Issuu on Google+

Nelson Por Felipe Pipoko


Até hoje sou assombrado pelas escolhas que fiz durante minha curta vida. Nunca vendi minha alma ao diabo num pacto, mas cada ato, cada decisão que tomo, faz o tinhoso ter certeza que quero uma cadeira cativa no inferno. Não ouço vozes, sou apenas um andarilho, uma alma perdida fazendo o que qualquer ser humano faz durante o dia. Acordo com dores, cuspindo grossas camadas de catarro e entro no banheiro. Como um zumbi controlado por uma força sádica, tomo meu banho e me olho no espelho: meus olhos são vazios e sinto que o dia que se levantou não tem sentido em existir. Qual é o motivo do sol nascer e ordenar ao mundo que trabalhe? Eu não formei uma família, nunca fiz uma mulher feliz, não sei se os meus amigos me dariam suporte se eu caísse num hospital à beira da morte. Meus cabelos estão caindo, meus dentes amarelando e não vejo vida daqui uma semana. Apenas vou levando, apenas me arrastando. Coloco minha velha calça surrada, alguma camiseta e o meu tênis que está cada dia mais deplorável. Verifico o celular, verifica o maço de cigarros e o isqueiro. Deparo-me com a cozinha e procuro algo para comer. Pão de forma, manteiga e café. Mastigo com preguiça sem entender o porquê estou me alimentando. Como havia dito apenas um zumbi sem noção de seus atos, rastejando por um chão irregular, abraçado ao cotidiano, à rotina. Abro a porta do apartamento e chamo o elevador. Sei que algum vizinho irá entrar no elevador e me desejar um bom dia. Sou um pensador por natureza e quanto respondo a saudação matutina de um vizinho, olho para os botões do elevador e penso: por que desejamos bom dia para alguém que não conhecemos? Queremos mesmo que esse alguém tenha um bom dia? E se ele espancou sua mulher? E se ele coleciona pedofilia em seu computador? Ele merece ter um bom dia? Acho que não. Saio do elevador e ganho a rua olhando para os lados e verificando se algum carro está por perto. Atravesso e me direciono ao ponto de ônibus. São as mesmas pessoas de sempre. Com a mesma cara de sempre. Algumas com ambição demais, outras sofrendo o mesmo dilema que eu: por que se locomover a um lugar para encher o bolso de um patrão filho da puta? Entro no ônibus e vejo que o motorista não é o mesmo de ontem. O cobrador também não, mas por incrível que pareça quase todos os passageiros de ontem estão lá de novo. Eles me olham com a mesma reação de sempre. As mulheres que sentem algum tipo de atração por mim, acompanham meus movimentos até eu achar um banco para sentar. Ou ficam me acompanhando enquanto fico em pé, vislumbrando a paisagem urbana de cada dia. As mulheres que não suportam meu estilo olham para mim e quando olho para elas, desviam o olhar e voltam sua atenção para um livro, algum best seller que a Veja indicou em sua lista semanal de livros mais vendidos. Alguns homens me dão atenção com os olhos, porém eu reajo com tanta repulsa que eles desistem de observar a estampa da minha camisa ou estado do meu tênis. Mas o que fode a minha manhã é caminhar através da rua do meu trabalho. São dezenas de marionetes de cabeça baixa, desanimadas, estressadas e nervosas. Eu sou uma delas. Ao colocar os pés na empresa, sinto calafrios e ao olhar o relógio que marca a entrada dos funcionários, vejo que estamos numa prisão onde o relógio é o carcereiro, e diz quem é bom e quem é incompetente, apenas usando os atrasos como provas. Olhos para as pessoas em suas mesas e aceno com as mãos e com a cabeça. Ligo o computador e a perturbação começa. Preciso acessar e-mails, sistemas, Windows, programas, todos com meu nome e com minha senha. Tudo é restrito, tudo é informação de extremo valor. Coloco minha mão na cabeça e prendo meus dedos aos fios de cabelo. Lentamente deslizo para baixo e quando olho na mesa, vários fios de cabelo estão lá. Alguém pergunta se estou bem e eu respondo que sim, digo que estou indisposto, desmotivado e sempre recebo uma cara de


compaixão de volta. Por algumas horas, tenho paz e tento adiantar meu trabalho, sempre atrasado. Quando meu chefe chega, o ódio adormecido em meu coração desperta. Penso em algum plano catastrófico como uma bomba ligada a um dispositivo de detonação que é acionado por qualquer peso colocado em cima da cadeira do meu chefe. Eu apenas diria que iria comprar um pão de café no bar da esquina e enquanto fecho a porta da empresa, ouço a explosão. Mágico! Porém acordo do meu delírio assassino e fito meu patrão. Rico mas não esbanja. Roupas gastas, carro popular e sede de sangue. Chega à empresa e desfere um “bom dia” tão irônico que me causa náuseas. Vou até a máquina de café e aperto no botão do café longo. Despejo um pouco de açúcar e fico uns cinco minutos apreciando o sabor forte do expresso. Alguns colegas de trabalho encostam-se à máquina e começam a bater papo. Eu querendo morrer, querendo matar o chefe e eles falando de futebol, fórmula um e mulheres. De mulheres eu entendo, mas não sou tão alucinado como eles. Mulheres para eles são um bando de bucetas, enquanto eu as vejo como um tipo de diversão, seres que eu canso com minha existência sem o mínimo resquício de ambição. Pra mim as mulheres querem, sem exceção, formar família, morar na mesma casa, apresentar o homem pra família e cumprir o script dos bons modos. Eu não consigo, eu simplesmente não consigo. A hora do almoço é um bom momento. O sol está quente e a fome consegue chamar minha atenção. Passo do estado soturno para o estado de desespero e me abrigo em algum restaurante bagunçado que sirva um bom prato feito. Lembro da comida da minha mãe e também me lembro do tempo que estou sem comer um bom rango materno. Faz tempo que não a vejo. Não sei onde ela está. Devoro meu prato e vou para a rua fumar alguns cigarros. Preciso compensar a manhã inteira, quando não puder dar uma tragada sequer. Vou a banca de jornal e compro um jornal barato, apenas para me interar dos fatos. A mulher que trabalha na banca sempre me oferece o jornal e um sorriso amigável. Sinto tesão por ela, mas o marido dela trabalha lá também. Encosto na parede da empresa onde trabalho e verifico sempre as notícias em meio à nuvem de fumaça que despejo pelo ar. Volto sempre alguns minutos antes, pois não tenho saco para suportar o calor por muito tempo, nem o marasmo da rua onde trabalho. Volto para minha mesa fedendo a cigarro. Alguém sempre faz algum tipo de piada quanto a isso, mas eu sempre respondo com um ‘arram’ desanimado e um sorriso de lado. Não procuro me isolar das pessoas, apenas vejo que não são iguais a mim. Alfredo é um cara que trabalha comigo e parece muito comigo, gosta das mesmas músicas que gosto e já leu os livros que cultuo. Nossos horários de almoço são diferentes, mas sempre nos encontramos na máquina de café durante o turno da tarde. Trocamos poucas palavras, porém proveitosas. Ensaio algumas risadas e ele também. Pra ele, Bob Dylan é o grande gênio da música, pra mim é Serge Gainsbourg. Ele gosta de letras e eu gosto de atitude, embora Gainsbourg tenha escrito muita coisa boa. Não discutimos muito, até porque são estilos diferentes. E Bob Dylan é consagrado por toda a mídia musical enquanto muita gente na mesma mídia nunca ouviu uma canção do álbum Histoire de Melody Nelson. Aliás, meu pai meu nome vem desse disco: Nelson. Enfim, as pessoas acham que Gainsbourg é apenas música de hotel com Je T’aime Moi non Plus e a deliciosa voz da Brigitte Bardot cortando a música. Mas Gainsbourg era foda, cigarro em uma mão e em outra mão, sempre estava o coração de


alguma mulher sensacional. Enfim, nunca fui a um happy hour com os funcionários da empresa. Mas as sextas, Alfredo e eu bebemos até cair em algum bar do centro. Após trabalhar despretensiosamente durante a tarde, sigo até o ponto de ônibus fumando um cigarro atrás do outro. Pego um ônibus lotado e chego em casa rapidamente. Eu não posso reclamar de passar horas no trânsito. Os corredores de ônibus que a Marta Suplicy implantou são sensacionais. Chego em meu apartamento, pequeno mas confortável e me livro das roupas. Coloco um short qualquer e acendo um cigarro. Ligo a televisão e a deixo ligada enquanto esquento alguma comida, enquanto sirvo uma dose de uísque para relaxar. Termino o drinque e verifico a comida, Deus é sempre a mesma coisa, porém durante a noite existe um conforto, a sensação de que algo novo pode ser feito. A manhã é uma calamidade regida por uma ordem natural da sociedade. A noite é misteriosa, quando podemos extrapolar as horas e desferir uma bica bem servida no rabo do relógio e deixar que o outro dia sirva de purgatório para os excessos cometidos. Às vezes recebo a visita de amigos beberrões. Cantamos canções antigas e fazemos muito barulho. Os vizinhos reclamam, mas nunca cessamos as reuniões sazonais que realizamos. Quando mulheres estão entre os convidados, dou completo sentido ao que descrevi linhas acima: extrapolar as horas e deixar que o outro dia sirva de purgatório. Quando as discussões descambam para o lado da religião, me levanto bêbado e começo a dispersar os falastrões. Sempre trôpego, despejo os mais inflamados. Não tenho religião. Não tenho Deus nem deuses. Não existe sentido em divindades. Somos apenas o resultado de uma série inconsciente de acontecimentos físicos e químicos e cá estamos: um monte de cus, pintos e bocetas perambulando pelo solo árido desse planeta cheio de vida. Todos querendo comer uns aos outros, enquanto algumas pessoas, como eu, estão pouco se lixando se são manipuladas, se são escravizadas. Pessoas querem mandar enquanto eu quero viver com algum tipo de respeito, nem que seja pra conquistá-lo na porrada. E onde podemos encaixar um deus bondoso nisso tudo? A bondade humana é fruto da diferenciação entre homo sapiens e as demais espécies. Não existe nada de mágico ou sobrenatural no amor. O amor é fruto do maior dom do humano: o dom de pensar. Desenvolvemos a comunicação, desenvolvemos filosofias e códigos de conduta, leis e sistemas de esgoto. O ser humano fez tudo isso. Deus definitivamente não se encaixa nisso tudo. Diabos! Quero mais é que tudo vá para o inferno. Eu sou um homem amargo por tudo que fiz na vida. Colho diariamente as jurubebas que brotam em minha horta. Amargas e rejeitáveis, assim como sou para a sociedade. Minha canção é assombrosa e ninguém quer ouvi-la. Minha solidão não pode ser sanada e meus crimes não têm solução. Eu tenho um acordo verbal com o fracasso, uma espécie de pacto de não-agressão com o pecado. Preciso dormir, anseio pela canção de ninar entoada pelos fantasmas do meu passado. Um último cigarro e cama.


Nelson