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nega o que lhe é mais próprio.17 Estas palavras por si só já nos mostram o quanto esta função é importante para a igreja de Cristo. Aliás, testemunhar a fé, tem uma intima ligação com missão, ou ainda, pode-se dizer que testemunho é missão. O testemunho, portanto, vai muito além de recitar um dos credos no culto público. O testemunho não pode ser para si mesmo, ter um fim em si próprio ou apenas fazer parte de um rito. Testemunhar tem relação com, mas é mais amplo que, confessar a fé, e, portanto, testemunhando, a igreja sempre testemunhará para fora de seu âmbito, para o perdido, afim de buscá-lo e salvá-lo.

1.2.4 Servir é função da igreja de Cristo 17 SEIBERT. 2000, p. 38.

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Receber o amor de Deus, falar deste amor e não praticá-lo não condiz com a realidade do ser cristão; e, todo o serviço inclui as maneiras como o cristão responde as necessidades das pessoas; uma vez que, “sendo Deus misericordioso para conosco, aprendemos a ter misericórdia com nossos irmãos.”18 Na revista Cristo para todos19, define-se o serviço como a “ação missionária da igreja, na qual os cristãos procuram servir a Deus, particularmente atendendo os irmãos necessitados”. Desta forma, sendo o serviço em última análise um serviço à Deus, também este não pode terminar em si. A igreja não deve apenas servir a si. O serviço precisa também sair das paredes e do pátio do templo, e ser feito também em relação aos de fora. Assim, também o serviço é uma função e um objetivo que a igreja não pode deixar de desempenhar, e

que acima de tudo, precisa ter como finalidade buscar e salvar o perdido, da mesma forma como Jesus o fazia. Não se quer com isto dizer que os serviços de ação social devem ser feitos sempre com o objetivo de ganhar as pessoas para a igreja, comprando-as com algum mimo ou mesmo necessidade suprida; mas, quer-se dizer que não se deve tornar a igreja uma mera instituição social, não governamental. É preciso ter em mente que acima de procurar o bem estar físico das pessoas, Deus deixou para a igreja a missão de salvá-las do terrível castigo eterno que as aguarda longe de Cristo. Por isso, também é objetivo e função da igreja servir; e também o serviço (diakonia) precisa servir à igreja para alcançar o alvo: buscar e salvar o perdido.

18 BONHOEFFER. 2003, p. 15. 19 1994, p. 14.

Da prática da comunhão pode-se dizer, inicialmente que se trata da relação dos cristãos com Deus e de uns com os outros. Para que haja uma boa comunhão dos irmãos, uns com os outros, é indispensável que haja antes a comunhão com Deus; uma vez que é esta comunhão que impulsiona a comunhão de uns com os outros. A grande pergunta agora é: como a comunhão pode servir para buscar e salvar o perdido? A resposta com certeza não é fácil, no entanto, serão sugeridos, no próximo capítulo, alguns aspectos e algumas sugestões de como a igreja pode se organizar, em suas atividades comunitárias, a fim de que ela possa procurar melhor cumprir com a missão a ela deixada por Jesus.

1.2.5 Exercitar a comunhão é função da igreja de Cristo


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2. As atividades sociais comunitárias com vistas à finalidade da Igreja Até aqui, procurou-se definir a finalidade para a qual Deus criou e mantém a igreja na terra; a fim de que não hajam mal entendidos sobre o rumo que a igreja deva seguir, e assim, não haja uma perda de identidade da mesma. Isto explica, o por que do primeiro capítulo ser até um pouco mais extenso que este. Deste modo é preciso lembrar que a igreja está sempre, em tudo aquilo que faz, a serviço de Deus20. Sobre a vida prática da igreja, Kunstmann, teólogo luterano, mantém a seguinte posição: Cada agremiação de homens é fundada com determinadas finalidades, como sejam, diversões, cultura, prática de esportes e de música, etc... A finalidade dá a cada associação o seu caráter particular. Mudando, porém, de finalidade, também o caráter muda, e a entidade deixa de ser o que é.21 Pensando nisto, neste segundo capítulo, irá se propor a prática da comunhão entre os membros da igreja sob dois aspectos22, como sendo também um objetivo e uma função da igreja que poderá auxiliá-la, de forma prática, a incluir novos indivíduos no grupo, e por conseqüência, atingir a sua finalidade. O desafio da igreja é realizar isto sem mudar o seu caráter; de modo 20 SEIBERT. 1988, p. 26. 21 KUNSTMANN. 1946, p. 67. 22 Estes aspectos serão tratados em

que, desempenhe esta função, a saber, o exercício da comunhão também através das atividades recreativas e comunitárias, sem que estas se tornem a finalidade, mas sirvam, como um instrumento que a auxiliará a buscar e salvar cada vez mais pessoas; afim de que, se cumpra a real finalidade para a qual a igreja está na terra.

2.1 Igreja: Comunhão com Deus e com as outras pessoas Um dos objetivos da igreja cristã, conforme já expressado anteriormente, é a comunhão dos crentes de uns com os outros. É, portanto, para a igreja, motivo de alegria ver os irmãos na fé em um relacionamento fraterno e harmonioso, em uma bela relação de amizade entre irmãos que confessam a mesma fé, e perseveram em torno da palavra de Deus. Sobre este aspecto da comunidade do povo de Deus, já dizia o salmista, no período do Antigo Testamento: “Como é bom e agradável que o povo de Deus viva unido como se fossem irmãos”.23 Para se falar sobre a vida comunitária ou social, dentro da sociedade, que é a igreja, é preciso ter pressupostos estabelecidos; como, a mola propulsora da comunhão cristã, por exemplo. Sobre isto, escreve o teólogo alemão, Dietrich Bonhoeffer: Determinante para a nossa fraternidade é aquilo que a pessoa é a partir de Cristo. Nossa comunhão consiste unicamente no que Cristo fez por nós dois.24 Diante disto, pode-se dizer que o

2.1 – a saber: comunhão vertical 23 Sl 133.1. e horizontal. 24 BONHOEFFER. 2003, p. 16.

povo de Deus exerce e quer exercer uma comunhão e uma amizade de uns para com os outros, horizontalmente, porque Deus os incluiu em uma comunhão ainda mais elevada, unindo-os com Cristo e, conseqüentemente, com Deus, verticalmente. Escreve o apóstolo Paulo25: “Vocês são o corpo de Cristo, e cada um de vocês é uma parte deste corpo”. E ainda26: “Há um só corpo, e um só Espírito, e uma só esperança, para a qual Deus chamou vocês”. É claro que Paulo fala de comunhão em torno de palavra e sacramentos, mas, provavelmente, ele tem em mente não só a comunhão dos crentes em torno da palavra e sacramentos, mas também no convívio fraternal, e porque não dizer, social de uns com os outros. Isto transparece, quando ele diz: Por isso eu, que estou preso, porque sirvo o Senhor Jesus Cristo, peço a vocês que vivam de uma maneira que esteja de acordo com o que Deus quis quando chamou vocês. Sejam sempre humildes, bem educados e pacientes, suportando uns aos outros com amor.27 Ora, serem educados e pacientes, suportando-se com amor, não pode se referir a outra coisa senão a comunhão, a amizade, a convivência dos irmãos; ou seja, a relação horizontal entre os irmãos da fé. E isto, tem fortes chances de ocorrer de forma harmoniosa porque Deus os chamou, primeiramente, em seu amor, para a comunhão vertical, com ele. Neste sentido, é perceptível também esta relação de comunhão de 25 1Co 12.27. 26 Ef 4.4. 27 Ef 4.1-12. Fevereiro e Março, 2011 | Teologia | 25


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Deus com o povo e, deste povo uns com os outros, na forma como viviam os primeiros cristãos, conforme descrito em atos dos apóstolos: Todos os que criam estavam juntos e unidos e repartiam uns com os outros o que tinham. Vendiam as suas propriedades e outras coisas e dividiam o dinheiro com todos, de acordo com a necessidade de cada um.Todos os dias, unidos, se reuniam no pátio do Templo. E nas suas casas partiam o pão e participavam das refeições com alegria e humildade. Louvavam a Deus por tudo e eram estimados por todos. E cada dia o Senhor juntava ao grupo as pessoas que iam sendo salvas.28 Têm-se assim, belos indícios de que, além da relação com Deus e os meios da Graça, havia também uma forte relação social, comunitária e de amizade entre os que partilhavam a mesma fé. E neste meio tempo, o Senhor ia lhes acrescentando mais pessoas.

2.2 O diferencial da relação comunitária da igreja Se olhada à parte da palavra de Deus, uma comunidade cristã não difere em quase nada de qualquer comunidade ou organização social. Ela se organiza, se estrutura, elege diretorias, procura manter e até ampliar seu patrimônio e desenvolve atividades sociais diversas entre as pessoas 28 At 2.44-47. 26 | Teologia | Fevereiro e Março, 2011


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que dela participam. O que então pode fazer, aos olhos dos de fora, a igreja ter um diferencial, se comparada a um clube social? Ou ainda, qual é este diferencial? A igreja sabe que a resposta é a sua finalidade, mas os de fora não o sabem. Portanto, a leitura que por eles será feita, não será quanto à finalidade da igreja, mas quanto à ação que transparece aos seus olhos a partir do que a igreja faz. Eles julgam os crentes a partir do que vêem. Neste sentido, Hulme, um teólogo luterano; atenta para um fato curioso: Em outras palavras, a diferença não reside no desempenho de atividades diferentes, mas no “modo” como estas atividades são feitas.29 Se a diferença existe aos olhos dos de fora, ou é perceptível, a partir do modo como a igreja conduz as suas atividades, uma boa comunhão dos crentes, horizontalmente, é fundamental para que haja um bom testemunho para o mundo que rodeia a congregação. É claro que, a igreja é formada por pessoas que ainda continuam sendo pecadoras (embora já salvas), e que assim sempre haverá falhas em suas relações de uns com os outros. Mas neste sentido, pode-se dizer 29 HULME. 1981, p. 85.

que a grande diferença estará na pratica do perdão de uns para com os outros; que nos cristãos é impulsionada, a partir da comunhão vertical, dos crentes com Deus, ou de Deus com os Crentes. Isto transparece na primeira carta de João, onde se lê: “nós amamos porque Deus nos amou primeiro”.30 Com isto, quer-se atentar para o fato de que todas as atividades de uma congregação deveriam poder ser vistas com bons olhos pelos de fora, pela maneira como são realizadas e pela maneira que os cristãos se tratam uns aos outros ou perdoam uns aos outros, afim de que, quem olhasse de fora pudesse dizer: “poxa, queria ser um deles”. Isto também inclui a responsabilidade que os pastores tem para com o bom testemunho para os de fora, mesmo, e talvez principalmente, fora do púlpito. Isto Paulo alerta em sua primeira carta ao jovem Timóteo: “é necessário que ele tenha bom testemunho dos de fora, a fim de não cair no opróbrio e no laço do diabo”.31 Fica evidente então que o bom testemunho, ou a boa imagem, pode ser decisiva para abrir ou fechar portas para que o evangelho possa ser anunciado e o perdido possa ser salvo.

2.3 Comunhão horizontal: uma porta para a comunhão vertical! É preciso ter em mente que nem tudo o que a igreja faz é somente ir buscar e salvar o perdido, propriamente dito; no entanto, tudo deveria ser feito na perspectiva ou com 30 1Jo 1.4-9. 31 1Tm 3.7.

vistas a buscar e salvar perdidos.32 Por isso, tudo o que a igreja faz, também no que se refere a atividades sociais recreativas, deveria sempre de alguma forma procurar ser um instrumento para procurar atingir os perdidos com o evangelho de Cristo. E isto pode acontecer através do exemplo, da atitude e ética do cristão e do pregar e ensinar a palavra. Quer-se propor, assim, que o jogo de futebol, da juventude da congregação, ou o jogo de bocha dos leigos, os almoços da congregação, jantares, aniversários, jogos de mesa e tantas outras atividades sociais que fazem parte da vida da igreja, podem servir para atrair outras pessoas a comunhão horizontal; movidas talvez até pela beleza ou fraternidade que há naqueles momentos, para quem sabe, poder talvez de alguma forma, incluí-los mais tarde também na comunhão vertical com Deus, que por sinal é a mais importante. Um belo exemplo, de usar um ponto em comum para trazer pessoas a Cristo, encontra-se na associação brasileira dos Atletas de Cristo. O amor ao esporte é o ponto em comum de todos eles; e a amizade que eles tem entre si e com outros atletas faz com que eles tenham oportunidades de falar e mostrar para os amigos e profissionais do esporte, como é bom ser cristão. Roberto Thomé, que foi repórter da Rede Globo de televisão, falou o seguinte sobre os atletas de Cristo: “Profissionais do esporte, mas ao mesmo tempo, apóstolos da palavra, os atletas de Cristo são um exemplo que ajuda a reabilitar o país do vale tudo”.33 32 SEIBERT. 1988, p. 83. 33 RIBEIRO. 1995 (Contracapa). Fevereiro e Março, 2011 | Teologia | 27


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Trazendo isto para a realidade de congregações, poderia-se dizer assim: promovemos encontros de convívio social e fortalecimento de amizade, mas ao mesmo tempo, oportunidades para reabilitar pessoas que caminham rumo a condenação eterna. Um belo exemplo disto é, o caso que inspirou esta pesquisa, descrito na introdução deste trabalho. E nesta direção aponta também o parecer da comissão de teologia da igreja luterana do Sínodo de Missouri: Os crentes, exercitando-se na comunhão com Deus e entre si, fortalecendo-se mais e mais, se empenham em propagar a comunhão. Isto eles fazem em consonância com o grande mandamento missionário de 28 | Teologia | Fevereiro e Março, 2011

Cristo (Mt 28.19; At 1.8) e movidos por um poderoso impulso interior de partilhar as bênçãos da comunhão cristã, com o mundo.34

Um outro exemplo disto é a história de Eliana Leite,35 jogadora da seleção brasileira de voleibol nos anos 70. Eliana, ora passava por dificuldades e ora se reerguia em sua carreira profissional. Agora estava na seleção de Vôlei feminino, mas não via sentido em sua vida. Em 1978, foi convidada para participar de um encontro dos Atletas de Cristo, e o resultado foi o seguinte: A diferença entre aquela turma e os grupos que já havia visitado era a busca de Deus e o objetivo de levar outros atletas ao encontro de Jesus. Saiu dali resolvida a voltar

Desta maneira, o convite a um joguinho de futebol no domingo à tarde, um almoço da congregação ou um jogo de bocha com os leigos; ou seja, um convite à comunhão horizontal, pode se tornar uma porta aberta para uma possível futura comunhão vertical também. A pessoa é convidada para a comunhão horizontal e de bônus, encontro após encontro, é lhe apresentado também o amor de Deus, que realmente faz a grande diferença e a inclui também 35 Primeira mulher a participar dos atletas de Cristo. A história completa está na comunhão vertical. 34 KUNSTMANN. 1946, p. 17.

nas páginas 79-82 de Atletas de Cristo, citado neste trabalho.


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para Cristo e com a visão de sua participação no voleibol modificada. Até então achava que tinha conseguido tudo por seus próprios esforços. Alí enxergou a mão de Deus em sua vida esportiva... Começou a falar de Jesus para as colegas do time, levando Bíblia até para as adversárias.36 Nesta organização chamada Atletas de Cristo, há uma relação bastante extensa de atletas que encontraram a Cristo através do testemunho de outros cristãos nas pistas, quadras e campos. Também a Sociedade Bíblica do Brasil chegou a publicar uma “Bíblia personalizada” para os Atletas de Cristo e para a Copa do Mundo de Futebol. Desta forma, pode-se dizer que chamando pessoas para uma atividade social em comum, pode-se chamar ela também ao evangelho e oferecer-lhe Jesus à elas. E desta forma, pode-se dizer que, a atividade 36 RIBEIRO. 1995, p. 80.

social e recreativa de uma congregação tem uma relação, mesmo que indireta, com a verdadeira finalidade da igreja, que é buscar e salvar o perdido. Por isto, estas atividades também deveriam ser incentivadas afim de que, na medida que há um bom testemunho de tais atividades horizontalmente, além de desenvolver a amizade e a comunhão entre os irmãos na fé, abram-se portas para apresentar o amor de Deus e, assim a comunhão vertical, àqueles que ainda estão de fora do reino de Deus.

Conclusão Buscar e salvar o perdido sempre foi e sempre continuará sendo a finalidade maior de Deus e também da igreja que ele criou e preserva na terra. As ações de Deus em favor dos seres humanos ao longo da história do seu povo têm mostrado isto. Jesus veio para buscar e salvar o perdido e estendeu esta tarefa à sua igreja. Esta, por sua vez, deveria procurar, de todas as maneiras levar, o evangelho a cada vez mais pessoas

e salvar cada vez mais pecadores da condenação eterna. Para que isto se torne possível, todas as atividades que a igreja desempenha, devem ser realizadas com os olhos fixos na finalidade de Cristo ao ter vindo ao mundo. Desta maneira, também as atividades que, aparentemente, não teriam nada haver com a pregação da palavra de Deus, devem servir a esta finalidade, pois, quando a igreja deixa de buscar e salvar perdidos perdeu, o que lhe é próprio e deixou de ser igreja para se tornar uma mera reunião e entidade social. Atividades sociais e recreativas devem, portanto, ser incentivadas, não de modo que se tornem a finalidade da reunião do povo de Deus, mas de forma que congreguem e gerem amizade entre os irmãos na fé e também abram possíveis portas para que o evangelho seja pregado e novas pessoas sejam incluídas na comunhão vertical com Deus, através da fé em Cristo Jesus.

Rev. Ernani Kufeld é pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil em Aracaju-SE.

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Artigo

Rev. Martinho Rennecke

Uma breve reflexão sobre algumas influencias do reformador Martinho Lutero na mudança de paradigmas na missão, ou seja, na manifestação (Epifania) de Deus ao mundo, através de seu povo.

O modelo tradicional de Missão e Evangelismo

No

modelo tradicional de evangelismo presente nas igrejas históricas, é necessária a presença de um pastor e de uma congregação. Em conseqüência, há a necessidade de prover um salário e uma casa para o pastor e sua família morarem. Além disso, também existe a preocupação de construir um templo para reunir as pessoas. Só então, se começa a falar em missão e evangelismo. Outra preocupação presente neste modelo tradicional é a questão administrativa. Se a congregação é pequena, há problemas financeiros que impedem maior investimento no evangelismo. Se a congregação é grande, o pastor tem quase todo seu tempo ocupado no preparo dos trabalhos, estudos, sermões e visitas pastorais. Novamente aqui, a evangelização fica em segundo plano. Este modelo centrado no trabalho e na presença do pastor, além de ser oneroso, faz com que as atividades na congregação e em sua função na sociedade, andem em passos lentos, quando, muitas vezes, nem acontecem. Acontecem apenas as atividades de manutenção. “Caracterizado por um perfil elitista, esse modelo sempre teve grandes dificuldades para a aproximação das massas. Tal distanciamento da cultura brasileira já podia ser observado nas primeiras tentativas de inserção dos valores protestantes no Brasil Colonial, feitas por holandeses no Nordeste brasileiro, no século XVII, conforme afirma Sérgio Buarque de Holanda: Ao oposto do Catolicismo, a religião reformada oferecia nenhuma espécie de excitação aos sentidos ou à imaginação dessa gente, e assim não proporcionava nenhum terreno de transição por onde sua religião pudesse acomodar-se aos ideais cristãos (1996:65).” (O Pastor Urbano. Wander de Lara Proença. Pg. 52) “O modelo de pastorado desenvolvido pelo protes30 | Teologia | Fevereiro e Março, 2011

tantismo histórico não respondeu a tal expectativa. Antônio Gouvêa Mendonça contata que, na verdade, desde a sua inserção no Brasil, o protestantismo se orientou por uma espiritualidade de acomodação, caracterizada por desviar os olhares da história e transferir para o celeste porvir (Mendonça 1984). Restou à igreja aguardar passivamente um advento apocalíptico que faça insurgir ‘um novo céu e uma nova terra’. (O Pastor Urbano.


Artigo

Wander de Lara Proença. Pg. 61) Por trás deste modelo tradicional de igreja, existe uma visão no que diz respeito à função da igreja. Neste caso, a tarefa principal, senão única da congregação, é pregar a mensagem do Evangelho. Se for somente isto, então uma pessoa apenas, no caso o pastor, é capaz de realizá-la. Precisará se expressar bem, ter o domínio de ensinar, de aconselhar, de pesquisar e orientar. Neste caso, deverá cursar um curso de Teologia e posteriormente, uma pós-graduação. Normalmente um pastor dá conta do recado, para até 1000 pessoas, às vezes

mais. (Ex do trem, onde o pastor é o maquinista e os membros são os passageiros de final de semana).

Alguns aspectos históricos como causas deste modelo Pode-se apontar alguns fatores históricos que levaram a esta visão de igreja. O mundo que viu surgir a igreja cristã estava familiarizado com classes sacerdotais. Os judeus tinham sacerdotes e sumo-sacerdotes. Os pagãos não eram em nada diferentes em suas religiões às deusas e deuses. O imperador era o pontífice máximo. Para espanto de todos, a igreja cristã não tinha uma classe sacerdotal. Era, na sua origem, um movimento leigo. Tinha líderes, os presbíteros ou bispos, mas não tinha sacerdotes separados do povo. Cada um e todos eram sacerdotes. Não se conhecia a distinção entre clero e leigos, comum no judaísmo e posteriormente introduzida na igreja católica. No cristianismo pré-niceno, período que vai de 100 a 325, ganha força e se estabelece a distinção entre um corpo clerical e os leigos. Algumas tarefas foram consideradas santas ou demasiadamente espirituais para os cristãos em geral e, em razão disso, atribuídas somente ao clero. “O Evangelho é a mensagem da Salvação de Deus para o homem, realizada por Jesus Cristo na cruz e na ressurreição. A pecaminosidade do homem é evidente na totalidade de sua vida como indivíduo e como membro da raça humana. O mal é uma realidade tanto do ponto de vista da dimensão intelectual como da dimensão física ou social da vida e das estruturas humanas. A salvação de Deus transforma o homem na totalidade de sua vida, destarte afetando tanto sua vida como suas estruturas. Dar apenas um conteúdo espiritual à ação de Deus no homem, ou dar somente uma dimensão social e física à salvação de Deus, são heresias antibíblicas e, como tais, devem ser rejeitadas pelos evangélicos.” (A Evangelização e a busca de liberdade, de justiça e de realização pelo homem. Samuel Escobar. P.186.) Fevereiro e Março, 2011 | Teologia | 31


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Sob a influência do gnosticismo, muitos cristãos começaram a achar que o mundo material era mau; esta atitude foi reforçada pela divisão de alma e corpo, corrente na filosofia grega. Esta idéia da rejeição do mundo, acreditando que ele não pertencia ao Deus Pai, fez com que a igreja se visse como uma comunidade mediadora da eterna salvação aos indivíduos. (Hagglund, 29-33) (Hulme, 61-63) “A Igreja não é somente santa da mesma forma que uma pessoa (Ef 5.26-27), mas como a Igreja dos santos que habitam a cidade. Ela é santa porque foi separada para executar uma missão, cujo palco é a cidade... Ainda existe uma dualidade não compreendida por muitos, mas, se o pecado habitava na cidade nesta habitava o pecador, então não só o pecador era santificado, mas também a cidade. Nesse aspecto, a Igreja exerce a função de santificar a cidade. Agostinho destaca a Cidade de Deus enquanto paradigma da comunidade santa presente no mundo (Agotinho 1190:421)”. (O Pastor Urbano. Valéria Mª B. Motta dos Santos. Pg.164)

lugar onde ‘se prega o evangelho de modo puro e onde se administram corretamente os sacramentos’. Assim, investiu-se alto na sólida formação teológica dos pastores. Esta foi se tornando cada vez mais demorada, cara e especializada, e, por conseguinte, mais distanciada dos membros. Outrossim, devido às heresias freqüentes nas igrejas da época, o melhor antídoto era encorajar os crentes a seguir as diretivas dos bispos, que eram vistos como os garantidores da tradição apostólica. A espiritualidade também era vista como uma existência orientada em oposição ao material e corporal, o que reflete também a concepção católica tradicional. Na prática o clero deveria distanciar-se do mundo, pois eles só poderiam viver exemplarmente a sua vida reli-

Outro fator historicamente importante foi a constantinização (313) da Igreja. Quando a Igreja se aliou com a estrutura de poder do Estado, surgiu um novo relacionamento que suprimiu certas funções litúrgicas, especialmente as funções referentes à comunidade dos leigos. Uma situação parecida deve ter influenciado a história do luteranismo brasileiro. O discurso teológico sobre sacerdócio geral de todos os crentes não se efetiva na prática, que é fortemente centrada na figura do pastor, devido à herança histórica do luteranismo do ‘senhor territorial’ especialmente na Prússia. Com o passar do tempo e o advento da igreja estatal, o pastor passou a ser funcionário público, agente do governo. Acentuou-se a distinção entre pastor e leigos. O pastor luterano tinha prestígio, não por causa do evangelho que pregava, mas por sua posição e sua condição de funcionário público.

Alguns aspectos teológicos como causas deste modelo Causas teológicas também podem ter influenciado esta visão restrita da função da igreja e sua centralização no pastor. Definia-se Igreja a partir de uma interpretação por demais estreita da CA VII, ou seja, como o 32 | Teologia | Fevereiro e Março, 2011

giosa em distância do mundo.

Paradigmas de um novo modelo de Evangelismo e Missão Em seu livro Fundamentos para o Crescimento da


Artigo

Igreja, Kent R. Hunter aponta um fator interessante para o sucesso das primeiras igrejas, que seria o número reduzido de pastores: ”as igrejas primitivas prosperavam, não somente apesar de Paulo ter ido embora, mas talvez por causa disso. As pessoas eram forçadas a assumir, tomar posse do ministério em suas próprias congregações”. (p.56). “Só conseguiremos marcar presença nos nossos dias, fora dos bastidores eclesiásticos, a partir do momento que formos despertados para treinar e capacitar o laicato a viver a vida cristã autêntica além igreja. Precisamos de uma eclesiologia dinâmica, com objetivos concretos e definidos, que se volte para o mundo, abrindo-se para que tenhamos discussões ecumênicas, buscando conjuntamente no Senhor o

objetivo de transformar o povo de Deus, impelindo-o para a missão. A partir do momento em que descobrirmos que os nossos dons e talentos não nos pertencem, pertencem ao Senhor e para ele é que devem ser direcionados, poderemos mudar a nossa visão do que significa Reino de Deus.” (O Pastor

Urbano. Valéria Mª B. Motta dos Santos. Pg. 169) Isto pode apontar para uma visão diferente de igreja e sua função em relação à sociedade. Pode trazer luz para um paradigma diferente de evangelismo e missão que esteve presente no começo da igreja cristã. Considerando-se que a Igreja é uma cidade edificada sobre um monte, não se pode esconder a sua luz para a sociedade, para o mundo. A luz desta cidade é as suas obras e não apenas a sua mensagem. São as obras que fazem que os homens glorifiquem ao Pai que está nos céus. (Mateus 5. 14,16) “A igreja vai assumir a ação pastoral para a cidade. Daí, pergunta-se como ser igreja na cidade sem sair da igreja? A resposta nos remete também ao contexto da missio Dei, é Deus agindo na cidade através da Igreja. Nesse aspecto, as denominações cristãs, sensibilizadas e obedientes à missão de Deus na cidade, vão adquirir um papel fundamenta na lida pastoral dignificará os habitantes do mundo urbano, dando-lhes novo sentido de vida e esperança.” (O Pastor Urbano. Valéria Mª B. Motta dos Santos. Pg. 167.) A comunidade cristã primitiva foi uma fraternidade antes de ser uma assembléia. A existência de uma comunidade semelhante abre possibilidades inéditas de serviço no contexto de globalização atual. A começar sendo a consciência moral e espiritual das nações, cidades e seus governos. Não é por acaso que Jesus cita no Grande Julgamento, a ação dos cristãos voltada para a koinonia. “A missio Dei para a cidade consiste na ação evangelizadora e libertadora, concentrando a mensagem de denúncia ao processo de urbanização que torna a cidade corrompida. É necessário que levantemos no meio da cidade a voz profética da igreja, para que a comunidade cristã venha a proporcionar, diante do contexto urbano, um novo estilo de vida. Embora a função profética da Igreja seja mais importante, a política não deve ser tratada com descrédito, pois ela prepara e executa projetos. É fazendo que a igreja demonstra sua práxis eclesiástica e ilustra a manifestação da missio Dei na cidade. Não se pode excluir a participação do povo de Deus em nenhum dos setores da sociedade, mas, deve-se tentar conquistar os espaços perdidos durante os anos que já passaram”. (O Pastor UrbaFevereiro e Março, 2011 | Teologia | 33


Artigo

no. Valéria Mª B. Motta dos Santos. Pg.171) Em países pobres, como na América Latina, a igreja e seus cristãos não só devem saber onde estão os pobres, mas conhecer porque são pobres. Deve instar aos governos a investir em programas de ação social. A defesa dos pobres deve começar pela afirmação de sua dignidade e pelo desenvolvimento de suas potencialidades que possibilitem a eles trabalho com remuneração justa. Outrossim, motivá-los a realizar ações adequadas para transformar sua situação. “A igreja é a igreja somente quando ela existe para os outros (...) A igreja deve compartilhar os problemas seculares da vida humana comum, sem dominar, mas ajudando e servindo”. (das prisões nazistas, Dietrich Bonhoeffer, em 1944). In: David J. Bosch. Missão Transformadora: Mudança de Paradigma na Teologia da Missão, “O que vai trazer transformação aos meninos de rua, nas prostitutas e drogados e em pessoas que são consideradas a escória do mundo, pessoas que não têm mais crédito e que estão totalmente desacreditadas é a compreensão de que o Senhor é o Deus que pode fazer todas as coisas. O Espírito é que opera em nós o querer e o realizar, segundo a sua

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vontade, e ele irá trabalhar pela fé nos corações”. (O Pastor Urbano. Valéria Mª B. Motta dos Santos. Pg.172) Neste sentido, se a igreja local deve ser uma agencia de transformação da cidade, ela deve ir onde o povo está! Esta nova função não pode ser exercida por uma pessoa somente, ou por alguns líderes. É tarefa da igreja toda e não apenas de especialistas.

Um novo paradigma em Lutero Aqui, neste ponto crucial, Martinho Lutero redescobriu no movimento da Reforma, a força da igreja na sua ação no mundo, o sacerdócio geral de todos os crentes. Em três obras magistrais escritas em 1520, ele redesenhou a função da igreja, as quais abalaram os fundamentos da Igreja oficial, a ponto de causar a sua excomunhão em 3 de janeiro de 1521. Em sua obra À Nobreza Cristã da Nação Alemã, acerca da Melhoria do Estamento Cristão, Lutero lembra os nobres de seus deveres pessoais como cristãos conscientes e membros da Igreja, chamados a tomar a iniciativa devido à omissão da hierarquia. Especialmente na primeira parte, ataca violentamente a Cúria


Artigo

e as ‘doutrinas’ fundantes da ordem eclesiástica, social e política da Idade Média. Afirma a igualdade de todos os cristãos diante de Deus (o sacerdócio geral de todos os crentes), a liberdade da palavra de Deus testemunhada na Bíblia e a co-responsabilidade de todos os cristãos pela Igreja, negando os privilégios da classe dos clérigos e do papado. Outra grande obra de Lutero foi Do Cativeiro Babilônico da Igreja, que denuncia a negação do cálice aos leigos e a doutrina da transubstanciação. Especialmente no que diz respeito à Ordem, Lutero lança mais luz sobre o sacerdócio geral de todos os crentes, quando critica a interpretação corrente sobre o texto de Lucas 22.19, “Fazei isto em memória da mim”, como sendo um momento que Cristo tivesse ordenado somente aos sacerdotes. Segundo ele, certamente com este artifício se procurou criar uma sementeira de implacável discórdia, para que os clérigos e os leigos sejam mais diferentes entre si que o céu e a terra, o que é uma ofensa inconcebível à graça batismal e traz confusão à comunidade evangélica. Pois daí vem essa detestável tirania dos clérigos com relação aos leigos. Por último, a obra mais popular e, considerado o mais importante livro de Lutero, Da Liberdade Cristã, onde procura modificar o antigo conceito de um

cristianismo passivo e contemplativo para uma religião ativa e realizadora no sentido social. Ressalta que é impossível ter fé sem praticar boas obras, que são assim decorrências naturais e inevitáveis da mesma. Ressalta novamente aqui a liberdade que todos os leigos têm por serem sacerdotes reais, dignos de comparecer perante Deus, orar e ensinar uns aos outros. Lutero conclui que Cristo obteve as dignidades de rei e sacerdote por meio de sua primogenitura, assim podendo compartilhá-las e comunicá-las a qualquer de seus fiéis; ele usa aqui a figura do noivo e da noiva, no intercâmbio de bens. Desta forma, unidos como uma cidade no alto da montanha, que ilumina todo o vale, pode-se dizer ‘venha o teu reino e, seja feita a tua vontade’. Uma igreja confessional que vai ao encontro das necessidades das pessoas. Uma igreja que vai onde o povo está. Uma igreja que pratica a missão integral para a pessoa integral, deixando em seus passos, marcas e sinais da vinda plena do reino de Deus, na esperança da restauração de todas as coisas. Somos mendigos dizendo a outros mendigos onde se encontra o pão. Rev. Ms. Martinho Rennecke é pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil e coordenador do Projeto Macedônia.

Um momento de treinamento do Projeto Macedônia Fevereiro e Março, 2011 | Teologia | 35


Missão Urbana

Rev. Marcos Schlemer Weide

Uma abordagem integral do eclesiológica para aproveitar o contexto urbano e buscar um envolvimento maior com o trabalho apresenta ser humano para melhor comunicar uma proposta eclesio- o amor de Deus pela humanidade, lógica de abordagem integral do ser em Cristo Jesus. humano num contexto de missão urbana. Foi adotado o método da Introdução pesquisa bibliográfica. Assim, traz A missão urbana tem sido alvo uma idéia geral do que é o ser humade pesquisas ao longo dos últimos no urbano, com seus problemas e dificuldades e um breve histórico de anos. O desafio de pregar o Evangemissão na IELB – Igreja Evangélica lho numa grande cidade e a concorLuterana do Brasil. Depois, fazendo rência que as atividades da igreja enum contraponto, sugere-se uma prá- frentam num grande centro urbano, tica contextualizada das ações mis- como shoppings, cinemas, clubes, sionárias históricas da igreja cristã: ou simplesmente o desejo de se estestemunho e proclamação, liturgia, tar em casa com a família ao final de diaconia e comunhão. Os resul- uma semana de trabalho, exige notados mostram que a Igreja pode vas reflexões das lideranças da igre-

Resumo

Este

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ja, visando um preparo especial para melhor comunicar o amor de Deus em Cristo Jesus. As cidades do mundo inteiro estão crescendo de maneira que metade da população mundial está concentrada nas cidades. Durante 1 ano vivi em Guarulhos, a segunda maior cidade da região metropolitana de São Paulo-SP, cumprindo o período do meu estágio ministerial pelo Seminário Concórdia. A região possui cerca de 22 milhões de habitantes; mais de 1,5 milhões só em Guarulhos. Durante o período tive a oportunidade de perceber as dificuldades que as pessoas enfrentam até mesmo em questões básicas, como transporte, saúde, habitação,


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ser humano como proposta a a missão urbana educação, disponibilidade de tempo, entre outros. As duas congregações nas quais eu desempenhava minhas funções ficavam em regiões periféricas da cidade, com seus problemas de desemprego, saneamento básico, saúde, etc. Esta experiência me fez refletir sobre a atuação da igreja em contextos de grandes centros urbanos. Será que, como igreja cristã, estamos conscientes dos reais problemas enfrentados pelas populações que se amontoam numa cidade grande? Como a IELB tem atuado ao longo de cem anos de história em contextos urbanos? Qual seria uma postura bíblico-teológica viável para que tenhamos uma presença mais efetiva na cidade? Estas questões serão abordadas, respectivamente, nos capítulos a seguir. Quando se fala em abordagem integral do ser humano, ou missão integral, não se quer cair em extremos como sincretismo ou evangelho social. Estamos conscientes do papel da igreja e queremos fazê-lo de maneira que toque os corações endurecidos pelo pecado a fim de conduzi-los ao Salvador Jesus. Esta pesquisa não tem a pretensão de esgotar o assunto, muito menos criar polêmicas ou críticas sobre o assunto da missão integral. Busca-se, todavia, uma melhor compreensão da realidade atual e de nossas

raízes para, baseados na Bíblia e na Teologia, cumprirmos a missão de levar Cristo para Todos, que não é nossa, mas de Deus, através de nós.

1. A situação atual das cidades brasileiras 1.1. Breve análise do crescimento urbano

deslocamentos de trabalhadores rurais, destacando-se a modernização da agricultura do sudeste e a abertura de novas fronteiras agrícolas, o avanço da industrialização e, também, o elevado crescimento demográfico da área rural da região nordeste do Brasil.2 A população do Brasil em 1940, segundo dados do IBGE, era de 41,2 milhões de habitantes, e em 1º de agosto de 2000 atingiu um total de 169,8 milhões de habitantes. Portanto, ao longo do século XX, o país experimentou um aumento no seu contingente de 128,6 milhões de pessoas, tendo crescido cerca de quatro vezes.3 Dentro destes dados também nota-se a grande expansão da população urbana. Em 1940, 12,8 milhões de pessoas moravam em cidades enquanto que 28,3 milhões residiam em área rural. No ano 2000, o censo contabilizou 137,9 milhões de pessoas vivendo em áreas urbanas e apenas 31,9 milhões nas áreas rurais. O grau de urbanização do Brasil passou de 31,3%, em 1940, para 81,2%, em 2000. O gráfico abaixo

Esta exposição não tem como propósito delinear uma análise e distinção entre os conceitos de cidade e urbano. Pretende-se apenas alertar para a importância de detectar os dinamismos que percorrem o ambiente urbano do final do século XX e começo do século XXI. O desenvolvimento econômico marcou as grandes transformações ocorridas no solo brasileiro entre os censos de 1940 e 20001. A partir da década de 1930, o processo de repulsão populacional na Região Nordeste recebeu grande força, fazendo com que a busca por oportunidades de trabalho nos grandes centros urbanos deslocasse milhões de nordestinos para fora de sua região. IBGE. Tendências demográficas no A partir da década de 1940, a 2 período de 1940/2000. Disponível em: distribuição da população no es<http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/ populacao/tendencia_demografica/ paço brasileiro passou por grandes analise_populacao/1940_2000/ transformações, com importantes comentarios.pdf> Acesso em: 15 abr. 1 Segundo dados do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

2009. 3 Idem. Ibidem.

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Proporção da População Urbana, segundo as grandes regiões 100

90,5

90

81,2

80

80,9 69,9

70

86,7

69,1

60 50 40 30

39,6 31,3

26,2

23,4

1940 27,7

22,9

2000

20 10 0

FONTE: IBGE, Censo Demográfico 1940/2000

[...] O Brasil, em 1940, era ainda um país fundamentalmente agrícola e com uma economia doméstica de subsistência, embora já estivessem em curso mudanças políticas e estruturais que favoreciam o crescimento urbano-industrial.5

demonstra o aumento desses números por região: Conforme conclusões do próprio IBGE, “em 1940, com 2/3 da população concentrada nas áreas rurais, o Brasil possuía características eminentemente agrícolas, com forte presença da agricultura de subsistência e do grande latifúndio.”4 Dentro do mesmo assunto, acrescenta: Os principais setores de atividade das pessoas de 10 anos ou mais de idade ocupadas em 1940 eram agricultura, pecuária e silvicultura, juntamente com as atividades domésticas e escolares, que absorviam 73,6% das pessoas de 10 anos ou mais de idade ocupadas.

incharam e as populações cada vez mais sofrem com os insuficientes recursos de infra-estrutura em todos os níveis ou setores. A superpopulação traz consigo o desemprego, o surgimento e crescimento de favelas, falta de estrutura básica, aumento da criminalidade, carência na área educacional, problemas sociais, de saúde e falta de atendimento.6 Com o aumento significativo Vejamos algumas características e das áreas urbanas, as características dificuldades da população urbana agrícolas deram lugar a uma econo- atual. mia mais fundamentada na industrialização e, mais recentemente, 1.2. As pessoas e as no setor de serviços. O comércio dificuldades urbanas também teve grande aumento. ApaSegundo José de Souza Martins, receram os shoppings e os grandes centros de compras. Muito rapidamente as cidades 6 NEITZEL, Leonardo. Missão Urbana e

4 Idem. Ibidem.

5 Idem. Ibidem.

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Família – Desafios e Perspectivas. In: Vox Concordiana. Vol. 16 Número 2. 2001. p. 36.


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“o homem moderno (típico cidadão urbano) é essencialmente carente”.7 Necessita de condições adequadas de vida; tempo para si e para os seus; de sonhos, imaginação, prazer no trabalho (também no horário comercial e não apenas na folga); de alegria; de festas; de entretenimento, de compreensão ativa de seu lugar na construção social da realidade.8 Ao longo do tempo, o processo de urbanização aproximou as pessoas, mas forçou-as a lutarem cada uma por si. Disto, conclui-se que: Ao mesmo tempo que a cidade une, ela apresenta consigo uma força individualizadora. Massifica, porém individualiza (cria um ser egoísta). Como conseqüência aparece a insegurança que brota da solidão. Ligado ao mundo, mas sozinho; gente por cima, por baixo, do lado, mas sem ninguém para repartir suas angústias, seus medos, seus sonhos, seus dramas de fé. Esse é o homem urbano.9 Dentro da mesma idéia, destacamos alguns indicadores econômicos que afetam a vida do homem urbano: Descentralização industrial e de certos serviços, tendo em vista o encarecimento do solo urbano; crescimento da chamada economia informal; expansão de cortiços e favelas, ampliando as zonas sem infra-estrutura mínima; ampliação MARTINS, José de Souza apud KIRCHHEIN, Augusto. As Portas da Cidade. In: Vox Concordiana. Ano 15, Número 1, 2000. p. 42. 8 KIRCHHEIN, Augusto. As Portas da Cidade. In: Vox Concordiana. Ano 15, Número 1, 2000. p. 42. 9 Idem. p. 50.

7

do número de condomínios fechados por motivo de segurança; expansão de shoppings e supermercados – valorizando certas áreas e com efeitos sobre o pequeno e médio comércio; invasão das cadeias internacionais de ‘fast food’, mudando hábitos e costumes; surgimento de serviços especializados que alteram o estilo de vida urbana; novos impostos e aumentos constantes de taxas e tarifas que afetam a maioria da população.10 Mas não são apenas fatores econômicos que influenciam a vida urbana. Dentro do conjunto que podemos chamar de “social” também notamos o fator saúde, com baixa qualidade no atendimento público, freqüentes crises em hospitais, aumento de doenças (AIDS, mentais, estresse, dengue) e o aumento considerável do consumo de drogas. Com relação ao trabalho, aumento do desemprego e subemprego (e como conseqüência, aumento da população de rua), migração rural-urbana e mudanças na qualificação para o trabalho. Também na educação nota-se queda de qualidade do ensino público e expansão do ensino privado comercial, achatamento salarial e desmotivação dos professores e conteúdos muitas vezes inadequados à realidade.11 Tudo isso somado ao aumento da violência e da criminalidade, a corrupção institucionalizada, a precariedade e aumento sucessivo dos preços nos transportes coletivos, tempo perdido no trânsito e a poWANDERLEY, Luiz Eduardo In: ANTONIAZZI, Alberto. CALIMAN, Cleto. (Orgs.) A presença da Igreja na Cidade. Petrópolis: Vozes, 1994. p. 56. 11 Idem. p. 58. 10

luição dos carros, juntamente com a poluição de rios e córregos, constitui o indicador social da população que vive na cidade grande.12 Com relação à vida do homem urbano podemos afirmar que “a segmentação e compartamentalização da vida têm levado o homem a isolar-se no seu próprio mundo e relativizar a verdade, baseado em seu próprio interesse”.13 Esta é uma característica marcante da sociedade que chamamos pós-moderna: aquilo que me importa ou interessa, é isso o que vale. Valores éticos tradicionais, padrões nobres de comportamento não são levados em consideração ou respeitados. Na vila global “vale tudo”. Se algo é bom para uma pessoa individualmente, é isto que interessa. Não importa o que pensa ou que conseqüências trará à cidade, comunidade ou grupo que vive. A cidade e a família urbana do pós-modernismo vivem o drama da relatividade, principalmente quanto à valores de ética social, de liberdade, de moral e religião, que são milenares e têm servido como fundamento de nações, cidades, sociedades, famílias e indivíduos bem sucedidos.14 A sociedade pós-moderna, tipicamente urbana, é realmente complexa. O ser humano, por vezes, se concebe como parte de todos os aparatos e máquinas que ele mesmo inventou. Crê firmemente que não pode viver sem eles. Vive e morre por eles. Acaba por considerar que o êxito em sua vida depende do “equi12 Idem. p. 59. 13 NEITZEL, op. cit. p. 37. 14 Idem. p. 40. Fevereiro e Março, 2011 | Teologia | 39


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pamento” de que dispõe.15 Tudo deve ser rápido e cada vez mais rápido para que lhe produza satisfação. A grande questão não é chegar, mas a rapidez em fazer o caminho. Quando chega já quer voltar porque se aborrece – e a toda velocidade.16 O homem urbano é submetido constantemente a um bombardeio de informações através dos meios de comunicação, seja televisão, jornal, rádio, internet, telefone celular. Interessa muito mais o “já” antes que se transforme em “foi”. Não importa definir-se como “Eu sou...”, mas muito mais como “Eu estou...”17 Na vida da cidade grande o pensar move-se pelo princípio da “ética consensuada”. Tudo se resolve conforme a maioria dos votos. Não se fazem necessários “princípios” ou “valores”, mas as estatísticas comandam as decisões.18 Além destes fatores, a família urbana vive a rotina estressante da cidade, da violência que permeia tanto arranha-céus em condomínios de luxo como barracos das vilas e favelas. Convive com pessoas diferentes em calçadas e transportes coletivos, envoltos em crimes, consumo e tráfico de drogas, do rapto e da prostituição de menores, da doença, internação em hospitais superlotados, desemprego, exploração econômica, morte.19 Diante dessa realidade de carência do ser humano nos mais variados setores da vida, a igreja urbana tem muito a oferecer com sua função de proclamadora do evangelho de Je-

sus Cristo, que vem ao encontro das necessidades humanas preenchendo as lacunas que a vida pós-moderna provoca. Cabe agora refletirmos sobre nossa atuação como Igreja Luterana nesse contexto de grandes centros urbanos.

2. Breve histórico de missão da IELB 2.1. Diagnóstico dos primeiros 50 anos: Basicamente uma igreja rual

A fundação oficial da IELB ocorreu em 24 de junho de 1904 no então distrito Rincão São Pedro, hoje município de São Pedro do Sul-RS.20 Porém, o trabalho de pastores luteranos (do Sínodo de Missouri – EUA) já se fazia presente no Brasil desde 1900, quando a primeira comunidade foi formada em Colônia São Pedro, hoje município de Morro Redondo-RS.21 A formação do sínodo teve como pano de fundo a história da imigração alemã no estado do Rio Grande do Sul. Quase todos os assentamentos dos imigrantes aconteceram em regiões de florestas montanhosas. Estas áreas foram abertas pelos governos federal ou estadual, ou por companhias privadas. Em todas as situações era preciso abrir estradas. Os imigrantes chegaram com seus poucos pertences, alguns machados, foices, facões, enxadas, alguns utensílios de cozinha. Trabalhavam 15 NAGEL, Carlos In:SEIBERT, Erni na derrubada das matas preparando 16 17 18 19

a terra para o plantio de lavouras.22 Até 1918, o trabalho missionário do sínodo tinha acontecido somente entre pessoas de origem alemã. Porém, neste ano, deu-se início a uma missão Luso-brasileira em Lagoa Vermelha-RS.23 Em 1919 foi iniciada, no interior de Canguçu-RS, uma missão de língua portuguesa entre os negros daquela localidade.24 Durante o período da Segunda Guerra Mundial a língua alemã foi proibida em todo o Brasil. Entretanto, nos anos seguintes, por volta de 1950, após a liberação da língua alemã e da Revolução de 1930 que colocou Getúlio Vargas no poder, parte do trabalho ainda era realizado em língua alemã, embora a maior parte fosse (Coord.) A Missão de Deus diante de um em língua portuguesa. O tranovo milênio. Porto Alegre: Concórdia, 20 REHFELDT, Mario. Um grão de balho pastoral estava longe de 2000. p. 58. Idem. Ibidem. Idem. Ibidem. Idem. Ibidem. NEITZEL, op. cit. p. 45.

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Mostarda – A História da Igreja Evangélica Luterana do Brasil. Volume 1. Tradução de Dieter J. Jagnow. Porto Alegre: Concórdia, 2003. p. 63. 21 Idem. p. 42.

22 Idem. p. 20. 23 Idem. p. 92. 24 Idem. p. 99.


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ser o ideal. As paróquias eram muito extensas. A educação na mordomia cristã e no evangelismo ainda era precária porque os pastores tinham trabalho demais.25 A maioria dos membros em 1950 era de origem alemã, mas nas cidades também eram recebidas pessoas de outras nacionalidades, e em número cada vez maior.26

2.2. De 1950 a 2000: A expansão da IELB para as cidades Em 1950, 88 pastores atendiam a 65.280 membros da IELB. O número total de locais atendidos, incluindo congregações e pontos de pregação e missão, somava 539.27 25 Idem. p. 175. 26 Idem. Ibidem. 27 BUSS, Paulo W. Um grão de Mostarda – A História da Igreja Evangélica Luterana do Brasil. Volume 2. Porto

Uma estatística referente a 1951 informa sobre a existência de trabalho da IELB em dez estados brasileiros e no Distrito Federal.28 Nas primeiras décadas de existência a IELB teve preferência por áreas rurais e pequenas cidades. Mesmo “após 50 anos de atividade, a IELB atuava em apenas sete das 21 cidades brasileiras”29, a saber, Porto Alegre, Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Goiânia e Recife. Em 1955, apenas cerca de 20 das 621 congregações da IELB se localizavam em cidades com mais de 20 mil habitantes.30 A conclusão do pastor Harold Ott31, citada por Buss, aponta para uma opção feita de maneira consciente e intencional por parte da liderança da IELB: Manter a Igreja ruralizada é considerado o ideal; dirigir o trabalho para dentro das cidades é considerado uma tendência cheia de perigos. O ponto de vista rural, em oposição ao ponto de vista urbano, é geralmente defendido pela Congregação de Professores [do Seminário] de Porto Alegre e por um número considerável dos pastores.32 Fica latente, desta afirmação, que a missão rural foi a estratégia adotada pelas lideranças nos primeiros anos de vida da IELB. De fato, analisando superficialmente a história pode-se perceber que a estratégia era válida, uma vez que na primeira metade do século XX o Brasil possuía 2/3, ou seja, cerca de 70% Alegre: Concórdia, 2006. p. 33. Idem. p. 34. Idem. p. 41. Idem. Ibidem. Pastor da LCMS em visita ao Brasil no ano de 1955. 32 OTT apud BUSS. op. cit. p. 42. 28 29 30 31

da população concentrada em áreas rurais.33 Mas, já em 1960, “ao crescente êxodo rural e à ausência de obreiros nas grandes cidades, o Departamento de Missão reagiu, começando a dar maior atenção à missão em centros urbanos”.34 Cinco anos mais tarde, na Convenção Nacional de 1965, decidiu-se “incluir no currículo do Seminário Concórdia estudos que visassem a propiciar aos estudantes um bom conhecimento da realidade do campo brasileiro.”35 Contudo, ao final da década de 1960, o trabalho da igreja ainda “continuava concentrado, em larga escala, nas áreas rurais dos estados do Sul.”36 Um visitante da LCMS concluía, após uma visita ao Brasil, que “a Igreja precisava, agora, voltar-se para a população brasileira e não continuar limitando sua atenção a pessoas de origem germânica em áreas rurais.”37 Para tanto, a IELB fez uso do rádio em grande escala. Os programas da Hora Luterana, atual CPTN38, eram ouvidos em vários lugares do Brasil. Um dos resultados mais notáveis dos programas de rádio na década de 1960 foi o início da missão da IELB na Paraíba, quando ouvintes da cidade de Campina Grande solicitaram a vinda de um pastor luterano.39 Na década de 1970, além dos programas de rádio, a Hora Luterana oferecia três cursos bíblicos por correspondência: Doutrinas Fundamentais da Fé Cristã, Curso Bíblico Infantil, e A Vida de Jesus 33 34 35 36 37 38 39

Dados do IBGE em 1940. BUSS. op. cit. p. 81. Idem. Ibidem. Idem. p. 128. Idem. Ibidem. Cristo para Todas as Nações. BUSS, op. cit. p. 87.

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Missão Urbana

Cristo.40 Conforme Buss, o número de cartas recebidas pela Hora Luterana evidenciava a boa repercussão e receptividade dos seus programas junto aos ouvintes. Em 1971, a Hora Luterana recebeu cartas de 10.651 ouvintes. Sessenta por cento destes residiam no Norte do país. Em 1972, o número de cartas recebidas, incluindo a remessa de lições dos cursos bíblicos, totalizava 11.840; e em 1973, 13.930.41 Os programas de rádio continuaram aumentando o seu alcance ao longo da década de 1980. Em 1984, a Hora Luterana recebia, em média, 400 cartas por dia.42 Neste período também deu-se o auge da utilização da TV para a divulgação do evangelho. Mas, devido a dificuldades na produção dos programas e o alto custo de manutenção dos mesmos, o uso da TV pela IELB foi abandonado já no final da década de 1980.43 Algo que merece destaque na história das missões da IELB na segunda metade de seus primeiros cem anos é a ação social. Foi na década de 1960 que percebeu-se uma ênfase crescente nessa área da vida cristã na IELB como um todo.44 Neste período foram realizadas distribuições de alimentos, remédios e roupas em favelas da Grande Porto Alegre e Rio de Janeiro. Até mesmo educação primária gratuita e cursos de alfabetização e economia doméstica eram oferecidos pela IELB na cidade de Salvador-BA neste período.45 Também foram criados 40 41 42 43 44 45

Idem. p. 176. Idem. Ibidem. Idem. p. 250. Idem. Ibidem. Idem. p. 88. Idem. Ibidem.

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vários centros de atendimento ao ser humano em suas necessidades, como o Centro Educacional para Deficientes Auditivos, em Porto Alegre-RS; o Serviço Assistencial Diacônico Redenção, em Pelotas-RS; a Associação de Assistência à Infância Amigo dos Meninos, em Esteio-RS; o Lar Ebenézer para Idosos, em Gravataí-RS; entre outros.46 Na década de 1980, o Departamento de Assistência Social da IELB (DAS) procurava fazer de cada novo ponto missionário um centro integrado de missão. O objetivo era de, por meio dos Centros Integrados de Missão (CIM), a IELB desenvolver um ministério o mais abrangente e completo possível, evangelizando, educando e servindo.47 Nota-se a ênfase na abordagem integral do ser humano nestes centros missionários, onde não havia apenas a preocupação com o espiritual mas também com o social, o físico, o psicológico. Também se percebe neste período um forte investimento nas regiões Norte, Nordeste e Centro-oeste do Brasil. Alguns dos locais beneficiados com a instalação de um CIM foram: Belém-PA, Tomé-Açu-PA, Marabá-PA, Imperatriz-MA, Paulistão-MA, São Luis-MA, Campina Grande-PB, Anastácio-MS, e Dourados-MS.48 Estes centros missionários com abordagem integral foram decisivos para a missão luterana nos locais contemplados. Esta estratégia mar46 Idem. p. 178-180. 47 Idem. p. 253. 48 Idem. Ibidem.

cou uma mudança de direção do rural para o urbano, percebendo as dificuldades que o habitante da cidade encontrava ao seu redor. No processo de urbanização do Brasil a IELB perdia congregações rurais e não conseguia reconquistá-las na cidade. Especialmente na década de 1990, há uma preocupação mais evidente com a missão urbana em alguns setores da IELB. O assunto foi tema de simpósios e de diversos encontros regionais por todo o país.49 A 53ª Convenção Nacional da IELB afirmou a necessidade de dividir paróquias grandes e estabelecer novas missões em metrópoles.50 Foi nessa década que a IELB iniciou atividades missionárias nas capitais de Estados onde ainda estivera ausente.51 Também foi nesta época que surgiu o PEM – Programa de Evangelização e Mordomia Cristã, “com o objetivo de fortalecer as programações existentes na IELB e dar especial ênfase na mordomia e no evangelismo através de um processo contínuo de educação e treinamento.52 49 50 51 52

Idem. p. 307. Idem. p. 297. Idem. p. 299. Idem. p. 302-303.


Missão Urbana

Cidade

População

Aracaju, SE Belém, PA Belo Horizonte, MG Boa Vista, RR Brasília, DF Campo Grande, MS Cuiabá, MT Curitiba, PR Florianópolis, SC Fortaleza, CE Goiânia, GO João Pessoa, PB Macapá, AP Maceió, AL Manaus, AM Natal, RN Palmas, TO Porto Alegre, RS Porto Velho, RO Recife, PE Rio Branco, AC Rio de Janeiro, RJ Salvador, BA São Luis, MA São Paulo, SP Teresina, PI Vitória, ES Totais

520.303 1.408.847 2.412.937 249.853 2.051.146 724.524 526.830 1.797.408 396.723 2.431.415 1.244.645 674.762 344.153 896.965 1.646.602 774.230 178.386 1.420.667 369.345 1.533.580 290.639 6.093.472 2.892.625 957.515 10.886.512 779.939 314.042 43.818.065

Congregações e Locais de Pregação 1+1 4+4 3+5 2+4 4+6 2+4 3 12+2 4+5 2+1 1+6 3 1+1 2+1 1+1 1+4 3+3 13+2 5+4 2 2+7 5+3 2+5 3+2 7+4 3+3 2 93+78

Pastores 1 2 2 2 7 2 2 9 5 1 3 1 1 1 2 1 2 15 2 1 1 5 2 1 8 2 82

Membros 137 224 398 269 716 573 533 2.739 693 157 374 181 26 102 145 128 259 6.066 345 187 122 709 189 130 2.068 191 660 18.321

Dados do IBGE 2007 e das Estatísticas 2007 da IELB (Anuário Luterano 2009. Ano 70. Nilo Wachholz [editor] Porto Alegre: Concórdia, 2008).

População Brasileira – 2007 Nas Capitais

183.987.291 43.818.065 = 23,81%

IELB – 2007 Nas Capitais

233.416 18.321 = 7,84%

Pastores em paróquia* – 2007 610 Nas capitais 82 = 13,44% Locais de Culto - 2007 Nas Capitais

1438+662 = 2100 171 = 8,14%

*Congregações mais Pontos de pregação em todo o Brasil

Para finalizar esta parte, observemos um quadro comparativo com dados estatísticos sobre a presença da IELB nas capitais brasileiras e suas respectivas populações. Cabe agora, com base neste breve histórico da IELB e em alguns autores luteranos da atualidade que estão envolvidos com a prática pastoral, refletirmos sobre a presença da IELB nas regiões urbanas do Brasil e, a partir disso, verificar nossas estratégias de atuação na propagação da mensagem salvadora do Evangelho de Jesus Cristo. Fevereiro e Março, 2011 | Teologia | 43


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2.3. Algumas reflexões sobre a atuação da IELB nas cidades Visto que menos de 8% dos membros da IELB vivem nas capitais brasileiras (enquanto que a proporção de habitantes do Brasil em capitais é de quase 24%) e que pouco mais de 8% dos locais de culto situam-se nestas cidades, podemos notar que há realmente uma característica ainda marcadamente rural na IELB dos dias atuais. A IELB possui sua origem no campo: é uma igreja de migração. Surgiu nos assentamentos de colonos alemães no sul do país no início do século XX. Assim como outras igrejas do ramo protestante histórico, ela “veio de navio”. Os primeiros passos se deram no campo, ao lado dos agricultores.53 Uma vez que tanto os primeiros como muitos dos passos da IELB foram organizados ao lado dos agricultores e com o pano de fundo rural, algumas considerações são importantes: Como IELB não temos muita vivência nos grandes centros urbanos. Nossas congregações se organizaram a partir de luteranos oriundos da zona rural, ou seus descendentes, que migraram para as cidades, especialmente nas regiões sul, sudeste e centro-oeste. Este quadro muda um pouco em algumas cidades da região norte e nordeste. Não nos preocupamos muito em compreender 53 KIRCHHEIN, Augusto. As Portas da Cidade. In: Vox Concordiana. Ano 15, Número 1, 2000. p. 36. 44 | Teologia | Fevereiro e Março, 2011

as cidades. Organizamo-nos como igrejas luteranas nas cidades, muitas vezes alheios aos anseios, preocupações e necessidades dos centros urbanos.54 A grande questão da IELB é não ter deixado de ser rural mesmo presente no meio urbano. Como já relatamos no capítulo anterior, o modo de vida rural difere consideravelmente do modo de vida urbano. O Padre Alberto Antoniazzi, numa conferência sobre a presença da igreja na cidade, nos aponta uma das diferenças: A sociedade rural pode ser vista como regida pela tradição, pela experiência acumulada no passado. O fato se justifica pela relativa estabilidade da sociedade rural, onde as mudanças são lentas ou raras. [...] 54 LÜDKE, Reinaldo M. A Igreja na Cidade. In: Vox Concordiana. Ano 15. Número 1. 2000. p. 25

Já a sociedade urbana moderna (que se instala a partir da revolução industrial e se difunde mundialmente nas últimas décadas do século XX) é voltada, preferencialmente, para a inovação. A experiência deixa de ser o saber acumulado para tornar-se “experimento”, risco, busca do novo.55 Neste contexto, a religião também sofre uma mudança de função para as pessoas em geral. Enquanto que, no meio rural, a religião tem como fundamento construir mundos de sentido, dar significado ao mundo (em outras palavras, fornecer certezas), num contexto moderno, urbano, transforma-se em mecanismo de controle das incertezas e em resposta localizada a carências 55 ANTONIAZZI, Alberto. CALIMAN, Cleto. (Org.) A Presença da Igreja na Cidade. Petrópolis: Vozes, 1994. p. 82-83.


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localizadas.56 Num contexto urbano atual, “educar o indivíduo não é dar-lhe um quadro de valores, mas torná-lo livre para escolher. [...] Assim, todos os valores, também os religiosos, ficam na esfera da escolha pessoal, subjetiva”.57 Daí se compreende o fato de algumas pessoas não batizarem seus filhos em nenhuma denominação sob o pretexto de que eles devem escolher sua religião quando crescerem. Além do mais, muito se ouve que as pessoas não querem mais frequentar os cultos, estudos de departamentos e outras atividades da igreja. Não é verdade que os habitantes da cidade são indiferentes à religião, uma vez que os movimentos neo-pentecostais e o crescimento das filosofias orientais crescem nos centros urbanos, sem falar nos 56 LÜDKE, op. cit. p. 28. 57 Idem. Ibidem.

best-sellers de auto-ajuda. Uma das explicações possíveis para o baixo nível de envolvimento dos membros na congregações da IELB é que, No mundo rural, a população vive a maior parte do tempo em contato com a natureza. O momento de encontrar-se com outras pessoas é o momento da socialização, do sentir-se gente. Assim, os encontros religiosos dominicais também vão ao encontro da necessidade natural das pessoas de se encontrarem. Inversamente, o ser humano urbano vive uma multiplicidade de contatos e de relações durante os “dias úteis” da semana, submetido a um ritmo estressante. No “fim de semana” não procura mais o encontro, a comunidade, a massa; prefere mais a intimidade, o refúgio tranqüilo, o afastamento dos outros. Na sociedade rural a igreja é o centro de convergência. Na grande cidade, a igreja é um dos muitos “serviços” que a cidade oferece.58

3. Uma abordagem integral do ser humano como proposta eclesiológica para a missão 3.1 O que é missão? A palavra “missão” é utilizada para designar a atividade divina que emerge da própria natureza de Deus, pois o Deus vivo da Bíblia é um Deus que “envia”. Ele enviou profetas, seu Filho, os apóstolos, o Espírito Santo, a igreja. Sendo assim, a primeira missão é a missão de Deus, cujo centro se evidencia no envio de seu Filho ao mundo. E a missão da igreja resulta desta missão do Filho: “[...] assim como o Pai me enviou, eu também vos envio”.60 A Bíblia atribui uma só intenção para a ação de Deus: salvar a humanidade. Assim, também o seu Filho Jesus Cristo foi enviado ao mundo apenas com este objetivo: salvar a humanidade. Por isso, “missão é Deus em atividade, é obra de Deus”.61 O derradeiro mistério da missão, do qual ela emana e do qual vive, é: Deus envia seu Filho, Pai e Filho enviam o Espírito. [...] Esse processo do envio intradivino é de eminente importância para a missão e o serviço da Igreja. Sua missão está prefigurada na missão divina, seu serviço está preestabelecido pelo serviço divino, o sentido e conteúdo do trabalho estão determinados a partir da missio Dei.62

De fato, a presença da igreja na cidade grande, no entender popular, é apenas mais um serviço, como hospitais, supermercados e shoppings. Também, precisamos reconhecer que, por vezes, o nosso modelo eclesiológico destoa um pouco da vida urbana.59 Já que a nossa prática missionária como IELB ainda engatinha pelas ruas da cidade grande, vamos nos deter agora numa proposta eclesiológica para uma abordagem integral do ser humano num con- 60 Jo 20.21 61 MARQUARDT, Rony Ricardo. A texto de missão urbana. 58 Idem. p.31. 59 KIRCHHEIN, op. cit. p. 40.

Contextualização na Ação Missionária da Igreja Cristã. Canoas: ULBRA, 2005. p. 45. 62 VICEDOM, Georg. A Missão como Obra de Deus: Introdução a uma teologia da Fevereiro e Março, 2011 | Teologia | 45


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Portanto, a missão é divina por natureza e pertence a Deus.63 A Missio Dei não permite a interferência do homem pois acontece extra nos, no sentido de que não permite qualquer participação da parte do homem. Este é apenas o recipiente ou beneficiário da graça de Deus.64 A igreja, por sua vez, “está em missão sempre; é propriedade de Deus a seu serviço buscando e salvando pecadores. É missionária por essência e natureza.”65 Por isso, a missão primeira da igreja é testemunhar o evangelho da salvação através de Jesus Cristo. Para desempenhar melhor tal função a igreja se serve da missiologia, que é o estudo da ação misericordiosa e soteriológica de Deus para com a humanidade através de Jesus Cristo conforme revelada na Palavra e recebida por fé através do poder do Espírito Santo de forma que, incorporados na família de Deus e na comunhão dos crentes, dêem testemunho da sua salvação até os confins do mundo, inseridos nos muitos e diferentes contextos geográficos, lingüísticos e sociais, na expectativa do Cristo exaltado até que Ele venha.66 Missiologia é uma disciplina holística pelo fato de relacionar o estudo de Deus comunicando sua eterna e imutável palavra num contexto em constante mutação. É tarefa da missiologia estreitar a distância entre o “contexto original” do texto bíblico e o contexto atual das pessoas.67

Para tanto, a missiologia faz uso das mais diversas áreas do saber humano, como Antropologia, Sociologia, Lingüística, Comunicação e outras, a fim de testemunhar o Evangelho salvador de Jesus Cristo. Uma vez que delineamos rapidamente um conceito de missão, vejamos agora uma proposta eclesiológica de missão integral num contexto urbano.

3.2. Missão integral: uma proposta eclesiológica para um contexto urbano

No primeiro capítulo desta pesquisa percebemos o grande aumento da população urbana no Brasil dos últimos anos. De fato, já faz algum tempo que nosso país deixou de ser rural. No segundo capítulo fizemos um rápido diagnóstico de nossa postura como igreja ao longo de cem anos. Com isso percebemos que nossa origem é rural e de etnia germânica. Também vimos que por muitos anos a “ruralidade” da IELB foi vista como uma estratégia de missão, um alvo eclesiológico. No Brasil de hoje existe grande diversidade, tanto em termos étnicos, como culturais, religiosos, geográficos e políticos. Por isso, olhando de uma perspectiva missionária, o Brasil é um país ao mesmo tempo intrigante e cativante; e quando pensamos em missão no Brasil não podemos fazê-lo sem levar em consideração o contexto específico.68 Conforme o Dr. Klaus Detlev missão. Tradução de Ilson Kayser. São Schulz, “há uma relação íntima enLeopoldo: Sinodal, 1996. p. 17. 63 VICEDOM, Georg apud NEITZEL, tre a ação em um contexto e a reLeonardo. A Missão de Deus. In: Vox Concordiana, Vol. 15 Número 1. 2000. p. 10. 64 NEITZEL, op. cit. p. 10. 65 Idem. p. 13. 66 Idem. p. 15. 67 Idem. Ibidem. 46 | Teologia | Fevereiro e Março, 2011

68 SCHULZ, Klaus Detlev. Estratégia na Missão: Teologia e Prática de Métodos Evangelísticos. In: GRAFF, Anselmo Ernesto (Org.). CITM - Teologia e Prática de Métodos Evangelísticos. Porto Alegre: Concórdia, 2009. p. 19.

flexão teológica”.69 Em todo tempo faz-se necessária a adesão a uma ortopraxia autêntica guiada pelos princípios da fé conforme a Bíblia e as Confissões Luteranas.70 Atuar com um fundamento bíblico-teológico significa considerar a definição teológica da missão, antes de colocar uma estratégia no lugar. Como luteranos temos verdadeiras pérolas teológicas. Citamos como exemplo a doutrina da justificação, que ao mesmo tempo nos “abre” a Escritura penetrando todos os artigos de fé e é fonte de consolação e conforto às consciências apavoradas. A justificação funciona como a premissa teológica para qualquer missão.71 Ela nos mostra que diante de Deus somos mendigos, totalmente incapazes; e, diante do próximo, temos a obrigação de compartilhar nossa fé e fazer o bem, conforme a vocação de cada um. A doutrina da justificação nos compele a adotar uma perspectiva centrífuga para com Deus e com o nosso próximo. Com relação a Deus, as últimas palavras de Lutero escritas numa carta próxima ao seu leito de morte, expressam esta verdade: ‘Nós somos mendigos, isto é verdade’. Mas, também com relação ao próximo, uma perspectiva centrífuga é de valor ético central para a Reforma. O próximo e o seu mundo se tornam o fórum de nossa obrigação cristã, principalmente o de compartilhar nossa fé e fazer o bem. 72 69 SCHULZ, Klaus Detlev. Propostas para Ação em Missões Urbanas. In: Vox Concordiana. Vol. 16 Número 2. 2001. p. 77. 70 Idem. Ibidem. 71 Idem. p. 79. 72 Idem. Ibidem.


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Poderíamos falar ainda de muitos aspectos bíblico-teológicos que norteiam nossa atividade missionária, como a primazia da Palavra, a encarnação e a presença real de Cristo ou a distinção (não separação) entre os dois reinos. Todavia, queremos agora nos deter especificamente no conceito de missão integral como proposta para ação em missões urbanas. É preciso sempre ressaltar que sem a proclamação de Jesus Cristo como Senhor e Salvador não há missão integral, nem mesmo parcial. O senhorio de Cristo se estende tanto ao âmbito econômico como ao político, ao social como ao cultural, ao estético como ao ecológico, tanto ao pessoal como ao comunitário. Nada nem ninguém está fora do senhorio e soberania de Cristo.73 A cristologia que se sintetiza na confissão “Jesus Cristo é o Senhor” se constitui a base de uma eclesiologia que concebe a igreja como a comunidade que confessa e proclama a Jesus como Senhor da totalidade da vida humana e de toda a criação. Quando a igreja perde de vista a centralidade do Senhor Jesus Cristo, deixa de ser igreja e se constitui numa seita religiosa incapaz de relacionar sua mensagem com a vida prática das pessoas.74 O que propomos aqui é uma visão holística do ser humano principalmente em contextos urbanos. Holístico é “uma volta ao evangelho ensinado por Jesus e uma rejeição da dicotomia que divide necessidades 73 PADILLA, C. René. Introducción: Una eclesiología para la misón integral. In: PADILLA, C. René; YAMAMORI, Tetsunao (Eds). La iglesia local como agente de transformación – una eclesiología para la misión integral. Buenos Aires: Kairos, 2003. p. 21-22. 74 Idem. Ibidem.

espirituais e físicas”.75 O ser humano é uma unidade de corpo, alma e espírito, inseparáveis entre si. Isto se confirma, por exemplo, quando médicos afirmam que muitas das doenças que sofremos são psicossomáticas, ou seja, aquelas em que um problema psicológico repercute na saúde física, ou uma enfermidade física repercute na saúde mental.76 E porque o ser humano é uma unidade, não se pode querer ajudar a uma pessoa dando atenção apenas a suas necessidades espirituais (como perdão de pecados) deixando de lado suas necessidades em outros aspectos (físicos, emocionais, psicológicos). Isto percebemos na passagem da Epístola de Tiago que diz: Se um irmão ou uma irmã estiverem carecidos de roupa e 75 KEHREIN, Glen apud SCHULZ, Klaus Detlev. Propostas para Ação em Missões Urbanas. In: Vox Concordiana. Vol. 16 Número 2. 2001. p. 85. 76 PADILLA, C. René. Hacia una definición de la misión integral. In: PADILLA, C. René; YAMAMORI, Tetsunao (Eds). El proyecto de Dios y las necesidades humanas – Más modelos de ministerio integral en América Latina. Buenos Aires: Kairos, 2000. p. 29.

necessitados do alimento cotidiano, e qualquer dentre vós lhes disser: Ide em paz, aquecei-vos e fartai-vos, sem, contudo, lhes dar o necessário para o corpo, qual é o proveito disso?77 Desta perspectiva, a missão integral é a missão orientada para a satisfação das necessidades básicas do ser humano, incluindo sua necessidade de Deus, mas também sua necessidade de amor, alimento, lar, abrigo, saúde física e mental, e sentimento de dignidade humana.78 Frente aos dados que levantamos no primeiro capítulo, a igreja urbana tem o dever de ser sensível aos problemas sérios que atravessam as pessoas, os casamentos, as estruturas familiares, os desempregados, os marginalizados, as mães solteiras, as crianças desamparadas em abrigos e creches, entre outros. Afinal, vivemos numa sociedade construída sobre a base do individualismo e de uma economia de mercado que sacrifica diariamente vidas humanas. 77 Tg 2.15-16. 78 PADILLA. op. cit. p. 30. Fevereiro e Março, 2011 | Teologia | 47


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líticos, econômicos e emocionais aos quais as pessoas estão sujeitas com mais facilidade numa cidade. A igreja em si não atende às carências nestas áreas, mas se envolve na medida em que participa da vida urbana. Schulz escreve, citando Charles van Engen: Obviamente, a igreja não deveria se ver apenas como uma agência social, mas se tornará socialmente envolvida através de seus serviços diacônicos. A igreja também não é um governo, mas por sua proclamação e ação em uma comunidade, mostrará influência política e comunitária significativa. A igreja não é uma instituição financeira, mas às vezes tem que procurar oferecer ajuda financeira em seu empenho para desenvolver seus planos missionários e estabelecer projetos locais. A igreja não é uma escola, mas a educação é um meio importante para facilitar o processo de amadurecimento da congregação e incorporação de novos membros. A igreja não é uma família, mas as relações familiares e estruturas são supremas para sua missão. A igreja não é um edifício, entretanto o edifício é importante para acomodar numerosos programas de treinamento e trabalho de grupos. A igreja não é uma organização, mas precisa de estruturas institucionais para funcionar para outros na sociedade.81

Frente a isso a igreja de Jesus Cristo tem uma grande responsabilidade. Não a de entrar na arena política porque sua função como igreja não é essa, mas a de ser sensível às necessidades humanas em sua tarefa de testemunhar o Evangelho.79 A igreja precisa diagnosticar os males de seu tempo para receitar com sabedoria o remédio divino:

Jesus Cristo. Pois assim como o evangelho precisa ser contextualizado para ser apresentado de maneira compreensível às pessoas, assim também precisa ser contextualizado de acordo com as necessidades dessas pessoas. Para a igreja cristã o que conta são as necessidades espirituais e materiais do indivíduo.80 A ação missionária da igreja em contextos urbanos precisa estar Assim, mesmo que a igreja não 79 ROLDÁN, Alberto Fernando. El Sacerdocio de todos los creyentes y la atenta aos problemas sociais, po- seja uma instituição “do mundo”, misión integral. In: PADILLA, C. René; ela está no mundo e precisa interaYAMAMORI, Tetsunao (Eds). La iglesia 80 WEIRICH, Paulo P. A comunidade local como agente de transformación – una eclesiología para la misión integral. Buenos Aires: Kairos, 2003. p.124.

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cristã urbana: igreja em movimento. In: Mensageiro Luterano. Janeiro de 1995. p. 9.

81 ENGEN, Charles van apud SCHULZ, op. cit. p. 83.


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gir com este mundo que a cerca. Ao invés de sugerir práticas para uma missão integral na cidade (visto que cada cidade possui suas particularidades), optamos por refletir sobre alguns princípios que precisam ser lembrados quando planejamos alguma ação missionária da igreja em contextos urbanos. Para isso, selecionamos quatro ações missionárias tradicionais:82 testemunho e proclamação83, liturgia84, diaconia85, e comunhão.86

3.2.1. Testemunho e proclamação A pregação da igreja (testemunho e proclamação) sempre será desafiada pelo contexto urbano. A proclamação deve estar baseada na compreensão de quem é a audiência e numa compreensão clara 82 SCHULZ. op. cit. p. 86. 83 Mt 28.19-20. 84 At 2.46-47. 85 At 6.1-7. 86 Rm 12.4-5.

Eles devem proclamar pecado e graça em linguagem com o mesmo frescor e novidade das misericórdias diárias de Deus: em palavras vívidas, vigorosas, cativantes, excitantes. Enquanto que a verdade divina é constante, a linguagem muda e se torna diferente, adquirindo novas forças das correntes do presente, perdendo velhas formas nas águas do passado.90

de seu estado de religiosidade.87 As missões urbanas precisam estabelecer a natureza e caráter do contexto imediato através de estudo cuidadoso e basear a sua mensagem em um próprio construto hermenêutico que combina três fatores: o texto bíblico, o contexto urbano e a fé da própria igreja.88 Poderíamos questionar a pregação da igreja “com relação à repetição de fórmulas e de palavras já consideradas ‘chavões teológicos’ ou ‘teologuês’.”89 Uma convenção da Lutheran Church – Missouri Synod, realizada em 1962 apontava a seguinte direção: Se a Igreja precisa comunicar sua mensagem para audiências que ficam completamente aborrecidas com o melhor entretenimento do mundo, seus oradores e escritores devem abster-se de estereótipos.

A contextualização da proclamação é fator indispensável para a missão urbana. “Para ser evangelizadora a igreja precisa fazer mais do que pregar o Evangelho do mesmo modo repetitivo”.91 É preciso proclamar em linguagem compreensível ao povo brasileiro, que enfrenta problemas sociais, econômicos, falta de acesso à escola, entre outros. E não apenas isso, mas fazer uso deste

87 SCHULZ. op. cit. p. 90. 88 ENGEN, Charles apud SCHULZ, op. cit. p. 89. 89 MARQUARDT. op. cit. p. 156.

90 COATES apud MARQUARDT. op. cit. p. 157. 91 WEIRICH, Paulo P. Conquistar para Cristo: discurso e prática. In: Mensageiro Luterano. Janeiro de 1995. p. 3.

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contexto para, não apenas com pa- do com a maneira que for a mais lavras, comunicar melhor a mensa- útil e a mais edificante para a congem do evangelho salvador. gregação de Deus”.94 A Confissão de Augsburgo declara que para que haja “a verdadeira unidade da igreja 3.2.2. Liturgia cristã não é necessário que em toda Liturgia tem a ver com o culto, a parte se observem cerimônias unimomento em que Deus nos serve formes instituídas pelos homens”.95 (caráter sacramental) e em que nós A IELB tem liturgias oficiais, servimos a Deus (caráter sacrificial). que são utilizadas em todo o Brasil. Estas duas características jamais poDe certo modo, a liturgia também é dem ser perdidas quando se pensa proclamação e, como tal, se encaixa em liturgia num contexto de missão nas leis normais de comunicação. urbana92. Uma lei fundamental da teEntretanto, podemos fazer uma oria da comunicação, por diferenciação entre forma e conteúexemplo, diz que “o conteúdo do do culto. Do conteúdo do culto da informação é inversamente não podemos abrir mão, pois é deproporcional à probabilidade terminado por Deus e através dele, de ocorrência.” [...] Em outras pela ação do Espírito Santo, Deus palavras: quanto maior é a dá a sua igreja as suas ricas bênçãos. previsão da ocorrência de dePorém, a forma deste culto é determinada fórmula, menor é o terminada pela cultura e, por isso, pode ser contextualizada93 “de acor- 94 Fórmula de Concórdia. Epítome X. 92 MARQUARDT. op. cit. p. 155-156. 93 Idem. Ibidem. 50 | Teologia | Fevereiro e Março, 2011

parágrafo 4. 95 Confissão de Augsburgo. Artigo VII: Da igreja. Parágrafo 3.

seu conteúdo informativo. Aplicando à liturgia o princípio, nota-se como ocorre aqui uma alta freqüência de fórmulas repetidas ou inteiramente previsíveis, o que torna mínimo o conteúdo informativo e pouco eficiente para chamar e concentrar a atenção do orante.96 Aplicando a afirmação anterior ao nosso contexto luterano considero válido perguntarmo-nos até que ponto nossa liturgia imutável comunica o amor e a salvação de Deus numa sociedade em constante transformação. De qualquer maneira, por vezes, algumas tentativas de contextualização têm corroído a singularidade e o caráter trans96 BONATTI, Mário. Liturgia, Comunicação e Cultura. In: Revista Eclesiástica Brasileira. Número 143. setembro de 1976. Petrópolis: Vozes, 1976. p. 582583.


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cultural da liturgia. Nesse sentido cabe bom senso da parte de quem organiza a liturgia da comunidade e instrução aos membros sobre a estrutura do culto cristão luterano.

3.2.3. Diaconia A igreja urbana está inserida num contexto de múltiplas etnias e de estratificação social e econômica. Por um lado, Deus sempre mostrou-se estar ao lado do pobre, do oprimido. Por outro lado, não deveríamos romantizar a pobreza como se fosse garantia do favor especial de Deus. “Se acabamos com a pobreza mas negligenciamos ao pobre as Boas Novas sobre Jesus Cristo, teremos falhado em nossa missão”.97 Mas “se pregamos o evangelho mas ignoramos a situação do pobre, somos falsos profetas”.98 Para estabelecer uma relação entre as duas afirmações antitéticas aparece a diaconia, que funciona como testemunho do amor proclamado pela igreja em nome de Jesus Cristo. Na IELB, a diaconia foi vista ao longo dos anos muito mais como uma instituição de serviço do que propriamente toda a ação da igreja em favor do próximo. Isto não quer dizer que não devem existir instituições de serviço aos necessitados, mas chama a atenção para que toda a ação da comunidade local esteja envolvida no serviço de apoio às carências das pessoas, sejam materiais, psicológicas e espirituais. Cabe lembrar que “atividades benevolentes e humanitárias não deveriam se tornar um fim em si mesmas, e assim, se satisfazerem em criar dependência”.99 Ao invés disso, a igreja deve traba97 GREENWAY, Roger S. apud SCHULZ. op. cit. p. 87. 98 Idem. Ibidem. 99 SCHULZ. op. cit. p. 88. Fevereiro e Março, 2011 | Teologia | 51


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lhar para proporcionar confiança entre os menos favorecidos em suas potencialidades de elevarem-se acima das suas necessidades.

3.2.4. Comunhão A comunhão da igreja contrasta com todas as outras comunhões expressas na comunidade mais abrangente. Esta é uma comunhão compartilhada no corpo de Cristo e incorpora todos os crentes que vêm de grupos sociais e culturas variadas.100 Os membros da igreja urbana compartilham as preocupações e as situações do ambiente social comum. Conforme Schulz, uma das razões que explica o crescimento explosivo do movimento pentecostal é a sua solidariedade social e identificação com a família e providência de um status digno ao desestruturado e desarraigado homem latino.101 O sentimento de acolhimento social é um fator decisivo para o homem urbano enxergar-se dentro da comunhão da igreja a qual frequenta. O jeito rural, onde as famílias possuíam suas cadeias de influência, redes de apoio mútuo e lideranças definidas, já não existe na cidade. A família nuclear (pais e filhos) agora vê-se isolada num apertado terreno ou apartamento, cercada de pessoas estranhas, não possuindo mais as relações de apoio e valores morais e espirituais que tinham no meio rural.102 As redes sociais são “grupos de 100 Idem. p. 92. 101 Idem. Ibidem. 102 WEIRICH, Paulo P. Família e Matrimônio. In: HEIMANN, Leopoldo. (Org). A família numa sociedade em transformação. Porto Alegre: Concórdia, 2006. p. 17. 52 | Teologia | Fevereiro e Março, 2011

pessoas, significativas umas para as outras, e que, ao realizarem intercâmbios entre si e com outros grupos significativos, podem potencializar os recursos que possuem”.103 Estas redes, que empiricamente estavam presentes no meio rural na figura de parentes, amigos e vizinhos, fazem muita falta ao homem urbano atual. A igreja, por sua vez, precisa estar atenta a esta necessidade e pode buscar suprir, ainda que de maneira parcial, essa carência. Departamentos tradicionais como Leigos, Servas, Jovens e Idosos são uma alternativa. Há algumas iniciativas no sentido de grupos de afinidade, com uma função específica além da comunhão propriamente dita, tais como grupos de visitação, evangelismo, acompanhamento a enlutados, entre outros. O próprio grupo do PEM (Programa de Evangelização e Mordomia), na sua essência, também contribui para que as pessoas busquem uma vida de comunhão, onde a mútua consolação dos crentes acontece, chorando com os que choram e alegrando-se com os que se alegram.104 Levando em consideração o contexto urbano como descrito no primeiro capítulo, faz-se necessária uma abordagem integral do ser humano para uma melhor comunicação da mensagem salvadora através da proclamação e testemunho, da liturgia, da diaconia e da comunhão dos crentes.

Conclusão 103 GIONGO, Cláudia Deitos. Tecendo Relações: o trabalho com famílias na perspectiva de Redes Sociais. In: SCHEUNEMANN, Arno V. HOCH, Lothar C. (Orgs.). Redes de Apoio na Crise. São Leopoldo: EST/ ABAC, 2003. p. 19. 104 Rm 12.15.

O aumento considerável da população urbana no Brasil nos empurra, como igreja, para a busca de uma prática da missão de Deus cada vez mais contextualizada. No começo do século XX, quando a IELB foi fundada, a maior parte da população brasileira era rural. Isto explica a estratégia utilizada de maneira consciente de “plantar” igrejas no meio rural, junto aos alemães, na medida em que a língua unia os missionários americanos e a membresia, basicamente de imigrantes. A história seguiu seu curso e o Brasil hoje não é mais o mesmo. Dados do último censo apontam para mais de 80% da população vivendo em áreas urbanas, sendo mais de 23% nas capitais. O estilo de vida rural está cada vez mais escasso em nossa realidade, bem como o modo de enxergar o mundo e a igreja. Enquanto que a igreja, no interior, era vista como o centro das atividades de uma cidade – o que explica até mesmo a localização do templo, geralmente em frente à praça central – hoje não passa de mais um serviço dentre os muitos oferecidos à população de uma cidade grande. Nossa igreja, a IELB, apesar de tentativas consideráveis ao longo da sua história, ainda preserva muitos traços de uma igreja marcadamente rural. A conhecida dicotomia entre alma e corpo ainda é pronunciada de maneira subliminar em nossos púlpitos e registrada com todas as letras em nossos livros de registro (como por exemplo, 97 almas no rol de membros). No interior a igreja não precisava se preocupar com as pessoas integralmente, porque, empiricamente, estavam estabelecidas diversas redes de apoio social, físico, psicológico e político. Nestes contextos, a igreja podia apenas


Missão Urbana

preocupar-se com as almas. Hoje o ser humano urbano vive, em sua maioria, isolado em pequenos terrenos ou apartamentos, muitas vezes nem mesmo conhecendo seu próprio vizinho. Os parentes estão longe e as dificuldades da cidade grande são múltiplas e multifacetadas. A igreja, por sua vez, pode aproveitar esse contexto para buscar um envolvimento maior com o ser humano principalmente numa eclesiologia urbana. A missão integral aparece como uma proposta para uma eclesiologia cada vez mais urbana. Abordagem integral significa estar atento às necessidades do ser humano em todos

os aspectos da sua vida. É uma visão holística que visa proporcionar auxílio e consolo tanto material, psicológico e espiritual. Para isso a igreja continua a fazer uso de suas ações missionárias do passado, porém, de maneira contextualizada. O testemunho e a proclamação, a liturgia, a diaconia e a comunhão são aspectos que fazem parte do “ser igreja cristã”. A tarefa da contextualização é um esforço que a igreja realiza para continuar fazendo soar a voz de Deus no mundo, de maneira vibrante e convincente. A IELB tem uma grande tarefa neste país. Ela possui a proclamação pura e fiel da Palavra de Deus com

sua dinâmica de Lei e Evangelho, e a correta administração de Batismo e Santa Ceia; os meios da graça. Trazendo isto para a realidade do ser humano urbano brasileiro, a igreja cumpre sua função de testemunha e proclamadora da Boa Nova da salvação através de Jesus Cristo. Antes de ser uma responsabilidade, o preocupar-se com o ser humano integral é um privilégio para todos os que foram justificados pelo sangue de Cristo e agora querem levar esse mesmo Cristo para toda tribo, língua, povo e nação, dentro dos seus respectivos contextos, porque Cristo é para todos.

Rev. Marcos Schlemer Weide é pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil em São Vicente-SP.

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Missão: Acolhendo

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Rev. Waldyr Hoffmann

Integrando

Como receber bem o Receber

bem alguém em nossas casas é fundamental quando se quer estabelecer uma boa relação com o visitante, seja este familiar ou não. O mesmo se dá no círculo da igreja onde precisamos refletir sobre a nossa postura frente àqueles que nos visitam. Quando esta etapa estiver sido bem feita, os resultados também são satisfatórios. Se, todavia, houver omissão ou descaso neste assunto, corremos o risco de não ter o visitante de volta em nosso meio. Com a exposição deste tema também queremos abrir o leque e aproveitar a oportunidade para refletir sobre a nossa prática, ampliando, assim, a nossa compreen-

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são sobre o assunto. Quando mais nos aprofundamos, várias questões vêm à nossa mente sobre o porquê de muitos visitantes não retornarem ao nosso convívio. O que está acontecendo? Como os temos recebido? A princípio imagino cada membro da igreja um recepcionista. Há, nesta tarefa, uma dupla finalidade: sermos cordiais com todos e também oportunistas. Apesar disso, acreditamos que jamais deveríamos “fazer a cabeça” de alguém após uma visita sua. Óbvio que uma lembrança, convite, etc sucedem após o contato e isto é recomendável. No entanto, quando sentimos que isto esteja constrangendo a outra pessoa, precisamos rever o nosso procedimento. Como um todo, os mem-

bros têm o interesse em receber bem o visitante para que ele se sinta bem em nosso meio, especialmente por se tratar de uma nova realidade para ele. Nem sempre isto é fácil, mas com persistência, cuidado e preparo podemos conseguir muito. A igreja também poderá estruturar-se com um departamento (ou comissão) de recepcionistas. Estes, depois de preparados para tal função, irão desempenhar o seu papel com muita alegria porque estarão cientes de sua responsabilidade. Diz o ditado popular: “a primeira impressão é a que fica”. Assim também o é na igreja. Portanto, recomenda-se que uma equipe fique de prontidão quando os visitantes vierem. É bom lembrar que em nossos


Missão: Acolhendo

dias de hoje as pessoas correm muito e quase não têm tempo para nada. Em função disso, quando se sentem enfraquecidas, ou quando problemas sérios rondam a sua casa, etc, em muitos casos elas irão procurar por uma igreja (ou grupo religioso). Por isso, elas precisam de uma lugar de acolhimento por estarem aflitas e angustiadas. O que elas encontrarão na igreja? Pessoas alegres, dispostas e perseverantes? Ou vão encontrar pessoas cabisbaixas, zangadas umas com as outras (em muitas igrejas há membros que não falam com os outros). Nesta linha de pensamento, acreditamos que a partir do momento em que o membro vive o Evangelho em sua vida, reflete o amor de Deus e passa a ser uma “luz no mundo” (Mt 5). Inclusive este também é o objetivo da igreja: reunir o povo de Deus, fortalecer-lhe a fé e direcionar a sua vida na prática do amor de uns para com os outros. E nesta perspectiva, se torna também um grande recepcionista que tem prazer em receber o visitante em seu meio. O que segue são algumas dicas/ orientações são necessárias para os membros da igreja e, em especial, àqueles designados para serem os recepcionistas. a) chegar mais cedo – preferencialmente meia hora antes do culto. Deverá deixar todo o ambiente preparado, com

alguma música ambiente. Recomendamos que os minutos que antecedem o culto não deveriam ser utilizados para afinação dos instrumentos. Isto poderá ser feito em outro momento. Agora, o tempo é de comunhão, oração e preparo para o culto. Caso o culto seja à noite, uma luz não muito forte (indireta) deixará o ambiente mais próprio para a ocasião; b) seja natural – não somos em nada diferentes dos outros. As pessoas têm medo da algo forçado (hipocrisia). Aqui também é preciso salientar o cuidado com os preconceitos existentes entre as pessoas; c) cumprimente a todos – inclusive os membros da igreja para que eles também se sintam cada vez melhores em nosso meio e despertem o interesse pelos visitantes, seguindo o seu exemplo. A comunhão será fortalecida com tal atitude; d) providenciar Bíblias, hinários e liturgias – e indicar um membro da igreja para assessorá-lo durante todo o culto (alguém que sente ao seu lado). e) anotar o endereço – Este é um momento delicado. Queremos ter um contato posterior com o visitante. No entanto, não podemos constrangê-lo a deixar o seu endereço. Talvez

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Integrando

um cartão, no qual podemos destacar a ficha (serrilhada) em duas partes, onde o chamamos bem vindo, poderá ser utilizado. Se o visitante veio por intermédio de algum membro da igreja, este poderá fornecer o seu endereço. Preferencialmente na semana seguinte deveria ser encaminhado uma correspondência (cartão ou carta) agradecendo-lhe pela visita e convidando-o novamente. Se porventura, o visitante já vem com freqüência, bom seria agendar um contato na sua própria casa para expor-lhe mais sobre as doutrinas da igreja e tirar as suas dúvidas. Isto poderá ser feito pela equipe de visitação ou pelo próprio pastor. f ) após o culto – Este é um dilema. Já vi muitos visitantes “no canto” e não serem acompanhados por ninguém. Neste momento, muitos membros da igreja estão preocupados com os “seus irmãos” e se esquecem daquele que pode se tornar também um dos nossos. Aqui também vale ressaltar qeu muitos membros são “apressados” e logo querem ir embora para as suas casas. Bom seria se todos pudessem participar de um momento de comunhão (com café, chá ou lanche). AsFevereiro e Março, 2011 | Teologia | 55


Missão: Acolhendo

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sim também o visitante seria “enturmado”. g) em situações constrangedoras – entre várias situações, menciono duas: 1) bêbados (mais comum) e 2) mendigos. Quando uma pessoa embriagada entra na igreja e não atrapalha o culto, não nos cabe tirá-la. Caso ele grite, converse alto ou crie situações embaraçosas, é recomendável que uma pessoa a tire do ambiente e, havendo possibilidade, converse com ela em particular. Há casos também em que pedintes entram na igreja e abordam um ou outro. Particularmente entendo que este não é o mo-

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mento e a pessoa deve ser encaminhada a assentar-se e assistir o culto. Também sou da opinião que o pastor ou outro líder, para evitar constrangimentos maiores entre os membros, não divulgue que haja um pedinte na igreja, especialmente porque nem sempre conhecemos o caso e encontramos muitos “oportunistas” e a igreja é um dos seus grandes alvos.

mas pela palavra anunciada (pregação), pelas músicas, liturgias, etc. Portanto, se estamos intencionados também nos outros, precisamos nos preparar cada vez melhor, evitando monotonia nos cultos, etc. É preciso também, nos adequar aos novos momentos. Não há necessidade em realizar cultos mórbidos. O culto é a expressão da alegria que está em nossos corações, mesmo que acompanhados de muita dor, sofrimento, dificuldades, etc. Acredito que estas colocações Que estas reflexões nos ajudem nos ajudarão a refletir sobre a nossa na prática de levar Cristo Para toprática. Também não podemos nos dos! esquecer que o visitante volta não Rev. Waldyr Hoffmann é pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil em Joinville-SC só porque recebeu um bom “tratamento” por parte dos membros,


Rev. Jarbas Hoffimann

Pesquisa e Adaptação

O Galo cantando Um

dos símbolos da Pai- a figura de Pedro aparece em moO galo nos chama a fazer o conxão de Cristo é o Galo vimento entre os apóstolos, o galo trário do que Pedro fez, ou seja, a Cantando. Este pode ser visto den- canta. confessar Cristo. Nosso Salvador tro de igrejas e no topo das torres disse: “Se uma pessoa afirmar pude templos. No momento do blicamente que pertence a mim, eu julgamento de Jesus, perante o também, no Dia do Juízo, afirmarei Sinédrio, Pedro estava se aquediante do meu Pai, que está no céu, cendo numa fogueira na corte do que ela pertence a mim.” (Mateus palácio do sumo sacerdote. Lá ele 10.32). E uma vez mais nos diz: negou conhecer ou estar ligado ao “Então vigiem, pois vocês não saSenhor. O galo cantando relembra bem quando o dono da casa vai volaquele evento. tar; se será à tarde, ou à meia-noite, Para alertar ao apóstolo do que ou de madrugada, ou de manhã.” estava à frente, Jesus disse a ele na (Marcos 13.35). Vigilância e pronnoite anterior: “nesta mesma noite, tidão para confessar são marcas de antes que o galo cante, você dirá três uma fé alerta. vezes que não me conhece.” O “can“Se você disser com a sua boca: tar do galo” foi o termo usado para ‘Jesus é Senhor’ e no seu coração definir a terceira hora ou divisão da crer que Deus ressuscitou Jesus, noite. O evangelista Marcos registra você será salvo.” (Romanos 10.9). que depois da terceira negativa de Pedro, “Naquele instante o galo cantou pela segunda vez”. Isto aconteceu de manhã, bem cedo na Sexta-Feira Santa. O galo cantando foi encontrado em muitas esculturas e pinturas, como se quisesse ajudar os cristãos a se lembrarem que não só Pedro, mas todos nós vivemos em tempos de tentação a negar nosso Senhor. Esta é a mensagem do galo empoleirado no alto do grande relógio da catedral de Estrasburgo. Sempre que Fevereiro e Março, 2011 | Teologia | 57


Estudo Bíblico

Rev. Ewerton Gustavo Wrasse

Significado da

Quar 1. SIGNIFICADO DA QUARESMA a. Do latim quadragésima, é o período de 40 dias antes da festa da ressurreição de Jesus Cristo (páscoa). b. Tem início na quarta feira de cinzas, ao meio dia, e término na semana da paixão (mais precisamente no Domingo da Páscoa), que inicia com o Domingo de Ramos (entrada triunfal de Jesus em Jerusalém). c. 40: número comum na Bíblia: i. 40 dias do dilúvio; ii. 40 anos de peregrinação do povo judeu pelo deserto; iii. 40 dias de Moisés e de Elias na montanha; iv. 400 anos que durou o exílio egípcio; v. 40 dias que Jesus passou no deserto sendo tentado. vi. 40 dias após a ressurreição de Cristo, provando sua vitória. 2. SURGIMENTO DA QUARESMA a. A única festa religiosa no início do cristianismo era a celebração semanal da ressurreição do Senhor. i. Os cristãos transformaram o 1º dia da semana, que os romanos chamavam de “dia do sol”, em “dia do Senhor”, o verdadeiro sol da justiça. ii. Mais tarde, instituíram o Domingo dos 58 | Teologia | Fevereiro e Março, 2011

domingos, uma grande festa realizada anualmente, onde era primeiro era realizada uma vigília de orações e, em seguida, a celebração eucarística (Santa Ceia). b. Séc. III: a Páscoa começou a ser celebrada em três dias (sexta, sábado e domingo). c. Séc. VII: papa Gregório I, em 604 a.D., instituiu o tempo de 40 dias antes da páscoa para preparação, com jejum e orações, onde o povo deveria evitar sexo, carnes vermelhas e festas. i. Este período teria início no dia intitulado “Quarta-feira de cinzas” 1. Antigo ritual católico em que os devotos são abençoados com cinzas pelo padre (o padre marca a testa de cada fiel, relembrando a antiga tradição bíblica de jogar cinzas sobre a cabeça como símbolo de arrependimento perante Deus – Gn 3.19: porque tu és pó e ao pó tornarás). 2. Também em diversos relatos bíblicos, personagens jogam cinza sobre a cabeça como sinal de luto // tristeza // arrependimento – Lv 6, Nm 19.17ss, Et 4.1,3, Jó 42,6. ii. CURIOSIDADE: os dias antes da quarta-feira de cinzas começaram a ser de


Estudo Bíblico

resma intenso consumo de carnes, bebidas e festas. A esse período deu-se o nome de “adeus à carne”, ou “carne vale” em italiano, que depois passou a ser conhecido como “carnevale”. Escreve Felipe Ferreira, autor de “O livro de ouro do carnaval brasileiro”: “As ruas enchiam-se de gente fazendo tudo aquilo que não se devia ou não se podia fazer durante o resto do ano. [...] O que dava o caráter especial ao carnaval era a grande concentração de brincadeiras num mesmo período, a proximidade com a longa abstinência com a Quaresma e o fato de a coisa toda ter dia e hora marcados para acabar”. 1. Estes dias de festa começaram a ser apoiados (embora não oficialmente) pela própria igreja, que dessa maneira podia cobrar mais rigor religioso no período pós-folia. 3. SÍMBOLOS DA QUARESMA E DA PÁSCOA a. Ovos: representam o final da quaresma. Simbolizam o nascimento, pois, aparentemente morto, rompe as paredes externas b. para o surgimento de uma vida.Coelho: Representa a fecundidade, a reprodução constante da vida. Está associado ao crescimento exponencial da igreja, através do testemunho dos cristãos. 4. COMO O CRISTÃO SE PREPARA NA QUARESMA. a. Antigamente, as pessoas reservavam a qua-

resma para um período de meditação e cultos especiais. Procuravam evitar tudo o que pudesse atrapalhar esta devoção. O tempo de descanso e de lazer era usado para meditação e oração. Assim, após o trabalho no fim do dia, as pessoas se dirigiam diariamente às suas igrejas para as meditações quaresmais. Alguns preferiam fazer sua devoção em casa. Nos anos 50 isso ainda se fazia sentir de forma palpável em Porto Alegre. As programações radiofônicas refletiam o tempo da paixão. Também não se realizavam competições esportivas. Hoje vivemos em tempos diferentes. Mesmo assim, cada cristão, cada família cristã e cada congregação deveria lutar por encontrar tempo para a meditação e os cultos quaresmais (Horst Kuchenbecker). b. Em o que meditar? Meditamos na pessoa e obra de Jesus Cristo, o nosso Salvador. i. Jesus veio cumprir tudo o que estava escrito a seu respeito – Lc 18.31: Tomando consigo os doze, disse-lhes Jesus: Eis que subimos para Jerusalém, e vai cumprir-se ali tudo quanto está escrito por intermédio dos profetas, no tocante ao Filho do Homem. 1. Tudo, em minúcias, foi cumprido por Jesus... ii. Jesus chamou pessoas ao arrependimento e à fé – Mt 4.17: Daí por diante, passou Jesus a pregar e a dizer: Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus. Fevereiro e Março, 2011 | Teologia | 59


Estudo Bíblico

Também Jo 14.6: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim. iii. Nossa razão não compreende o sofrimento de Cristo. O Cristo crucificado é “escândalo para os judeus e loucura para os gentios” (1 Co 1.23). Em outras palavras, nossa razão não aceita a solução que Deus encontrou para a nossa miséria, a nossa pecaminosidade. O amor de Deus é escândalo para a nossa razão corrompida pelo pecado. Por isso, quando alguém chega à fé na graça de Cristo e é conservado nesta fé isto é, ainda hoje, o maior milagre que acontece debaixo do céu. “Pois ninguém pode dizer (isto é, confessar com fé) Senhor Jesus (reconhecer Jesus como Salvador e vencedor do pecado, da morte e do poder de Satanás), senão pelo (poder do) Espírito Santo” (1 Co 12.3). iv. Jesus humilhou-se profundamente – Fp 2.6-8: Pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz. v. Porque Jesus humilhou-se? – Is 53.4-5: Certamente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus e oprimido. Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados. Ou seja: por amor a nós... vi. Na oração do Getsêmani – Mt 26.39: Meu Pai, se possível, passe de mim este cálice! Todavia, não seja como eu quero, e sim como tu queres. vii. Perguntamos: Não haveria mesmo outro caminho para salvar a humanidade do que pelo amargo sofrer e morrer de Jesus? Não, não havia. O amor não anula 60 | Teologia | Fevereiro e Março, 2011

a justiça. A lei precisou ser cumprida e a culpa precisou ser paga, para que Deus pudesse perdoar. Então vieram os fariseus e os soldados, guiados por Judas para o prenderem. Por amor a toda a humanidade, por amor a ti e a mim, Jesus se entregou voluntariamente a eles. viii. Somos, pela fé na graça de Cristo, filhos de Deus. Somos novas criaturas e templos do Espírito Santo. Temos uma mente nova, uma nova visão da vida, e novas forças. ix. Temos alegria em servir a Cristo – Sl 119.77: Baixem sobre mim as tuas misericórdias, para que eu viva; pois na tua lei está o meu prazer. x. Vivemos “em novidade de vida” – Rm 6.4: Fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida; Também Rm 7.6: Agora, porém, libertados da lei, estamos mortos para aquilo a que estávamos sujeitos, de modo que servimos em novidade de espírito e não na caducidade da letra. 1. Isto se expressa pelo apego à Palavra de Deus e aos cultos, pelo orar sem cessar (1 Ts 5.17: Orai sem cessar), bem como na luta diária contra o pecado (Gl 5.16-26: Digo, porém: andai no Espírito e jamais satisfareis à concupiscência da carne. Porque a carne milita contra o Espírito, e o Espírito, contra a carne, porque são opostos entre si; para que não façais o que, porventura, seja do vosso querer. Mas, se sois guiados pelo Espírito, não estais sob a lei. Ora, as obras da carne são conhecidas e são: prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissensões, facções, invejas, bebedices, glutonarias e coisas semelhantes a estas, a respeito das quais eu vos declaro, como já, outrora, vos preveni, que não herdarão o reino de


Estudo Bíblico

Deus os que tais coisas praticam. Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio. Contra estas coisas não há lei. E os que são de Cristo Jesus crucificaram a carne, com as suas paixões e concupiscências. Se vivemos no Espírito, andemos também no Espírito. Não nos deixemos possuir de vanglória, provocando uns aos outros, tendo inveja uns dos outros). a. Aquele que não se apega a isso, torna-se negligente e, desta forma, estará para sempre condenado. xi. Jesus nos governa. No seu reino impera a

graça, o perdão dos pecados. 5. CONCLUSÃO: a. A Quaresma é um tempo ótimo para fortalecermos nossa intimidade com Deus. É uma oportunidade de enfraquecermos o nosso apetite pelas coisas que não nos podem salvar e nos concentrarmos naquele que é o centro da nossa fé: Jesus Cristo. b. Promessa: Desejo, na Quaresma, servir a Deus verdadeiramente e, preparando-me neste período, assim continuar servindo-o durante todo o resto do ano.

Rev. Everton Gustavo Wrasse é pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil, na Serra-ES.


Liturgia

Rev. Germano Neumann

A teologia de nossa

1ª - Deus fala a nós, faz e age em nós? A primeira é conhecida como “theologia prima”: a) Teologia maior, melhor, superior, teologia primeira. Por isso mesmo, liturgia primordial, ou primária. b) É liturgia sacramental: Gottes + dienst = serviço de Deus para nós. Que deixa Deus ser Deus. Que deixa Deus aair. Primeiro lugar para Deus, sempre. c) Todas as partes da liturgia estão atreladas entre si e convergem todas para os meios da graça: Batismo, Santa Ceia e Evangelho. d) Esta theologia prima é e, deve ser sempre, cristocêntrica. e) Ela é, igualmente, escatológica. A segunda é conhecida como “theologia secunda,” ou teologia secundária. a) É a teologia em que o ser humano fala e, Deus silencia e, ouve. b) O ser humano fala a Deus e pede. c) Fala de Deus, da Sua Palavra, dos seus milagres, das Suas maravilhas, das Suas obras e adora. O problema maior acontece, quando a teologia primária é relegada à secundária e vice-versa. Explico: a) Falamos mais que Deus na liturgia. Alçamos a teologia secundária à primária e, acabamos abafando, ou até silenciando a voz de Deus. b) anto mais ativismo nosso, menos atividade sobra para Deus. 62 | Teologia | Fevereiro e Março, 2011

c) E quais as consequências maiores daí? 1) Enfraquece a liturgia; 2) Ela perde o seu poder e a sua ação; 3) Ela passa a ser uma colcha de retalhos e, cai por si; 4) E pede, automaticamente, o novo e a novidade; 5) Haja fôlego e criatividade para eternas novidades; 6) Lança todos em um círculo vicioso, corroído e raso; 7) Enfraquece, igualmente, a teologia; 8) Enfraquece e relativiza a doutrina e, depois, a praxe; 9) Traz crise espiritual, em que os adoradores sentem um Deus distante, ou, até ausente, em seu culto e vida; 10) Culto, liturgia, doutrina, fé, Deus passam a ser uma coisa chata, cansativa, mutável, adiáfora, supérflua; 11) Culto passa a ser um hobby entre outros. Um «hobby de muito mau gosto»; 12) Acaba com a identidade e uniformidade bíblica e, cristã; 13) A liturgia, então, passa a ser dispersiva, fragmentária, dissolutiva e divisionista; 14) Ela perde o seu poder intrínseco e aglutinador; 15) Ela traz consigo o poder da anomia, do vale tudo;


Liturgia

2ª - Nós falamos a Deus, nós fazemos e agimos? 16) Ela traz consigo o «entusiasmo pentecostal e carismático.» Sim, quem entre estes, usa liturgia Liturgia, bem como teologia, é para ser guardada debaixo de sete chaves, com todo ardor, carinho e amor. Sim, porque ela é: a) Profundamente hermenêutica;

b) atequética; c) Didática; d) Primordialmente evangélica, ativa e aglutinadora. Que tal, vamos parar e analisar a nossa prática de Liturgia e teologia? Ecclesia semper reformanda!

Rev. Germano Neumann é pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil, em Tapes-RS.

Fevereiro e Março, 2011 | Teologia | 63


Litúrgica: Período

de

Comissão de Culto da IELB

Quaresma

Sugestão Litúrgica para a Quaresma Veja uma sugestão de liturgia para o período de Quaresma. Aqui aparece sem a formatação adequada para uso prático no culto. Caso queira formatar à vontade, este texto pode ser usado. Caso queira o material finalizado, verifique no blog da Comissão de Culto da IELB (www.liturgialuterana.blogspot. com). Lá você encontra o material para imprimir, bem como para ser projetado. E várias outras sugestões de liturgias.

Legenda: P Pastor

de pé

C Congregação

sentados

T Todos

ajoelhados

|: Repetir o canto.

cantar

1. Hino 2. Invocação P.: Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. C.: Amém. P.: Ó SENHOR Deus, não me repreendas quando estiveres irado! Não me castigues no teu furor. C.: Tem compaixão de mim, pois me sinto fraco. Dá-me saúde, pois o meu corpo está abatido, P.: e a minha alma está muito aflita. Ó Deus, quando virás me curar? C.: Vem salvar a minha vida, ó SENHOR Deus! Por causa do teu amor, livra-me da morte. T.: O SENHOR Deus escuta quando peço ajuda e atende as minhas orações. (Salmo 6.1-4,9)

3. Confissão e Absolvição P.: Estamos aqui falando em nome de Cristo, como se o próprio Deus estivesse pedindo por meio de nós. Em nome de Cristo nós pedimos a vocês que deixem que Deus os transforme de inimigos em amigos dele. C.: Em Cristo não havia pecado. Mas Deus colocou sobre Cristo a culpa dos nossos pecados para que nós, em união com ele, vivamos de acordo com a vontade de Deus. (2 Coríntios 5.20-21) P.: O período da Quaresma é um tempo especial em que a Palavra de Deus nos faz olhar para aquilo que Jesus fez a fim de pagar pelas nossas desobediências e pecados. Por isso, chegamos diante dele arrependidos e confessamos os nos64 | Teologia | Fevereiro e Março, 2011

sos pecados, dizendo: C.: Querido Senhor, confessamos que somos pecadores por natureza. Pecamos contra ti por pensamentos, palavras e ações. Cedemos diante das tentações do diabo. Desobedecemos à tua vontade. Deixamos de olhar para o nosso irmão e não o acolhemos em nosso coração nem o integramos em nossa vida pessoal e da congregação. Perdoa-nos, Senhor, por causa de Jesus Cristo, o bom Pastor que dá a vida pelas suas ovelhas, que morreu e ressuscitou para que todos sejamos teu rebanho e tenhamos vida eterna. P.: Tudo isso é feito por Deus, o qual, por meio de Cristo, nos transforma de inimigos em amigos dele. E Deus nos deu a tarefa de fazer com que os outros também sejam amigos dele. (2 Coríntios 5.18). Por isso, como servo de Deus chamado e ordenado, anuncio-lhes a graça de Deus, e em nome e por ordem do Senhor Jesus Cristo, perdoo todos os pecados de vocês, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. C.: A nossa mensagem é esta: Deus não leva em conta os pecados dos seres humanos e, por meio de Cristo, ele está fazendo com que eles sejam seus amigos. E Deus nos mandou entregar a mensagem que fala da maneira como ele faz com que eles se tornem seus amigos. (2 Coríntios 5.19)

4. Intróito (Veja Culto Luterano – Lecionários)

5. Kyrie P.: Por causa do teu amor, ó Deus, tem misericórdia de mim. (Salmo 51.1a) C.: Tem misericórdia de mim, ó Deus, tem misericórdia, pois em ti procuro segurança! (Salmo 57.1) P.: Tem compaixão de mim, Senhor, pois eu oro a ti o dia inteiro! (Salmo 86.3) C.: Olha de novo para mim e tem misericórdia de mim; dá-me a tua força e salva-me, pois eu te sirvo. (Salmo 86.16)

6. Oração do Dia (Veja Culto Luterano – Lecionários)

7. Hino 8. Leitura do Antigo Testamento (Veja Culto Luterano – Lecionários)

9. Leitura da Epístola (Veja Culto Luterano – Lecionários)


Litúrgica: Período

10. Gradual P.: Conservemos os nossos olhos fixos em Jesus, C.: Pois é por meio dele que a nossa fé começa, e é ele quem a aperfeiçoa. P.: Ele não deixou que a cruz fizesse com que ele desistisse. C.: Pelo contrário, por causa da alegria que lhe foi prometida, P.: Ele não se importou com a humilhação de morrer na cruz C.: E agora está sentado do lado direito do trono de Deus. (Hebreus 12.2) T.: [VERSO] (Veja Culto Luterano – Lecionários)

11. Evangelho (Veja Culto Luterano – Lecionários)

12. Mensagem 13. Credo Niceno 14. Recolhimento das Ofertas—Hino 15. Oração Geral da Igreja P.: Ó Cordeiro de Deus, que tiras o pecado do mundo, agradecemos-te porque derramaste o teu sangue sobre a cruz para que pudéssemos ter vida abundante e eterna. C.: Olha para nós, Senhor, liberta-nos de nossos pecados e salva-nos por causa do teu amor sem fim. P.: Ó Cordeiro de Deus, fortalece a nossa fé em tua vida, morte e ressurreição, para que em meio aos problemas deste mundo, à tentação do diabo e à doença da nossa natureza pecaminosa possamos conhecer a tua paz, vivendo na confiança de que és o nosso bom Pastor. C.: Olha para nós, Senhor, e pela tua Palavra e pelos sacramentos, livra-nos do mal. P.: Ó Cordeiro de Deus, assim como nos acolheste em teu Reino nas águas do Batismo, perdoando o pecado, criando a fé e nos colocando em tua família, ajuda-nos a levar a tua Palavra de salvação a muitos que vivem ao nosso redor. E, quando forem chamados por ti a virem até este santo lugar, ajuda-nos a amá-los assim como nos amaste, para que sejam parte do teu corpo, a santa Igreja Cristã. C.: Olha para nós, Senhor, e faze com que sempre confessamos que tu és o Cristo, o nosso bom Pastor, que dá a vida pelas suas ovelhas. (Pedidos adicionais podem ser acrescentados.)

16. Ofertório C.: Cria em mim, ó Deus, um puro coração e reno-

de

Quaresma

va em mim espírito reto. Não me lances fora da tua presença e não retires de mim o teu Espírito Santo. Torna a dar-me a alegria da tua salvação e sustém-me com um voluntário espírito. Amém.

17. Prefácio e Sanctus P.: O Senhor esteja convosco. C.: Ele está no meio de nós. P.: Elevai os corações. C.: Ao Senhor os elevamos. P.: Rendamos graças ao Senhor, nosso Deus. C.: É digno e justo. P.: É verdadeiramente digno, justo e do nosso dever, que em todos os tempos e em todos os lugares te demos graças, ó Senhor, santo Pai, onipotente, eterno Deus, mediante Jesus Cristo, nosso Senhor, C.: Que venceu os assaltos do diabo e deu sua vida como resgate por muitos, a fim de que, com corações limpos, possamos ser preparados com alegria para celebrar a festa da Páscoa com sinceridade e verdade. P.: Portanto, com os anjos e arcanjos e com toda a companhia celeste, louvamos e magnificamos o teu glorioso nome, exaltando-te sempre, dizendo: T.: Santo, santo, santo Senhor, Deus de força e poder; céus e terra cheios estão de tua glória. Hosana, Hosana, Hosana nas alturas. Bendito aquele que vem em nome do Senhor. Hosana nas alturas!

18. Pai-Nosso T.: Pai nosso, que estás nos céus. Santificado seja o teu nome. Venha o teu reino. Seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia nos dá hoje. E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós também perdoamos aos nossos devedores. E não nos deixes cair em tentação. Mas livra-nos do mal. Pois teu é o reino, e o poder, e a glória, para sempre. Amém.

19. Palavras da Instituição P.: Nosso Senhor Jesus Cristo, na noite em que foi traído, pegou o pão, e, tendo dado graças, o partiu e o deu aos seus discípulos, dizendo: Peguem, comam, isto é o meu corpo (†), que é dado por vocês; façam isto em memória minha. E, semelhantemente, também, depois da ceia, pegou o cálice e, tendo dado graças, o entregou, dizendo: bebam todos deste; este cálice é o Novo Testamento no meu sangue (†), que é derramado por vocês para remissão dos pecados; façam isto, quantas vezes o beberem, em memória minha. Fevereiro e Março, 2011 | Teologia | 65


Litúrgica: Período

de

Quaresma

20. Pax Domini P.: Que a Paz do Senhor Jesus esteja com todos vocês hoje e sempre. C.: E com você também. T.: Amém.

21. Agnus Dei C.: Cordeiro Divino, morto pelo pecador, sê compassivo. Cordeiro Divino, morto pelo pecador, sê compassivo. Cordeiro Divino, morto pelo pecador, a paz concede. Amém.

22. Distribuição (Canta-se hinos)

23. Ação de Graças P.: Senhor Deus, que nos alimentaste com o corpo e sangue do Cordeiro de Deus, dados no pão e vinho, rogamos que este alimento fortaleça a

nossa fé o nosso amor por ti e pelas outras pessoas; por Jesus Cristo, teu Filho, nosso Senhor. C.: Acolhidos e integrados por ti, queremos acolher e integrar, sendo instrumentos na tua mão para que muitos se tornem teus amigos e vivam contigo. Amém.

24. Bênção P.: Recebam a bênção do Senhor. O Senhor abençoe e guarde vocês. O Senhor faça resplandecer o rosto sobre vocês e tenha misericórdia de vocês. O Senhor, sobre vocês, levante o rosto e dê a paz. C.: Amém. Amém. Amém.

25. Hino Final 26. Comunicações, anúncios e despedida

Liturgia completa e em diversos formatos no blogue Liturgia Luterana. Inclusive as melodias para as partes cantadas, sugeridas nesta liturgia. www.liturgialuterana.blogspot.com

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Direto ao Ponto

Desafio de Shrek O

casamento religioso à fantasia em Garibaldi, RS, mostra bem o jeito alucinado da vida. Vestidos de Fiona e Shrek, o desejo dos noivos diante do altar expressa a síndrome humana “do fazer de conta” – que virou epidemia. Os padrinhos com roupas de príncipes e princesas, os pais dos noivos de reis e rainhas, as crianças com alegorias de Dragão, Burrinho, Branca de Neve, os convidados caracterizados dos contos infantis – uma cena surreal que diz tudo sobre esta sociedade de castelos de areia. Fiquei pensando na história dessa famosa animação, para dizer o seguinte: precisamos imitar o ogro Shrek, e expulsar as criaturas mágicas que invadem o nosso “pântano”. Esta é a ameaça – a vida transformada numa aventura de desenho animado. De ficar adulto, mas ainda “brincar” de casinha, de carrinho, de vídeo game, de ganhar e perder. De fazer de conta que casamos, que temos família, que trabalhamos, que somos felizes. No imaginário de ser bem sucedido, vestir a alegoria de soberanos, alucinados

na miragem de reinos e castelos. Sem dúvida, temos um desafio parecido com o do Shrek, de espantar as ilusões e viver a realidade. Viver a realidade? Vale à pena? Ela é tão dura, exigente, cruel. Por que não levar a vida na brincadeira? Seria o caminho, se o dragão fosse apenas fábula. Ele existe e expele violentamente sobre nós suas labaredas. Podemos até aprisioná-lo atrás de máscaras e alegorias, mas um dia ele surge em inevitáveis tragédias. Por isto a advertência: “Viva alegre durante todos os anos da sua vida. Mas, mesmo que você viva muitos anos, lembre que ficará morto durante muito mais tempo. Tudo o que acontece é ilusão” (Eclesiastes 11.8). Seria tudo ilusão se não fosse “a realidade de Cristo” (Colossenses 2.17). Que para alguns é também pura fantasia. Mas, uma certeza para aqueles que são chamados de igreja – que vem “de Deus, enfeitada e preparada, vestida como uma noiva que vai ser encontrar com o noivo”, para viver no reino celestial onde “não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor” (Apocalipse 21.1-4).

Rev. Marcos Schmidt é pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil em Novo Hamburgo-RS


RT003  

Revista Teologia e Prática - Produzida em conjunto por pastores da Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB).

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