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Edição 1 - Ano I - Outubro


Índice 4 - Editorial 6 - A experiência no passado 12 - A Fazenda Ouro Verde 13 - Oproblema e a solução 15 - A lógica do SAF 16 - Cooperverde, a Cooperativa Ouro Verde Bahia 18 - A força do cooperativismo 20 - Kevin M. Flesher, o semeador 24 - A ciência em busca da perenidade da hevea brasilienses 27 - De Igrapiúna para o mundo 29 - A perenidade da hevea brasilienses 30 - Agricultura Familiar 31 - Como é feito o programa 32 - O segredo do sucesso 34 - O corte certo, no tempo certo 36 - Treinamento e assistência, a base do sucesso! 39 - Manoel benedito caroba 43 - Espírito Santo também quer os clones 44 - Beneficiando o sal da Terra 46 - O dia a dia da PMB 47 - Desmanchando os blocos de borracha in natura 50 - Teor de borracha seca, do DRC 51 - Investimentos 52 - Rotatividade na PMB Expediente

Edição I - Ano 1 Outubro 2012

MICHELIN BRASIL - PROJETO OURO VERDE - ESPECIAL

Redação, publicidade, circulação e administração Rua Ester 291, Sala 4 – Santo André (SP) Fone: 55 11 4432.1173

Diretor Técnico Marcos Vinícius Pinheiro do Prazo Diretor de Comunicação Fernando Bortolin

Diretor Comercial Fernando Cury Jornalista Responsável Fernando Bortolin MTB: 20.658 Projeto Grafico e Diagramaçao André Luiz Pache

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EDITORIAL

“Quando um pneu é mais que um simples pneu” N

a maior parte das vezes quando olhamos para um pneu vemos apenas e tão somente uma borracha preta com um furo no meio.Nesse simples olhar nem nos damos conta do enorme e incomensurável número de variáveis implícitas e explícitas em sua construção, tais como os quesitos de tecnologia, de matérias-primas necessárias para sua confecção, do investimento em máquinas, em ferramentas, em treinamento do capital humano, a questão da logística, da comercialização e da montagem e manutenção, bem como de todo o universo complementar que se traduz nele: a borracha preta com um furo no meio (que roda em nossas bicicletas, motos, carros, caminhões e sabe-se lá mais onde e sem a qual o mundo não gira e a mobilidade não existe). Ao receber o convite da Michelin para conhecer a Fazenda Ouro Verde, um paraíso fincado entre as cidades baianas de Igrapiúna e Ituberá, localizadas no Baixo Sul da Bahia, distantes 331 km de Salvador, não tínhamos a real noção de que voltaríamos para Santo André, no ABC Paulista,

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com uma sensação diferente, em que pese o fato de termos 35 anos nesse segmento do mercado: a de que um pneu não se resume a uma borracha preta com um furo no meio, mas a real certeza de que um pneu é muito mais do que um simples pneu. Essa convicção foi consolidada, sem dúvida, não apenas pelo paraíso verde que representa a Fazenda Ouro Verde – um projeto originariamente da antiga Firestone norte-americana e adquirido pela Michelin francesa -, mas do extremo cuidado, do elevado profissionalismo e da total abnegação premente nos profissionais da Michelin Bahia, sem contar o pleno amor a terra, ao que ela propicia e aquilo que ela mais necessita para gerar seus frutos - para usufruto humano -, o carinho e o cuidado com a natureza e seu bioma. A equipe da Tudo Sobre Pneus viu com seus próprios olhos esse quadro fincado em Igrapiúna e arredores (a região compreende 11 municípios, dentre eles Valença, Presidente Tancredo Neves, Cairu, Taperoá, Nilo PeçaESPECIAL - PROJETO OURO VERDE – MICHELIN BRASIL


nha, Piraí do Norte, Ibirapitanga, Ituberá, Igrapiúna, Camamu e Maraú), uma área que remonta a época da colonização baiana do século XVI e que ainda hoje conta com um dos menores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil. Foram 150 km de estradas bem traçadas rodadas dentro de uma fazenda com 250 km de entroncamentos de terra vermelha como o sangue humano, pinçados pelo verde das seringueiras, o amarelo das bananeiras, o vermelho do cacau e de um povo compromissado com o bem estar socioambiental, que em palavras mais simples quer dizer o seguinte: ame a natureza, preserve e cuide do meio ambiente que ela responde e rende frutos. Neste breve editorial o que dizer do ecólogo norte-americano Kevin M. Flesher, gerente de pesquisa da empresa francesa que sozinho plantou - com suas próprias mãos - mais de 75 mil mudas de plantas originais na Mata Atlântica baiana, ou de investimentos em pesquisa e tecnologia sob a responsabilidade de um homem chamado Carlos Raimundo Reis Mattos que, em 24 anos de incansável labuta fez surgir três clones resistentes a pragas que estão fazendo ressurgir a heveicultura na Bahia – o governo local quer plantar 100 mil hectares de seringueiras no Estado, nos próximos 25 anos. Ainda em testes confinados na França, esses clones podem vir a ser plantados no Sudoeste da Ásia representando uma nova etapa da heveicultura mundial ou se quiserem algo mais simples: a perenidade da borracha natural extraída da boa e velha hevea brasilienses. Mas a Fazenda Ouro Verde não é só isso. Nesse paraíso na Terra há um processo em franco estabelecimento de bases sólidas de agricultura familiar e um trabalho de reaproveitamento da mão-de-obra local que já mereceu um objeto de estudo da Organização Internacional do Trabalho (OIT). É por essas e outras que a Michelin e a Fazenda Ouro Verde nos deram um novo olhar sobre algo que vemos e tratamos a todo instante. O pneu sempre foi a nossa essência, mas depois dessa experiência vimos que ele não se resume a uma borracha preta com um furo no meio. É muito mais do que isso.

Foto aérea da cachoeira Pancada Grande, que fica dentro da Fazenda

Foto aérea da região de Camamu no Baixo Sul da Bahia

Fernando Bortolin e Marcos Vinícius Pinheiro do Prado Editores da Tudo Sobre Pneus

MICHELIN BRASIL - PROJETO OURO VERDE - ESPECIAL

Detalhe da trilha que fica na reserva natural

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Vista da Igreja Matriz de Igrapiúna (à esquerda) e foto da cidade de Igrapiúna no final de 1981 (acima).

A experiência no passado Da Firestone à Michelin grandes mudanças

N

o final de 1981, atendendo a um pedido do gerente de pessoal da Firestone, na época o Sr. Sebastião Roque Bocaccino, já falecido - com quem tive a honra e o prazer de trabalhar -, fui para a fazenda de seringueiras da empresa, localizada no Baixo Sul da Bahia. Ela se chamava Fazenda Três Pancadas e ficava na cidade de Camamu, na Bahia. O nome Três Pancadas se deve à existência de uma cachoeira natural dentro da propriedade e a mesma tem três grandes quedas d’água. Fui com a missão de acompanhar os processos do Departa-

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mento de Recursos Humanos e avaliar as condições dos empregados, com a responsabilidade de não me envolver com eles, pois era intenção da companhia vender a propriedade que já não era lucrativa e nem atendia às necessidades da empresa na época -, fato este que não era do conhecimento dos funcionários da fazenda. Fui de avião para Salvador, minha primeira estada na cidade, onde fretei um monomotor para chegar à fazenda, pois na época o caminho era longo e as condições da estrada eram péssimas. A pista do aeroporto que

servia à fazenda era de grama e também era usada como pasto para o gado. O procedimento do piloto era dar um rasante sobre a pista para avisar que haveria um pouso. Então o funcionário responsável retirava o gado da pista, enquanto fazíamos um voo panorâmico sobre a propriedade. Já com a pista ‘limpa’ efetuávamos o pouso. Esse procedimento era de praxe e toda vez que retornei à fazenda repetiu-se o mesmo procedimento. Trinta e um anos se passaram da minha primeira visita à Fazenda Três Pancadas e indescritível foi meu sentimento ao retornar àquela propriedade. A bem da verdade, na época não me interessei pelo processo de cultivo, de extração e de processamento da borracha natural. Tive uma noção superficial do processo através do então diretor da propriedade, o Sr. Eduard House, um norte-americano extremamente simpático que eu já havia conhecido em uma das raras visitas dele às dependências da fábrica da Firestone em Santo André, hoje pertencente a Bridgestone, no ABC Paulista. ESPECIAL - PROJETO OURO VERDE – MICHELIN BRASIL


Naquela época, a Fazenda Três Pancadas era uma referência na região, pois a companhia mantinha um hospital que servia não só aos funcionários, mas a toda a população da região, realizando inclusive pequenas cirurgias. Os médicos, enfermeiras e demais funcionários do hospital eram empregados da Firestone e prestavam o melhor serviço possível com os recursos que a empresa destinava. Havia um armazém, um clube para os funcionários e escola para as crianças, filhos de funcionários. A empresa tentava da melhor maneira possível tratar os colaboradores da fazenda com o mesmo tratamento dedicado aos colaboradores das fábricas e filiais no Brasil. Havia festa de natal, com distribuição de brinquedos para os filhos de funcionários de zero a 12 anos, festa que era comentada durante todo o ano. No clube local eram realizadas festas aos sábados.A empresa tentava da melhor maneira possível tratar os colaboradores da fazenda com o mesmo tratamento dedicado aos colaboradores das fábricas e filiais no

Instalações do antigo prédio onde ficava o hospital MICHELIN BRASIL - PROJETO OURO VERDE - ESPECIAL

Vila de funcionários dentro da Fazenda da Michelin

Brasil. Havia festa de natal, com distribuição de brinquedos para os filhos de funcionários de zero a 12 anos, festa que era comentada durante todo o ano. No clube local eram realizadas festas aos sábados. Além da diversão, esses encontros promoviam a integração dos funcionários e deixaram boas recordações, inclusive comentada pela Sra. Rita de Cássia Mendes dos Santos, que era professora na escola da Fazenda Três Pancadas e hoje trabalha

como responsável pelo serviço de hotelaria da Michelin. Enfim, dentro da realidade da época era um bom lugar para se trabalhar e para se viver. Meu encantamento pelo retorno à propriedade, além de trazer essas lembranças da juventude à tona, também foi grande pelo comparativo que pude fazer das condições em que a propriedade se encontra hoje versus as condições da época em que a visitei pela primeira vez, 31 anos atrás. Os prédios que abrigavam

Sede do projeto Ouro Verde, onde é feita a recepção

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Caminhonete da Firestone aguardando socorro - 1981

a administração, o armazém, o hospital estão intactos e bem conservados, apesar de hoje servirem para outros propósitos, a exemplo do prédio do hospital que hoje é a sede da Cooperativa de Cacau, uma cultura que na época não havia na propriedade. O que me chamou muito a atenção foram às condições de conservação das estradas internas: 250 km em condições perfeitas de tráfego, com placas indicativas em alguns trechos, inclusive. Em 1981 tinham algumas estradas de acesso aos lotes da plantação, mas trafegar por elas era uma aventura. Normalmente, só os tratores que retiravam a

produção tinham condições de trafegar, mesmo assim, vez por outra precisavam de socorro. O Jeep era o veículo mais utilizado pelo pessoal de supervisão e chefia, além de caminhonetes 4x4 e, certamente, a extensão das vias não chegava a 10% do que há hoje. As condições das vias eram tão precárias que havia uma ‘piadinha’ local que dizia ‘que até sapo atolava por lá’. A comunicação era extremamente deficiente, não só o sistema de telefonia que ligava a fábrica à fazenda, mas a comunicação no interior da propriedade, que era feita por rádio. Por ser uma região com topografia montanhosa, hora o rá-

dio funcionava, hora não. Segundo relatos da época, não poucas vezes, funcionários foram obrigados a dormir no interior da plantação, pois o socorro só conseguia chegar pela manhã. As vilas de funcionários eram tais como hoje em sua arquitetura, mas atualmente estão muito melhor equipadas com eletrodomésticos, sinal do progresso e do acesso mais fácil a bens de consumo, sinal de uma condição econômica melhor. A alegria da garotada ao redor das construções continua a mesma. Deu-me a impressão de não estarem ‘plugados’ obsessivamente a computadores e ainda praticam algumas brincadeiras saudáveis como as crianças da-

Laboratório de testes da Usina de Beneficiamento

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ESPECIAL - PROJETO OURO VERDE – MICHELIN BRASIL


quele tempo, a despeito do centro de formação nas proximidades do antigo hospital onde a disciplina computação está disponível e acessível a todos os interessados. Está disponível, mas não é obrigatória. A mata fechada entre as seringueiras de antigamente deu espaço a carreiras de cacau, atribuindo um colorido delicado entre tons de marrom e vermelho dos frutos, uma nova economia que gera mais renda e se sobrepõe à sazonalidade de uma cultura só, um programa disponível e acessível a todos os interessados, promovido graciosamente pela Michelin -, fruto de uma cultura de disponibilizar conhecimento e interesse por múltiplos cultivos sustentáveis para evitar ao máximo a dependência da monocultura. Nesse quesito, a luz do lampião deu espaço para a energia elétrica hoje disponível em toda a extensão da propriedade. Difícil traçar um comparativo da antiga usina de beneficiamento de borracha com a usina atual. Mais de 31 anos se passaram e muita tecnologia entrou no país após a liberação das importações. Um laboratório acompanha cada passo do processo, certificando a continuidade da qualidade com equipamentos da melhor qualidade e com pessoas que visivelmente são apaixonadas pelo que fazem. Nesse quesito, não deixei de notar o orgulho que cada um dos funcionários da empresa traz no olhar. As pequenas vilas existentes ao redor da propriedade são irreconhecíveis hoje. Além das concessionárias de veículos novos há uma grande quantidade de lojas e oficinas de motocicletas que circulam aos milhares e é algo que chama a atenção. MICHELIN BRASIL - PROJETO OURO VERDE - ESPECIAL

Estação meteorológica da Fazenda Ouro Verde

Não é possível deixar passar despercebido o crescimento e a evolução da região, dotada hoje de supermercados, farmácias, restaurantes e uma economia que cresce a olhos vistos. Entre tantas diferenças na economia atual e a daquele tempo uma delas está na área da cachoeira que dava o nome a antiga fazenda - que outrora era abandonada, mas hoje está aberta ao público como atração e ponto turístico. Mudou a organização, foi construída uma infraestrutura para receber turistas e a manutenção e conservação do local é algo exemplar. A reconstituição da Mata Atlântica original no entorno da plantação mostra que o cuidado com o meio ambiente não é só necessário e politicamente correto, ele pode gerar empregos, trazer turistas do mundo inteiro, muito embora a Michelin não se preocupe em fazer dessa nobre atitude uma ferramenta de propaganda e marketing. Resguardadas as diferenças econômicas, sociais e políticas entre 1981 e 2012, compreendo hoje porque Paris é conhecida

Águas límpidas formam a Cachoeira Pancada Grande

A casa ao fundo é, na verdade, uma usina hidroelétrica

Vista parcial da sede do Projeto Ouro Verde

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Chalés usados por pesquisadores e visitantes

Vestiário do campo de futebol da propriedade

Carlos Matos e uma seringueira clone

Muda de enxerto-clone vendida para agricultores

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por cidade “Cidade Luz” e o povo francês como o mais culto do planeta. A diferença no tratamento do problema dado pela Michelin - que basicamente era o mesmo enfrentado pela Firestone é premente de humanismo. A gestão da Michelin foi de tal forma tão positiva que hoje serve de modelo para tantos outros problemas socioeconômicos e socioambientais que enfrentamos em nosso país. Tendo conhecido a propriedade em 1981 e hoje, 31 anos mais tarde, tendo a oportunidade de retornar a ela tenho a impressão de poder escrever um livro, mas faço questão, ainda que de uma forma rápida, de apontar que se esse não é o maior projeto da Michelin no Brasil é de uma inteligência invejável. A Michelin poderia simplesmente ter vendido a maior parte da propriedade e reservado somente as áreas de seu interesse direto - que seriam o laboratório de pesquisas e a usina -, mas não: determinou que mais de 30% da área total permanecesse como reserva florestal, separou a

área de laboratório, de plantio de plantas para pesquisas e da usina de beneficiamento de borracha natural e definiu que o restante da fazenda (hoje Fazenda Ouro Verde) fosse loteada de maneira que pudesse prover o sustento digno de uma família. E assim foi feito. Doze lotes de igual tamanho foram separados para venda. Até aqui, nada de muito diferente, mas o grande diferencial foi olhar primeiro para seus funcionários mais antigos, aqueles que por esforço próprio, que por amar o seu trabalho, dedicaram grande parte de suas vidas à empresa - e sabe-se lá quanto tempo de lazer e convívio com a família foi dedicado para solucionar problemas de trabalho. Para esses 12 funcionários foram dadas opções de compra de um lote. A bem da verdade foram 13 funcionários convidados, mas um deles não teve interesse – e aqui me reservo o direito de lembrar que até um baterista deixou a banda dos Beatles, pois achou que ele precisava de um conjunESPECIAL - PROJETO OURO VERDE – MICHELIN BRASIL


to de mais futuro. Enfim, 12 funcionários compraram os lotes por um valor realmente simbólico e com um enorme prazo de carência para iniciar o pagamento que foi parcelado em oito anos , mas com o compromisso de não demitir um único funcionário sequer. Ninguém foi demitido. Pelo contrário, o número de trabalhadores hoje é 67% maior em função da inclusão de uma segunda cultura que convive perfeitamente com as seringueiras, que é o cacau e que gera uma receita considerável a seus proprietários que, rápida e inteligentemente criaram uma cooperativa para beneficiar e comercializar o cacau produzido, assim como comprar insumos para todos os cooperados -, baixando sensivelmente os custos de produção. Também não há nenhum contrato que obrigue os proprietários a vender a produção de látex para a Michelin, que paga preços baseados nos mercados internacionais pelo quilo do insumo. Não bastasse isso, a Michelin montou equipes de treinamento e assistência técnica voltadas para pequenos produtores locais com propriedades no entorno da Fazenda Ouro Verde. Inicialmente foram 50 pequenas propriedades, hoje são 800 propriedades e envolvem 32 municípios do Estado da Bahia. Essa atitude mudou a condição econômica de toda a região e no pano de fundo está uma lição simples: mais vale ensinar a pescar que dar o peixe, sem querer traçar nenhum paralelo com soluções políticas. Os novos proprietários de terras da Fazenda Ouro Verde criaram dentro da cooperativa um centro de treinamento onde estão disponíveis cursos que vão desde MICHELIN BRASIL - PROJETO OURO VERDE - ESPECIAL

O cientista Carlos Raimundo Reis Matos

O ecólogo e PhD norteamericano, Kevin M. Flesher

Diretores do projeto Ubirajara Swinerd e Paulo Bomfim

a operação de computadores até o enxerto de plantas e formação de seringueiros. Sob esse novo olhar, o homem como valor principal, não foi esquecido o cuidado com o meio ambiente - na reserva de Mata Atlântica da propriedade -, que poderia simplesmente ter sido abandonada à sua própria sorte, a exemplo do acontece em áreas desse gênero no Brasil. A Michelin investiu no homem, na terra, trouxe um apaixonado pela natureza – o ecólogo Kevin M. Fleischer - que plantou com as próprias mãos 75 mil mudas de árvores nativas, restaurando a mata original da fazenda – fato que rendeu um doutorado em restauração florestal tornando o projeto mundialmente conhecido e recebendo visitas de especialistas de todo o mundo -, sendo um exemplo a ser seguido. Em paralelo, os investimentos da Michelin em parceria com o Cirad da França, permitiram que o pesquisador Carlos Raimundo Reis Mattos – um apaixonado pela ciência e pela hevea brasilienses -, desenvolvesse ao longo de 24

anos três clones resistentes a fungos e pragas que atacam a planta. O sucesso da pesquisa pode ser expresso em três pontos: os clones representam a perenidade da planta, a reestruturação da heveicultura na Bahia e a possibilidade de ‘salvar’ a extração de látex com base em seringueiras nos países produtores do insumo na Ásia, responsáveis por 90% da produção mundial. Assim como as demais soluções encontradas pela Michelin na reestruturação da Fazenda Três Pancadas, transformada em Fazenda Ouro Verde, esse projeto dos clones também é referência mundial e recebe visitas de cientistas de todas as partes do planeta, sendo também uma referência de excelência. Não tenho palavras para tecer os elogios que essa equipe da Michelin merece. Só posso agradecer a oportunidade de retornar à fazenda, ter sido recebido com a elegância simples e carinhosa, ter tido a oportunidade de conhecer gênios intelectuais a quem tenho a honra de chamar de amigos.

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Vista aérea da região em que se encontra o projeto

A Fazenda Ouro Verde Um exemplo de projeto socioambiental

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dquirida da antiga Firestone na década de 1980, quando de chamava Fazenda Três Pancadas, a Michelin rebatizou o empreendimento - até então uma propriedade dedicada à extração de borracha natural com base na hevea brasilienses -, como Fazenda Ouro Verde. A empresa francesa administrou a fazenda propriamente dita até 2004 quando então

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decidiu focar seu negócio em sua finalidade principal: a construção de pneus. Mas diferentemente do processo de desmobilização adotado pela Firestone - enquanto proprietária da Fazenda Três Pancadas - a Michelin adotou uma postura diferenciada para a Fazenda Ouro Verde. Baseado no triple bottom line o tripé que enseja os conceitos

de responsabilidade social corporativa e que tem como base pilares de sustentabilidade e meio ambiente -, a Michelin procurou dotar a infraestrutura local, seja em termos de potencialidade agrícola, seja em termos de potencialidade de seu capital humano, um sistema que ensejasse caminhos autossustentáveis para os novos 'donos' do negócio. Com base nesses princípios nascia o Projeto Ouro Verde que basicamente dividiu a fazenda de nove mil hectares em partes. A Michelin ficou com a área da reserva natural, a Usina de Beneficiamento de Borracha, a PMB (Plantações Michelin na Bahia), o Centro de Pesquisas entre outras áreas e ofereceu glebas, cada uma delas com 400 hectares, para 12 de seus funcionários. Essa oferta de terrenos foi feita com o pressuposto do triple bottom line e com uma exigência fundamental: a não demissão de um ESPECIAL - PROJETO OURO VERDE – MICHELIN BRASIL


único trabalhador da fazenda. O empreendimento localiza-se no chamado Baixo Sul da Bahia, uma região que remonta a época da colonização do século XVI e que é conhecida como o enigma da Bahia - por ser uma área de grande riqueza em termos de biodiversidade, mas que ainda hoje é uma das mais pobres do Brasil, com um Índice de Desenvol-

vimento Humano (IDH) inferior até mesmo ao do sertão da Bahia. A propriedade fica encravada entre dois municípios, parte em Igrapiúna e parte em Ituberá, e tem em seu entorno os municípios de Valença, Presidente Tancredo Neves, Cairu, Taperoá, Nilo Peçanha, Piraí do Norte, Ibirapitanga, Ituberá, Igrapiúna, Camamu e Maraú, cada uma dessas cida-

des, em sua maior parte, com mais de 400 anos de história. Dentro da propriedade em si há 250 km de estradas, uma reserva natural e uma cachoeira (na área pertencente à Ituberá), aberta à visitação pública, e plantações de seringueiras, bananeiras e cacau (na parte de Igrapiúna), onde fica a usina de beneficiamento de borracha natural.

O problema e a Solução

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azenda Ouro Verde tinha ao final da década de 1980 as seguintes questões: era uma fazenda antiga, com uma monocultura susceptível a pragas - a hevea brasilienses -, uma reserva natural de Mata Atlântica - de 1,5 mil hectares bastante depreciada - 600 funcionários e toda uma infraestrutura local estradas, casas, hospital, usina de beneficiamento dentre outros, com destaque para um centro de pesquisa que praticamente salvou o projeto. Dos laboratórios e das experiências com clones de hevea brasilienses bancados e patrocinados pela Michelin no Centro de Pesquisas da fazenda brotou a salvaguarda para o que hoje se encontra na região: os clones de seringueiras resistentes às pragas que assolam a cultura da seringueira na Bahia. Descoberto o clone, os executivos da Michelin pararam e raciocinaram: ok, veio a solução, mas mesmo assim nós somos uma empresa que produz pneus, o negócio da Michelin é produzir pneus não é produzir borracha natural. MICHELIN BRASIL - PROJETO OURO VERDE - ESPECIAL

Vista aérea da sede, hotelaria e centro de pesquisa

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Coágulos de borracha natural – in natura - prontas para serem processadas na Usina de Beneficiamento

Chegado a esse estágio da questão a solução encontrada foi simples, objetiva e direta: vender parte do negócio, gestá-lo com base em pressupostos de responsabilidade social corporativa e mostrar ao mundo uma solução inédita para um problema secular do Baixo Sul da Bahia, o desenvolvimento

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de um projeto que trouxesse uma solução à monocultura local, que trouxesse equidade social e que fosse autossustentável - respeitando o contexto da biodiversidade. Com esses pilares nascia o Projeto Ouro Verde que em seu eixo econômico previa a opção preferencial por novas

culturas locais, além da seringueira, tais como o cacau, côco, dendê, piaçava, guaraná e pimenta, entre outras. "A diversificação de culturas foi uma das premissas fundamentais para a aplicação do projeto", lembra o gestor de pessoal e comunicação da Michelin Bahia, Paulo Roberto Lima Bomfim. O segundo arcabouço do projeto era a saída da Michelin do contexto de 'fazendeira', de 'produtora agrícola'. "Não interessava à Michelin ser uma empresa agrícola, mas interessava a compra do látex que seria produzido a partir do renascimento da heveicultura local, com base nos clones que ela mesma desenvolveu", diz Paulo Bomfim. No bojo do triple bottom line surgiu o SAF - Sistema Agroflorestal - que tinha como base a plantação de uma fila de seringueiras, seguida por uma fila de bananeiras, seguida por duas filas de cacau, seguidas por mais uma fila de bananeiras e, finalmente, uma última fila de seringueiras, uma ao lado da outra. Ou seja, o SAF - Sistema Agroflorestal - quebrava a monocultura da seringueira, abria a possibilidade de plantio e de renda em duas novas culturas locais - a banana e o cacau -, num processo que leva em conta a terra, o sol, a capacidade e a necessidade dos produtores locais e a geração de renda contínua, além da fixação a terra. Segundo o gestor de pessoal e comunicação da Michelin, o desenho do SAF compreende a plantação de 400 pés de seringueiras, 900 pés de bananeiras e 900 pés de cacaueiros. ESPECIAL - PROJETO OURO VERDE – MICHELIN BRASIL


A lógica do SAF

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banana, além de garantir a sombra necessária para o florescimento da seringueira e do cacau, permite ao produtor obter renda em até dois anos. O produtor vive da banana e espera pelo florescimento do cacau que dá renda a partir de três anos. Com a banana e o cacau ele tem receitas para esperar pela extração comercial de látex da seringueira, que ocorre no sétimo ano de crescimento da planta. Depois ele tem entre 30 anos e 35 anos de renda contínua com a seringueira", diz Paulo Bomfim ao descrever o modelo do SAF Sistema Agroflorestal. Segundo ele, na ponta final do processo, a banana garante renda, o cacau garante renda e a seringueira garante renda. Descobertos três clones que garantiam a renovação da heveicultura local e criado o SAF, o outro passo dado pela Michelin foi o desmembramento da propriedade. "A Michelin pegou a área de nove mil hectares ficou com três mil hectares da reserva natural e a área da usina de beneficiamento de borracha e dividiu o restante em 12 propriedades, cada uma com aproximadamente 400 hectares e as ofereceu a preços e financiamentos subsidiados a seus funcionários locais", descreve Paulo Bomfim. Segundo ele, muitos não quiseram ou não se interessaram pela oferta feita pela empresa. O gestor de pessoal e comunicação da Michelin Bahia ressalta que a área de reserva natural tem MICHELIN BRASIL - PROJETO OURO VERDE - ESPECIAL

SAF – Sistema Agroflorestal - que reúne plantações de seringueiras, mescladas com bananeiras e cacaueiros

1,5 mil hectares, mas a Michelin ficou com três mil hectares dessa área, pois dentro do Projeto Ouro Verde, tinha como intenção a recuperação da biodiversidade local. "Junto com a oferta de venda de lotes proposta pela Michelin vieram alguns pressupostos", lembra Paulo Bomfim. "Cada novo proprietário deveria adotar o SAF em suas áreas, não poderia demitir pessoas e deveria incentivar o programa para outros pequenos proprietários no entorno da Fazenda Ouro Verde", disse. Dentro desse redesenho da propriedade podem ser destacadas três áreas bem específicas: a que agrega o Centro de Pesquisa, a área industrial (com a

Usina de Beneficiamento de borracha natural) e também uma área de plantio de seringueiras e a reserva de Mata Atlântica, todas da Michelin. Uma segunda área foi dedicada às 12 propriedades dos novos fazendeiros da Fazenda Ouro Verde, com 400 hectares em média. Um terceiro conjunto de áreas foi definido para o Centro Michelin de Referência Ambiental, o Projeto Moradia Nova Igrapiúna, os campos de clones, o Centro de Estocagem, o Departamento Operacional de Campo, o Centro de Estudos de Biodiversidade, a Vila Ouro Verde e Canário, Viveiros, a Fazenda Pau Brasil, a Escola de Sangria e as trilhas da Andorinha e do Guigé.

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Cooperverde, a Cooperativa Ouro Verde Bahia O

engenheiro agrônomo José Negrão Roza, que trabalhou 17 anos na Michelin Bahia, é hoje o diretor presidente da Fazenda Ipê Rosa - uma das 12 propriedades vendidas pela Michelin a seus ex-funcionários e também preside a Cooperverde, a Cooperativa Ouro Verde Bahia -, pela segunda vez. "Nossa cooperativa foi fundada em novembro de 2004 e conta hoje com 23 cooperados. Ao todo administramos uma área de cinco mil hectares e dentro dessa área temos desde plantações de

seringueiras, bananas e cacau até construções, estradas e a usina de beneficiamento de cacau", descreve. "Nossa sede fica dentro de uma área da Michelin. São 10 hectares onde temos um pouco de seringueiras e a nossa usina de processamento de cacau", explica ele ao destacar que desde o início a cooperativa tem como premissa a aplicação do SAF - Sistema Agroflorestal - e a disseminação do triple bottom line exigido como pré-condição para a con-

Seringueira clone em pleno processo de produção José Negrão Roza é o presidente da Cooperverde ESPECIAL - PROJETO OURO VERDE – MICHELIN BRASIL


Caixas de pré-secagem de cacau da Cooperverde

strução do Projeto Ouro Verde, pela Michelin. "Nosso objetivo é claro. Temos de gerar renda, gerar emprego e incentivar o desenvolvimento regional de forma sustentável", diz. "Desde o início entendemos que não poderíamos e nem deveríamos ser um oásis na região, pois sabemos que estamos em uma área com um dos menores índices de desenvolvimento humano do Brasil e de qualquer forma somos impactados por isso", relata José Negrão. "Se você não tem desenvolvimento regional sustentável dificilmente você vai conseguir ter preservação do patrimônio ambiental que o cerca. Se as pessoas passam fome vão para a mata caçar, vão extrair os recursos naturais que estão na mata, a madeira, vão explorar de forma danosa o que ainda resta desse patrimônio ambiental e nesse tipo de contexto todos perdem", diz. Em números, José Negrão destaca os avanços do Projeto Ouro Verde. Já são 550 funcionários contratados, oito empresas prestadoras de serviços - nas áreas agrícola, de transporte, saúde e segurança do trabalho -, que somam mais 100 pessoas que trabalham ali. MICHELIN BRASIL - PROJETO OURO VERDE - ESPECIAL

Antigo hospital que hoje é a sede da Cooperverde

O novo momento

A produção de cacau tem como maior cliente a Nestlé

"Temos uma parceria público privada com duas escolas de ensino infantil que beneficia 140 alunos. Outros 150 alunos no ensino fundamental e médio estudam na cidade. Temos uma unidade de saúde de família que realiza mais de 320 atendimentos por mês. Em nossa área de ação contamos com 196 casas, 176 famílias, mais 20 casas de solteiros, uma igreja e cuidamos de toda a infraestrutura da Fazenda."

Definidos os 12 proprietários, o novo passo foi a criação da Cooperativa Ouro Verde. Ela agregou os novos donos da terra e a filosofia do SAF, além de dar uma figura jurídica ao contexto do Projeto Ouro Verde e seus novos 'fazendeiros'. Entre as questões pertinentes à Cooperativa, Paulo Bomfim ressalta o suporte à compra de insumos, a negociação com as lideranças sindicais locais, a realização da manutenção das estradas internas da propriedade, a armazenagem e processamento de cacau, bem como a comercialização dos produtos de seus participantes ao mercado, dentre eles o látex de seringueira.

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Uma das novidades é o investimento na construção da usina de beneficiamento do cacau que é colhido dentro do SAF

A força do cooperativismo É

com base nesses conceitos e pontos de vista que José Negrão Roza destaca a responsabilidade da Cooperverde e seu papel de disseminadora da ideia. "O simples fato de termos nos agregado em uma cooperativa nos permite, por exemplo, ter um ganho 20% maior no preço da borracha natural. Se fossemos colocar o produto individualmente no mercado não teríamos isso", diz.

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José Negrão faz questão de ressaltar que a Cooperverde não é obrigada a vender o látex que extrai para a Michelin, em que pese o fato de a empresa ter propiciado todo o quadro existente hoje. "A própria Michelin deixa isso bem claro. Nós podemos negociar com quem quisermos", atesta. "Financeiramente é interessante vender nossa produção de látex para a Michelin. É até mais cômodo para nós, uma vez que a

usina de beneficiamento fica no quintal de casa", diz, embora com a cultura do cacau a coisa seja bem diferente. "Evidente que a Michelin não tem interesse em produzir chocolate, por isso o cacau já tem outra base de negociação, sendo a Nestlé nossa maior compradora", relata. Até 2011 a Cooperverde já processou 20 mil arrobas de cacau e tem como meta chegar a 150 mil arrobas em 2020. "No ano passado, a safra não ajudou, mas nesse ano, até maio, estamos 40% acima da meta inicial e devemos fechar o ano com 40 mil arrobas", disse José Negrão. Em relação às seringueiras, a produção chega a cinco mil toneladas de borracha verde, mas a Cooperverde está em processo de ESPECIAL - PROJETO OURO VERDE – MICHELIN BRASIL


renovação de boa parte dos seringais. "O seringal velho produz entre 800 quilos e 900 quilos por hectare e com os novos clones nós conseguimos elevar isso para entre 1.000 quilos e 1,1 mil quilos", afirma o presidente da entidade. Segundo ele já foram renovados 500 hectares de SAF nas propriedades locais o que permitirá uma produção renovada e crescente ao longo dos próximos anos. Enquanto no Sudoeste da Ásia os seringais são renovados em média a cada 20 anos, no Brasil essa longevidade chega aos 35 anos. Segundo o pesquisador da Michelin, Carlos Raimundo Reis Mattos, a grande diferença entre a postura dos produtores asiáticos e os brasileiros reside em uma coisa simples: lá há um mercado maduro para a comercialização da madeira de seringueira, algo que no Brasil ainda não existe. Para o presidente da Cooperverde, José Negrão Roza, o beneficiamento da madeira da seringueira é um dos novos potenciais de negócios em que a cooperativa vem trabalhando nos últimos tempos. "Infelizmente o Brasil não tem tradição em usar madeira de seringueira para a construção de móveis por considerar que esse tipo de madeira não é de lei, mas no Sudoeste da Ásia sabemos que existe uma indústria especializada no trato desse material", destaca José Negrão. Segundo ele, a Cooperativa vem fazendo gestões e buscando mostrar ao mercado que essa madeira é interessante. "Estivemos em Botucatu, no interior de São Paulo e vimos diversos estudos feitos pela Unesp. Eles estão bem avançados nessa questão do beneficiamento da seringueira, mas mesmo lá onde a oferta de MICHELIN BRASIL - PROJETO OURO VERDE - ESPECIAL

Madeira da seringueira utilizada para queima na caldeira para secagem do cacau da cooperativa

madeira é maior o volume de negócios ainda é baixo. Aqui na Bahia só se vende madeira que vem da Amazônia e da Mata Atlântica", disse. Apesar das dificuldades a Cooperverde está em negociações com a Fundação Odebrecht no sentido de trabalhar melhor toda a cadeia produtiva da borracha, que envolve não apenas o

seu beneficiamento, mas também a questão da madeira. "Quando o pequeno produtor tiver de renovar seu seringal terá pela frente o mesmo tipo de problema, por isso estamos tentando construir esse mercado da madeira da seringueira, algo que tornará questão da renovação dos seringais economicamente muito mais interessante no futuro", diz.

Detalhe do secador de cacau

Saca de cacau pronta para o embarque

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Entrada do Parque Ecológico da Michelin em Ituberá

Entrada do Parque da Cachoeira Pancada Grande

Kevin S M. Flesher O semeador

André Souza dos Santos e Kevin M. Flesher

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ete são as universidades que mantém parceria com a Michelin para pesquisas de biodiversidade na Fazenda Ouro Verde. Já passaram por ali 100 pesquisadores de 14 países. Desde 2006 já foram realizados mais de 71 projetos de biodiversidade local e relativos à Mata Atlântica. "São mais de 15 projetos por ano e mais de 100 pesquisadores que passam por aqui", diz o ecólogo norte-americano Kevin M. Flesher, gerente de pesquisa da Michelin na Bahia. Segundo ele já foram cadastradas 1.830 espécies nos três mil hectares de Mata Atlântica da propriedade, tendo sido registradas cinco novas espécies de insetos e de plantas que não são encontradas em nenhum outro lugar do mundo. Mas para quem lê parece fácil. Todo esse quadro só foi possível com muito esforço de Kevin M. Flesher e André Souza dos Santos, seu auxiliar. "Quando iniciamos o trabalho a mata estava muito degradada. Havia muita extração de madeira, de palmito e caça. A área estava muito machucada." Foram pelo menos 15 anos ESPECIAL - PROJETO OURO VERDE – MICHELIN BRASIL


Estrada que dá acesso ao Parque Ecológico e a área da Cachoeira Pancada Grande: atenção à conservação.

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Cachoeira Pancada Grande é um dos destaques local

Placa no interior do Parque

Mata original restaurada

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de trabalho intenso para que Flesher e André conseguissem os resultados que hoje brilham aos olhos de quem vê. "O recomeço da floresta depende da fauna. Ela é que ajuda a dispersar as sementes. O que nós começamos a perceber é que ao longo dos anos houve um aumento de 74% no número de animais silvestres aqui." "Até Sussuarana já encontramos na reserva o que é um sinal de que as coisas caminham bem", diz o ecólogo. Segundo Kevin M. Flesher, animais silvestres que hoje são vistos na reserva eram dados como inexistentes na série dos últimos 50 anos na região. "Aos poucos estamos intro-

duzindo uma cultura de preservação entre as pessoas que fazem parte da fazenda e seu entorno", descreve ao citar que uma das formas de enriquecimento da fauna e da flora da reserva foi o plantio de novas mudas. "Nós já reintroduzimos na reserva cerca de 93 mil árvores e já registramos o surgimento de 205 novas espécies", relata o ecólogo com uma simplicidade muito grande. Ele, individualmente, já plantou com suas próprias mãos mais de 75 mil mudas de árvores na reserva da Michelin. "Todo o seringal que faz parte da reserva da Michelin está com plano de abandono", diz o ecólogo ao destacar que ESPECIAL - PROJETO OURO VERDE – MICHELIN BRASIL


Mata nas duas margens recuperada

eles ainda continuam sangrando, ou seja, continuam economicamente ativos, "mas vamos abandonar a extração e iremos recuperar a área com floresta nativa", relata. Em 2005 foi feito um ensaio que acabou fracassando, mas depois de várias tentativas as coisas estão caminhando muito bem agora. "Já temos uma diversidade muito grande de espécies na área, embora depois dessa experiência inicial negativa tenhamos mudado completamente o esquema de recuperação da mata." A nova estratégia adotada para o reflorestamento da reserva se baseou em plantar uma

Vista de parte da reserva ecológica da Michelin

mistura total de espécies, mas com foco no que ele chama de mata primária. "São árvores de madeira de lei e de alta diversidade." Segundo Kevin M. Flesher já podem ser encontradas nessas áreas mais de 45 espécies diferentes de plantas. "Normalmente você precisa investir muito para reconstruir uma área de mata primária, precisa trabalhar muito no tipo e na estrutura de árvore que você precisa plantar ali. Nós optamos pelas madeiras de lei", relata o ecólogo apontando para a altura de um dos jacarandás plantados na reserva.

Vista de parte da reserva nos arredores da cachoeira MICHELIN BRASIL - PROJETO OURO VERDE - ESPECIAL

"Eles são os mais abundantes aqui, embora tenhamos feito diversas experiências, inclusive com o espaçamento de cada planta. Antes plantávamos as novas mudas a cada 3,00 metros e hoje entre 5,00 e 6,00 metros de distância." Kevin M. Flesher deixa transparecer sua alegria quando cita o grande número de tucanos e de macacos presentes na reserva. "Isso representa que eles estão reencontrando um bioma que voltou a existir e os bichos da mata são fundamentais para o carregamento de sementes e sua germinação por toda a extensão da reserva", afirma.

Início da Trilha das Andorinhas

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A ciência em busca da perenidade da hevea brasilienses N

Coleção de fungos guardados no laboratório

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ós da Tudo Sobre Pneus temos visto e divulgado as diversas iniciativas de empresas privadas, centros de pesquisa e universidades ao redor do mundo em busca de alternativas sustentáveis à borracha natural extraída com base na hevea brasilienses - a planta base que deu início ao processo de construção dos pneus modernos, a partir do látex de seringueiras. Entre as iniciativas em curso estão estudos e projetos de pesquisa sobre o Dandelion (mais conhecido aqui como dente de leão), do Guaiúle, arbusto originário do

norte do México e Sul dos Estados Unidos, bem como a corrida pelo desenvolvimento de borracha sintética com base na manipulação de biomassa visando à polimerização de isopreno, chegando até mesmo à manipulação do óleo de soja como substituto sustentável ao látex de seringueiras. Mas a Michelin fez, em especial, uma aposta no Baixo Sul da Bahia: a pesquisa contra os males que acometem os seringais baianos - principalmente com o chamado mal das folhas. Um dos homens centrais no processo de melhoramento genético de clones de seringueiras (hevea brasilienses) da Fazenda Ouro Verde é o pesquisador da Michelin, Carlos Raimundo Reis Mattos. Com o apoio de técnicos da Cirad (Centro de Cooperação Internacional em Pesquisa Agronômica e Desenvolvimento), de Montpellier, na França, Carlos Mattos obteve, com sucesso, três clones de seringueiras resistentes às pragas na Bahia, mas deu trabalho, a começar pelo isolamento de uma coleção de 72 raças de fungos que acometem os seringais em Igrapiúna. "Fizemos mais de 750 mil polimerizações", diz ele ao destacar que a equipe da Fazenda Ouro Verde chegou a polimerizar 70 mil árvores no curto espaço de dois meses. Mas isso foi apenas o começo. "De cada 60 mil polimerizações nós escolhemos três mil indivíduos que foram recolhidos e plantados em um campo de avaliação e que ali permaneceram por quatro anos. Ao final desse prazo, selecionamos 100 indivíduos, os mais resistentes e com eles realizamos testes precoces de produção. Esse teste precoce teve por finalidade reunir os maiores potenciais de produção e ai fizemos uma nova seleção e plantamos em ESPECIAL - PROJETO OURO VERDE – MICHELIN BRASIL


Folha de seringueira atacada por fungo

Clone afetado pelo vírus em plena produção

Campo de clones da Michelin

um novo campo de experimentação com as mesmas repetições, algo que levou ao redor de cinco a 11 anos", relata. Mas para quem pensa que o trabalho acabou ledo engano. "Desses 100 clones que selecionamos para essa fase, realizamos uma nova seleção, de apenas 10 clones. Pegamos esses 10 clones mais resistentes e os plantamos em uma nova área de experimentação, algo que levou mais uns 15 anos", destaca o pesquisador da Michelin. Acabou? Não. "Desses 10 clo-

nes nós fizemos a seleção de três mais resistentes. Ou seja, de um trabalho inicial com 60 mil clones e passados entre 24 e 30 anos chegamos a três clones potenciais", diz Carlos Mattos, um pesquisador de fala mansa que aponta o dedo, em meio ao barro e a lama, em tom professoral para cada seringueira como se elas fossem suas filhas. "Isso aqui é uma coisa muito interessante porque cada árvore que você está vendo aqui é um indivíduo geneticamente diferente mesmo que venha a ter um mesmo

pai ou uma mesma mãe", diz ele ao abraçar umas das seringueiras da longa fila de clones plantados para experimentação presentes no caminho. "Nós selecionamos duas variedades de seringueiras. Uma que vai ser o pai e outra que vai ser a mãe e cruzamos. Então vai ter o fluxo na árvore mãe - que recebeu o pólen - e vamos ter os frutos de seringueira resultado da polinização. Cada árvore contém, cada uma, três sementes e cada semente dessa é uma planta que pode ter 10, 100 frutos, tudo depende do

Celeiro de pesquisas O projeto realizado pela Michelin na Fazenda Ouro Verde já figura entre os sonhos de consumo de muitos pesquisadores e jovens cientistas brasileiros e do exterior. Para atender essa demanda crescente por estudos científicos que passem pelo bioma local, a Michelin realiza a seleção de propostas de pesquisa através de editais junto às universidades e centros de estudo em todo o Brasil.

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Os projetos devem apresentar em sua metodologia algum tipo de coleta de dados a ser feita na Reserva Ecológica da Michelin (REM) na Bahia. Existem verbas para bolsas (IC, mestrado e doutorado), ajuda de custo de transporte e material de campo, mas a empresa não financia materiais permanentes, como GPS, computadores e equipamentos e materiais de

laboratório. Os projetos que focarem grande esforço de campo recebem a preferência na avaliação, destaca informe da companhia. Até 2010 a Michelin já havia apoiado 56 pesquisas do gênero, em parcerias com diversas universidades, trabalhos esses que resultaram em monografias, dissertações, teses e artigos científicos.

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Banner com o processo de produção de clones

Placa no campo de clones

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número de polinizações que fizemos. Mas se a gente tiver 100 frutos nós vamos ter 300 sementes e essas 300 sementes, cada uma, dará origem a uma nova planta e cada uma delas é geneticamente diferente, mesmo sendo irmãs", explica ele entre uma árvore e outra. "E o que nós queremos?", questiona. "Nós queremos aqueles indivíduos que herdaram os genes bons do pai e da mãe. Tem uns que produzem mais, mas não resistem porque são mais susceptíveis ao mal das folhas. Tem os que são mais resistentes. Portanto, temos de filtrar os que herdaram os bons genes de produção dos que são mais susceptíveis. Geralmente são os clones asiáticos e os genes de resistência de um clone sul-americano que nós envolvemos no cruzamento", diz. "Quando eu seleciono uma variedade resistente no campo eu trago aqui para o laboratório porque eu quero ter certeza de que a resistência que ocorreu no campo é verdadeira. Pode haver um escape", afirma. "A experiência continuada nos mostra que 20% das variedades coletadas no campo não passam nos testes, mas 80% sim, e 80% é bom demais." Segundo Carlos Mattos "esse é um trabalho exaustivo, mas o que nos deixa felizes é que chegamos ao fim do processo com três clones resistentes e cujas seringueiras já estão sangrando em escala comercial", relata ele olhando para o seringal. "Tem que gostar muito, tem que ter muita vontade de fazer porque leva muito tempo, mas depois de 20 anos vem à consagração de lançar três clones que permitem ao Brasil retomar o plantio dessa cultura em áreas úmidas - que geralmente são onde estão os produtores mais pobres e que precisam de ajuda - e você chega e diz: Pô, que bonito isso!". ESPECIAL - PROJETO OURO VERDE – MICHELIN BRASIL


De Igrapiúna para o mundo Os clones pesquisados, desenvolvidos, plantados e, comercialmente produzindo no Baixo Sul da Bahia, já são de conhecimento das principais autoridades do mundo da borracha natural. A afirmação é do pesquisador da Michelin, Carlos Raimundo Reis Mattos, que apresentou em três momentos distintos o desenvolvimento dos clones e os clones propriamente ditos para celebridades do setor de pesquisa e desenvolvimento como o presidente do 'The International Rubber Research and Development Board (IRRDB)', James Jacob, o diretor do board da Malásia Rubber, Dr Abdul Aziz, que também é secretário geral do IRRDB. Para quem não sabe, o IRRDB é a maior rede de pesquisa e desenvolvimento de borracha natural do mundo. Foi fundada em 1934 e reúne institutos de pesquisa em borracha natural em todos os países produtores do insumo, tendo como objetivos compartilhar experiências, partilhar recursos e evitar a duplicidade de pesquisas. "Também apresentamos os clones para os técnicos do Cenargen, o Centro Nacional de Pesquisa de Recursos Genéticos e Biotecnologia, ligado ao Embrapa, e para pesquisadores brasileiros, como o Dr. Paulo Gonçalves e a Dra. Sueli Melo", diz Carlos Mattos ao relatar a alegria com a qual os cientistas e pesquisadores tiveram com o sucesso

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obtido pela Michelin em Igrapiúna. "Quando o Dr. Aziz viu os clones plantados e sangrando látex ele até chorou", narra o pesquisador da Michelin ao destacar a impossibilidade de se levar esses clones imediatamente para a Ásia. "Antes disso são necessários muitos testes, uma vez que uma planta com doença levada daqui pode infectar todos os seringais asiáticos", afirma. No caso do Brasil não há esse risco e clones resistentes aos microciclos desenvolvidos na Bahia já estão em posse de pesquisadores paulistas, como o Dr. Paulo Gonçalves, que os avalia para possível implantação no Vale do Ribeira, no interior de São Paulo. "O Dr. Paulo trabalha com melhoramento genético e está em busca de alternativas para a heveicultura de São Paulo, o grande produtor de borracha natural no Brasil. O Vale do Paraíba é um excelente campo de trabalho para esses clones uma vez que eles são resistentes a áreas úmidas e o Dr. Paulo levou nossos clones para lá a fim de serem testados. Essa experiência começou em abril deste ano (2012) e entendemos que a cultura da seringueira pode auxiliar na redução da pobreza local, uma vez que ela gera renda de forma perene, é uma cultura rentável e que fixa o homem na terra. Acreditamos que nossos clones podem mudar o perfil do Vale do Paraíba e elevar a qualidade das pessoas que lá vivem."

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Campo de clones Seringueiras Clone e RIM 600 infectadas com o fungo – é nítida a diferença no diâmetro do caule

Todas as seringueiras são da mesma idade – as mais finas não são clones e fica clara a diferença.

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A perenidade da hevea brasilienses Por trás do arraigado amor e total comprometimento pelo que faz, o pesquisador da Michelin, Carlos Raimundo Reis Mattos, mostra várias questões que perpassam o sucesso da pesquisa realizada em parceria com a Cirad francesa: a da perenidade de uma planta cujo potencial econômico envolve não apenas as questões das grandes indústrias que demandam esse tipo de matéria-prima, mas muito mais que isso, a sobrevivência da hevea brasilienses, uma planta vista hoje como de futuro incerto em meio a pragas e em meio ao potencial de geração de látex para suprir a demanda de consumo – sem contar o seu aspecto social e econômico para os pequenos produtores. “Alguns países já demostraram especial interesse por nossos clones”, diz Carlos Mattos, ao destacar a Colômbia e o Equador, na América do Sul, mas também produtores e países asiáticos. “Ainda não podemos levar esses clones para a Ásia porque eles precisam ser testados à exaustão, pois se de um lado buscamos a perenidade da planta, por outro uma avaliação errada pode simplesmente erradicar as espécies do Sudoeste Asiático. Mas já estamos com intercâmbios firmados aqui na América Latina com universidades e centros de pesquisa da Colômbia, por exemplo.” No Brasil, pesquisadores do Rio de Janeiro e São Paulo vão à Bahia pelo menos duas vezes ao ano, sendo que a Unicamp, em Campinas, também conta com pesquisadores envolvidos com os clones da Michelin. Segundo Carlos Mattos, clones desenvolvidos em Igrapiúna já estão MICHELIN BRASIL - PROJETO OURO VERDE - ESPECIAL

devidamente postados em centros de pesquisa da Michelin na França. “Esses clones estão em quarentena, digamos assim, sendo pesquisados e dentro de alguns anos poderemos ter certeza de que podem ser adaptados às culturas do Sudoeste da Ásia”, relata o pesquisador. Carlos Mattos salienta que aqui mesmo no Brasil já há gestões para a implantação dos clones desenvolvidos na Bahia. “O governo baiano já criou um programa em que pretende plantar 100 mil hectares de seringueiras no Estado, nos próximos 25 anos”, destacou ao lembrar que o Espírito Santo segue o mesmo compasso. “O governo do estado do Espírito Santo também já se manifestou favorável ao plantio de nossos clones nos seringais capixabas, bem como a criação de novas áreas de plantio no futuro”, relatou. Para o pesquisador o sucesso com o plantio dos clones representa não apenas a perenidade da hevea brasilienses, mas um novo impulso à heveicultura nacional e internacional. Basta dizer que uma seringueira pode chegar a 30 metros de altura, ter uma vida útil superior a 35 anos e a cada processo de sangria – feito de três em três dias -, chega a produzir 900 mililitros de látex por árvore, ou 9,0 quilos de látex por mês. “O Brasil pode ser tornar autossuficiente em termos de produção de borracha natural”, diz Mattos ao destacar que na Fazenda Ouro Verde a produção média por hectare, com os novos clones, deu salto de 1,6 toneladas de borracha seca por hectare no ano passado para 1,9 toneladas por hectare de borracha seca neste ano.

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O gerente de operações agrícolas, Ricardo Cabral Jr.

Agricultura Familiar O

desenho da sustentabilidade empreendido na Fazenda Ouro Verde tem na agricultura familiar uma de suas pegadas socioeconômicas mais

relevantes dentro do conceito do triple bottom line - tripé de sustentibilidade que norteia as bases de ação da Michelin em Igrapiúna e região.

Segundo o engenheiro agrônomo e gerente de operações agrícolas da Michelin Bahia, Ricardo Cabral Júnior, a empresa é uma das participantes

Antiga casa e atual depósito em uma das propriedades do programa

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mais ativas do programa de agricultura familiar local, uma ação que também conta com a participação da Secretaria de Agricultura do Governo da Bahia, da Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (EBDA), da Secretaria de Planejamento Estratégico da Bahia (Seplae) e do Banco do Nordeste. "Demos início a essa ação em 2004 através da assinatura de um protocolo de intenções que permitiu a realização dos

primeiros plantios de clones desenvolvidos pela Michelin em propriedades de pequenos produtores locais localizadas no entorno da Fazenda Ouro Verde", diz. O trabalho envolveu inicialmente 50 produtores locais que receberam financiamentos do Banco do Nordeste e receberam mudas de clones de seringueiras da Michelin, além de mudas de cacau, fornecidas pela biofábrica de cacau local.

Do processo embrionário iniciado em Igrapiúna, Camamú e Ituberá, o programa deu tão certo que hoje já atende mais de 800 produtores locais que têm em suas propriedades plantações de banana, seringueira e cacau, num projeto que já benefia 1.000 famílias em 32 municípios do estado da Bahia. Isso mesmo: 32 cidades já integram o programa de agricultura familiar incentivado pela Michelin.

Fruto maduro do cacau, pronto para beneficiamento

Cacaueiro plantado dentro do Sistema Agroflorestal

gerar renda ao produtor). "Todas essas informações são passadas dentro do conceito do SAF - Sistema Agroflorestal - criado pela Michelin", diz Ricardo Cabral. "Mostramos ao produtor que ele poderá ter renda a partir do segundo ano com o plantio da banana, no terceiro com o cacau e a partir do sétimo ano, com a banana, com o cacau e

com o látex de seringueira", descreve. "Daqueles 50 agricultores que iniciaram o programa, todos já começaram a ter renda nas três culturas", ressalta ele ao destacar que o controle maior está nas mãos do Banco do Nordeste. "Sem os recursos do banco e a adesão dos produtores às regras do programa não é possível desenvolvê-lo", afirma.

Como é feito o programa Segundo o gerente de operações agrícolas da Michelin Bahia, Ricardo Cabral Júnior, o primeiro passo é a realização de uma palestra nos municípios em que os agricultores demonstram interesse. "Fazemos questão de mostrar que o programa não se resume às seringueiras, mas a três culturas que permitem ao agricultor obter renda até que a produção de látex se inicie", diz. Vale lembrar que uma planta de seringueira leva sete anos para iniciar a produção em escala comercial e a Michelin sabe que o pequeno produtor não pode esperar tanto tempo assim para subsistir e gerar renda para sobreviver. Para suprir esse tempo de maturação da planta, comercialmente falando, há o incentivo ao plantio de banana (que além de renda gera sombra necessária ao florescimento e crescimento da seringueira) e ao plantio de cacau (que leva três anos para MICHELIN BRASIL - PROJETO OURO VERDE - ESPECIAL

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O segredo do sucesso Tudo Sobre Pneus entende que o Programa de Agricultura Familiar é um programa de governo e tem gerado enormes resultados, porém, a experiência em Igrapiúna e região é bem especifica e conta com diferenciais relevantes em relação ao programa tradicional. Para o gerente de operações agrícolas da Michelin Bahia, Ricardo Cabral Júnior, o segredo do sucesso se deve às parcerias firmadas pela Michelin e o papel de supervisão, monitoramento e treinamento da empresa em relação aos cuidados que os produtores devem ter em relação ao manuseio e florescimento das culturas ensejadas no programa, principalmente, a da seringueira. "A seringueira é uma cultura que depende muito de treinamento junto às pessoas que lidam com ela. Em função dessa importância agregamos às parcerias o apoio

do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) que já tem programado uma série de 17 cursos de aprendizagem em sangria da árvore", relata. Segundo Ricardo Cabral o Senar está ajudando a consolidar um aspecto muito importante do SAF, mas outro aspecto relevante é o que ele chama de Sistema Integrado de Educação de Alternância.

Apesar do nome nada simples, esse sistema se baseia no treinamento dos filhos dos pequenos agricultores, cujo objetivo maior é o de fomentar uma geração de futuros empresários rurais na Bahia. Os jovens agricultores ficam internados em centros de treinamento da Fazenda Ouro Verde durante uma semana. Depois vão a campo para aplicar seus conhecimentos e

O início do preparo da árvore

O preparo correto para otimizar a produção

O treinamento é bastante prático e fácil

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Equipe do Centro de Treinamento

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retornam para suas casas onde recebem periodicamente a visita de monitores para ver o avanço do aprendizado nas culturas da propriedade de seus pais. "Esse processo educativo faz com que se quebre a resistência dos agricultores mais antigos em relação às novas tecnologias, faz com que o trato da questão rural seja profissionalizado e entendemos que esses jovens podem se transformar em empresários rurais no futuro", diz Ricardo Cabral. O gerente de operações agrícolas da Michelin Bahia cita como exemplo o fato de esses jovens poderem ser disseminadores de uma nova cultura, de um novo olhar para as coisas do campo. "Com toda certeza eles terão mais afinidades com financiamentos bancários, terão motivos para se fixar no campo e em ganhar dinheiro com as culturas que os cercam, gerando emprego, gerando renda e reduzindo os níveis de marginalidade premente em nosssas cidades, sem contar o fato de que não mais será aquele tipo de agricultor que precisa ser auxiliado o tempo todo, uma vez que estão sendo dadas as ferramentas necessárias para que ele saiba o que fazer, como fazer e quando fazer." Em um pequeno resumo, o SAF - Sistema Agroflorestal - empreendido no contexto do programa de agricultura familiar em 32 cidades baianas é um modelo de sustentabilidade que trabalha os aspectos econômicos, sociais e ambientais ao mesmo tempo. "O SAF não é um sistema que busca a monocultura. Ele tem a banana, o cacau, a seringueira e, em algumas regiões da Bahia, a pupunha. Não queremos apenas multiplicar a cultura da seringueira. Nosso principal objetivo é a subsistência do produtor. Entendemos que esse produtor tem que ter de tudo um pouco, é uma segurança de MICHELIN BRASIL - PROJETO OURO VERDE - ESPECIAL

renda, de emprego, de subsistência sem a periodicidade típica quando se aposta em uma cultura só." Segundo Ricardo Cabral, o SAF se adequou e se adaptou não apenas ao pequeno produtor local, mas já há médios e grandes empresários dentro do programa. "Já temos médios e grandes empresários, como no município de Piraí do Norte, onde um empresário plantou mais de 300 hectares dentro desse modelo, mas apenas com uma diferença. Ele plantou seringueira e cacau, uma vez que não precisa da renda da banana", relata o gerente de operações agrícolas. Para ele, esse é um exemplo de que o modelo do SAF e os clones resistentes às pragas desenvolvidos pela Michelin estão contribuindo não apenas para incrementar a agricultura local, mas estão remodelando o plantio de seringueiras em todo o Estado da Bahia. "Sem o sucesso obtido pela Michelin na geração desses clones, nada disso seria possível", diz ele. Em 18 de julho deste ano, o governo da Bahia lançou na cidade de Ituberá um programa audacioso: o plantio de 100 mil hectares de seringueiras baseadas nos clones da Michelin nos próximos 25 anos, em todo o Estado da Bahia. "O objetivo disso é um só: o de tornar a Bahia autossuficiente na produção de borracha natural com base no látex de seringueiras, até porque aqui temos um parque industrial ligado ao setor de pneumáticos, como a Bridgestone e Continental, em Camaçari, e a Pirelli e a Vipal, em Feira de Santana, sendo que hoje, boa parte dessas empresas é abastecida com insumos importados." "O objetivo é produzir esse insumo aqui e conseguir alimentar o mercado local", diz Cabral ao destacar que qualidade e demanda já existe, o que falta é apenas oferta de borracha para essa finalidade.

Corretamente trabalhada uma seringueira produz por 30 anos a 35 anos

Clone produzindo no Centro de Treinamento

Assista ao filme de treinamento em nosso portal: http://www.tudosobrepneus.com.br/si/site/0408

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O corte certo, no tempo certo V

aldomiro Ângelo Souza de Jesus é um dos técnicos da Michelin que ensina aos produtores rurais o modo correto de fazer o corte da seringueira, a chamada sangria da árvore para a obtenção do látex. "A sangria, quando feita de modo correto, além de preservar

a árvore, garante maior produtividade e qualidade do látex a ser extraído", ensina. Segundo ele, uma árvore de seringueira manejada corretamente pode garantir 35 anos de exploração comercial, mas para isso ele destaca que o agricultor precisa tomar cinco cuidados básicos. Confira:

Valdomiro ajuda a formar seringueiros

O CONSUMO DA CASCA - a sangria deve consumir uma quantidade de casca suficiente, a fim de retirar a casca ressecada e promover a boa coagulação do látex. "Qual é o corte ideal para se promover uma boa sangria", pergunta Valdomiro de Jesus, logo respondendo: "o corte ideal é de 1,5 mm. por corte." Segundo ele, a casca da árvore é o maior patrimônio da seringueira, uma vez que sem casca não tem como fazer a sangria do látex.

A PROFUNDIDADE DO CORTE -o segundo cuidado básico que se deve ter no trato com a seringueira é com a profundidade do corte a ser realizado. "A profundidade do corte sobre o caule da árvore influencia diretamente a quantidade de produção. E qual é a profundidade ideal? 1,6 mm." Com essa profundidade, garante Valdomiro de Jesus, a seiva da planta vai circular e no futuro se criará sobre esse corte uma nova casca. A própria árvore se regenera e com isso temos a perenidade da seringueira e do negócio em si", diz. Caso o agricultor faça uma sangria rasa, isso não vai afetar a planta, mas a produção será menor, alerta.

A D ECLIVIDADE DO C ORTE - Segundo Valdomiro de Jesus a declividade do corte feito no caule da seringueira tem influência direta no melhor ou no pior escorrimento do látex até o copo que o armazena (o látex que escorre do caule) e também na melhor exploração do painel. "Hoje a gente trabalha com um ângulo de 35 graus e uma sangria descendente", diz.

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TRATAR OS FERIMENTOS DO CAULE - "Isso aqui é um ferimento no caule", aponta Valdomiro de Jesus indicando um problema em uma das seringueiras plantadas na Fazenda Ouro Verde. "O ferimento influencia na futura regeneração da casca e também no estado fitossanitário da planta. Nesse caso, o produtor precisa aplicar fungicida, caso contrário esse ferimento pode redundar na geração de doença na árvore, chegando até à praga do mofo cinzento", diz. Segundo o técnico, em geral os ferimentos no caule são ocasionados por um erro do seringueiro, a pessoa que realiza os cortes para obtenção do látex. "Se a pessoa feriu o caule hoje, no próximo corte o ideal é ela desviar desse ferimento fazendo um corte novo que saia fora (desse ferimento)", diz.

O ASPECTO GERAL - Após os quatro passos anteriores, o mais importante é verificar o aspecto geral da borracha natural armazenada no copo preso ao caule da árvore. "O aspecto geral influencia na qualidade do produto em relação à sujeira no entorno da planta e dentro do copo que recolhe e armazena o látex", diz Valdomiro de Jesus. "Quem compra borracha natural não quer comprar látex misturado com casca, com folhas, com insetos e com terra. Por isso instruimos os seringueiros a terem cuidado especial com a coleta do material", diz. Vale lembrar que um copo que armazena látex em geral tem capacidade para recolher 900 mililitros de material que escorre do caule. Em uma seringueira que esteja produzindo em escala comercial é possível fazer entre dois a três cortes a cada três dias. Ou seja, o seringueiro pode recolher látex das seringueiras a cada três dias. Em uma conta rápida 10 seringueiras produzem a cada três dias a soma de 9,0 quilos de látex. Valdomiro Ângelo Souza de Jesus é um profissional com 30 anos de experiência. Ele trabalhou na Fazenda Três Pancadas, da Firestone, durante três anos, um ano na Companhia Brasileira de Borracha (CBB), em Ituberá, e nos últiMICHELIN BRASIL - PROJETO OURO VERDE - ESPECIAL

mos 26 anos na Fazenda Ouro Verde, da Michelin. Através da Michelin Valdomiro de Jesus já prestou serviços para produtores rurais e seringueiros no Pará, em Minas Gerais e no Espírito Santo, formando seringueiros em todos os locais citados. Diante de tudo o que viu e fez, Valdomiro de Jesus destaca que a seringueira é uma cultura muito rentável. "Estamos mostrando aos agricultores de pequeno porte que ele pode ter dinheiro no bolso a cada

três dias de coleta do látex. É dinheiro no bolso durante 30/35 anos, desde que se tenham os cuidados necessários com o patrimônio maior, a seringueira." "O que temos visto aqui na região de Igrapiúna e arredores é que as mulheres seringueiras são mais cuidadosas no trato com a cultura e um modelo dentro da Fazenda Ouro Verde", relata. Detalhe importante: a Michelin não cobra um centavo dos produtores locais pelos serviços que presta. São cobradas apenas as mudas, ao custo de R$ 0,25 por clone. O produtor local não é obrigado a vender o látex extraído para a Michelin. Ele pode vender sua produção para quem ele quiser, mas se o fizer com a Michelin, a empresa envia os caminhões de coleta diretamente na propriedade do produtor. O único trabalho que ele tem é o de produzir o látex, pois o resto, a Michelin faz tudo.

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Treinamento e assistência, a base do sucesso! U

ma das coisas mais importantes do programa de agricultura familiar baseado no modelo do SAF - Sistema Agroflorestal - e que o diferencia do programa de agricultura familiar tradicional é o cuidado extremo que a Michelin tem no suporte técnico, no monitoramento das culturas inseridas no programa e na supervisão e atendimento das necessidades dos micro, pequenos, médios e grandes produtores locais. Uma dessas pessoas é o assistente técnico da Michelin, Edvan Silva de Santana, um profissional destacado pela empresa para a realização do papel de supervisionamento de campo. Pode-se dizer, sem sombra de dúvidas, que Edvan é o cara que vive na prática do dia a dia e lado a lado com os produtores locais a aplicação integral do modelo do SAF - Sistema Agroflorestal. "A força que me move é chegar em uma propriedade rural e ver que há cinco anos o que eu encontrava era uma casa de taipa, sem energia elétrica, com pessoas passando grandes necessidades financeiras e de saúde e hoje o que eu encontro são casas de alvenaria, prontas já

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Edvan, assistente técnico da Michelin

ou em construção, postes de luz, casas com televisão, antenas parabólicas e gente simples feliz da vida porque sua propriedade rural está garantindo renda, os filhos não tem mais motivos para procurar emprego na cidade. Até posto de saúde já existe em muitos pontos próximos às propriedades o que representa uma evolução a olhos vistos", diz o jovem técnico da Michelin. Segundo Edvan Santana, es-

sa realidade compreende 90% das propriedades atendidas pelo programa. "Infelizmente ainda existem produtores que, mesmo dentro do programa se mostram descompromissados", diz ele ao referendar que o sucesso da proposta depende do produtor, exclusivamente. "Nós vamos ao produtor, visitamos suas propriedades, damos as mudas, ensinamos a sangrar a árvore, mostramos como devem ser feitos os plantios e a forma como devem ser feitos o plantio do modelo do SAF, mas o produtor rural precisa querer isso, ele precisa participar disso porque o projeto prescinde do trabalho dele e sem ele, o produtor rural, a coisa não acontece", diz. Entre os trabalhos associados à assistência técnica prestada pela Michelin estão visitas constantes - pelo menos uma vez a cada 60 dias onde são recomendadas a limpeza de áreas, o balizamento de seringueiras, a entrega de mudas de seringueiras, a orientação ao plantio, à sangria, armazenamento e até mesmo à comercialização. Dentro do SAF, cada muda de clone de seringueira custa R$ 0,25 e a Michelin chega a montar treinamentos aos produtores rurais nas escolas próximas às suas localidades. "Eu atendo hoje cerca de 300 famílias em 14 cidades da Bahia. Faço entre 12 e 14 visitas por semana. Hoje a gama de participantes é muito grande por isso não conseguimos passar em uma mesma propriedade antes de dois meses", diz Edvan Santana ao apontar que o número de participantes deve crescer ainda mais nos próximos meses. "Há vários projetos novos em Guaraú, Ibirataia e ESPECIAL - PROJETO OURO VERDE – MICHELIN BRASIL


Pirapitinga. São mais de 40 projetos novos apenas nessas três cidades." Segundo ele, são regiões novas para o conceito do SAF e áreas em que os produtores estão apresentando problemas como baixo rendimento do cacau e problemas com doenças e pragas em suas lavouras. "Eles estão vendo a experiência de sucesso em Igrapiúna e região e estão apostando no plantio de seringueira como uma forma de melhorar a qualidade de vida." O assistente técnico da Michelin ressalta que o papel dos profissionais da empresa é o de atuar como facilitadores ao programa do SAF. "Os produtores rurais são os agentes de todo o processo, não adianta a Michelin ir a uma propriedade e o produtor não seguir nossas orientações", diz ele ao destacar que o produtor rural é o agente modificador de sua própria realidade. "Nós estamos aqui mediando o processo e levando para eles tudo o que há de novo e de positivo para a construção dessa realidade." Uma das áreas atendidas por Edvan Santana é a comunidade quilombola de Igrapiúna e arredores. "A Michelin atende duas comunidades quilombolas desde 2005, sendo que o prazo de sete anos para a produção comercial do látex das seringueiras está começando agora, em 2011. Ao longo desse período de monitoramento, treinamento e especialização da comunidade quilombola, nós também aplicamos as demais etapas do SAF e hoje vemos produtores tendo renda da banana, do cacau e começando a ter uma nova renda que é a da seringueira", diz. MICHELIN BRASIL - PROJETO OURO VERDE - ESPECIAL

Edvan Silva – Técnico da Michelin e Fernando Bortolin – editor da Tudo Sobre Pneus

Propriedade de Manoel Caroba, microprodutor quilombola

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Antiga residência de Manoel Caroba

Manoel Caroba, durante entrevista em sua propriedade

Manoel Benedito Caroba M

anoel Benedito Caroba é um baiano que nasceu e cresceu na chamada Comunidade Quilombola de Laranjeiras, em Igrapiúna, uma das áreas de aplicação do SAF - Sistema Agroflorestal - criado pela Michelin para atender a agricultura familiar do Baixo Sul da Bahia. Ex-funcionário da Michelin há sete anos, Manoel Benedito Caroba é uma das figuras humanas mais interessantes que encontramos em nossa viagem. O que você fazia antes de entrar no programa da Michelin, perguntamos a ele, que naquela fala mansa do bom baiano respondeu: "Eu plantava mandioca."

E dava para sobreviver? "Na mandioca a gente trabalhava de segunda a sábado e sempre sem 'paradeiro' e dinheiro MICHELIN BRASIL - PROJETO OURO VERDE - ESPECIAL

prá nada.... e liberdade, prá nada", disse. E quando você plantava mandioca você tinha apoio de algum banco, de alguma empresa, do governo? "Eu não tinha é nada, nem conhecimento. De 'seringa' a gente tinha era é medo de pegar o tal de mal da borracha - que todo mundo dizia que pegava -, porque o povo dizia que era coisa do diabo e 'nóis' ficava era naquela 'bolada toda', 'dano' duro e sem nada e, hoje, graças a Deus, eu vivo aqui alegre, até porque 'num' tenho leitura, aquela coisa, assim, nativa." Segundo o pequeno agricultor quilombola sua vida mudou totalmente com o programa do SAF.

"Antes eu tomava remédio. Hoje tô quase um ano que não tomo remédio de pressão. Eu vivo

hoje aqui feliz com a minha plantação, isso é o meu remédio." Quer dizer que o tempo da mandioca passou? "Mandioca não tem mais. Só tem mesmo para a gente comer, mas para vender não. O que eu tenho aqui agora é banana, cacau, seringueira, laranja e cravo, mas para viver bem hoje é cravo e 'seringa' (seringueira)", diz Caroba. Aqui no SAF você tem quantas seringueiras? "Tenho 400 pés." Quantas arrobas você tirou de suas terras aqui no ano passado? "De 15 em 15 dias eu tiro 40 quilos de 'coágulo' (as bolas de látex que são recolhidas nos copos presos às árvores). Em janeiro e fevereiro eu comecei com 1 quilo a 2 quilos, mas hoje tiro 40 quilos. A gente tem que adubar pelo menos quatro vezes no ano e eu já adubei faz um ano." Na questão da borracha, você vende com que frequência? "Eu comecei vendendo a cada dois meses, mas agora eu entrego uma vez por mês."

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Vista da propriedade de Manoel Caroba

E como está a sua vida hoje Caroba? "Hoje nós temos ajuda do governo, com a Michelin, que vem criando a gente. Se plantar uma seringa (seringueira) tem semente, sei como é que nasce. Só não sei com enxerta ainda, mas já há espaço para isso e venho criando isso (as seringueiras) e estamos de parabéns. Já temos água que vem de longe, um posto médico que atende um bocado de gente.... então tem muitas coisas que a gente vai criando graças à cultura do cacau, da seringueira e com isso vai trabalhando. No tempo da mandioca eu chegava aqui por debaixo do mato (em meio ao mato tomado pela plantação),

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mas não via ninguém, não tinha nada, nem estrada, suporte, conhecimento. Não tinha nada e não exista nada." Antes do SAF você trabalhava em outras roças? "Antes eu demorava até duas horas para chegar em outros trabalhos, mas hoje, graças a Deus não preciso mais." Você não precisa mais trabalhar fora da sua roça, é isso? "Não, eu não preciso mais trabalhar fora e prá mais ninguém não. Eu já tô é pagando R$ 400; R$ 500 e até R$ 600 por dia para alguém me ajudar a cuidar

aqui da minha produção." Quer dizer que, além de não precisar mais trabalhar para os outros, você está dando até emprego para as pessoas? "Tô sim, e a Michelin me ajuda muito, eles estão sempre aqui me apoiando." Quer dizer que você agora é um empresário Caroba? Nosso entrevistado caiu na risada. E em relação ao financiamento do banco, você está em dia com eles? "Rapaiz ainda não chegou o ESPECIAL - PROJETO OURO VERDE – MICHELIN BRASIL


Colheita de cacau de Manoel Caroba

tempo não. Quando eu cheguei lá no BNB, em Valença, eles disseram que por enquanto eu não tô no débito não. Nas lojas da cidade eu tô no débito, mas com o banco tô não. Eu começo a pagar agora em agosto, R$ 1.200,00. É a parcela anual." *Observação: o Banco do Nordeste cobra juros de 1% ao ano e concede bônus de adimplência de 25% se o agricultor familiar pagar a dívida à vista. No caso de Manoel Benedito Caroba o banco concedeu um empréstimo de R$ 10 mil a ser pago em quatro anos, sendo duas as parcelas anuais. Segundo o gerente de comuniMICHELIN BRASIL - PROJETO OURO VERDE - ESPECIAL

Vista da propriedade de Manoel Caroba

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Produção da propriedade de Manoel Caróba

cação e pessoal da Michelin Bahia, Paulo Roberto Lima Bomfim, o SAF - Sistema Agroflorestal - define que uma propriedade - dentro do conceito de agricultura familiar - tenha entre quatro ou cinco hectares, sendo um hectare destinado à reserva legal. Ele destaca que o programa junto aos agricultores familiares teve início em 2005 e que os primeiros a ingressarem nele, como o produtor Manoel Benedito Caroba já estão começando a colher o látex das seringueiras plantadas há sete anos. "A seringueira começa a produzir depois desse tempo e o Caroba está começando a ter essa renda. Com a seringueira ele tem dinheiro no bolso a cada 15 dias", destaca. Com relação à postura da Michelin no contexto da comercialização, Paulo Bomfim aponta que a empresa assume o compromisso de comprar a borracha natural dos produtores que entram no SAF Sistema Agroflorestal -, mas os produtores não são obrigados a vender a borracha para a Michelin.

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"O agricultor produz e vende para quem ele quiser. Nós (Michelin) estamos dando o suporte necessário para que ele consiga produzir e bem e esperamos que eles, os agricultores familiares, formem uma cooperativa deles para que tenham o suporte necessário em termos de armazenagem, profissionalização de venda, no sentido de agregar valor a eles", disse. Apesar de o produtor poder vender para quem ele quiser o apoio dado pela Michelin acaba por fidelizar os agricultores familiares, aponta Paulo Bomfim, ao relatar que a Michelin paga pela borracha natural o preço que está no mercado, nada mais do que isso. "O caminhão da Michelin vem buscar a produção na porta da propriedade. Os produtores não têm custo nenhum com isso, não tem atraso, o pagamento é certinho", disse ele assegurando que não há nenhum contrato de gaveta que obrigue o agricultor a vender

seus produtos para a Michelin. Outro ponto lembrado por Paulo Bomfim diz respeito às mudas de seringueiras. "A Michelin cobra R$ 0,25 por muda. Esse custo já está embutido dentro do programa do SAF - Sistema Agroflorestal -, mas para todo o restante do trabalho que a empresa realiza não é cobrado absolutamente nada", destaca o gerente de comunicação e pessoal da Michelin Bahia. Nesse sentido, as mudas de cacau também entram nesse sistema, mas os agricultores nada pagam pela assistência que recebem. "Tanto na questão da seringueira como na questão do cacau, gostariamos muito que os agricultores familiares formassem suas cooperativas. Há muitas diferenças de preços. Por exemplo, o preço do cacau chega a mudar quatro vezes ao dia. Com uma cooperativa dando apoio para esse agricultor, a comercialização do produto lhe daria maiores ganhos, vantagens, ou no mínimo maior proteção e segurança", disse Paulo Bomfim.

Planta de cravo da índia – cultura local ESPECIAL - PROJETO OURO VERDE – MICHELIN BRASIL


Espírito Santo também quer os clones da Michelin Não é só o governo da Bahia que está traçando planos para a construção da heveicultura a partir dos clones de seringueiras desenvolvidos pela Michelin, mas o governo do Espírito Santo também já manifestou interesse em adotar esses clones e o modelo de SAF – Sistema Agroflorestal - gestado na Fazenda Ouro Verde e região. “Na verdade o programa desenvolvido no Espírito Santo está em um estágio mais avançado do que o programa da Bahia”, destaca o gerente de operações agrícolas da Michelin, Ricardo Cabral Júnior. “Tivemos aqui a visita de produtores de borracha natural daquele estado e, após esse contato eles buscaram a Secretaria de Agricultura do Espírito Santo visando à formação de uma parceira entre os dois governos estaduais.” No Espírito Santo, o programa de promoção da heveicultura local prevê a plantação de 70 mil hectares de seringueiras no espaço de 30 anos. “Os resultados alcançados pelos produtores capixabas estão sendo bastante promissores e as culturas estão se desenvolvendo bem. Além disso, também seguem o modelo do SAF – Sistema Agroflorestal –, mas com culturas diversas, que vão desde o café conilon ao mamão, mas também compreende o cacau e, principalmente, as seringueiras”, relata. Segundo o gerente de operações MICHELIN BRASIL - PROJETO OURO VERDE - ESPECIAL

agrícolas da Michelin, a experiência no Espírito Santo é uma demonstração clara de que o modelo criado em 2004 pela Michelin, em Igrapiúna e região, já está sendo exportado para outros estados brasileiros. Uma das maiores expectativas dos profissionais da Michelin Bahia é de que esse mesmo processo avance sobre o Vale do Paraíba, no interior do estado de São Paulo.

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Vista parcial da área de beneficiamento e laboratório

Beneficiando o sal da Terra E

m Igrapiúna, dentro da Fazenda Ouro Verde, se concentra uma das duas usinas de beneficiamento de borracha natural que a Michelin tem no Brasil. Trata-se da PMB (Plan-

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tações Michelin da Brasil) com capacidade para processar 14 mil toneladas por ano de borracha natural extraída com base no látex de seringueira, sendo em grande parte de plantas obti-

Vista áerea da usina de beneficiamento da Michelin

das a partir dos clones de hevea brasilienses desenvolvidos pela companhia. A outra usina de beneficiamento da Michelin fica na cidade de Sooretama, no Espírito Santo e ESPECIAL - PROJETO OURO VERDE – MICHELIN BRASIL


com a mesma capacidade de processamento da PMB Bahia. “Apesar de termos essa capacidade de processamento devemos fechar 2012 com 12,5 mil toneladas anuais processadas. Essa diferença se deve à falta de matéria-prima, de borracha natural em oferta no mercado brasileiro”, diz o chefe de setor da PMB, Jefferson Novaes dos Santos. Da área da Fazenda Ouro Verde pertecente à Michelin são beneficiadas cerca de 700 toneladas de borracha natural, sendo outras 2,5 toneladas oriundas da Cooperativa Ouro Verde Bahia – pertencente aos ex-funcionários da companhia francesa que compraram glebas da empresa dentro da fazenda -, sendo o restante comprado de outras regiões da Bahia e parte no Norte e Nordeste. Segundo Jefferson Novaes, 96% da borracha ali processada segue o que ele chama de ‘Grade Michelin’ e tem como objetivo o abastecimento das necessidades operacionais das três linhas de produtos da Michelin no Brasil: a de ônibus e caminhões, agrícola e OTR e pneus de passeio e caminhonetes. “Na verdade a borracha que sai da PMB segue para uma área da Michelin, no Rio de Janeiro, que realiza as misturas de compostos necessários para a construção dos pneus que a Michelin comercializa. É essa área que faz a aplicação ideal dos compostos, sendo que a PMB apenas processa a borracha natural in natura e envia os lotes beneficiados”, diz. Segundo o gerente de comunicação da Michelin na Bahia, Paulo Roberto Lima Bonfim, nos pneus de caminhão e ônibus da empresa são empregados 30% do peso na forma de borracha natural e entre 8% e 10% do peso total nos pneus de passeio. MICHELIN BRASIL - PROJETO OURO VERDE - ESPECIAL

Área de recebimento de borracha natural da PMB

Sede da usina construída em 1961. A Michelin manteve a construção original feita pela Firestone, antiga proprietária

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O dia a dia da PMB O jovem Jefferson Novaes dos Santos, profissional com nove anos de Michelin, relata para a Tudo Sobre Pneus que as diferentes origens das borrachas que chegam à PMB, oriundas de variedades diversas de seringueiras de todo o Brasil, interferem na qualidade do produto que está sendo beneficiado. “Nós precisamos, a todo o momento conhecer previamente essas características e para isso temos um laboratório que realiza análises para qualificação da matéria-prima”, relata ele ao destacar que para cada recepção de borracha que entra no processo de beneficiamento é retirada uma pequena quantidade para análise.

Jefferson Novaes dos Santos, chefe de setor da PMB

“Geralmente para remessas de até 15 toneladas coletamos 20 quilos e para cargas acima de 15 toneladas, coletamos 40 quilos para análises em nosso laborátório”, diz. A partir das análises, os técnicos do laboratório da empresa francesa realizam diversas simu-

lações de beneficiamento em condições reais com a borracha natural que entrará em processo de beneficiamento na usina. “Isso nos permite saber o blend, a blocagem, o tipo de mistura e a proporção de borracha que será submetida ao processo de beneficiamento. O papel do laboratório é nos dar, de forma antecipada, o produto final que teremos ao fim do processo”, relata. Segundo o chefe de setor da usina, tudo isso é de extrema importância dentro do ciclo de produção da fábrica na medida em que, a partir dos dados laboratoriais os trabalhadores da PMB saberão operar com os parâmetros necessários de todo o processo. Entre eles estão: o tempo de trabalho de máquina, a temperatura a ser usada, os ajustes desses maquinários – necessários para se obter o resultado ideal -, algo que está dentro da rotina dos 47 colaboradores da PMB.

Vista parcial do laboratório de análises da PMB

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ESPECIAL - PROJETO OURO VERDE – MICHELIN BRASIL


Desmanchando os blocos de borracha in natura Como fora mencionado pelo chefe de setor da PMB, a borracha in natura comprada pela usina vem com um conjunto muito grande de impurezas – folhas, insetos, terra – sendo necessário um processo inicial de lavagem e desmanche dos coágulos (as bolas de borracha in natura) vindos dos seringais. MICHELIN BRASIL - PROJETO OURO VERDE - ESPECIAL

Primeira lavagem dos coágulos de borracha in natura

Início do processo de lavagem dos coágulos

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Na primeira lavagem é feita a desaglomeração dos coágulos de borracha in natura em pequenos pedaços, o que permite sua limpeza e também sua homogeneização. Dado esse primeiro passo, a matéria-prima desaglomerada está liberada para iniciar toda a cadeia de beneficiamento – que envolve sua granulação total e posterior agregação para melhor ser transportada. Essa lavagem bem como a desagregação da borracha in natura é feita com base no Caderno de Especificações da Michelin. Uma das regras básicas ali inseridas é a de que a matéria-

prima venha isenta de materiais que não sejam látex, especialmente contaminantes, tais como plástico, metais, madeira e naylon, itens que podem afetar a qualidade final da borracha beneficiada.Com base nesse caderno de especificações é feita uma inspeção visual e ao mesmo tempo uma triagem daquilo que pode ser visto a olho nu. “O processo de beneficiamento é muito simples e consiste em lavar a borracha, triturar e secar”, diz em palavras simples o gerente geral da PMB, ao destacar que tudo isso é feito em condições controladas e em duas etapas. Uma linha úmida faz a

lavagem da borracha in natura e uma linha seca – onde a borracha permanece durante 4h00 a uma temperatura média de 125 graus Celsius. “Passou pela linha úmida, passou pela linha seca, quando chega ao final da linha de produção a borracha natural perdeu entre 40% e 45% de sua umidade”, diz o chefe de setor da PMB, Jefferson Novaes dos Santos. “Ou seja, para casa 1 quilo de coágulo, nós transformamos entre 450 gramas a 600 gramas de produto acabado – granulado de borracha com 3,0 milímetros.”

Desaglomeração dos coágulos de borracha in natura

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ESPECIAL - PROJETO OURO VERDE – MICHELIN BRASIL


Ap贸s lavagem, borracha granulada segue em esteira MICHELIN BRASIL - PROJETO OURO VERDE - ESPECIAL

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Teor de Borracha Seca, o DRC

Borracha granulada segue para processo de secagem

Borracha granulada está pronta para ir para o forno

Um dos itens analisados pelo laboratório da usina de beneficiamento de borracha da Michelin é o DRC ou em língua nativa, Teor de Borracha Seca, que mede a quantidade de água dos coágulos de borracha in natura. Quanto maior o DRC – 60%, 70%, 80%, 90% - menor é o índice de água nele reinante. “Isso significa que para uma indústria de beneficiamento de borracha natural estamos comprando muito mais produto acabado e sem impurezas”, destaca Jefferson Novaes. Segundo ele, o DRC da borracha beneficiada na PMB da Bahia gira ao redor de 55%. “Isso é muito importante porque define a forma como a matériaprima será negociada junto aos fornecedores. Nós podemos comprar o insumo pelo seu peso seco ou pelo seu peso de campo, o peso verde”, ensina Jeffer-

son, ao apontar para um conjunto agregado de coágulos no chão – de cor diferente dos demais. “Essa é uma borracha que vem do Maranhão e do Pará. Ela tem um DRC muito alto e também um PRI (Índice de Retenção à Plasticidade) mais elevado. Nós as usamos para fazer correções de blocagens ou tipos de borracha diferenciados para outros usos. Ou seja, esse é um produto que beneficiamos e a usina os vende não para a construção de pneus, mas para a confecção de produtos acabados de borracha”, diz o chefe de setor. Jefferson Novaes informa que 90% da borracha beneficiada na PMB hoje vêm do próprio estado da Bahia e outros 10% do Maranhão, mas o Estado do Espírito Santo já chegou a ser o segundo maior fornecedor do insumo para a usina.

Borracha após o processo de secagem

Os biscoitos de borracha seca são prensados

Borracha produzida no Maranhão – DRC maior

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Borracha seca sendo retirada das formas ESPECIAL - PROJETO OURO VERDE – MICHELIN BRASIL


Retirada dos biscoitos: movimentos repetitivos

Vagão de acionamento manual

Investimentos A Michelin já tem um projeto definido e investimentos necessários para a automatização de algumas etapas do processo de beneficiamento de borracha da PMB Bahia. “Com as novas máquinas vamos melhorar a produção e dinamizar conceitos de ergonomia”, diz o chefe de setor Jefferson Novaes dos Santos. Segundo ele, a usina está introduzindo uma nova metodologia de trabalho que visa medir o esforço dos colaboradores. “Há dois setores onde temos um índice G8 e G10, ou seja, um índice de gravidade 8 e de gravidade 10 e estamos realizando os MICHELIN BRASIL - PROJETO OURO VERDE - ESPECIAL

investimentos necessários para trazer esse índice para G6”, diz ele ao destacar o posto de enchimento e de retirada dos biscoitos de borracha beneficiada. Explicando: no processo de secagem do granulado de borracha, o funcionário do posto de enchimento tem de empurrar um vagão que tem em seu interior 500 quilos de borracha dispostas em fôrmas que darão o formato de um biscoito para o granulado de borracha. Esse vagão tem que ser empurrado ‘manualmente’ para o forno. Ou seja, vagão cheio - mais o peso do vagão em si – representa

um peso de mais ou menos 800 quilos e o funcionário do setor tem que empurrar esse vagão até o forno – coisa de alguns centímetros apenas, mas de qualquer forma há um esforço repetitivo ao qual a usina quer corrigir. O outro setor que passará por mudanças é quando o vagão sai do forno e dentro dele é preciso retirar, com as mãos, os biscoitos das formas que estão dentro do vagão. Cada biscoito pesa, em média, 17,5 quilos, o que acaba por gerar uma fadiga ao fim de um dia de trabalho. “Também já estamos corrigindo isso”, disse Jefferson Novaes.

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Rotatividade na PMB A Usina de Beneficiamento da Michelin na Bahia tem uma taxa de rotatividade de mão-de-obra baixíssima. Na média, os 47 colaboradores da unidade têm 12 anos de empresa por pessoa. “Temos profissionais aqui com 25 anos de casa”, relata o chefe de setor da PMB, Jefferson Novaes dos Santos, ao destacar o alto grau de especialização que essa longevidade no trabalho traz. “É uma equipe bem formada e a própria experiência já é uma credencial”, diz ele. Em relação aos novos colaboradores Jefferson faz questão de salientar que assim que iniciam os trabalhos na usina, os profissionais passam por um amplo treinamento em segurança, gestão da qualidade e gestão ambiental antes mesmo de assumirem seus postos de trabalho, sem contar que os que irão trabalhar na linha de produção são monitorados pelos operadores mais antigos e só passam

Linha final: borracha embalada dentro do armazém

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Vista do laboratório de análises da PMB Bahia

a executar suas funções ‘sozinhos’ quando recebem o aval de seus tutores. No laboratório da PMB, que fica em um prédio à parte do galpão de beneficiamento, trabalham 11 profissionais que entre outras coisas têm de trabalhar contra o relógio para analisar as amostras que lhes chegam em mãos. “Aqui a verificação e

a validação do material – o diagnóstico da viscosidade da borracha - tem de ser feita em 10 minutos”, destaca Jefferson. “Eu sempre digo para o pessoal do laboratório que aqui, um diagnóstico errado vai influenciar em todo o ciclo de secagem de borracha natural da fábrica”, diz ele, lembrando que a meta final é que toda a produção da usina esteja 96% dentro da Grade de Especificações da Michelin. Em relação à capacidade ociosa da usina – ela pode processar 14 mil toneladas de borracha por ano e deve beneficiar 12,5 mil toneladas em 2012 – o chefe de setor da PMB é bem claro: “se tivéssemos mais matéria-prima, a fábrica seria ainda mais otimizada, implicando até mesmo na abertura de novas vagas de emprego na região, nos obrigaria a contratar e trabalhar sete dias na semana. Hoje operamos 24 horas por dia, de segunda a sexta-feira, ou seja cinco dias por semana”, disse. ESPECIAL - PROJETO OURO VERDE – MICHELIN BRASIL


Beija-Flor - foto tirada do refeit贸rio que serve funcion谩rios e visitantes da Fazenda Ouro Verde


Canal que dá acesso à estrada que leva à Igrapiúna e região


Projeto Ouro Verde