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Ano 1, Nº 1 Produzida por Pastores da Igreja Evangélica Luterana do Brasil

REFORMA Luterana: 493 anos - Habacuque e a justificação pela fé — um tema central da Reforma em um estudo profundo. p. 48.

- Hino Castelo Forte em dois arranjos, p. 44 - Hino Bênção da Irlanda. p. 46 - Liturgia para Período do Advento. p. 66.

- O pastor e sua vida devocional. p. 58. - A Reforma. p. 4.

- 493 anos depois voltamos a Somente, p. 47. - Mistura Indigesta, p. 71.


EXPEDIENTE

Publicação mensal de pastores da Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB) não oficial. Tem como propósito divulgar textos teológicos/ pastorais, inéditos ou não, produzidos por pastores da IELB, recuperar textos teológicos escritos no passado e que não estão disponíveis na Internet, divulgar de forma mais abrangente a teologia evangélica luterana confessional e a reflexão teológica na IELB, e ser uma ferramenta prática para as atividades ministeriais em suas diferentes áreas. Os conteúdos são de responsabilidade dos seus autores.

Colaboradores desta edição:

Comissão de Culto; David Karnopp; Dieter J. Jagnow; Edson R. Tressmann; Egon M. Seibert; Jarbas Hoffimann; Lindolfo Pieper; Luisivan V. Strelow; Marcos Schmidt; Márlon H. Antunes.

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Rev. Dieter Joel Jagnow (editor) Rev. David Karnopp Rev. Jarbas Hoffimann Rev. Mário Rafael Yudi Fukue Rev. Waldyr Hoffmann

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Apresentação da Revista EletrônicaTeologia&Prática A revista Teologia&Prática é uma iniciativa de pastores da Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB). Ela não tem caráter oficial. Seu objetivo básico é coletar e compartilhar bimestralmente, de forma organizada, via Internet, textos teológicos/pastorais, inéditos ou não, produzidos por pastores da IELB e que regularmente circulam em listas da Igreja. Além disso, procura recuperar textos teológicos escritos no passado e que não estão disponíveis na Internet. Um objetivo subjacente é a intenção de divulgar de forma mais abrangente a teologia evangélica luterana confessional e a reflexão teológica na IELB. Além de possibilitar a reflexão teológica, a revista quer ser uma ferramenta prática para as atividades ministeriais em suas diferentes áreas.

Critérios 1. A produção da revista é coordenada por voluntários. Um (ou mais) editor é responsável para que exista um mínimo de organização na diferentes fases do processo. 2. A revista é fechada em PDF e carregada em um depósito da Internet, de onde poderá ser baixada livremente. 3. A revista tem circulação bimestral. Não há um número fixo de páginas. 4. Um blogue serve de apoio para as edições, a fim de possibilitar a sua divulgação pelos mecanismos de busca da Internet. 5. A revista é aberta a todos os pastores da IELB interessados em compartilhar seus textos (meditações, estudos homiléticos, sermões, resenhas, ensaios, etc.), inéditos ou não. Cada autor é responsável pelo seu texto (doutrinária, gramática e ortograficamente). Os textos devem ser enviados ao editor. Nota: O editor pode recusar — ou solicitar que seja revisado — algum texto, caso julgue que ele afronte a doutrina da IELB. Para tanto, se necessário, conta com voluntários para a avaliação. Não serão utilizados textos de conteúdo político-partidário, que promovam o ódio ou a discriminação ou que firam os princípios e valores da Igreja. 6. A publicação dos textos enviados não é imediata. Existe uma tentativa de se ter variação de conteúdos em uma edição e em edições subsequentes. O editor informa ao autor a situação de cada texto recebido. 7. Há uma pauta mínima, no sentido de se buscar conteúdos que de alguma forma abordem questões pontuais (exemplo: Reforma, eleições, Natal). A pauta completa é determinada de acordo com as colaborações recebidas, conforme a ordem de chegada. 8. O organograma de produção é este: a) Lançamento: até o dia 25 do segundo mês da edição b) Preparação / Diagramação: do dia 1 ao dia 20 do segundo mês da edição c) Recebimento dos textos: até o dia 20 do primeiro mês da edição e-mail: revistateologia@gmail.com blogue: http://revistateologia.blogspot.com tuíter: http://twitter.com/revistateologia


História da Reforma, p. 4

A Importância dos Hinos de Lutero, p. 30

Graça, lei e evangelho, p. 20 Indulgências, p. 8

Habacuque e a justificação pela fé, p. 48 - 493 anos depois, voltamos ao Somente, p. 47 - Liturgia para o Período de Advento 2010, p. 66 - Lutero e os caminhos da liberdade, p. 40 - Lutero prega sobre o ministério pastoral, p. 38 - Mistura Indigesta, p. 71 - Música Bênção da Irlanda, p. 46 - Música Castelo Forte, p. 44 - Sermão sobre o Hino Castelo Forte, p. 42 - Todos os Santos, p. 41 - Um Tesouro desenterrado na Reforma, p. 70

O pastor e a vida devocional segundo Martinho Lutero, p. 58


Rev. Lindolfo Pieper

A História da

REFORMA No

dia 31 de outubro comemoramos o dia da Reforma. Por isso, aproveitando a ocasião, queremos usar este espaço para falar um pouco sobre a Reforma Protestante, o grande acontecimento que despertou a atenção de todos no século 16. A Reforma é, depois do advento do Cristianismo, o maior acontecimento da história. Partindo da religião, a Reforma deu um poderoso impulso a todo movimento progressista e tornou o protestantismo a força propulsora na história da civilização. Por causa do seu conteúdo e concisão, na elaboração deste trabalho valemo-nos em parte como fonte de pesquisa do livro O Homem e o Sagrado, da Editora ULBRA.

nham contra a excessiva autoridade do papa, a supremacia da tradição sobre as Escrituras, a imoralidade do clero (celibato), a adoração das imagens, a doutrina do purgatório e a negação do cálice aos leigos. O trabalho desses precursores serviu para pavimentar o caminho para a Reforma Protestante no século 16, cujo grande líder foi o doutor Martinho Lutero.

2. Causas da Reforma

Houve vários fatores que contribuíram para que a Reforma acontecesse, como políticos, econômicos, intelectuais e religiosos. A igreja teve grande força política na Idade Média, mas no final desse período começou a perder o seu prestígio. O papado perdeu credibilidade com o cisma do Ocidente, 1. Os precursores da com a transferência da sua sede para Reforma Avignon e a influência do monarca Durante a Idade Média, muitas francês nas decisões da igreja. Neste contexto surgiram persopessoas se levantaram contra os erros da igreja. São os assim chamados nagens que atacaram a autoridade religiosa, que foram precursores da reforchamados de hereHouve vários ma. Mas o mundo não ges e condenados à fatores que estava preparado para fogueira, como Sacontribuíram para recebê-los, de modo vanarola, Wicliff e que foram reprimidos que a Reforma João Huss. com violentas peracontecesse, como Nesse período seguições, sendo na políticos, econômicos, a igreja vivia uma maioria queimada no intelectuais e grande crise infogo como hereges. religiosos. terna. Os papas se Basicamente, esses preocupavam mais movimentos se opu4 | Teologia | Outubro e Novembro, 2010

com as questões administrativas do que com a fé. Eles eram acusados de nepotismo e corrupção, de empregar parentes e de tirar dinheiro do povo para financiar obras de artes e campanhas militares. Papas como Júlio II e Leão X tiveram uma excessiva preocupação com questões materiais, favorecendo assim a corrupção reinante entre muitos sacerdotes. Os abusos cometidos por grande parte do clero foram outra causa da Reforma. As riquezas da igreja faziam com que homens, sem a verdadeira vocação religiosa, pensando apenas nos lucros, seguissem a carreira sacerdotal. Assim sendo, praticavam coisas censuráveis, como a venda de relíquias, o comércio de cargos, a simonia, a imoralidade e o abandono do celibato. A invenção da imprensa pelo cientista alemão João Guttemberg, em 1455, favoreceu a difusão da Bíblia, um livro que havia desaparecido na época. O movimento conhecido como Renascença despertou o interesse pela literatura clássica, pelo grego, latim e pelo hebraico, levando o povo a investigar os verdadeiros fundamentos da fé, independente dos dogmas da igreja. O espírito crítico dos humanistas fez com que muitos não aceitassem ideias religiosas que não tivessem uma base literal nas Escrituras Sagradas.


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purgatório irá sair”. Vários clérigos criticaram a atitude do papa em cobrar dinheiro pelo perdão dos pecados. Entre estes estava Lutero, que divulgou 95 teses, atacando o comércio das indulgências, afixando-as na porta da igreja de Wittemberg no dia 31 de outubro de 1517. Muitos intelectuais e religiosos aderiram às preposições de Lutero. A nobreza e o povo também. Em 1520 o papa expeliu uma bula, ameaçando-o de excomunhão caso não se retratasse. Lutero queimou a bula papal em praça pública, proclamando ser a Sagrada Escritura a única autoridade em questões de fé e conduta cristã. Em 1521 Lutero foi intimado pelo imperador Carlos V a comparecer à Dieta de Worms, a fim de se retratar. Lutero, porém, não se retratou, fazendo na ocasião uma memorável declararão diante do imperador: “A menos que eu seja convencido pelo testemunho das Sagradas Escrituras e por se achar presa a minha consciência pela Palavra de Deus, não posso e nem quero me 4. Indulgências retratar de coisa alguma, porque não é seguro e nem aconselhável proceder O papa Leão X, amante das arcontra a consciência. Aqui estou. Que tes, queria terminar a construção da Deus me ajude. Amém”. basílica de São Pedro. Para angariar fundos, intensificou a venda das inPor causa dessa sua atitude, Lutedulgências. ro teve que se refugiar no Castelo de O dominicano João Tetzel foi o Wartburgo, onde traduziu a Bíblia que mais se destacou na venda de para o alemão moderno e escreveu indulgências. Sua vinvários outros livros. Tão logo o da a uma cidade era Devido às quesanunciada com uma dinheiro no cofre cair, tões políticas, o impegrande pompa. Tet- a alma do purgatório rador deixou Lutero zel erguia um crucifitrabalhar em paz por irá sair. xo na praça e pregava algum tempo. Mas sobre os horrores do em 1529, Carlos V purgatório. Depois oferecia suas resolveu convocar a Dieta de Espiindulgências, dizendo: “Tão logo ra, onde foi decidido tolerar o luteo dinheiro no cofre cair, a alma do ranismo apenas onde ele já estivesse

O Humanismo, que foi um braMesmo sendo professor univerço da Renascença, se espalhou ra- sitário, Lutero continuou cuidando pidamente, formulando críticas à da sua paróquia em Wittemberg. À igreja e exigindo reformas radicais. medida que ia estudando a Bíblia, o Este estado de espírito preparou o Espírito Santo foi lhe revelando o terreno para as teses de Martinho Evangelho. Lutero. Certo dia, ao meditar no Salmo Porém a causa determinante que 22, depois em Romanos 1 e 3, recolevou Lutero a reformar a igreja foi nheceu que a graça é um presente de espiritual: o desvio Deus. Jubiloso, exclao estopim foi a da igreja dos ensinamou: “Fiquei alegre. mentos das Escrituras venda do perdão dos Abriu-se-me assim Sagradas, especialtoda a Escritura Sapecados, ou a assim mente no que dizia a chamada Questão das grada e o próprio céu”. respeito à salvação do Notou então o Indulgências. homem. E o estopim quanto a igreja hafoi a venda do perdão via se afastado do dos pecados, ou a assim chamada Evangelho. A igreja do Castelo de Questão das Indulgências. Wittemberg, por exemplo, possuía 19 mil relíquias, colecionadas pelo 3. Martinho Lutero eleitor Frederico o Sábio. Algumas Lutero nasceu no dia 10 de no- delas eram supostamente pedaços vembro de 1483 em Eisleben, pro- de madeira da manjedoura de Jesus, víncia da Saxônia, na Alemanha. Es- espinhos da coroa da cruz de Cristudou em Mansfeld, Magdeburgo e to e uma pena da cauda do Espírito mais tarde em Eisenach. Com 17 Santo. Ensinava-se que o culto presanos de idade ingressou na Univer- tado em tais igrejas reduzia as penas no purgatório. sidade de Erfurt. Durante os estudos em Erfurt, Lutero começou a ter conflitos de consciência, que o levava constantemente a se perguntar: “Como conseguirei a misericórdia de Deus?” Regressando, certo dia, para casa, foi surpreendido por uma grande tempestade. Lutero refugiou-se na floresta. Subitamente um violento raio caiu perto dele, partindo uma árvore pelo meio. Apavorado, Lutero prometeu se tornar monge, caso Deus lhe poupasse a vida. Lutero ingressou no mosteiro em 1505. Dois anos depois foi ordenado sacerdote. Em 1512 foi contratado para ser professor da universidade de Wittemberg, ocasião em que também recebeu o título de doutor em teologia.

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sido implantado e impedir a sua propagação para outros territórios. Os luteranos se rebelaram contra essa decisão, passando a partir daí a serem chamados de protestantes. Desejando restabelecer a unidade cristã em seus domínios, Carlos V convocou no ano de 1530 a Dieta de Augsburgo, solicitando aos luteranos que elaborassem por escrito a sua doutrina, a fim de se tentar uma reconciliação com os católicos. Como Lutero estava proscrito, encarregou Filipe Melanchton a executar essa tarefa. Melanchton redigiu um documento contendo 28 artigos, o qual foi chamado de Confissão de Augsburgo, que é ainda até hoje a confissão básica dos luteranos. Não foi possível uma conciliação entre católicos e luteranos. Carlos V resolveu então sufocar a rebelião com a utilização das armas. A guerra 6 | Teologia | Outubro e Novembro, 2010

civil entre católicos e protestantes se se alcança apenas por meio da fé; só mediante a graça de Deus é possível estendeu durante 20 anos. Em 1555, porém, com a assina- se chegar à fé. Além disso, Lutero tura do documento três grandes reduziu os sacramenPaz de Augsburgo, princípios: a Bíblia tos, em número de os protestantes obé a única fonte de fé; sete, para apenas dois: tiveram a liberdade a salvação se alcança Batismo e Santa Ceia. religiosa. A inquietação apenas por meio da fé; Simplificou o culto, passando a ser celereligiosa não se lisó mediante a graça brado na língua local mitou exclusivade Deus é possível se e não mais em latim. mente à Alemanha. chegar à fé. Lutero decretou o Em pouco tempo a fim da veneração aos Reforma se estensantos. Em seu lugar propôs a medeu por toda a Europa. Quando Lutero morreu, em 1546, as suas ditação e a leitura da Bíblia. Acaideias haviam sido completamente bou também com a ociosidade dos monges, transformando os mosteidifundidas em todo mundo. ros em escolas. Com o fim da hierarquia ecle5. Bênçãos da Reforma siástica, os sacerdotes se tornaram Os ensinamentos de Lutero se iguais aos demais fiéis, restandobaseiam em três grandes princípios: -lhes apenas o papel de guias espia Bíblia é a única fonte fé; a salvação rituais.


Outras bênçãos da Reforma são: a liberdade de pensamento, o livre exame das Escrituras e a valorização do indivíduo, do trabalho e da família.

6. Luteranismo

Muitos países aderiram ao movimento iniciado por Lutero, como a Alemanha, a Finlândia, a Suécia, a Noruega, a Dinamarca, a Boêmia, a Morávia, a Inglaterra, a Escócia, a Holanda, a Suíça e, em parte, a França, a Áustria e a Hungria. A Reforma provocou também uma reforma na Igreja Católica. O Concílio de Trento procurou pôr ordem na casa. Muitos admitem que, provocando a Contra-Reforma, Lutero tenha salvado a própria Igreja Católica. Em virtude da Reforma, surgiu na Europa uma nova ordem social caracterizada pelo pluralismo con-

fessional, respeito à consciência, ética, desenvolvimento social e progresso científico. Lutero, ao reformar a igreja, não tinha nenhuma intenção de fundar uma nova igreja. Sua preocupação era unicamente chamar a atenção dos líderes religiosos para os erros doutrinários que eles vinham cometendo e reformar internamente a igreja. Queria uma igreja como era nos tempos bíblicos, voltada à Bíblia, fundamentada sobre Cristo, pregando o amor e perdoando o próximo. Mesmo não querendo dividir a igreja, isso acabou acontecendo. Os líderes religiosos da época, em vez de admitir os erros da igreja, julgaram que Lutero era um falso mestre e o excomungaram da igreja. Fora da própria igreja, Lutero só viu uma maneira de continuar com a Reforma: criar uma nova comunidade re-

ligiosa. Hoje, a Igreja Luterana encontra-se espalhada pelos cinco continentes da terra. Espalhou-se pela Europa, caminhou para os Estados Unidos e mais tarde para outros países, chegando à América Latina e ao Brasil no final do século dezoito. A principal característica da Igreja Luterana é a fidelidade à Bíblia e a pregação cristocêntrica. A Igreja Luterana confessa e ensina que a Bíblia Sagrada é a clara, pura e infalível palavra de Deus; e que Cristo é o único caminho para se chegar a Deus, que só por meio da fé em Cristo é possível alcançar o céu. Sejamos gratos a Deus por pertencermos à Igreja Luterana e havermos herdade esse tão valioso legado, que são os ensinos do Reformador, doutor Martinho Lutero. Rev. Lindolfo Pieper - Jaru-RO pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil Outubro e Novembro, 2010 | Teologia | 7


Rev. Jarbas Hoffimann

Lutero e Luteranismo

Introdução

Sem

dúvida um dos fatos mais marcantes da história da Reforma é o que se comemora no dia 31 de outubro: a afixação das 95 teses na porta da igreja do castelo de Witenberg. O fato de que Lutero nesta época quereria reformar a igreja nas proporções que depois aconteceu é improvável. Mas ele não estava satisfeito com os rumos que se dava à Igreja. Por isso resolveu promover um debate para esclarecer a questão. Este estudo analisa as 95 teses de uma forma simples: olhando o teor das mesmas. Depois, olha novamente para as teses, mas agora no ângulo de um sermão de quase um ano depois. E por fim traz um pouco do pensamento que se pode captar de um escrito de Lutero sobre Daniel. Este escrito data de 1520. Há uma ressalva quanto às notas. Já que o material usado faz parte de uma mesma coleção as nossas que aparecem neste trabalho são bem diretas. Mostram a página, o volume de que procedem e, quando há, o parágrafo (§) onde se encontra na página.

1. As 95 Teses

Tinha apenas a intenção de esclarecer sobre as indulgências. “A indulgência está relacionada ao Sacramento da Penitência. Na Penitência, esperavam-se o arrependimento do pecador, a confissão na presença de um sacerdote, a absolvição e a satisfação imposta. Na satisfação, o pecador deveria fazer reparação ou expiação por causa do castigo que o pecado acarretava. Era opinião corrente que o pecado não só acarretava culpa, mas também castigo. Esse castigo deveria ser assumido aqui na terra ou expiado no purgatório. Na Alta Idade Média e na Idade Média Tardia desenvolveram-se, em conexão com o Sacramento da Penitência e com o surgimento da doutrina das indulgências, doutrinas que diziam respeito a questões de direito divino e de direito eclesiástico, ao purgatório e ao “tesouro da Igre-

INDULG ja”. Este seria formado pelos méritos excedentes de Cristo e dos santos, podendo ser usado pela Igreja para conceder indulgências a terceiros”.3

1.1. Uma História A melhor formulação histórica para o pano de fundo das 95 teses é encontrada junto a estas. Na introdução desse documento. Que é encontrado no volume um das obras de Lutero publicado pela Editora Concórdia. A data do documento é bastante conhecida. É “31 de outubro de 1517”1. E, segundo a introdução, as 95 teses não “tinham a intenção de deflagrar um movimento”2. 1. 1 1. 2

v. 1, p. 21. v. 1, p. 21.

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Nos é esclarecido que as indulgências, a princípio, não tinham o mesmo sentido que chagaram a alcançar na idade média. As indulgências, surgidas no século XI, diziam respeito, inicialmente, apenas aos castigos temporais impostos pela Igreja, mas tarde, aos castigos temporais que deveriam ser purgados no purgatório e, finalmente, também aos pecados de parentes já falecidos que estavam no purgatório”.4 Boa parte da motivação para propagar as indulgências era arrecadar fundos aprisionando as consciências em intranquilidade. Pois “A Cúria e o Estado papal dependiam em grande parte das rendas auferidas com a venda de indulgências”5. Para a cúria as indulgências eram garantia de renda financeira, para os fiéis um modo de escapar do purgatório e castigo eternos. 1. 3 1. 4 1. 5

v.1, p. 21. v. 1, p. 21. v. 1, p. 21.


Lutero e Luteranismo

Quando Lutero formulou as 95 teses ainda não havia “formulação dogmática”6 sobre o assunto indulgências, mas ele enfrentou o interesse financeiro da Cúria. Como se percebe ao ler as teses, elas não têm formulação radical ou polêmica. Um dos sinais deste caráter pacífico é que Lutero não exclui toda e qualquer indulgência, “limita-a, no entanto, às penas temporais impostas pela Igreja e volta-se contra a falsa segurança provocada pela indulgência”.7 Há um novo conceito de ministério: “segundo Lutero, o sacerdote só pode perdoar culpa como declaração de que ela já foi perdoada por Deus”.8 Isso foge à autoridade eclesiástica necessária para a existência da indulgência. E quanto ao desejo humano de se livrar da ira divina Lutero é enfático: “O cristão não deve fugir do castigo, mas assumi-lo como cruz”. As obras que o cristão deve realizar

poderíamos tê-lo agrupado segundo as nossas afirmações e proposições. Ignorando sua ordem. Mas pensamos que da maneira que está seria melhor, para a ênfase devida ao documento e à insistência em alguns pontos, como por exemplo que o papa não concordaria com o que se está fazendo das indulgências. A algumas teses não fizemos nenhum comentário, por isso elas seguem apenas para que o documento esteja completo. À sua frente pusemos apenas a expressão “sem comentários”. Por vezes recorremos ao documento chamado “Explicações do Debate sobre o Valor das Indulgências” de Agosto de 1518. Note-se o caráter pacífico já na introdução às teses: Por amor à verdade e no empenho de elucidá-la, discutir-se-á o seguinte em Wittenberg, sob a presidência do reverendo padre Martinho Lutero, mestre de Artes e de Santa Teologia e professor catedrático desta última, naquela localidade. Por esta razão, ele solicita que os que não puderem estar presentes e debater conosco oralmente o façam por escrito, mesmo que ausentes. Em nome do nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.10

são serviço ao próximo e não devem ser entendidas como atos em prol de seu aperfeiçoamento ou ainda como fuga aos castigos impostos por Deus e, como tais, úteis ao ser humano.9

Como dissemos na introdução histórica, a compreensão de Penitência é a compreensão católico-romana. Esta compreendia contrição, arrependimento, confissão e satisfação. Com esse pano de fundo se pode compreender melhor a primeira tese. 1. Ao dizer: "Fazei penitência", etc. [Mt 4.17], o nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo quis que toda a vida dos fiéis fosse penitência.

GÊNCIAS A caráter de crítica: À época de Lutero se convidava para o debate. Quantas vezes nós fazemos isso hoje? Nos fechamos na nossa Teologia e Tradição, afirmando que somos os únicos certos e não aceitamos, ou não temos coragem de debater, mesmo que seja para o esclarecimento. Se temos a verdade, por que não a mostramos a todos? Por que queremos ficar com ela só para nós? Somos incapazes de Debater? Ou porque não acreditamos que seja verdade?

1.2. As 95 Teses

Sem comentários. 2. Esta penitência não pode ser entendida como penitência sacramental (isto é, da confissão e satisfação celebrada pelo ministério dos sacerdotes). 3. No entanto, ela não se refere apenas a uma penitência interior; sim, a penitência interior seria nula, se, externamente, não produzisse toda sorte de mortificação da carne.

No que segue procuramos examinar teses por tese a fim de tentar ler o pensamento de Lutero. Para isso, às vezes pode o trabalho pode parecer repetitivo, pois 1. 1. 1. 1.

6 7 8 9

v.1, p. 21. v.1, pp. 21-22. v.1, p. 22. v.1, p. 22.

1. 10 o documento completo está no v. 1, das Obras de Lutero, das páginas 22 a 29. Outubro e Novembro, 2010 | Teologia | 9


Lutero e Luteranismo

Lutero nega que as indulgências possam livrar alguém das penas terrestres. 4. Por consequência, a pena perdura enquanto persiste o ódio de si mesmo (isto é a verdadeira penitência interior), ou seja, até a entrada do reino dos céus. Lutero mostra que o papa não tem nenhuma autoridade além daquela dada por Jesus. É, no mínimo, uma atitude de esclarecer à autoridade (da igreja). 5. O papa não quer nem pode dispensar de quaisquer penas senão daquelas que impôs por decisão própria ou dos cânones. 6. O papa não pode remitir culpa alguma senão declarando e confirmando que ela foi perdoada por Deus, ou, sem dúvida, remitindo-a nos casos reservados para si; se estes forem desprezados, a culpa permanecerá por inteiro. Deus perdoa por graça. Qualquer coisa. A qualquer pessoa. Assim as indulgências erram a ignorar esta graça. Já se pode perceber diferença do pensamento romano. 7. Deus não perdoa a culpa de qualquer pessoa sem, ao mesmo tempo, sujeitá-la, em tudo humilhada, ao sacerdote, seu vigário. Sem comentários: 8. Os cânones penitenciais são impostos apenas aos vivos; segundo os mesmos cânones, nada deve ser imposto aos moribundos. 9. Por isso, o Espírito Santo nos beneficia através do papa quando este, em seus decretos, sempre exclui a circunstância da morte e da necessidade. 10. Agem mal e sem conhecimento de causa aqueles sacerdotes que reservam aos moribundos penitências canônicas para o purgatório. “O purgatório, um estado de penitência e purificação entre a morte e o juízo final, é, para a doutrina católico-romana, o local para o pagamento das penas decorrentes dos pecados. Estas penas podem ser parcial ou totalmente eliminadas pelas indulgências. No mundo cristão, a doutrina do purgatório surge primeiro em Orígenes, no século II. Em 1517 Lutero ainda aceita a doutrina do purgatório. Mais tarde irá abandoná-la completamente.11 Lutero parece não acreditar que as indulgências te1. 11 v. 1, p. 23, nota 7. 10 | Teologia | Outubro e Novembro, 2010

nham entrado à igreja com a permissão dos bispos. 11. Essa erva daninha de transformar a pena canônica em pena do purgatório parece ter sido semeada enquanto os bispos certamente dormiam. Lutero está rebatendo a venda de indulgências para livrar do purgatório até mesmo aos que já morreram. Segundo sua concepção (aqui ainda não contra o purgatório) só se pode fazer alguma coisa para livrar-se da condenação aqui na terra. 12. Antigamente se impunham as penas canônicas não depois, mas antes da absolvição, como verificação da verdadeira contrição. Lutero reafirma que só aos vivos é dada a oportunidade da salvação. 13. Através da morte, os moribundos pagam tudo e já estão mortos para as leis canônicas, tendo, por direito, isenção das mesmas. Sem comentários: 14. Saúde ou amor imperfeito no moribundo necessariamente traz consigo grande temor, e tanto mais, quanto menor for o amor. 15. Este temor e horror por si sós já bastam (para não falar de outras coisas) para produzir a pena do purgatório, uma vez que estão próximos do horror do desespero. Claramente se vê que Lutero aceita o purgatório. 16. Inferno, purgatório e céu parecem diferir da mesma forma que o desespero, o semidesespero e a segurança. Nas teses 17 a 19 Lutero começa com “Parece”, ele não afirma. Demonstrando um caráter pacífico. 17. Parece necessário, para as almas no purgatório, que o horror diminua na medida em que cresce o amor. 18. Parece não ter sido provado, nem por meio de argumentos racionais nem da Escritura, que elas se encontram fora do estado de mérito ou de crescimento no amor.


Lutero e Luteranismo

19. Também parece não ter sido provado que as almas no purgatório estejam certas de sua bem-aventurança, ao menos não todas, mesmo que nós, de nossa parte, tenhamos plena certeza.

que se está discutindo neste documento. 25. O mesmo poder que o papa tem sobre o purgatório de modo geral, qualquer bispo e cura tem em sua diocese e paróquia em particular.

Lutero não entra no mérito da autoridade do papa, mas diz claramente que ele só pode entender sobre as penas que ele mesmo impôs, ou seja, não pode ministrar sobre as penas do purgatório. 20. Portanto, sob remissão plena de todas as penas, o papa não entende simplesmente todas, mas somente aquelas que ele mesmo impôs.

O papa não detém o poder das chaves, poder que é usado para assegurar a validade das indulgências. O poder do papa é o mesmo que qualquer cristão: interceder pelos outros. Neste caso, até mesmo pelos mortos que estão no purgatório. 26. O papa faz muito bem ao dar remissão às almas não pelo poder das chaves (que ele não tem), mas por meio de intercessão.

Depois de uma introdução de 20 teses, Lutero bate de frente com os vendedores de indulgências. 21. Erram, portanto, os pregadores de indulgências que afirmam que a pessoa é absolvida de toda pena e salva pelas indulgências do papa. Para afirmar sua tese Lutero, acreditando no purgatório, usa este como argumento. O que não for pago em vida será ali pago. 22. Com efeito, ele não dispensa as almas no purgatório de uma única pena que, segundo os cânones, elas deveriam ter pago nesta vida. Lutero parece aceitar que existam perfeitos. Isso pode ser classificado como uma clara leitura de sua educação romana. Lutero ainda não entende o homem como completamente corrompido e completamente justificado. 23. Se é que se pode dar algum perdão de todas as penas a alguém, ele, certamente, só é dado aos mais perfeitos, isto é, pouquíssimos. Acusa as indulgências de serem enganação. 24. Por isso, a maior parte do povo está sendo necessariamente ludibriada por essa magnífica e indistinta promessa de absolvição da pena. Parece contestar a autoridade superior do papa, mas considerando o caráter destes escritos não nos atreveríamos a afirmar isso a essa época. Mas poderíamos argumentar que essa tese leva a entender que cada bispo e cura é um papa em seu território de domínio. A tese não é clara quanto à autoridade do papa e nem é isso

Sem comentários: 27. Pregam doutrina humana os que dizem que, tão logo tilintar a moeda lançada na caixa, a alma sairá voando [do purgatório para o céu]. Segundo o pesquisador católico Nicolau Paulus, o pregador dominicano João Tetzel realmente anunciou em suas pregações a frase: “Antes que o dinheiro tilinte na caixa, a alma salta do purgatório.”12 Lutero contrapõe a vontade de Deus à cobiça da Igreja. 28. Certo é que, ao tilintar a moeda na caixa, podem aumentar o lucro e a cobiça; a intercessão da Igreja, porém, depende apenas da vontade de Deus. Sem comentários: 29. E quem é que sabe se todas as almas no purgatório querem ser resgatadas? Dizem que este não foi o caso com S. Severino e S. Pascoal. Aqui está implícita a luta pela remissão dos pecados que cada um deveria ter na fé católica. 30. Ninguém tem certeza da veracidade de sua contrição, muito menos de haver conseguido plena remissão. Lutero não diz que as indulgências não sejam possíveis, mas que são quase. Uma vez mais não é polêmico e sim pacífico. 31. Tão raro como quem é penitente de verdade é quem adquire autenticamente as indulgências, ou seja, é raríssimo. 1. 12 v. 1, p. 24, nota 13. Outubro e Novembro, 2010 | Teologia | 11


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Demonstração de que não aceita de forma alguma as indulgências e ainda condena que as espalha, atrapalhando as consciências. 32. Serão condenados em eternidade, juntamente com seus mestres, aqueles que se julgam seguros de sua salvação através de carta de indulgência. Sem comentários: 33. Deve-se ter muita cautela com aqueles que dizem serem as indulgências do papa aquela inestimável dádiva de Deus através da qual a pessoa é reconciliada com Deus. 34. Pois aquelas graças das indulgências se referem somente às penas de satisfação sacramental, determinadas por seres humanos. As breves confessionais davam à pessoa a segurança de que na hora da morte poderiam se livrar do castigo eterno ou do purgatório. Ainda poderiam escolher a quem melhor lhes parecia para confessar. 35. Não pregam cristãmente os que ensinam não ser necessária a contrição àqueles que querem resgatar ou adquirir breves confessionais. As confessionalia, “breves confessionais”, eram parte importante das graças relacionadas com a proclamação das indulgências jubilares. Quem comprasse tal privilégio adquiria o direito de escolher um confessor, ao qual haviam sido concedidas autorizações ( faculdades) especiais para a absolvição. Além disso, adquiria uma indulgência plenária para ser usada uma vez na vida e para a hora da morte. Os confessores indicados, quando da venda de uma tal bula extraordinária, tinham a autoridade de conceder dispensa também nos casos reservados ao papa e de transformar promessas especialmente severas em outras de menor peso. Além disso, podiam autorizar a retenção de bens ilegitimamente adquiridos, de matrimônios entre pessoas inabilitadas devido a certos graus de parentesco, etc.13 Qualquer cristão pode ser salvo, não apenas os que compram indulgências. 36. Qualquer cristão verdadeiramente arrependido tem direito à remissão pela de pena e culpa, mesmo sem carta de indulgência. A graça é dada por Deus mediante Cristo. 1. 13 v. 1, p. 25, nota 16. 12 | Teologia | Outubro e Novembro, 2010

37. Qualquer cristão verdadeiro, seja vivo, seja morto, tem participação em todos os bens de Cristo e da Igreja, por dádiva de Deus, mesmo sem carta de indulgência. O papa não deve ser ignorado, mas somente porque declara o que Deus já deu. 38. Mesmo assim, a remissão e participação do papa de forma alguma devem ser desprezadas, porque (como disse) constituem declaração do perdão divino. A indulgência dificulta a interpretação de pecado. As consciências podem sentir-se tranquilas apesar de quaisquer pecados. Não há contrição. Há suborno. 39. Até mesmo para os mais doutos teólogos é dificílimo exaltar perante o povo ao mesmo tempo, a liberdade das indulgências e a verdadeira contrição. Os que procuram indulgências estão tentando escapar da culpa através de meios não lícitos. Está implícito o pensamento de que se pode pagar pelos pecados cometidos. 40. A verdadeira contrição procura e ama as penas, ao passo que a abundância das indulgências as afrouxa e faz odiá-las, pelo menos dando ocasião para tanto. Lutero contrapõe as boas obras às indulgências. São preferíveis as obras. Lutero ainda está no pensamento romano de que as obras são necessárias para a salvação. 41. Deve-se pregar com muita cautela sobre as indulgências apostólicas, para que o povo não as julgue erroneamente como preferíveis às demais boas obras do amor. Lutero afirma que o papa não corrobora com as indulgências. Lutero pensa ter o apoio papal ao discutir estas questões. Na época julga poder usar a opinião papal contra seus adversários. Somente alguns anos mais tarde é que verá que estava enganado.14 42. Deve-se ensinar aos cristãos que não é pensamento do papa que a compra de indulgências possa, de alguma forma, ser comparada com as obras de misericórdia. Uma vez mais Lutero afirma que é melhor fazer 1. 14 v. 1, p. 26, nota 18.


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boas obras do que comprar indulgências. 43. Deve-se ensinar aos cristãos que, dando ao pobre ou emprestando ao necessitado, procedem melhor do que se comprassem indulgências.

49. Deve-se ensinar aos cristãos que as indulgências do papa são úteis se não depositam sua confiança nelas, porém, extremamente prejudiciais se perdem o temor de Deus por causa delas.

As indulgências são fuga da pena. 44. Ocorre que através da obra de amor cresce o amor e a pessoa se torna melhor, ao passo que com as indulgências ela não se torna melhor, mas apenas mais livre da pena.

Nas duas teses abaixo, mais uma vez Lutero defende o papa. Sugere que este não sabe do que se passa na venda das indulgências. E que se soubesse não permitiria. 50. Deve-se ensinar aos cristãos que, se o papa soubesse das exações dos pregadores de indulgências, preferiria reduzir a cinzas a Basílica de S. Pedro a edificá-la com a pele, a carne e os ossos de suas ovelhas. 51. Deve-se ensinar aos cristãos que o papa estaria disposto — como é seu dever — a dar do seu dinheiro àqueles muitos de quem alguns pregadores de indulgências extraem ardilosamente o dinheiro, mesmo que para isto fosse necessário vender a Basílica de S. Pedro.

Comprar indulgências traz a ira de Deus, pois é preferível usar o dinheiro para ajudar ao necessitado. Lutero afirma claramente que (segundo o pensamento romano) para livrar-se do purgatório e inferno é necessário que se faça obras, ao invés de tentar fugir do castigo buscando as indulgências. 45. Deve-se ensinar aos cristãos que quem vê um carente e o negligencia para gastar com indulgências obtém para si não as indulgências do papa, mas a ira de Deus. Lutero entende que Deus dá bens às pessoas para que elas possam viver e cuidar dos seus. Não se deveria gastar com indulgências se vai faltar em casa. Isso vai contra o princípio de se comprar a indulgência para livrar-se do castigo eterno. 46. Deve-se ensinar aos cristãos que, se não tiverem bens em abundância, devem conservar o que é necessário para sua casa e de forma alguma desperdiçar dinheiro com indulgência. Lutero aceita as indulgências (devemos lembrar que Lutero aceita a autoridade do papa), mas afirma que não devem ser forçadas e sim oferecidas. 47. Deve-se ensinar aos cristãos que a compra de indulgências é livre e não constitui obrigação. Sem comentários: 48. Deve-se ensinar aos cristãos que, ao conceder indulgências, o papa, assim como mais necessita, da mesma forma mais deseja uma oração devota a seu favor do que o dinheiro que se está pronto a pagar. Lutero é confuso neste argumento. Não define como as indulgências poderiam ser úteis. Mas ele está seguro de que as indulgências representam a tentativa de fuga da ira de Deus.

Sem comentários: 52. Vã é a confiança na salvação por meio de cartas de indulgências, mesmo que o comissário ou até mesmo o próprio papa desse sua alma como garantia pelas mesmas. Nas teses abaixo (53-55) Lutero defende o valor da Palavra de Deus ante as indulgências. Estava se dando muito mais valor às indulgências do que à Palavra de Deus. Já não era a graça de Deus que salvava e livrava do castigo eterno, mas simplesmente a indulgência papal. 53. São inimigos de Cristo e do papa aqueles que, por causa da pregação de indulgências, fazem calar por inteiro a palavra de Deus nas demais igrejas. O comissário era uma pessoa comissionada pela Igreja com a venda de indulgências.15 Durante o período de sua permanência em uma localidade, o comissário era senhor absoluto sobre a igreja e sobre os sacerdotes. Determinava quando e onde poderia ser pregado. Podia, além disso, suspender as indulgências especiais, proibir a confissão, sob pena de excomunhão, designar confessores de indulgências.16 54. Ofende-se a palavra de Deus quando, em um mesmo sermão, se dedica tanto ou mais tempo às indulgências do que a ela. 55. A atitude do papa é necessariamente esta: se 1. 15 v. 1, p. 26, nota 19. 1. 16 v.1, p. 26, nota 20. Outubro e Novembro, 2010 | Teologia | 13


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as indulgências (que são o menos importante) são celebradas com um toque de sino, uma procissão e uma cerimônia, o Evangelho (que é o mais importante) deve ser anunciado com uma centena de sinos, procissões e cerimônias. Sem comentários: 56. Os tesouros da Igreja, dos quais o papa concede as indulgências, não são suficientemente mencionados nem conhecidos entre o povo de Cristo. O tesouro da Igreja é formado pelas obras excedentes de Cristo e dos santos. Estas obras excedentes estão confiadas à administração papal como thesaurus bonorum operum. Cabe ao papa distribuí-las a quem delas necessita. Lutero nega essa concepção na tese 58.17 Sem comentários: 57. É evidente que eles, certamente, não são de natureza temporal, visto que muitos pregadores não os distribuem tão facilmente, mas apenas os ajuntam. Lutero ainda acredita (como a igreja romana) que os santos tenham méritos e que os possam compartilhar. 58. Eles tampouco são os méritos de Cristo e dos santos, pois estes sempre operam, sem o papa, a graça do ser humano interior e a cruz, a morte e o inferno do ser humano exterior. Sem comentários: 59. S. Lourenço disse que os pobres da Igreja são os tesouros da mesma, empregando, no entanto, a palavra como era usada em sua época. 60. É sem temeridade que dizemos que as chaves da Igreja, que lhe foram proporcionadas pelo mérito de Cristo, constituem este tesouro. 61. Pois está claro que, para a remissão das penas e dos casos, o poder do papa por si só é suficiente. Aqui se sente que Lutero valoriza o Evangelho acima de todas as coisas que a Igreja possa oferecer. 62. O verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo Evangelho da glória e da graça de Deus. Sem comentários: 63. Este tesouro, entretanto, é o mais odiado, e com razão, porque faz com que os primeiros sejam os úl1. 17 v. 1, p. 27, nota 21. 14 | Teologia | Outubro e Novembro, 2010

timos. As indulgências servem como fuga da ira divina. 64. Em contrapartida, o tesouro das indulgências é o mais benquisto, e com razão, pois faz dos últimos os primeiros. Nas teses abaixo (65-67) Lutero afirma que as indulgências servem apenas para arrancar dinheiro das pessoas. 65. Por esta razão, os tesouros do Evangelho são as redes com que outrora se pescavam homens possuidores de riquezas. 66. Os tesouros das indulgências, por sua vez, são as redes com que hoje se pesca a riqueza dos homens. 67. As indulgências apregoadas pelos seus vendedores como as maiores graças realmente podem ser entendidas como tal, na medida em que dão boa renda. Indulgências não são nada quando comparadas à graça de Deus em Cristo. 68. Entretanto, na verdade, elas são as graças mais ínfimas em comparação com a graça de Deus e a piedade na cruz. Lutero enfatiza a hierarquia à essa época. Talvez por isso ele tenha escrito a tese seguinte. 69. Os bispos e curas têm a obrigação de admitir com toda a reverência os comissários de indulgências apostólicas. Lutero volta a defender o papa. Admitindo que os comissários é que estariam desvirtuando aquilo que o papa lhes tinha ordenado. 70. Têm, porém, a obrigação ainda maior de observar com os dois olhos e atentar com ambos os ouvidos para que esses comissários não preguem os seus próprios sonhos em lugar do que lhes foi incumbido pelo papa. Sem comentários: 71. Seja excomungado e maldito quem falar contra a verdade das indulgências apostólicas. 72. Seja bendito, porém, quem ficar alerta contra a devassidão e licenciosidade das palavras de um pregador de indulgências. 73. Assim como o papa, com razão, fulmina aque-


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les que, de qualquer forma, procuram defraudar o comércio de indulgências, 74. muito mais deseja fulminar aqueles que, a pretexto das indulgências, procuram defraudar a santa caridade e verdade. 75. A opinião de que as indulgências papais são tão eficazes ao ponto de poderem absolver um homem mesmo que tivesse violentado a mãe de Deus, caso isso fosse possível, é loucura. Lutero aponta para a inutilidade das indulgências. 76. Afirmamos, pelo contrário, que as indulgências papais não podem anular sequer o menor dos pecados veniais no que se refere à sua culpa. A teologia católica distingue entre pecados veniais e pecados mortais. Os primeiros não são pecados no sentido lato do termo. Os segundos referem-se aos sete pecados capitais. Estes, enquanto não forem perdoados, têm como consequência a morte eterna, devendo, por isso, ser confessados.18 Sem comentários: 77. A afirmação de que nem mesmo S. Pedro, caso fosse o papa atualmente, poderia conceder maiores graças é blasfêmia contra São Pedro e o papa. 78. Afirmamos, ao contrário, que também este, assim como qualquer papa, tem graças maiores, quais sejam, o Evangelho, os poderes, os dons de curar, etc., como está escrito em 1 Co 12. Nada é maior do que a cruz de Cristo, nem mesmo a cruz do papa. 79. É blasfêmia dizer que a cruz com as armas do papa, insignemente erguida, equivale à cruz de Cristo. Lutero lembra da responsabilidade de cada bispo frente ao seu rebanho. 80. Terão que prestar contas os bispos, curas e teólogos que permitem que semelhantes conversas sejam difundidas entre o povo. Nas teses que se seguem (81-89) Lutero usa de sarcasmo para contra argumentar às indulgências. Ele é muito perspicaz e não parece temer o papa. Segundo ele pensava não havia o que temer, pois o papa estaria do seu lado. Lutero põe nas teses as perguntas que provavelmen1. 18 v. 1, p. 28, nota 27.

te estariam circulando entre as pessoas de sua época. Como na tese 82: se o papa pode tirar as pessoas do purgatório por dinheiro, por que não faz isso por bondade? Com perguntas assim ele mostra que é totalmente contra tais indulgências. 81. Essa licenciosa pregação de indulgências faz com que não seja fácil, nem para os homens doutos, defender a dignidade do papa contra calúnias ou perguntas, sem dúvida argutas, dos leigos. 82. Por exemplo: por que o papa não evacua o purgatório por causa do santíssimo amor e da extrema necessidade das almas — o que seria a mais justa de todas as causas —, se redime um número infinito de almas por causa do funestíssimo dinheiro para a construção da basílica — que é uma causa tão insignificante? 83. Do mesmo modo: por que se mantêm as exéquias e os aniversários dos falecidos e por que ele não restitui ou permite que se recebam de volta as doações efetuadas em favor deles, visto que já não é justo orar pelos redimidos? 84. Do mesmo modo: que nova piedade de Deus e do papa é essa: por causa do dinheiro, permitem ao ímpio e inimigo redimir uma alma piedosa e amiga de Deus, porém não a redimem por causa da necessidade da mesma alma piedosa e dileta, por amor gratuito? 85. Do mesmo modo: por que os cânones penitenciais — de fato e por desuso já há muito revogados e mortos — ainda assim são redimidos com dinheiro, pela concessão de indulgências, como se ainda estivessem em pleno vigor? 86. Do mesmo modo: por que o papa, cuja fortuna hoje é maior do que a dos mais ricos Crassos, não constrói com seu próprio dinheiro ao menos esta uma basílica de São Pedro, ao invés de fazê-lo com o dinheiro dos pobres fiéis? 87. Do mesmo modo: o que é que o papa perdoa e concede àqueles que, pela contrição perfeita, têm direito à remissão e participação plenária? 88. Do mesmo modo: que benefício maior se poderia proporcionar à Igreja do que se o papa, assim como agora o faz uma vez, da mesma forma concedesse essas remissões e participações 100 vezes ao dia a qualquer dos fiéis? 89. Já que, com as indulgências, o papa procura mais a salvação das almas do o dinheiro, por que suspende as cartas e indulgências outrora já conceOutubro e Novembro, 2010 | Teologia | 15


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didas, se são igualmente eficazes? Lutero chama a atenção ao fato de que as pessoas merecem ao menos uma explicação dos abusos que estão acontecendo. Eles não deveriam ser tratados à força. 90. Reprimir esses argumentos muito perspicazes dos leigos somente pela força, sem refutá-los apresentando razões, significa expor a Igreja e o papa à zombaria dos inimigos e desgraçar os cristãos. Sem comentários: 91. Se, portanto, as indulgências fossem pregadas em conformidade com o espírito e a opinião do papa, todas essas objeções poderiam ser facilmente respondidas e nem mesmo teriam surgido. 92. Fora, pois, com todos esses profetas que dizem ao povo de Cristo: "Paz, paz!" sem que haja paz! 93. Que prosperem todos os profetas que dizem ao povo de Cristo: "Cruz! Cruz!" sem que haja cruz! Os cristãos deveriam confiar que pelas penas estariam nos céus (se percebe a teologia romana) e não por comprarem as indulgências. Estas, ao contrário, geram uma esperança falsa e levam que leva ao inferno. 94. Devem-se exortar os cristãos a que se esforcem por seguir a Cristo, seu cabeça, através das penas, da morte e do inferno; O caminho do céu passa pelas tribulações da terra. O cristão sofre aqui, antes de estar na perfeição com Deus. Isto é claro para Lutero. 95. e, assim, a que confiem que entrarão no céu antes através de muitas tribulações do que pela segurança da paz.

2. – Um Sermão Sobre a Indulgência e a Graça Neste escrito, de meados de 1518. Lutero fala uma vez mais abertamente sobre as indulgências. Não contra, mas sobre elas. Pode-se sentir uma aparente incerteza de Lutero. Ele não quer falar contra as indulgências, mas recomenda que não se use delas. Excetuando-se raríssimos casos. E mesmo nestes era preferível fazer obras. Este escrito foi produzido à mesma época que as “Explicações do Debate sobre o Valor das Indulgências”. Lutero prefere colocar as indulgências no campo 16 | Teologia | Outubro e Novembro, 2010

das “coisas permitidas e autorizadas”. Elas seriam adiáforos. Pois ele mesmo afirma: “Se as almas são tiradas do purgatório através da indulgência, isso eu não sei e também ainda não acredito, mesmo que alguns novos doutores o afirmem.”19 Também se pode perceber que Lutero acredita no Purgatório e que dali as almas poderiam sair através da atuação dos vivos em favor Delas. Se as almas são tiradas do purgatório através das indulgências ... eu não sei e também ainda não acredito. ... Por isso, para maior segurança, é muito melhor que ores e atues por elas, pois isto está mais comprovado e certo.20 Há neste escrito um caráter mais polêmico do que nas 95 teses: Ainda que alguns, para os quais esta verdade dá grande prejuízo material, agora me chamem de herege, não dou muita importância a semelhante palavrório, pois quem está a fazê-lo são alguns cérebros tenebrosos que nunca cheiraram a Bíblia, nunca leram os mestres cristãos, nunca entenderam seus próprios professores e já estão quase a decompor-se em suas opiniões esburacadas e esfarrapadas. Pois se os tivessem entendido, saberiam que não devem difamar a ninguém sem ouvi-lo e convence-lo do seu erro. Que Deus dê a eles e a nós um entendimento correto! Amém.21 O sermão é baseado sobre os argumentos de sua época e neles se fala que quanto ao ensino de mestres como Pedro Lombardo e S. Tomás ...atribuem três partes à Penitência, quais sejam: a contrição, a confissão e a satisfação. Esta distinção, em seu conceito, dificilmente ou mesmo de forma alguma se acha fundamentada na Sagrada Escritura e 1. 19 v. 1, p. 34, § 18. 1. 20 v. 1, p. 34, § 18. 1. 21 v. 1, p. 34, § 20.


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nos antigos santos mestres cristãos.22 E

Afirmo que, mesmo que a Igreja cristã decidisse e declarasse hoje que a indulgência elimina mais do que as obras de satisfação, ainda assim seria mil vezes melhor que cristão algum comprasse ou desejasse a indulgência, mas preferivelmente praticasse as obras e sofresse a pena. Pois a indulgência não é nem pode tornar-se outra coisa do que uma dispensa de boas obras e de benéficas penas, que seria melhor fossem preferidas do que abandonadas, ainda que alguns novos pregadores tenham descoberto dois tipos de penas: medicativas e satisfactorias, isto é, uma para o aperfeiçoamento, outras para a satisfação.23

Lutero afirma que mesmo as penas são bênção para o cristão. Pois nas penas está implícito o amor de Deus em corrigir seus filhos. Porque toda pena, sim, tudo o que Deus impõe é útil e contribui para o melhoramento do cristão.24 Em contra partida as Indulgências são “dispensa de muitas boas obras”25. Como se afirmava que as indulgências cobrem apenas a última parte da Penitência (satisfação), Lutero volta suas atenções a ela. Observe-se também que a teologia de Lutero ainda acredita na satisfação produzida por obras (teologia romana) como “mortificação da carne”26. A satisfação também é subdividida em três partes: orar, jejuar, dar esmola, e isto da seguinte forma: “orar” compreende todas as obras próprias da alma, como ler, meditar, ouvir a palavra de Deus, pregar, ensinar e similares; “jejuar” inclui todas as obras de mortificação da carne, como vigílias, trabalho, leito duro, vestes grosseiras, etc.: “dar esmolas” abrange todas as obras de amor e mise1. 1. 1. 1. 1.

22 23 24 25 26

v. 1, p. 31, § 1. v. 1, pp. 32-33, § 9. v. 1, p. 33, § 9. v. 1, p. 33, § 16. v. 1, pp. 31-32, § 3.

ricórdia para com o próximo.27 Lutero chama a atenção para a falta de prova escriturística para as indulgências. Há muita confusão entorno delas e não se sabe se valem ou não. Por isso é tão necessário que se prove escrituristicamente. Afirmo ... que não se pode provar, a partir da Escritura, que a justiça divina deseja ou exige do pecador qualquer pena ou satisfação, mas sim unicamente sua contrição e conversão sincera e verdadeira, com o propósito de, doravante, carregar a cruz de Cristo e praticar as obras acima mencionadas (mesmo que não estejam prescritas por ninguém).28 E ainda, provando pela escritura Lutero afirma: De nada vale dizer que as penas e as obras seriam demasiadas, que a pessoa não conseguiria realizá-las por causa da brevidade de sua vida e que, por isso, precisaria da indulgência. Respondo que isso não tem fundamento e é pura invenção. Porque Deus e a santa Igreja a ninguém impõem mais do que lhe é possível carregar, como também o diz Paulo: Deus não permite que alguém seja tentado acima do que pode carregar. É grande vergonha para a cristandade ser acusada de impor mais do que podemos carregar.29 Talvez pela dúvida Lutero não rejeitou completamente as indulgências. Ele acreditou no seu valor, mas apenas para pecadores preguiçosos. Como uma dádiva àqueles que não fazem obras de satisfação. Por isso “Deixa os cristãos preguiçosos e sonolentos comprarem indulgência. Tu, porém, segue teu caminho!”30 A indulgência é permitida por causa dos cristãos imperfeitos e preguiçosos, que ao querem exercitar-se resolutamente em boas obras ou não desejam sofrer. Pois a indulgência não promove o melhoramento de ninguém, e sim tolera e permite sua imperfeição. Por esta razão não se deve falar contra a indulgência, mas também não se deve recomendá-la a ninguém.31 No princípio de não ir contra as indulgências Lutero ensina o que seria o uso correto destas. Tudo deveria ser feito antes das ditas indulgências. 1. 1. 1. 1. 1.

27 28 29 30 31

v. 1, p. 32, § 3. v. 1, p. 32, § 6. v. 1, p. 33, § 10. v. 1, p. 34, § 16. v. 1, p. 33, § 14. Outubro e Novembro, 2010 | Teologia | 17


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Sim, e para que os ensine corretamente, atentem bem: antes de todas as coisas (sem preocupação com o edifício de São Pedro nem com a indulgência) deves dar ao teu próximo pobre, se queres dar alguma coisa. Mas se chegar o momento em que, em tua cidade, não há mais ninguém que necessite de ajuda (o que jamais será o caso, se Deus quiser), então deves ofertar, se quiseres, às igrejas, altares, ornamentos, cálice, em tua cidade. E quando isso também não mais for necessário, só então — se quiseres — podes contribuir para o edifício de S. Pedro ou para alguma outra coisa. Mesmo assim, também não deves fazê-lo por causa da indulgência. Pois São Paulo diz: “Quem não faz o bem sequer aos de sua própria casa não é cristão e é pior do que o descrente.” [1Tm 5.8]32 Peca quem tenta comprar a liberdade que é dada pela graça de Deus. Lutero já afirma a graça gratuita de Deus. Mas aparentemente não com a ênfase que o fará mais tarde. Incorre em grave erro quem pretende fazer satisfação por seus pecados, pois Deus os perdoa a toda hora grátis, por graça inestimável, e nada deseja em troca senão que doravante se leve uma vida boa. A cristandade, esta sim, faz exigências; portanto, ela também pode e deve dispensar delas e não impor nada pesado ou insuportável.33 Lutero termina o sermão pedindo que Deus venha a esclarecer a questão: “Que Deus dê a eles e a nós um entendimento correto!”34 Ele ainda tem a esperança de reformar os erros na igreja de dentro para fora.

3. Resposta a Ambrósio Catarino Este documento é mais tardio que os anteriormente tratados. Data de outubro de 1520. Há várias outras referências às indulgências. Mas como falam basicamente a mesma coisa, nós procuramos usar este apenas como um exemplo do pensamento posterior de Lutero a respeito da questão que girava em torno das indulgências. Se antes Lutero tenta corroborar a atitude do papa com o que estava sendo feito com as indulgências, aqui ele fala claramente contra as Indulgências: “Prometendo-lhes a liberdade, quando eles pró1. 32 v. 1, pp. 33-34, § 16. 1. 33 v. 1, p. 33, § 13. 1. 34 v. 1, p. 34, § 20. 18 | Teologia | Outubro e Novembro, 2010

prios são escravos da corrupção” [2Pe 2.19]. Isso diz respeito tanto às indulgências quanto a toda a falácia com a qual anunciam a dedicação às aparências como algo bom...35 Falando dos abusos e daqueles que os cometem Lutero lembra que pecados e leis foram criados para que fossem podidas cobrar indulgências: E com que dificuldade o santíssimo perdoa esses pecados fictícios, a não ser exclusivamente por dinheiro, e nesse meio tempo ele favorece inclusive o adultério e os crimes mais ímpios! Por outro lado, com quantas indulgências ele recompensa tais justiças! E com mérito. Pois tais pecadores devem ser dotados com tais remissões, e tais justos têm que ser coroados com tais prêmios, para que as indulgências e absolvições sejam tão verdadeiras como são verdadeiros os pecados e as justiças. Ó abominação abominável!36 O papa que era respeitado nos documentos anteriores, não recebe o mesmo respeito, pelo contrário, é chamado de anticristo e tem sua autoridade contestada. Segundo as indulgências Lutero afirma: De que maneira poderia ter descrito melhor o reino e as obras do papa? Ele é um mero dolo, e, não obstante, feliz e próspero, a ponto de enfatuar o mundo inclusive com mentiras evidentes e coisas de brincadeira, como se evidencia somente no caso das indulgências. Pois qualquer coisas que ouse empreender, por mais sujo e mentiroso que seja, em tudo o papa terá sucesso.37 Não há dúvidas, neste documento Lutero já rompeu com o que acreditava sobre as indulgências. Assim como em outros documentos que examinamos fica clara a posição “Luterana”: só a graça de Deus, revelada em Cristo pode livrar do castigo eterno. Nada que o homem possa ordenar vai livrar os pecadores do inferno.

Conclusão Devemos considerar todo o pano de fundo situacional onde surgiram as 95 teses. Um dos aspectos que fica claro nesta pesquisa é que Lutero, a princípio, não era conta as indulgências, mas queria esclarecimento sobre 1. 35 v. 3, p. 73. 1. 36 v. 3, p. 77. 1. 37 v. 3, p. 92.


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as mesmas. Até que este esclarecimento existisse se deveria evitá-las. Depois, contudo, Lutero é abertamente contra e expõe suas idéias. Em vários documentos Lutero expressa sua posição frente às indulgências. Estes documentos não estão aqui englobados, pelo simples fato de que eles têm praticamente o mesmo teor do documento escrito a Ambrósio Catarino. Com a resolva de serem articulados de forma um pouco distinta. O que fica desse estudo é o profundo respeito que Lutero tinha por quem ele cria ser a autoridade da Igreja. E que quando esta autoridade é visto como um “anticristo” ela não merece respeito. Ao contrário. As pessoas devem ser instruídas contra tais pessoas. Se num primeiro momento Lutero hesitou em ir contra as indulgências, foi pelo mérito da dúvida. Quando teve certeza ele não mais hesitou e ainda alar-

deou sua opinião para acalmar as consciências que estavam atormentadas. Isto, no mínimo, serve de exemplo para o posicionamento contemporâneo daqueles que se dizem Luteranos.

* Pesquisa científica apresentada ao Professor Paulo W. Buss, da disciplina “Estudos na Teologia de Lutero”. Rev. Jarbas Hoffimann — Nova Iguaçu-RJ, pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil

Bibliografia LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas. Porto Alegre e São Leopoldo: Concórdia Editora e Editora Sinodal, 1987. v. 1. LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas. Porto Alegre e São Leopoldo: Concórdia Editora e Editora Sinodal, 1989. v. 2. LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas. Porto Alegre e São Leopoldo: Concórdia Editora e Editora Sinodal, 1992. v. 3. LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas. Porto Alegre e São Leopoldo: Concórdia Editora e Editora Sinodal, 1995. v. 4.

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Rev. Luisivan Vellar Strelow

Lutero e Luteranismo

Graça, lei e evangelho

no desenvolvimento da teologia de Lutero (1509-1521)

L

Wir sind alle bettler. Hoc est verum (1546)

utero, muito cedo, adquiriu importantes, sem dúvida, mas o profundo interesse e amor pelas que tem a fé e o conhecimento de Escrituras. Sua vida e carreira teoló- Cristo. Pois a tarefa do teólogo não gica foram guiadas, do início ao fim, é meramente explicar a “letra” das pela busca do conhecimento das Es- Escrituras, mas explicar as Escritucrituras. ras segundo o seu “espírito”. O verEm 1508, Lutero escreveu a um dadeiro teólogo precisa ter familiaamigo contando que havia sido ridade com a “palavra externa” das obrigado a deixar de lado o estudo Escrituras, mas precisa explicar as da teologia para ensinar filosofia Escrituras segundo a fé em Cristo (lógica e de ética), mas que gostaria ou “palavra interna”, com auxílio do muito de voltar ao estudo da teo- Espírito Santo e seus dons. Estudar logia. O estudo de Aristóteles, Lu- e ensinar a Bíblia é mais do que extero escreveu nessa carta, era para plicar um texto literário, é lutar com ele duro como uma casca de uma as armas de Deus contra o pecado, noz, mas o estudo das Escrituras era o mundo e o diabo. Por essa razão, como encontrar a o verdadeiro teóa verdade é que somos amêndoa da noz. logo é aquele que, todos mendigos Em 1546, na últino estudo e ensima de suas anotano das Escrituras, ções, Lutero escreveu que o conhe- ora, medita e luta (oratio, meditatio, cimento do teólogo é sempre pobre tentatio faciunt theologum). diante da riqueza das Escrituras: “a Nas Escrituras, nem todas as pasverdade é que somos todos mendi- sagens são iguais, algumas são como gos” (Wir sind alle bettler. Hoc est madeira macia em que o sentido é verum). aberto ao teólogo ao primeiro golO trabalho do teólogo, para pe do machado, enquanto outras Lutero, não é outro senão o estudo são duras como um nó, e requerem e o ensino das Escrituras Sagradas. muita oração, meditação e luta até Para Lutero, o verdadeiro teólogo é que o sentido delas se abra ao teóaquele que fundamenta seu ensino logo. E nem todas as passagens bína Palavra de Deus, e não em opini- blicas tem o mesmo peso, algumas ões humanas. O verdadeiro teólogo, trazem instrução para o cotidiano, no entanto, não é o que domina as mas pouco conforto na tentação técnicas da hermenêutica, que são ou luta interior (Anfechtung), as 20 | Teologia | Outubro e Novembro, 2010

quais são como “palha” que o fogo da provação logo consome. Outras passagens, no entanto, são como “ouro”, as quais trazem conforto ao coração, tornando-se ainda mais valiosas e claras depois de passada a provação. As passagens bíblicas que apontam para as nossas boas obras são como a “palha”, as quais também têm sua utilidade no cotidiano, mas as passagens bíblicas que apontam para Cristo, essas são como “ouro”, pois trazem o conforto da salvação eterna. O pregador que extrai das Escrituras, com clareza, a palavra da lei e a palavra do evangelho, esse, segundo Lutero, é um verdadeiro teólogo e doutor nas Escrituras. Porque a graça de Deus não é revelada em nenhum outro lugar senão nas Escrituras. O Antigo Testamento, por exemplo, é como o presépio, a manjedoura e os panos em que encontramos o Menino Jesus. A teologia da glória, escreveu Lutero, busca nas Escrituras a exaltação das obras e do mérito humano; a teologia da cruz, porém, busca nas Escrituras o Filho de Deus que veio em humildade e pobreza, para que nós o recebêssemos sem temor e com toda a confiança. Muito antes da controvérsia com Zwínglio, Lutero já defendia a integridade do texto bíblico, pois a gra-


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ça de Deus é encontrada somente no texto bíblico, se o conservamos em sua integridade. A razão humana é uma grande dádiva de Deus, é a “luz da natureza”, necessária para o estudo do texto bíblico em seus aspectos exteriores (“letra” ou “palavra externa”). Somente o Espírito Santo, contudo, concede a iluminação ou “luz da graça”, que é o conhecimento do texto bíblico em seu aspecto interior (“espírito” ou “palavra interna”). O teólogo que submete o texto bíblico à razão, estabelece divisões e distinções que reduzem as Escrituras a um código de normas morais. O verdadeiro teólogo, ao contrário, ele próprio é um cativo e servo das Escrituras, o qual ora, medita e luta com o pecado, o mundo e o diabo, para compreender cada passagem bíblica, porque procura ouvir nas Escrituras não o eco de suas próprias opiniões,

mas a voz de Deus. Em vista disso, o teólogo não pode senão colocar-se como um mendigo diante graça de Deus em Jesus Cristo. Lutero, no entanto, percorreu um longo caminho até encontrar nas Escrituras um Deus gracioso, pois havia aprendido a buscar o Juiz severo. Como relatou num importante Prefácio de 1545, foi batendo insistentemente na porta das Escrituras que Lutero finalmente encontrou, em Romanos 1.17, a boa notícia de que, no evangelho, não ouvimos a voz de um Juiz que

exige autocondenação (fé como contrição sob a ira misericordiosa de Deus), mas a voz de um Pai que oferece perdão gratuito de todos os pecados (fé como pura recepção da graça de Deus). Essa passagem, diz Lutero, era para ele um nó de madeira muito duro, cujo sentido somente se lhe abriu por graça e iluminação de Deus, porque estava, segundo suas palavras, preso a uma compreensão da “justiça de Deus” que o impedia de compreender o sentido evangélico de Romanos 1.17. Para Lutero, por muito tempo, a “justiça de Deus” seria a justiça que Deus demanda da fé (verdadeira e plena contrição) e não a justiça que a fé recebe de Deus (verdadeira e plena absolvição). Lutero não negou a necessidade da contrição, mas afirmou que a contrição pertence ao ofício da lei, enquanto a absolvição pertence ao ofício do evangelho. A lei produz tristeza por causa do pecado, mas o evangelho traz a alegria da salvação pela graça de Deus. Jesus venceu a lei, na cruz, quando morreu por todos os nossos pecados, redimindo-nos de toda culpa (castigo eterno) e de toda pena (castigo temporal), e vence a lei novamente, em nossa consciência, quando vence a acusação da lei e faz cessar a con-

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O vestígio mais antigo de reorientação teológica ou de posicionamento crítico em relação ao escolasticismo medieval encontra-se numa anotação de Lutero à margem do exemplar de estudo e trabalho das Sentenças de Pedro Lombardo (Paris, c. 1100-1160). Em Erfurt, Lutero foi sententiarius ou expositor das Sentenças de Pedro Lombardo (15091510), antes de sua viagem a Roma (1510-1511) e transferência para Wittenberg (1511). Com base no testemunho dos Pais da Igreja e no comentário de Pedro Lombardo, Lutero afastou-se da concepção escolástica da graça em favor de uma na graça de Deus em concepção bíblica e patrística. Para permanente contrição inte- os escolásticos medievais, a graça rior. Lutero identificava a contrição seria uma qualidade impessoal e trição ou tristeza, como parte da fé em Cristo, o juiz supernatural (gratia creata, habitus porque onde Cristo está, misericordioso. Desde, pelo menos, infusus) dada por Deus para capaciali só pode haver alegria (ubi Chris- 1513, Lutero já sabia e ensinava que tar o ser humano a merecer a salvatus, ibi gaudium). a justificação não era por obras da ção. Lutero rejeitou esse conceito de Segundo o testemunho de lei (justificação exterior), mas pela cunho aristotélico e adotou, nesse Lutero, a descoberta do evange- fé em Cristo (justificação interior). momento, uma concepção da graça lho como palavra da graça de Deus Desde 1515, igualmente, Lutero já como presença pessoal de Deus ou abriu para ele as portas do paraíso, interpretava Romanos 1.17 em sen- a habitação do Espírito Santo no porque, até então, vivia em perma- tido passivo, tal como relatou no crente (gratia increata). nente purgatório, jamais avançando Prefácio de 1545. Contudo, somenA graça da regeneração (a nova para além da humilde contrição e te em 1518/1519, vida recebida no a descoberta do acusação de si mesmo (humilitas, Lutero finalmente batismo) não seevangelho como palavra accusatio sui). A jornada de Lutero, teria achegado à ria uma qualidano entanto, até o seu encontro com compreensão de da graça de Deus abriu as de nova na alma o evangelho da graça de Deus nas que o sentido pasportas do paraíso. (qualitas recebida Escrituras, foi longa, com avanços sivo da justificação ex opere operato e recuos, com desvios e retomadas não apenas exclui as obras exterio- nos sacramentos), mas a habitação do caminho. Ainda que Lutero res, mas também a contrição inte- do Espírito Santo com seus dons no avançasse muitas vezes em direção à rior, e que a dádiva da “justiça de coração (cf. Explicação ao 3º Articompreensão evangélica da doutri- Deus” é benefício inteiramente con- go do Credo, 1529). Fé, esperança na da justificação, sentia-se obriga- ferido pela promessa do evangelho e e amor eram compreendidos na tedo sempre de novo a recuar. A sua recebido pela fé. ologia escolástica como qualidades compreensão da “justiça de Deus”, Grande parte da pesquisa em supernaturais (“virtudes teologais”), em Romanos 1.17 e em outras pas- Lutero está dedicada a encontrar as as quais adeririam à alma junto com sagens, o mantinha preso a uma marcas deixadas nos textos de Lute- as virtudes naturais (prudência, fordoutrina da justificação que, se já ro, 1509 até 1521, que permitissem taleza, justiça e temperança). A granão era por obras exteriores e méri- refazer a sua trajetória intelectual ou ça infusa seria necessária para tornar to humano, ainda era por confiança peregrinação espiritual e teológica. as boas obras meritórias para a sal22 | Teologia | Outubro e Novembro, 2010


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vação. Lutero rejeitou essa definição deiro e irmão com Cristo. Em sua aula inaugural como exescolástica, e afirmou que a tríade paulina “fé, esperança e amor” são positor bíblico (lector biblicus) na dons do Espírito Santo, recebidos Universidade de Wittenberg, em no batismo, pelos quais vivemos fi- 1513, Lutero já distinguia entre lhos de Deus, herdeiros do reino e uma justiça da “letra”, com base na irmãos em Cristo: ut sit filius dei, lei e obras exteriores (iustitia phahaeres regni, frater Christi (1518). risaica et legalis) de uma justiça do Segundo a doutrina escolástica, a “espírito”, com base no evangelho graça ou o amor (caridade) seria e na fé interior (iustita fidei). Luteuma “substância” ou “qualidade” ro, desde esse tempo, já distinguia que torna meritórias as obras huma- entre dois tipos de justiça: a do honas com vistas à aquisição da perfei- mem interior (homo interior), que é ção. Para Lutero, a graça ou o amor segundo o “espírito” e a fé (spiritus, (caridade) é o Espírito Santo que fides) e a do homem exterior (homo cria um novo homem, perfeito, mas exterior), que é segundo a letra e as que ainda está em luta com o velho obras (littera, opera). Em 1518, Luhomem pecaminoso (simul iustus et tero chamaria a justiça da fé (conformidade interior peccator). O batismo, Lutero rejeitou a para Lutero, não era a com Cristo — Fp graça infusa e afirmou 2.7-8) de teologia recepção de uma graça que “fé, esperança e da cruz (theologia “material” (fé, espeamor” são dons do rança e amor como crucis), e a justiça virtudes implantadas Espírito Santo, recebidos das obras (cumno batismo. no batizado ex opere primento exterior da lei), de teologia operato), mas o renascimento e o ingresso, pela habitação da glória (theologia gloriae). do Espírito Santo, em uma nova “reNa aula inaugural como lector lação” com Deus, como filho, her- biblicus, em sua primeira exposição

dos Salmos, em 1513, Lutero já diferenciava a “lei” do “evangelho”, e a “justiça da lei” da “justiça do evangelho”. É verdade que, no entanto, ainda o fazia no sentido de distinção entre “Antigo Testamento” (lei carnal) e “Novo Testamento” (lei espiritual, lex spiritualis). A diferença entre “lei” e “evangelho” seria apenas de grau: a lei espiritual e interior de Cristo seria “superior” à lei carnal e exterior de Moisés. O “evangelho” não apenas era “lei”, mas era uma “lei” mais exigente do que a lei da Antiga Aliança, porque exigiria verdadeiro amor a Deus e verdadeira contrição interior. Cristo, para Lutero, nessa etapa de seu desenvolvimento teológico, seria um “juiz misericordioso” (iudex misericors). A graça de Deus se revelaria sob a ira, a misericórdia sob o juízo (sub contrario specie). A fé, por sua vez, seria verdadeira contrição e humildade interior (contritio, humilitas), conformidade com Cristo (conformitas Christii) ou acusação de si mesmo (accusatio sui). A justificação seria o reconhecimento humilde do juízo gracioso de Deus revelado no Evangelho (iustitia dei = iudicium dei, Romanos 1.17). Nas Preleções sobre Romanos (1515-1516), Lutero já passava a apontar funções distintas da lei e do evangelho: a lei revela a enfermidade (pecado) e destrói toda confiança em obras meritórias; o evangelho revela a cura (graça) e aponta para a misericórdia de Deus em Cristo. O Evangelho já é definido como uma palavra sobre o Filho de Deus feito carne, morto e ressuscitado. Lutero rejeita a distinção entre lei moral e cerimonial — erro cuja introdução na igreja atribuía a Jerônimo — na interpretação da locução paulina “sem as obras da lei” (sine operibus Outubro e Novembro, 2010 | Teologia | 23


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legis). As obras da lei incluem as obras feitas em obediência à lei de Moisés, à lei natural ou a qualquer outra lei criada pelos homens. A “lei” amplia-se cada vez mais, para abarcar todas as obras. Ao mesmo tempo, o “evangelho” concentra-se cada vez mais em Cristo, o Filho de Deus encarnado, que morreu na cruz e ressuscitou. Em 1518, Lutero expressaria essa concentração do evangelho na fé em Cristo juntamente com a ampliação da lei cujas obras não justificam, dizendo: “a lei opera a ira de Deus, mata, amaldiçoa, acusa, julga e condena tudo o que não está em Cristo” (Debate de Heidelberg, 23ª tese). No Debate de Heidelberg, em 1518, Lutero referiu-se à ação paradoxal de Deus como theologia crucis em oposição a theologia gloriae. Os que buscam ser justificados pela fé em Cristo não confiam em obras exteriores, por maior que sejam sua “glória” no mundo, pois todas estão denunciadas pela lei como “pecado”. A função da lei é acusar tudo o que não está em Cristo e do evangelho é a de ordenar a fé em Cristo (23ª e 26ª teses). Justo não é quem faz muito, mas quem, sem obras, crê muito em Cristo (25ª tese). Na 28ª tese (e na sua fundamentação), Lu24 | Teologia | Outubro e Novembro, 2010

tero contrasta o “amor” tal como ensinado na teologia (Escrituras) e na filosofia (Aristóteles). Segundo a definição filosófica, Deus só pode amar o que tem mérito ou dignidade perante ele, isto é, o justo e o belo. Essa é a teologia da glória (escolástica), segundo a qual as obras justificam ou tornam o ser humano merecedor digno do amor de Deus. Segundo a teologia da cruz (Lutero), contudo, Deus ama o pecador e o justifica: “os pecadores são belos por serem amados, não são amados por serem belos”. A lei aponta a ira de Deus sobre os pecadores (23ª tese) e destrói toda confiança em obras (o tronar-se justo para obter o amor divino). O evangelho revela o amor imerecido de Deus para com os pecadores (o amor que torna justo o pecador). No primeiro caso, o amor é aprovação e Deus é juiz. No segundo, o amor de Deus é imerecido e cria o objeto de seu amor. Nas preleções sobre Romanos (1515-1516), o amor imerecido de Deus é apresentado como aquele em relação ao qual não resta outra atitude de parte do pecador senão confessar o seu pecado (comentário a Rm 2.11). A confiança em obras leva à afirmação da justiça humana perante Deus (“julgamento da ra-

zão” ou “teologia da glória”); a fé em Cristo leva ao reconhecimento do pecado e da necessidade da graça de Deus (“julgamento à luz da paixão de Cristo” ou “teologia da cruz”). Nas preleções sobre Romanos, a função da fé em Cristo é levar o cristão a viver em permanente contrição e confissão de pecados: “os justos nunca cessam de confessar seus pecados” (comentário a Rm 3.11). O contraste entre a indignidade humana (lei) e o amor imerecido de Deus (evangelho) já está presente na doutrina da justificação. O amor imerecido de Deus, no entanto, não se revela apenas na cruz ou no sofrimento de Cristo (remissão da culpa), mas também na obra de Cristo no crente (remissão da pena por contrição, confissão e obediência voluntária a Deus). A fé que justifica é a fé que confessa o pecado, como aceitação do juízo de Deus sobre o pecador como verdadeiro (comentário a Rm 3.4). As Preleções sobre Romanos (1515-1516), das quais as Teses de Heidelberg (1518) são como que um resumo, apresentam uma doutrina da justificação em que o livre arbítrio e as obras meritórias (“justiça ativa”) já não desempenham nenhum papel. Por outro lado, a fé em Cristo ainda não se distingue inteiramente da contrição. O evangelho ainda é compreendido como promessa de cura proferida por um “médico”, a qual inclui um diagnóstico de enfermidade. A linguagem é nova, mas o conteúdo já ainda é o mesmo, a compreensão do evangelho como a absolvição proferida por um “juiz misericorioso”, a qual ainda requer contrição e confissão de pecados (accusatio sui). A justificação, para Lutero, nesse período, ainda é um julgamento de Deus sobre


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o pecador, e não a remissão de todos os pecados, graça e salvação. Quando teve início a controvérsia das indulgências, Lutero já havia avançado muito em direção à doutrina evangélica da justificação pela fé, mas ainda não havia percorrido o caminho inteiro. Não temos como saber se a controvérsia sobre as indulgências apenas levou Lutero a tomar posições mais firmes e fazer pronunciamentos mais claros sobre a justificação, ou se levou Lutero a avançar mais rapidamente na reorientação teológica que já estava em curso. Não há dúvidas, porém, que, por uma ou outra razão, esse período foi crucial para a reorientação teológica de Lutero. Até 1517, Lutero não havia publicado nenhuma obra sua. Nesse mesmo ano, publicou sua exposição sobre os Salmos Penitenciais e as 95 Teses sobre o Poder das Indulgências. Esses dois escritos tornaram Lutero um escritor conhecido muito além de Wittenberg. As 95 Teses, especialmente, tornaram Lutero um reformador amado e apoiado pelos que esperavam ardentemente o retorno à simplicidade da doutrina e da igreja de Cristo, mas também odiado e atacado pelos que defensores da teologia escolástica e da supremacia papal. Do início de sua atividade como expositor das Escrituras, de 1513 até 1517, Lutero havia apresentado uma proposta de reforma da Teologia, abandonando o método e o ensino escolástico, que chamou de “teologia da glória”, e promovendo um programa de Teologia baseado no estudo das Escrituras e dos escritos dos Pais da Igreja. Essa reorientação hermenêutica correspondia a uma reforma da Teologia segundo o ideal humanista, defendido por Erasmo, e que co-

locava as Escrituras e a Patrística no rador tornaram-se, de um dia para centro, rejeitando as especulações outro, inimigos da teologia bíblica filosóficas da teologia escolástica. de Lutero. Mas foi só gradativamente que os De 1517 até 1521, durante toda frutos da nova hermenêutica, que a causa Lutheri (julgamento de Lusubmetia ao intérprete e a todas as tero, concluído com sua excomusuas fontes literárias ao texto bíbli- nhão pelo papa e banimento pelo co. Em 1516, Lutero apresentou, na imperador em 1521), o Reformador forma de teses para debate, sua críti- teve de defender suas posições teoca à teologia escolástica, ao mesmo lógicas contra os ataques contínutempo que reformava os currículos os dos escolásticos e dos curialistas da Universidade de Wittenberg, romanos. Lutero precisou defender, especialmente na Faculdade de Ar- especialmente, a sua doutrina da fé tes (formação básica para todos os em relação com a doutrina dos Saalunos) e na Faculdade de Teologia. cramentos e da Justificação. Antes Como parte desse programa, Lute- de 1517, Lutero havia se ocupado ro dedicou-se, também, ao estudo pouco da doutrina dos sacramentos, de Grego e de Hebraico, sem, con- mas estes estão no centro do debate tudo, jamais abandonar a sua Bíblia com Roma (1517-1521) e com os Latina (Vulgata). Entusiastas e Zwinglianos (1522Em 1517, devido ao alcance 1529). A razão para isso é que a inesperado dos dois escritos sobre a doutrina da justificação, no sistema doutrina do arrependimento ou da medieval, era essencialmente uma Penitência, Lutero viu-se colocado doutrina sobre os frutos dos sacrano olho do furacão. O comentário mentos. aos “Salmos Penitenciais”, escrito A doutrina da justificação torem alemão, destinado à orientação nou-se uma questão controversa indo povo, foi recebido pelos huma- dependentemente da doutrina dos nistas como modelo sacramentos somente a Os ataques à da nova teologia bípartir da Dieta de Augsblica. As “95 Teses”, teologia de Lutero burgo em 1530, quando escritas em latim, e a Confissão foi rejeitada. não tardaram e propostas para o de- vieram da parte de A partir de 1530, com a bate sobre a teologia Confissão de Augsburgo teólogos de várias e praxe da igreja en(luterana) e a ConfutaUniversidades. tre teólogos, foram ção da Confissão de Aulogo publicadas gsburgo (católica), teve também em alemão e, em poucas se- início, de fato, a controvérsia sobre manas, havia alcançado praticamen- a doutrina da justificação pela fé, te toda a Europa. O que era para ser como um tema em si mesmo. Por popular, foi recebido pelos eruditos, essa razão, em 1531, Lutero comene o que era para ser acadêmico, foi ta a Carta aos Gálatas e faz aponacolhido pelo povo. Os ataques à tamentos para um Tratado sobre teologia de Lutero não tardaram e a Justificação (que não chegou a vieram da parte de teólogos de vá- escrever) enquanto Melanchthon rias Universidades, da Cúria roma- comenta a Epístola aos Romanos, na e até mesmo do rei da Inglaterra, e escreve a Apologia da Confissão. Henrique VIII. O papa e o impe- De 1517 até 1521, no entanto, o deOutubro e Novembro, 2010 | Teologia | 25


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bate sobre a doutrina da justificação progresso na perfeição cristã (remoaconteceu dentro do debate sobre o ção do pecado iniciada no batismo). papel da fé nos sacramentos, entre a Se não temos isso em mente, doutrina escolástica dos sacramen- facilmente caímos no equívoco de tos (ex opere operatur) e a insistên- muitos intérpretes de Lutero que cia de Lutero sobre a necessidade dissociam a controvérsia sobre os da fé para a partisacramentos (quesA penitência estava cipação salutar nos tão eclesiástica ou da destinada àqueles que sacramentos (opus piedade popular) da operantis). Esse é o cometiam pecado mortal reorientação teológidepois do batismo, ... tema, por exemplo, ca em relação à doueles eram privados ao no confronto entre trina da justificação Lutero e Cajetano, Sacramento do Altar. (questão acadêmica em Augsburgo, em ou da piedade pesso1518, e na obra Do al de Lutero). LuteCativeiro Babilônico da Igreja, de ro, como vimos, entrou em choque 1520. com os vendedores de indulgências Segundo a teologia escolástica, porque tinha uma concepção distina graça da justificação (gratia iusti- ta da doutrina do arrependimento. ficans) era recebida nos sacramentos Essa diferença se revelou especialdo batismo (gratia prima, iustitia mente do papel da fé na recepção prima) e da penitência (gratia se- dos sacramentos para recepção da cunda, iustitia secunda). A peni- graça da justificação. Para os escotência estava destinada àqueles que lásticos, os sacramentos conferem cometiam pecado mortal depois do graça ex opere operatur com vistas batismo, os quais estariam privados, às obras meritórias que justificam se permanecessem impenitentes perante Deus. Para Lutero, os sacra(isto é, se não se confessassem), da mentos são o exercício da fé (ainda admissão ao sacramento do altar. compreendida como humildade e O debate sobre a doutrina da justi- contrição interior, ou conformidade ficação, de 1517 até 1521, portan- com Cristo) que justifica o pecador to, está centrado no papel da fé na perante Deus, sem as obras da lei, recepção da graça da justificação pois não há possibilidade de mérito nos sacramentos, e tem a ver direta- humano perante Deus (opus operanmente com a questão da aquisição tis). Os escolásticos, conforme Luou progresso na perfeição cristã ou tero dizia desde 1513, defendiam a remoção do pecado na vida cristã. “justificação exterior” ou “farisaica”, Antes da controvérsia, Lutero não fazendo das obras um substituto da havia comentado a doutrina dos fé na recepção digna dos sacramensacramentos em detalhe, mas tan- tos. Perante Cajetano, em Augsburto ele como seus ouvintes tinham go, em 1518, Lutero se escandalizou claro que a doutrina da justificação com a negação, por esse delegado estava relacionada à recepção dos papal, da necessidade da fé para resacramentos (batismo, penitência e cepção digna dos sacramentos (isto eucaristia): a recepção contrita da é, para a justificação). Mais tarde, absolvição e a recepção digna do afirmou que Cajetano o teria colosacramento, para crescimento na cado, na prática, na situação de ter graça da justificação, com vistas ao de escolher entre negar a fé em Cris26 | Teologia | Outubro e Novembro, 2010

to, perdendo a salvação eterna, para submeter-se ao papa, preservando, desse modo seu bem estar terreno. Para Lutero, a escolha se daria entre a graça de Deus revelada nas Escrituras e o beneplácito do papa, não lhe sendo possível reter ou conciliar os dois. É por essa razão que, no Prefácio de 1545, Lutero relaciona de modo indissolúvel, uma coisa como corolário da outra, a doutrina da justificação pela fé “propter Christum” e a denúncia do papa como promotor da doutrina da justificação pelas obras “anti Christum”. Na mesma época em que tinha início a controvérsia com Roma, Lutero expunha a Carta aos Hebreus (1517-1518). A escolha dessa carta, depois de Romanos e Gálatas, não foi acidental. Primeiro, Lutero havia se proposto estudar a Paulo para melhor habilitar-se à expor os Salmos. Conforme Lutero registrou para a posteridade no Prefácio de 1545, ele buscava compreender a doutrina da justificação em Paulo, especialmente no versículo que lhe causava maior dificuldade, a saber, Romanos 1.17, em relação com passagens nos Salmos que também se referiam à “justiça de Deus” (iustitia dei). Hebreus não só era tida como paulina, mas era o texto fundamental sobre a relação entre a lei (AT) e o evangelho (NT). Uma outra razão para o estudo de Hebreus no método hermenêutico de Lutero, a saber, a exegese “espiritual” (Cristocêntrica) do Antigo Testamento, de acordo com a distinção paulina entre “letra” e “espírito”, ou o AT como “lei carnal e exterior” (obediência externa, movida pela lei com suas recompensas e castigos) e o NT como “lei espiritual e interior” (obediência interior, movida por verdadeiro amor a Deus). Em sua


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Para Lutero, os preparação para expor a oferecida na Carta aos Hebreus, Lu- sacramentos são o exercício penitência (abtero leu o Comentário solvição), seria da fé que justifica o de Crisóstomo a Heobtida pela fé pecador perante Deus, breus, onde encontrou sem obras da lei, pois não ou conformium vocábulo funda- há possibilidade de mérito dade do crismental para expressar tão à cruz de humano perante Deus. sua nova compreensão Cristo (conforda fé nos sacramentos. mitas Christi). Crisóstomo ensinava, especial- Filipenses 2.5-11 era, para Lutero, mente com relação à santa ceia, que o paradigma dessa “segunda justifias palavras de Cristo no sacramen- cação” posterior ao batismo (iustitia to são palavras de um testamento secunda), uma vida de penitência (testamentum), as quais requerem em conformidade com Cristo em a morte do testador para que os sua humildade, obediência e cruz. A herdeiros sejam beneficiados. No graça de Deus era revelada no evandebate sobre as indulgências, Lute- gelho como “juízo misericordioso” ro diferenciou os méritos de Cris- ou como “remédio amargo”, a saber, to (merita Christi) do tesouro da conformidade com a cruz de Cristo igreja (thesaurus ecclesiae) (56ª-60ª e contrição interior. Na absolvição e teses). A aquisição da graça é ofício no sacramento, Lutero encontravade Cristo somente (officium Christi, -se não com o Cordeiro de Deus solus Christus), mas sua administra- (o perdão gratuito de todos os peção na igreja é feita pelos ministros cados), mas com o Juiz (perante o de Cristo (ofício das chaves). Na 60ª qual apenas a auto-acusação pode tese, Lutero afirma que o verdadeiro esperar misericórdia). “tesouro da igreja” são as “chaves”, O conforto na teologia escolástiisto é, a administração do evangelho ca pressupunha a doutrina do mérie dos sacramentos na igreja, pois a to, pois somente as obras meritórias graça da justificação, não é adquiri- seriam indicativos da salvação futuda por obras meritórias, muito me- ra. Ao rejeitar a doutrina do mérito, nos pelo comércio das indulgências, restou a Lutero apenas a acusação da mas pelos méritos de Cristo. Em lei que destruía toda confiança em cartas e relatórios sobre o encontro obras próprias, e o evangelho como com Cajetano, em 1518, Lutero juízo misericordioso, que exigia enfatiza claramente a distinção en- contrição ou auto-acusação incestre aquisição da salvação (justifica- sante. Em certo sentido, o que conção propter Christum, justificação duziu Lutero à angústia e pavor foi propter merita Christi) e a oferta ou seu próprio desenvolvimento teolódistribuição dos benefícios obtidos gico, pois a doutrina da lei tornoupor Cristo por meio dos ministros -se clara para Lutero muito antes de Cristo, na administração (justifi- dele chegar próximo de compreencação per fidem Christi). der que a doutrina do evangelho é Até então, Lutero entendia, se- a doutrina da graça e não a doutrina gundo havia aprendido na teologia do juízo misericordioso de Deus. O escolástica, que a morte de Cristo testemunho de Lutero, em 1545, obteria a graça ou justiça oferecida sobre o pavor e ódio que lhe cauno batismo, mas a graça ou justiça sava o termo “justiça de Deus” em

Romanos 1.17, ainda ao tempo da controvérsia com Roma, harmoniza-se com as evidências de que desde 1513 Lutero já desenvolvia o que chamaria, em 1518, de “teologia da cruz”. Como vimos, nesse período, Lutero buscou reinterpretar, à luz da distinção entre lei (obras da lei, justificação exterior) e evangelho (fé em Cristo, justificação interior), o conceito de Cristo como Juiz Misericordioso (iudex misericors) e do evangelho como a revelação do “juízo da misericórdia” (iudicium misericordiae). Lutero, na verdade, estava opondo dois aspectos da lei, a exigência exterior da lei (obras em obediência aos mandamentos de Deus) e a exigência interior da lei (contrição e amor a Deus). Uma vez tendo negado toda possibilidade de mérito humano, não lhe restava senão o caminho do desespero quanto à sua salvação eterna, porque a lei jamais conforta, somente acusa (Melanchthon: lex semper accusat). Da mesma forma como Lutero compreendia “justiça de Deus” como “juízo misericordioso”, também identificava “coração puro” com “coração contrito e humilde” (Sl 51.11,19). Também interpretava in tua iustitia libera me (Sl 31.1; 71.2) como humilde resignação sob o juízo de Deus e conformidade interior com a cruz de Cristo (Fp 2.5-11). Essas passagens bíblicas eram, para Lutero, o fundamento (sedes doctrinae) do artigo da justificação (locus iustificationis). Ele as interpretava, porém, em termos de humildade e negação de si mesmo, segundo o ideal monástico de conformidade [com] e imitação a Cristo (Gl 4.19). Ao final da controvérsia, em 1521, Lutero chegaria a uma inteiramente nova compreensão de todas essas passagens bíblicas, a coOutubro e Novembro, 2010 | Teologia | 27


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meçar por Romanos 1.17. O evangelho não era mais o anúncio de Cristo como “Juiz misericordioso” ou como “Médico” (também um “juiz”, diagnostica e impõe regime para o paciente), mas o anúncio de Cristo como “Cordeiro de Deus”. Justificação (fé) e regeneração (nova vida) passaram a ser relacionadas, com base em Romanos 5.15, como “graça” e “dom”: “Tudo é perdoado pela graça, mas nem tudo está curado pelo dom” (Contra Latomus, 1521). Lutero já havia compreendido que a lei aponta para dentro do ser humano, denunciando todas as suas obras como pecado, destruindo toda a confiança quanto à possibilidade de justificação por obras. Du-

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rante a controvérsia, contudo, Lutero descobriu que não só o pecado ou as obras exteriores, mas também a contrição interior pertence ao regime da lei. Lutero jamais deixou de afirmar que a verdadeira contrição é essencial para a recepção dos sacramentos, mas nem a contrição interior nem Jesus como legislador, juiz ou exemplo pertencem ao regime do evangelho, que é pura graça, perdão gratuito de todos os pecados, misericórdia e salvação. Lutero passou a ensinar de forma clara que o evangelho é o “testamento de Cristo” (testamentum) ou a “promessa da graça” (promissio). O evangelho aponta para fora de nós (extra nos), para a graça de Deus. A graça ou amor de Deus

não se baseia em nenhum mérito ou dignidade de nossa parte, porque a única dignidade que podemos ter diante de Deus é a fé na sua palavra e promessa de graça, de perdão, de vida e salvação. Deus não quer nossa permanente auto-acusação, mas nossa fé. A lei remove a confiança nas obras para dar lugar à fé e ao conforto do evangelho, não para nos deixar permanentemente em contrição. Em 1531, Lutero dirá que há um tempo da Lei e um tempo do Evangelho, ou que Moisés tem seu ofício na consciência, mas que cessa quando começa o ofício de Cristo. O evangelho aponta para o Cristo pro nobis, o Cordeiro de Deus, como um presente para nós (donum), não o Cristo in nobis como sacramentum ou exemplar ao qual somos conformados e nem o Cristo coram nobis como exemplum para ser imitado. O evangelho é promessa (promissio), ele não se ocupa de outra coisa do que anunciar a história de Cristo pro vobis, e a fé recebe Cristo pro me (Gl 2.20b: “vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim”). A graça, escreveu Lutero no Prefácio ao Novo Testamento de 1522, não pode ser fragmentada. Lutero rejeitou completamente a distinção escolástica entre gratia prima (batismo) e gratia secunda (penitência), pois qualquer fragmentação na doutrina da graça a transforma em doutrina da lei e das obras meritórias. Na Explicação do Segundo Artigo do Credo nos Catecismos (1529), Lutero fala da remissão de todos os pecados, da morte, do inferno e do poder do diabo como benefício recebido de Cristo por seu santo e precioso sangue. A graça de Deus é o favor de Deus, é o próprio Deus


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propício e gracioso, que nos aceita ou justifica por graça, por causa de Cristo (propter Christum, propter merita Christi) e por meio da fé (per fidem) na promessa do evangelho (promissio, testamentum, verba Christi). Fragmentar a graça na doutrina da justificação ou na consciência (in loco iustificationis) é uma outra idéia de Deus do que a revelada do evangelho, mas não há meio termo, ou estamos sob a graça ou sob a ira de Deus. Se fragmentamos a doutrina da graça, fatalmente reintroduzimos a lei na consciência ou na doutrina da justificação, e fazemos de Cristo um novo Moisés. A indivisibilidade da graça de Deus, requer a distinção entre lei e evangelho. Em 1531, defendendo a doutrina da justificação pela fé, Lutero afirmou: tudo o que não é graça, é lei. A justificação pela fé, igualmente, é sempre um ponto matemático, indivisível, porque a indivisibilidade da graça requer a indivisibilidade da fé na justificação: a graça é um puro dar ou perdoar propter merita Christi (sola gratia) e a fé é um puro receber ou ser perdoado propter merita Christi (sola fide). A obra redentora de Cristo não pode ser dividida nem compartilhada (solus Christus). Esse é o ponto matemático da justificação, na perspectiva divina, é iustitia dei activa, e na perspectiva humana, é iustitia dei passiva. Qualquer fragmentação da graça ou da fé significa, na prática, a inversão dessa equação, tornando Deus o receptor e o homem o doador, fazendo de Cristo um legislador e juiz e não o Cordeiro de Deus. Por consequência, toda Escritura divide-se entre a palavra da lei e a palavra da graça. A lei destrói a soberba da razão humana, pois a razão busca mérito pelo

cumprimento da lei quando a lei diz que nenhum mérito é possível. A graça ilumina a razão, para que esteja a serviço de Deus, mas a graça, quando deixa-se iluminar pela razão, já não é graça, mas lei (cf. Comentário de Gálatas, 1531/1535). Lei e evangelho, juntos, conduzem a Cristo, em relação ao qual as Escrituras são como o presépio, a majedoura e os panos em que estava Jesus (sola Scriptura). A doutrina da justificação distingue, por um lado, a contrição interior produzida pela pregação da lei do conforto da fé na promessa da graça de Deus. Por outro lado, a doutrina da justificação distingue entre a fé na graça de Deus e a fé como novidade de vida, ou regeneração, pela habitação do Espírito Santo com os seus dons. Segundo a “graça da justiça” ou o aspecto forense da justificação (em sentido lato), estamos reconciliados com Deus. Segundo o “dom da justiça” ou o aspecto sanativo da justificação (em sentido lato), lutamos contra o pecado em arrependimento diário. Ninguém é justificado por viver em fé, esperança e amor, mas quem está justificado vive em fé, esperança e amor. Os sacramentos são a promessa da graça recebida em fé, sem a qual não há justificação perante Deus. Mas os sacramentos também fortalecem o cristão em sua vida de

fé, esperança e amor, pois nos sacramentos Deus não só nos absolve dos pecados e nos coloca em nova relação com ele, mas também envia a nós o Espírito Santo com seus dons. Pela fé na promessa da graça, o cristão já vive nos céus com Cristo. Pela fé, esperança e amor, o cristão desce dos céus e vem, como a chuva, regar a terra, isto é, louvar a Deus, servir ao próximo e dar testemunho da esperança sob a cruz. Sem distinguir lei e evangelho, portanto, não é possível encontrar nas Escrituras o seu tesouro mais precioso, a revelação da graça de Deus como amor que não merecemos e em relação ao qual jamais podemos nos tornar dignos. Somos e seremos, diante da Escritura, sempre mendigos enriquecidos pela graça de Deus que não tem fim. Wir sind alle bettler. Hoc est verum.

Rev. Luisivan Vellar Strelow, pastor da Igreja Evangélica Luteana do Brasil

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Rev. David Karnopp

A importância dos hinos de Lutero para o estabelecimento da Reforma

Uma

igreja que quer ser luterana, precisa, de que houve, porém, na igreja um período em torno de todas as formas conhecer as suas ori- mil anos, onde a voz da congregação foi silenciada. Dogens. No desenvolvimento da Reforma, a música é um nal P. Hustad explica como isso aconteceu: Depois do século IV, quando o cristianismo codos elementos que teve grande papel. Sem os hinos de meçou a crescer rapidamente e particularmente Lutero, a Reforma, teria acontecido igualmente, pois quando a adoração se tornou sacerdotal (execuafinal, ela foi obra de Deus, mas jamais teria o impactada pelos sacerdotes) o cântico foi confiado a um to que teve. Ser igreja luterana requer dela não apenas côro de sacerdotes. Para todos os propósitos práticos conhecer a teologia luterana, mas também conhecer a voz da congregação foi silenciada por mil anos o contexto em que ele nas-ceu. E para quem quer coda história cristã. A Schola Cantorum foi estabenhecer o fato histórico da ReSem os hinos de lecida por Gregóio, o Grande (ci 540-604), para forma, precisa necessariamenLutero, a Reforma, padronizar e ensinar o cantochão oficial da igreja te conhecer também sobre a (...) A tradição de se usar apenas vozes masculinas teria acontecido importância que a música teve para a música se origina do conceito de que adopara concretizá-la. igualmente, pois afinal, ração é conduzida apenas por sacerdotes; conseNeste trabalho não me ela foi obra de Deus, qüentemente, as partes de voz mais baixas eram proponho a fazer uma análise mas jamais teria o supridas por homens que faziam parte de ordens crítica dos textos dos hinos de impacto que teve. sacerdotais menores.1 Lutero. O trabalho quer apenas constatar a importância que eles tiveram na sua época para firmar a Reforma, É preciso lembrar ainda que a língua usada oficialbem como mostrar que a Reforma de hoje será melhor mente na igreja era o latim. As missas eram realizadas sucedida, quando aliada à uma hinódia firmada na Esno latim. No entanto, a grande parte do povo cristão, critura com música contextualizada com nossa época. pelo mundo afora, não o compreendia plenamente e, em conseqüência disso entendia poucas palavras que 1. A Música na igreja antes de ouvia na igreja. Naturalmente o canto da congregação e toda participação do povo no culto também foi afeLutero tado. Com isso a missa e o canto da congregação foram E para compreendermos melhor o que representou legados cada vez mais ao clero, restringindo assim, a voz a hinódia de Lutero no estabelecimento da Reforma, da congregação. Mas pela glória de Deus este período nebuloso da precisamos conhecer um pouco a respeito da música na igreja antes de Lutero. Não é, porém, objetivo deste igreja terminou quando surgiu Lutero, a Reforma e a trabalho descrever longamente sobre este período. Mas sua hinódia. A partir de Lutero, a história da música na dois fatos nos interessam. O primeiro é que na igreja igreja passa a ter um novo capítulo: “O canto congregaprimitiva o cântico era congregacional, como também cional.” Lutero é conhecido como a pessoa que recupeo foi nos temos do Antigo Testamento. E o segundo é rou a doutrina do sacerdócio de todos os crentes. Com 30 | Teologia | Outubro e Novembro, 2010


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ela em mente ele batalhou para que a Palavra de Deus e o hinário fossem colocados nas mãos do povo, em sua própria língua. A igreja agora não era mais composta apenas por monges e padres, era a própria assembléia dos fiéis. Todos os cristãos deviam fazer parte da adoração pública. E foi no aspecto do culto e do canto congregacional onde esta doutrina foi colocada em prática de forma muito brilhante e onde teve suas maiores realizações. Assim Lutero reintegrou a participação da congregação no culto da igreja. Gustav Just salienta isso, quando diz: Ao estabelecer a ordem do culto divino Lutero se preocupou muito com o fato de que o canto não se restringisse apenas aos clérigos e meninos de côro, mas que a comunidade toda de-vesse cantar seus hinos em louvor a Deus nos céus, e isso, em sua querida língua materna.2 Desta forma Lutero pode ser considerado o pai do canto congregacional. Neste aspecto, querendo ser luterano de fato, talvez temos muito o que aprender ainda.

2. O que Significava a Música Para Lutero?

Deus. Ela é inimiga de Satanás, através da qual pode-se espantar muita tentação e maus pensamentos. O diabo não a aprecia. A música é uma das mais belas artes. A melodia dá vida ao texto. A música espanta o espírito da tristeza, como se pode ver na história do rei Saul. A música é o melhor remédio para quem está triste, pois devolve paz ao coração, renova e refrigera. A música é um belo e glorioso presente de Deus, muito semelhante à teologia. Eu não trocaria meus poucos dons de música por nada neste mundo. Deveríamos ensinar esta arte aos jovens, pois ela os torna gente boa e habilidosa.4

Lutero admirava as artes, especialmente a música. Merle D’Aubigne também registra este sentimento: Lutero era músico. Tocava Certo dia, quando amigos cantavam lindos hinos Lutero tocava alguns instrumentos, espeem sua casa, ele exclamou com entusiasmo: “Se o alguns instrumentos, cialmente o alúde e a flauta. Senhor Deus espalhou tão admiráveis dons nesta especialmente o alaúde Também gostava de cantar. terra, que não passa de um obscuro recanto, como e a flauta. Também “Era um exelente cantor, não será na vida eterna onde tudo é perfeição.” 5 gostava de cantar. tendo uma bela e agradável voz de tom grave” 3. Com o Numa carta a Ludovico Senfl Lutero também exdom de cantar e tocar, teve portas abertas para reintro- pressa este sentimento: duzir a música na igreja. Não há dúvida alguma de que o germe de muitas Na história da Reforma a música ocupa seguramenvirtudes está presente nas personalidades que são te um dos mais emocionantes capítulos. Para Lutero a sensíveis à música; aquelas pessoas, entretanto, que música tinha um valor muito especial. Ela não era apenão são tocadas por ela, acre-dito que se parecem nas mais uma atividade que fazia parte da sua vida e muito com toros de madeira e blocos de pedra. Pois seu trabalho. Ela fazia parte do seu próprio sentimento. sabemos que os demônios odeiam e não suportam a Nos seus escritos, quando fala sobre a música, percebemúsica. Dou minha opinião bem franca e não he-se que ele escreve com “o coração”. Algumas declarasito em afirmar que, depois da teologia, não existe ções suas sobre a música são impressionantes: arte que se possa equiparar à música, porque soA música é um dos mais belos e gloriosos dons de -mente ela, depois da teologia, é que consegue uma Outubro e Novembro, 2010 | Teologia | 31


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coisa que no mais só a teologia proporci-ona: um coração tranqüilo e alegre. Uma prova muito clara disto é que o diabo, o causador de tristes preocupações e de tumultos perturbadores, foge do som da música quase tanto como da palavra da teologia. (...) Mas que estou eu louvando a música, tentando pintar, ou melhor, desfigurar algo tão grande em pedaço de papel tão pequenino? Acontece que é muito forte e está transbordando o meu amor pela música, que por diversas vezes me deu conforto e me li-vrou de grandes aflições.6 Lutero entendia que cantar, era algo que deveria fluir naturalmente do cristão. No prefácio do Hinário de Wittemberg, de 1524, o primeiro hinário Luterano, Lutero se expressa dizendo: “Acredito que nenhum cristão ignora que cantar hinos sacros é coisa boa e agradável a Deus” 7 O reformador era da opinião de que a música na igreja devia servir como meio educativo. Neste mesmo prefácio ele diz que gostaria que a juventude fosse ser educada na música e outras artes e “que tivesse algo que lhe permitisse libertar-se das canções de amor e outros cantos profanos, aprendendo algo de sadio em seu lugar”8. Numa outra ocasião se expressou dizendo que: “A música é um auxílio à disciplina e à educação; ela torna os homens mais amáveis, melhores, mais sociáveis, mais razoáveis.” 9 Para Lutero a música na igreja tem especialmente a finalidade de “difundir e promover o sagrado Evangelho”10. Falando do apóstolo Paulo, o qual recomenda aos colossenses cantarem (Cl 3.16), diz ele que a música na igreja deve servir para “difundir a doutrina cristã, a fim de que ela seja praticada de toda maneira possível.”11 Ao falar da mú-sica como um dom de Deus, Lutero se expressa dizendo: After all, the gift of language combined with the gift of song was only given to man to let him know that he should praise God with both word and music, namely, by proclaiming [the Word of God] throug music and by providing sweet melodies with words.12 Lutero foi o grande batalhador para que as Escrituras fossem ouvidas e compreendi-das. Para ele cada palavra era importante. Com isso deveria se imaginar que ele fosse abolir a música das atividades da igreja, e manter apenas a leitura dos textos dos hinos, como o 32 | Teologia | Outubro e Novembro, 2010

fizeram outros. Afinal ela poderia atrapalhar esta compreensão. Mas Lutero vê as artes como dom de Deus e diz que “gostaria de ver todas as artes, particularmente a música a serviço daquele que as doou e criou”. Por isso ele pedia que “cada cristão a tolere e, no caso de Deus lha ter

concedido em grau maior ou idêntico, (a ele) que ajude a promo-vê-la”13. Os hinos de Lutero são, acima de tudo, uma confissão de fé cristã. Eles surgiram das suas experiências de lutas e vitórias de fé. O conteúdo bíblico e doutrinário deles revela esta convicção cristã e denuncia que ele perseguia o objetivo de proclamar a palavra de Deus através da música. A música é um dos fatores presentes na igreja desde o seu início. Mas é à partir da Reforma que as grandes campanhas evangelísticas e mesmo o


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trabalho em geral das igrejas, vêm se aliando e apoiando na música e encontrando por meio dela uma facilidade maior de propagar aquilo que ensinam.

3. Surgem os Primeiros Hinários

Luteranos É nesta visão de música que surge o primeiro hinário. E apesar da profundidade doutrinária, da clareza dos seus hinos, da riqueza poética, Lutero era humilde em dizer que não possuía o dom da poesia. Mesmo assim, desde cedo, viu o quanto eram importantes os hinos para que o povo pudesse aprender a Palavra por meio da música, e melhor louvar a Deus. Por isso Lu-

tero teve o desejo de colocar nas mãos do povo uma coletânea de hinos. Para ver este objetivo concluído, incentivou amigos a colaborarem. Em fins 1523 escrevia a Espalatino: Seguindo o exemplo dos profetas e Pais da Igreja, estou disposto, a compor salmos em língua alemã para o povo, de modo que a Palavra de Deus seja preservada entre o povo também por meio do canto (...) Eu lhe rogo que trabalhes conosco neste assunto e adapte alguns dos sal-mos em hinos.”14.

Por esta carta pode-se supor que Lutero tenha escrito outras cartas para outros ami-gos, solicitando novos hinos. De qualquer forma Lutero preocupou-se em compor hinos sacros na língua do povo, que tivessem conteúdo bíblico, especialmente de acordo com os salmos, que pudessem ocupar o lugar dos hinos que antes eram cantados em latim. Alías, a característica que marca a hinódia de Lutero é que ela está profundamente apoiada na palavra de Deus. O primeiro hinário surgiu em 1524 com apenas oito hinos acompanhados de notas musicais conhecido como Achtliederbuch. Quando foi editado, estes hinos já eram canta-dos em Wittenberg. Quatro deles eram da autoria de Lutero. Uma das primeiras composições de Lutero foi o hino: Nun Freut Euch, Lieben Christen G’Mein15 (Vós crentes, todos exultai). Com este hino Lutero abriu o caminho para um novo elemento na igreja cristã: a música. Não que antes não houvesse música na igreja. Mas à partir da Reforma a música começa a tomar um grande lugar na vida do povo de Deus e a igreja cristã se identifica muito mais com ela do que antes da Reforma. Milhões de hinos foram escritos depois deste primeiro hino pelo mundo afora. E hoje seria impossível alguém contar os hinos cristãos existentes no mundo. Mas Lutero parece não ter ficado satisfeito com este primeiro hinário. Ainda no ano de 1524 foi editado o segundo hinário, pelo amigo e músico Johann Walter, com o nome de Geistliche Gesangbüchlein com 32 hinos, dos quais 24 eram de autoria de Lutero. Paralelamente foram publicados dois hinários contendo 25 hinos por editores diferentes com os mesmos hinos, mas com ordem diferente. Este segundo hinário, a princípio não foi designado para a congregação, mas para o coral. Ele era composto por motetos. Acontece que Lutero queria que seus hinos fossem cantados primeiro pelo Outubro e Novembro, 2010 | Teologia | 33


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coral para então familiarizar toda a congregação16. Aliás, esta ainda é uma prática existe na IELB e que tem dado bons resultados. É verdade que nem tudo era composição própria. Lutero e outros basearam seus hinos nos salmos, mandamentos e histórias da Bíblia. Canções folclóricas e populares fo-ram transformadas em hinos novos para a igreja. Alguns hinos foram parafraseados de hinos latinos. Outros tiveram apenas algumas palavras modificadas. Além disso Lutero e outros receberam influências dos estilos musicais e poéticos da época. Estes aspectos na época não era exatamente um plágio, pois ainda não haviam leis de imprensa. Um hino era objeto de domínio público. Os hinos de Lutero Outro fato em torno foram da maior do qual tem havido dúimportância para vidas e debates é se Luteque a Reforma fosse ro foi autor tam-bém das realidade. músicas dos seus hinos. É verdade que algumas ele tomou emprestadas. Por outro lado, Lutero foi músico. E na sua época o poeta e o músico era geralmente o mesmo. A partir disso aceita-se que, se não de todas as músicas, mas uma grande parte são de sua autoria17. O que nos interessa saber em nossos dias, é que Lutero viu na música um aliado importante na propagação da verdade eterna. E nisso Lutero se empenhou com todas as suas forças. Esse esforço podemos ver na própria quantidade de hinos. Do primeiro hinário

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eram de sua autoria a metade dos hinos. Do segundo, além de ter sido lançado pouco tempo depois, mais da metade eram de sua autoria. No total, Lutero compôs aproximadamente 37 hinos. Este não é um número exato, pois de alguns hinos ele apenas modificou algumas palavras. E de outros apenas acrescentou uma ou duas estrofes. Por outro lado, também precisamos considerar que alguns dos seus hinos contêm de dez à quinze estrofes e de seis à nove linhas cada estrofe. Ou seja, uma verdadeira obra literária. Esse fenômeno poético-musical presente na propagação da causa da reforma, precisamos redescobri-lo na igreja de hoje. Vários hinários sucederam a estes dois, ainda no tempo de Lutero. Como o povo começou a cantar muito mais, publicar hinários tornou-se também numa questão de negócio. Desta forma, já nesta época, começaram aparecer “piratarias” de hinários. Daí, para dar um toque de originalidade e para demonstrar a aprovação de Lutero, muitos editores faziam questão de que Lutero escrevesse o prefácio. E realmente ele se dispôs a escrever vários. Nestes prefácios pode-se dizer que Lutero deixou registrada sua filosofia de música e poesia cristã18.

4. A Importância da Hinódia de Lutero Para a Reforma A Reforma luterana se divulgou muito rápido por toda Europa. O motivo disso não foram apenas os escritos e conferências de Lutero. Os hinos de Lutero foram da maior importância para que a Reforma fosse realidade. Seus hinos produziram um impacto fora do comum. O povo cantava na igreja e fora dela. “Eles chegaram a ser publicados em cartazes e apregoados pelas ruas da Europa”19. Thedore Hoelty-Nickel diz que eles eram levados de um lugar para outro por meio de panfletos e até por trovadores ambulantes. Eram memorizados na língua alemã e assim abriam o caminho para a Reforma20. A voz da congregação por tantos anos reprimida, agora, além de poder cantar, cantava confessando a fé e a alegria pela salvação. No culto agora havia mais participação do povo, pois podiam adorar na língua que sabiam falar. E as pessoas não se cansavam de cantar. Nas congregações pela Alemanha e depois pelo mundo afora os hinos de Lu-


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deve, por acaso, o diabo nos ser gracioso? Quem, afinal, deve ser gracioso para conosco, se não o próprio Deus?”23 Tilemann Heshusius, amigo de Lutero, que editou um hinário alemão em 1565, portanto após a sua morte, falando deste impacto se manifestou: “O hino ‘Vós crentes, todos exultai’ sozinho levou centenas de pessoas à fé cristã; pessoas que antes nem queriam saber do nome de Lutero”24. Os hinos de Lutero realmente deixaram profundas marcas na história da igreja. Na introdução da Cithara Lutheri, de 1569 Cyriakus Spangenberg revela este impacto: Of all the mastersingers since the time of the apostles, Luther is the best and most artful. In his hymns and song one cannot find tero e outros que nasceram da an unnecessary word. Everything Os hinos de Lutero... Reforma, levavam o evangeflows beautifully and ar-tistically, lho até mais rápido do que os 1. Eram fáceis de assimilar; full of spirit and doctrine, and each sermões, preleções e debates, 2. Tinham a linguagem do povo, word seems like a sermon, or at letransformando milhares de simples e direta; ast a reminder of a sermon. There corações. Rodolfo F. Hasse, 3. Tinho objetivos pedagógicos; is nothing forced or artificial. The falando deste impacto, diz 4. Tinham mensagem de profundo rhymes are good, the words well que: “Houve mesmo casos em consolo; chosen and artistic, the meaning que, quando atacado o refor- 5. Tinham a música contextualizada clear and unmistakable, the melomador pelos sacerdotes católicos dies attractive and warm. Altogena igreja, o povo se levantava e ther his songs are wonderfully rich se retirava entoando hinos de Lutero”21. É, portanto, desand powerful without equal and unsurpassed by ta época que vem o conceito de que “a Igreja Luterana é other masters.25 a Igreja que canta”. O jesuíta Adam Conzenius, um dos inimigos da Reforma expressou seu descontentamento dizendo que: “É cantando que o povo adere à igreja Além disso, ainda podemos destacar outros fatores herética; os hinos de Lutero atraíram mais almas do que dos hinos de Lutero, que os tornaram fundamentais no seus escritos e sermões”22. Houve outros que foram con- estabelecimento da reforma: tra a Reforma e que expressaram a sua opinião a respei1. Eram fáceis de assimilar. Percebe-se nos hito dos hinos de Lutero. Talvez sem se darem de conta nos de Lutero uma sequência lógica do conteúdo. e pensando causarem uma derrota, acabaram ajudando Ele não procura despejar muitos conteúdos num a registrar o fenômeno da hinódia de Lutero na época. hino só. É como contar uma história, ou como A respeito da eficácia dos hinos de Lutero Gustav um sermão, que tem tema e partes. Isso ajuda na Just registra um dado pitoresco: assimilação do conteú-do dos hinos. Em Braunschweig, um sacerdote manifestou ao 2. Tinham a linguagem do povo, simples e duque o seu descontentamento pelo fato de que até direta. Tudo o que Lutero escreveu e traduziu na capela do paço se cantavam hinos luteranos. O estava apoiado numa preocupação: fazer com duque, que comumente se mostrava agastado em que o povo compreendesse. Seus hinos não fugirelação a Lutero, quis saber de que hino se tratava ram desta regra. Em fins de 1523, numa carta que e qual era o seu conteúdo. Quando o sacerdote inescrevia a Espalatino solicitando-o que auxiliasse formou que o nome do hino era: “Queira Deus nos na composição e adaptação de hinos, Lutero se ser gracioso”, o duque repreendeu-o dizendo: “Ora, expressou: Outubro e Novembro, 2010 | Teologia | 35


Música e Adoração

Rogo-vos, sem embargo, que eviteis o uso de palavras novas e expressões da corte, a fim de que o povo possa entender facilmente. Que as palavras sejam o mais simples, porém puras e adequadas, e vede que seu significado seja claro e o mais parecido com os salmos.26 3. Tinham objetivos pedagógicos. Os hinos de Lutero serviram para ensinar as ênfa-ses principais da doutrina luterana. Neles Lutero descreve sobre: pecado, arrependimento, perdão, graça, fé, salvação, nova vida em Cristo, palavra de Deus, batismo, santa ceia, morte e eternidade. Através dos hinos o povo pode aprender os ensinos da reforma. 4. Tinham mensagem de profundo consolo. Depois de uma longa idade das trevas, agora podia-se ouvir e cantar hinos que confortavam as almas tristes. E os hinos de Lutero eram, acima de tudo, firmados na Escritura. Portanto, não ofereciam um consolo barato, mas o consolo da infinita graça de Deus revelada na Palavra. 5. Tinham a música contextualizada. Lutero além de compor música, tomou músicas folclóricas emprestadas da sua época. Exemplo disso é a melodia de Wach auf, wach auf, du schöne (Acorda, acorda oh tu beleza) que Lutero usou para um

dos seus primeiros hinos Nun Freut Euch, Lieben Christen G”Mein (Vós crentes, todos, exultai)27. A música que Lutero e outros do seu tempo usaram era música da época. Neste aspecto, me parece, que não viemos tendo uma “reforma” continuada. É verdade que têm havido alguns esforços isolados em ter a nossa hinódia numa música contextualizada. Mas por outro, têm havido dificuldades em aceitar “oficialmente” músicas da nossa época e da realidade brasileira. O êxito da Reforma deve-se, portanto, em grande parte, ao fato de Lutero ter sabido unir o conteúdo profundo, claro e bíblico com a música agradável da época. É verdade que essa é uma verdadeira arte. Mas para o crescimento da igreja de hoje é fundamental conti-nuar unindo o útil com o agradável.

Conclusão Uma igreja luterana no seu sentido pleno, procura conhecer todos os aspectos que fizeram parte da vida de Lutero e da Reforma. A música em Lutero e seus hinos, certamente são aspectos de grande relevância para quem é herdeiro da Reforma. A igreja luterana já foi chamada de “a igreja que canta”, e sempre será assim chamada se ela tomar como prática aquilo que a música representou no contexto da Reforma. Rev. David Karnopp, - Vacaria-RS pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil

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Música e Adoração

Notas 1. Donald P. HUSTAD A Música na Igreja. São Paulo: Edições Vida Nova. 1991.Trad. de Adiel Almeida de Oliveira. p. 109 2. Gustav JUST, Deus despertou Lutero. Trad. Gastão Thomé. Porto Alegre: Concórdia Editora Ltda. l983 p. 117 3. Leopoldo HEIMANN, in Mensageiro Luterano Novembro de 1982 p. 03 4. Castelo Forte 07 de Maio de 1983.Trad. de Vilson Scholz. Porto Alegre: Concórdia Editora Ltda, São Leopoldo: Editora Sinodal 5. J.H.Merle D’AUBIGNE, História da Reforma do XVI Século. Trad. de J. Carvalho. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana. Vol. III cap.IX p. 200 6. Martinho LUTERO. Pelo Evangelho de Cristo. Carta a Ludovico Senfl. Porto Alegre: Concórdia Editora. São Leopoldo: Editora Sinodal, 1984 p. 216 7. Idem. Prefácio do Hinário de Wittemberg. p.203 8. Idem, Ibdem p. 203 9. Citado por Leopoldo HEIMANN. Lutero era Músico. in Mensageiro Luterano Nov. 83 p. 03 10. Martinho LUTERO Pelo Evangelho de Cristo. Op. cit p. 203 11. Idem Ibdem p.203 12. Martin LUTHER. Preface to Georg Rhau’s Symphonieae Iucundae in Luther’s Works Liturgy and Hymns. Vol.53. Edited and translated by Ulrich S. LEOPOLD. Philadelphia: Fortress Press, 1965 p. 323 13. Martinho LUTERO Pelo Evangelho de Cristo. Op. cit p. 203 14. Citado por Theodore HOELTY-NICKEL intitulado por Lutheran Hymnody no quarto volume da obra Luther and Culture. Decorah Iowa: Luther College Press. 1960 p.176 15. Este hino foi escrito em 1523 e normalmente é reconhecido como sendo o primeiro de Lutero. Acontece, porém, que neste mesmo ano, Lutero escreveu outros hinos, entre os quais o Ein neues Lied wir heben an. Neste hino de doze estrofes com nove linhas cada uma, Lutero retrata a história da perseguição ao convento agostiniano de Antuérpeia e o martírio dos monges Heinrich Voes e Johann Esch, que aconteceu em 1º de Julho de 1523 e que se tornaram os primeiros mártires

da Reforma. (Veja mais detalhes em J.H.Merle D’Aubigne op.cit pp. 157164). Parece-me que, por ser uma descrição de um fato histórico, este hino não recebeu lugar na maioria dos hinários. Mas nas principais obras de Lutero ficou registrado como mais um escrito de Lutero. Este hino também é reconhecido como sendo o primeiro. (Veja em Martinho Lutero. Obras selecionadas Vol 7. P 485-489) Mas considerando que, o fato que hino descreve aconteceu já na metade do ano e que no mesmo ano Lutero escreveu outros hinos, sou inclinado à crer que o primeiro hino de Lutero seja o Nun Freut euch, Lieben Christen G’Mein. 16. Ulrich S. LEOPOLD in op.cit. p. 193 17. Um amplo debate sobre esta questão está no 3º Volume do Luther’s Work Op. cit pp.201-205 18. Sobre os prefácios de Lutero para vários hinários veja em Luther’s Work Op cit pp.311-334 19. Donald P HUSTAD, op. cit., p.289 20. Theodore Hoelty-Nickel, op. cit., p. 169 21. Rodolfo F. HASSE, Frei Martinho Restaurador da Verdade. Porto Alegre: Concórdia Editora 3ª ed., 1983 p. 90 22. Gustav JUST, Ibidem. 23. Idem, ibid. 24. Millar PATRICK.The Story of the Church’s Song. Richmond,Virginia.: John Knox Press. 1962. p.76 25. Citado por Theodore HOELTY-NICKEL, op.cit., p.162 26. Citado por Martinho KREBS. A Música Sacra, no Lar Cristão 1986 Porto Alegre: Concórdia, p. 67 27. HUSTAD. Donald P. op.cit., p.126

Bibliografia BAINTON, Roland H. Martin Lutero. 3. ed. Trad. de Raquel Lozada. Mexico: Ediciones Cupsa, l989 D’AUBIGNÉ, J.H. Merle. História da Reforma do XVI Século, Vol III. Tradução de J. Carvalho. São Paulo: Casa Editôra Presbiteriana HASSE, Rodolpho F. Frei Martinho Restaurador da Verdade. 3.ed. Porto Alegre: Concórdia Editora, 1983 HEIMANN, Leopoldo. Lutero Era Músico in Mensageiro Luterano. Novembro de 1982 p. 03 HOLTY-NICKEL, Theodore Lutheran Hymnody in Luther and Culture Vol 4. Decorah Iowa: Luther College Press, 1960 pp. 162-182 HUSTAD, Donald P. A Música na Igreja. 1. ed. reimpressa. Trad. de Adiel Almeida de Oliveira. São Paulo: Edições Vida Nova, 1991 JUST, Gustav. Deus Despertou Lutero. Tradução de Gastão Thomé. Porto Alegre: Concórdia editora Ltda, 1983 KEITH, Edmond D. Hinódia Cristã. Tradução de Bennie May Oliver Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista LAU, Franz Lutero. Tradução de Walter O. Schlupp. 2. ed. São Leopoldo: Editora Sinodal, 1980 LUTERO, Martinho. A Música in Castelo Forte 1983.Trad. de Ilson Kayser e Vilson Scholz. Porto Alegre:Concór-dia Ltda. São Leopoldo: Editora Sinodal (01 à 07 de Maio) LUTERO, Martinho. Pelo Evangelho de Cristo. Tradução de Walter O. Schlupp. Porto Alegre: Concórdia ditora Ltda, São Leopoldo: Editora Sinodal, 1984 (pp. 203-231) LUTERO, Martinho. Obras selecionadas Vol 7. Comissão Interluterana de Literatura. São Leopoldo: Editora Sinodal, Porto Alegre:Concórdia Editora, 2000 LUTHER, Martin. Luther’s Works Vol.53 Edited by Ulrich LEOPOLD. Philadelphia: Fortress Press, 1965 PATRICK, Millar. The Story of the Church’s Song. Richmond,Virginia: John Knox Press, 1962 Outubro e Novembro, 2010 | Teologia | 37


Homilética: Artigo

Rev. Dieter Joel Jagnow

Lutero prega sobre o ministério pastoral O

reformador Martinho Lutero usava as mais diferentes plataformas para ensinar sobre os mais variados temas bíblicos. Uma das mais importantes era as suas pregações. A seguir, uma síntese do seu ensino acerca do ministério pastoral em alguns dos seus sermões.

O ministro precisa ser chamado Qualquer um que tenciona ocupar o ofício do ministério público precisa ser chamado. Antes de tudo, é preciso ser chamado pelo próprio Deus; é preciso ser enviado por Deus assim como Cristo foi enviado pelo Pai ( João 3.34 — pregado em setembro de 1538). Este chamado, no entanto, não vem diretamente de Deus (como aconteceu com os profetas e apóstolos). Deus usa um instrumento humano — a igreja (ou a

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congregação). Isto significa que o ministro precisa ser escolhido ou comissionado pelo consenso dos membros (Lucas 14.1-11 — pregado em 5 de outubro de 1544). É no ritual da ordenação que os membros (ou a congregação) concedem ao ministro uma vocação especial a ser desempenhada em seu nome e em favor deste ofício. O ofício do ministério não pertence ao pastor, mas a todos os membros; é um ofício público. ( João 3.34; 7.16-18 — pregado em julho de 1531; 10.1-11 — pregado em 1522).


Homilética: Artigo

O ministro é um mensageiro O ministro é um mensageiro de Deus, diz Lutero. Como tal, ele precisa pregar a palavra de Deus. Somente assim ele pode ser reconhecido como um verdadeiro ministro e mensageiro de Deus. Não existe praga e infortúnio maior na terra do que um ministro que não prega o que Deus lhe ordenou o que pregasse. Se a Palavra de Deus não é pregada, seu poder e seu ofício deixam de existir (Lucas 2.1-14; Mateus 5.1-2 — pregado em 1532; João 10.11-16). O ministro somente pode pregar os santos propósitos de Deus de se relacionar continuamente com ele. (Lucas 2.1-14). Sendo um verdadeiro mensageiro de Deus, as palavras do pregador são palavras de Deus; as palavras que emprega são, na verdade, ditas por Deus. E sendo mensageiro de Deus, o pastor é um canal através do qual Cristo transmite seu Evangelho do Pai para todas as pessoas ( João 14.10).

O ministro tem tarefas O ministro ocupa este ofício para executar certas tarefas, diz Lutero. A mais importante tarefa é a pregação da Palavra e a administração dos sacramentos. Esta tarefa é tão importante porque através destes meios da graça as pessoas são, através da fé em Cristo, guiadas à vida eterna no céu (Mateus 7.22-23 — possivelmente pregado em 1531) e fortalecidas na fé salvadora (Mateus 11.25-30 — pregado em 15 de fevereiro de 1546). O pastor também é ordenado para fazer uso do ofício das chaves que Cristo deu a Igreja; para julgar e absolver (Mateus 16.13-19 — pregado em 29 de junho de 1519). Assim, ele é chamado para auxiliar a Cristo em seu ministério de repreender e perdoar pecados (Lucas 7.36-50). Tudo isso mostra que o ministro é chamado para servir às pessoas, para cuidar do rebanho como um bom ou verdadeiro pastor ( João 10.11-16 — pregado em 1522). Ele executa esta tarefa através de ensino, instrução, conforto e exortação com a Palavra de Deus. Este serviço

precisa ser estendido a todas as pessoas livre e gratuitamente (Mateus 20.24-28 — pregado em 5 de dezembro de 1537).

O ministro tem autoridade Como mensageiro de Deus no ministério público, o pastor tem o direito de julgar assuntos relativos à doutrina e à vida (Mateus 7.1-2 — possivelmente pregado em 1531). O julgamento feito pelo ministro é o julgamento de Cristo e de Deus (Mateus 16.13-19). Esta autoridade é espiritual e significa pregar e ensinar corretamente a Lei e o Evangelho de Deus. Certo disso, o ministro precisa pregar com poder e sem medo; abrir a boca é uma característica do seu ministério (Mateus 5.1-2)

O bom ministro tem marcas O bom ministro de Deus possui marcas que o identificam, afirma Lutero: a) O ministro precisa ser verdadeiro, isto, pregar a verdadeira Palavra de Deus (João 8.12 — pregado em setembro de 1531) e praticar o que ensina. A sua fé é provada pelas suas ações. Onde doutrina e obras combinam, frutos são produzidos (Mateus 8.1-13). Para tanto, é fundamental que ele esteja convencido que a sua doutrina e mensagem é verdadeira, isto é, a Palavra de Deus. Ele precisa poder sentir orgulho disso. Se não puder, é um traidor (João 8.12); b) O ministro precisa ser humilde, isto é, servir às pessoas com humildade. Ele não é um ministro a fim de ser grande (João 13.1-17), almejar pompa e glória (João 10.11-16), poder ou um grande salário (Mateus 20.24-28). Como é chamado para servir, precisa resistir à maior tentação que enfrenta: honra e lucro (João 10.11-16); c) O ministro precisa amar — amar o seu rebanho como uma mãe ama o seu filho (João 19.25-37). Se ele não ama, seu rebanho será mal servido e logo se tornará preguiçoso e desgostoso; d) O ministro precisa reter a sua liberdade, isto é, ele precisa ser livre a fim de pregar a Palavra de Deus sem medo. Se ele almeja riquezas ou está preocupado em perder popularidade e amizades, ele não pode pregar o que deveria (Mateus 6.33 — pregado em 1532). Rev. Dieter Joel Jagnow - Ribeirão Preto-SP jornalista e pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil

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Rev. Dieter Joel Jagnow

Homilética: Artigo

Lutero e os caminhos da liberdade “L

iberdade cristã” foi um dos temas prediletos do reformador Martinho Lutero. Para ele, o tema tinha basicamente três ênfases: liberdade da igreja institucional, liberdade da tradição e liberdade da razão. A seguir, uma síntese do que Lutero ensinou.

Razão humana Para Lutero, a verdadeira liberdade cristã passa pela liberdade da falsa e pretensa autoridade da razão humana. A razão humana sempre quer moldar o coração e a fé das pessoas, seja em nível individual ou coletivo. Ela quer mostrar quais são os caminhos da verdadeira espiritualidade. Ela entrona e destrona deuses. Ela cria céus e destrói infernos. Ela anda de mãos dadas com o misticismo, com a astrologia, com filosofias. Ela tem uma capacidade essencial de produzir idolatria e incredulidade. O seu maior perigo reside, em suma, em sua capacidade e natureza de se opor à Palavra de Deus. Para garantir a liberdade cristã, a Igreja tem o dever levantar, sempre que necessário, a Palavra de Deus contra as idolatrias produzidas pela razão humana na época em que vive. A verdadeira liberdade cristã somente é exercida quando a razão humana é mantida cativa sob a obediência a Cristo.

Igreja institucional Para Lutero, a verdadeira liberdade cristã passa pela liberdade da autoridade temporal da igreja institucional. Por causa das distorções que a Igreja Cristã havia sofrido, o principal esforço de sua obra reformadora foi o de clarear a verdadeira natureza e função da Igreja de Cristo. Ele mostrou que as Escrituras mostravam o contrário do que estava sendo praticado: a Igreja, como organização, não cria e nem controla a Palavra de Deus, mas é criada e controlada por ela. A Igreja não é primariamente uma instituição, mas uma comunhão; não uma organização humana, mas a comunhão dos santos. Esta fraternidade espiritual não pode ser encarcerada entre paredes e legislações humanas. Isto traz implicações e advertências. A Igreja não pode estar confinada a uma época, raça, cor ou nação; 40 | Teologia | Outubro e Novembro, 2010

ela não pode discriminar. Sendo de origem e essência divina, ela não está sujeita a autoridades terrenas, mas ao senhorio de Jesus Cristo. Ela sempre sofre e sai do seu curso quando se torna um palanque político ou um rebanho servil de algumas pessoas. Sempre que pessoas usurpam o senhorio de Jesus, a Igreja padece. A Igreja se torna real e vital sempre que um grupo de cristãos se reúne para ouvir a Palavra e receber os Sacramentos. É neste exercício que se fortalece e se prepara verdadeira liberdade cristã para gestos concretos de amor. É a fé ativa no amor.

Tradição humana Para Lutero, a verdadeira liberdade cristã passa pela liberdade de tradições humanas. Costumes e tradições se desenvolvem em qualquer organização humana, inclusive na Igreja. Algumas são boas e devem ser mantidas. Outras são ruins e devem ser descartadas. Parte do dia-a-dia da Igreja é vivido como resultado de tradições humanas. Por isso, ela precisa ter a sabedoria de examinar-se sobre a validade das tradições que pratica de acordo com a época em que vive. Ela precisa ter cuidado para não transformar a lealdade e a unidade doutrinária um exercício meramente intelectual. Ela precisa ter a coragem de livrar-se de fixações e preconceitos que prejudicam sua missão de levar Cristo para todos. Ele precisa ter a ousadia de reexaminar e, se necessário, corrigir certas pressuposições teológicas que residem em interpretação humana ou em tradição história e não na Palavra de Deus. Para manter livre o Evangelho que liberta a Igreja precisa, acima de tudo, guiar-se pela Palavra de Deus. Disse Jesus: “Se vós permanecerdes na minha palavra sois verdadeiramente meus discípulos; e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”( João 8.31-32). Rev. Dieter Joel Jagnow - Ribeirão Preto-SP jornalista e pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil


Rev. Jarbas Hoffimann

Tradução e Adaptação

Todos os Santos — a colheita de Deus O

Dia de Todos os Santos foi observado já em datas muito remotas na história da Igreja. A data quer honrar a memória de Cristãos que já partiram, especialmente os mártires. Perto da metade do século 19 esta data foi mudada de 13 de maio para 1º de Novembro. O Dia de Todos os Santos permaneceu na igreja da Reforma, embora se te-

nha dado ênfase maior ao Dia da Reforma, observado um dia antes, o que diminuiu a atenção ao Dia de Todos os Santos. Na maioria dos símbolos para os santos a coroa está em evidência. A coroa da vida é dada a todo aquele que perseverar na fé. No livro de Apocalipse o Senhor promete (2.10): “Sejam fiéis, mesmo que te-

nham de morrer; e, como prêmio da vitória, eu lhes darei a vida.” O símbolo mostrado aqui apresenta a coroa que sustenta ramos de trigo — o crente a quem o Senhor da igreja juntou para a sua colheita. Na parábola do joio e do trigo Jesus afirma: “colham o trigo e ponham no meu depósito.” (Mateus 13.30). As almas deles já estão guardadas. Os demais símbolos que aparecem aqui (o Alfa e o Ômega e o Chi Rho), são designações para o Salvador que tornou a colheita de almas possível. Há um hino que clama pela observação do Dia de Todos os Santos e que diz: “Por todos os santos que dos seus labores descansam, todos que pela fé, ante o mundo confessaram Seu nome, ó Jesus, seja sempre louvado. Aleluia! Aleluia!”

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Homilética: Sermão

Rev. David Karnopp

Hino Castelo Forte No

fim da década de 1980, multidões cantavam Lutero deu início ao maior movimento da história da “coração de estudante” de Milton Nascimen- Igreja Cristã: a Reforma Luterana. Com isso Lutero se to. Era a música que dava embalo ao movimento “dire- indispôs com os líderes da igreja e ao mesmo tempo se tas já”, que reivindicava eleições diretas, para presidente viu obrigado a escrever e pregar com ousadia contra os da republica. abusos e erros da igreja romana. Todo ensino de Lutero São inúmeros os hinos ou músicas desde o começo resumia-se em três princíem momentos trágicos associadas a grandes conquistas da pios: “Somente a Escritura, somente a e críticos, multidões se história. Em momentos trágicos e crígraça, somente a fé”. Por esta atitude ticos, multidões se uniram para cantar uniram para cantar hinos de Lutero e pelos seus escritos, Lutero e os usaram como uma hinos e os usaram como uma espécie foi excomungado da Igreja. espécie de liga de liga, para dizer: “estamos de mão O ano de 1529 foi um ano crítico dadas nesta luta”. A história mostra para os luteranos. A causa da Reforma que os fatores responsáveis por muitas das grandes andava em perigo. O Imperador Carlos V convocou conquistas nem sempre foram armas e exércitos, mas uma grande reunião na cidade de Espira. Nesta reunião foram hinos e músicas. um irmão do imperador veio trazer a ordem de que neCertamente um dos ingredientes que mais deu liga nhuma corte do império poderia introduzir a Reforao movimento da Reforma Luterana, foi o hino de Lu- ma Luterana e que ninguém poderia mais se converter tero “Castelo Forte”. A história da Reforma Luterana para o luteranismo. Todo o processo da Reforma estava havia chegado a um ponto crítico. Sabemos que este seriamente ameaçado. Era a hora mais escura na histómovimento não ia morrer, porque era obra divina. Mas ria da Reforma. Além disso, Lutero a toda hora sofria certamente se houve um fator que teve papel impor- ameaças de morte. tante na Reforma, este foi o hino Castelo Forte. Como Foi neste contexto sombrio de 1529 que Lutero esele surgiu e qual o valor dele para nós hoje ainda? Para creveu e compôs seu mais famoso hino, Castelo Forte. compreender vamos voltar aos tempos de Lutero. A segunda estrofe expressa muito bem este momento No dia 31 de Outubro de 1517, Lutero pregou crítico bem como a confiança de Lutero de que esta uma lista de 95 idéias, na porta da principal igreja de luta não era dele, mas ao Senhor. Numa tradução mais Wittemberg, que falavam sobre como Deus oferece literal e resumida desta estrofe, Lutero diz que: Com o perdão ao pecador. Estas idéias ficaram conhecidas nossas forças nada se pode fazer e por elas estaríamos como “95 teses”. Lutero queria discutir estas idéias com perdidos, mas que Jesus, o Deus Filho, luta por nós. as pessoas cultas em Wittemberg, pois as escreveu em Lutero baseou seu hino no salmo 46. O autor do latim. Mas para sua surpresa elas logo foram traduzidas Salmo 46 descreve a confiança do povo de Deus em para várias línguas e em poucas semanas se espalharam meio às dificuldades da vida e sua esperança por morar por toda Europa. na cidade de Deus. Esta confiança permanece, mesmo O objetivo de Lutero era combater alguns abusos quando os inimigos lutam contra eles. Mas Deus vence que tinham invadido a igreja da época. E um dos abu- os inimigos e termina com as suas armas e ainda fala sos era a venda de indulgências. As indulgências eram benignamente ao seu povo, encorajando-o nesta luta. documentos que a igreja vendia com os quais se proA palavra “refúgio” lembra as cavernas naturais da metia perdão de pecados. Lutero ensinou que o perdão Palestina, lugar de proteção. Lutero modificou esta fide Deus não pode gura para o contexto da época: Os castelos medievais ser comprado. construídos sobre rochas ou penhascos, que serviam Lutero ensinou que o Deus o dá de gra- como lugar de refúgio e defesa contra o inimigo. A fiperdão de Deus não pode ser comprado. Deus o dá de ça a todos os que gura do castelo lhe era muito familiar. Em 1521 o Eleicreem em Jesus tor Frederico Sábio o sequestrou para protegê-lo dos graça a todos os que creem Cristo. inimigos. O lugar que ele ficou recluso, por 10 meses, em Jesus Cristo. Este gesto de foi no Castelo de Wartburgo.

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Homilética: Sermão

Lutero tinha profunda confiança de que Deus é o refúgio contra as ciladas do maior inimigo do cristão: Satanás. E o lugar de encontrar este refúgio é na Palavra. E Lutero estava muito seguro deste refúgio. Isso fica claro na terceira estrofe, onde diz que, mesmo que o mundo se enchesse de demônios, não haveria por que ter medo. Bastaria uma Palavra do Senhor para derrubá-los. Na quarta estrofe Lutero chega ao ponto mais singelo desta confiança. Diz ele que mesmo que chegassem ao extremo de roubar o corpo, os bens, mulher e Castelo Forte filhos, a palavra e o Reino 1. Castelo forte é nosso Deus, defesa e boa espada; de Deus não poderiam da angústia livra desde os céus roubar. nossa alma atribulada. Este hino rapidamen Investe Satã te se espalhou por toda a com hábil afã Terra. Ele é considerado e sabe lutar com força e ardil sem par; o maior hino evangéli igual não há na terra. co da história cristã. Ao 2. Sem força para combater, longo de quase 500 anos, teríamos perdido. milhões de cristãos em Por nós batalha e irá vencer diversas línguas fizerem quem Deus tem escolhido. Quem é vencedor? dele seu hino de luta e de Jesus Redentor, consolo. Diz a história o próprio Jeová, que Lutero e seus com pois outro Deus não há; panheiros o cantavam triunfará na luta. diariamente. Nos mo3. O mundo venham assaltar demônios mil, furiosos, mentos de dificuldades jamais nos podem assombrar, Lutero dizia par o seu seremos vitoriosos. companheiro e braço Do mundo o opressor, direito, Filipe de Melan com todo rigor chton: “Vamos Filipe, julgado ele está; vencido cairá cantemos o salmo 46”. por uma só palavra. Irmãos e irmãs, a igre4. O Verbo eterno ficará, ja de hoje não está livre sabemos com certeza, de conflitos e momentos e nada nos perturbará críticos e trágicos. Volta e com Cristo por defesa. Se vierem roubar meia eles aparecem. Nes os bens, vida e o lar — tes momentos, a igreja e que tudo se vá! os cristãos individual Proveito não lhes dá. mente têm usado armas O céu é nossa herança. pouco ou nada recoEin Feste Burg — Martinho Lutero, 1528. Trad. Rodolfo Hasse. Mel. Martinho mendadas. Uma delas é Lutero, 1528. se retrair, se esconder, se

se houve um fator que teve papel importante na Reforma, este foi o hino Castelo Forte.

diminuir. Temos, porém, armas poderosas para nos defender, contra todos os ataques do inimigo maligno, entre elas a Palavra e a oração. Além delas, uma arma poderosa é nos unirmos em um vibrante hino. O Castelo Forte é uma ótima indicação, pois nele estão reunidas qualidades que poucas músicas reúnem: Palavra, Consolo, motivação, qualidade musical e poética. Nestes tempos em que o Diabo nos assedia de todas as formas, façamos do Castelo Forte uma liga para nos defender e para mostrar que estamos de mãos dadas com Deus e com os irmãos na luta contra o mal. Amém. Rev. David Karnopp, - Vacaria-RS pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil

Salmo 46

1 Deus é o nosso refúgio e a nossa força, socorro que não falta em tempos de aflição. 2 Por isso, não teremos medo, ainda que a terra seja abalada, e as montanhas caiam nas profundezas do oceano. 3 Não teremos medo, ainda que os mares se agitem e rujam, e os montes tremam violentamente. 4 Há um rio que alegra a cidade de Deus, a casa sagrada do Altíssimo. 5 Deus vive nessa cidade, e ela nunca será destruída; de manhã bem cedo, Deus a ajudará. 6 As nações ficam apavoradas, e os reinos são abalados. Deus troveja, e a terra se desfaz. 7 O Senhor Todo-Poderoso está do nosso lado; o Deus de Jacó é o nosso refúgio. 8 Venham, vejam o que o Senhor tem feito! Vejam que coisas espantosas ele tem feito na terra! 9 Ele acaba com as guerras no mundo inteiro; quebra os arcos, despedaça as lanças e destrói os escudos no fogo. 10 Ele diz: “Parem de lutar e fiquem sabendo que eu sou Deus. Eu sou o Rei das nações, o Rei do mundo inteiro.” 11 O Senhor Todo-Poderoso está do nosso lado; o Deus de Jacó é o nosso refúgio. Texto da Bíblia NTLH da Sociedade Bíblica do Brasil Outubro e Novembro, 2010 | Teologia | 43


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Música e Adoração

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Música e Adoração

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Outubro e Novembro, 2010 | Teologia | 45


Música e Adoração

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46 | Teologia | Outubro e Novembro, 2010

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Rev. Edson Ronaldo Tressmann

Artigo

493 anos depois voltamos ao S

Somente

empre gosto de ler os fatos históricos e comprovar que a história sempre se repete. Olhando para o século 16, onde se iniciou a Reforma Protestante, e olhando para os dias de hoje, consigo enxergar uma nítida repetição da história, claro, que com a diferença de 5 séculos adiante. Outubro é o mês de decisão no Brasil. Os candidatos receberão um voto de confiança nas urnas. E esse voto se deve as propostas feitas. Nos debates, ouvimos as propostas dos candidatos e ainda ouvimos acalorados debates sobre a Reforma, mas não a do século XVI e sim as reformas políticas, econômicas e sociais que cada um se propõe a adotar depois de eleito. As igrejas também se mobilizam nas eleições, pois, dependendo de quem for eleito, as leis que estão em andamento, depois de aprovadas, podem prejudicar o cristianismo. Politicamente, a igreja está preocupada, e até quando será assim? A meu ver é que estamos em volta a muita tecnologia e teologia facilitadora. Não estamos mais sendo educados a uma reflexão profunda e debates maduros e expositivos de idéias. Apenas recebemos as informações e se gostarmos, mesmo sem reflexão passamos adiante. Os Pais da Igreja sempre esti-

cada vez menos preparados a responder às questões do momento. A burguesia estava crescendo, e a igreja corrupta, tentava controlar os bens materiais através dos seus veram envolvidos em debates em prol dogmas. A intolerância religiosa era da verdade. E as verdades das Escritu- outro fator. A própria mentalidade ras estão esclarecidas de uma forma renascentista, onde o individualismo e bela e simples no Livro de Concórdia racionalismo levou ao desenvolvimen(escritos confessionais da Igreja Evan- to do senso crítico, principalmente aos gélica Luterana, 1529-1580), que são clérigos. Nesse contexto surge o monescritos confessionais da Igreja Evan- ge agostiniano Martinho Lutero. Não gélica Luterana do Brasil, (IELB), da- é por acaso que ele é citado como o hotadas de 1580. mem de seu tempo. Assim como as novidades tecnoLutero voltou seus olhos aos SOlógicas nos agradam, assim também MENTE. Martinho, depois de granas novidades teológicas. Diante de de luta consigo mesmo em busca da qualquer novidade que aparece, somos resposta na sua indagação sobre a salarrastados como folhas secas levadas vação, foi levado ao desespero, e nesse pelo vento. desespero encontrou suas respostas na Se os nossos candidatos buscaram Escritura Sagrada. Partindo de lá, desos nossos votos com defesas de refor- cobriu que SOMENTE....a Escritumas sociais, econômicas e políticas, ra....pela Graça......pela Fé.... por Cristo. como pastor quero propor aos cristãos O estopim da Reforma foi a vena voltarmos os nossos olhos à Reforma da de indulgências, venda do perdão. da Igreja do século 16, em especial aos Nós, 493 anos depois também esta“SOMENTE”. mos diante de um estopim, a venda da SOMENTE...Escritura...Graça... bênção. E 493 anos depois precisamos Fé...Cristo. voltar nossos olhos ao SOMENTE....a Qual era o cenário da Reforma? Escritura....pela Graça......pela Fé.... por Durante a baixa idade média, a Eu- Cristo, e não nos deixar levar pelo ropa estava passando por um conjunto “copo d’água, lenço com suor, apresende transformações sociais, econômicas tação no templo”, e supostos milagres. e políticas, e assim, se iniciava uma Entre as reformas sugeridas penova socieda- los candidatos, creio que nós cristãos, de. Sociedade 493 anos depois possamos reformar a essa em que o nossa atitude e voltarmos à Escritura homem renas- e vermos que nela nos é apresentada a centista, com graça de que pela fé em Cristo somos acesso aos li- salvos, e estando em Cristo, nada mais vros, começa- nos importa. va a discutir e Deus nos abençoe. pensar coisas do mundo. Enquanto Rev. Edson R. Tressmann - Alto Alegre dos Parecis-RO isso, os clérigos pastor da Igreja Evangélica Luteana do Brasil Outubro e Novembro, 2010 | Teologia | 47


Rev. Jarbas Hoffimann

Isagoge do Antigo Testamento

A Reforma resgatou a verdade esquecida: a Salvação pela fé em Jesus Cristo. 1. Introdução

H

abacuque é um profeta muito discutido, principalmente a unidade do livro. Alguns julgam que o livro não é um todo, discordando da legitimidade do salmo, no terceiro capítulo, afirmando que seria um acréscimo posterior. A parte isagógica requer um estudo profundo, e tem sido alvo de vários estudiosos, para tentar elucidar esta dúvida quanto ao livro de Habacuque. Também no aspecto teológico, Habacuque foi um grande profeta. Sua teologia é fundamental para a doutrina de igrejas como a Luterana. Ele mostra que apesar de todos os atropelos da vida, nossa vida é governada

desta raiz. Partindo deste princípio temos duas opções mais aceitas: qWQB;h] (abraçar, um abraço ardente) e WqWQb;mh] (nome de uma planta de jardim assíria). Existe ainda outra suposição segundo a qual o nome do profeta derivaria do arábico kibikkatun (anão). Numa coisa todos os eruditos concordam: Sobre a pessoa do profeta não temos informações. Uma das adições apócrifas ao livro de Daniel (568) conta uma legenda não histórica de suas relações com Daniel entre os leões (Bel e o Dragão 33ss). Esta narrativa é na LXX (não em Teodócio) atribuída a “Ambakum, filho de Jesus da tribo de Levi” e se diz que ela foi tirada “de sua profecia”. Desta tradição Mowinckel infere que, não obstan-

Habacuque e a ju por Deus. Sendo assim, quem persistir na fé, e só na fé, será recompensado. Como parte final apresentam-se as aplicações pastorais deste trabalho. De nada adianta um trabalho exaustivo, como este se ele ficar guardado em uma gaveta, esquecido. Precisamos aprender a estudar para depois transformar a teoria em prática. Mesmo que essa prática não seja pastoral ela pode ser acadêmica, servindo de auxílio ao estudo de outros, assim como nós usamos as experiências de outros neste trabalho. O livro de Habacuque nunca será totalmente esgotado em seu conteúdo, mas isso não impede que façamos um estudo visando esse esgotamento.

2. O Livro de Habacuque 2.1. Nome Pouquíssima coisa se sabe a respeito da pessoa do profeta Habacuque. Seu nome é uma incógnita. A raiz de seu nome é qbh. Portanto seu nome seria derivado 48 | Teologia | Outubro e Novembro, 2010

te ser ela um midrash (narrativa devota tardia), talvez tenha preservado uma tradição a respeito do profeta e de seu pai, os quais, portanto, eram levitas (569). Da forte influência do estilo dos Salmos, ele ainda conclui que o profeta pertencia aos nabis do templo, que tinham ligações com os cantores do templo e os autores dos Salmos (570).1 Alguns autores chegam a declarar que Habacuque é o profeta sobre quem “menos dados possuímos” 2 e eles estão certos, pouco se sabe realmente sobre este esplêndido profeta.

2.2. Autoria e Data O livro de Habacuque traz poucas informações sobre seu autor. No livro Habacuque apenas se identifica como “o profeta” [1.1 e 3.1]. Não há certeza sobre sua genealogia ou sua descendência. As pistas que temos nos levam a considerar o livro apócrifo de Bel e o Dragão, onde Habacuque teria tido um encontro com Daniel na cova dos leões. Apesar de ser um livro não


Isagoge do Antigo Testamento

cación con el Habacuc que llevó la comida a Daniel encerrado em la cueva de los leones (Dn 14.3238). También se há sostenido que fue levita, por la dedicatoria de su cántico. Igualmente se há creído haber encontrado em hl'yaiq/ sus restos mortales, junto con los del profeta Miqueas, em tiempo del imperador Teodosio (siglo IV). Pero ninguna de estas noticias puede sostenerse con absoluta certeza.5

canônico, este acréscimo pode ter preservado uma tradição antiga da genealogia de Habacuque. Segundo o livro de Bel, Habacuque seria da tribo de Levi, filho de Jesus (Bel 1.1 = LXX Dn 14.1). Clemente de Alexandria identifica Habacuque como contemporâneo de Jeremias e Ezequiel, mas ele também diz que Jonas e Habacuque são contemporâneos de Daniel. A Concordia Self-Study Bible concorda que Habacuque seja contemporâneo a Jeremias, mas descarta sua ligação a Daniel. O comentário cabalístico medieval rh'ZOh; dp,s, (ca. 1300) o identifica como “filho de uma mulher Sunamita” 3.

A Enciclopedia de la Biblia ainda traz três possíveis datas para Habacuque: a) (336-324 a.C.) neste caso, ao invés de caldeus (myDif.K;) os opressores seriam os macedônios (myTiKi), liderados por Alexandre Magno; b) Habacuque teria predito a destruição dos assírios (em vez de caldeus seriam assírios) e aí a época seria anterior à queda de Nínive (612 a.C.) c) Habacuque teria composto sua profecia depois da batalha de vymiKediK; (605 a.C.), porque os babilônicos tinham vencido aos Egípcios e estavam muito fortes e a ponto de conquistar a Palestina, sob o comando de Nabucodonosor. Pela opressão apresentada no livro, onde o justo

Uma data que é praticamente consenso é 605 a.C. Archer coloca o profeta entre 607-606 a.C., e para provar seu ponto de vista ele lembra que à época os caldeus (1.6-10) eram um povo que era tido como guerreiro, que estava dominando seus inimigos. Essa data também se encaixa com uma data subsequente à “queda de Nínive (612), e talvez até depois de Nabucodonosor ter ganho sua vitória triunfante na batalha de Carquemis em 605.” 4 Archer afirma também que a profecia, provavelmente esperava um cumprimento rápido. Se tomarmos por base a data de 605 como sendo média, teremos duas invasões como referenciais, uma em 605, por Nabucodonosor, outra em 597. Outro fato que indica uma data próxima a 605 é o fato dos vv. 1.2-4 deixarem clara uma exploração dos pobres por parte da nobreza de Judá. Podemos então marcar a época posterior à morte de Josias (609). Como diz a Enciclopedia de La Biblia:

sofre na mão do injusto, concluímos que o período de Habacuque é posterior ao justo rei Joaquim, já que o seu sucessor foi um rei mal: Jehoiakim, the evil successor of good king Josiah, became a vassal (albeit an unfaithful one) of Babylon, and his land suffered from repeated incursions of Babylonian troops (2K 24:1-2). It is into the period, between 605 and 597 BC (the date of the first siege and surrender of Jerusalem), that the prophetic activity of Habakkuk can be most naturally fitted. The promising days of Josiah, the reformer of the religions life of his people and the restorer (as was hoped) of the Davidic kingdom, have given way to days of Jehoiakim, who “did what was evil in the sight of the Lord” (2K 23:37); evil is rife in the land, and the threat posed by the Babylonian is no longer a clout the size of a man’s hand but a huge storm cloud, big with disaster.6

Profetizó hacia el 600 a.C., probablemente em tiempos de Joaquim. No tenemos noticias ciertas acerca de su vida. Se há pensado em una identifi-

De todos os argumentos apresentados, podemos destacar em comum à maioria dos eruditos a datação

ustificação pela fé

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Isagoge do Antigo Testamento

por volta do ano 605 a.C. para o Livro. Os argumentos mais convincentes são iguais aos de Archer e o do Concordia Self-Study Commentary, acima, que tomando o texto bíblico aceitam como inimigo os caldeus e justificam que se fosse rei Joaquim, não haveria tamanha injustiça no reino. Um caso aparte é a datação do último capítulo do livro de Habacuque. Existem dificuldades como a ausência deste salmo no comentário Qumran para o livro. Como diz Schökel: Aqueles que negam a autenticidade colocam o salmo nas datas mais diversas, desde o século X até o III. Pretenderam alguns ver nele influências mitológico babilônicas (Stephens, Irwin), egípcias (Zolli) ou cananéias (Cassuto, Gaster, Albright). Elementos mitológicos não faltam, a composição, porém, é muito original e reflete a mesma concepção que Jz 5 (cântico de Débora) ou Dt 33 (cântico de Moisés). À parte o salmo, outros fragmentos ou versos isolados foram considerados, por vezes, acréscimos posteriores.7 Se existem dificuldades para provar que o salmo faz parte do livro, também existem para provar que não faz ou que foi um acréscimo posterior. O fato de Qumran não conter o último capítulo pode ser facilmente explicado pela diferença literária deste último capítulo. Provavelmente os comentaristas de Qumran estavam fazendo comentário do texto histórico-profético, e

como o último capítulo é um salmo, eles não fizeram o comentário, como veremos na parte destinada à unidade.

2.3. — Texto e versões Alguns eruditos consideram o texto da TM de Habacuque como completamente corrupto, devido a diversos problemas de leitura e variantes de leituras encontradas em versões antigas. O texto foi estudado por Brownlee (1959), que examinou mais de 160 variantes do TM. Havia mudanças substanciais incluindo: mfyw por ~vea'w>, “homens culpados” em 1.11; wbrx em lugar de wOmrx,, “sua rede”, em 1.17; dnbw !nh em lugar de dnEwOb !yIY:h; (RVS: “vinho é traiçoeiro”) em 2.5; mhydawm em lugar de mh,rewOam/, “sua vergonha”, em 2.15. As variantes no texto de Habacuque, apesar de serem muitas, não influenciam na mensagem geral do texto. São mudanças tais as que Cothenet nota. São variações do TM devido a várias causas: textos com variação consonantal, textos com revocalização consonantal e tentativas na reinterpretação do texto. O autor era um homem de grande sentimento, escreveu várias frases memoráveis (2.2, 4, 14, 20; 3.2, 1719). Segundo a Concordia Self-Study Bible, o livro foi muito popular no período intertestamentário. Concluímos que, apesar das diversas dificuldades de leitura, o livro não apresenta falha na parte teológica, nas assim chamadas “bases de doutrina”. Nestas partes

Esboço O esboço do livro de Habacuque é simples e todos os autores praticamente fazem o mesmo. Para nosso auxílio tomaremos este que é um híbrido entre diversos modelos:

1. Os Problemas da Fé................................................................................................... 1.1-2.20

A. Como é que um Deus santo pode permitir a existência da iniquidade?..................................................... 1.1-12 1. Opressão em Judá, sem castigo................................................................................................................ 1.2-5 2. Os caldeus são o castigo divino.............................................................................................................. 1.6-12 B. Como é que Deus permite a uma nação ímpia triunfar sobre Seu povo?..............................................1.13-2.20 1. Crueldade sem compaixão, idolatria grosseira dos caldeus................................................................. 1.13-17 2. O que crê deve esperar humildemente, confiante na resposta divina...................................................... 2.1-4 3. O julgamento que atingirá os caldeus por causa dos cinco pecados que praticam.................................... 2.5-9 4. Deus continua sendo soberano da Sua terra.............................................................................................2.20

II. Solução de Todas as Dúvidas: a Oração da Fé e a Confiança Inabalável...................... 3.1-19

A. Oração pelo reavivamento.......................................................................................................................................3.1-2 B. Os julgamentos do Senhor no passado são sinal claro do futuro.................................................................. 3.3-16 C. O que crê regozija-se só em Deus, está segurao da vindicação da santidade de Deus.............................3.17-19 50 | Teologia | Outubro e Novembro, 2010


não existem corrupções, ou se existem não mudam o sentido do texto.

2.4. Unidade do livro Muitos eruditos sustentam que o Livro de Habacuque contém três unidades literárias maiores: a) um diálogo entre o profeta e Deus (1.1-2.4/5); b) uma seção contém uma série de oráculos da aflição (2.5/6-20) e, c) um salmo no cap. 3 (Childs IOTS, 448). Essa visão aumenta problemas, todavia, no que há pouco acordo a respeito da inter-relação dessas unidades. Uma proposta alternativa (Széles Habakkuk, Zephaniah ITC, Sweeney HBC, fc.) sustenta que o livro de Habacuque comprimiu duas sessões distintas: a) Hc 1-2, o pronunciamento (aF'm;) de Habacuque, b) Habacuque 3 a oração de Habacuque. Essas seções são formalmente demarcadas por suas respectivas subscrições em 1.1 e 3.1; os termos técnicos em 3.1, 9, 13, 19 que identificam o terceiro capítulo como um salmo. Eruditos têm normalmente obtido um consenso que embora o livro provavelmente não tenha sido inteiramente escrito por um único autor (contra Eissfeldt 1965 e Brownlee 1971), ele apresenta forma que constitui uma unidade literária coerente ( Jöcken 1977: 241-519). Outros o vêem como uma composição cúltica ou litúrgica (Fohrer 1985). Uma outra visão diz que o livro está organizado em torno da teodicéia ( Jeller 1973; Gowan 1976; Bratcer 1984; Otto 1985; Gunneweg 1986; Sweeney HBC, fc). O salmo é sempre um problema à parte para a aceitação da unidade de Habacuque. A maioria dos eruditos concorda com a unidade dos capítulos 1 e 2, mas contestam o terceiro capítulo. Pfeiffer indica uma data provável para o “terceiro século a.C.” 8 . Para tentar provar seu ponto de vista, Pfeiffer tenta validar outra suposição, a de que os estilos musicais dos Salmos seriam de uma “época posterior, e que, apesar de Amós 6:5 e outras referências semelhantes, o rei Davi nada tinha que ver com música ou cânticos, por ser um homem de guerra” 9 . Ou seja, tenta provar uma suposição com outra. Mas Archer disse muito bem ao mostrar que:

Para os que levam a sério a tradição bíblica de que Davi se preocupava muito com a autoria e a musicalidade dos Salmos, tais termos musicais não oferecem nenhuma evidência de autoria de data posterior. Além disto (sic) não há nada que impeça um profeta de compor um salmo de ações de graça e de louvor ao Senhor. Grandes porções das escrituras proféticas são de caráter altamente poético, que os próprios críticos se apressaram a indicar.10 É obviamente importante o fato de que o Comentário de Qumran do livro de Habacuque não inclui o terceiro capítulo, visto se tratar de um testemunho muito antigo. Mas alguns escritores supervalorizam este fato. Alguns esquecem que a LXX, que também é um testemunho muito precioso, traz o terceiro capítulo. Temos que levar em consideração também, que a LXX é uma tradução, ao passo que o Comentário de Qumran, como seu nome diz, é um comentário e não um trabalho de escribas ou tradutores. A LXX foi feita por judeus, para judeus de língua grega, e eles respeitavam demais o texto bíblico para incluir algo que não fizesse realmente parte do livro. E ainda devemos Outubro e Novembro, 2010 | Teologia | 51


Isagoge do Antigo Testamento

2.5. Qumran

ter em mente que o terceiro capítulo é estilisticamente diferente dos dois primeiros, e que existem algumas suposições plausíveis para o fato de não estar incluído no comentário, como afirma Millar Burrows: Sua ausência... nem sequer prova que os sectários judeus desconhecessem o terceiro capítulo. Sendo um Salmo, não se adapta ao tipo de interpretação adotada para os outros capítulos. Há também a possibilidade de que o comentário não foi completado. A Septuaginta possui os três capítulos, mas se esta parte da Septuaginta é mais antiga do que o Comentário de Habacuque é outra questão.11 Livros como a Enciclopedia de la Biblia lembram que muitos eruditos acreditam que este seja um acréscimo posterior. Eles tomam por base o fato do comentário de Qumran não conter este último capítulo. O que pode ter acontecido é: el comentarista de Qumran no acabó su trabajo, o quizás no quizo utilizar el salmo, bien por la diferencia de género literario que no permitirá ya transposiciones en el domínio de la historia. La idea, por lo tanto, de la unidad del libro de Habacuc se impone y como dice Baumgartner, el primer capítulo espera una respuesta que da el segundo, éste prepara una situación nueva que aparece en el tercero; y éste último, en fin, que comienza con las palavras “Señor, he oído tu mensaje”, implica necessariamente los que han precedido.12 Como vemos não há consenso sobre a unidade do livro, mas partindo do princípio do tema da teodicéia, podemos encontrar unidade no livro. Habacuque têm uma espécie de diálogo com Deus durante os dois primeiros capítulos e no terceiro, quando ele obtém suas respostas ele canta uma canção de louvor ao Deus eterno. 52 | Teologia | Outubro e Novembro, 2010

O comentário de Habacuque em Qumran tem 18 linhas em uma coluna ou cerca de 15,24 cm de altura (mas cerca de 2 ou 3 linhas foram comidas sempre ao longo da parte inferior da borda). Da autoria de Qumran não se duvida: The commentaries are without doubt original compositions of the Qumran Sect, for the Scriptures are distorted to show the persecution of the community by wicked, the favor of God enjoyed by the Community, and the punishment that will come upon the wicked.13 Os pergaminhos do Mar Morto, ou escritos de Qumran são muito importantes: The Dead Sea Scrolls are of importance in two principal areas of study: in textual criticism of the Old Testament, and in Judaism in the intertestamental period.14

3. Estudo terminológico Neste estudo tentamos exaurir todas as possibilidades de interpretação dos dois principais termos da passagem fundamental de Habacuque, o versículo 2.4, onde Habacuque coloca o cerne de sua teologia. As palavras estarão sendo estudadas em todo o Antigo Testamento, o que nos dá um campo bastante amplo para o trabalho.

3.1.

qyDIc;

No original, o substantivo masculino singular

qyDIc; ocorre 120 vezes, das quais, 10 vezes com a conjunção w>, como aparece em Habacuque. Ele aparece um

total de 358 vezes em suas variações de masculino plural, feminino e feminino plural. Só este fato já mostra sua importância. Seu sentido básico foi sempre o mesmo, quer dizer, qyDIc; significa e significava “justo”. Interpretações básicas são: 1. justo, quando se tratando de governo “a: Davidic King 2Sm 23.3 b: of judges, Ez 23.45, Pr 29.2 c: of law Dt 4.8 d: of God Dt 32.4”15 . 2. justo, em caso de alguém correto, certo. O sentido básico conota conformidade com uma postura ética e moral. O sentido original da raiz qdc foi “ser reto/franco”. O uso primitivo de


Isagoge do Antigo Testamento

qd,c, (retidão, exatidão) — exceto em Gn 15.6; 18.19;

30.33) ocorrem em relação às funções de juízes. Neste sentido: todas as decisões devem ser tomadas imparcialmente com justiça, com exatidão (qd,c,) Lv 19.15. Em outros ramos também era cobrada a mesma qd,c,: It is applied similarly to weights and measures (Lev 19:36). Comercial fraud and deception are not allowed. In both these usages is seen the basic sense of “not deviating from the standard.” The word describes three aspects of personal relationships: ethical, forensic, and theocratic.16 Em sentido ético no tratamento do homem com seu próximo: The man who is righteous tries to preserve the peace and prosperity of the community by fulfilling the commands of God in regard to others. In the supreme sense the righteous man (qyDIc); is one who serves God (Mal 3:18). ... the “righteousness” consisted in obedience to God’s law and conformity to God’s nature, having mercy for the needy and helpless. The qyDIc;; gives freely (Ps 37:21), without regard for gain. The presence of this kind of people is the exaltation of the nation (Prov 14:34), and the memory of the righteous man is a blessing. When men follow God, righteousness is said to dwell in the city (Isa 1:21). But when sin rules, it becomes a harlot.17 O qyDIc; é uma pessoa que deve tornar-se nova pessoa cuja os atos são governados pela lei de Deus. A conduta justa deriva de um novo coração (Ez 36.25-27). Habacuque coloca esta outra interpretação: o justo deveria viver pela sua fé (2.4) Good conduct by an individual establishes a claim on the Lord of deliverance from calamitous judgment. Similarly, Gen 15:6 teaches that Abraham receivet Isaac as his heir because his trust in God’s promises was accounted as rigteousness.18 O sentido essencial da palavra sempre foi o mesmo, o ser justo, uma pessoa correta, uma pessoa que tem sua vida guiada por Deus.

3.2.

qn"Wma/

Este vocábulo, que é um substantivo feminino singular, que vem acompanhado de sufixo da terceira

pessoa masculino singular, aparece 2 vezes (Sl 96.13; Hc 2.4), da forma que está em Habacuque. Mas suas variações ainda aparecem mais 11 vezes: 2 vezes no Pentateuco (Êx 17.12; Dt 32.4), 6 vezes nos poéticos (Sl 100.5; 37.3; 119.30,86; Pv 12.17,22) e 3 vezes nos Proféticos (Is 33.6; 25.1; Jr 5.1). Seu sentido é firmeza, constância, fidelidade. O termo é usado para referir-se a “mãos” no Antigo Testamento. Firmeza de mãos, como em Êx 17.12: “...ficaram as mãos firmes até ao pôr-do-sol.” Em outras passagens ele refere-se à conduta das pessoas e certas vezes de Deus e do homem, como no Sl 119.30: “Escolhi o caminho da fidelidade...” Fora o livro dos Salmos, hn"Wma/ é traduzido por pi,stij e não por avlh,qeia. hn"Wma/ também não aparece em construções onde tm,a, é muito comum. Assim, o Antigo Testamento diz que a “palavra” é tm,a,, mas esta nunca diz que ela é hn"Wma/. Em Habacuque temos a frase: o justo viverá pela sua fé. Aqui hn"Wma/ dificilmente significa meramente “piedosa honestidade” ou “fidelidade,” mas é o que conduz a pessoa que está de acordo com tm,a,, o qual inclui sinceridade, fidelidade, confiança, e estabilidade. hn"Wma/ é peculiar ao qyDIc; e o traz à vida. Claro, essa sentença não deveria ser isolada de seu contexto. 2.4 é o antecedente do v.5, e não se refere à fé do profeta. Devemos ver também essa passagem como foi traduzida na LXX, que lê evk pi,stew,j mou. Essa tradução fortalece a visão de fidelidade de Deus e não a Deus: “Pela minha fidelidade o justo viverá”. Devemos questionar se a LXX aqui assume um texto hebraico diferente. Quando Paulo omite o pronome em Rm 1.17e Gl 3.11 (talvez, mas não com certeza, em conexão com a LXX), isto é mou com di,kaioj, “meu justo” e assim produz um diferente significado, talvez em conexão com a LXX, etc. A LXX traz a partícula mou, enquanto os originais gregos do NT não a trazem. O que provavelmente aconteceu foi que houve um erro de tradução e os LXX colocaram a partícula mou para que eles pudessem compreender como uma pessoa poderia ser justa sem as obras da lei, apenas pela fé nas promessas de Deus.

4. A Justificação por fé Para entendermos como realmente se dá a justificação do fiel em Habacuque, devemos tomar o texto com seriedade e respeito. Estamos lidando com o cerne de toda a teologia cristã. O texto é tão importante a ponto Outubro e Novembro, 2010 | Teologia | 53


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de ter sido citado três vezes no Novo Testamento, duas vezes por Paulo (Gl 3.11 e Rm 1.17) e uma vez pelo autor da carta aos Hebreus (10.37-38). São passagens que são “sedes doctrinae”, passagens que são fonte de doutrina. Esta é a ideia fundamental do livro de Romanos: San Pablo se muestra en repetidas ocasiones entusiasta de la doctrina de Habacuc y toma de ella la idea fundamental de su epístola a los Romanos: la justicia de Dios brota de la fe y recae en la fe, en íntima relación con una de las ideas base del libro de Habacuc. Se insiste de nuevo en esta idea en la epístola a los Galatas y en la de los Hebreos.19 O profeta parece estar muito preocupado com a situação de seu povo. Ele vê diariamente a opressão do impiedoso sobre o humilde fiel. Ele vê violência contra seu povo, provavelmente praticada pelo próprio povo (1.3). Vê o perverso se aproveitando cada vez mais do justo (1.4). Vendo toda esta injustiça Habacuque clama a Deus por uma resposta. Resposta que é dada em 2.4, onde ele é chamado a proclamar a fidelidade a Deus.

4.1. — Conteúdo Temos cinco profecias evidentes em Habacuque: a) el rey caldeo, aguerrido y conquistador será presa a su vez del expolio a que le someterán otros pueblos; b) el impío comete muchas injusticias, pero esas injusticias recaerán sobre él; c) el impío oprime los pueblos sometidos, pero la gloria de Yahweh resplandecerá; d) el impío se regocija con el oprobio de los demás, pero la verguenza se cabrá en él; e) el impío es idólatra, pero Dios le impondrá silencio.20

4.2. Mensagem Israel está numa fase horrível. Existem pessoas de todas as espécies se aproveitando do seu poder (religioso ou político) para afligir cada vez mais o povo. Habacuque se preocupa com isso e pergunta a Deus até quando essas pessoas continuariam agindo assim. Deus diz que suscitará os caldeus contra Israel. Habacuque pergunta novamente: “por que justamente os caldeus, que são um povo ímpio e idólatra, devem servir de instrumento do castigo de Deus”. Ao que Deus responde que a seu tempo, os caldeus também serão castigados 54 | Teologia | Outubro e Novembro, 2010

por toda sua maldade (2.13-14). Habacuque fica especialmente preocupado com a derrota para os caldeus, porque ele sabia o que acontecia com as nações subjugadas: O tratamento dado a uma cidade conquistada era uma curiosa combinação de religião, cobiça e crueldade. As antigas idéias religiosas, compartilhadas por Israel com os seus vizinhos, exigiam que o deus da batalha recebesse a sua parte dos lucros da vitória. Ou seja, se o povo de Deus fosse subjugado pelos caldeus ele seria obrigado a seguir os deuses caldeus e o profeta, como um servo de Deus não queria que isso acontecesse. O livro de Habacuque começa com a palavra aF’M;h;, oráculo, que tem o sentido de um peso a ser suportado. Este termo introduz um julgamento, embora isso não aconteça. Habacuque dá um exemplo de fidelidade, quando ao invés de desesperar-se ele espera e confia em Deus. A resposta a sua fidelidade logo vem: “o pecador orgulhoso que confia em si mesmo será condenado, e seu tempo está próximo, somente o crente e fiel ficará de pé, justificado, no julgamento do Senhor. Só ele participará da vida eterna, só ele tomará parte nesta vida, na continuação da história, 2:4.” Depois de resolvidas suas dúvidas, Habacuque glorifica a Deus, entoando um belíssimo Salmo de louvor: E o poeta, consolado com esta certeza (a justiça de Deus), entoa os versos finais (3.17-19). O curso atormentado da história é transposto para imagens do mundo agrícola e pecuário. E que tudo apareça como imerso


Isagoge do Antigo Testamento

em desolação e morte, a fé em Deus é que ajuda a manter a atitude de otimismo.21

4.3. O Mal Vários eruditos já discutiram sobre esse tema, o que cada vez mais contribui para tentar se chegar a uma conclusão sobre qual seria o problema do mal em Habacuque. A revista Vox Scripturae fez um estudo sobre a palavra mal: A palavra hebraica [r: (ra‘) e seu feminino h['h' (râ‘âh), conforme o BDB, têm o sentido de mal, miséria, calamidade, desgraça, erro e mal ético. O NDITNT informa-nos que a LXX traduz o termo hebraico por kako,j (kakós) e ponhro,j (ponerós). Segundo o NDITNT, kako,j (kakós) tem dois sentidos básicos: a) mal físico, muitas vezes relacionado com um castigo divino (Dt 31.17), embora Deus também seja apresentado como um protetor contra o mal (Sl 23) e esteja sempre no controle da situação e b) mal moral, sempre no sentido concreto do termo (Mq 2.1). Já o termo ponhro,j (ponerós) adquire outras nuances no sentido: “imprestável”, “corrupto”. Tal levantamento lexical confirma que o termo tem dois sentidos fundamentais: mal físico e mal moral. Mas trata-se de um conflito interno entre os diversos grupos judaizantes, ou de conflito entre Judá e alguma ou algumas potências estrangeiras? As opiniões são variadas, mas para a maioria dos críticos, o livro fala da opressão de Judá por um país estrangeiro. Mas qual é o povo? Existem diversas opiniões:

– Assírios (Budde, Cornill, Mowinckel, Weiser, Sellin-Fohrer) – Egípcios (Elliger) – Babilônios e Caldeus (Wellhausen, Giesebrecht, Delcor, Sellin, Pfeiffer, Trinquet) – Tribos Árabes do norte (Cheyne) – Persas (Lautergurg). Teoria estranha, visto que o pouco que sabemos sobre os persas, nos conta de sua boa relação com os judeus – Gregos [Alexandre Magno] (Duhm, Torrey) – Selêucitas [Antíoco IV Epífanes 175-163 a.C. (Happel). Teoria sem fundamentação, visto que o cânon dos 12 profetas menores já estava pronto por volta de 190 a.C. Se deixarmos as especulações de lado e analisarmos simplesmente o texto, chegaremos à conclusão que os inimigos são os caldeus, que como já dissemos, era um povo que estava em franca ascensão por volta do ano 605 a.C.

4.4. O justo viverá pela sua fé Como vimos no estudo terminológico, as palavras justo e fé são de extrema importância para a compreensão da profecia de Habacuque. O justo é aquele que vive em conformidade com a vontade de Deus, e por isso será salvo, não por cumprir obras da lei. A fé não é uma mera fé em si mesmo e também não é a fidelidade por parte de Deus para com o homem. É antes de tudo uma fé pura, em Deus, nas promessas Dele. Paulo usou muito do livro de Habacuque, mostrando que o conhecia bem. Sua carta aos romanos é centrada no tema de Hc 2.4: “O justo viverá pela sua fé”. Em Romanos temos a explicação desta teologia dada pelo próprio Apóstolo Paulo, o que nos serve de grande auxílio para poder interpretar Habacuque. Como a Concordia Self-Study Bible diz numa tradução que fizemos: “Este Habacuque é um profeta do consolo, que quer fortalecer e dar suporte ao povo, para preveni-lo da perda da esperança na vinda de Cristo, porém coisas estranhas podem acontecer. Ele usa todo plano e estratagema que pode servir para dar forte sustento em seus corações à fé na promessa de Cristo... É realmente verdade que por causa dos pecados do povo a nação deveria ser destruída pelo rei da Babilônia. Mas Cristo e seu reino não falharia em vir sobre esse relato... Outubro e Novembro, 2010 | Teologia | 55


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Do mesmo modo nós podemos sustentar Cristo com a palavra de Deus na antecipação do Último Dia, pois parece que Cristo está demorando muito a vir e não virá...” Assim temos novamente o conforto, pois os judeus estavam atormentados com a demorada vinda de Cristo e com os sofrimentos que aqui passavam, como hoje acontece. Mas como em Habacuque, aquele que permanecer fiel viverá, pois o justo, pela sua fé (em Cristo) viverá (eternamente).

zendo: “Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; o produto da oliveira minta, e os campos não produzam mantimentos; as ovelhas sejam arrebanhadas do aprisco, e nos currais não haja gado, todavia, eu me alegro no Senhor, exulto no Deus da minha salvação. O Senhor Deus é a minha fortaleza, e faz os meus pés como os da corça, e me faz andar altaneiramente.”

4.5. O agradecimento do fiel recompensado

Como dissemos na introdução, o livro de Habacuque é riquíssimo e o seu conteúdo não será jamais extinguido, contudo, fizemos um estudo acurado de todas as obras que temos à disposição, juntamente com os textos originais e o texto no vernáculo. Habacuque foi um exemplo de fidelidade a Deus, exemplo a ser seguido por todos os crentes. Se nós andarmos nos caminhos do Senhor, seremos justificados pela nossa fé. A fé produz coração novo e vida nova. Através dessa nova vida, o fiel começa já na terra a viver sua vida eterna. Assim terminamos este trabalho, na pretensão de ter alcançado pelo menos alguns dos objetivos aos quais nos propusemos. As aplicações pastorais são basicamente estas que nós expusemos no capítulo anterior. Mas como Habacuque é um texto riquíssimo em conteúdo teológico, cada pessoa poderá usá-lo e aplicá-lo em muitas outras circunstâncias.

Com um belíssimo canto é encerrado o livro do profeta Habacuque. Como seria bom se todos nós soubéssemos colocar nossa confiança em Deus como ele fez (3.19). Este salmo se enquadra perfeitamente com o restante do livro. Ele apenas foi escrito de forma diferente. Exemplos disso vemos por toda a literatura, alguns autores misturam história com poesia, fazendo um relato e depois colocando o texto em uma forma mais agradável aos ouvidos e aos olhos. Vemos o salmo como um canto de louvor, um agradecimento por toda a atenção que Deus nos dá, assim termina o livro de Habacuque, com uma beleza inigualável.

5. Aplicações pastorais Como Habacuque, nós também questionamos as injustiças do mundo, principalmente quando essas injustiças nos afetam diretamente. Como Habacuque queremos ter nossas respostas e nossas soluções imediatamente, somos impacientes. Queremos entender os “mistérios” de Deus. Não deixamos Cristo governar a nossa vida, como deve ser. Contudo, temos o exemplo de Habacuque, que viveu numa época de muito sofrimento e ameaça de guerras e subsequente derrota. Ele estava confuso com tudo que Deus lhe estava anunciando, como nós também ficamos confusos com as coisas que acontecem ao nosso redor. O profeta não desanimou, ficou firme em sua fé até o fim, cumprindo o que Deus lhe ordenava e anunciando ao povo as decisões de Deus. Habacuque foi fiel, foi um justo e o justo vive pela sua fé. Se permanecermos fiéis até o fim, teremos a vida eterna e juntaremos nossas vozes à de Habacuque di-

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6. Conclusão

Rev. Jarbas Hoffimann — Nova Iguaçu-RJ, pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil


Isagoge do Antigo Testamento

Notas 1. YOUNG, Edward J. Introdução ao Antigo Testamento — p 170 2. SCHÖKEL, Luis Alonso. Profetas II, vol. 2. p. 1123 3. ANCHOR BIBLE DICTIONARY, The. Ed.: David Noel Freedmann, vol. 3. p. 2.III 4. ARCHER Jr., Gleason L. — Merece Confiança o Antigo Testamento. — p. 295 5. ENCICLOPEDIA DE LA BIBLIA, vol. 3. p. 996 6. CONCORDIA SELF-STUDY COMMENTARY, Roehrs, Walter R. P. 635 7. SCHÖKEL, Luis Alonso. Profetas II, vol. 2. p. 1125 8. ARCHER Jr., Gleason L. — Merece Confiança o Antigo Testamento. — p. 296

9. Idem 10. Idem 11. Idem 12. ENCICLOPEDIA DE LA BIBLIA, vol. 3. p. 997 13. THE BIBLICAL WORLD. Ed. Charles F. Pfeiffer. p. 189 14. Idem 15. Bible Works 16. THEOLOGICAL WORDBOOK OF THE OLD TESTAMENTO. Ed.: R. Laird Harris. pp. 752-3 17. Idem — p. 753 18. Idem 19. ENCICLOPEDIA DE LA BIBLIA, vol. 3. p. 997 20. Idem p. 996 21. SCHÖKEL, Luis Alonso. Profetas II, vol. 2. p. 1125

Bibliografia ANCHOR BIBLE DICTIONARY, THE. Ed.: David Noel Freedmann, vol. 3, New York: Doubleday: 1992; ARCHER Jr., Gleason L. — Merece Confiança o Antigo Testamento BIBLE WORKS, versão 3.5 para computadores tipo PC BIBLICAL WORLD, THE. Ed. Charles F. Pfeiffer — Grand Rapids. Baker Book House: 1966 CONCORDIA SELF-STUDY BIBLE, New International Version. General Editor: Robert G. Hoeber — Concordia Publishing House, St. Louis: 1986 CONCORDIA SELF-STUDY COMMENTARY, Roehrs, Walter R., Concordia Publishing House, Saint Louis: 1979 ENCICLOPEDIA DE LA BIBLIA, vol. 3. Ediciones Garriga, Barcelona: 1964 HEATON, E. W. O Mundo do Antigo Testamento., Trad.: Fernando de Castro Ferro. Rio de Janeiro: Zahar editores: 1965 HEBREW AND ENGLISH LEXICON OF THE OLD TEXTAMENT, A –– With an Appendix Containing the Bilblical Aramaic. Francis Brown, Oxford: Clarendon Press LUTHER’S WORKS, vol. 35 — Word and Sacrament I. Ed. Helmut T. Lehmann — Philadelphia, Muhlenberg Press: 1960 NOVO COMENTÁRIO DA Bíblia, O. Ed.: F. Davidson M. A., vol II, São Paulo: Edições Vida Nova. 1985 SCHÖKEL, Luis Alonso. Dicionário Bíblico Hebraico-Português., Trad.: Ivo Storniolo, José bortolini. São Paulo: Paulus: 1997 SCHÖKEL, Luis Alonso. Profetas II, vol. 2. São Paulo: Paulinas: 1988 STUDIES IN OLD TESTAMENTE PROPHECY. Ed.: H. H. Rowley, Edinburgh: T. & T. Clark: 1950. pp 1-18. THEOLOGICAL DICTIONARY OF THE OLD TESTAMENT. Ed.: G. Johannes Botterweck e Helmer Ringgren, vol. I — Revised Edition. Grand Rapids: William B. Eerdmans Publishing Company, 1983.] THEOLOGICAL WORDBOOK OF THE OLD TESTAMENT. Ed.: R. Laird Harris. Chicago: Moody Press: 1980 VOX SCRIPTURAE. Revista Teológica Brasileira. Vol III, nº 1, Março 1993. pp. 3-18. Luiz Alberto Teixeira Sayão. São Paulo: Edições Vida Nova YOUNG, Edward J. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo.Vida Nova

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Rev. Egon Martim Seibert

Lutero e Luteranismo

O Pastor e a Vida Devociona Introdução

D

urante boa parte de meu Ministério Pastoral, de segunda a sexta, iniciava diariamente minhas atividades entrando às 8h00 no meu gabinete de trabalho para fazer o meu devocional que se desenrolava, na maioria das vezes, do modo como segue: Orava para que Deus Espírito Santo me inspirasse no trabalho e fortalecesse minha fé pelo estudo de Sua Palavra (breve oração). Lia a Bíblia por cerca de meia hora. Esta leitura era sistemática, livro após livro. Consultava comentários, lia outras traduções além da portuguesa. Também aqui incluía as leituras da trienal para o domingo quando deveria pregar sobre um dos seus textos. Na segunda, lia o Salmo e o texto do Antigo Testamento. Na terça, a epístola. Na quarta, o Evangelho. O tempo gasto na leitura da Bíblia era o momento que eu considerava que Deus falava comigo. Após a leitura, seguia o momento de oração que perdurava por meia hora, mais ou menos, também. Lia, a partir da convenção da IELB em Veranópolis no ano de 1990, primeiramente as orações do dia propostas no livro de orações de George Kraus, “Palavra e Oração”. Nestas orações, há um espaço sob o título “Súplicas Especiais e Ação de Graças” onde rabisquei o nome de pessoas e de grupos que me eram caros, e pelos quais orava então. Depois disso, seguia minhas anotações que procediam das visitas pastorais

a)

b)

c)

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(necessidades especiais de irmãos) para, finalmente, orar pelos congregados seguindo a lista dos filiados que apareciam no rol de membros. Ao terminar de pronunciar meu último amém, quase sempre havia se passado uma hora até uma hora e meia de tempo. À noite, na cama ou no gabinete, ainda uma breve oração de confissão de pecados, súplica de perdão, ação de graças pelas bênçãos recebidas, alguns pedidos especiais pelos familiares e por mim mesmo, e então me entregava aos prazeres... Do sono. Mas interessantemente e sem querer, eu, sem o saber, fazia muito daquilo que Lutero, em alguns de seus

escritos, recomendou a respeito do orar e ler a Bíblia.

1. A vida devocional de um cristão (pastor) segundo o que Lutero ensina sobre o orar. Se cada um de nós pudesse descrever, aqui e agora, a sua vida devocional, certamente haveríamos de receber contribuições valiosas. Contudo, queremos agora, de um modo especial ver, ou então rever, o que Lutero nos tem a dizer a respeito da mesma. Com respeito ao motivo que cristãos têm para orar, Lutero em


Lutero e Luteranismo

al segundo Martinho Lutero primeiro lugar deixa claro que Deus o requer dos que são seus filhos. Aliás, para Lutero, somente um cristão podia orar pelo simples fato de que aquele que não o é não sabe pelo que ou como orar (Plass, p. 1.077). Orar para Lutero não era algo facultativo ao cristão (Plass, p. 1.075 e 1.076). Para ele, cristãos obedecem ao seu Senhor e o fazem (Lutero, 1995, p. 274, v. 7 e Livro de Concórdia, p. 459). Ele até chega a afirmar em 1539, em sua exposição de 1Pedro 4.8, que alguém que não ora não deveria sequer imaginar que fosse cristão (Plass, p. 1.079). Um segundo motivo que Lutero apresenta para que cristãos orem encontra-se no fato de que Deus promete ouvir as preces de seus filhos (Livro de Concórdia, p. 459; Lutero, 1995, p. 274, v. 7). No entanto, ele deixa claro que embora haja a promessa de que Deus atenda todas as orações, ele as atende a seu modo (Lutero, 1995, p. 275, v. 7). Por isso ele lembra que neste orar o cristão pede que a vontade do Pai seja feita e não a sua, pois ele sabe o que verdadeiramente é bom para seus filhos (Plass, p. 1.096 e 1.098). Além disso, este orar sempre deveria ser feito em nome de Jesus por causa de quem somos aceitos e ouvidos (Plass, p. 1.077). Ele afirma: “Em seu nome eu dobro meus joelhos, embora eu não seja digno de ser ouvido por Deus” (Plass, p. 1.078). Uma terceira razão que Lutero aponta para que um cristão ore, encontra-se nas necessidades que, tanto ele, como seu próximo, têm.

Na instrução aos visitadores ele demonstra que pastores “devem instruir as pessoas a pedirem a Deus coisas terrenas ou eternas. Devem encorajar a todos a levarem suas preocupações a Deus. Um padece pobreza, outro doença, o terceiro sofre por causa de pecados, o quarto, por causa de descrença e outros males. Por isso muitos recorrem a Santo Antônio, outros a São Sebastião, etc. Qualquer, porém, que seja o problema, deve-se procurar ajuda em Deus” (Lutero, 1995, p. 275, v. 7). No Catecismo Maior ele ainda diz: “Por isso devemos nos acostumar desde a mocidade a orar diariamente, cada qual por toda a sua própria necessidade, onde

quer que sinta algo que lhe diga respeito, e também pela necessidade de outras pessoas entre as quais vive. Por exemplo, por pregadores, autoridades, vizinhos, empregados” (Livro de Concórdia, p. 460). Com respeito ao como orar, Lutero lembra que a oração exige fé verdadeira, baseada na palavra e promessa de que Deus, por Cristo, por meio de quem, aliás, a oração torna-se aceitável diante dele, dará aos que oram toda a graça e bem (Livro de Concórdia, p. 474; Lutero, 1995, p. 275, v. 7). Para ele a oração tinha que ser sincera e não ser um ato de hipocrisia por meio do qual, aquele que ora, busca prestígio ou fazer grau diante de outras pessoas (Lutero, 1995, p. 118, v. 5). Outubro e Novembro, 2010 | Teologia | 59


Lutero e Luteranismo

O Reformador também declara que o orar correto é feito com atenção, do princípio até o fim. Por isso ele lembra o próprio ofício daquele a quem escrevia, quando afirmou: “Assim, um barbeiro aplicado e competente tem que voltar seu pensamento, sua atenção e seus olhos, com muita precisão, para a navalha e os cabelos, e não se descuidar, não sabendo que esteja afiando ou cortando. Mas, se ele, ao mesmo tempo, quisesse fazer muita conversa ou ficar pensando ou olhando outras coisas, certamente iria cortar fora a boca ou o nariz, e até o pescoço. Desta forma, cada coisa que é para ser bem feita, quer ter a pessoa inteira, com todos os seus sentidos e membros, como se diz: “pluribus intentus minor est ad singula sensus — Quem pensa em muita coisa, não pensa em nada, também não faz nada direito. Tanto mais a oração precisa ter o coração uno, por inteiro e exclusivo, se é que deva ser uma boa oração” (Lutero, 1984, p. 323). Para Lutero, o ato de orar podia ser realizado a sós e, por exemplo, com outros na Igreja, (Carr, p. 624). De acordo com o seu pensamento, este seu orar não era tão somente feito em silêncio ou falando em voz alta. Até mesmo ele fazia uso da música para orar e afirmou que ora o dobro quem ora cantando (“Doppelt betet, wer singet”, Carr, p. 625). O Reformador ensinou que cristãos, além de orarem por si mesmos, também oram pela Igreja e Estado, 60 | Teologia | Outubro e Novembro, 2010

pela conversão dos pecadores, pelos inimigos (Plass, p. 1.099), pelos que tinham problemas no casamento, pelos soldados em guerra, muito embora fosse reticente com respeito ao orar para que alguém vencesse uma guerra que tivesse um motivo injusto (Carr, p. 626, nota 48). Ao Mestre Barbeiro Pedro

Beskendorf de Wittenberg, com quem Lutero já fazia então a barba no mínimo por 18 anos, o Reformador deu, em 1535, instrução de como se deve orar. Segundo este escrito, o Reformador reconhece que, por vezes, perdera a vontade de orar em razão do diabo e da própria carne. O que fazia então? Dependendo da hora, ia ao quarto ou igreja, ficava a sós ou colocava-se em meio às pessoas, para então tomar em


Lutero e Luteranismo

suas mãos o pequeno saltério e falar em voz alta os 10 Mandamentos, o Credo e, dependendo da disponibilidade do tempo, citar passagens bíblicas de Jesus e do apóstolo Paulo (Lutero, 1984, p. 318). Depois disso ele orava de uma só sentada todo o Pai Nosso (Lutero, 1984, p. 319) que, segundo o

seu critério, era a melhor de todas as orações (Lutero, 1984, p. 323), ou então, depois de cada petição orava algo que tinha a ver com a mesma, como por exemplo, na sexta petição conforme segue: “6. A sexta petição: “E não nos deixes cair em tentação”, e diga: Ah, querido Senhor, Deus e Pai, conserva-nos resolutos e bem dispostos, ardorosos e aplicados em tua palavra e serviço. Que não nos

sintamos seguros, preguiçosos e relaxados, como se agora tivéssemos tudo, e o diabo ferino nos assalte e tome de surpresa, e nos tire de novo a tua palavra preciosa ou provoque discórdia e sectarismo entre nós, ou ainda nos atraia ao pecado e à vergonha, seja espiritual ou corporal; mas dá-nos, por teu Espírito, sabedoria e força, para que lhe resistamos com bravura e obtenhamos a vitória, amém.” (Lutero, 1984, p. 321) Lutero, apesar deste seu exemplo, deixa claro ao Mestre Barbeiro que não queria que o mesmo se prendesse às preces que ele lhe trazia como exemplo e as repetisse todo o dia como uma recitação qualquer. Pelo contrário, o que ele desejava era que o seu amigo se sentisse estimulado quanto ao que poderia, com suas próprias palavras, dizer quando orasse cada petição da oração do Senhor (Lutero, 1984, p. 322). Ele também ressalta que, se houvesse tempo, então ainda procederia da mesma forma com os 10 Mandamentos. Ele os tomava nesta ordem: a) como ensinamento, refletindo sobre o que Deus esperava nele, dele; b) em seguida, fazia dele uma ação de graça; c) então fazia uma confissão de pecados; para, finalmente, d) colocar diante do Senhor numa prece seus pedidos. E para que o Mestre Barbeiro o pudesse compreender, ele exemplifica todos os mandamentos. Como exemplo disto, transcrevo o que ele recomendou a respeito do primeiro mandamento (Lutero, 1984, p. 324). “1. “Eu sou o Senhor, teu Deus” etc. “Não terás outros deuses diante de mim” etc. Aqui penso, em primeiro lugar, que Deus exige de mim e me ensina a confiar nele de coração em todas as coisas, e que ele, muito seriamente, deseja ser meu Outubro e Novembro, 2010 | Teologia | 61


Lutero e Luteranismo

Deus. E como tal devo considerá-lo, sob pena de perder a eterna bem-aventurança. E meu coração em nada mais deve basear-se ou confiar, seja em algum bem, honra, sabedoria, poder, santidade ou qualquer criatura. Em segundo lugar, sou grato à sua insondável misericórdia, por se voltar tão paternalmente para mim, homem perdido, oferecendo-se a si mesmo sem ser solicitado nem procurado e sem qualquer merecimento meu, para ser meu Deus, aceitar-me, e por querer ele ser meu consolo, proteção, auxílio e força em todas as aflições. Isso que nós pobres e cegos seres humanos temos procurado diversos deuses e ainda os procuraría-

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mos, caso ele mesmo não se fizesse ouvir de forma tão manifesta e se nos não oferecesse em nossa linguagem humana, querendo ser nosso Deus. Quem, por tudo isso, lhe pode agradecer o bastante para sempre e eternamente? Em terceiro lugar, confesso e professo meu grande pecado e ingratidão, de ter desprezado, de maneira tão vergonhosa, doutrina tão bela e dádiva tão valiosa por toda minha vida, e de ter provocado sua ira de forma tão horrível com inúmeras idolatrias; isso me dói e peço misericórdia. Em quarto lugar, peço e falo: Deus meu e Senhor, ajuda-me por tua graça que eu, a cada dia, consiga aprender e compreender melhor

este teu mandamento e possa em confiança sincera, agir de acordo. Protege meu coração, para que não me torne tão esquecido e ingrato, não procure outros deuses nem consolo em quaisquer criaturas, mas permaneça de todo o coração unicamente contigo, meu único Senhor. Amém, querido Senhor Deus e Pai, amém.” (Lutero, 1984, p. 324) Embora Lutero tenha encerrado este escrito chamando a atenção do Mestre Barbeiro para que o seu espírito não se cansasse por querer fazer tudo isso de uma só vez, que uma boa oração não precisava ser longa nem repetida várias vezes (Lutero, 1984, p. 332), é verdade que ele gastava cerca de 3 horas diariamente para meditar e orar (Carr, p. 624). Para Lutero, orar era a arte suprema (“Kunst über alle Künste”, Plass,


p. 1.088). Ele não considerava que fosse algo fácil de se fazer (Plass, p. 1.088). Aliás, ele julgava esta tarefa muito mais difícil do que pregar (Plass, p. 1.088). Por fim ainda cumpre lembrar que Lutero ensinou que cristãos também agradecem por todas as coisas, até mesmo pelas simples. Em meados de 1530, ele escreveu “O Sublime Louvor” tendo como base o Salmo 118, do qual muitos de nós recitam com fé e gratidão após as refeições o versículo 29, aquele que diz “Rendei graças ao Senhor, porque ele é bondoso, e sua bondade dura para sempre”. Dentre as afirmações que Lutero faz neste documento, destacamos que ele chama a atenção ao fato de que muitos pensavam que já haviam entendido este versículo até a última gota, aos quais ele chama de patifes e de quem ele afirma que jamais se lembraram de agradecer a Deus pelo leite que mamaram no seio de suas mães, muito menos por tudo quanto Deus lhes concedeu ao longo de suas vidas. Sim, Lutero ressal-

ta que cristãos agradecem também pelas coisas simples da vida, afirmando: “Por isso esse versículo deveria estar, com justiça, no coração e na boca de qualquer pessoa todos os dias, toda vez que come, bebe, olha, ouve, cheira, anda, fica parado ou toda vez que faz uso dos membros de seu corpo, dos bens ou de alguma criatura, a fim de que se lembrasse de que, se Deus não lhe desse essas coisas para uso e não as preservasse contra o diabo, teria que carecer delas” (Lutero, 1995, p. 25-26, v. 5). E alguém que reconhece isso com um coração alegre, certamente dirá, segundo ele, algo parecido com isso: “Vamos lá! Tu és um Deus amigo e bondoso que me demonstras eternamente, isso é, sempre e sempre, sem cessar, a mim homem indigno e ingrato, bondade e benefícios tão grandes: a ti se deve louvor e engrandecimento” (Lutero, 1995, p. 26, v. 5).

2. A vida devocional de um cristão (pastor) segundo o que Lutero ensina sobre o estudar e meditar. No prefácio do Catecismo Menor, dedicado a “todos os pastores e pregadores fiéis e piedosos” (Livro de Concórdia, p. 363), Lutero faz ver que é preciso que se ensinem as partes principais do mesmo “inculcando-o nas pessoas” (Livro de Concórdia, p. 364). Depois disso, tendo decorado o texto (Livro de Concórdia, p. 364), os pastores deveriam ensinar o sentido das palavras, para que todos soubessem o seu significado (Livro de Concórdia, p. 365). E, neste ensinar, ele frisa que os pastores deveriam martelar “especialmente no mandamento e parte” em que houvesse maior negligência entre o povo ao qual eles serviam (Livro de Outubro e Novembro, 2010 | Teologia | 63


Lutero e Luteranismo

Concórdia, p. 365). E ele, ao concluir que este ofício envolvia “muita fadiga e trabalho, perigo e tentação, e, além disso, pouca retribuição e gratidão no mundo”, deixa-lhes o consolo de que “o próprio Cristo quer ser a recompensa dos que trabalharem com fidelidade” (Livro de Concórdia, p. 366). No prefácio do Catecismo Maior, ao criticar pregadores e pastores que negligenciavam o inculcar do Catecismo como pauta do seu ofício por motivo de preguiça ou por serem “comilões despudorados e servidores do próprio ventre” (Livro de Concórdia, p. 387), ele afirma que os mesmos demonstrariam honra e gratidão ao evangelho que os libertava de cargas e apertos, “lendo, pela manhã, ao meio-dia e à noite, uma ou duas páginas do Catecismo, do Livrinho de orações, do Novo Testamento ou de outra parte da Bíblia, e rezassem o Pai-Nosso por si mesmos e seus paroquianos” (Livro de Concórdia, p. 387). No mesmo prefácio, ao afirmar que havia muitos que atiravam o Catecismo em algum canto por se julgarem doutos e considerarem-no um livro simples e desimportante (Livro de Concórdia, p. 387), ele disse: “Não obstante, faço como uma criança a que se ensina o Catecismo: de manhã, e quando quer que tenha tempo, leio e profiro, palavra por palavra, o Pai Nosso, os Dez Mandamentos, o Credo, alguns salmos, etc. Tenho de continuar diariamente a ler e estudar, e ainda assim não me saio como quisera, e devo permanecer criança e aluno do Catecismo” (Livro de Concórdia, p. 388). E ele ainda diz que “existe multiforme proveito e fruto em ler e exercitá-lo todos os dias em pensamento e recitação. É que o Es64 | Teologia | Outubro e Novembro, 2010

pírito Santo está presente com este ler, recitar e meditar, e concede luz e devoção sempre nova e mais abundante, de tal forma, que a coisa de dia em dia melhora em sabor e é recebida com apreço cada vez maior” (Livro de Concórdia, p. 388). E ele aconselhou: “Perseverem em ler, ensinar, aprender, meditar e refletir, e não desistam até fazerem a experiência e adquirirem a certeza de que mataram o diabo de tanto lecionar e se tornaram mais sábios que o próprio Deus e todos os seus santos” (Livro de Concórdia, p. 390-391). Para Lutero, não somente era importante a leitura do Catecismo. Ele cria que ocupar-se com a Palavra

de Deus, dela falar e sobre ela meditar, era “auxílio poderoso contra diabo, mundo, carne e maus pensamentos” (Livro de Concórdia, p. 388). Para ele, cristãos deveriam, além de no dia do descanso, ocupar-se diariamente com a palavra de Deus e trazê-la no coração e nos lábios (Livro de Concórdia, p. 408). Ele afirmou que todo o “nosso viver e agir, para chamar-se agradável a Deus, ou santo, deve nortear-se pela palavra de Deus” (Livro de Concórdia, p. 409). Quando, porém, isso não acontece, “quando o cora-


Lutero e Luteranismo

ção anda ocioso e a palavra não soa, o diabo pactua e realiza o estrago” (Livro de Concórdia, p. 410). Por isso, ao terminar a explicação do 3º. Mandamento no Catecismo Maior, ele afirma: “quando se medita, ouve e trata a palavra seriamente, ela tem o poder de nunca ficar sem fruto. Sempre desperta novo entendimen-

to, prazer e devoção, e cria coração e pensamentos puros. Pois não há palavras inoperantes ou mortas, senão eficazes e vivas” (Livro de Concórdia, p. 410 e 411).

de Lutero, trazemos a recomendação que Lutero deixa a estudantes de Teologia e um exemplo de oração para que pastores realizem: “Por isso eu vos admoesto, especialmente aqueles que desejam ser Conclusão mestres da consciência dos outros, e eu admoesto cada um de vós indiAo encerrarmos este breve estu- vidualmente para que se treine atrado sobre a vida devocional de um vés do estudo, leitura, meditação e cristão/pastor, segundo os ensinos oração de tal modo que esteja apto na tentação a ensinar e confortar as vossas próprias consciências assim como as dos outros, bem como guiá-las da lei à graça, da justificação ativa para a passiva, em resumo, de Moisés para Cristo (Plass, p. 949). Oração de um pastor: “Senhor Deus, tu me indicaste para ser um bispo, um pastor na tua igreja. Tu sabes que eu sou incapaz de assumir tão grande e tão difícil encargo e, se não fosse a tua ajuda, eu certamente teria fracassado há muito tempo. Por isso clamo a ti; quero dedicar meus lábios e meu coração a teu serviço. Desejo ensinar a este povo, e eu mesmo quero aprender mais e mais. Incute em mim o desejo de meditar com diligência na tua Palavra. Usa-me como teu instrumento; só peço que não me desampares, pois, se eu me sentisse entregue a minha própria sorte, certamente poria tudo a perder. Amém. (Kraus, p. 15-16). Rev. Egon Martim Seibert pastor da Igreja Evangélica Luterana do Braisl

Bibliografia A BÍBLIA Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida, Revista e Atualizada no Brasil. 2 Ed. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999 CARR, Sister Deanna Marie. A consideration of the Meaning of Prayer in the Life of Martin Luther. Concordia Theological Monthly, Saint Louis: Concordia Publishing House, p. 621-629, out. 1971. KRAUS, George. Palavra e oração. Porto Alegre: Concórdia Editora, 1990. LIVRO DE CONCÓRDIA. 5 ed. Traduzido por Arnaldo Schüler. Porto Alegre: Concórdia/São Leopoldo: Sinodal; 1997. LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas, vv. 5 e 7. Porto Alegre: Concórdia/São Leopoldo: Sinodal; 1995. Pelo Evangelho de Cristo. Traduzido por Walter O. Schlupp. Porto Alegre: Concórdia/São Leopoldo: Sinodal; 1984. PLASS, Ewald M. What Luther Says. A Practical In-Home Anthology for the Active Christian. Saint Louis: Concordia Publishing House, 1959. Outubro e Novembro, 2010 | Teologia | 65


Comissão de Culto da IELB

Litúrgica: Período de Advento

Sugestão Litúrgica para o Período de Advento Veja uma sugestão de liturgia para o período dos quatro domingos iniciais do Ano da Igreja. Aqui aparece sem a formatação adequada para uso prático no culto. Caso queira formatar à vontade, este texto pode ser usado. Caso queira o material finalizado, verifique no blog da Comissão de Culto da IELB (www.liturgialuterana.blogspot.com). Lá você vai encontrar o material para imprimir, bem como para ser projetado e as partituras das melodias sugeridas nesta liturgia.

Vivemos no segundo Advento. Estamos no tempo da graça de Deus. E ainda hoje há oportunidade de Salvação. Todos aqueles que creem em Jesus serão salvos. Vivemos o Advento nos preparando na Palavra de Deus, na comunhão cristã. Procurando viver uma vida digna diante de Deus e do próximo. Ao pecarmos temos um porto seguro e o convite do Senhor: “Vem que eu perdoo você”. E assim é o nosso Advento. Espere em Deus! Espere sempre em Deus!

3. Confissão e Absolvição dos Pecados:

Legenda: P Pastor

de pé

C Congregação

sentados

T Todos

ajoelhados cantar

Prelúdio e entrada do(s) Oficiante(s): Acolhida:

Preparação Hino: 1. Invocação: P.: O Senhor veio a nós com sua justiça, paz e salvação. C.: Nós estamos alegres e viemos ouvi-lo e adorá-lo. P.: Jesus disse: “Eu sou a luz do mundo! Quem me segue terá a luz da vida e nunca andará na escuridão.”. C.: Celebramos este culto em nome de Jesus, nossa luz, e do Pai, nosso criador e do Espírito Santo, nosso Consolador. P.: Vem, Senhor Jesus! C.: Ó vem, Emanuel—Deus conosco. T.: Amém!

2. Alocução Confessional: P.: Espere em Deus! Espere sempre em Deus! Advento é período de preparação. Aguardamos o Senhor que vem. Não vem novamente menino. Ele já veio criança, no primeiro Natal e morreu para salvar a todas as pessoas. 66 | Teologia | Outubro e Novembro, 2010

P.: A desobediência sempre causa tristeza. Filhos entristecem seus pais quando desobedecem. Nós também somos motivo de tristeza para Deus quando desobedecemos aos seus mandamentos. Por outro lado, quando nos arrependemos dos nossos maus caminhos, Deus se alegra e nos estende o seu perdão. Quando recebemos o perdão, não precisa mais haver tristeza. Podemos sair por aí, felizes da vida. Vamos, portanto, confessar os nossos pecados e receber com alegria o perdão que Cristo nos dá. Todos poderão ajoelhar-se, aqueles que não puderem, sentam-se.

T.: Ó Deus de toda a misericórdia, nós te confessamos que somos pecadores e não fazemos a tua vontade. Pecamos diariamente por pensamentos, palavras, ações e omissões. Sabemos que muitas vezes somos omissos no trabalho que tu nos confiaste. Por todos os nossos pecados merecemos a tua eterna condenação. Ó Deus, por amor de Jesus Cristo, não nos condenes. Tem misericórdia de nós, pobres pecadores. Dá-nos o teu perdão. Amém.

4. Absolvição dos Pecados: P.: Irmãos em Cristo. O Salvador que veio no primeiro Advento é o mesmo que hoje esperamos, no segundo Advento. Na primeira vez ele cumpriu sua tarefa e alcançou a salvação para os pecadores. Todos aqueles que se arrependem dos seus pecados, creem em Jesus e têm o sincero propósito de corrigir suas vidas, têm, em Jesus, o perdão de todos os pecados. Como ministro da Palavra de Deus, eu anuncio a graça do Senhor e perdoo todos os pecados de vocês, em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. C.: Amém.


Litúrgica: Período de Advento

5 Agradecimento pelo perdão (Cantado) — HL 1.3 P.: O perdão traz a notícia que nos alegra. Assim como o Sentinela esperava o nascer do dia, nós esperamos a volta do Senhor. E gratos cantamos. T.: Sentinela, eis nasce o dia; foge a noite tudo é luz; vai-se a treva, cessa o medo, já nos falam de Jesus! Amoroso, desde o berço / ao triunfo lá na cruz, com sua graça nos liberta: para a glória nos conduz.

Adoração

10. Hino: 11. Evangelho do Dia: P.: “Foi assim que Deus mostrou o seu amor por nós: ele mandou o seu único Filho ao mundo para que pudéssemos ter vida por meio dele.” O Evangelho de hoje está escrito... C.: Gloria, gloria, in excelsis Deo! |: Gloria, gloria, aleluia, aleluia! :| Leitura do Evangelho P.: Assim termina o Evangelho e “Eu não me envergonho do evangelho, pois ele é o poder de Deus para salvar todos os que creem”. C.: Gloria, gloria, in excelsis Deo! |: Gloria, gloria, aleluia, aleluia! :|

12. Confissão de Fé (Credo Apostólico):

6. Salmo do Dia

13. Hino:

6.1. Canto (ou Leitura) do Salmo 6.2. Glória Patri (Cantado) — HL 150.3

14. Mensagem (Sermão):

C.: Louvor e adoração / ao trino Deus rendamos! De nosso coração / um templo seu façamos! Eterno é seu poder, / potente, sua mão. / Ele é, e ele há de ser / o nosso galardão.

Ofício da Palavra 7. Saudação: P.: Que o Senhor venha e esteja entre nós. C.: O Senhor está em nosso meio e que esteja contigo também.

8. Coleta (Oração do Dia): P.: ... C.: Amém.

9. Leituras Bíblicas: P.: A Palavra de Deus nos mostra o caminho certo a seguir. Somente na Palavra do Senhor nós podemos conhecer Jesus Cristo e sua maravilhosa obra de salvação. Com confiança no amor e na graça de Deus, nós queremos ouvir a sua santa vontade e orientação para nós.

9.1. Antigo Testamento:

P.: Depois da leitura: “o ser humano não vive só de pão, mas vive de tudo o que o Senhor Deus diz.”

9.2. Epístola:

P.: Depois da leitura: “Mais felizes são aqueles que ouvem a mensagem de Deus e obedecem a ela.” Aleluia! C.: Aleluia, aleluia, aleluia!

15. Ofertório (cantado): C.: Cria em mim, ó Deus, um puro coração e renova em mim espírito reto. Não me lances fora da tua presença e não retires de mim o teu Espírito Santo. Torna a dar-me a alegria da tua salvação e sustém-me com um voluntário espírito. Amém.

16. Recolhimento das Ofertas P.: “Ao Senhor Deus pertencem o mundo e tudo o que nele existe; a terra e todos os seres vivos que nela vivem são dele”. C.: “Não podemos, de fato, te dar nada, ó Senhor, pois tudo vem de ti, e nós somente devolvemos o que já era teu”. P.: “Que cada um dê a sua oferta conforme resolveu no seu coração, não com tristeza nem por obrigação, pois Deus ama quem dá com alegria”. C.: “Com alegria e motivados pela fé no Salvador Jesus Cristo, nós queremos ofertar”.

16.1. Hino para o Ofertar Aqueles que se sentem movidos podem fazê-lo espontaneamente, enquanto canta-se:

1. 2. 3. 4.

Com gratidão, Senhor/ queremos ofertar/ está ao teu dispor / o que dignaste dar. Oh! faze a fé vibrar / em nossos corações,/ e vem multiplicar / ofertas e orações. Ajuda-nos, Senhor / teu nome proclamar/ E dá-nos mais amor / às almas a salvar. Servir a ti, ó Deus / na igreja, emprego e lar/ concede sempre aos teus/ assim viver e andar. Outubro e Novembro, 2010 | Teologia | 67


Litúrgica: Período de Advento

17. Convite à Oração—Oração Geral da Igreja: 17.1. Convite:

Cita-se os motivos que serão incluídos na Oração Geral.

17.2. Oração Geral da Igreja P.: ... C. Amem.

18. Hino:

Ofício da Santa Ceia 19. Prefácio: P.: Ó povo redimido, / ó Filha de Sião! Eis vem o teu Ungido, / o Autor da redenção. Com paz e com venturas / teu Rei te vem aí; hosana nas alturas / ao filho de Davi. C.: Jesus Cristo veio no primeiro Advento e virá novamente buscar os seus. Neste momento nos apresentamos, a seu convite, pare receber seu corpo e sangue. Para nossa salvação. P.: Nada há de mais sublime do que o amor de Deus por nós. E assim nos lembra a Santa Palavra de Deus: “Porque Deus amou o mundo tanto, que deu o seu único Filho, para que todo aquele que nele crer não morra, mas tenha a vida eterna.”. C.: Ao Pai celeste implora / contrito coração e, arrependido chora, / pedindo seu perdão. Convida ao Rei divino / que faça habitação com graça e amor genuíno / no triste coração. P.: O Pai de misericórdia renova suas promessas. Jesus voltará, este é o Advento que vivemos. Assim como veio no primeiro Advento. E agora o Pai quer fortalecer nossa fé enquanto participamos da Santa Ceia. C.: Jesus do paraíso / visível voltará; e, no último juízo, / os homens julgará. No derradeiro advento / seus servos vem buscar, / que em grande encantamento / nos céus o vão louvar.

20. Pai-Nosso: T.: Pai nosso, que estás nos céus. Santificado seja o teu nome. Venha o teu reino. Seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia nos dá hoje. E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós também perdoamos aos nossos devedores. E não nos deixes cair em tentação. Mas livra-nos do mal. Pois teu é o reino, e o poder, e a glória, para sempre. Amém.

o partiu e o deu aos seus discípulos, dizendo: Peguem, comam, isto é o meu corpo (†), que é dado por vocês; façam isto em memória minha. E, semelhantemente, também, depois da ceia, pegou o cálice e, tendo dado graças, o entregou, dizendo: bebam todos deste; este cálice é o Novo Testamento no meu sangue (†), que é derramado por vocês para remissão dos pecados; façam isto, quantas vezes o beberem, em memória minha.

22. Pax Domini: P.: Que a Paz do Senhor Jesus esteja com todos vocês hoje e sempre. C.: E com você também. T.: Amém. P.: Manifestamos a Paz do Senhor, cumprimentando o irmão ao lado. Num gesto de amor mútuo. Num gesto de reconciliação. Lembrando como somos gratos por Deus nos trazer a paz.

23. Agnus Dei 1. 2. 3. 4.

Digno és, ó Cordeiro / de todo louvor. Graças nós rendemos / por teu amor. Tua seja a glória / e o domínio também. Para todo o sempre. / Amém. Amém. Teus são os poderes / e os tronos também. Hoje e para sempre. / Amém. Amém. Glórias nas alturas, / na terra também. Glórias, aleluia. / Amém, Amém.

24. Distribuição da Santa Ceia

(Seguindo a recomendação apostólica (1Co 11.27-31), distribuímos a Santa Ceia apenas aos membros confirmados em comunhão com a nossa igreja, que estão preparados. Os visitantes, que estão com vontade de participar desta Comunhão, pedimos que primeiro falem com o pastor, a fim de serem melhor instruídos sobre todo o significado deste Sacramento.)

Despedida 25. Nunc Dimitis: C.: Senhor, agora despedes em paz o teu servo, segundo a tua Palavra, pois os meus olhos viram a tua salvação, a qual preparaste perante a face de todos os povos, Luz para alumiar as gentes e para glória de teu povo Israel. Glória ao Pai e ao Filho e ao Santo Espírito, como era no princípio, agora é e por todo o sempre há de ser! Amém.

21. Palavras da Instituição:

26. Ação de Graças:

P.: Nosso Senhor Jesus Cristo, na noite em que foi traído, pegou o pão, e, tendo dado graças,

P.: Tendo participado da Santa Ceia, nós demos um testemunho a respeito do nascimento e da

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Litúrgica: Período de Advento

morte de Jesus em nosso favor. Ao participarmos, com fé em Jesus, o Senhor nos perdoa os pecados e fortalece a nossa fé. C.: Estamos anunciando a morte do Senhor até que ele venha. P.: Rendamos ação de Graças ao Senhor e oremos: Deus Todo-Poderoso, nós somos gratos porque mais uma vez nos deste o conforto desta refeição celestial. Com toda a igreja militante e triunfante rendemos louvores a ti. Pois tu és o mesmo ontem, hoje e sempre. E continuas a nos abençoar física e espiritualmente. Recebe nosso louvor hoje e sempre. Em nome de Jesus Cristo, nosso Salvador, que vive e reina contigo e o Espírito Santo. Um só Deus pelos séculos sem fim. C.: Amém.

27. Oração de Despedida e envio: P.: Oremos ao Senhor: Tu vieste, ó Senhor querido! Tu estiveste entre nós e viveste como homem. C.: Tu foste fiel até à morte e morte de cruz. E venceste! P.: Agora aguardamos sua segunda vida. E queremos estar contigo, todos os dias, até o fim dos séculos. C.: Abençoa-nos com tua presença e teu amparo.

Que sejamos tua boca a falar palavras boas aos outros. Que sejamos tuas mãos a socorrer aos cansados. Que sejamos teus pés, para ir aonde estão precisando de nós. T.: E que pelo mundo, sejamos a tua luz, a iluminar a escuridão. Assim como tu iluminas a nossa vida. Amém.

28: Bênção: P.: Recebam a bênção do Senhor. O Senhor abençoe e guarde vocês. O Senhor faça resplandecer o rosto sobre vocês e tenha misericórdia de vocês. O Senhor, sobre vocês, levante o rosto e dê a paz. C.: Amém. Amém. Amém.

29. Comunicações, convites e despedidas: 30: Hino Final: Seja sempre bem-vindo; Jesus quer estar com você. Liturgia completa e em diversos formatos no blogue Liturgia Luterana. Inclusive as melodias para as partes cantadas, sugeridas nesta liturgia. www.liturgialuterana.blogspot.com


Rev. Márlon Hüther Antunes

Artigo

Um Tesouro Desenterrado na Reforma Em

31 de Outubro de 1517, um tesouro estava por ser desenterrado. O Monge Agostiniano Martinho Lutero, deu início a um movimento na Igreja de então, denominado “Reforma”. Com o intuito de resgatar a dignidade do ser humano, como filho de Deus, na sociedade em que vivia e especialmente na igreja que amava, denunciou e derrubou os muros da exploração e comércio que mais afastavam as pessoas do centro da Igreja Cristã, do que lhes aliviava a consciência. Neste dia Lutero resolveu levar o assunto ao debate, por isso fixou as 95 teses na porta da Catedral de Wittenberg, querendo com isso abrir os olhos das pessoas que ingenuamente eram ludibriadas com uma Teologia cheia de interesses e barata. Pressionou e desafiou a igreja a cumprir seu papel de apresentar o perdão como um presente de Deus, conquistado na cruz por nosso Senhor Jesus Cristo, e não baseada em obras, sacrifícios, indulgências (Efésios 2.8-9) que cercavam a base do cristianismo (problema que, 5 séculos depois, volta à tona). Ao traduzir a Bíblia para a língua do povo, uma revolução iniciava. Deus, que parecia aprisionado nos mosteiros e templos, passou a fazer parte do cotidiano das pessoas, sendo acessível a todos, em qualquer

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lugar. A Revista Veja — Edição Especial do Milênio publicou uma pesquisa da Revista americana Life, a respeito dos personagens que marcaram o milênio (1001-2000), Guttenberg e Lutero, contemporâneos, ficaram entre os mais influentes: Guttenberg (1º) que se destacou pela impressão da Bíblia e Lutero (3º) o principal mentor da Reforma, que revolucionou vários conceitos no que diz respeito a Teologia, igreja, educação de boa qua-

lidade, ênfase na família e vida em sociedade (luta por impostos justos e administração pública honesta e transparente). A base desta pesquisa se ateve a quantas pessoas um determinado acontecimento afetou, e sua influência na atualidade. Depois de montanhas de livros consultadas, especialistas em várias áreas do conhecimento elaboraram a lista dos cem nomes. A descoberta deste homem não pertence apenas aos luteranos, mas a todos os que têm certeza do perdão dos pecados unicamente pela obra de Cristo Jesus, pois Ele é a chave para o céu. A Santa Igreja Cristã é aquela formada por pessoas que “são como um edifício e estão construídos sobre o alicerce que os apóstolos e os profetas colocaram. E a pedra fundamental desse edifício é o próprio Cristo Jesus” (Efésios 2.20). Rev. Márlon Hüther Antunes — Maceió teólogo e pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil


Direto ao Ponto

Mistura indigesta A

história tem mostrado que misturar religião e política não traz coisa boa. Exemplos não faltam. No próximo 31 de outubro, junto à urna eletrônica, seria oportuno dar um voto de confiança aos conselhos de Lutero. Foi neste dia, em 1517, que ele chamou os seus adversários para um debate público sobre a prática das indulgências — um fraudulento negócio com o perdão de Cristo parecido com a venda do voto. É o início da Reforma Luterana, movimento que traz mudanças globais no cenário político e religioso e a própria separação entre Igreja e Estado. Lutero e o povo alemão não tinham o direito de escolher seus governantes — viviam sob o regime imperial. Mas, cumprindo o seu dever pastoral, aconselhou os príncipes a não se intrometerem em assuntos espirituais e os sacerdotes em questões da administração política. Há dois escritos básicos dele, o Magnificat (1521) e Da Autoridade Secular (1523), que expõem com sabedoria uma ética que falta no atual contexto brasileiro. Lembra que é preciso “distinguir cuidadosamente os dois regimes de Deus e deixá-los vigorar — um que torna cristão, o outro que garante a paz civil e combate as obras más”. Ao questionar: “Que são, pois, os sacerdo-

tes e bispos?”, responde: “Seu regime não é de autoridade ou poder, mas de serviço e função”. Já o estado “não pode estender-se ao céu e sobre a alma, mas somente sobre a terra — o convívio dos seres humanos”. Onde existe mistura, o resultado será a ruína do convívio das pessoas, alerta o reformador. Neste princípio, os estatutos de minha instituição religiosa (Igreja Evangélica Luterana do Brasil — IELB) são claros: “Em obediência ao princípio bíblico da separação entre Igreja e Estado, tanto a IELB como as congregações não se envolverão em questões de política partidária”. Por isto o código de ética do pastor em exercício: “Mesmo que deva estar atento aos problemas da sociedade, não quero, enquanto pastor, exercer política partidária”. Isto não sugere omissão e passividade política, mesmo porque, se no pensamento de Lutero “política é o esforço constante e paciente para estabelecer e manter uma ordem social compatível com os valores do cristianismo”, isto só acontece no exercício cristão da cidadania política. Rev. Marcos Schmidt - Novo Hamburgo-RS pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil


RT001  

Revista Teologia e Prática - Produzida em conjunto por pastores da Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB).

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