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VITOR DE AZEVEDO LOPES VITOR GRAIZE MAGALHÃES BATISTA

SENSAÇÕES E APROPRIAÇÃO: ENSAIOS E REPORTAGENS SOBRE A CIDADE DE VITÓRIA NO ÍNICIO DO SÉCULO XXI

GRADUAÇÃO: COMUNICAÇÃO SOCIAL/JORNALISMO

Universidade Federal do Espírito Santo Vitória - 2006


VITOR DE AZEVEDO LOPES VITOR GRAIZE MAGALHÃES BATISTA

SENSAÇÕES E APROPRIAÇÃO: ENSAIOS E REPORTAGENS SOBRE A CIDADE DE VITÓRIA NO ÍNICIO DO SÉCULO XXI

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Departamento do Curso de Comunicação Social do Centro de Artes da Universidade Federal do Espírito Santo, como requisito parcial para a obtenção do título de Bacharel em Comunicação Social, habilitação Jornalismo. Orientador: Profª. Drª. Ruth de Cássia dos Reis

VITÓRIA 2006 2


VITOR DE AZEVEDO LOPES VITOR GRAIZE MAGALHÃES BATISTA

SENSAÇÕES E APROPRIAÇÃO: ENSAIOS E REPORTAGENS SOBRE A CIDADE DE VITÓRIA NO ÍNICIO DO SÉCULO XXI

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Departamento do Curso de Comunicação Social do Centro de Artes da Universidade Federal do Espírito Santo, como requisito parcial para a obtenção do título de Bacharel em Comunicação Social, habilitação Jornalismo.

Aprovado em 21 de dezembro de 2006

COMISSÃO EXAMINADORA

_______________________________________ Profª Ruth de Cássia dos Reis Orientadora

_______________________________________ Profº Fábio Malini

_______________________________________ Profª Tânia Mara Corrêa Ferreira 3


Autorizo, exclusivamente para fins acadêmicos e científicos, a reprodução total ou parcial desta dissertação por processos fotocopiadores ou eletrônicos.

Assinatura

Local

Data

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Agradecimentos

Vitor Lopes Agradeço à minha mãe Regina Grillo por me fazer viver com um sorriso na cara; aos meus irmãos, pelos conselhos de vida; à tia Vera Grillo, por ser meu porto seguro nesses anos de Vitória; ao Vitor Graize, por ter me acolhido em sua amizade; aos parentes; aos amigos Rodrigo de Oliveira, Rodrigo Melo e Alexandre Galvêas, pelos detalhes da vida; aos amigos que fiz nesta cidade, Alba Lívia, Alexandre Curtiss, Eduardo Valente, Erly Viera Jr., Fabricia Borges, Felicia Borges, Gabriel Menotti, Henrique Alves, Heraldo Ferreira, Igor Pontini, Júlia Terayama, Marijana Mijoc, Nair Rúbia Baptista e William Sossai; à Rafaela Scardino, pela convivência; à Andrea Ortigara, pelo ano novo em pleno mês de agosto; e, novamente, a todos que me fizeram sorrir nessas ‘horinhas de descuido’.

Vitor Graize Agradeço aos meus pais, que compreenderam as minhas razões. À minha irmã e à minha avó Celina. À família Graize Magalhães e à família Batista. Ao Vítor Lopes, pela convivência tolerante desde o dia da matrícula. Aos amigos Rodrigo de Oliveira, Rodrigo Melo, Alexandre Galvêas e José Azevedo pelas manhãs, tardes e noites de cinema, música, literatura, cerveja, fotografia, política e devaneios. À turma de Setiba: Júlia Terayama, Nair Rúbia, Cida Alves, Luciano Frizzera, Sâmia Pedraça, Gabriel Menotti, Fernanda Neves, Henrique Alves e Fernando Graf. A todos os colegas do Grav, do Cine Falcatrua, do Cacos e da turma 2002/01 pelo aprendizado. Aos contemporâneos da Ufes.

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Na minha rua estão cortando árvores botando trilhos construindo casas. Minha rua acordou mudada. Os vizinhos não se conformam. Eles não sabem que a vida tem dessas exigências brutas. Só minha filha goza o espetáculo e se diverte com os andaimes, a luz da solda autógena e o cimento escorrendo nas fôrmas. Carlos Drummond de Andrade, A Rua Diferente 6


A cidade agora Do outro lado tem Alguém que vive sem saber Que eu vivo aqui também Se esse alguém soubesse Que eu estou morando Desse lado da cidade Estou lhe procurando Do outro lado da cidade Eu sei que a felicidade está Ainda vou saber exatamente Onde ela vive e vou pra lá Desse lado da cidade não tem sol E tudo é muito triste Porque a alegria que havia Em minha rua não existe Eu vou mudar pro outro lado da cidade Pra melhor lhe procurar E só vou parar de andar pela cidade Quando lhe encontrar, lhe encontrar A cidade agora Do outro lado tem Alguém que vive sem saber Que eu vivo aqui também Helena dos Santos, Do outro lado da cidade 7


Resumo

Este trabalho apresenta e analisa as formas de jornalismo praticadas no início do século XXI, contrapondo à estrutura padrão do texto jornalístico as inovações orquestradas pelo Novo jornalismo, que se apresenta como um meio eficiente para a melhor compreensão das tramas sociais urbanas. Além disso, disserta sobre as similaridades entre o texto do Novo Jornalismo e a narrativa literária e, por fim, oferece quatro reportagens que adotam o estilo do Novo Jornalismo e funcionam como exercício de exposição das peculiaridades da cidade de Vitória, recorte temático do trabalho.

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SUMÁRIO

1 - Introdução .............................................................................................................. 10 2 - Sobre a relação entre os indivíduos, o jornalismo e a cidade ............................ 12 3 - Sobre o jornalismo, os jornalistas, a pirâmide invertida e o lead ..................... 16 4 - Sobre o Novo Jornalismo ...................................................................................... 21 4.1 - O nascimento da expressão Novo Jornalismo ...................................... 28 4.2 - O status de literatura e a técnica ........................................................... 29 4.3 - O domínio do objeto ............................................................................... 32 5 - Sobre a relação entre a narrativa literária e o texto jornalístico ...................... 35 6 - O Novo Jornalismo no Brasil ............................................................................... 39 7 - O Jornalismo Gonzo .............................................................................................. 42 8 - Reportagens ........................................................................................................... 45 8.1 - Jean-Pierre libera meia-entrada ............................................................ 45 8.2 - Rebelde (sXIII) 'id.', do lat. Rebellis ....................................................... 54 8.3 - O cidadão ucraniano e a crise aérea brasileira .................................... 64 8.4 - No porto .................................................................................................... 69 9 - Memorial descritivo ............................................................................................... 74 9.1 - No escuro, o silêncio entre sons .............................................................. 74 9.2 - Sobre o ser e o estar ................................................................................. 78 10 - Conclusão ............................................................................................................. 82 Referências Bibliográficas ......................................................................................... 83

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1 - INTRODUÇÃO

Existe alternativa para o jornalismo praticado em diversas partes do globo, como no Brasil e nos Estados Unidos, por exemplo, que se utiliza basicamente das informações contidas dentro da pirâmide invertida por meio do lead? Como conseguir que as notícias publicadas em periódicos (jornais, revistas, sites da Internet...) não fiquem restritas ao factual e ao imediatismo das redações que cada vez mais disputam entre si o furo jornalístico do dia?

No início deste século, observa-se nitidamente que caminho quer percorrer a grande parte dos jornais e revistas, todos encarregados da cobertura diária ou semanal dos fatos noticiosos. Este caminho é o da instantaneidade da apuração do acontecido para que a notícia chegue o mais rápido possível ao público leitor.

Seria esse jornalismo factual capaz de dar vazão à quantidade borbulhante de informações, sentidos, percepções e conexões dos mais diversos tipos que emergem instantaneamente de dentro de cada personagem de uma matéria apurada pelo jornalista quando este saiu em busca de uma notícia? Certamente, ao se observar um cada vez maior enxugamento do quadro de profissionais de jornalismo nas redações, bem como a disputa de espaço na publicação que ocorre entre o anúncio publicitário e texto jornalístico, somos levados a acreditar que não. Como muitos teóricos acreditam, o jornalismo como é praticado hoje por uma maioria de profissionais contribui para um empobrecimento da complexidade escondida por trás de um fato noticioso.

O jornalismo de lead, com sua suposta objetividade, deixa escapar do seu cerco toda uma ampla rede social, cultural e psicológica em que estão inseridos os personagens da notícia (fontes, entrevistados, etc.), seus objetos e também o jornalista encarregado por retransmitir a informação a leitores alheios ao fato.

Utilizado como estilo de construção de reportagens principalmente a partir da década de 1960, o Novo Jornalismo foi e é usado como um peculiar modo de se contar uma história de interesse jornalístico, especialmente por fazer uso em sua escrita de técnicas da narrativa literária. Os norte-americanos Tom Wolfe, Gay Talese, Truman Capote, Lillian Ross, Joseph Mitchell, e os brasileiros Joel Silveira e Caco Barcellos, por exemplo, são alguns dos principais nomes que se dedicaram a praticar esse jornalismo baseado, sobretudo, na 10


observação e no envolvimento do repórter com o personagem e o objeto a serem apresentados ao leitor.

Questionado principalmente pelo caráter muitas vezes subjetivo do jornalista em relação ao conteúdo pesquisado – e as claras conseqüências disso em relação ao retratado –, o Novo Jornalismo mergulha o máximo que pode dentro dos personagens, tentando extrair deles – bem como do meio físico, social e psicológico em que estão inseridos – o máximo de detalhes e significações possíveis para que o leitor também possa se sentir cúmplice da notícia, não adotando apenas uma posição passiva durante a leitura.

Este trabalho aborda questões referentes ao jornalismo praticado neste início de século XXI, levantando questionamentos em relação ao emprego do lead e da pirâmide invertida nos periódicos atuais, bem como o modo de utilização destes elementos por parte dos jornalistas, editores e donos de empresas jornalísticas. Além disso, também serão apresentados a história do surgimento do Novo Jornalismo nos Estados Unidos, suas técnicas, principais adeptos, reportagens significativas, bem como a relação deste estilo de texto com as técnicas literárias de narrativa, o jornalismo literário praticado no Brasil, e também uma de suas variantes, o Jornalismo Gonzo.

Sem querer ser saudosista ou defensor incansável desse estilo de narrativa, como forma de ilustrar as possibilidades de construção de uma reportagem utilizando as características do Novo Jornalismo, também são apresentadas quatro reportagens: Jean-Pierre libera meiaentrada, sobre o submundo de um cinema pornô; Rebelde (sXIII) 'id.', do lat. Rebellis, a respeito da euforia em torno de um show musical; O cidadão ucraniano e a crise aérea brasileira que conta os dias de agonia vividos por um estrangeiro em Vitória; e No porto, sobre os trabalhadores da Plataforma P-34. Os textos, em suas especificidades, abordam aspectos significativos da cidade de Vitória nos primeiros anos do século XXI.

A opção de utilizar como recorte temático reportagens sobre a Capital do Espírito Santo justifica-se como forma consciente de olhar jornalisticamente a cidade por uma ótica mais aprofundada, dissecando personagens, seus atos, os ambientes em que estão imersos e todas as possibilidades de abordagem e interação entre si. A clara consciência da escolha pelo Novo Jornalismo dá-se pelo fato de que este lado mais humano de apresentação de uma notícia é pouco utilizado pelos jornais da região. 11


2 - Sobre a relação entre os indivíduos, o jornalismo e a cidade

Com a visível alteração, na contemporaneidade, das características daquilo que podemos chamar, segundo Walter Benjamin, de experiência, o jornalismo adquire o papel fundamental de fornecedor dos acontecimentos que não podem ser alcançados em seu molde clássico, daí a crescente relevância e a imprescindível responsabilidade dos meios de informação nos dias atuais.

De acordo com Konder (apud Benjamin, 1994, pág. 146), podemos compreender a experiência como o conhecimento apreendido e acumulado pelo sujeito reunido em uma coletividade; conhecimento que tem desdobramentos e é sedimentado ao longo do tempo. Esta experiência real é adquirida, por exemplo, quando se presencia um acontecimento marcante do cotidiano da comunidade da qual fazemos parte. Logo, a experiência depende do estilo de vida de cada cidadão e é proporcional à sua inserção e participação nos fatos da cidade. Ainda segundo Konder, à experiência se opõe a noção de vivência, entendida como concernente ao indivíduo privado isolado, dotada de impressões fortes que são assimiladas às pressas e têm efeitos imediatos, mas que se dissipam em pouco tempo.

Com efeito, a possibilidade de adquirirmos certa dose de experiências reais nas metrópoles é limitada. Os habitantes da sociedade urbana ocidental se caracterizam, dentre outros fatores, pelo uso de meios de transporte cada vez mais velozes que separam o indivíduo do ambiente da cidade; pelo isolamento em habitações erguidas como cápsulas protetoras, onde pretendem preservar a individualidade que consideram inalcançáveis no refúgio igualitário que são as ruas (Benjamin, 1994, pág. 43 e 44); e ainda pelo costume de adquirir conhecimento e informação através de tecnologias cada vez mais avançadas que fazem a mediação entre o fato ocorrido e a consciência, adventos que se consolidaram ao longo do século XX e ganharam vertiginosa ascensão no início do século XXI.

É dessa forma que o jornalismo participa do cotidiano dos indivíduos: servindo como mediador da experiência real e oferecendo-lhes a vivência, e decorre desse ponto sua importância na contemporaneidade. A informação tornou-se fundamental e aos jornalistas cabe a difícil tarefa de tentar reproduzir artificialmente a experiência, pois cada vez temos menos esperança de realizá-la. Esta função também é atribuída, por alguns, às artes, a literatura dentre elas, mas cremos serem dotadas de características e objetivos outros que as 12


distinguem do jornalismo. As artes não têm a função primordial da informação, embora possam trazê-la consigo enquanto opção estética ou ética.

Para Benjamin, os jornais são um indício da redução das chances de os fatos se integrarem à nossa experiência.

[...] Se fosse intenção da imprensa fazer com que o leitor incorporasse à própria experiência as informações que lhe fornece, não alcançaria seu objetivo. Seu propósito, no entanto, é o oposto e ela o atinge. Consiste em isolar os acontecimentos do âmbito onde pudessem afetar a experiência do leitor. (BENJAMIN, 1994, p. 106)

Essa concepção benjaminiana da função social da imprensa desconfia que a informação e a experiência podem ser resultados complementares da atividade jornalística, no que se refere à recepção da notícia pelo leitor. Benjamin elege algumas características do texto jornalístico e a elas atribui parte da culpa por este afastamento entre a informação e a experiência.

[...] Os princípios da informação jornalística (novidade, concisão, inteligibilidade e, sobretudo, falta de conexão entre uma notícia e outra) contribuem para esse resultado, do mesmo modo que a paginação e o estilo lingüístico. (BENJAMIN, 1994, p. 107)

É interessante notar que, neste trecho, Benjamin antecipa críticas ao texto jornalístico e ao critério de notícia as quais, alguns anos depois, voltariam a soar nas redações, desta vez pelo inconformismo de jornalistas que seriam os responsáveis pelo desenvolvimento do Novo Jornalismo. A forma como as notícias são construídas (no padrão da pirâmide invertida e do lead) resulta unicamente em uma experiência do choque, em que a notícia obtém um efeito imediato, mas sem durabilidade. É contra esta fragilidade da notícia que se levantaram as vozes do Novo Jornalismo, idéia que questiona, principalmente, o texto conciso, requerendo mais espaço para as matérias, e o acordo de que só é notícia o fato novo, urgente e do qual ainda não se pôde medir as conseqüências. O Novo Jornalismo acredita que os repórteres devem se empenhar para que os fatos narrados ganhem consistência na memória dos leitores, ocupando mais espaço do que aquele reservado a meras lembranças.

Outro fator determinante na construção do conceito de Novo Jornalismo é o olhar dedicado aos personagens que, costumeiramente, estavam fora do alcance dos repórteres e sem nenhum prestígio nas páginas dos periódicos1. A revelação de personagens inusitados, portadores de 1

É preciso relativizar a presença do cidadão nas páginas dos jornais. As páginas policiais, por exemplo, sempre contaram com depoimentos de testemunhas de crimes ou com o relato dos próprios envolvidos. Mas aqui nos

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histórias envolventes e reveladoras, só é possível aos jornalistas que, de fato, estejam inseridos na tessitura da cidade. O que afirmou Baudelaire a respeito dos poetas de seu tempo pode ser adaptado e transposto para os jornalistas de hoje, interessados apenas nos fatos e nos discursos oficiais, nas palavras da personalidade política ou econômica, na celebridade do último minuto; os jornais abandonaram o homem comum e as histórias de ilustres desconhecidos. [...] A maioria dos poetas que se ocuparam de temas realmente modernos contentaram-se com temas conhecidos e oficias – esses poetas ocuparam-se de nossas vitórias e de nosso heroísmo político (...). E, no entanto, há temas da vida privada bem mais heróicos. O espetáculo da vida mundana e das milhares de existências desregradas que habitam os subterrâneos de uma cidade grande (...) provam que precisamos apenas abrir os olhos para reconhecer nosso heroísmo. (apud BENJAMIN, p. 77-78)

A crença de Benjamin na experiência real o leva a questionar de modo incisivo a validade da enorme quantidade de notícias a que os leitores têm acesso. Apenas a capacidade de estar em todos os lugares a que as notícias se referem poderia contribuir para o aproveitamento de tantas informações; sem poder ocupar mais de um lugar no espaço simultaneamente, o leitor, para Benjamin, recepta informações inócuas. A imprensa gera uma torrente de informações, cujo efeito estimulante é tanto mais forte quanto mais desprovidas estejam de qualquer aproveitamento. (Apenas a ubiqüidade do leitor tornaria possível aproveitá-las; e assim se produz também a sua ilusão.) (BENJAMIN, 1994, pág. 225)

Em 1940, ano da morte de Benjamin, o gráfico imaginário da experiência ainda não mostrava a curva decrescente que podemos visualizar. Agora, os meios de comunicação de massa, suportados pelas novas tecnologias da informação, encarregam-se de oferecer as mais diversas oportunidades aos usuários. Esta alteração ampliou a teia de relações entre o leitor/espectador/usuário e o mundo, favorecendo a informação sobre os fatos mais diversos (vivências), enquanto não se preocupava em aumentar, até níveis que pudessem se equiparar à realidade, o grau de imersão do leitor/espectador/usuário nos acontecimentos (experiências). [...] Os dispositivos, com que as câmeras e as aparelhagens análogas posteriores foram equipadas, ampliaram o alcance da mémoire volontaire; por meio dessa aparelhagem, eles possibilitam fixar um acontecimento a qualquer momento, em som e imagem, e se transformam assim em uma importante conquista para a sociedade, na qual o exercício se atrofia.” (BENJAMIN, 1994, pág. 137)

referimos, principalmente, aos primeiros cadernos, que retratam o cotidiano da cidade. Neles, a preocupação em estampar a foto e a história de personagens comuns voltou à tona nos últimos anos como proposta editorial, com o intuito de promover maior identificação entre os leitores e as histórias.

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Estes equipamentos mantêm sua importância porque oferecem possibilidades intermináveis aos emissores para que ofereçam ao leitor/espectador/usuário, agregadas à informação, experiências.

As cidades, conseqüentemente, à medida que cresceram, sofreram reflexos desta nova configuração dos costumes de seus habitantes. Os espaços antigos foram substituídos por ambientes modernos, suas funções foram transferidas, e as avenidas para trânsito rápido são prioridade diante das calçadas e dos espaços de convivência. Benjamin, falando da reforma que transformou Paris no final do século XIX, lamentou a fragilidade da cidade: “[...] como cresceram, [...] com as grandes cidades, os meios de arrasá-las!”, e, comentando a vida e a obra do poeta Charles Baudelaire, identificou o isolamento do indivíduo e a separação entre as classes sociais no tecido urbano: “o conforto isola”.

[...] O habitante dos grandes centros urbanos – escreve Valéry – incorre novamente no estado de selvageria, isto é, de isolamento. A sensação de dependência em relação aos outros, outrora permanentemente estimulada pela necessidade, embota-se pouco a pouco no curso sem atritos do mecanismo social (VALÉRY apud BENJAMIN, 1994, pág. 124)

O jornalismo pode desempenhar um importante papel no sentido de oferecer aos cidadãos as experiências que eles deixaram de obter nas ruas. Essa é a preocupação do Novo Jornalismo. Para cumprir a função de fornecer mais do que informação destituída de sensações e possibilitar aos leitores/espectadores/usuários que se apropriem do fato narrado, novos modos de pensar e trabalhar o texto jornalístico irão questionar a estrutura padrão da notícia e propor renovações.

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3 - Sobre o jornalismo, os jornalistas, a pirâmide invertida e o lead O jornalismo baseado na moderna pirâmide invertida2, e que se consagrou como o método mais aceitável de recorte da realidade e elaboração de um discurso informativo, está em descompasso com o entendimento de uma complexa rede social que paira sobre as cidades e as relações humanas na contemporaneidade.

Em janeiro de 2005, durante o Congresso Sobre Novos Meios de Comunicação realizado em Santiago de Compostela, na Espanha, a problemática em torno do uso da pirâmide invertida veio à tona quando a professora Maria Cantalapiedra, do curso de Ciências Sociais e Comunicação da Universidad del País Vasco3, proferiu um inflamado discurso defendendo sua utilização. De acordo com o site Observatório da Imprensa, Cantalapiedra (apud. CASTILHO, 2005) “fez uma apaixonada apologia do seu uso como fórmula obrigatória para qualquer texto jornalístico”. É curioso pensar que, apesar das inovações tecnológicas e do surgimento de novos suportes para veiculação de informações, suportes estes com características e possibilidades diferentes do já consagrado meio impresso, ainda se considere a adoção cega dos elementos forjados para o jornalismo desde o século XIX sem sequer aventar um debate sobre a eficácia destes artifícios. De fato, a pirâmide invertida e o lead não podem ser encarados como única solução viável para o discurso jornalístico.

De acordo com o livro O Segredo da Pirâmide – para uma teoria marxista do jornalismo, uma das primeiras matérias a adotar a técnica da pirâmide invertida teria sido publicada no jornal The New York Times em abril de 1861. A prática voltaria a ser seguida amplamente a partir da segunda metade do século XX, pós-Segunda Guerra Mundial, por conta, principalmente, do surgimento das agências de notícias norte-americanas que espalhavam reportagens e matérias por aquele país4. Observou-se então o declínio da prática conhecida como nariz-de-cera, em que a abertura de um texto noticioso não abrange, necessariamente, as informações mais relevantes sobre o tema. Alguns aceitam a tese de que a “pirâmide invertida” surgiu por uma deficiência técnica, um acaso que contemplou, ao mesmo tempo, o comodismo dos leitores e o interesse dos jornais

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Técnica de hierarquização das informações de uma reportagem segundo a qual os elementos relacionados ao fato são dispostos de forma decrescente de acordo com o grau de importância. 3 Endereço da Universidad del País Vasco na Internet: <http://www.ehu.es/ > 4 No Brasil, a pirâmide invertida e o lead fizeram sucesso através do esforço do jornalista Pompeu de Sousa.

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em suprimir os parágrafos finais quando chegava um anúncio de última hora. (GENRO FILHO, 1987, p. 190)

Os defeitos técnicos aos quais se refere o autor eram as falhas e interrupções constantes nas transmissões por linhas telegráficas. Por conta disso, os repórteres enviados a lugares distantes eram orientados a contar ao editor localizado na redação primeiro o conteúdo principal do fato. Caso a ligação fosse interrompida, o editor julgava já ter em mãos o essencial da notícia, que podia ser condensado num lead.

O lead contribuiu para a consolidação da pirâmide invertida como forma ideal do texto jornalístico. Isto porque a definição do primeiro parágrafo da matéria como espaço-guia, que deveria conter, obrigatoriamente, as informações principais, contribuiu para que as revelações subseqüentes fossem consideradas meros acessórios daquilo que realmente importa: o que, quem, quando, onde, como e por que. Lead e pirâmide invertida são elementos indissociáveis quando se analisa o estilo predominante no texto jornalístico do século XX.

A tese da “pirâmide invertida” quer ilustrar que a notícia caminha do “mais importante” para o “menos importante”. Há algo de verdadeiro nisso. Do ponto de vista meramente descritivo, o lead, enquanto apreensão sintética da singularidade ou núcleo singular da informação encarna realmente o momento jornalístico mais importante. (GENRO FILHO, 1987, p. 191)

O argumento de que as informações mais importantes sobre um fato devem estar na abertura da matéria, condensados no lead, encontra-se hoje naturalizado nas redações. Mas ele pode não ser apresentado no primeiro parágrafo: as informações fundamentais do texto noticioso podem estar diluídas ao longo do texto ou mesmo oferecidas ao leitor nas últimas linhas. A concepção em voga defende a compressão das informações em nome do leitor e em virtude da falta de papel: o mundo que será oferecido nas páginas do jornal e da revista deve ser editado para que demande o menor tempo possível de leitura e ocupe o menor espaço. Carência de espaço que o jornalista Honoré de Balzac identificou ainda no século XIX, quando os artigos disputavam com os anúncios, com as matérias oficiais do poder público e com os folhetins, um lugar na forma. Você adormece com a convicção que o seu artigo passará; mas as Câmaras quiseram mais duas colunas, e o seu artigo, já apertado na forma, retornou ao seu lugar sobre o mármore para um outro dia que não virá jamais. Os Anúncios tomando a quarta página do jornal, e o folhetim um quarto do que resta, os jornais não têm mais espaço. (BALZAC, 1999, p. 43)

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O texto jornalístico apresenta-se como organizador de uma singularidade presente num contexto amplo que é o acontecimento prestes a se transformar em notícia. Ele reduz a complexidade natural dos fatos para abranger somente o particular, tornando-se uma reprodução sintética da experiência individual do jornalista no seu trabalho de campo. O lead contribui para uma síntese ainda maior, reduzindo a realidade a apontamentos objetivos. A abordagem do fato sob o ângulo reducionista do lead contribuiu para a contenção da criatividade do jornalista e para a pasteurização do texto e a hierarquização das informações na pirâmide invertida serviu para abastecer a menor unidade de informação jornalística: a noticia diária. Segundo Genro Filho, “a ‘pirâmide invertida’ corresponde a uma descrição formal, empírica, que nem sempre corresponde à realidade, exatamente porque não capta a essência da questão”. (GENRO FILHO, 1987, p. 196)

Sobre o jornalismo ser incapaz de transmitir o acontecimento em todo seu alcance e influência, Balzac dizia que os jornais, com sua frieza, eram incapazes de relatar a paixão que perturbava os deputados nas sessões da Câmara (BALZAC, 1999, p. 47). O autor admitia a falta de imaginação dos jornais quando reportavam este tipo de notícia e fazia um aceno aos novos mecanismos de narração que seriam experimentados um século mais tarde nas páginas da revista New Yorker. [...] Assistir a uma sessão é ter ouvido uma sinfonia. Ler as sessões em todos os jornais, é ouvir separadamente a parte de cada instrumento; você pode reunir os jornais, você nunca terá o conjunto: o regente, a paixão, a confusão do combate, as atitudes, falta tudo aí, e a imaginação nela não se substitui. O jornal que desejasse ser verdadeiro neste ponto teria um imenso sucesso. (Balzac, 1999, p. 47-48)

Incumbido de acompanhar o imediatismo dos fatos transmitidos pela televisão, pelo rádio, e disponíveis na internet, o jornalismo impresso do início do século XXI não se preocupa em transmitir a paixão, restringindo-se à superficialidade do combate e caminha para uma agilidade cada vez maior na apuração e na publicação da notícia. O jornalista Joaquim Ferreira dos Santos relata a prática do jornalismo diário no posfácio de Radical Chique. [...] O jornalismo declaratório é o grande vencedor do momento, e a ele enviamos daqui as batatas e também suas queridas aspas recolhidas por telefone. Os repórteres estão presos na redação, apurando por e-mail o que a autoridade tem a declarar. Quando saem à rua, não se concentram em nada com exclusividade, porque é preciso apurar várias histórias por dia. As matérias ficaram curtas, ao estilo USA Today. As redações, menores (SANTOS, 2005, p. 243).

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Este jornalismo praticado à distância, em que as informações são apuradas por telefone e o espaço para reportar o fato é reduzido, acarretou uma perda significativa da qualidade do texto jornalístico no que se refere ao aprofundamento e à transmissão de pormenores significativos, que ajudariam a compor sobre o fato um quadro rico de detalhes. Esta tendência que agora se confirma, de apuração ágil e textos escritos às pressas, foi identificada pelo jornalista norteamericano Tom Wolfe já nas décadas de 50 e 60 do século XX, quando colheu suas primeiras impressões sobre o jornalismo e a rotina das redações dos grandes jornais. Todo mundo conhece uma forma de competição entre repórteres de jornal, a competição pelo furo jornalístico. Repórteres de furos competiam com suas contrapartidas em outros jornais, ou nas agências de notícias, para ver quem conseguia primeiro uma matéria e escrevia mais depressa. (WOLFE, 2005, p. 13)

A pressa dos editores e como isso se refletia na eficiência dos jornalistas e nos atributos da matéria também foram características analisadas pelo jornalista norte-americano Joseph Mitchell, repórter durante mais de meio século da revista New Yorker. No parágrafo abaixo, ele comenta a sua relação com o editor Harold Ross.5 Quando comecei a carreira de repórter, o modo convencional de tratar determinado assunto era escrever um lead e, a partir dele, fornecer os detalhes da história. Durante muito tempo essa idéia dominou as concepções de Harold Ross. Ele queria tudo no lead, exatamente como nos jornais. Era comum ele devolver meu texto com uma lista de perguntas a respeito de informações que julgava estarem faltando no início da história, e minha reposta era esta: ‘O que o senhor quer que eu faça? Que conte tudo no primeiro parágrafo?’. Com o tempo ele começou a perceber que a surpresa e o desenrolar [da narrativa] eram parte da graça. (MITCHELL, 2003, p. 149)

Este desejo de ser lido, de levar o leitor para um passeio pelo texto, onde ele tomaria conhecimento de uma realidade que não poderia tocar com as mãos, preocupação característica da literatura, motivou jornalistas norte-americanos a experimentarem modos mais completos e pessoais de escrever uma reportagem. Redigir um texto jornalístico passou a significar o mesmo que contar uma história. Alguns jornalistas se preocuparam em transmitir ao leitor o máximo de sua experiência na apuração dos fatos, ampliando a abrangência do texto para além das perguntas básicas e ainda dissolvendo o lead no desenrolar da matéria.

Concomitantemente à procura por um texto inovador, ganhou corpo o questionamento do critério de notícia: o que faria este fato digno de ocupar a página do jornal enquanto aquele 5

O jornalista norte-americano Harold Ross nasceu em 1892 e morreu em 1951. Fundou em 1925 a revista New Yorker e foi seu editor até 1951.

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seria relegado ao esquecimento? No clássico Os Jornalistas, Balzac identificava nos periódicos parisienses da primeira metade do século XIX o que ainda hoje podemos perceber: “As Notícias Breves são as mesmas em todos os jornais” (BALZAC, 1999, p. 41). Rebelar-se contra a repetição cansativa dos fatos noticiados e a pasteurização da forma, buscando um novo modo de fazer o jornalismo é desde 1925 o objetivo da revista New Yorker. É preciso mostrar a Balzac que não há apenas um único e mesmo jornal (BALZAC, 1999, p. 41).

Em 1952, a jornalista Lillian Ross, com apenas 25 anos, escreveu seu nome na história do jornalismo ao lançar as bases do que viria a ser conhecido posteriormente como New Journalism, Novo Jornalismo ou Jornalismo Literário. A reportagem intitulada Filme6, publicada na revista New Yorker como uma série dividida em cinco partes, acompanha todo o processo de produção, gravação, pós-produção e lançamento do filme A Glória de um Covarde (1951), de John Huston. Em seu extenso texto, a jornalista apresenta detalhes pouco comuns na época, como transcrição de diálogos secundários, entrevistas com os mais diversos personagens da ação social, extrema riqueza de detalhes e construção do texto sob técnicas próprias do romance literário, fazendo a narrativa parecer “(...) ela própria um filme.” (CAPOTE, 2006, p. 12)

Reinhardt deu alguns passos à frente, meneando a cabeça paternalmente para todos. “Está havendo problema, John”, disse com uma amabilidade forçada. Passou o charuto para o canto da boca para poder falar. “A produção pensava que o rio para o filme fosse um regato. no “script” está: ‘O regimento cruza um regato’. Agora querem saber o que você quer dizer quando fala em centenas de homens para atravessar o Rio Sacramento?”. - Ho-Ho-Ho! – Exclamou Huston, cruzando as pernas sobre sua mesa de trabalho. Murphy tornou a sentar-se. Band passou em frente à mesa de Huston. (ROSS, 1977, p. 135)

A heterogeneidade social, cultural e econômica e a complexidade das relações humanas passariam, a partir de então, a ser abordadas por alguns jornalistas deste modo novo, sem se preocuparem com a agilidade das redações e com a instantaneidade dos periódicos.

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As reportagens foram publicadas no Brasil em forma de livro que teve duas edições nacionais com distintos nomes: Cinema e outras reportagens e Filme, em 2006 pela Cia. das Letras.

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4 - Sobre o Novo Jornalismo

Escalado para relatar suas impressões a respeito do tipo de jornalismo que o consagrara mundialmente e que ficou conhecido como Novo Jornalismo, o norte-americano Tom Wolfe abordou o cotidiano das redações dos jornais norte-americanos das décadas de 50 e 60. Wolfe identificou duas categorias: a dos repórteres que brigavam diariamente pelos furos jornalísticos, colocando o jornal na disputa pela cobertura mais eficiente dos fatos da cidade; e a dos conhecidos como escritores de reportagens especiais.

As reportagens especiais escapavam da tônica do jornalismo diário porque abordavam acontecimentos aos quais tradicionalmente não era dada muita importância. Figuras anônimas com uma boa história, fatos curiosos do cotidiano e personagens com comportamentos inusitados eram relegados aos espaços menos importantes do jornal. Estas reportagens permitiam uma apuração mais detalhada, enquanto os furos exigiam apurações velozes e a publicação imediata da notícia, fosse ela de política, economia, segurança, problemas urbanos ou cultura. [A reportagem especial] Abrangia tudo, desde pequenos fatos "divertidos", engraçados, geralmente do movimento policial... Tinha aquela do sujeito de fora da cidade que se registrou num hotel em San Francisco a noite passada, querendo se suicidar, e se atirou da janela do quinto andar despencou três metros e torceu o tornozelo. O que ele não sabia era que o hotel ficava numa encosta íngreme!... até ‘histórias de interesse humano’: relatos longos e quase sempre hediondamente sentimentais sobre almas até então desconhecidas colhidas pela tragédia ou sobre hobbies estranhos dentro da área de circulação da folha. (WOLFE, 2005, p. 13)

O repórter encarregado de uma matéria especial, desligado da urgência dos fatos do dia-a-dia, mas sensível aos movimentos da cidade, tinha tempo para observar e ouvir as pessoas e depois escrever seu texto. A lentidão e o cuidado com a escrita eram características desse grupo de jornalistas que, normalmente, assinavam poucas matérias por semana.

Wolfe conta que, pelos assuntos abordados e pelo modo de escrita pouco comum, eram raros os escritores de reportagens especiais que permaneciam muito tempo exercendo a profissão de jornalista. A partir de certo momento, eles se dedicavam à literatura, em especial ao romance, cada vez mais prestigiado pela literatura norte-americana, principalmente devido às

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boas vendagens de escritores como Hemingway7 e Fitzgerald8. Segundo Wolfe, era comum na cidade de Nova Iorque grupos de jovens se reunirem em clubes, como o White Horse Tavern, para discutirem romances e seus autores. Entre os jovens, havia os que vislumbravam a possibilidade de publicar seus próprios livros. Assim como nos jornais os literatos não eram louvados, os jornalistas que se aventuravam pela literatura tinham um longo caminho a percorrer até se afirmarem. Sobre os encontros, Wolfe lembra que [...] Não havia lugar para jornalistas, a menos que ali estivesse no papel de futuro romancista ou simples cortesão dos grandes. Não existia algo como um jornalista literário trabalhando para revistas ou jornais populares. Se um jornalista aspirava a status literário, o melhor era ter o bom senso e a coragem de abandonar a imprensa popular e tentar entrar para a grande liga. (WOLFE, 2005, p. 18)

Os jornalistas que freqüentavam os clubes e se interessavam pela literatura vislumbraram a possibilidade de publicar seus escritos nos jornais em que trabalhavam. Por meio das reportagens especiais, “essa descoberta, de início modesta, na verdade, reverencial, poderíamos dizer, era que talvez fosse possível escrever jornalismo para ser lido como um romance” (WOLFE, 2005, p. 19). Porém, esses repórteres que estavam no limiar entre a ficção e o realismo da notícia, “nunca desconfiaram nem por um minuto que o trabalho que fariam ao longo dos dez anos seguintes, como jornalistas, roubaria do romance o lugar de principal acontecimento da literatura”. (WOLFE, 2005, p. 19). Aos poucos, e por conta desse crescente interesse, o uso de técnicas da literatura de romance nos textos de reportagens especiais se tornou muito comum. Esta prática esteve presente nos jornais diários norteamericanos e em diversas revistas.

Nestes novos textos jornalísticos havia, em alguns momentos, certa confusão em relação a quem era o sujeito da oração e quem era o narrador principal do texto, bem como uma dúvida sobre qual era o assunto principal da matéria ali impressa. Havia uma colagem de linguagens e cada vez mais o repórter especial passou a lidar com o interesse em provocar os diversos sentidos dos leitores. “Com muito pouco esforço, o texto podia se transformar num conto de não-ficção. A coisa realmente única a respeito do texto, porém, era a reportagem.” (WOLFE,

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Ernest Hemingway nasceu em 1899 nos Estados Unidos e morreu em 1961. É autor de obras consagradas na litaratura mundial como Por Quem os Sinos Dobram (1940) e O Velho e o Mar (1952). Hemingway também desempenhou um importante papel como jornalista. 8 Francis Scott Fitzgerald nasceu em 1896 e morreu em 1940 nos Estados Unidos. Seu livro mais conhecido é O Grande Gatsby (1925).

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2005, p. 22) Como exemplo, Wolfe cita a matéria Joe Louis9: o Rei na meia-idade, escrita por Gay Talese e publicada em 1962 na norte-americana Esquire. O início era pouco comum para os padrões jornalísticos da época, principalmente pela abertura em forma de conto: “Oi, meu bem!”, Joe Louis disse à sua mulher, ao vê-la esperando por ele no aeroporto de Los Angeles. Ela sorriu, foi até ele, e estava quase se pondo na ponta dos pés para beijá-lo quando, de repente, parou. “Joe”, disse ela, “cadê sua gravata?” “Ah, benzinho”, ele disse, dando de ombros. “Fiquei acordado a noite inteira em Nova York e não tive tempo de...” “A noite inteira!”, ela cortou. “Quando está aqui, você só quer saber de dormir, dormir e dormir.” “Benzinho”, disse Joe Louis, com um sorriso cansado, “eu estou velho.” (in WOLFE, 2005, p. 20)

E o texto seguia um caminho incomum: o de detalhar momentos íntimos de Joe Louis com sua esposa Rose Morgen, bem como descrever minuciosamente todos os ambientes por onde o casal passava, apresentando ao leitor momentos pouco conhecidos daquela celebridade.

Tom Wolfe registrou suas primeiras impressões a respeito do texto:

[...] Minha reação instintiva, defensiva, foi achar que o sujeito tinha viajado, como se diz... improvisado, inventado o diálogo... Nossa, ele talvez tenha criado cenas inteiras, o nojento inescrupuloso... O engraçado é que essa foi precisamente a reação que incontáveis jornalistas e intelectuais da literatura teriam ao longo dos nove anos seguintes, à medida que o Novo Jornalismo ganhava força. (WOLFE, 2005, p. 22)

Esta nova forma de escrever reportagens ganhou adeptos nas redações norte-americanas. No ano seguinte à publicação da reportagem de Talese, o jornalista Jimmy Breslin passou a assinar uma coluna no jornal Herald Tribune cuja proposta era sair pelas ruas de Nova Iorque para poder registrar fatos curiosos dos habitantes da cidade. Os textos aparentemente despretensiosos de Breslin, quando comparados aos de outros jornalistas que eram enviados para cobrir as mesmas pautas, demonstram uma maior aproximação com a literatura. Sua coluna, porém, não era bem vista no meio literário, que julgava o conteúdo como pobre. “Entre os intelectuais literários ouvia-se Breslin ser chamado de ‘um tira que escreve’ ou de ‘o Runyon10 do serviço social’” (WOLFE, 2005, p. 26).

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Joe Louis foi um dos maiores pugilistas norte-americanos. Nasceu em 1914 e morreu em 1981. Em toda sua carreira obteve 68 vitórias e apenas três derrotas. 10 Damon Runyon nasceu em 1884 e morreu em 1946 nos Estados Unidos. Escritor, publicava seus textos – na maioria curtos – principalmente em jornais. As histórias de Runyon apresentam uma população heterogênea da Broadway — gangsters, contrabandistas, coristas, boxeurs — empregando uma linguagem muito particular.

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Uma prática comum adotada por Breslin e pouco seguida era a de chegar com antecedência ao local onde iria acontecer o evento principal a ser noticiado posteriormente nos jornais e ficar colhendo informações diversas com transeuntes, anotando detalhes que caracterizavam o lugar, não apenas em relação a como se apresentava, ou deveria se apresentar, perante a notícia. “Parte de seu modus operandi era colher detalhes ‘romanescos’, os anéis, a transpiração, os socos no ombro, e ele fazia isso com mais habilidade que a maioria dos romancistas” (WOLFE, 2005, p. 26). Segundo Wolfe, o que Breslin fez foi continuar de um jeito mais apurado a aproximação entre a literatura e a reportagem conduzida anteriormente por escritores como Balzac11, Gogol12, Tolstói13, Dostoiévski14 e Joyce15, autores mais voltados para o realismo social16.

No jornalismo norte-americano praticado na década de 1960, a proximidade dos jornalistas com a literatura e o romance começou a impregnar de técnicas literárias os textos e reportagens publicadas nos jornais. Segundo Wolfe, o jornalismo norte-americano praticado na década de 1960 descobriu que era possível usar diferentes técnicas literárias nas reportagens, como “os dialogismos tradicionais do ensaio ao fluxo de consciência, e (...) muitos tipos diferentes ao mesmo tempo, ou dentro de um espaço relativamente curto, para excitar tanto intelectual como emocionalmente o leitor” (WOLFE, 2005, p. 28).

Um passo importante para criar uma nova identidade para os escritos jornalísticos foi dado com a tomada de consciência do papel do narrador. O jornalismo tradicional, na maior parte de suas matérias, usava até então o narrador onipresente.

Segundo Wolfe, o novo paradigma pregava que a função do narrador deveria ser agora a mais clara possível, para que diversas novas possibilidades de linguagens pudessem emergir nas

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Honoré de Balzac nasceu na França em 1779 e morreu em 1850. Além de romancista, foi jornalista e escreveu o clássico Os Jornalistas, em que analisa a imprensa francesa em meados do século XIX. 12 Nikolai Vasilievich Gogol nasceu na Rússia em 1809 e morreu em 1852. Adepto do realismo literário, sua principal obra é Almas Mortas 13 Liev Tolstói nasceu na Rússia em 1828 e morreu em 1910. Associado à corrente realista, tentou refletir fielmente a sociedade em que vivia. 14 Fiódor Mikhailovich Dostoiévski nasceu na Rússia em 1821 e morreu em 1881. É considerado o primeiro romancista social da Rússia. 15 James Augustine Aloysius Joyce nasceu em 1882 na Suíça e foi um escritor irlandês expatriado. Morreu em 1941. Seu universo ficcional enraíza-se fortemente em Dublin (Irlanda) e reflete sua vida familiar e eventos, amizades e inimizades dos tempos de escola e faculdade. Sua principal obra é Ulisses (1922). 16 Sobre realismo social, ver o capítulo 3.0 Sobre a relação entre a narrativa literária e o texto jornalístico

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reportagens especiais. Wolfe utilizaria esse recurso para realizar perfis de personagens, narrar fatos e descrever ambientes. [...] Em vez de chegar como um locutor descrevendo a grande parada, mudava o mais depressa possível para dentro das órbitas oculares das pessoas da história, por assim dizer. Muitas vezes, mudava o ponto de vista no meio de um parágrafo, até no meio de uma frase. (WOLFE, 2005, p. 34)

Como exemplo claro, temos a reportagem A Garota do Ano, sobre a socialite norte-americana Baby Jane Holzer.

Jubas franjadas ninhos bufantes bonés de Beatle carinhas de criança cílios postiços olhos de decalque suéter estufado sutiãs de ponta franceses blue jeans de couro batido calças de stretch bumbuns de néctar botas de duende até as canelas sapatilhas de bailarina Knight, centenas deles, desses brotinhos chamejantes, pulando e gritando, revoando pelo Auditório da Academia de Música debaixo daquele vasto e velho teto abobadado de querubins embolorados lá em cima - eles não são supermaravilhosos? ‘Eles não são supermaravilhosos?’: diz Baby Jane, e depois: “Ai, Isabel! Isabel! Quer sentar atrás do palco - com os Stones?”. O show ainda nem começou, os Rolling Stones ainda nem estão no palco, o lugar está tomado por uma grande penumbra gasta e empoeirada e por esses brotinhos chamejantes. Meninas balançando para lá e para cá no corredor, com seus imensos olhos pretos de decalque, pesados de cílios postiços Tiger Tongue Lick Me, e apliques pretos, pesados como árvores de Natal de vitrine, ficam olhando para - ela - Baby Jane - no corredor. (WOLFE, 2005, p. 34)

Observa-se, claramente, que já no início da citação Wolfe não quer respeitar as regras ortográficas, abolindo o uso de vírgulas e dispensando qualquer outro tipo de pontuação, justamente para, neste caso, dar um ritmo próprio à leitura, para que o leitor se sinta cada vez mais dentro do contexto e habitando a mente dos personagens. Em alguns momentos, o jornalista chega a abrir mão da existência de apenas um narrador, lançado três ao mesmo tempo: Que diabo é isso? Ela é deslumbrante de um jeito absolutamente excessivo. O cabelo espetado numa imensa coroa, uma imensa juba bronzeada em torno de um rosto estreito e dois olhos abertos - swock! - como guarda-chuvas, o cabelo todo ondulando por cima de um casaco feito de... zebra! Essas listas órfãs! Ah, droga! Ali está ela com as amigas, parecendo uma abelha rainha para todos os brotinhos chamejantes de toda parte. (WOLFE, 2005, p. 35)

Nesse pequeno parágrafo, o autor apresenta o ponto de vista do sujeito (“Baby Jane”), o ponto de vista das pessoas que a observam (os “brotinhos chamejantes”) e o do próprio jornalista, como ele mesmo aponta.

[...] Eu sempre mudava de um ponto de vista para outro, às vezes de maneira abrupta, em muitos artigos que escrevi em 1963, 1964 e 1965. Um crítico chegou a me chamar de

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“camaleão”, que adquire instantaneamente a coloração de quem quer que seja o assunto da escrita. Ele disse isso de maneira negativa. Eu tomei como um grande elogio. (WOLFE, 2005, p. 35)

O jornalismo passou, com essa nova narrativa baseada na literatura ficcional, a experimentar novas possibilidades de estilo, o que deixava os repórteres livres para escreverem suas matérias com as mais diferentes linguagens. Não apenas os assuntos do Novo Jornalismo se diferenciavam dos assuntos triviais da notícia corriqueira, também a forma inovava ao não se restringir às exigências da leitura rápida e mecânica. Estas experimentações demandavam tempo, dinheiro e espaço nos jornais.

Tornou-se comum o repórter passar meses, até anos, acompanhando o desenrolar do “seu” assunto ou ouvindo “seu” personagem. Truman Capote, que só alcançou o desfecho perfeito de seu romance de não-ficção quando os assassinos de A Sangue Frio foram mortos na forca seis anos após o crime; Gay Talese, quando acompanhou por meses um grupo de operários na construção da ponte Verrazano-Narrows e depois publicou Os Boomers; e Joseph Mitchell, cujo O Segredo de Joe Gould, desfecho da reportagem de 1942 O Professor Gaivota, só foi publicado em 1964, usaram com maestria a liberdade concedida pelos editores.

O caso de Mitchell é exemplar. Seu personagem, o maltrapilho Joe Gould, perambulou pelas ruas de Nova York durante anos. Mitchell o conheceu em 1938 e neste mesmo ano começou a escutá-lo. Seguiu ouvindo suas histórias até a morte de Gould em 1957. Na primeira reportagem que escreveu sobre ele, em 1942, Mitchell revela o grande projeto da vida de Gould: dedicar sua vida a escrever em um livro chamado Uma história oral de nossa época tudo o que as pessoas diziam pelas ruas, a fim de registrar para a posteridade a verdadeira história daqueles anos. Todos que conviveram com Gould procuraram avidamente, após sua morte, os rascunhos do livro e ele nunca foi encontrado. O que Mitchell descobriu e só revelou em 1964, sete anos após a morte de Gould, era que Uma história oral nunca passou de dois capítulos. Neste intervalo de 22 anos, Mitchell desconstrói o lead e a pirâmide invertida: a principal informação, a Notícia, só está no final da reportagem.

Nos longos meses de apuração, os repórteres se esforçavam para conseguir o máximo de detalhes sobre o personagem, pois só assim se sentiriam plenamente aptos a escrever sobre ele. “A idéia era dar a descrição objetiva completa, mais alguma coisa que os leitores sempre

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tiveram de procurar em romances e contos: especificamente, a vida subjetiva ou emocional dos personagens.” (WOLFE, 2005, p. 37).

Os jornalistas que seguiam pelo caminho do Novo buscavam o que se escondia por trás da aparência e das frases ensaiadas de seus personagens: a subjetividade. Eles se guiavam não só pelos objetos e pelos personagens apresentados na matéria, mas também pela sua bagagem cultural e suas referências históricas, literárias e musicais, o que resultava em um texto repleto de informações importantes, ainda que postas em um segundo plano. Por conta disso, os críticos detratores desse novo modo de fazer reportagens acusaram o estilo de vulgar, de baixa qualidade, de falso e impressionista em relação aos personagens; segundo eles, os autores abandonavam a chamada objetividade jornalística. Wolfe rebate as acusações de que o Novo Jornalismo seria um parajornalismo, um jornalismo falso:

[...] As coisas mais importantes que se tentava em termos de técnica dependiam de uma profundidade de informação que nunca havia sido exigida do trabalho jornalístico. Só através das formas mais investigativas de reportagem era possível, na não-ficção, usar cenas inteiras, diálogo extenso, ponto de vista e monólogo interior. Por fim, eu e outros seríamos acusados de “entrar na cabeça das pessoas”... Mas exatamente! Entendi que essa era mais uma porta em que o repórter tinha de bater. (WOLFE, 2005, p. 37-38)

A crítica literária norte-americana Pauline Kael acusou o Novo Jornalismo de ser efêmero, principalmente por não ser crítico e também por ter, na maioria das vezes, uma posição de louvor em relação a quase todos os personagens, onde o jornalista não conseguia analisar objetivamente os fatos narrados. [...] Ela [Pauline Kael] explica que ele [o Novo Jornalismo] simplesmente deixa as pessoas ‘excitadas’, e que ‘você fica sem saber o que sentir a não ser excitação’, coisa que ela considera moralmente enervante para gente jovem, ‘porque, do mesmo jeito que vão a filmes que têm intensidade e excitação, gostam de escritos que tenham intensidade e excitação. Mas ficam sem nenhuma base para avaliar o material e, em última análise, isso significa apenas que o escrito tem de ir de uma carga para outra’. (WOLFE, 2005, p. 62)

Talese defende o Novo Jornalismo ao dizer que “ao escrever sobre pessoas reais, cujas vidas são influenciadas pelas questões do nosso tempo, e ao utilizar as técnicas da ficção para contar suas histórias, tentei tornar compreensível a complexidade e, às vezes, a hipocrisia da sociedade em que vivemos”. (TALESE, 2000, p. 10) De acordo com Wolfe, os romancistas do realismo social norte-americano pecavam por esquecer a amplitude em que estariam imersos os personagens construídos nos textos.

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[...] [nos romances,] os personagens não pertencem a nenhum ambiente, não têm história pessoal, não estão identificados com nenhuma classe social, nenhum grupo étnico, nem mesmo com alguma nacionalidade, e representam seus destinos num local que não tem nome, muitas vezes num terreno tão elementar e fora do tempo quanto uma floresta, um pântano, um deserto, a montanha ou o mar. Quase sempre falam, se é que falam alguma coisa, em frases curtas e bastante mecânicas que, por sua vez, não revelam nenhuma origem específica, ou então usam uma dicção inexplicavelmente arcaica. Reagem a forças inexplicáveis, são perseguidos por horrores inexplicáveis e muitas vezes realizam fantásticos feitos físicos. Esses recursos narrativos são típicos de quê? Ora... do mito, da fábula, da parábola, da lenda. (WOLFE, 2005, p. 67)

O objetivo era fazer com que os jornalistas mergulhassem mais fundo neste terreno deixado de lado pelos romancistas, absorvendo a subjetividade e compreendendo os personagens e os fatos presenciados. Para tanto, foi preciso inovar o modo de usar a língua nas reportagens. Tornou-se comum a utilização de sinais e recursos ortográficos pouco usados nos textos jornalísticos, buscando despertar no leitor sensações mais próximas às do repórter no convívio com o fato. Pontos, travessões, exclamação, frases grifadas, interjeições, GRITOS, palavras sem sentido, onomatopéias, mimeses, pleonasmos e o uso contínuo do presente histórico se tornaram usuais neste novo texto jornalístico. Como aponta o próprio Wolfe, a reportagem começava antes mesmo que o leitor lesse a matéria, pois já se sentia na tipografia da página a utilização não convencional desses sinais (WOLFE, 2005, p. 38). Quanto mais informação fosse passada ao leitor, de mais sensações ele poderia se apropriar. Seria possível ao leitor entrar na cabeça, no cérebro e em todo o corpo do personagem retratado.

[...] Descobri que coisas como pontos de exclamação, itálicos, mudanças abruptas (travessões) e síncopes (pontos) ajudavam a dar a ilusão não só de uma pessoa falando, mas de uma pessoa pensando. Gostava de usar pontos onde menos eles eram esperados, não no fim de uma frase, mas no meio, criando o efeito... de pular uma batida. Parecia-me que a mente reagia primeiro!... em pontos, travessões e exclamações, depois racionalizava, fazia um resumo, em períodos. (WOLFE, 2005, p. 39)

4.1 - O nascimento da expressão Novo Jornalismo

Não se sabe exatamente quem foi o criador ou quando surgiu a expressão Novo Jornalismo ou Jornalismo Literário, como alguns preferem dizer. O jornalista Seymour Krim17, em passagem no livro de Wolfe, relata que ouviu a expressão Novo Jornalismo pela primeira vez em 1965, quando era editor da revista Nugget, e a ele foi encomendado um artigo sobre pessoas que praticavam esse novo jornalismo, como Jimmy Breslin e Gay Talese. Porém, já

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Seymour Krim nasceu em 1922 e morreu em 1989 nos Estados Unidos. Foi crítico literário e editor de diversas revistas daquele país.

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em 1966 tornou-se comum o uso dessa expressão para designar a maioria dos textos que se aproximavam da não-ficção e do romance publicados em periódicos. Mas não existia um movimento unificado de seguidores desse novo estilo. Quem se sentisse à vontade com esse tipo de escrita que fizesse as reportagens deste modo. A novidade se alastrou nas redações e no meio literário, e até escritores de renome, como Norman Mailer18 e James Baldwin19, passaram a escrever textos de não-ficção para periódicos como a revista Esquire20 e o jornal Herald Tribune, por exemplo.

4.2 - O status de literatura e a técnica

O Novo Jornalismo não chocou os jornalistas tradicionais tanto quanto irritou os teóricos e intelectuais da literatura que, segundo Wolfe, sentiram-se ameaçados por esse novo modelo de escrita.

[...] Ao longo de todo o século XX, os literatos haviam se acostumado a uma estrutura de status muito estável e aparentemente eterna. (...) A classe alta literária eram os romancistas; o autor de teatro ou o poeta ocasional também podiam estar lá em cima, mas eram principalmente os romancistas. Eles eram tidos como os únicos escritores “criativos”, os únicos artistas literários. Tinham exclusividade de entrada na alma do homem, nas emoções profundas, nos mistérios eternos. (...) A classe média eram os “homens de letras”, os ensaístas literários, os críticos mais autorizados; o biógrafo ocasional, também o historiador. (...) A classe baixa eram os jornalistas, os quais ficavam tão embaixo na estrutura que mal eram notados. Eram tidos sobretudo como trabalhadores diaristas que desencavavam informações para escritores de maior “sensibilidade” fazerem melhor uso delas. (WOLFE, 2005, p. 43-44)

Esta divisão da estrutura do meio literário norte-americano demonstra de modo significativo quem tinha, ou a quem era concedida, certa legitimidade para escrever sobre a sociedade. Wolfe cita, ainda, que abaixo dos jornalistas existia a categoria dos lumpemproletários, ou seja, os freelancers (profissionais sem relações trabalhistas formais que atuavam, e ainda atuam, como colaboradores de revistas e jornais). Foram justamente estes profissionais que reinventaram o estilo das reportagens jornalísticas publicadas em periódicos, pois tinham um tempo maior para apuração, liberdade para escrever e podiam, se assim desejassem, usar outros recursos estilísticos.

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Norman Kingsley Mailer nasceu em 1923 e trabalhou em diversos jornais, tornando-se um dos principais nomes do Novo Jornalismo. Escreveu, dentre outros, A Luta (1975). 19 James Baldwin, escritor norte-americano, nasceu em 1924 e morreu em 1987. Foi defensor da causa dos negros e teve diversos livros publicados sobre a liberdade sexual. 20 Célebre revista norte-americana cujo conteúdo está majoritariamente voltado ao público masculino. www.esquire.com

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O primeiro texto escrito sob a égide do Novo Jornalismo a ganhar status de obra literária respeitada em diversos meios foi A Sangue Frio, de Truman Capote, originalmente uma série de reportagens em que o autor revela os detalhes sobre a vida e a morte de dois homens acusados de assassinarem uma família na zona rural do estado do Kansas, nos Estados Unidos, em 1959. Após ler uma curta nota sobre o assassinato no jornal The New York Times, resolveu se aprofundar no assunto, acompanhando o desenrolar das investigações, o julgamento dos acusados e o cumprimento da sentença de morte. Capote publicou em 1965 na revista The New Yorker os capítulos do que viria a se transformar em livro oficialmente em 1966. A Sangue Frio causou surpresa nos meios literário e jornalístico, principalmente pela riqueza de detalhes dos fatos, bem como pela descrição minuciosa do comportamento dos personagens, como podemos ver no exemplo a seguir: A Sra. Johnson não pareceu abatida nem surpresa ao saber que a polícia estava mais uma vez interessada nas atividades do irmão. O que a aborrecia era a possibilidade de as vizinhas a encontrarem respondendo às perguntas dos detetives. (CAPOTE, 1980, p. 215)

Aqui, nessas poucas linhas, Capote apresenta o ponto de vista e as sensações de algumas pessoas envolvidas na trama, como a Sra. Johnson, irmã de um dos acusados, os policiais e as vizinhas, pontuando traços de suas personalidades e retratando os costumes e convenções da sociedade norte-americana da época. Capote já era um escritor conhecido antes de escrever A Sangue Frio, havia publicado contos e romances menores, mas sua idéia21 de partir de um fato real e narrá-lo em estilo romanesco – publicando-o originalmente em um periódico – revolucionou os padrões do jornalismo.

[...] O próprio Capote não chamava seu livro de jornalismo; longe disso; dizia que tinha inventado um novo gênero literário, ‘o romance de não-ficção’. Porém, seu sucesso atribuiu uma força esmagadora àquilo que logo viria a ser chamado de Novo Jornalismo. (WOLFE, 2005, p. 46)

Como Wolfe insiste em apontar, os jornalistas se apropriaram daquilo que os romancistas deixaram de lado por décadas: as histórias que brotavam diariamente nas ruas das cidades e, principalmente, em Nova Iorque, metrópole sede dos principais jornais e revistas que aceitaram publicar esse tipo de texto. “[...] Os romancistas tinham tido a gentileza de deixar para nossos rapazes um corpo de material bem bonzinho: toda a sociedade americana, na verdade” (WOLFE, 2005, p. 53).

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Mais adiante veremos que outros autores, atingindo menor sucesso, já haviam realizado o que Capote só concretizou em 1965.

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Outro ponto a que os jornalistas passaram a se dedicar com maior apuro foi a criação do perfil psicológico dos personagens. Para tanto, descreviam com exatidão seus trejeitos, hábitos, gostos e, principalmente, os ambientes pelos quais os personagens circulavam. Os autores do Novo Jornalismo acreditavam que estas eram ferramentas eficazes para envolver o leitor, fazendo-o se sentir participante do fato narrado. No decorrer do século XX, os personagens dos romances tornaram-se cada vez mais complexos e fechados em si mesmos, presos ao que só o autor poderia criar, alheios à sociedade da qual eram produto ou escória.

Estes personagens da vida real retratados pelo Novo Jornalismo deveriam ter a mesma liberdade concedida aos seus pares romanescos: seria justo que demonstrassem suas opiniões e aparecessem em diálogos ao longo da reportagem. E os diálogos foram instrumentos importantes na afirmação dos novos textos jornalísticos. Segundo Talese, a aproximação entre o jornalismo e as técnicas de romance vale para criar uma nova visão da sociedade. “Os sonhos e impulsos da América moderna, se narrados com exatidão, podem ser tão socialmente significantes e historicamente úteis quanto as vidas e situações fictícias criadas por dramaturgos e romancistas” (TALESE, 2000, p. 9)

O sucesso das histórias contribuiu para a afirmação do novo estilo. Os autores estavam certos de que o público gostava dos diálogos reais, por vezes improváveis, e da narrativa em terceira pessoa, que possibilitava a participação do leitor. A relação entre repórter e personagem, que se tornou cada vez mais íntima, era visível nas reportagens: este artifício reforçava a sinceridade do autor para com o leitor e mostrava o caminho percorrido pelo escritor para escrever aquele texto, repleto, como não poderia deixar de ser, de sentimentos contraditórios e, às vezes, chocantes. A legitimidade jornalística se encarregaria de conferir o caráter de verdade àquilo que está sendo publicado, tornando o texto ainda mais atrativo para o leitor. Porém, como sacramentou Wolfe, “neste Novo Jornalismo não há regras sacerdotais” (WOLFE, 2005, p. 57).

Por isso, pela inconstância das formas e como não obedeciam a nenhuma regra, diversos teóricos acusaram os textos adeptos do Novo Jornalismo de pobre e superficial. Porém, o que estes novos textos tentavam era reavivar na memória do leitor situações que, mesmo tendo ocorrido com outras pessoas, poderiam encontrar similares nas suas experiências de vida. “Por exemplo, escritores que descrevem cenas de bebedeira raramente tentam descrever o estado da bebedeira em si. Eles contam com o fato de o leitor já ter estado bêbado em algum 31


momento da vida.” (WOLFE, 2005, p. 78) Quanto mais o escritor conseguir criar símbolos imagéticos na mente do leitor, maior sucesso ele terá para passar sentimentos e sensações do que ele viveu na apuração da matéria, principalmente se ele apresentar a construção cena a cena, o detalhamento dos fatos, o ponto de vista dos retratados e os diálogos que ocorreram.

Em Antes do título, como fazer entrevistas, conseguir informações e escrever perfis e reportagens, o jornalista Silvio Ferraz defende que a matéria deve ser sedutora desde o início. “Não deixe a frase inspirada para o pé da matéria [...]. Pesquisas mostram que o leitor primeiro vê a foto e lê a legenda. Depois lê o título. Só então passará para o lead. Portanto, saiba que está largando em terceiro na corrida por sua atenção. Capriche.” (FERRAZ, 2006, p. 111). E finaliza, sintetizando o cerne da questão: “Escreva de forma simples, como se estivesse falando, contando um caso” (FERRAZ, 2006, p. 111).

A concepção de Ferraz está mais próxima da realidade do jornalismo nas redações: o texto não está em primeiro plano. Os títulos, as legendas e as linhas finas, elementos que condensam as informações principais da matéria antes mesmo do lead, liberam o público da leitura do texto, que tem seu tamanho reduzido cada vez mais. Um panorama do jornalismo impresso praticado nos dias atuais revelará a necessidade de debater o lugar ocupado pelos jornais e qual parte pretendem preencher no futuro: prevalecerão os textos factuais curtos e as informações distribuídas em recursos gráficos informativos como olhos, intertextos, linhas finas (papel que os meios de comunicação eletrônicos cumprem tão bem) ou serão realçadas as análises, as notícias apuradas com cuidado, as narrativas construídas para serem efetivamente lidas? As duas proposições não se excluem e podem mesmo ser empregadas conjuntamente e em dose certa para o sucesso dos veículos impressos.

Hoje, mesmo sem o espaço inacreditável concedido por revistas dedicadas ao Novo Jornalismo, as reportagens, as entrevistas com pessoas famosas, os perfis de conhecidos ou desconhecidos construídos de forma inventiva aparecem, vez ou outra, nesta mídia.

4.3 - O domínio do objeto

No Novo Jornalismo, o fato ocorrido não é o mais importante, mas sim a relação de todas as coisas que o cercam, detalhes que eram escondidos do público, pois não cabiam no padrão jornalístico que se baseava na pirâmide invertida e no uso do lead. Portanto, o desafio do 32


repórter é conseguir permanecer o maior tempo possível ao lado e observando seu personagem, para que assim possa conhecê-lo. Wolfe aponta bem essa dificuldade na seguinte passagem: [...] O problema inicial é sempre abordar gente completamente desconhecida, penetrar em sua vida de algum modo, fazer perguntas que você não tem nenhum direito natural de esperar que sejam respondidas, pedir para ver coisas que não são para você ver, e assim por diante. (WOLFE, 2005, p. 83)

Por isso, uma das técnicas aconselhadas é tornar-se apenas um observador, papel diferente do questionador. Ficar de longe, esperando que alguma coisa aconteça sem forçar o aparecimento dela é um dos recursos que podem fazer com que o entrevistado ganhe confiança em relação ao repórter. O difícil na construção do texto jornalístico é criar uma relação de intimidade e cumplicidade com o personagem, ainda que esta cumplicidade seja apenas uma de suas facetas.

O jornalista Gay Talese alcançou o ápice deste jornalismo observativo na reportagem Frank Sinatra está resfriado, publicada em 1965 na revista Esquire. Encarregado de fazer uma entrevista e um perfil do cantor Frank Sinatra, Talese tentou de todas as maneiras marcar uma conversa, o que não lhe foi concedido, pois, justamente naquele momento, o astro se recusava a falar com a imprensa22. Diante das negativas, o repórter se aproveitou do fato de Sinatra não impedir a participação de jornalistas em certos momentos, como as sessões de gravação de um programa de televisão dedicado especialmente a ele; outra estratégia utilizada por Talese foi a de colher depoimentos de pessoas ligadas diretamente a Sinatra, como sua filha e seus amigos, destacando detalhes que, para a maioria, seriam ser descartáveis, mas que ajudavam a construir o perfil do cantor.

Mas agora, naquele bar em Beverly Hills, Sinatra estava resfriado, e continuava bebendo em silêncio, parecendo estar a quilômetros de distância, num mundo só dele, sem demonstrar reação nenhuma, nem mesmo quando, de repente, o estéreo do outro salão passou a tocar uma canção de Sinatra, In the wee small hours of the morning. (TALESE, 2004, p. 259)

O texto é um dos melhores exemplos das possibilidades infinitas do jornalismo literário. Em Fama e Anonimato, Talese afirma que só conseguiu obter depoimentos essenciais para a construção de diversos perfis com o abandono quase total do gravador, já que este aparelho 22

Na época, diversos jornais estavam publicando matérias acusando Frank Sinatra de ter ligações com a máfia italiana nos Estados Unidos. Talese, após gastar milhares de dólares em jantares, hotéis e viagens para a realização da matéria, acabou por desistir da entrevista.

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afugenta respostas reveladoras dos entrevistados. Para Talese, o gravador faz com que o repórter não se preocupe tanto com o que o entrevistado está dizendo e sua atenção seja desviada, pois a gravação é uma segurança. O indiscriminado uso dos gravadores apareceu no jornalismo por conta dos inúmeros processos judiciais abertos contra os jornais, acusados pelos entrevistadores de distorceram diversas declarações. A voz registrada, inclusive, contribuiu para que as matérias ficassem cada vez mais baseadas nas aspas, sem muita criatividade por parte dos repórteres reféns de declarações.

Em Nova York é uma cidade de coisas que passam despercebidas, Talese apresenta o que talvez seja um dos melhores ensaios sobre o comportamento dos habitantes e a lógica de funcionamento de uma metrópole. No texto, o leitor é convidado a participar e a desvendar cada centímetro, cada curva, cada canto da cidade de uma forma totalmente nova. Já nos primeiros parágrafos, Talese detalha momentos preciosos da metrópole, com números tão surpreendentes - pelo fato de serem bizarros - que parecem inventados: Todo dia os nova-iorquinos enxugam 1,74 milhão de litros de cerveja, devoram 1,5 mil toneladas de carne e passam 34 quilômetros de fio dental entre os dentes. Todo dia morrem cerca de 250 pessoas em Nova York, nascem 460, e 150 mil andam pela cidade com olhos de vidro. (TALESE, 2004, p. 20)

Em seguida, Talese revela a sua idéia de jornalismo em uma metáfora exemplar: “[...] alguns dos homens mais bem informados de Nova York são ascensoristas, que raramente falam, mas sempre escutam – da mesma forma que os porteiros [...]” (TALESE, 2004, p. 20).

Ferraz apresenta de forma mais técnica a luta entre o repórter e o fato. Na construção, por exemplo, do perfil de uma pessoa, o personagem sempre espera que seja tratado de forma simpática por parte do texto, que o jornalista se apaixone pelo objeto, o que pode não vir a ocorrer. Mas o essencial no Novo Jornalismo é sempre o aprofundamento do conhecimento. [...] O primeiro mandamento para esta tarefa e para todas as outras reportagens é uma busca profunda nos arquivos do jornal ou revista para conhecer o personagem. Com a Internet isso fica mais fácil. Em seguida, mergulhe em camadas mais remotas do passado do personagem: colegas de turma, professores, gente de seu primeiro emprego, quem corta seu cabelo. (...) A entrevista com o próprio perfilado deve ser a última. (FERRAZ, 2006, p. 13).

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5 - Sobre a relação entre a narrativa literária e o texto jornalístico

Uma das principais características do texto do Novo Jornalismo é a sua aproximação com as técnicas de escrita utilizadas pela literatura ficcional. Por conta do uso das formas de construção próprias das obras literárias, muitos intelectuais e teóricos da literatura criticam a inovação posta em curso por alguns jornalistas e posteriormente adotada por escritores consagrados no romance.

O teórico da literatura Raúl H. Castagnino insiste em opor o texto literário à reportagem. Castagnino ignora recursos utilizados com freqüência no jornalismo literário, como o uso como as intervenções diretas do autor e a apresentação do espaço social em que a notícia está inserida. “Qualquer interferência que acidentalmente se possa confundir com literatura história, crítica, preceituário etc. - não passa de contribuição secundária para o melhor conhecimento e compreensão do texto literário” (CASTAGNINO, 1968, p.17). Pode-se afirmar, certamente, que tais informações tidas como secundárias não pretendem igualar o texto jornalístico ao literário, mas acrescentar informações e símbolos que enriqueçam a narrativa. Castagnino chega a afirmar que a literatura é o texto literário e só o texto literário (CASTAGNINO, 1968, p.18). Porém, certas condições do romance podem ser empregadas no fazer do Novo Jornalismo.

O repórter adepto do jornalismo literário, cujas características este trabalho pretende definir, cunha um estilo próprio de criação, com adornos, conceitos e diretrizes pessoais, moldadas na prática cotidiana. Como aponta Castagnino, “os estudos modernos sobre estilo (...) reconhecem o produto de uma intenção artística que apresenta sinais do afetivo, do íntimo, do emotivo, na ordem individual”. (CASTAGNINO, 1968, p.19). O estilo de escrita e o próprio texto estão impregnados das condições psicológicas, lingüísticas e sociais do autor. No texto jornalístico convencional, estas influências, que poderiam ser rotuladas como a subjetividade, devem ser escondidas sob a objetividade e a imparcialidade do texto, enquanto no Novo Jornalismo o repórter permite que esta subjetividade exale do texto e seja mais um elemento enriquecedor da narrativa. Citado por Castagnino, o francês Cressot afirma que

[...] no material que nos oferece o sistema geral da língua, realizamos uma escolha, não só pela consciência que temos desse sistema, mas também pela consciência que supomos possuir nosso interlocutor. (...) E a consideração da consciência lingüística do destinatário não é o único fator atuante. Intervém a hierarquia social: não falamos da mesma maneira a um superior ou a um igual, a um desconhecido ou a um íntimo. (...). Esta hierarquização dos modos de

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expressão ainda se acha constrangida pelo próprio local da comunicação: não se fala em um salão como na taberna; um discurso de barricada não poderia ter o vôo de uma peça acadêmica. (apud CASTAGNINO, 1968, p. 20)

Por conta dessas variantes, ao construir – ou analisar – uma obra literária, deve-se levar em conta o tema (realidade ou ficção, assuntos tratados e argumentos utilizados, para determinar a presença de conteúdos sociais, individuais etc.); a situação do tema no espaço (com o objetivo de delimitar a presença do meio geográfico através da criação literária); a situação no tempo (para se caracterizar a época da história e da criação pelo autor); os personagens (e sua complexidade no meio) e os caracteres, a ação e o léxico (tipo de linguagem empregada). Wolfgang Kayser - em seu Fundamerntos da interpretação e análise literária – vai mais além ao afirmar que “só teriam assunto as obras em que se realizam feitos e nas quais aparecem figuras corporificadas, em atividade” (apud CASTAGNINO, 1968, p.46-47). Como concretamente o explicam Wellek e Warren (CCVIII), a literatura é a mais social das artes. Em si, já é instituição social, até pelo fato de valer-se, como meio expressivo, da linguagem, instrumento social por natureza. Além disso, toma como fonte temática a vida enquanto fato social; os personagens que cria, como o faz o autor, constituem membros equivalentes de equivalentes sociedades. O criador se dirige com sua obra ao leitor, à sociedade. Aproxima-se deles ou os enfrenta. (apud CASTAGNINO, 1968, p. 71)

Trata-se de um recorte da análise de um texto ficcional. Mas a própria afirmativa se encarrega de aproximar a literatura do texto jornalístico romanceado, justamente pelos dois retratarem, cada um com seu estilo e suas características próprias, fatos e personagens ligados a uma trama social. No caso ficcional, através da realidade em que está imerso o autor, e no jornalismo, por meio da realidade em que se encontra o objeto, produto e reflexo de sua sociedade.

Como estilo de construção de sua reportagem, o jornalista literário usa, na maioria das vezes, as técnicas de narração. O repórter apresenta-se como o narrador23, pontuando seu ponto de vista e influenciando as ações na apuração da matéria e, ainda mais, na feitura do texto. O narrador/jornalista acompanha as mudanças de tempo dos objetos retratados. Essa alteração vai sendo registrada pelo narrador, que pode adotar diversos “pontos de vista” em relação com o objeto narrado, o objetivo perseguido, os modos de narrar postos em jogo, os recursos empregados e a construção do mundo flutuante ou fantasma da evocação ou ficção. (CASTAGNINO, 1968, p.19).

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Existem três tipo de narradores: heterodiegético (não participante), autodiegético (participa como personagem principal), homodiegético (participa como personagem secundária)

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No que se refere ao “ponto de vista” do narrador, os pesquisadores Brooks e Warren afirmam que é “(...) a disposição e critério - intenção intelectual - através dos quais o material do relato é apresentado.” (apud CASTAGNINO, 1968, p. 166-167). Não se pode esquecer que o autor, o jornalista neste caso específico, trabalha com dados reais que já ocorreram e que estão registrados somente na memória dos envolvidos ou em aparatos tecnológicos, mas que nunca mais existirão tal como foram outrora no tempo e espaço24. O fato não está no presente, mas instalado no passado. O narrador é quem observa o objetivável, o mundo físico em que se movem os personagens; ele ouve, escuta e atua em parceria, sabe que também é ator nesta ação, mas jamais poderá conhecer o que se passa de fato na mente de seus retratados. Todas as ações descritas pelo jornalista tornam-se frutos da subjetividade e da interpretação a partir de um determinado ponto de vista. “O que ‘conta’ [ou seja, o autor] apelará para diversos artifícios para criar no leitor ou ouvinte ‘a ilusão’, para estimular sua imaginação, para ajudálo a figurar mentalmente o ocorrido.” (CASTAGNINO, 1968, p.168).

Por conta das implicações da subjetividade e pelo desconhecimento em relação à mente dos personagens que estão envolvidos no fato a ser noticiado, muitas vezes torna-se delicada a divisão correta do tempo conforme tudo aconteceu. A estruturação do tempo na narrativa literária pode ser moldada segundo as intenções do autor e esta concepção aberta é aplicável ao texto jornalístico. “Não é indispensável que o caminho seja o da tradição retórica e logicista: do delineamento ao desenlace; princípio, nó, conclusão. Tampouco é obrigatório que a marcha do tempo narrativo se acomode à ordem cronológica.” (CASTAGNINO, 1968, p.170-171).

Quando há o rompimento da ordem cronológica, o texto de jornalismo literário amarra os fatos por meio do detalhamento dos personagens e da descrição do ambiente em que se inserem os sujeitos e os objetos da ação. Este detalhamento que o autor pretende objetivo pode alimentar questionamentos contrários, pois a subjetividade da criação literária é um dos elementos que enriquecem o texto do Novo Jornalismo e agregado a ela vem certa dose de liberdade de construção. Por isso o texto de jornalismo literário irá caminhar no limiar entre as duas concepções: a da literatura, que lança mão dos recursos que melhor atraiam o leitor, e a do jornalismo, com seu compromisso de levar informação, e deverá equilibrar os

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Este é a matéria-prima do jornalismo: fatos concluídos, que ocorreram em determinado tempo e espaço e que não mais se repetirão. Podemos dizer que a função social do jornalismo é reportar este fato para os que não puderam experimentá-lo.

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recursos que contribuam para a qualidade do texto e que não descaracterizem a função social do jornalismo.

Para proporcionar mais realismo à história, os autores optam por fazer o registro dos atos por meio da exploração dos diálogos entre os personagens. Os diálogos podem ser da forma direta, indireta e indireta livre. A forma direta é vivaz, elíptica; acelera o reconhecimento dos caracteres, contribui para sua manifestação, sem artifícios. As formas indiretas são mais convencionais e artificiosas; sempre se constroem "literariamente" e incorporam o diálogo ao discurso do narrador. (CASTAGNINO, 1968, p. 185).

A forma indireta livre, por último, procura manter ao máximo o cunho original das frases dos personagens, sem que seja necessário transcrever seu nome, buscando traduzir sentimentos por meio do uso de sinais gráficos, como pontos, exclamações, interrogações e afins.

O léxico utilizado pelo autor também ilustra o modo de construção da matéria. É justamente na forma de construção do texto que o autor reafirma a voz e os anseios dos personagens retratados. O vocabulário empregado pelo escritor em uma criação literária, certamente, está sujeito aos característicos da obra (séria, jocosa, irônica, satírica, lírica, épica, dramática, erudita, popular etc.); à idiossincrasia dos personagens (homens, mulheres, crianças, jovens, velhos, cultos, iletrados etc.); à origem deles (provincialismos, dialetalismos, barbarismos, plebeísmos, cultismos, argots etc.); à profissão que os ocupa (tecnicismos, gírias etc.); à época em que se situa a obra (arcaísmos, neologismos etc.). Portanto, pressupõe no criador - posto que o vocabulário é um dos elementos do “decoro” de suas criaturas - uma atenção especial, informação e adequação. (CASTAGNINO, 1968, p. 193-194).

O jornalista, assim como o escritor literário, imerge sua realidade na escrita e no modo de conduzir a história, retratar seus personagens e descrever o ambiente. Os autores incorporam-se nos seus personagens, exibem seus reflexos na descrição e na narração dos fatos. E nestes pontos, o texto de jornalismo literário está tão próximo da literatura quanto do jornalismo.

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6 - O Novo Jornalismo no Brasil

Estilo jornalístico de sucesso nos Estados Unidos, o Jornalismo Literário também encontrou adeptos nas redações dos periódicos brasileiros a partir da década de 1960, principalmente por meio da revista Realidade e do jornal O Pasquim25, tendo como importantes colaboradores nomes como Marcos Faerman26, José Hamilton Ribeiro27 e Luiz Fernando Mercadante28. Ao apresentar os jornalistas brasileiros, Sérgio Vilas Boas diz que Essa turma ajudou muito a oxigenar o jornalismo em revistas. No Brasil, o quadro político no pós-guerra só fez aprofundar os rumos do jornalismo literário: a exacerbação do fenômeno populista, as questões nacionalistas, as eleições, o crescimento da participação das massas urbanas na polarização que se intensificava, são elementos que deram aos órgãos de comunicação impressa um papel desatacado. E nesse conjunto, a simples objetividade da informação se revelava carente de recursos para que a imprensa pudesse acompanhar o ritmo da vida nacional. (BOAS, 2006, acesso em 03 dez. 2006)

Essa preocupação em mostrar as mudanças políticas, sociais e culturais pelas quais passava o país foi uma das motivações para o surgimento da revista Realidade, lançada pela Editora Abril em 1966. A Realidade fez a cobertura de grandes eventos, publicou perfis de personalidades, crônicas e ensaios. Com 12 ou 13 reportagens em cada número, produzidas com até três meses de antecedência, a revista abordava assuntos que correspondiam às preocupações e às mudanças de valores daquele período. Um dos grandes nomes do Novo Jornalismo no Brasil foi o repórter Joel Silveira29, principalmente por conta da publicação da reportagem Grã-finos em São Paulo, que saiu em dividida em três partes na revista Diretrizes. A matéria desvenda a vida mundana da elite paulistana sob um viés pouco utilizado até então, com a transcrição de diálogos e cenas em detalhes. Ao lado da Realidade e da Diretrizes, outros veículos que publicavam extensas reportagens eram o Diário Carioca, o Correio da Manhã e O Globo.

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Sobre O Pasquim, ver o livro O Pasquim: antologia, volume I, 1969-1971, organizado por Jaguar e Sérgio Augusto. Rio de Janeiro: Editora Desiderata, 2006. 26 Brasileiro, Marcos Faerman nasceu em 1944 e faleceu em 1999. Escreveu para jornais como Última Hora, Jornal da Tarde e o alternativo Versus. 27 José Hamilton Ribeiro foi o mais famoso correspondente de guerra brasileiro, tendo perdido uma perna durante a cobertura da Guerra do Vietnã, em 1968, quando trabalhava para a revista Realidade. Após passar pela editora Abril e pela Folha de S. Paulo, trabalha atualmente nas Organizações Globo. 28 Vencedor do Prêmio Esso de Jornalismo Brasileiro, é jornalista político e foi editor da revista Realidade. 29 Joel Silveira é sergipano de Aracajú, onde nasceu em 23 de setembro de 1918. Foi para o Rio em 1937, tendo se destacado como jornalista e escritor. Tem cerca de 40 livros publicados.

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Porém, diversos pesquisadores afirmam que o principal texto em jornalismo literário escrito no Brasil foi Os Sertões, do escritor Euclides da Cunha30, lançado em 1902. O livro conta a história da Guerra de Canudos, prensenciada por Cunha como repórter especial enviado pelo jornal O Estado de São Paulo. O escritor chegou a Canudos em outubro de 1897, a tempo de asistir aos últimos de dias de combate. Os fatos por ele presenciados e as entrevistas realizadas durante a cobertura serviram de base para a elaboração do livro, projeto muito mais amplo do que as reportagens factuais publicadas à época no jornal. Um trecho do livro apresenta os detalhes que enriquecem o texto de Euclides da Cunha.

Oitocentos homens desapareciam em fuga, abandonando as espingardas; arriando as padiolas, em que se estorciam feridos; jogando fora as peças de equipamentos; desarmando-se; desapertando os cinturões, para a carreira desafogada; e correndo, correndo ao acaso, correndo em grupos, em bandos erradios, correndo pelas estradas e pelas trilhas que a recortam, correndo para o recesso das caatingas, tontos, apavorados, sem chefes... (CUNHA, 1979, p. 252)

No final do século XX e início do século XXI, após um hiato da existência das grandes reportagens nos periódicos nacionais, verifica-se uma tendência à publicação de livrosreportagens com o detalhamento de assuntos que não encontram espaço suficiente em periódicos. Como a imprensa sofreu esse combate com a censura, nos anos seguintes, década de 80 e 90, ela quase se esqueceu totalmente dessa escola de jornalismo literário, No entanto, na metade dos anos 90 para cá, alguns profissionais começaram a perceber que havia essa possibilidade, outros recuperaram a história dos que já trabalharam com isso, alguns jornalistas brasileiros foram para o exterior e tiveram contato com essa prática lá fora. (LIMA, 2006)

Um exemplo notório de reportagens que deram origem a livros é o best-seller Abusado, o dono do morro Dona Marta31, extensa reportagem de Caco Barcellos, que utiliza técnicas do romance para contar a história do tráfico de armas e drogas na favela que dá título ao livro, vencedor do Grande Prêmio Jabuti como melhor obra de não-ficção do ano de 2004.

Este estilo de escrever com detalhamento e profundidade encontra espaço hoje em meios eletrônicos como a revista Texto Vivo32, que também hospeda a Academia Brasileira de Jornalismo Literário, e em meios impressos, como a revista Piauí, seguidora fiel do estilo da

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Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha (Cantagalo, RJ, 20 de janeiro de 1866 — Rio de Janeiro, 15 de agosto de 1909) foi escritor, sociólogo, repórter jornalístico e engenheiro 31 Abusado foi publicado em 2004 pela editora Record. 32 Disponível em http://www.textovivo.com.br

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New Yorker, e a Rolling Stone Brasil, vers達o nacional daquela que abrigou, dentre outros autores do Novo Jornalismo, Hunter S. Thompson, o criador do estilo Gonzo.

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7 - O Jornalismo Gonzo

Como não se define enquanto escola ou movimento unificado, o Novo Jornalismo permitiu interpretações diversas desde sua “criação”. Dentro deste rótulo surgiu o Jornalismo Gonzo, corrente que leva às últimas conseqüências a participação do repórter na matéria e a sua relação com os personagens e com os fatos. O principal expoente desta concepção radical do jornalismo é o norte-americano Hunter Thompson. Nos anos 60 e 70 ele escreveu como colaborador para as revistas Rolling Stone e Playboy, e foi o correspondente na América Latina do jornal National Observer.

Na América Latina, Thompson não se furtou em fazer uma cobertura politicamente incorreta em que zombava de certos costumes indígenas e fazia pilhéria dos regimes autoritários do continente.

Em Aruba, os índios Guajiro são descritos como “ferozes e malucos, que passam o dia todo bêbados de uísque e coco”. Também em Aruba, você ouvirá que os homens não usam “nada além de gravatas, amarradas logo abaixo do umbigo”. Esse tipo de informação pode deixar um homem tenso e, enquanto subia o caminho íngreme, andando com dificuldade por causa do peso da minha bagagem, decidi que ao primeiro sinal de desagrado eu começaria a distribuir gravatas como se fosse o Papai Noel – três finas, de estampa paisley, para os mais ameaçadores do bando. Depois começaria a rasgar as camisas. (THOMPSON, 2004, pág. 116)

Thompson se especializou em romper as fronteiras entre autor e personagem e ampliar a confusão entre ficção e não-ficção, na medida em que, drogado ou bêbado não se furtava de narrar os fatos e suas impressões. As drogas representam em Thompson um bom motivo para romper a barreira entre o que de fato ocorreu e o que só aconteceu na mente alucinada do repórter, e esta é uma forma de questionar qual o papel da imparcialidade e da objetividade jornalísticas. Bebendo uísque com membros de uma tribo de índios colombianos ou se drogando em Las Vegas, Hunter Thompson é a personalidade diametralmente oposta à elegância que caracteriza autores como Gay Talese e Joseph Mitchell. Esta radicalização do comportamento é fundamental para entender os textos de Thompson e sua importância para a história do jornalismo. Não há nada que fazer, exceto beber. Depois de cinqüenta horas fazendo isso comecei a perder as esperanças. Não conseguia ver onde aquilo acabaria. Já é muito ruim beber scotch o dia inteiro em qualquer clima, mas vir aos trópicos e começar a entorná-lo por três horas cada manhã antes do café pode provocar danos generalizados à saúde. Pelas manhãs, tínhamos scotch e braço de ferro. À tarde, scotch e dominó. (THOMPSON, 2004, pág. 118)

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O artigo de estréia de Thompson na revista Rolling Stone foi um relato sobre sua campanha para se eleger xerife da cidade de Aspen, no Colorado, famosa pelas pistas de esqui frequentadas pelas celebridades. Ele perdeu a eleição por poucos votos. Thompson se matou em fevereiro de 2005 com um tiro na cabeça.

Outro ícone gonzo é o crítico musical Lester Bangs, que ganhou fama nos anos 70 escrevendo suas críticas militantes de rock em revistas como a Rolling Stone, a New Musical Express e, finalmente, a Creem, onde ganhou a liberdade que precisava para escrever as suas mais puras verdades sobre os astros do showbiz. Lester, influenciado pelos escritores da geração beat33, entra naquele time conhecido como Novo Jornalismo “[...] em posição prejudicada, no “subgênero” gonzo (narrações picarescas repletas de substâncias psicotrópicas), [...] e dentro do gonzo, num subgênero ulterior, o escrever rock (que não é simplesmente o escrever sobre rock)” (BANGS, 2005, p. 11).

A principal característica do texto de Bangs, além do profundo conhecimento musical e da perseverança em defender o rock como o autor acredita que o rock deve ser, é transparecer a relação de amor e ódio que nutre com seus personagens. Na reportagem Vamos agora louvar os famosos duendes da morte, ou como enfiei o pé na jaca com Lou Reed34 e fiquei acordado, o crítico entra bêbado no terreno pantanoso da entrevista-com-uma-celebridade. Lou Reed representa para Bangs toda a contradição inerente à qualidade de astro do rock, papel próximo ao do herói, mas um herói humano, cheio de falhas e passos em falso. Essa avaliação dúbia é o pilar de sustentação do texto.

Em outras palavras, Lou Reed é um pervertido depravado completo e um duende patético da morte e tudo mais que você quiser pensar que ele é. Acima de tudo isso, ele é um mentiroso, um talento desperdiçado, um artista em fluxo contínuo e um mascate vendendo quilos de sua própria carne. Um gigolô vivendo do niilismo bronco de uma geração anos 70 que carece da energia para cometer suicídio (BANGS, 2005, p. 76).

Lester Bangs se cansou do rock algum tempo depois, quando as coisas começaram a ficar chatas para ele. Morreu em 1982 de overdose de medicamentos, quando tentava se livrar do alcoolismo.

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Jack Kerouac e William Burroughs foram dois importantes escritores desta geração que se caracterizou pela escrita espontânea. 34 Lou Reed, pseudônimo de Lewis Allen Reed (nascido em 2 de março de 1942 no Brooklyn, Nova Iorque), é um cantor e compositor norte-americano de rock. Antes de seguir em carreira solo, foi líder do grupo musical Velvet Underground.

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8 - Reportagens

8.1 - Jean-Pierre libera meia-entrada Vítor de Azevedo Lopes

Bem que eu tentei. Saí cedo do trabalho, peguei o primeiro ônibus que me levasse ao Centro da cidade. O caminho é longo. Os poucos quilômetros que separam a Enseada do Suá, onde eu estava, do bairro mais movimentado da Capital, parecem se multiplicar progressivamente com o trânsito pesado da hora do almoço. Mas bem que eu tentei chegar a tempo e não perder nenhum minuto sequer da festa de aniversário do francês Jean-Pierre. Não deu. Na porta do local marcado, ainda fiquei naquela de entro ou não entro? As pessoas passavam rapidamente. Era um entra e sai sem tamanho. Umas olhavam atravessadas, outras sequer viravam o rosto para dentro. Eu mesmo fiquei um tempo parado do outro lado da calçada, observando desconfiado. Afinal, eu não conhecia os convidados nem aquele ambiente muito bem. Enquanto esperava dois rapazes terminarem a conversa para que eu pudesse entrar sem ser notado por muita gente, via cada vez mais homens se curvarem para onde estaria sendo realizada distração programada para o Jean-Pierre. Na verdade, eu nem sabia quem era o Jean-Pierre ou se esse era o nome dele mesmo. Mas como a minha entrada não estava proibida, acabei meu auto-convidando. Opa! Terminaram a conversa. Lá fui eu. Atravessei a rua e já na boca do estabelecimento duas senhoras acompanhavam com os olhos os meus passos. Abaixei a cabeça e segui. Jean-Pierre deve ser daqueles caras que não perdem dinheiro em nenhuma ocasião. Estava cobrando R$ 6 para quem quisesse participar da comemoração. Eu, estudante, perguntei se poderia pagar meia, já que em festas e eventos culturais tenho direito a isso. O bilheteiro Edenilson disse que R$ 6 já era o preço promocional de meia-entrada. Ou seja, todo mundo ali tinha a meia-entrada garantida. Parecia um bom sujeito esse Jean-Pierre. Mesmo cobrando, tentou facilitar a vida de alguns menos favorecidos. - Eu não conheço muito bem o ambiente, o tipo de gente que dá aqui, que entra aí. Você tem algumas recomendações para marinheiros de primeira viagem como eu?, perguntei sem nenhuma timidez ao bilheteiro. Ele demorou alguns segundos para responder porque ainda esperava o término dos créditos do filme que estava passando na sua pequena TV. - Olha. É a sua primeira vez? - Aham. 45


- Você veio sozinho? - Vim. Isso tem problema? Eu só não queria atrapalhar ninguém e não ser atrapalhado. - Não, não. Então é melhor você ficar na parte da frente. Lá atrás acontecem umas doideiras. – sentenciou o bilheteiro entre risos. -Tá bom. Na frente, não é? O melhor lugar, não é? - Isso. Você fuma? - Fumo não. - É que se quiser fumar, temos uma área reservada para tal e é lá no final, lá atrás. - Lá nas doideras, não é!? Não, não. Nem se eu fumasse eu iria lá atrás hoje. Ainda não quero conferir o que seriam essas doideiras que você está dizendo. Parecia ser um rapaz de boas intenções esse francês Jean-Pierre. Em sua festa de aniversário separou até área para fumantes. Deve ser a primeira festa que vou que tem essa divisão. Tirei o meu dinheiro do bolso e apresentei a minha carteirinha de identificação de estudante. Fiz isso sem valia nenhuma, porque, como eu já tinha me esquecido, até idoso vai poder curtir o evento com o preço promocional. Entreguei uma nota de R$ 5 e outra de R$ 2 ao Edenilson. Para a minha surpresa, junto do troco de R$ 1 veio uma camisinha de embalagem toda colorida. Esse Jean-Pierre estava com tudo e parecia querer mais do que uma simples festinha com os seus convidados do dia. - Sabe como é, não é?! Tudo pela saúde. Se quiser fazer alguma coisa, dirija-se ao banheiro. Fica nos fundos e, se precisar, use camisinha. – finalizou o bilheteiro antes que eu entrasse. Respondi secamente, olhando para o presente que tinha acabado de ganhar. Ai, meu Deus! O presente! Esqueci de levar o presente para o Jean-Pierre. Mas acho que ele não iria se importar muito, afinal, estava pagando para ir à festa dele e o que poderia ser uma grosseria serviria até como início de uma conversa, já que nesta celebração eu não era íntimo de ninguém. Após pegar o troco, coloquei a camisinha dentro da bolsa amarela que carregava. Não estava com esperança de usar aquilo às 13 horas de uma segunda-feira de sol marcante. Aproveitei para desligar o celular, não queria incomodar muito. Abri a cortina preta que deixava o ambiente da roleta de entrada quase num breu total. Era possível ver ainda o Edenilson conferindo os créditos iniciais do novo filme que saltava mecanicamente em seu aparelho de TV branco de 14 polegadas. É interessante notar que Jean-Pierre tenha preparado a festa até com uma roleta. Seria mais fácil e prático um livro de visitas onde o convidado 46


pudesse escrever alguma mensagem de carinho, apoio e felicitações. Bem ali ao lado da grade que me separava de Edenilson eu já podia ouvir os sons que rolavam dentro do salão. Estranhamente, e isso me deixou surpreso, quase não se ouvia música. E nem pessoas conversando. O meu ar era de preocupação. Estariam todos ocupados, preparando uma cilada para mim, já que eu era um penetra, um desconhecido que tinha me auto-convidado a participar daquela celebração?! Mas como eu tinha pagado a entrada, a meia-entrada, digo, desencanei e entrei. - Ow, yeah! Ow, yeah! Ow, yeah! Ow, yeah! Ow, yeah! Yeah! Yeah! Yeah! Yeah! Yeah! Yeah! Yeah! Yeah! Yeah! Yeah! Ow! Ow! Ow! Ow! Ow! Ow, yeah! Ow, yeah! Ow, yeah! Ow, yeah! Ow, yeah! Ow, yeah! Ow, yeah! Ow, yeah! Ow, yeah! Ow, yeah! Ow, yeah! Ow, yeah! Ow, yeah! Ow! Ow! Ow! Yeahhhhhh! Eu só conseguia ouvir isso. A escuridão era total e eu não sabia se onde eu tinha entrado era o início ou o final do salão. Como o Edenilson tinha me aconselhado a ficar na parte da frente, esperei um pouco até que meus olhos se acostumassem com o negrume para poder enxergar um pouco. - Ow, yeah! Ow, yeah! Yeahhhhhhhhhhh!... O pessoal parecia estar animado mesmo. - Amigo, dá licença, por favor!, um sujeito bateu no meu ombro e abriu caminho. Entrou direto. Não conseguia ver onde ele estava sentado e me dei por satisfeito, afinal, não queria fazer amizades ali. De repente, ouvi o barulho de alguém abrindo uma latinha de cerveja. O vulto passou na minha frente gargarejando o líquido. Nem me ofereceu. Eu que pegasse a minha. - Ow! Ow! Ow! Ow! Ow! Ow! Ow! Ow! Ow! Ow! Ooooooooow! Voz de mulher! Isso é importante numa festa. E pelo o que ela dizia, ou melhor, pelo o que aquele som representava, começava a fazer sentido o motivo da existência da camisinha que o bilheteiro tinha me dado. A festa parecia estar, como dizem por aí, quente. Mas não me apressei e deixei o presente do Edenilson na minha bolsa mesmo. - Jean-Pierre! Jean-Pierre! C’est bon! Alguém chamava por Jean-Pierre e agora era voz de homem. Os gritos de ow e yeah não me permitiram saber onde estava o Jean-Pierre nem o que ele tinha respondido. Mas como o homem falou em francês, fiquei um pouco incomodado, afinal, sei apenas algumas poucas palavras neste idioma, o suficiente para não ficar sem comer. Meus olhos não tinham se acostumado à escuridão e fiquei ainda alguns segundos parado na porta de entrada. Toda hora alguém vinha e me cutucava pedindo licença, até que o 47


Edenilson chegou e solicitou que eu liberasse a entrada para as pessoas. Eu não vi o bilheteiro, mas fui capaz de reconhecer a voz dele enquanto uma mulher se esgoelava gritando Ow, Yeah! Jean-Pieeeeeeeeeeeeeeeeeeeeerre!. Mas Jean-Pierre continuava sem responder. Resolvi obedecer ao pedido do Edenilson e procurar um local para me sentar. Com os braços esticados para frente, meio que me prevenindo caso eu viesse a esbarrar em alguma coisa, senti uma cadeira. Mais uns centímetros pro lado, outra cadeira. Outros centímetros, outra cadeira. Foi quando percebi que era uma fileira. Meus olhos já estavam se acostumando com o ambiente quando atentei que a entrada do salão ficava na parte da frente do mesmo. Primeira problemática solucionada. Muitos homens continuavam a entrar na festa e ninguém falava com ninguém. Aos poucos fui percebendo que eu não era o único estranho. Ali, quase ninguém se conhecia e quanto menos você falasse, melhor para o andamento das coisas. O importante era não quebrar o clima nem o ritmo. Com o que consegui ver, cerca de 15 pessoas estavam no mesmo salão que eu. Na minha fileira, apenas um. Na da frente, um homem. Na primeira, dois homens sentados um ao do lado do outro. Atrás... bem, eu preferi não olhar muito para trás. Resolvi seguir os conselhos do Edenilson e confiei que das minhas costas para trás as doideiras não me interessariam por enquanto. Em dado momento, o cara que estava sentado logo na segunda fileira levantou-se e foi em direção ao bar para se servir de uma latinha de cerveja. Caminhou lentamente e não parou de olhar para cima. - O que quer? – perguntou o rapaz que tomava conta dos produtos. - O que tem? – respondeu perguntando. - A Skol é dois e cinqüenta. A Schin é dois reais. Refrigerante dois e por aí vai. - Vou querer uma Schin. Enquanto comprava, de longe pude perceber que o que mais devia sair ali na festa do Jean-Pierre era a Schin mesmo. Devia ter umas 30 caixas de Schin no estoque quente e um pouco menos de Skol. A diferença de preço entre ambas e o local do encontro ajudavam para que a mais barata realmente fosse a mais consumida. Cerveja aberta, líquido escorrendo pela garganta e espuma pelos cantos da boca, o homem nem voltou para se socializar. Ficou parado na porta do bar bebendo uma atrás da outra. Incógnito. - Oui! Oui! Oui! Oui! Oui! Ow! Yeah! Ow!!! Uhmmmmm! Ahmmmmm! Yeah! Pelo sotaque do oui, deduzi, finalmente, ser a voz do dono da festa. Era Jean-Pierre! As pessoas não davam muita bola para ele. Na verdade... Bem. Naquela escuridão, descobrir muitos nomes era uma tarefa ingrata. Mas aos poucos pude decorar os das pessoas mais ativas 48


no ambiente, já que estavam ali desde cedo em plena atividade. Eis a lista inicial: Claudie de Moro, Martina Black, Zohra, Bety, Mercerdesz, Xena, Janet, Robert Rosemberg, Zanza Raggi, Zoltan, Reinhard, Ferene e Jean-Yves Castel. Fiquei conhecendo todos em sua plena intimidade, bem como ocorreu com alguns outros presentes na festa. Já estava há uns trinta minutos dentro do salão sem conversar com ninguém, no meu canto, sentado sozinho, sem interagir mesmo. O ambiente parecia tão democrático que um senhor que deveria beirar os 70 anos entrou, sentou na primeira fileira e, depois de algum tempo sem ter dado sequer um oi para alguém, reclinou o corpo, ajeitou a blusa com a mão direita, a calça com a esquerda e... dormiu. Parecia estar dormindo gostoso de tanto que roncava. Já entediado e incomodado com o ronco do senhor, finalmente pude ver quem era o dono da festa. Mas o que mais chamava a atenção era que Jean-Pierre não interagia muito com os convidados e resolveu ficar somente entre seus amigos estrangeiros de nomes curiosos, afinal, não é todo dia que a gente vê uma Mercedesz com S e Z no final do nome. Meio frio e distante, Jean-Pierre chamou a atenção de todos os presentes e resolveu apresentar quem eram todas aquelas pessoas ou boa parte delas. O passeio interativo começou pela sala e já pude ver Xena e Zohra bem à vontade com Reinhard. Jean-Pierre resolveu não ficar muito tempo ali para não atrapalhar o encontro dos três. Antes de sair, porém, o francês não se esqueceu de dar um tapinha na bunda de Zohra, que retribuiu com um sorriso e nenhuma fala. E aos poucos fui percebendo que as mulheres ali pouco falavam. Tudo era insinuado (uhmmmmm! Ahmmmmm! Yeah! Ahmmmm! Ahmmm! Uhmm! Uhm! Uhm! Uhmmmmmm! Yeah!!! Yeahhhhhhhhhhh! Yeaaaaaaaaaaah!). Na cozinha, mais gente se entrosando e aos poucos o cenário da casa de Jean-Pierre estava tomado por casais em pleno estado de intimidade sexual. No quarto de hóspedes, pelo que notei, a bola da vez estava na mão da Janet. A amiga de Jean-Pierre tomava conta de três homens ao mesmo tempo. Vale deixar claro que era uma cama de solteiro e, por isso, nada mais natural que os homens disputassem enquanto sofriam o risco de caírem. Como não conhecia ninguém, fiquei parado no meu canto e, inclusive, sem nenhuma intimidade comigo mesmo, tamanha a frieza do lugar. Tal distanciamento era agravado pela temperatura baixa do recém-instalado ar condicionado que, segundo me confidenciou o bilheteiro Edenilson, foi uma exigência da Secretaria de Saúde do Município para que tudo aquilo pudesse transcorrer sem maiores transtornos. A festa ia dentro de todas as legalidades. E só assim, com o clima agradável, é que seria possível agüentar sete dias de festa. É por esse tempo que Jean-Pierre ficaria instalado com sua trupe ali no Centro de Vitória, num lugar que já tinha sido loja de roupa e venda de móveis fabricados em Colatina, norte do 49


Estado. A escolha do local era estratégica, diga-se de passagem. Avenida República em frente ao número 119, antigo casarão que atualmente serve como sede para o Museu Capixaba do Negro, para uma loja de usados (qualquer coisa é vendida ali) e também para uma delegacia. De dia, o logradouro é movimentado pelo comércio, servido por diversas linhas de ônibus. À noite, a região - que fica nos arredores do Parque Moscoso, criado em 1912 e tendo sido até o final da década de 1960 uma das áreas mais nobres da cidade - transforma-se no que podemos também chamar de zona de baixo meretrício. Alguns casarões do início do século que serviam suas varandas para as tardes das senhoritas das tradicionais famílias capixabas hoje já não são mais os mesmos. Raros são os “nobres” que continuam ali. Muitos preferem a zona norte da cidade, indo habitar as laterais da ilha ou a parte continental. Foi no Bairro do Moscoso, que hoje conta com 605 domicílios, sendo 74 casas e 531 apartamentos, com uma escola de ciência e física, com igrejas evangélicas e com apenas uma unidade de saúde, que a cidade mais sentiu as mudanças urbanística e sociai. Algumas esquinas e casarões servem agora de ponto fixo para a prostituição e para apresentação de garotas de programa em busca de alguns reais para sobreviver. E Jean-Pierre deve se sentir muito confortável entre essa história e seus habitantes. Como ia dizendo, Jean-Pierre pelo menos em um ponto resolveu não ser muito discreto. Quis que todo mundo ficasse sabendo que ele e seus companheiros e companheiras estariam em Vitória por no mínimo sete dias, tempo determinado pelo seu distribuidor – sim! – paulistano. O francês trouxe até um cartaz ilustrado com foto e um título sugestivo: Assman nº10. Pelo que entendi, essa já deve ser a décima festa que Jean-Pierre faz na cidade. Começo a me sentir meio deslocado por só ter conhecido isso agora, dez edições depois. Jachson, o dono do galpão onde acontece o encontro inusitado, me informou secamente, enquanto esperava Edenilson voltar do banheiro, que o público é cativo. - Muitos entram aqui de manhã ou depois do almoço e ficam o dia inteiro. Não duvidei, afinal o salão tem um bar que serve comida e, como o ambiente é agradável na parte da frente, basta ficar despreocupado com todo o resto. Pensando em satisfazer todo mundo o tempo todo e como o local era freqüentado quase em sua maioria por pessoas do sexo masculino, o proprietário Jachson ficou atento a isso até durante a última Copa do Mundo de futebol. O fracasso da seleção brasileira em campo foi acompanhado de perto pelos freqüentadores. Muitas pessoas deixaram de assistir aos jogos do Brasil em casa com a família, por exemplo, para conferir as partidas numa das 160 cadeiras de madeira com estofados de mola que antigamente pertenceram ao Cine Paz, um dis cinemas de rua da cidade que, desativados, hoje servem como filiais de igrejas evangélicas neopentecostais. As transmissões dos jogos começavam no telão e após os 45 minutos iniciais, sem que as luzes 50


fossem acessas, (“logicamente”, como marcou o dono), rolava um vídeo de 15 minutos que fazia lembrar alguma das dez festinhas já dadas por Jean-Pierre. Era só o jogo recomeçar que desligavam o filme. “Homem gosta de sexo, mas também de futebol, não é?”, ouvi alguém dizer enquanto sumia na cortina preta da entrada. Bola dentro, bola fora, o futebol não era mesmo o assunto preferido ali naquele ambiente. Enquanto Jean-Pierre terminava de mostrar a sua casa para os convidados estrangeiros – alguns franceses e a maioria ingleses, creio, principalmente por conta do tom da pele e do sotaque carregado pouco comum em filmes hollywoodianos que já institucionalizaram a língua inglesa de acento norte-americano sendo a universal e mais correta –, aqueles que tiveram de pagar para entrar no salão arrumavam um jeito bem particular para poder interagir com os amigos do francês. A lógica dentro do salão era simples. As 160 cadeiras estavam majoritariamente divididas na área principal em cerca de quinze fileiras com nove assentos cada. Como era a minha primeira vez, muitas coisas foram aprendidas na base da intuição e do instinto. Sem saber, acabei por obedecer à regra não escrita, mas institucionalizada – e isso me deixou aliviado – que sugeria na parte da frente somente duas pessoas por fileira. E isso vem servir à lógica de não incomodar ninguém caso você queira sair para ir embora ou dirigir-se ao banheiro por alguma necessidade sanitária, física ou sexual. Imagine o constrangimento de você ter de interromper, por exemplo, o sono do velhinho ou a concentração de alguém com um “dá licença, deixa eu passar, por favor!”. Na parte central do salão ficavam os casais. Não casais formados por um homem e uma mulher, mas de homossexuais que respondiam pela quase totalidade das pessoas que iam à festa do Jean-Pierre em busca de diversão. No meio, a regra do dois-em-uma também prevalecia, mas nesse caso a norma respondia por dois casais por fileira, ou seja, aumentava para quatro-em-uma. Na parte de trás... Bem... resolvi conhecer a parte de trás, a tão temida parte de trás cheia de doideiras que o Edenilson já tinha me contado antes mesmo de eu entrar. Levantei-me com calma e me assegurei que não iria atrapalhar ninguém quando da minha saída da fileira. Fui com bonança e estacionei meu corpo tenso no corredor lateral revestido por um azulejo escuro que servia para facilitar a sensação de blecaute do local. Quanto mais escuro, mais privacidade. Pé-ante-pé me dirigi para a parte de trás e repentinamente percebi que as minhas primeiras impressões estavam fadadas ao fracasso da precipitação. Não havia 15 pessoas dentro da festa. Nada de poucas cervejas. Nada de casais comportados e cada um na sua. Nada de duas ou quatro pessoas por fileira. Nenhuma regra ali

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era respeitada. Quanto mais eu me aproximava do fundo, mais pessoas chegavam perto de mim, me cercando, quase como a perguntar, mas sem dizer, “e aí, tá afim?”. Abaixei a cabeça e não falei com ninguém. Passei por 1, 2, 3, 4, 5, 9, 10, 15, 20, todos em pé na parte final do corredor, todos bebendo cerveja, um ou outro já sem camisa, e todos de olho em mim. A sensação era a de que quem ia ali atrás queria mais do que curtir sozinho a festinha do Jean-Pierre daquela noite. Então, pude perceber que a festa era ali mesmo. Lá na frente estava tudo muito calmo, muito morno, muito sem interação. As pessoas ali atrás falavam e alguns gritos de uhmmmm e ahmmm que eu tinha escutado eram emitidos mais por estes homens do fundo do que pelos compadres e comadres do francês dono da noite. Furei a barreira de homens que se formou no corredor com a minha súbita chegada e adentrei no que parecia ser uma zona proibida. Na verdade, era só a zona reservada aos fumantes. Luzes acessas, entre muita fumaça, um casal fazia sexo no fundo da sala, outro, um pouco mais para o lado, enquanto as desventuras de Jean-Pierre eram exibidas numa televisão de poucas polegadas. Os gritos de ui, ai, uhmmm, que bom, mais um pouco, filho da puta, ahmmm, viadinho, gostoso e sua cachorra eram comuns e facilmente assimilados por qualquer um ali dentro. Não muito acostumado ao ambiente, fiquei pouco tempo parado na porta e antes que eu fosse abordado por alguém, resolvi deixar o local e voltar ao salão. Mesmo com uma vontade enorme de ir ao banheiro, resolvi suspender a empreitada. Jean-Pierre já tinha dado seu adeus aos presentes que o assistiam no telão do único cinema pornô em funcionamento em Vitória, criado oficialmente em 2002. O mineiro Jachson viu nesse negócio um bom meio de conseguir dinheiro na vida. Em Belo Horizonte, Jachson era espectador assíduo de qualquer um dos vários cinemas pornôs da capital de Minas Gerais. Acostumado a vir ao Espírito Santo visitar parentes e passar pedaços de férias, quando soube que o único cinema pornô da cidade, o antigo Santa Cecília, com capacidade para 1400 pessoas, havia se transformado em templo da Igreja Universal do Reino de Deus, resolveu ele mesmo investir no ramo do qual costumava ser cliente. Resultado: após fazer uma pesquisa de mercado, viu que seria rentável. Procurou um imóvel, reformou as cadeiras, fez contato com um distribuir de filmes eróticos de São Paulo e montou o seu próprio cinema, o Cine Erótico. As estréias acontecem toda sexta-feira, às 10 horas da manhã. Os filmes em VHS chegam de avião. Não existe projeção em DVD. Aos poucos, o negócio foi crescendo. Visado pelas autoridades municipais, Jachson tem de andar na linha, como ele mesmo gosta de deixar claro, por isso instalou todo o moderno sistema de ar-condicionado, equipou o banheiro com certas exigências da vigilância sanitária, além de ter se aproximado da Secretaria de Saúde.

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- O meu cinema é como qualquer outro de shopping center. Mas tenho um diferencial que é o tipo de público, os olhos mais atentos das autoridades, além do cliente poder entrar, com um único ingresso, às 10 da manhã e sair às 10 da noite. E ainda ganha uma camisinha de brinde. – comenta. O público realmente é apaixonado pelo negócio, mas a mesma afetividade Jachson não recebeu quando largou o bem-estruturado escritório de odontologia em Belo Horizonte para se dedicar ao novo negócio. Aos poucos, os conhecidos ficaram sabendo que sua vida seguiria. - Esperei alguns tratamentos dentários terminarem para poder me mudar de vez. E fui comentando com alguns clientes que depois de anos ali no consultório se tornaram amigos. A maioria não acreditava e dizia que eu era maluco. Afinal, larguei 15 anos de vida como dentista. Mas eu queria mesmo era ganhar dinheiro e virar empresário. Só recebi incentivo da minha irmã. - E da esposa, filhos? O senhor tem esposa e filhos?, perguntei. - Não. Não tenho. – finalizou o assunto secamente. Quando perguntado sobre o primeiro dia de funcionamento, Jachson me olhou nos olhos bem desconfiado e relembrou alguns detalhes daquele 15 de junho de 2002. - Com relativo bom movimento, as pessoas foram entrando e maioria estava com saudade do Cine Santa Cecília, não é!? Então, na verdade, não foi nenhuma novidade para a cidade, até porque eu funciono quase do lado do antigo cinema pornô da cidade. Sem muita conversa e visivelmente pouco confortável com o meu interesse pelo funcionamento do local, afinal quanto mais discreto fosse o funcionamento do Cine Erótico – exceto pelo gigante letreiro na fachada do estabelecimento –, melhor para os clientes. No momento em que eu tentava abordar alguns dos freqüentadores, que se mostravam distantes e reticentes a qualquer tipo de conversa sobre a ida deles àquele local, Jachson pediu licença para poder se dirigir ao médico, já que tinha consulta marcada para dali a poucos minutos. Enquanto se levantava do caixa, diversas pessoas passavam pela roleta em direção ao salão. - E por que não há intervalo entre os filmes?! – arrisquei a pergunta. - Lógico que não posso fazer isso! Imagine! Seu eu acendo a luz, pego todo mundo de calça curta! - Ahmmmmmmmm! Uhmmmmmmmmm! Ow! Yeah!

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8.2 - Rebelde (sXIII) 'id.', do lat. Rebellis Vítor de Azevedo Lopes

- Ahhhhhhhh!!! Dez dias antes, a plaquinha marcava “Aqui tem seis pessoas”. Hellen, Lorena, Carla, Paula, Júlia e Zama. - Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhh!!! Três dias antes, a plaquinha marcava “Aqui tem 150 pessoas”. Thais, Marina, Vitória, Hellen, Lorena, Zama, Carla, Paula, Júlia, Fernanda, Cleide, Patrícia, Luana, Camila, Thereza, Cristina, Mila, Pattyzinha, Fernanda, Ana, Andréia... - Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!!! Faltando exatas oito horas para o início de uma histeria monumental, a plaquinha, no primeiro dia pintada à tinta guache e depois à caneta, que servia para assinalar os reunidos, já tinha sumido, bem como as mais de 30 barracas, juntas até poucos minutos atrás. Kássius Ricardo Nunes, William Santos Moreira, Hellen, Lorena, Carla, Paula, Júlia, Zama, Thamila, Jessielem, Bianca, Carol, Maykon, Alerrandra, Ana Luíza, Dayanna, Alessandra, Monique Pinheiro, Adulza Pereira, Monique Pinheiro, Natalya Araújo, Caroline, Amanda, Thais Caetano Prates, Raiza Mayara Bezerra, Milena, Bruna da Rocha, Julia Brandão, Isadora Vieira Santos, Tainan Oliveira, Izabela, Diana Cravo dos Santos, Érika Cristina, Bárbara, Waysla, Roberta, Raiany Souza Albina da Silva, Charles Bragança, Vitória Gomes Caetano, Robson Amorim de Freitas, Jéssika, Maria Eugênia, Pámela Dias, Mayana Yume, Alna, Luiz Paulo de Souza... e milhares de outros nomes que poderiam encher páginas de jornais, agora se misturam entre histéricos gritos de crianças e adolescentes cujo fanatismo compete com os berros desesperados ambulantes loucos para vender tudo o que carregam nas mãos e nas mochilas. Vestida de camisa branca com detalhes em rosa e verde na manga curta, Hellen espanta o sono das três horas da tarde brincando com a amiga Carla de cantar uma música, qualquer uma, a partir de uma palavra previamente estabelecida. Perde quem não lembra. - Vamos lá, então. Rosa! - “O cravo brigou com a rosa, debaixo de uma sacada, o cravo saiu ferido e a rosa despedaçada.” - Fácil demais. Uhmm. “Arrasa o meu projeto de vida, querida, estrela do meu caminho, Espinho, cravado em minha garganta, garganta”. Lá, lá, lá... Uhmm. Ai como é?! Ai! “Coitada, trabalha de plantonista, artista, é doida pela Portela, oi ela, oi ela...”. 54


- De quem é essa coisa? - Ana Carolina. - Não é não. Você inventou. - Eu não. - Então canta outra porque essa eu não conheço. - Azar o seu. Canta você agora! - Tá bom. Mas não invente outra, heim! “Eu te dei uma rosa, que encontrei no caminho, não sei se estava nua, ou se tinha algum espinho”... - Essa é palha. Fácil! Palavra chata essa, vamos mudar. - Mas você perdeu essa! Um a zero para mim. Uhmmmm. Mesa! - “Garçon, aqui nessa mesa de bar, você já cansou de escutar, centenas de caso de amor” - “Saiba que o meu grande amor hoje vai se casar, mandou uma carta para me avisar, deixou em pedaços o meu coração...” - Sua burra! Você pulou um pedação! - Sai pra lá, deixa. Minha vez com mesa agora. “Tun, tum... tum, tum... A mina sobre a mesa mesa mesa, perna aberta sobre a mesa, de biquinho sobre a mesa mesa mesa mesa, de ladinho sobre a mesa mesa mesa, a galera sobre a mesa mesa mesa mesa memesa mesa memesa, a galera sobre a mesa mesa mesa mesa memesa mesa memesa.” As duas juntas continuam o funk enquanto batem as mãos nas pernas que ficam vermelhas de tanta força: - “Ahh!!! Danada, é pá esculaxa, a mina sobre a mesa mesa memesa mesa memesa”. - Essa é muuuuito boa. O Serginho é foda! - É. Foda! - Outra, vamos lá. Janela! - Ridículo! Janela?! “Quando o sooool bateeeeeer na janeeeeela do seu quaaartooooo...” - Ai que brincadeira chata! Logo se cansam e passam a procurar outra coisa para fazer. Afinal, faltam ainda cinco dias para o que elas chamam de o grande dia da minha vida, o dia mais importante do mundo, o momento mais feliz da minha vida, o dia em que vou morrer, o dia em que meu coração vai parar, o dia em que eu vou perder a minha voz, o dia em que eu não vou conseguir respirar, o dia em que eu não serei eu, o dia que eu não quero que acabe nunca... Tudo isso por conta do show da banda teen RBD, formada a partir de um programa de televisão mexicano 55


chamado Rebeldes e que se tornou um enorme sucesso em toda América Latina. Logicamente, o Brasil não ficaria de fora. Do mesmo modo que as palavras escapam para descrever o sentimento que toma conta do corpo e da mente das meninas e meninos, elas vêm em momentos de extrema euforia quando citada as três letrinhas mágicas que batizam o grupo. Rebeldes, por sinal, não é o que são aquelas meninas e meninos reunidos aos montes na extensa calçada que margeia a Praça do Papa, na Enseada do Suá. Hellen tem 13 anos e estuda a sétima série numa escola em Mata da Serra, município da Serra, ao norte da Capital. Carla tem a mesma idade e é colega de classe de Hellen. As duas cumprem uma rotina considerada chata. Durante a semana, acordam às seis da manhã, na maioria das vezes com a cara amassada pelo travesseiro mole e pelas poucas horas que já se acostumaram a dormir. É programa obrigatório ver todas as novelas do dia. “Não são muitas, dá para contar nos dedos. Dá umas sete”, calcula Carla. Ou seja, gastam em média seis horas diárias na frente da TV. O último folhetim só termina por volta das 22 horas. E dormem depois disso? Não. O programa pós-novela é conversar na Internet. Ficam horas no MSN e no ICQ ao mesmo tempo, conversando com amigos e desconhecidos que conheceram pelo Orkut. E conversam, e conversam, e conversam, e conversam... Só saem quando os pais chegam ameaçando desligar o computador na marra. A rotina se repete ao longo do dia. De manhã, tomam um reforçado café, normalmente composto por pão, leite, presunto e queijo. As duas saem de casa e só vão se encontrar na porta da escola, quando, já vestidas com o uniforme, passam a se parecer cada vez mais com as milhares de meninas que passam o dia inteiro a esperar o dia passar até que chegue a hora das novelas da noite. No colégio, costumam prestar pouca atenção às aulas. O momento libertador parece ser mesmo o recreio. Lá, todas ficam num cantinho, fofocando, como elas mesmas dizem entre risos desconcertados. Quando não estão falando de novelas, revistas, celebridades e sobre outras meninas, o assunto quase sempre preferido são os meninos. Falam de todos, mas poucos dos que têm a mesma idade que elas. Preferem os de quinze anos. - São mais maduros, conhecem mais as meninas. - E beijam melhor, né?! – ri Carla. - Além do mais, os moleques da nossa idade são crianças demais. - É! Isso! Mal querem saber de nós. Ficam falando só de futebol. É futebol pra lá, futebol pra cá. Um saco eles. Ciúmes à parte, quando acabam as aulas do dia, voltam para casa a pé mesmo, já que têm vergonha de pegar carona com os pais.

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- Não dá. Andar de carro com os pais é a coisa mais careta que existe! Principalmente vir para a escola - sentencia Hellen. - Putz! Que vergonha! À tarde, já de volta à casa, almoçam a comida preparada por uma diarista. Na casa de Hellen, Maria da Conceição já trabalha há uns cinco anos. Na de Carla, a outra Maria, só que das Graças, tem pouco tempo de experiência. Por isso mesmo o pessoal não se acostumou ainda com o tempero e os pratos que costumeiramente saem. Cada dia é uma carne diferente com um tempero diferente. Mas o que mais agrada é o arroz, a salada verde com tomates, o feijão, o bife de boi e o suco de laranja com hortelã, uma especialidade da nova chefe da cozinha. O almoço que reúne a família logo é interrompido na casa das duas pelo inicio dos programas de televisão que saem à caça de fofocas e novidades de artistas e celebridades do mundo inteiro. Elas não perdem tempo. Assistem tudo, o que saiu na TV e nos sites da internet sobre as pessoas famosas será assunto das conversas que rolarão em algum lugar da Capital. - Sair aqui na Serra é chato. Tem o quê para fazer aqui?! Nada! – resmunga Hellen. O legal mesmo, como elas apontam, é ir durante a semana para o Shopping Vitória, bem pertinho da onde será o show mais maravilhoso do mundo, motivo pelo qual já estão há dias ali na fila naquela calçada. Até chegar ao shopping, as duas costumam fazer o mesmo trajeto juntas, já que os pais sempre estão no trabalho – além de não ser nada “maneiro” andar com eles, mesmo a carona quebrando um galho. Pegam o ônibus numa rua perto de casa. Como são apressadas, sempre chegam ao ponto cedo demais e reclamam pela demora do coletivo que passa cerca das quatro horas da tarde com destino ao Terminal Laranjeiras. De lá, pegam qualquer condução via Praia de Camburi. Vêem o mar, os prédios altos da Mata da Praia (“deve ser uma nota morar ali”, imagina Carla), os baixos de Jardim da Penha (“já fui algumas vezes, mas sempre me perco dentro do bairro. Aquelas pracinhas são confusas demais. Quem inventou aquilo devia estar querendo confundir quem é de fora”, complementa), os jardins da Praia do Canto com sua Praça dos Namorados até descerem em frente à Assembléia Legislativa (“não faço idéia de quem trabalha ali. São os vereadores?”, se confunde Hellen). Já em frente ao Shopping, as duas não costumam esperar os semáforos fecharem para os carros. Saem correndo pela Américo Buaiz, atravessam a passarela e entram eufóricas dentro do estabelecimento. Lá dentro, costumam correr direto para a praça de alimentação para se encontrarem com algumas colegas de classe e outras de quem ficaram amigas em alguma festinha na casa de conhecidos ou ali mesmo no centro comercial. No shopping gastam cerca de três horas conversando. Quando vai dando à noitinha, se preparam 57


para comer mais alguma coisa e quase nunca ficam a perambular pelas lojas. Os pais não deixam dinheiro suficiente para isso. Na volta para a casa, costumam pegar a mesma linha de ônibus. Normalmente ficam em pé dentro do coletivo super lotado por trabalhadores e estudantes que se deslocam diariamente entre a capital e o município que mais cresceu no Estado nas últimas décadas. O caminho é o inverso da vinda. Enseada do Suá, Praia do Canto, Praça dos Namorados, Jardim da Penha, Praia de Camburi, Aeroporto, Terminal de Laranjeiras e casa. Aos domingos, quando o Shopping Vitória mais está lotado, costumam sair um pouco mais cedo para passear rapidamente pela feirinha da Praça dos Namorados. Lá, com maior liberdade e a areia da praia ao fundo, costumam encontrar algum amigo e se for interessante acabam por ficar com ele. Mas dificilmente rola alguma coisa, já que poucos são os rapazes atraentes para elas. “Na verdade, eu queria o Brad Pitty”, sorri Hellen antes das amigas caírem na gargalhada. Na feirinha, compram brinquinhos, bolsinhas e pulseirinhas de vendedores ambulantes, já que eles têm os preços mais em conta e sabem negociar melhor. Não demoram muito, pois na segunda-feira de manhã terão aula e os pais cobram o cumprimento do horário combinado regidamente. Porém, a regra de não faltar a nenhum dia de aula não está sendo respeitada durante aquela semana. As meninas tentam relembrar os dias que antecederam aquela sexta-feira. Na segunda-feira foram à escola normalmente e assistiram às aulas de português, geografia e matemática. Na terça-feira, não conseguiram prestar muita atenção ao que era dito pelos professores. A ansiedade em relação ao show do RBD era muita, além do mais, iam começar os preparativos para que elas fossem acampar na porta de entrada da Praça do Papa no dia seguinte. Neste mesmo dia, saíram para pegar a barraca emprestada com um amigo e finalizaram as últimas compras. Foram ao supermercado. Compraram água, biscoito, macarrão instantâneo, pasta e escova de dente, sabonete, cadeado, bala e chocolate. Na volta, não saíram mais de casa. Ainda faltava confirmar com uma tia se ela ainda ia passar a madrugada na fila guardando lugar para elas para poderem entrar primeiro no show. - Temos de ver tudo de pertinho. – fala Carla. - É impossível ficarmos longe do palco. Não estamos pagando caro pelo ingresso e enfrentando todo esse perrengue à toa não! – sentencia Hellen. R$ 150 foi o preço que cada uma pagou para poder assistir ao show do RBD das cadeiras, parte que mais próxima fica do palco. Além disso, as meninas só podem entrar acompanhadas por uma pessoa maior de idade, neste caso a tia de Hellen, que teve de desembolsar outros R$ 300, preço do ingresso inteiro. 58


A soma da quantia paga nos bilhetes é o que o aposentado e vendedor de picolés Januário Corrêa Mota, 68, costuma ganhar por mês. O reforço para pagar as contas da família e da casa vem do salário mínimo que recebe como aposentadoria. A casa onde mora em São Pedro, bairro numa das extremidades da Ilha de Vitória, não tem nenhum luxo e está onde já foi um dos maiores aterros sanitários do Estado. Seu Januário, como prefere ser chamado, mora há uns 20 anos no bairro e viu a cara do local mudar. Diz que presenciou o Papa João Paulo II passar pelas redondezas e ficar triste com o que viu. Hoje, com o bairro já em partes recuperado urbanisticamente, mesmo sendo um dos mais pobres da capital, se orgulha de poder dizer que tem água encanada, energia elétrica e que paga todas as contas no início do mês, a maioria das vezes sem atraso. Quando sai para trabalhar, vem à cidade - como ele mesmo costuma chamar a parte mais rica do município - de bicicleta com a mulher Tânia da Penha. Os dois amarram num poste perto de uma padaria em Bento Ferreira a condução que foi comprada usada num ferro-velho. Ela vai para a casa da patroa e ele para a fábrica de picolés. Diariamente, coloca dentro do carrinho cerca de 300 sorvetes de diferentes sabores. Como os que mais saem são os de coco, jaca e limão, dá preferências a este três. A lógica é seguida de perto pelos companheiros de profissão. Foi Waldomiro, outro vendedor de picolé, quem deu um toque para que Januário fosse bater ponto no local também abençoado pelo Papa durante sua visita a Vitória em 1991. A praça que outrora serviu de encontro para fiéis católicos, estava agora repleta de jovens em estado de êxtase. - Waldomiro veio e me disse que ia ser bom vender picolé aqui, que ia vender muito. Está quente, não é?! Então vai vender muito. Mas quando eu perguntei por que ia vender muito, ele me disse que era por conta do show do Rebeldes. Eu fiquei meio encucado. Eu não queria confusão com nenhum rebelde não. Achava que só ia ter gente brava, maluca. Vim de fininho, mas quando vi que só tinha crianças e pais, fiquei mais tranqüilo para trabalhar. De rebeldes eles não têm nada. – fala entre risos Seu Januário. A desconfiança de Januário e o não conhecimento dele em relação ao que seria o show do RBD passam longe de Henrique dos Santos Cruz, “42 anos do sol da cidade maravilhosa, meu irmããão!”. Ele e mais um grupo de aproximadamente 30 pessoas, todos homens, estão numa jornada. Enquanto o grupo de mexicanos roda o Brasil de avião, passando por Manaus, Belém, Fortaleza, Goiânia, Brasília, Recife, Vitória, Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro, as capitais que fazem parte da milionária turnê que durou 18 dias, Henrique e seus conterrâneos cariocas percorrem de ônibus centenas de outras cidades mais, seguindo pela terra o que os famosos fazem pelo ar. O vendedor chega a Vitória depois de passar por Recife e ter voltado ao Rio de Janeiro para pegar mais mercadorias. Ele até perdeu 59


a conta de quantos dias já está sem ver a família. Mas tudo tem uma boa causa. Só em Vitória, sétima cidade da turnê, pretende lucrar cerca R$ 1 mil no único dia em que lá estiver. No final das viagens um total de R$ 11 mil de lucro. Das cidades por onde passou, o vendedor informal já se acostumou ao fato de só conhecer o caminho que o leva da rodoviária até o local do show. Foi assim em Manaus e Brasília, por exemplo, e será do mesmo modo em Belo Horizonte, próxima cidade a conhecer depois de Vitória. Da capital capixaba, se lembra de pouca coisa. - Na verdade, cheguei num faz três horas. Vim direto para cá. Só deu tempo de tomar um café na rodoviária e de ir ao banheiro. O batente começou cedo. Me recordo de ter visto o porto da cidade, que me pareceu pequeno, uns morros no lado esquerdo, um casarão amarelo enorme com uma escadaria amarela, além de prédio e mais prédio. tudo igual A única coisa de diferente mesmo do que já vi em outros lugares é essa ponte alta aqui. Mas no Rio temos uma maior. Bem maior por sinal. Aqui tudo é pequeno. Meus amigos que já vieram aqui me disseram que parece um Rio de Janeiro reduzido. Se for assim, já gostei da cidade, pois sou apaixonado pelo Rio, mesmo com tanta violência. Aqui também é violento, não é?! Ouço dizer isso nos jornais. Então, violência lá, violência cá. Estamos em casa. – conclui entre risos, enquanto apresenta seus produtos, todos falsificados e de venda ilegal, a uma menina que aparenta ter 15 anos. - Moço, quanto custa a faixa pro cabelo? - Dois real. - E o óculos? - Dez real. - E cada foto? - Dois real. - E a pulseira? - Dois real. - E a camisa preta? - Quinze reais. - Nossa! Tem até um binóculo! Quanto custa o binóculo? - Oito reais. - Eu quero um binóculo, uma foto, uma pulseira e uma faixinha de cabelo. A menina tira do bolso da calça jeans uma nota de dez reais e outra de cinco. Henrique não quer perder dinheiro e antes de dar o troco de um real oferece uma faixinha pelo mesmo

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preço. A menina aceita e sai feliz. Ela fica no meio da multidão exatamente no local onde dias antes estavam as duas barracas de Vitória Gomes Caetano e duas amigas de suas filhas. Vitória Caetano não revela a idade, mas a cara bastante maltratada pela ação do sol indica uns 40 anos. Acompanhada pelas meninas Thais e Roberta, está na fila há uns cinco dias. Para poder enfrentar a maratona de dormir na rua dentro de uma barraca, teve de arrumar um esquema todo especial no trabalho. Vitória trabalha como enfermeira numa casa de dois idosos e explica o que teve de fazer: - Botei uma amiga no meu serviço. Estou na fila de segunda-feira. Ela aceitou porque do meu dinheiro eu vou pagar ela, né querido! Não é de graça, não! Cada dia que ela ficar para mim eu sei que quase nada vai sobrar para mim. Eu vou dar a ela 50 reais cada noite. Porque eu durmo com os idosos, porque eu sou enfermeira formada. - E a amiga está gostando? – pergunto. - Lógico que não! Quem quer mexer com velho? Só eu mesmo. Eu trabalho como enfermeira através da minha profissão. Eu trabalho porque preciso. Eu preciso ganhar dinheiro. O pouco que recebe durante o mês será para custear essa aventura mais importante da vida da filha dela. As três parecem exalar fanatismo pelos poros. Quando questionados sobre como é a novela, quase falam ao mesmo tempo. Quem sempre puxa a frente é Vitória. - Nós estamos curtindo demais aqui. [A novela] Já é exibida há um ano. É muito bom. Eles estão na Ilha do Boi. Chegaram quinta. De madrugada passaram aqui. Viram nós aqui dentro e foram para o hotel. Foi muita emoção. Deu vontade de chegar e parar o carro quando eles passaram. – fala num estado de confusão, muito por não acreditar que viram os atores tão de perto. E como sabiam que eram eles dentro dos carros, se estava de noite? - Eu sabia que eram eles porque nós vimos. Ficamos acordadas a noite toda. Algumas pessoas viram, nem todas. As pessoas começaram: “Olha os Rebeldes! Olha os Rebedes!” Só que não adiantou nada. Carro, né? Eles estavam de carro, um carrão bonitão. Era umas três e quarenta da madrugada. Nós estávamos viradas. Dorme, acorda, acorda, dorme, anda pra lá, anda pra cá. – explica Vitória. O desconforto daquela noite de insônia se repetiu todos os dias em que elas ficaram acampadas. A comida é escassa e solucionam o problema lanchando no shopping ou nos bares da redondeza. A hora de ir ao banheiro é a mais complicada. - Ah, meu bem! A gente se vira ali dentro do prédio. Fomos no Palácio do Café e os seguranças deixaram a gente usar os banheiros. Mas não é fácil não. A gente sofre muito aqui. 61


Ta vendo só – [Vitória aponta para um carro em que os passageiros passam gritando obscenidades para as mulheres da fila] –, todo dia é algum insultando a gente, xingando. Ninguém tem respeito mais. E como fazem para ver a novela nesses dias em que estão acampadas? - Nós estávamos programando de trazer uma televisãozinha aqui, mas não deu muito jeito não. A gente está numa paixão de doido aqui sem assistir a novela. Eu assisto à novela no meu serviço. Lá onde trabalho, eu estou trabalhando, mas tô olhando. Minha patroa não está em casa e eu vejo. Tô olhando eles e tô assistindo novela. Tô olhando eles e tô assistindo novela.

Eu gosto da Roberta, que é a Dulce Maria, e gosto do Miguel. – finaliza o

pensamento enquanto enumera seus ídolos preferidos na novela. Vitória continua a conversa enquanto é assediada por uma máquina filmadora no punho de um diretor de cinema interessado em sua história. De fala rápida, comenta que irá dormir na fila e acordará às seis horas da manhã do dia do show para ainda tomar banho em casa. Enquanto Vitória continua seu depoimento à câmera, observa uma multidão de ambulantes instalar suas barraquinhas no que ainda resta de espaço na calçada. O carioca José Paulo Oliveira trouxe 700 gravatas vermelhas para que os fãs pudessem compor o visual rebelde de ser. Milhares seguiram o vestuário à risca. Em duas horas, vendeu cem, a cinco reais cada. Logo em seguida, passa um vendedor de bala correndo. Na mesinha de madeira que ele prende por uma corda ao pescoço, balas, chicletes, papéis e cigarros. Jaime Rodrigues da Silva já vendeu 40 bandanas a cinco reais, 30 munhequeiras a cinco reais e oito gravatas em apenas dez minutos. Abidias Jorge dos Santos já comercializou 30 picolés de côco, 40 de limão, cinco de uva, 17 de chocolate e do resto perdeu a conta. Maria da Conceição Silveira também não fica atrás nas vendas. Quer garantir o que ganha no mês inteiro na fila do show do RBD. Por isso, abasteceu seu isopor em cima de um carrinho de mão com 60 garrinhas d’água de meio-litro ao preço de 2 reais cada, 50 latinhas de coca-cola também a dois reais. Esse peso todo ela veio carregando do morro de Itararé, onde vive com o marido e três filhos pequenos. Saiu com o carrinho vazio de lá. Parou no supermercado, comprou gelo perto das peixarias da Praia do Suá e foi rapidamente garantir seu ponto do lado de fora do show. Está instalada ao lado de Marcus Vinícius Cunha, pedreiro durante o dia e fazedor de bicos a vida inteira. Sem conhecer muito bem o público do show – não tem filhos –, levou cerveja. Possivelmente perderá o dia. Quase ninguém compra a bebida. A fila vai enchendo e as barracas desaparecendo no meio da multidão que se aglomera na porta da cerca que torna a Praça do Papa impenetrável para quem não tem ingresso. A lotação esperada é de 20 mil pagantes. Os bombeiros calculam a presença de nem dez mil. 62


Faltam apenas dez horas para o show e Hellen e Carla aprontam os últimos detalhes. Ambas de saias de pregas, sapatinhos pretos, meias e blusa branca e gravata vermelha. Iguais as duas, outras milhares de meninas. Os meninos também estão a caráter. Agora, já não dá mais para saber quem é Carla, Hellen, Vitória, Kássius, William, Lorena, Paula, Júlia, Zama, Thamila, Jessielem, Bianca, Carol, Maykon, Alerrandra, Ana Luíza, Dayanna, Alessandra, Monique, Adulza, Monique, Natalya, Caroline, Amanda, Thais, Raiza, Milena, Bruna, Isadora, Tainan, Izabela, Diano, Érika, Bárbara, Maykon, Waysla, Roberta, Raiany, Charles, Robson, Jéssika, Maria Eugênia, Pámela, Mayana Yume, Alna e Luiz Paulo. Não importa mais nomes nem sobrenomes. Tudo é uma massa só em gritos de euforia. Enquanto os ambulantes estiverem voltando ao Rio de Janeiro para pegar mais mercadorias ou para os bairros mais pobres da capital, Hellen, Carla e suas amigas estarão em êxtase retornando para a casa. Possivelmente não dormiram sossegadas naquela noite, mas tentarão não passar o fim de semana em claro. Na segunda-feira é dia de ir à escola. Por aqui, ser rebelde foi gritar desesperadamente para um grupo de mexicanos famosos. Pelo menos por um dia. No dia seguinte, é só ligar a televisão que todos estarão lá. Dentro ou diante delas.

outubro de 2006

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8.3 - O cidadão ucraniano e a crise aérea brasileira Vitor Graize Magalhães Batista

Dezenas de consumidores insatisfeitos se dirigem diariamente ao sexto andar do Edifício Março, no Cento de Vitória, onde funciona o escritório do Procon Estadual. Ali chegando, retiram uma senha com um número de três dígitos e se sentam em um dos bancos almofadados antes de serem chamados para a próxima sala. Lá, eles ainda aguardarão algum tempo, com uma televisão ligada, até que um dos atendentes, homens e mulheres em guichês de fórmica branca dispostos em fila, esteja livre para receber o consumidor-insatisfeito seguinte. Os funcionários não desgrudam o olho do monitor do microcomputador enquanto ouvem reclamações, na maior parte das vezes, dirigidas a empresas de telefonia móvel ou a fabricantes de telefones celulares.

Alguns descontentes, após o ritual de iniciação, têm a oportunidade de se reunir com um advogado que representa a empresa acusada e se tiverem razão e sorte, como acontece em 62% dos casos, terão sua reclamação resolvida pelo fornecedor. As audiências acontecem em uma das duas salas situadas do lado oposto ao dos guichês. Nesta tarde, em um dos compartimentos, os advogados que representam a Varig (S.A. Empresa de Viação Aérea RioGrandense), primeira empresa de aviação comercial do Brasil, fundada em 1927, discutem a melhor forma de solucionar o impasse em que se encontra o ucraniano Valeriy Lutsenko, 40 anos, após a crise financeira da companhia aérea.

Algum tempo depois, Valeriy e sua esposa, a brasileira Carla, estão de volta à sala de espera com uma alegria satisfeita. Valeriy, alto e louro, o clássico estereótipo da Europa Oriental, brinca com uma bolinha de borracha colorida que vai da mão ao chão e volta obediente, enquanto ouve Carla explicar em italiano o caminho que ele deve percorrer para chegar até a Defensoria Pública, na Cidade Alta, durante o tempo em que ela vai ao dentista.

Carla e Valeriy se conheceram e se casaram em 2001, na cidade de Roma. Ela, que é professora e na época tinha uma boa condição financeira, foi para a Itália com a intenção de ficar apenas dois meses, passeando e conhecendo o sistema de ensino daquele país. Ele havia deixado a casa dos pais, em Kiev, no ano de 1994, para encontrar a liberdade trabalhando como marceneiro na capital italiana.

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Depois de se casar com Valeriy e regularizar sua situação de imigrante, Carla estendeu sua permanência no exterior até 2005, ano em que coincidiram a sua aprovação em um concurso da Secretaria de Educação da Prefeitura de Cariacica e o transbordamento de sua insatisfação com o tratamento dado aos brasileiros na Europa. “Eu fiz a inscrição para o concurso pela internet, vim ao Brasil fazer a prova e fui aprovada. Já estava cansada de ficar bancando luxo dos europeus. Via meus amigos brasileiros sofrerem e não concordava. Cheguei à conclusão de que era a hora de voltar”. O respeito que Carla exigia dos europeus encontrou no ucraniano Valeriy, com quem teve o filho Lucas∗ .

A saudade da família e a garantia de emprego determinaram a decisão de Carla. Ela voltaria ao Brasil para dar aulas e traria o filho, que na época ainda não havia completado dois anos de idade; Valeriy ficaria na Itália até que conseguisse acertar todos os detalhes da mudança definitiva da família para Vitória. Ele tinha um emprego fixo como marceneiro e seus clientes pagavam muito bem pelos móveis com acabamento envelhecido que ele fabricava em sua oficina, usando madeira nova ou de demolição. Esta era a renda da família e não podiam abrir mão dela.

Em julho de 2006, Valeriy embarcou em um vôo da companhia alemã Lufthansa com destino a Frankfurt, onde tomaria um avião da Varig para o Rio de Janeiro. Pela primeira vez viria ao país, conheceria a família de sua esposa e a cidade onde pretendia viver e criar o filho Lucas. Em Frankfurt, Valeriy passou pela primeira adversidade das muitas que enfrentaria nesta viagem: sem falar português ou alemão e sem entender o que se passava com os vôos cancelados da empresa que deveria trazê-lo ao Rio de Janeiro, o ucraniano passou três dias no aeroporto da cidade, dormindo nos bancos do terminal de embarque. Apesar disso, conseguiu embarcar e chegou ao Brasil antes do dia 10 de julho. A passagem de volta estava marcada para dali a um mês.

Neste tempo, Valeriy matou a saudade da mulher e do filho, que não via há meses; viajou para a cidade de Jordânia, no nordeste de Minas Gerais, divisa com a Bahia, onde encontrou a família de Carla comemorando a formatura de uma irmã de sua esposa e onde se apaixonou pelo churrasco brasileiro; teve tempo de conhecer Vitória e pesquisar em madeireiras da cidade o preço da matéria-prima que em suas mãos se transformariam em mesas, armários,

Nome fictício.

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cadeiras... E ficou chocado! Não esperava que o preço da madeira brasileira vendida no Brasil fosse mais alto que o preço da madeira brasileira que ele comprava na Itália. Fez as contas. Precisaria trabalhar mais algum tempo na Itália até conseguir o dinheiro necessário para investir em uma oficina no Brasil.

No dia 20 de julho, a Varig foi arrematada em leilão depois de mais de um ano de recuperação judicial. Valeriy, que tinha marcado com antecedência a passagem de volta para a Itália em um vôo da empresa em crise, foi obrigado a prolongar sua permanência no Brasil, sem visto, sem direitos e sem trabalho, por dois meses.

Agora, depois da audiência com os advogados da Varig, ele caminha pelo Centro da cidade em direção à sede da Defensoria Pública, onde espera encontrar a defensora Gilda Tabachi, advogada que atuou no caso. Foi ao órgão estadual de orientação jurídica que Carla recorreu para que seu marido pudesse embarcar sem que tivesse que comprar outra passagem, já que a empresa se recusava a disponibilizar para ele um assento em outro vôo. A Defensoria Pública, por sua vez, acionou a justiça através do juiz da 11ª Vara Cível, que concedeu uma liminar orientando a Polícia Federal. A liminar determinou que a empresa aérea deveria embarcar o ucraniano e seu filho no dia 12 de outubro, dois meses após o retorno previsto. Em caso de descumprimento, seria aplicada uma multa de R$ 1.000,00 por dia.

Três dias antes do embarque de volta para casa, Valeriy está preocupado com seu emprego, são três meses sem trabalhar e o dinheiro começa a faltar, não sabe se seus clientes ainda serão seus quando voltar a Roma. Na bolsa que traz à tiracolo, carrega quatro fotografias onde se vêem móveis que fabrica em sua oficina. Quando chegar a Roma, investirá todo o dinheiro que ainda tem na compra de alguns metros quadrados de madeira e dedicará todo o seu tempo ao trabalho na marcenaria e ao filho.

Próximo ao final do ano, ele irá pela última vez a Kiev, onde vivem seus pais, antes de se mudar para o Brasil. Levará Lucas para conhecer os avós paternos e a capital da ex-república socialista soviética, cidade onde passou os tempos felizes da infância e os momentos difíceis da vida adulta nos anos posteriores ao colapso da União Soviética. A marcação do tempo na vida deste marceneiro e os seus sentimentos se confundem com os regimes políticos de seu país. Em italiano misturado com português e espanhol, diz que “o socialismo é bom para as

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crianças. A infância não tem os problemas da vida dos adultos. Lá a educação era melhor do que no capitalismo e podíamos brincar na rua”.

A advogada não está em sua sala, mas um estagiário garante que ela volta logo. Valeriy vai até a rua. Nas proximidades da Defensoria Pública estão a maior parte dos tribunais da comarca, dos escritórios de advocacia, dos cartórios e uma livraria especializada em publicações de Direito. Ele vai para o lado oposto ao dos tribunais, alcança a praça próxima ao Palácio Anchieta e desce até chegar à escadaria em frente. Dali é possível ver o Porto de Vitória, onde milhares de pessoas com macacões coloridos trabalham na reforma de uma plataforma da Petrobras. É um ambiente diferente do que Valeriy está acostumado. O porto mais próximo da cidade de Kiev está distante umas dezenas de quilômetros. Esta é uma visão que ele só teve aqui, a outra está relacionada à pobreza. Ele não acha que o povo brasileiro seja tão pobre quanto os europeus imaginam. “Aqui não tem tanto dinheiro, mas tem alegria”. Apesar do contratempo ocasionado pela crise da Varig, reconhece que ganhou dois meses para ficar com a família e conhecer a cidade. Dá de ombros e não faz nenhum discurso indignado contra a empresa.

Valeriy volta para a sala de espera da Defensoria. Sentado em uma destas cadeiras brancas de plástico, continua a brincar com a bolinha colorida. Às vezes ela escapa, quica esquisito, e ele tem que se levantar para pegá-la em algum canto. Já passa do horário combinado com Carla e a advogada ainda não chegou. Ele não vai esperar mais.

Às 13h27 do dia marcado para a viagem de volta, 12 de outubro, feriado nacional, Valeriy Lutsenko, vestindo uma camisa cor laranja, calças vermelhas de tom pastel e segurando uma pasta azul, faz o check-in no guichê da Gol. É preciso que um policial federal intervenha para que a passagem seja aceita e o tempo da checagem deste cidadão ucraniano é maior que a média gasta pelos outros viajantes. Autorizado o embarque, Valeriy vai, às 13h39, segurando o filho Lucas nos braços, até a sala do juizado de menores, localizada no segundo andar. Enquanto isso, Carla e uma irmã aguardam no andar térreo.

Depois de um beijo discreto em Carla, às 14h22 Valeriy está na sala de embarque. Em um dos braços, ele leva o filho, que carrega em uma das mãos um avião de papel oferecido como brinde pela companhia aérea que há poucos dias teve uma de suas aeronaves envolvidas num triste acidente aéreo. Através do vidro escurecido da sala de embarque, Carla olha Valeriy 67


fazer o último aceno de adeus e deixar, após três meses de incertezas, a cidade que representará para o seu filho, o que Kiev significa para ele.

dezembro de 2006

Antes Il giornalista. Assim Carla me apresentou ao marido, o ucraniano Valeriy Lutsenko. Primeiro o conheci numa nota, no pé da página 04 do jornal A Gazeta de 05 de outubro: Ucraniano recorre à justiça para voltar ao seu país. Agora ele estava na minha frente. O clássico estereótipo da Europa oriental quicando, como uma criança, uma bolinha de borracha.

Depois de ler a nota no jornal, fui atrás do jornalista que havia recebido aquela pauta e pedi mais informações. Ele conseguiu encontrar, no fundo da bolsa lotada de papéis amassados, o papel que havia sido repassado pela editora de cidades do jornal Notícia Agora. Ali estavam os telefones da advogada. Foi por meio dela que consegui contatar Carla na manhã do dia marcado para a última audiência no Procon.

Após a audiência, Valeriy e eu passamos a tarde conversando. Enquanto Carla estava no dentista, ele precisava pegar com a advogada um documento qualquer. Fui com ele. Demoramos um pouco a nos entender. Ele falava italiano, mas sabia algumas palavras em português. O resultado desta equação lingüística era um espanhol manco. Depois desta tarde, fui encontrá-los no aeroporto nos instantes anteriores ao início da viagem de volta.

Valeriy e Carla tiveram receio em se expor aos olhos da “imprensa” em nome do filho. Por isso a opção por tratar a criança com um nome fictício.

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8.4 - No porto Vitor Graize Magalhães Batista

É impossível, do Centro da cidade, não notar as torres de ferro que se erguem entre os edifícios de apartamentos e os galpões do cais do porto. Elas reluzem ao pôr-do-sol alaranjado da Baía de Vitória; interpõem-se como um obstáculo temporário entre o olhar do espectador atento à arquitetura da cidade e o limiar do horizonte que ultrapassa os prédios, passa pelo porto, cruza as águas da baía e bate nas montanhas de Vila Velha; surpreendem o visitante que, despreparado, está aberto às surpresas da paisagem nova e, boquiaberto, vislumbra na noite tranqüila as lâmpadas que servem ao movimento incessante de homens amarelos, vermelhos, alaranjados e azuis. Eles martelam tubos que atravessam como veias o organismo do navio-plataforma de 240m de comprimento, 26m de largura e 18,4m de altura até o convés. Pintam de várias cores a pele e reforçam as linhas daquela ilha provisória que se liga à terra firme por uma escada de metal por onde sobem e descem os homens e mulheres e por um elevador pelo qual fazem subir as ferramentas, as peças e os materiais.

Os trabalhadores que retornam do almoço ou iniciam o turno de trabalho colocam seus crachás de identificação em um dos 1.453 ganchos numerados disponíveis à direita da base da escada de ferro antes de subir. Os que descem, saindo de uma jornada cansativa em direção às suas casas ou apenas para comprar um picolé do lado de fora da grade que separa o cais da rua, fazem o inverso: tiram seus crachás dos ganchos. E assim as duas paredes que medem 2m² cada servem como controle da quantidade de pessoas na Plataforma P-34 que, de julho de 2004 a novembro de 2006, passou por reformas no Porto de Vitória.

Neste período, a plataforma foi o motivo diário de mais de 2700 pessoas: empregados das empresas contratadas para a reforma; donos de hotéis, bares e restaurantes próximos ao porto; vendedores de sorvete; além de inúmeros moradores do Centro que conviveram com a imagem da plataforma em suas janelas e a movimentação de homens e máquinas 24 horas por dia, atrapalhando o quieto sono à beira-mar.

“Que ônibus eu pego pra Rodoviária?”. Era jovem, carregava uma grande bolsa preta e estava preocupado com as horas. Esperou a resposta do vendedor ambulante que, sentado junto à barraca, indicou o melhor itinerário. Alex Sandro Souza, 23 anos, está em Vitória há 14 meses, mas ainda não conhece bem as linhas de ônibus. A família de Alex vive no Rio de 69


Janeiro há 20 anos, e ele já morou por algum tempo no Rio Grande do Sul e na Bahia, sempre a serviço de uma empresa que atua no setor petrolífero.

Em Vitória, Alex trabalha na pintura da plataforma P-34 e esta pode ser a última vez que ele procura saber qual ônibus pegar em Vitória. As obras na plataforma terminaram e seu futuro, a próxima parada desta viagem pelos portos brasileiros, ainda não foi definido pela empresa. Na mesma situação estão outros homens e mulheres empregados na reforma da P-34.

Jaime Machado, 24, trabalhava em uma siderúrgica no município de Serra, mas deixou o emprego há um mês para fazer parte da equipe de encanadores que fazem reparos na tubulação da P34. Jaime e mais dez homens fazem parte da Equipe 1040, que nesta fase do trabalho espera no cais o chamado para algum conserto urgente na plataforma. “Esta última semana foi mais tranqüila. Estamos no stand by”. Três dias antes do final da reforma, os membros da equipe aguardavam com ansiedade a lista dos funcionários que seriam contratados para continuar o trabalho de manutenção nos tubos e válvulas da plataforma no campo de extração de Jubarte, no sul do Espírito Santo. Jaime e Alex entraram nesta disputa em desvantagem: eles não têm o curso de treinamento básico de segurança exigido pela Petrobras para o trabalho em alto-mar. O curso, chamado de salvatagem, tem duração de uma semana e custa em torno de R$ 2 mil, o dobro do que Jaime ganha por mês como encanador industrial na reforma da plataforma. Além dos mil reais de salário, ele tem uma ajuda de custo de R$ 500,00 que serve para pagar os R$ 180,00 do aluguel de uma quitinete no bairro Cidade Continental, na Serra.

Marcelo Fuly, 23, que mora com Alex e mais cinqüenta e oito pessoas em uma casa alugada para os empregados da empresa no Centro da cidade, também não tem o curso de segurança. Ele está indo visitar a mulher e a filha de dois meses que moram no Rio. Na rodoviária, ao falar da esposa, Marcelo olha para a mão esquerda e se assusta. “Bem lembrado! Tenho que colocar a aliança. Eu não sou farrista, mas as mulheres estavam olhando muito para a minha mão”. Entre os benefícios pagos pela empresa na qual Alex e Marcelo trabalham, além de salário e ajuda de custo, estão as passagens rodoviárias pagas a cada 40 dias para eles visitarem a família. A filha pequena faz Marcelo viajar a cada 15 dias e estas viagens extras não são pagas pela empresa.

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Marcelo se anima ao conhecer na fila de embarque o paraibano Ronaldo Alves, que trabalha há 31 anos na Petrobras. A família de Ronaldo mora em Campo Grande, Estado do Rio, e ele já tem seu lugar garantido na P-34: é supervisor de salvatagem. “É desse cara que a gente tem que ficar amigo!”, Marcelo diz para os companheiros que estão embarcando no mesmo ônibus. Os amigos de Marcelo concordam. Vislumbram a oportunidade de figurar entre as cento e oitenta pessoas que serão contratadas para trabalhar na plataforma.

Os que aguardam com ansiedade o chamado que lhes garantirá um emprego fixo conhecem o cotidiano e a geografia da plataforma. Sabem que terão à disposição uma quadra de esportes, uma biblioteca, academia, dormitórios confortáveis, 14 dias de trabalho em alto-mar e 14 dias de folga em terra. Explicam que a plataforma conta com duas lanchas colocadas em lados opostos da plataforma. Caso ocorra algum acidente e a estrutura da plataforma seja comprometida, tombando para um lado, os noventa funcionários são levados para um lugar seguro pela lancha que não naufragou. Noventa pessoas é a capacidade máxima da P-34 por medidas de segurança; como os funcionários se revezam em duas jornadas de duas semanas, a plataforma conta com cento e oitenta trabalhadores.

A poucos dias do fim do trabalho, os onze membros da Equipe 1040 apresentam a mesma energia que poderia se encontrar em um novato. E novato é o que boa parte deles não é. O baiano Antônio Borges, 58, faz questão que os membros da equipe não a chamem de 1040. “É a Equipe Bala!”. Ele trabalha com tubulação industrial desde 1975, com um pequeno intervalo de cinco anos, quando trabalhou como taxista e motorista de carreta. Antônio é o segundo na hierarquia da Equipe Bala, apenas uma das dezenas de grupos de trabalho que cada empresa contratada para a reforma monta para facilitar a organização do quadro de funcionários. O chefe da Equipe é o paulista Luiz Carlos Claudino, 58, que daqui a alguns minutos, vestindo uma calça de couro preta, um colete preto e com um lenço preto amarrado à cabeça como uma bandana, pegará sua moto em direção a Jacaraípe, onde vive sua família.

Alguns destes homens e mulheres que são levados pelo trabalho às mais diversas cidades portuárias brasileiras, não chegam a alugar um apartamento ou dividir uma casa com colegas de trabalho. Empresas preferem alugar quartos de hotéis próximos, onde hospedam seus funcionários por meses. O Hotel Sol e Mar, um hotel modesto em um prédio simples situado à rua Cais de São Francisco, número 85, próximo ao Parque Moscoso, tem 31 quartos. Nesta última semana de trabalho, 22 estão ocupados por 41 funcionários de quatro empresas que 71


prestam serviço na reforma da P-34. A diária de cada apartamento custa, em média, R$ 45,00. “A tendência agora é esvaziar muito com a saída da Plataforma”, lamenta a recepcionista do hotel, Eny Marques, que trabalha ali há cinco anos.

A lanchonete Lanches União, que há 39 anos ocupa um cômodo apertado, com paredes de azulejos brancos e azuis, no térreo do edifício do Sindicato dos Estivadores, deve perder metade dos fregueses que tomam o café da manhã ali todos os dias. A proprietária, Leni Batista, divide com o filho e mais dois funcionários os serviços na lanchonete e não reclama do excesso de trabalho. “O aumento maior, cerca de 50%, aconteceu nos últimos seis meses. Agora a cidade vai ficar mais vazia”, ela conta enquanto prepara um pão francês na chapa.

O sorveteiro Ademir de Jesus, 49, vende sorvetes e picolés entre os galpões 1 e 2 do Porto de Vitória, na portaria que dá acesso à Plataforma. Há um ano ele foi despedido do emprego na Rodoviária de Vitória, onde fazia serviços de limpeza. Ele sustenta a mulher e quatro filhos com os 120 sorvetes a R$ 1 e os 150 picolés a R$ 0,50 que vende diariamente aos encanadores, pintores, soldadores, técnicos de segurança e engenheiros que trabalham na reforma da Plataforma. “Eu sinto falta da carteira assinada e do salário melhor que eu tinha antes”.

O comércio no entorno do Porto de Vitória viveu mais de dois anos de bons resultados e será ele o maior prejudicado com o fim da reforma da P-34. O restaurante Plataforma, por exemplo, está localizado em frente aos galpões do Porto e foi inaugurado no início do mês de setembro. A metade de sua clientela, que almoça a R$ 9,90 o quilo, é composta por trabalhadores portuários que estão dando os últimos retoques na P-34. São seis funcionários neste negócio que estampa no nome a razão de sua existência. dezembro 2006 Antes

A saída da plataforma P-34 do Porto de Vitória foi adiada várias vezes por causas diversas e nem sempre esclarecidas. Alguns diziam que ainda faltavam ajustes, que uma tubulação ainda não estava pronta, que a chuva impedia a realização das manobras e que o vento na Baía de Vitória estava acima da velocidade permitida para a navegação de um navio-plataforma.

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O fato é que o cenário da cidade de Vitória sofreria uma alteração brusca dois anos depois de ter incorporado à sua paisagem um colosso feito de tubulações de ferro e mais de 2.000 pessoas vestindo roupas de cores as mais diversas, tudo isso construindo uma imagem colorida no horizonte do Centro cinza demais da capital do Estado.

As questões econômicas que envolveram a reforma da P-34 ocuparam constantemente as páginas dos jornais, mas o que pensavam, o que faziam e com o que se preocupavam os trabalhadores que chegaram à cidade por causa da plataforma? Como se comportou o comércio ao redor do Porto no decorrer destes 28 meses de trabalhos?

A pequena amostra aqui descrita procura elaborar um retrato dos homens e mulheres que influenciaram

diretamente

na

vida

da

cidade

nestes

últimos

dois

anos.

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9 - Memorial Descritivo

9.1 - No escuro, o silêncio entre sons (sobre Jean-Pierre libera meia-entrada)

Mais do que na reportagem Rebelde (sXIII) 'id.', do lat. Rebellis, foi em Jean-Pierre libera meia-entrada que tive de levar ao pé da letra a máxima do escutar e ver para aprender. O cenário da construção do objeto da reportagem, um cinema erótico, me obrigava a isso, principalmente por eu nunca ter freqüentado tal ambiente antes. A escolha do Cine Erótico localizado no Centro de Vitória para constar como um dos recortes que queríamos dar à cidade se fundamentou principalmente pelo fato do local ser alvo de curiosidade de muitas pessoas – inclusive minha –, bem como alimentar desejos e impressões em diversos cidadãos.

Curiosamente, o Cine Erótico de Vitória é o único cinema de rua (ou de bairro, como alguns preferem chamar) de toda a Capital do Espírito Santo, persistindo como tal mesmo diante da desconfiança em relação ao tipo de conduta praticada em seu interior, muito por conta dos filmes que ali são apresentados35. É curioso que o cinema erótico tenha sua sede numa das regiões que já foi uma das mais nobres da cidade e hoje tenha se tornado o oposto, principalmente pelo crescimento do comércio informal, aumento do número de habitações em situação irregular e pela cada vez maior utilização de algumas ruas e apartamentos como zona de prostituição. Por conta de todas essas contradições existentes e pelo crescente rigor das autoridades municipais para com esse tipo de atividade comercial, o cinema, em questões administrativas, é um exemplo de boa gerência.

O funcionamento do Cine Erótico respeita algumas regras e lógicas não institucionalizadas, mas sim consentidas entre seus usuários. Na parede do hall de entrada cinema, que é a única coisa que o público externo pode visualizar do recinto, diversos cartazes de cunho pornográfico ficam expostos. Na entrada há pouco movimento dos freqüentadores. Raros são os que ficam ali por mais de 30 segundos. Ninguém que vá ao Cine Erótico parece querer ser identificado como usuário de tal serviço de entretenimento. E isso aconteceu, de certo modo, comigo. No primeiro dos cinco dias em que estive no local, inevitavelmente, tive de ficar na bilheteria conversando com alguns funcionários e pude perceber os olhares dos que passavam

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Todas as produções são apresentadas em VHS, que é a sigla usada para Video Home System (Sistema de Vídeo Caseiro). O que ainda mantém o mercado do VHS é a capacidade de gravação a custos bastante acessíveis para o usuário.

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na rua e como estes me observavam. Havia no ar um constrangimento tanto da minha parte como dos que me julgavam com os olhos.

Nessa minha primeira ida, pude perceber que dificilmente eu conseguiria algum tipo de contato ou entrevista com o público pagante. A escuridão já na roleta de entrada, que sempre é ultrapassada rapidamente pelos usuários, e que se estende por todo o espaço, me foi prova de que o anonimato é a única vontade dos que ali estão. Em todos os dias, a entrevista que julgo a mais esclarecedora sobre o tipo de local em que estava e movimento que ali existe foi com um dos bilheteiros, que mostrou-se totalmente à vontade para responder as minhas dúvidas, principalmente no momento em que eu demonstrava ser um usuário de primeira viagem. Porém, a entrevista que acabei realizando já no penúltimo dia de apuração com o dono do Cine Erótico me foi válida unicamente para esclarecer-me questões mais diretas em relação à história do fundador bem como do cinema. Toda vez que eu tentava uma conversa ou pergunta sobre o tipo de comportamento que ocorriam dentro do cinema, o dono pouco me informava, muito para preservar o anonimato dos seus clientes.

Devido a certas barreiras por parte dos freqüentadores, tive de adotar o mesmo posicionamento de observação exercitado na matéria Rebelde (sXIII) 'id.', do lat. Rebellis. Só que neste caso do Cine Erótico foi ao extremo. Como ali era um cinema, havia pouca conversa e, portanto, eu não teria muitos diálogos para registrar. Como estava escuro, pouco puder ver em determinados momentos. Além disso, muitos ignoravam que ali era um lugar de movimento público, onde qualquer um pode entrar mediante pagamento de R$ 6. Com a libido movimentada pelas cenas de sexo mais do que explicito que passavam no telão e reservados pela escuridão, muitos freqüentadores masturbavam-se sem nenhum pudor ou mesmo praticavam sexo com qualquer interessado.

Por não conhecer o comportamento dos usuários deste tipo de cinema, fui aconselhado pelo bilheteiro a permanecer nas primeiras fileiras. Sem saber e de forma totalmente imprevisível, acabei por respeitar a lógica de não atrapalhar a concentração de ninguém, principalmente não fazendo com que, na parte da frente, houvesse mais de duas pessoas por fileira, para que não incomodasse quem desejasse sair do assento, por exemplo. Caso houvesse três pessoas numa mesma fila, a que estivesse no meio, caso se retirasse, teria de incomodar alguém com um “licença” ou qualquer outro tipo de pedido de passagem, podendo atrapalhar a pessoa a se masturbar, por exemplo. Por sinal, a automasturbação era a cena mais comum que pude 75


presenciar em todos os dias em que lá estive, principalmente nas primeiras fileiras, local reservado aos heterossexuais que só iam ao cinema para poder assistir ao filme e/ou interagir consigo mesmo.

Nos primeiros dois dias, principalmente por conta do conselho do bilheteiro ao me dizer que “lá atrás acontecem umas doideiras”, não avancei mais do que quatro fileiras ao fundo do salão. As horas em que eu ficava lá me serviam para registrar as cenas dos filmes que passavam sem nenhum intervalo entre eles, bem como observar o movimento de entrada e saída do cinema e do bar que se localizava estrategicamente ao lado da tela de projeção. Como era escuro, não fazia muita diferença se eu anotasse ou não algo em algum bloco. Ninguém me via mesmo. No terceiro dia, já sem muitas novidades a conferir nos primeiros assentos, resolvi voltar ao cinema apenas para observar a movimentação externa. Na quarta ida, pude conversar com o dono do estabelecimento que me explicou detalhes como, por exemplo, as exigências da vigilância sanitária, o rigor da polícia e do juizado de menores e outros dados. No quinto dia, resolvi entrar novamente dentro do cinema, porém desta vez com a vontade de conhecer os outros ambientes do local, como o banheiro e a sala dedicada aos fumantes. Na medida em que me deslocava para o fundo da sala, pude perceber que o número de freqüentadores era muito maior do que eu imaginava. Enquanto na parte da frente as pessoas estavam sozinhas, no meio do cinema, a maioria estava em casal, tendo ou não relacionamento afetivo com seus pares homossexuais (não havia mulher no local). Enquanto chegava perto do banheiro e da sala exclusiva aos fumantes, pude perceber que quem estava ali pouco prestava atenção aos filmes. Estavam interessados mesmo era iniciar algum tipo de contato físico com os outros freqüentadores. Fui abordado por três homens no curtíssimo espaço de tempo em que lá estive. Abordagens negadas pela minha parte, dirigi-me à sala dos fumantes. Lá, observei que alguns casais homossexuais praticavam sexo e outros apenas assistiam ao relacionamento. Poucos observavam a pequena televisão que retransmitia o mesmo filme que passava no telão do salão principal. Como o assédio a quem entrasse naquele ambiente era muito forte, não consegui permanecer ali por muito tempo, retirando-me logo em seguida.

Com fortes e curiosas cenas por mim registradas e quase nenhuma entrevista ou declaração colhida, me encontrei numa situação única para escrever uma matéria. Eu não conseguiria reproduzir muitos diálogos simplesmente porque eles não existiram. O que eu tinha em mãos era apenas a minha observação e a minha experiência de ter entrado em contato com um 76


ambiente tão novo para mim. O que fiz, então, foi levar essas descobertas que tive para o texto. Para tal, resolvi me inserir – e a todos que estavam dentro do cinema – numa das histórias dos filmes que se repetiram durante os cinco dias em que estive freqüentando o Cine Erótico. Só assim consegui recriar e escapar de declarações oficiosas – e que eu não tinha – para construir o texto que fosse o mais próximo possível das minhas impressões vividas naquele ambiente. Como foi me apresentado a partir de leitura de outros textos que têm no Novo Jornalismo a sua base de estilo, fiz uso constante de pontuações gráficas, bem como repetição – quando julgava necessário – de frases ou até mesmo ações, já que elas se repetiam intensamente durante a minha pesquisa. A demora em revelar no texto o contexto mais claro de onde estava se realizando as ações foi uma escolha pensada a partir das indagações que foram surgindo em mim durante minhas visitas ao cinema. Tentei passar no texto o suspense que eu presenciei durante a apuração da reportagem.

Ao final, a intenção foi a de mostrar ao público leitor desta reportagem alguns aspectos que também contam a história do cotidiano da cidade de Vitória e que, por conta de convenções sociais não explicitadas, pouco conhecidas de seus habitantes, tendo a certeza de que grandes histórias também podem ser encontradas em pequenos ambientes.

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9.2 - Sobre o ser e o estar (a respeito de Rebelde (sXIII) 'id.', do lat. Rebellis) Ao iniciar o cronograma de estudos para a realização deste Trabalho de Conclusão de Curso, certamente não passava pela minha cabeça conferir a fila do show que se formaria para a apresentação do grupo RBD em Vitória, muitos menos que aquilo renderia a matéria Rebelde (sXIII) 'id.', do lat. Rebellis.

Quando se fala em show business e nos agentes sociais que estão envolvidos neste meio os números sempre são superlativos. No caso específico do RBD não poderia ser diferente. Nesta segunda vinda do grupo mexicano ao Brasil, um total de treze cidades foram contempladas com a apresentação ao vivo da banda, totalizando um público pagante de mais de trezentas mil pessoas, envolvendo centenas de profissionais ligados direta ou indiretamente ao evento.

Como apontam alguns jornais, o grupo RBD, formado pelos atores e cantores Anahi, Maite, Dulce, Poncho, Christopher e Christian, em 2004, devido ao sucesso da telenovela Rebelde, protagonizada pelo sexteto e exibida no Brasil diariamente pelo SBT, tornou-se o maior fenômeno pop da atualidade e uma das maiores sensações da história da indústria musical latino-americana. No Brasil, naturalmente, a euforia também é gigante.

A vinda do grupo ao país foi, sem dúvida, motivo de centenas de matérias nos jornais de todas as cidades. Os cadernos de cultura e comportamento dos jornais e revistas dedicavam diversas páginas sobre o fenômeno, divulgando curiosidades, histórias ou qualquer outra informação que vendesse jornal ao público leitor. Nada mais natural que em algum momento tal evento refletisse no meu cotidiano, principalmente pelo local do show em Vitória estar situado em frente à redação do jornal em que trabalho como editor de um caderno voltado ao entretenimento. Era só olhar pela janela que eu já imaginava o que poderia acontecer ali naquele local.

Bombardeado diariamente por matérias do jornal A Tribuna (Espírito Santo) que fazia as maiores coberturas do show do grupo em Vitória, me vi numa situação única. Jornalisticamente, eu também achava que seria importante registrar a passagem do grupo pelo Estado. O que fiz foi pensar como abordar esse evento de uma maneira ainda não usada pelos jornais locais.

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Tal problemática já tinha me sido colocada em questão quando resolvi realizar a cobertura jornalística de um show da dupla de música romântica/sertaneja Zezé di Camargo e Luciano, em 2005. Na época, os cantores eram os que mais vendiam discos no Brasil e lotavam os cinemas com a autobiografia 2 Filhos de Francisco36. Uma das alternativas encontrada foi tentar descobrir no show de Vitória o porquê da dupla ser tão cultuada pelos fãs, quase como entidades divinas. Em parceria com o fotógrafo Rodrigo Daniel Alves de Melo, realizei uma matéria que registrava a reação do público nos minutos que antecediam ao show. Para tal, diversas entrevistas foram feitas com os fãs, bem como fotos, sem deixar de colher depoimentos emocionados dos mesmos. Naquele espaço, escrever sobre quais músicas foram executadas e o que a banda disse ao público seria realizar um mais-do-mesmo, algo tão comum na imprensa atual. Creio que se eu não tivesse escrito a reportagem desse modo, com um estilo mais subjetivo, me colocando inclusive como um dos sujeitos da ação, o meu recorte da realidade não conseguiria transparecer no texto final publicado no jornal Século Diário sob o título de Assim os deuses são feitos37.

Após passar por essa boa experiência, decidi que poderia ir pelo mesmo caminho se quisesse tratar de modo único a vinda do grupo RBD ao Espírito Santo. Resolver contar a história do show por meio da fila de entrada foi uma resolução tomada após saber que em São Paulo algumas pessoas já se reuniam para também dormir na fila um mês antes da data marcada para o show. Com a aproximação da data da apresentação em Vitória, o mesmo veio a ocorrer na capital do Espírito Santo. Pouco mais de uma semana antes da abertura dos portões da Praça do Papa, um grupo de seis pessoas armou barracas e passou a dormir no local sem nenhuma segurança, sem condições adequadas de higiene e correndo todos os riscos que se tem ao escolher a rua como dormitório temporário. Deparar-me com esse inusitado comportamento massivo numa das áreas mais nobres da cidade de Vitória, a Enseada do Suá, seria uma oportunidade para conhecer um pouco mais sobre características da conduta de moradores da Capital e seus visitantes e como eles se relacionavam com o ambiente construído momentaneamente para, neste caso, um espetáculo musical.

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2 Filhos de Francisco - A História de Zezé Di Camargo e Luciano, direção de Breno Silveira a partir de roteiro de Patrícia Andrade e Carolina Kotscho. Produzido em 2005 pela Conspiração Filmes, ZCL Produções e Columbia TriStar do Brasil. 37 Assim os deuses são feitos, publicada no dia 16 de dezembro de 2005 no jornal Século Diário. Link direto: www.seculodiario.com.br/arquivo/2005/dezembro/16/cadernoatracoes/colunistas/oscar.asp

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Impressionado com tamanha devoção também em terras capixabas, fui ao local onde a fila estava se formando pela primeira vez numa segunda-feira. O show seria na sexta-feira seguinte. As pessoas que estavam ali teriam de esperar mais cinco dias para “realizar o sonho das nossas vidas”, como algumas gostavam de deixar bem claro nas conversas que tiveram comigo.

Já nessa primeira visita, pude perceber que teria um vasto material para a construção de uma reportagem se eu pudesse acompanhar o modo como elas se comportariam durante os próximos dias. Neste primeiro contato, não levei bloco de anotação, nem caneta, tampouco gravador. Queria que o primeiro contato não fosse tão agressivo, jornalisticamente falando, da minha parte. Contentei-me em realizar a observação do local e do comportamento das pessoas e conversar um pouco com algumas que eu enxergava como interessantes para ilustrarem a matéria.

Na terça-feira, meu segundo dia de apuração, cheguei ao local e encontrei as mesmas pessoas do dia anterior, além de novos fãs que só ajudavam a aumentar o tamanho da fila. Como nesse tipo de reportagem é o inesperado que conduz o repórter, fui naturalmente abandonando as expectativas criadas em relação aos personagens que eu julgava fundamentais para a matéria e aproximei-me de outras pessoas, como, por exemplo, a enfermeira Vitória Gomes Caetano, que se mostrou totalmente à vontade para contar-me um pouco sobre a sua vida e os motivos dela estar ali, enfrentando todo aquele desconforto.

A paciência em ficar algum tempo sem conversar com ninguém, sem conseguir nenhuma declaração importante, é uma ação produtiva para exercitar a observação, peça fundamental para a construção de uma reportagem. Por diversas vezes, o que eu passei a registrar mentalmente e por vezes em um bloco veio de um distanciamento real da minha parte em relação aos personagens, como aconteceu na conversa das duas meninas que ilustra o início da matéria Rebelde (sXIII) 'id.', do lat. Rebellis. Em alguns casos, os diálogos ali presentes, principalmente quando reconstruo a brincadeira das duas citadas, não foram criados a partir de perguntas ou intervenções minhas. Em certos momentos, tentei ao máximo manter-me o suficientemente afastado para não interferir de maneira agressiva nas cenas que se passavam à minha frente, para que eu tentasse apreender aqueles fatos com o mínimo de manipulação no momento em que eles ocorriam.

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Durante quatro dias de visitas ao local da pesquisa, pude reencontrar os personagens retratados na matéria por diversas vezes. Em alguns casos, nomes que aparecem na matéria passavam por mim por alguns minutos, mas deixavam declarações e comportamentos que eu julgava necessários para a construção do texto final.

Já ciente das histórias e abordagem que eu gostaria de registrar, tive de lidar com as minhas expectativas em relação ao texto final, bem como os anseios dos personagens que brotavam constantemente nas falas e ações que eram transcritas e rearranjadas por mim enquanto escrevia, principalmente por eu ter optado a não dividir cronologicamente as ações assim como elas ocorriam. A decisão de fazer a matéria sem seguir um caminho cronológico veio a responder à minha vontade de saber que os quatro dias de visitas, mais as centenas de informações prévias que eu já tinha sobre o tema e os conceitos que eu já tinha construído a partir da minha vivência, não poderiam ser retratados separadamente, com a certeza de que todos os fatos, frases e percepções estavam ali unidas por um mesmo objetivo. No meu caso, o sentimento pelo jornalismo. No dos personagens, o sentimento pelo ser e estar ali.

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10 - Conclusão Durante o percurso deste trabalho, procuramos demonstrar que o Novo Jornalismo é uma alternativa para o jornalismo praticado no início deste século, principalmente por ser capaz de tentar entender os sujeitos e objetos das ações em sua completude psicológica e social. Por adotar técnicas narrativas provenientes da literatura, o Novo Jornalismo é uma ferramenta contra o texto frio que atualmente impera nas páginas dos periódicos preocupados com a apuração instantânea da matéria e com a briga pelo furo jornalístico. Este jornalismo faz com que personagens apresentadas nas reportagens apareçam de forma episódica, servindo apenas como fonte de informação instantânea para dar validade ao que será escrito pelo autor do texto. No Novo Jornalismo, o autor da reportagem confere ação aos sujeitos e permite que eles possam se guiar dentro do texto, apresentando ao leitor uma maior complexidade de suas ações, pensamentos e vontades.

Nos periódicos que adotam como padrão de jornalismo o modelo vigente nos Estados Unidos, a velocidade da informação parece ser a tônica. Nestes casos que ganham corpo no jornalismo praticado no rádio, na televisão, nos jornais e na internet, a informação fica retida somente na notícia factual. O Novo Jornalismo é um caminho para se buscar um maior entendimento dos fatos ocorridos e tentar englobar detalhes que sejam relevantes, tudo isso através da reflexão sobre a reportagem e do envolvimento do autor com a ação e seus personagens, o que raramente acontece hoje.

No Novo Jornalismo procura-se abordar o lado humano do fato narrado, por isso não importa tanto o meio em que ele será publicado. O ponto crucial é explorar toda a potencialidade que há por trás de um fato, não ficando restrito apenas às aparências que se apresentam num primeiro contato. Este seria o grau mais profundo de investigação jornalística, aquele que consegue extrapolar a apreensão direta e racional dos acontecimentos, passando a se guiar também pela intuição e emoção.

No Novo Jornalismo, o jornalista aguça a sua percepção de realidade para o entendimento maior da complexidade social e cultural que envolve os indivíduos na teia social que se desenvolve na cidade: eixo principal que conduziu as quatro reportagens aqui apresentadas.

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SENSAÇÕES E APROPRIAÇÃO:ENSAIOS E REPORTAGENS SOBRE A CIDADE DE VITÓRIANO ÍNICIO DO SÉCULO XXI  

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Departamento do Curso de Comunicação Social do Centro de Artes da Universidade Federal do Espí...

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