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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

Literatura e outras Linguagens

nos anos iniciais do ensino fundamental

CAPES


CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

Literatura e outras Linguagens nos anos iniciais do ensino fundamental


Coordenador: Clecio dos Santos Bunzen Júnior

CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

Literatura e outras Linguagens nos anos iniciais do ensino fundamental

Pipa Comunicação Recife - 2014


Copyright 2014 © Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP Reservados todos os direitos desta edição. É proibida a reprodução total ou parcial desta obra sem autorização expressa dos autores e organizadores.

série CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA Literatura e outras linguagens no ensino fundamental Ficha TÉCNICA DO VOLUME Foto, CRIAÇÃO e PROJETO DA CAPA Karla Vidal (Pipa Comunicação - www.pipacomunica.com.br/) Projeto Gráfico e DIAGRAMAçÃO Karla Vidal e Augusto Noronha (Pipa Comunicação - www.pipacomunica.com.br) Coordenação do volume Clecio dos Santos Bunzen Júnior Textos Alunos dos Cursos de Pedagogia e Letras (Vespertino e Noturno), da Universidade Federal de São Paulo, campus Guarulhos. Professores da Secretaria de Educação de Guarulhos. Revisão Clecio dos Santos Bunzen Júnior

Catalogação na publicação (CIP) Ficha catalográfica produzida pelo editor executivo B9429

Bunzen, Clecio dos Santos. Literatura e outras linguagens nos anos iniciais do ensino fundamental / Clecio dos Santos Bunzen Júnior [org.]. - Recife: Pipa Comunicação, 2014. 208p. : Il.. (Série Cadernos de Residência Pedagógica). Vol. 08. Inclui bibliografia. ISBN 978-85-66530-32-2 1. Educação. 2. Ensino Fundamental. 3. Pedagogia. 4. Residência Pedagógica. 5. Literatura. I. Título. II. Série. 370 CDD 37 CDU c.pc:06/14ajns


CRÉDITOS DA SÉRIE

Universidade Federal de São Paulo Chefe de Departamento de Educação Claudia Panizzolo Marieta Gouvêa de Oliveira Penna Coordenação do Curso de Pedagogia Regina Cândida Ellero Gualtieri Rosario Genta Lugli Coordenação da Residência Pedagógica Claudia Lemos Vovio Equipe de Residência Pedagógica Adalberto Dos Santos Souza Adriana Regina Braga Betania Libanio Dantas De Araujo Celia Maria Benedicto Giglio Claudia Barcelos de Moura Abreu Claudia Lemos Vovio Claudia Panizzolo Cleber Santos Vieira Clecio dos Santos Bunzen Júnior Daniela Finco Edna Martins Érica Aparecida Garrutti De Lourenço Emerson Isidoro Santos Isabel Melero Bello João do Prado Ferraz de Carvalho

Jorge Luiz Barcellos da Silva Lucila Pesce Magali Aparecida Silvestre Marcia Cristina Romero Lopes Marcia Jacomini Maria Angélica Pedra Minhoto Maria Cecilia Sanches Maria de Fátima Carvalho Marian Avila De Lima e Dias Marieta Gouvêa de Oliveira Penna Marineide de Oliveira Gomes Umberto de Andrade Pinto Vanessa Dias Moretti Vera Lucia Gomes Jardim Wagner Rodrigues Valente


Prefixo Editorial: 66530

Comissão Editorial Editores Executivos Augusto Noronha e Karla Vidal Conselho Editorial Angela Paiva Dionisio Antonio Carlos Xavier Carmi Ferraz Santos Cláudio Clécio Vidal Eufrausino Clecio dos Santos Bunzen Júnior Leonardo Pinheiro Mozdzenski Pedro Francisco Guedes do Nascimento Regina Lúcia Péret Dell’Isola Ubirajara de Lucena Pereira Wagner Rodrigues Silva


APRESENTAÇÃO


Apresentação

O curso de Pedagogia da UNIFESP, iniciado em 2007, definiu um modelo de formação inovador, centrado na busca por uma aproximação entre a Universidade e a Escola Pública. Busca-se, assim, a construção de espaços de estudo e pesquisa que articulem teoria e prática, integrando a formação inicial e o exercício profissional da docência. Dois pilares centrais alicerçam esta proposta: a Unidade Curricular Práticas Pedagógicas Programadas (PPP) e o Programa de Residência Pedagógica (PRP). A Residência Pedagógica acrescenta ao modelo de “estágio curricular” o preceito do trabalho recíproco entre a Universidade e a Escola Pública. Essa reciprocidade se concretiza, de

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um lado, pela inserção dos alunos de Pedagogia como residentes nas escolas, e de outro, por meio de ações de extensão que atendam às demandas de formação de professores e gestores das redes públicas de ensino ou prestadores de serviços conveniados ao município de Guarulhos. A Série Cadernos de Residência Pedagógica é composta de materiais destinados aos residentes do curso de Pedagogia da UNIFESP e aos professores e gestores das escolas públicas de Guarulhos. O objetivo é discutir algumas das questões que caracterizam as diferentes etapas da educação básica, os modos de organização e gestão, os currículos, o processo de ensino e aprendizagem e os sujeitos envolvidos nesses processos. Além disso, espera-se que colabore para a compreensão das dinâmicas realizadas pelos residentes no ambiente escolar. Essa publicação conta com o apoio do Programa de Consolidação das Ações de Licenciatura – PRODOCÊNCIA – CAPES – DEB. Fazem parte da Série os seguintes volumes: Educação Infantil (volume 1), Primeiro segmento do Ensino Fundamental (volume 2) e Educação de Jovens e Adultos (volume 3), Gestão Educacional (volume 4), Educação Infantil e Direitos da Infância (volume 5), O Direito à Infân10


Apresentação

cia e ao Brincar (volume 06), História e Geografia nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental (volume 07), Literatura e outras Linguagens nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental (volume 08).

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Literatura e outras Linguagens nos anos iniciais do ensino fundamental


SUMÁRIO

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Literatura e outras linguagens: construindo sugestões didáticas

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Chapeuzinho Vermelho: diferentes autores e gêneros

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Os Três Porquinhos: os diferentes usos e recursos

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Coraline no País das Maravilhas

49

Muitas Alices, muitas Histórias

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A reinterpretação de Romeu e Julieta para a Literatura Infantil

69

“Os Miseráveis” em um contexto sociocultural atual – além de Victor Hugo


83

O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá de Jorge Amado

95

As aventuras de Pinóquio: as diversas versões para a mesma história

105

Experimentando poemas: uma saborosa e divertida aventura

113

Narrativas Míticas dos índios brasileiros

127

Rotas Fantásticas: histórias que o povo conta

139

Contos de Mistério: desvelando a sua escrita

147

Pra rimar e cantar: poesia de cordel e outras batalhas

161

Entre contos e poesias: versando memória e diversidade no mundo das palavras

171

Descobrindo os contos populares

185

Trabalhando com contos populares

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A poesia disseminando o direito


Literatura e outras linguagens: construindo sugestões didáticas1

O e-book “Literatura e outras Linguagens nos anos iniciais do Ensino Fundamental” é resultado de uma experiência didática com alunos de Pedagogia e Letras, além de professores da rede pública de Guarulhos, matriculados na Unidade Curricular “Fundamentos teóricopráticos do Ensino da Língua Portuguesa”. Os professores em formação inicial e continuada foram convidados a produzirem “Sugestões Didáticas” para professores que atuam nos anos iniciais do Ensino Fundamental, com ênfase no trabalho com a leitura e nos modos de ler na sala de aula.

1. Clecio dos Santos Bunzen Júnior, professor do Departamento de Educação da Universidade Federal de São Paulo e docente responsável pela Unidade Curricular Fundamentos Teórico-práticos do Ensino da Língua Portuguesa (5º Termo) no primeiro semestre de 2012. E-mail: clecio.bunzen@gmail.com

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As Sugestões Didáticas (SDs) não foram escritas para anos específicos, pois acreditamos que os professores do 1º ao 5º ano podem usá-las em diferentes anos e com várias adaptações e complementos. De maneira pontual e direta, as SDs foram construídas para discussões específicas da Unidade Curricular, especialmente para a iniciação à docência em relação à construção de um projeto didático autoral. A construção de tal projeto didático autoral envolve muitos desafios, especialmente pelo pouco tempo/espaço para reflexão sobre língua, linguagem, textos e gêneros do discurso nos cursos de Pedagogia. Os futuros professores e os que já atuam apresentam muitas dúvidas, questionamentos e desejos sobre o que podem fazer com as crianças na escola pública, levando em consideração diversos fatores externos e internos ao processo de escolarização e consolidação da alfabetização. Neste sentido, foram eleitos três objetivos gerais que impulsionaram a construção de várias SDs para professores da rede pública brasileira:

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Literatura e outras linguagens: construindo sugestões didáticas

1. Escolher gêneros do discurso da esfera literária e da esfera da divulgação científica2 para um trabalho na escola que leve em consideração os letramentos múltiplos (Rojo, 2009) e os multiletramentos (Rojo, 2012). 2. Desenvolver uma percepção inicial para a escolha de textos singulares adequados para o trabalho pedagógico na escola, apostando no trabalho de mediação do professor na análise verbo-visual dos textos. 3. Construir uma rede intertextual que apóie o trabalho de leitura e produção de textos na escola, levando em consideração o “local” e o “global”; as diferenças sociais e culturais, além da diversidade de mídias (Rojo, 2012)

Com base na Bibliografia Básica da Unidade Curricular (com destaque para Rojo, 2009 e 2012, Antunes, 2009, Fontana, 2009; Lerner, 2002), os grupos iniciaram a elaboração das sugestões didáticas após a apresentação de um modelo que

2. A escolha de duas esferas deve-se ao fato de possibilitar aos alunos comparações em termos de escolhas de gêneros, textos, aspectos lingüísticos e visuais. O tratamento da imagem ou do léxico de um poema não pode ser o mesmo dado a um verbete de divulgação científica para crianças. As SDs com o trabalho da esfera de Divulgação Científica pode ser visto no Volume 9.

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apresentava as principais seções e seus objetivos. Neste sentido, é importante frisar que não estávamos construindo “sequências didáticas” ou “projetos de ensino” que apresentam características de uma ação didática mais sistematizada e uma maior discussão sobre o tempo pedagógico. As SDs construídas objetivaram mais instigar, propor alguns caminhos, insinuar gestos didáticos, fornecer propostas e aventar práticas em que o ensino da leitura de textos verbo-visuais possa ser central nas diferentes disciplinas escolares ou áreas do conhecimento. As SDs encontram-se organizadas por títulos que remetem a elementos importantes do projeto didático autoral, citações que retomam textos lidos pelos autores e seções. Cada seção procura responder a determinados objetivos da Unidade Curricular e ao mesmo tempo dialogar com os futuros leitores:

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Literatura e outras linguagens: construindo sugestões didáticas

Objetivo das sugestões didáticas: explicitar de forma breve aos leitores quais são os principais objetivos da sugestão didática, levando em consideração à esfera em jogo (literária ou divulgação científica), os textos singulares escolhidos, a rede intertextual construída e os elementos verbais e visuais que poderão ser analisados. Iniciando a proposta com as crianças: apresenta para os leitores qual é a obra ou texto que será principal para a construção das aulas e das propostas sugeridas. Sugestões para começar o encontro com o texto: sugere ao professor gestos didáticos que apontam para a importância do planejamento de ações pedagógicas que introduzam as crianças na experiência inicial com o texto. De olho no texto verbo-visual: apresenta propostas de análise linguística e visual de trechos do texto singular escolhido como principal. Desta forma, vale salientar que são apenas alguns aspectos que foram ressaltados, sem uma discussão sobre como sistematizá-los. Cabe ao professor dialogar com as propostas e organizá-las, sistematizá-las e ampliá-las, uma vez que acreditamos na importância do trabalho de análise com as crianças na escola, com a mediação do professor. As sugestões apenas apontam para alguns elementos de análise3.

3. Salientamos também que por uma questão relacionada aos direitos autorais dos textos, reproduzimos apenas pequenos trechos e nunca os textos completos. Desta forma, o professor precisará ter acesso às obras para uma visão geral do texto e do trabalho pedagógico.

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Fazendo relações com outros textos verbais e/ou visuais: sugere a ampliação da análise linguística e visual por meio da relação intertextual do texto principal com outros textos, levando consideração a diversidade de mídias e produções verbo-visuais (filmes, pinturas, jogos eletrônicos, literatura infantil, quadrinhos, vídeos, canções etc.). O objetivo também não é sistematizar quais caminhos o professor deve seguir, mas apenas mostrar possíveis trilhas e possíveis propostas. Produzindo textos com as crianças: apresenta algumas propostas de produções textuais orais, escritas ou verbovisuais com as crianças, como uma forma de sistematizar ou ampliar as possibilidades de trabalho com a língua(gem) na escola. Para saber mais/Para ler mais: sugere bibliografia de apoio, vídeos, programas televisivos, sites, blogs ou outros recursos que podem enriquecer o trabalho sugerido nas seções anteriores.

A produção das sugestões didáticas pelos grupos teve como finalidade também uma ação reflexiva sobre o processo de produção textual, uma vez que os alunos se envolveram em um processo de reescrita e de reflexão sobre a interlocução de seus textos. Esperamos que a leitura das suges20


Literatura e outras linguagens: construindo sugestões didáticas

tões possa provocar nos leitores reflexões positivas sobre a ação pedagógica. No âmbito da proposta pedagógica do curso de Pedagogia da Unifesp e levando em consideração a Residência Pedagógica, acreditamos que as sugestões didáticas indiciam as aprendizagens dos futuros professores (e dos atuais docentes) sobre o agir pedagógico, especialmente sobre a complexa tarefa de planejar ações didáticas intencionais para construir com autonomia seus projetos didáticos autorais.

Referências Bibliográficas ANTUNES, Irandé. Aula de Português. São Paulo Parábola, 2003. FONTANA, Roseli. Escrevendo e lendo na escola: a mediação como princípio da organização do trabalho pedagógico. In: Ensaios: perspectivas e pressupostos para uma discussão curricular na Rede Municipal de Campinas. Campinas, 2009. LERNER, Delia. Ler e escrever na escola: o real, o possível e o necessário. Porto Alegre: Artes Médicas, 2002, pp. 17-26. ROJO, Roxane. Letramentos(s) – práticas de letramento em diferentes contextos. In: Letramentos múltiplos, escola e inclusão social. São Paulo: Parábola, 2009. ROJO, Roxane. Pedagogia dos multiletramentos - Diversidade cultural e de linguagem na escola. In: ROJO, Roxane; MOURA, Eduardo (Orgs.) Multiletramentos na escola. São Paulo: Parábola, 2012.

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Chapeuzinho Vermelho: diferentes autores e gêneros1 “No entanto, sabemos que, em nosso país, nem todas as crianças e adolescentes têm a oportunidade de conviver com livros de literatura infantil e juvenil antes e fora da escola e, com isso, destacamos a importância de o professor garantir em sua rotina pedagógica prática de livros de literatura.” (Leal, Albuquerque e Morais, 2007,p.71).

Objetivos das sugestões didáticas

Trabalhar a literatura infantil com crianças, relacionando a história Chapeuzinho Amarelo, de Chico Buarque de Holanda, com o conto maravilhoso Chapeuzinho Vermelho.

Fazer relações intertextuais entre as obras, enfatizando a importância de compreender as entrelinhas.

1. Laís Pezzuto Porto, Mayara Fervorini Silva, Rafaela França e Rosely da Silva Sousa, alunas do Curso de Pedagogia da Universidade Federal de São Paulo.

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Contribuir para que as crianças compreendam que os textos possuem autores que fazem escolhas, têm intenções e propósitos, se alinham e se relacionam com outros autores por intermédio de suas obras; bem como divergem de outros, o que, também, pode ser feito por meio de suas produções.

Iniciando a proposta com as crianças...

Ler em sala de aula a obra Chapeuzinho Amarelo, escrita por Chico Buarque de Holanda em 1979 e ilustrada por Ziraldo em 1997. A criança-leitora terá contato com um livro-poema no qual Chico Buarque faz uma releitura do conto maravilhoso Chapeuzinho Vermelho. 24


Chapeuzinho Vermelho: diferentes autores e gêneros

Sugestões para começar o encontro com o texto Sugerimos começar o trabalho pedagógico investigando os conhecimentos prévios das crianças sobre o conto Chapeuzinho Vermelho, sem o auxílio do livro, para que elas tenham possibilidade de se expressarem oralmente; dando oportunidade para que contem o que sabem. Outra opção é fazer uma discussão oral sobre possíveis diferenças nas versões que já conhecem, explorando os conhecimentos sobre outras obras inspiradas no clássico infantil. Em seguida, pode-se conversar sobre o trabalho de compilação das histórias realizado pelos Irmãos Grimm, bem como sobre a autoria de Chico Buarque de Holanda e suas composições musicais. Daí, então, pode-se ler a história Chapeuzinho Amarelo, com auxílio do livro, para que as crianças tenham a oportunidade de terem contato com o suporte, de folheá-lo; apreciarem as ilustrações e interagirem umas com as outras acerca de suas percepções e das lembranças evocadas de seus repertórios individuais, para que assim, experimentem a prática de relacionar os textos com seus conhecimentos prévios.

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De olho no texto verbo-visual Chapeuzinho Amarelo “Era a Chapeuzinho Amarelo. Amarelada de medo. Tinha medo de tudo,[...] Um LOBO que nunca se via, que morava lá pra longe, do outro lado da montanha, num buraco da Alemanha, cheio de teia de aranha, numa terra tão estranha [...]”

1. É possível abordar a importância das ilustrações, e pensar com as crianças de que forma elas auxiliam na compreensão do conto e quais as relações que se estabelecem entre cores, formas e a temática principal do texto. 2. As rimas presentes na obra, e exemplificadas no trecho escolhido, podem ser trabalhadas em uma discussão sobre os efeitos que produzem, tal como o efeito de eco que a repetição da sílaba “nha” na sequência de palavras montanha, alemanha, aranha e estranha produzem, reforçando a ideia de lá pra longe. 3. Pode-se trabalhar com os vários sentidos das palavras, tal como na parte em que Chapeuzinho Amarelo é adjetivada de “amarelada de medo”.

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Chapeuzinho Vermelho: diferentes autores e gêneros

Fazendo relações com outros textos verbais e/ou visuais “Não podemos interpretar um texto em um gênero sem relacioná-lo a seu contexto de origem, sinalizado pelas pistas textuais, aí incluídos autor, forma de produção, público a que se destina. Do contrário nossa compreensão de um texto seria incompleta”. (Rojo e Brait, 2001, p.12).

1. Comparar as histórias Chapeuzinho Vermelho, traduzida por Ana Maria Machado (Editora Nova Fronteira, 1986), e Chapeuzinho Amarelo de Chico Buarque de Holanda.

2. Comparar o livro de Chico Buarque com o livro Chapeuzinho Redondo, escrito por Geoffroy de Pennart, (Editora BrinqueBook, 2012), que apresenta versão bem humorada da história Chapeuzinho Vermelho, na qual a menina não é vítima e o lobo não é mau.

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3. Para apresentar às crianças outros gêneros e explorar a intertextualidade, sugerimos assistir ao filme Deu a Louca na Chapeuzinho (Hoodwinked), lançado no Brasil em 2005, no qual o roteirista e diretor Cory Edwards opta por recontar Chapeuzinho Vermelho em forma de uma cômica trama policial.

4. É possível, ainda, ler a história dos Três Porquinhos (Ana Maria Machado, FTD Editora, 1996) que é citada no filme Deu a Louca na Chapeuzinho pela fala do LoboRepórter e fazer a inter-relação entre os elementos comuns tais como medo, lobo como vilão, etc.; além de discutir sobre a intencionalidade desses autores, expressa, dentre outros fatores, pela moral da história.

Produzindo textos com as crianças Sugestão A: conversar com a turma e propor uma atividade de produção de textos que terá por fim publicá-los em um blog que será criado para socializar as produções entre eles, possibilitando que revisitem seus textos, comentem os trabalhos dos amigos. 28


Chapeuzinho Vermelho: diferentes autores e gêneros

Sugestão B: propor que a turma se separe em grupos e cada um dos grupos, de acordo com suas habilidades e preferências, trabalhe com um gênero para recontarem um conto maravilhoso, podendo ser filmagem realizada com celular ou câmera convencional, fotografia, desenho, ou ainda, alguns podem gravar a narração de sua versão. As crianças podem também produzir outras versões para a história Chapeuzinho Vermelho.

Para ler mais

MACHADO, Angelo. Chapeuzinho Vermelho e o LoboGuará. Editora Melhoramentos. 2006.

ROSA, João Guimarães. Fita Verde no Cabelo: nova velha estória. 13.ª impressão. Ilustrações de Roger Mello. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992.

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Para saber mais

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ANTUNES, Irandé. Refletindo sobre a prática da aula de português. In: Aula de Português. São Paulo Parábola, 2003.

DIONÍSIO, Angela Paiva. Conversa entre textos. In: Diversidade Textual: Os gêneros na sala de aula. CEEL, Editora Autêntica. 2006. Disponível em: http://www.ufpe.br/ceel/e-books/Diversidade_Livro.pdf - Acesso 17/12/2012.

LEAL, T.F; ALBUQUERQUE, E.B.C; MORAIS, A.G. Letramento e alfabetização: pensando a prática pedagógica. In: BEAUCHAMP, Jeanete et alli. (Orgs). Ensino fundamental de nove anos: orientações para a inclusão da criança de seis anos de idade. Brasilia: MEC, 2007, p.69-84.

MARCUSCHI, Beth. Escrevendo na escola para a vida. In: Egon Rangel e Roxane Rojo (Orgs.). Língua Portuguesa: Ensino Fundamental. Brasília, MEC, 2010.

MENESES, Adélia Bezerra de. Vermelho, verde e amarelo: tudo era uma vez. In: Estud. av.[online]. 2010, vol.24, n.69, pp. 265-283.

ROJO, Roxane; BRAIT, Beth. Gêneros: Artimanhas do texto e do discurso. Coleção Linguagens e Códigos. São Paulo: Escolas Associadas.2001.


Os três porquinhos: os diferentes usos e recursos1

“A relevância e a produtividade pragmática da língua oral no mundo contemporâneo pode ser facilmente percebida nas mídias, nas demandas postas por uma vasta gama de profissões, no uso político da fala e até mesmo nos jogos, brincadeiras e interações cotidianas (piadas, jogos de palavras, chistes), nas quais os desejos de jovens e de adultos tecem e entretecem suas subjetividades e, por meio delas, fortalecem ou enfraquecem suas possibilidades de participação social. Sua importância é tão evidente que constitui um desafio enumerar ou mesmo classificar a infinidade de gêneros dos quais o trabalho, as diversões e as artes contemporâneas lançam mão”. (BELINTANE, 2000, p. 55).

1. Andressa Baldini da Silva, Beatriz Loge Hashimoto, Debora Regina Marques de Barros e Thabita Aline Biazon Lopes, alunas do 5º Termo do curso de Pedagogia (Vespertino) da Universidade Federal de São Paulo.

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Objetivos das sugestões didáticas •

Trabalhar a literatura oral com crianças, enfatizando as diversas formas de narrar uma mesma história, além de promover as práticas de letramento ao oferecer diferentes gêneros: contos de fada, canção, filme, entre outros.

Abordar diferentes versões da história “Os três Porquinhos”.

Proporcionar o desenvolvimento das capacidades linguísticas de ler, ouvir e falar com compreensão, através do ensino sistemático das práticas de leitura.

Iniciando a proposta com as crianças...

Sugerimos a leitura da história “Os três porquinhos em cordel”, de Marco Haurélio. A narrativa retoma 32


Os Três Porquinhos: os diferentes usos e recursos

a história do folclorista australiano Joseph Jacobs, que a publicou com o titulo original “The story of the three little pigs”, na Inglaterra em 1890. História presente no livro Contos de Fada, da editora Zahar, que traz uma coletânea de diversos contos. Sugestões para começar o encontro com o texto Pode-se primeiramente reler trechos da história clássica e perguntar às crianças se elas sabem qual é a obra, e quais são os conhecimentos prévios delas a cerca dessa história. Em seguida, pode-se fazer a leitura oral da versão em cordel.

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

De olho no texto verbo-visual “CONTA A DONA CAROCHINHA QUE NUMA TERRA DISTANTE VIVIA UM LOBO CRUEL, UM ANIMAL ARROGANTE, PERSEGUINDO OS OUTROS BICHOS, COM UMA FOME INCESSANTE. NÃO MUITO LONGE DE ONDE AQUELE LOBO VIVIA, NUMA BONITA CABANA DONA PORCA RESIDIA COM TRÊS FILHINHOS MIMADOS, AOS QUAIS MUITO BEM QUERIA”.2

1. Explorar a construção do cordel, permitindo que as crianças conheçam as sextilhas (seis versos) e possam comparar com as quadrinhas (quatro versos) mais conhecidas por elas. 2. Abordar as rimas e o ritmo do cordel, sobretudo as rimas externas3 (distante/arrogante/incessante e vivia/ residia/queria), sempre presentes nos versos pares (2º, 4º e 6º).

2. Trecho de HAURELIO, M. Três Porquinhos: em cordel. São Paulo: Nova Alexandria, 2011. 3. A rima é externa, quando ocorre no final dos versos.

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Os Três Porquinhos: os diferentes usos e recursos

3. Compreender os possíveis sentidos e expressões (Carochinha/ arrogante/ incessante),conversando sobre o léxico usado.

Fazendo relações com outros textos verbais e/ou visuais 1. Ler as histórias: Os três Porquinhos Pobres4 e Outra Vez os Três Porquinhos5 do autor Erico Veríssimo. Através da narração, explorar as adaptações do clássico e iniciar uma reflexão acerca da intertextualidade com outras obras e gêneros. “Vocês viram a fita dos três porquinhos? Pois, bem, vocês são três porquinhos? — Semos — disse Linguichinha Sabugo corrigiu o irmão. — Somos.” (2008, p. 24) “Os três irmãos davam-se as mãos, formavam uma roda e botavam a menina no meio [...] (2003, p. 4)”.

4. VERISSIMO, Erico. Os três porquinhos pobres. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2008. 5. VERISSIMO, Erico. Outra vez os três porquinhos. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2003.

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

2. Explorar os diferentes filmes e curtas-metragens sobre a história. A versão da Disney,6 1933, pode ser uma possibilidade, pois permeia o imaginário de diversas gerações. O clássico permite pensar nas relações com as imagens e com a trilha sonora:

“Quem tem medo do Lobo mau, Lobo mau, Lobo mau (Bis) Dou um soco no nariz Eu dou-lhe um bofetão Eu dou-lhe um pontapé Derrubo ele no chão Quem tem medo do Lobo mau, Lobo mau, Lobo mau (Bis)”

Outra possibilidade seria ouvir o conto, as cantigas e trabalhar com o videokê do CD7, para abordar a compreensão do texto oral e também dos recursos sonoros.

6. Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=kL5EjA2xu3k> 7. Versão da Ciranda Cultural – Sacolinha da Alegria.

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Os Três Porquinhos: os diferentes usos e recursos

3. Explorar pinturas, na quais as crianças possam visualizar as diferentes leituras que podem ser criadas a partir de uma história. Indicação: Os Três Porquinhos (2007), de Lourdes Leite8

Produzindo textos com as crianças • Comparar diversas versões do conto em diferentes mídias, atentando para as ilustrações, termos, épocas da edição e ideologias, de maneira que as crianças possam se apropriar das histórias e reescrevê-las, utilizando-se de diferentes gêneros: história em quadrinhos, peça de teatro, curta-metragem, paródia, teatro de fantoches, música, poema, entre outros.

8. Disponível em:<http://www.movimentoartecontemporanea.com/mac/acervo/46/1132/>

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

• Essa história poderá ser reescrita com outra perspectiva, utilizando o livro de dobraduras, “Os três porquinhos” (HAHN, 2009)9, e partindo de questões introdutórias como: “ E se os heróis não fossem tão bonzinhos assim? E se o conto fosse contado do ponto de vista do vilão?”10 E realizar produções que caminhem para este sentido. • Recontar as histórias trabalhadas, individualmente ou coletivamente. Algumas perguntas podem nortear essa produção, como por exemplo: 1. Quem são os principais personagens? 2. Conte, em poucas palavras, os principais eventos do conto.

9. HAHN, C. Os três porquinhos. Um livro de dobraduras. Companhia das Letrinhas, 2006. 10. MOURA, E. & TEIXEIRA D. O. Chapeuzinho vermelho na cibercultura: por uma educação lingüística com multiletramentos.In: ROJO, R. H. MOURA, E.(org.) Multiletramentos na escola. São Paulo: Parábola Editorial, 2012.

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Os Três Porquinhos: os diferentes usos e recursos

• Expandir a forma de elaboração das produções das crianças com o auxilio das chamadas Novas Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs): curta-metragem, fotolog, stop motion, entre outros.

Para saber mais

BELINTANE, C. Linguagem oral na escola em tempos de redes. In: Educação e Pesquisa. São Paulo, v.26, n.1, p.5365, jan./jun. 2000.

CASCUDO, L. C. Literatura oral no Brasil. São Paulo: Ed. Da Universidade de São Paulo, 1984.

GOLDSTEIN, N. Versos, Sons, Ritmos. São Paulo: Ed. Ática, 12º ed. 2000.

MORAES, F. O. A subalternização em Os três porquinhos. In: Educação e Pesquisa, São Paulo, v.26, n.1, p.53-65, jan./jun. 2000.

ROJO, R. H. MOURA, E (Orgs.). Multiletramentos na escola. São Paulo: Parábola Editorial, 2012.

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Coraline no País das Maravilhas1 “O uso de quadrinhos tem o objetivo de ajudar, motivar e estimular o aluno a desenvolver habilidades, além de ensinar de forma lúdica. Os benefícios serão muitos. As Histórias em Quadrinhos dão uma extraordinária representação visual do conhecimento, mostram o que é essencial, ajudam na organização narrativa da história, são de fácil memorização, enriquecem a leitura, a escrita e o pensamento e desenvolvem conexões entre o visual e o verbal” (Luyten, 2011, p.25)

Objetivos das sugestões didáticas •

Trabalhar textos em quadrinhos com crianças, explorando “a linguagem a partir da diversidade de textos que circulam socialmente” (PCNs, 1997, p.30);

Relacionar os quadrinhos com outros elementos da cultura popular, como cinema, desenhos animados e jogos eletrônicos;

1. Tamires Narumi e Valesca Brites, alunas do curso de Pedagogia da Universidade Federal de São Paulo.

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Avaliar a história da personagem, relacionando-a com protagonistas de outras obras e estimulando a riqueza da imaginação das crianças;

Reconhecer o quadrinho como gênero discursivo secundário2 que aparece em circunstâncias de comunicação cultural na forma escrita e que muitas vezes, em função do enredo desenvolvido, engloba os gêneros discursivos primários correspondentes à comunicação verbal espontânea.

Iniciando a proposta com as crianças... Conhecido principalmente por Sandman, Neil Gaiman é um renomado autor britânico de graphic novel3, e suas histórias fantasiosas são capazes de levar ao mundo dos sonhos até o mais pragmático dos seres humanos, pois deixam o fantástico pairando levemente sobre a realidade; não afastando, mas também não permitindo que se toquem.

2. Para mais informações, consultar BAKHTIN, M. Os gêneros do discurso. In: Estética da Criação Verbal. Martins Fontes: 2003 3. Termo cunhado por Will Eisner em 1978, que poderia ser traduzido para o português como Novela Gráfica, remete a histórias em quadrinho publicadas em formato de livro, e que tratam de assuntos mais maduros e complexos, mostrando um cotidiano mais próximo à realidade.

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Coraline no País das Maravilhas

Coraline, escrito para sua filha e publicado em 2002, conta a história de uma garota que gosta de explorar o lugar para o qual acabou de se mudar com os pais. Em uma de suas explorações, descobre uma porta secreta, que na verdade era um portal para outro mundo, reflexo do mundo no qual ela vive, onde coisas perturbadoras acontecem. A personagem passa por situações assustadoras e precisa enfrentar seus maiores pesadelos para conseguir se salvar e voltar ao seu mundo verdadeiro.

Há duas versões publicadas da história: narrativa e quadrinhos. “Hoje as histórias em quadrinhos são valorizadas como gênero literário que conjuga

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

imagem e palavra, símbolos e signos. Sua linguagem se insere nos campos da cultura e da arte” (LUYTEN, 2011, p. 22). Por conter todas essas características, seu emprego na educação escolar é de suma importância para a consolidação do processo de alfabetização. Sugestões para começar o encontro com o texto

É possível iniciar as atividades debatendo sobre o imaginário e/ou as relações familiares e interpessoais, relacionando a história de Coraline com o clássico Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, através de elementos que se assemelham nas obras. 44


Coraline no País das Maravilhas

De olho no texto verbo-visual “Qual é o seu nome?” “Olhe, eu sou Coraline. Ok?” “Gatos não têm nomes” “Não?” “Não.” “Agora, pessoas têm nomes. Isso acontece porque vocês não sabem quem vocês são. Nós, os gatos, sabemos quem somos, por isso não precisamos de nomes.” 4

1. O trecho selecionado permite que as crianças analisem como se desenvolvem os diálogos na história em quadrinhos e discutam como seria esta mesma conversa em uma narrativa que não se organizasse em quadrinhos; 2. Podemos propor às crianças que reconstruam este mesmo diálogo em um texto dramático ou em um roteiro de filme, destacando as diferenças e fazendo comparação entre os gêneros; 3. É possível tratar da questão da identidade e formação da personalidade, analisando a fala do gato, e questionar a compreensão do ponto de vista que sua fala carrega.

4. Transcrição do texto verbal de GAIMAN, Neil, RUSSELL, P. C. (ilustrações) Coraline Graphic Novel Editora ROCCO, 2010.

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

Fazendo relações com outros textos verbais e/ou visuais

“Quanto mais rápido for, mais atrasado chegarei.” - Alice (Alice no país das maravilhas)

1. Analisar as falas de Coraline, de Neil Gaiman e Alice, de Lewis Carroll, sob o contexto no qual as personagens se encontram.

“Mas como pode você fugir de alguma coisa e então voltar até ela?” - Coraline (Coraline)

2. Comparar a história de Coraline com o jogo Epic Mickey, desenvolvido pelo estúdio Junction Point e publicado pela Disney para Nintendo Wii, em que a personagem atravessa um espelho e vai parar em um universo paralelo, apresentando o trailer do jogo5. Outro jogo que cuja temática se assemelha a de Coraline é Kingdom Hearts, desenvolvido pela Square Enix e publicado em parceria pela Square e a Disney para PlayStation 2. É possível também explorar o jogo do próprio livro Caroline, chamado de “Coraline: The Game”.

5. Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=4-MnhFSHTxU

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Coraline no País das Maravilhas

3. Explorar as possíveis relações entre a história de Coraline com o primeiro livro da série As Crônicas de Nárnia, O leão, a feiticeira e o guarda-roupa, de C. S. Lewis, no qual quatro crianças vão parar num outro mundo através de um portal dentro de um guarda-roupa.

4. Comparar as versões de Coraline em graphic novels com a adaptação da narrativa para o filme em stop-motion: Coraline e o mundo secreto (2009).

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

Para saber mais

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LUYTEN, Sonia M. B. Quadrinhos na sala de aula. In: Revista Salto para o Futuro, Ano XXI Boletim 01, Abril, 2011. p. 25.

OLIVEIRA, Bruno S. Histórias em quadrinhos como recurso metodológico para o ensino de Língua Portuguesa. Iporá: UEG, 2010.

RAMOS, Paulo. Histórias em Quadrinhos: Gênero ou Hipergênero. In: Estudos Linguísticos. v. 38, pp. 1-14, 2009.

RAMOS, Paulo. Os quadrinhos em aulas de língua portuguesa. In: RAMA, Angela; VERGUEIRO, Waldomiro. (Org.). Como usar as histórias em quadrinhos na sala de aula. São Paulo: Contexto, 2006, pp. 65-85.

VERGUEIRO, W. C. S; RAMOS, Paulo Eduardo (Orgs.). Quadrinhos na educação: da rejeição à prática. São Paulo: Editora Contexto, 2009.


Muitas Alices, Muitas Histórias1

“Alice sofre os percalços do crescimento no sonho, mas sai de sua viagem exatamente como entrou. Era um sonho, acabou, as pálpebras se abrem, a vida é retomada no mesmo ponto em que se fecharam.” (Colasanti, 2003, p.07).

Objetivos das sugestões didáticas

Trabalhar as narrativas clássicas infantis com crianças, relacionando versões da mesma história.

Explorar a linguagem oral e escrita.

Trabalhar a relação das narrativas clássicas com filmes e pinturas que retratam a mesma história.

1. Gisele Cristina Salazar, Jaqueline Alves Magalhães Venancio, Maria das Dores, Marlene Alves dos Santos, Thaisa Tamie N. de Oliveira, alunas do curso de Pedagogia da Universidade Federal de São Paulo.

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Iniciando a proposta com as crianças...

Sugerimos começar chamando a atenção das crianças para que percebam: o formato do livro, o título, a capa, a folha de rosto e as orelhas do livro. Alice no País das Maravilhas foi escrito por Lewis Carroll e há várias traduções e adaptações para a língua portuguesa.

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Muitas Alices, muitas Histórias

De olho no texto verbo-visual

Conselhos de uma Lagarta “A Lagarta e Alice olharam-se algum tempo (...) A Lagarta perguntou: - Quem é você? Alice ficou atrapalhada (...) Respondeu afinal com muito cuidado: - Eu... bem, eu não sei direito, minha senhora.”

1. No livro, aparece o narrador. Podemos solicitar que as crianças explanem sobre a visão do narrador para os fatos. 2. Explorar as falas dos personagens dentro da narrativa e os sinais de pontuações que são usados para representar um diálogo na forma escrita. Como por exemplo, o travessão, reticências, sinais de exclamação e interrogação. 3. As crianças podem conversar sobre o léxico em grupos para que possam compreender os possíveis sentidos e metáforas das palavras e expressões: “Esbugalhados” “Lacaio” etc. 4. Comparar as ilustrações do livro, para que as crianças percebam a relação da imagem com cada parte narrativa.

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

Fazendo relações com outros textos verbais e/ou visuais “Uma leitura não existe isolada, mas viaja em nós num grande concerto de ecos em que as vozes de tantos autores e tantos livros se entrelaçam e se refletem”. (COLASANTI, 2003, p.04).

1. Explorar a comparação das duas narrativas, Alice no metrô e Alice no País das Maravilhas. [...] A Alice deste livro é brasileira e encontra no metrô da cidade de São Paulo o seu país subterrâneo. Penetrando nos mistérios da adolescência, cresce com seu corpo, mas “encolhe” com suas dúvidas e receios. [...]

2. Explorar a comparação da narrativa escrita do livro com a produção cinematográfica mais recente da Disney. Aos 19 anos, Alice volta ao País das Maravilhas, fugindo de um casamento arranjado. No mundo mágico, ela reencontra os personagens estranhos, como o Chapeleiro Maluco a Rainha Branca e a Rainha, inspirados na obra de Lewis Carroll. É nessa jornada fantástica que a jovem tentará encontrar seu verdadeiro destino e acabar com o reino de terror da Rainha Vermelha.

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Muitas Alices, muitas Histórias

3. Apresentar e relacionar com as crianças as características da narrativa original com os jogos eletrônicos que têm o mesmo tema. Alice do País das Maravilhas - Wii Jogo que permite que você guie, proteja e ajude Alice em sua jornada pelo País das Maravilhas, onde vários mistérios serão revelados. Ao longo do caminho, os jogadores visitam personagens como o Chapeleiro Louco e o Gato Risonho, com habilidades especiais para ajudar a escapar de armadilhas e solucionar os enigmas.

4. Apreciar as pinturas dos quadros de Salvador Dali que representam o conto Alice no Pais das Maravilhas, fazendo relações entre o conto e as pinturas. Para baixo na toca do coelho de Salvador Dali

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

Para saber mais

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CALVINO, Ítalo. Por que ler os clássicos. São Paulo: Companhia das letras, 1993.

COELHO, Nelly Novaes. O conto de fadas. São Paulo: Ática, 1991.

COLASANTI, Marina. A leitura sempre renovada – Alice, Pinóquio, Peter Pan. In: Leitura: Teoria e Prática. Ano 21, Março de 2003, Número 40.

MARTINS, Aracy; MACHADO, Maria Zélia Versiani. A Literatura e a versatilidade dos leitores. In: Aracy Alves Martins (Orgs.). Livros & Telas. Belo Horizonte: UFMG, 2011.

ROJO, Roxane. Letramentos múltiplos, escola e inclusão social. São Paulo: Parábola Editorial, 2009.


A reinterpretação de Romeu e Julieta para a Literatura Infantil1

“A literatura infantil tem, assim, potencialmente duas credenciais básicas para ser o caminho que poderá conduzir a criança, de forma muito eficaz, ao mundo da escrita. Em primeiro lugar, porque se prende geralmente a conteúdos que são do interesse das crianças. Em segundo, porque através desses conteúdos ela poderá despertar a atenção da criança para as características sintático-semânticas da língua escrita e para as relações existentes entre a forma linguística e a representação gráfica.” (Rego, 1995, p.52).

1. Carolina Pereira dos Santos, Cláudia Lopes de Souza, Sabrina Vieira Ferreira, Tatiana Barbosa Rodrigues e Victor dos Santos Moraes, alunos do 5º termo do curso de Pedagogia (vespertino) da Universidade Federal de São Paulo.

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

Objetivos das sugestões didáticas

Trabalhar com as crianças a habilidade da recriação narrativa através da literatura infanto-juvenil.

Explorar os diferentes estilos literários na reinvenção de uma mesma história: paródia cantada e poética, narrativa musical, rimas, associações textual, poesias, etc.

Incentivar os processos cognitivos de significação das crianças, estimulando a socialização das diferentes reinterpretações que caracterizam a cultura infantil.

Explorar a temática da diversidade e suas contribuições a partir de obras que, baseadas no clássico Romeu e Julieta, buscam semear a paz e a reconciliação entre pares.

Iniciando a proposta com as crianças... A leitura da obra Romeu e Julieta, de Ruth Rocha (Editora Salamandra, 2009), apresenta uma recriação da peça teatral de William Shakespeare que retrata a história do amor proibido mais conhecido na literatura universal.

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A reinterpretação de Romeu e Julieta para a Literatura Infantil

O clássico universal “Romeu e Julieta” é, originalmente, um texto teatral. É um gênero híbrido, pois contempla o oral e o escrito. Recriar esta obra e adaptá-la a um conto infantil (narrativo) implica, pois, num enorme desafio ao autor e, consequentemente, ao professor em sala de aula ao possibilitarem uma prática de leitura dinâmica e interativa com os alunos, capaz de traduzir a dramatização característica do teatro. Este elemento é essencial na aplicação desta proposta pedagógica, pois é ele que dará vida ao texto e permitirá às crianças atribuírem sentido à atividade de leitura em termos da construção de conhecimento. 57


CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

Sugestões para começar o encontro com o texto • Iniciar a aula ouvindo a história do livro no áudio gravado pelo grupo Palavra Cantada, CD Mil Pássaros Sete Histórias de Ruth Rocha (MCD, 1999) que acompanha o livro, disponível também na internet2. Permitir que as crianças “saboreiem” a história e a acompanhem com a imaginação. Desta maneira, exemplifica-se para criança a importância da oralidade na interpretação de um texto. • Abrir uma roda de conversa para perguntar sobre como visualizaram os personagens e o cenário, e só depois apresentar o livro, ouvindo outra vez a história. Isso contribuirá para a interpretação do texto e desenvolvimento da criatividade.

2. Acesse: http://www.radio.uol.com.br/#/album/ruth-rocha/mil-passaros-setehistorias-de-ruth-rocha/3926

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A reinterpretação de Romeu e Julieta para a Literatura Infantil

• Podemos ainda, contextualizar o uso do livro a partir de uma socialização da turma entre as histórias de romance conhecidas pelas crianças para que assim possam estabelecer relações interpretativas ao se depararem com o texto. Pode-se dizer, segundo Vygotsky (2002), que assim estaremos agindo na zona do desenvolvimento proximal das crianças, pois a temática trabalhada é bem conhecida socialmente (o amor proibido).

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

De olho no texto verbo-visual

- Ah, papai, as rosas são tão cheirosas... - Cheiro não é tudo na vida, meu filho. Lugar de borboleta azul é no canteiro azul. Sempre foi assim... (p.10)3

1. O trecho selecionado ilustra muito bem um posicionamento de resistência muito típico de uma criança que tem curiosidade sobre o mundo que a rodeia e com o qual os alunos poderão se identificar durante a leitura, envolvendo-se com a história. 2. Explorando a capacidade de reprodução interpretativa das crianças descrita por Corsaro (2001), podemos debater com as crianças sobre o efeito que depreendem do uso das reticências no texto escrito, como imaginam que está ocorrendo o diálogo (sentido de interrupção de um pensamento de forma que o leitor subentenda o que seria enunciado, transmissão de emoção para quem lê, entre outros casos) e como reproduziriam oralmente a conversa a partir do que imaginam, que entonação dariam a essa fala.

3. ROCHA, Ruth. Romeu e Julieta. Ilustrações de Mariana Massarani. São Paulo: Salamandra, 2009.

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A reinterpretação de Romeu e Julieta para a Literatura Infantil

3. A análise das ilustrações de Mariana Massarani potencializa uma prática de leitura que é muito própria das crianças (a qual envolve textos curtos e muitas figuras ou desenhos a cada página), ativando o seu mundo imaginário sincrético quando entram em contato com a história.

Fazendo relações com outros textos verbais e/ou visuais

Há muito tempo, não muito longe daqui. Havia um reino muito engraçado. Todas as coisas eram separadas pela cor. [...] - ROCHA, Ruth. Romeu e Julieta. Ilustrações de Mariana Massarani. São Paulo: Salamandra, 2009 Havia uma cidade de Cá e a cidade de Lá. Entre elas passava um rio enorme. Como não existia ponte, era impossível atravessá-lo. [...]

1. Explorar a interpretação da situação exposta nos livros abaixo, em especial nestes trechos. Discutir com as crianças as semelhanças dos textos narrativos, os tempos dos verbos, a criação e descrição de cenários e personagens. Além disso, pode-se também, discutir o valor da diversidade e o perigo da segregação.

- SAUERESSIG, Simone. Um rio pelo meio. São Leopoldo, RS: Sinodal, 1996

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

Por volta do ano de 1600, havia na cidade de Verona, na Itália, duas famílias inimigas: os Capuletos e os Montecchio. As razões da inimizade eram de pouca importância, mas tinha crescido tanto que, naquela altura, bastava que um capuleto e um Montecchio se encontrassem na rua para que algo terrível pudesse acontecer. [...] - SHAKESPEARE, William – adaptação de Renata Pallottini – Série Reencontro Infantil – São Paulo: Scipione, 2000 Aconteceu na Itália, Na cidade de Verona, esse sinistro episódio Onde a Obra menciona Que sendo contra o amor O ódio não funciona. Enfoca duas famílias Ricas da sociedade: Montéquios e Capuletos, Que agitavam a cidade Com uma velha pendenga De mortal inimizade. [...] - MARINHO, Sebastião. Romeu e Julieta em cordel – Clássicos em cordel. São Paulo: Nova Alexandria, 2011.

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2. Ler e comparar os trechos de adaptações da obra literária. Ajudar a criança a perceber as diferenças entre um texto em prosa e outro em verso - o cordel, a partir do mesmo clássico, Romeu e Julieta.


A reinterpretação de Romeu e Julieta para a Literatura Infantil

3. Trabalhar com as crianças a significação das histórias, utilizando-se dos três livros: Romeu e Julieta (Ruth Rocha), Romeu e Julieta em cordel (Sebastião Marinho) e Romeu e Julieta (Willian Shakespeare adaptado por Renata Pallottini). Apresentar também o filme Gnomeu e Julieta4 e o vídeo Mônica e Cebolinha no Mundo de Romeu e Julieta. Perceber as semelhanças e diferenças entre as recriações. Questionar sobre a versão que mais agradou as crianças e sobre que relações podemos estabelecer entre o livro trabalhado de Ruth Rocha e os vídeos em termos de língua(gem).

4. Gnomeu e Julieta Kelly Asbury. EUA, Reino Unido, 2011

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

4. Apreciar diferentes ilustrações de Romeu e Julieta, percebendo a riqueza da recriação do conto e da arte. Ajudar as crianças a perceberem a diferença entre ilustrações “comuns” nos livros infantis e ilustrações comuns às narrativas de cordel. Selecionar outras ilustrações de livros infantis e livretos de cordel para exemplificar a diversidade das ilustrações, bem como a liberdade dos artistas na criação de personagens e traços artísticos. Incentivar a liberdade de expressão artística. Além disso, o professor pode pesquisar com as crianças como são feitas essas ilustrações, tanto no trabalho em série (desenho gráfico e impressões de livros), como no trabalho individual (desenhistas manuais e artistas de xilogravura). É possível visitar com a turma o site da ilustradora Mariana Massarani (http:// marianamassarani. blogspot.com.br).

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A reinterpretação de Romeu e Julieta para a Literatura Infantil

Produzindo textos com as crianças • Contar às crianças o mito grego, Píramo e Tisbe, que inspirou o romance trágico de William Shakespare e outros escritores, até nos nossos dias, como é o livro de Ruth Rocha. Desafiar as crianças a desenvolverem versões criativas desse clássico, em conto, poesia e/ou cordel – apresentações em livros e áudios. • Uma opção é propor uma dramatização teatral da história, propiciando relações intertextuais com outras produções aqui apresentadas, incentivando a capacidade inventiva e criativa das crianças através do jogo simbólico. Busca-se, aqui, propiciar uma situação que coloquem as crianças em atividade do ponto de vista psíquico, como aponta Leontiev (1978), motivadas pelo interesse na ludicidade, elemento de uma de suas necessidades básicas: o brincar. 65


CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

Para saber mais

CORSARO, W. Cultura de pares e reprodução interpretativa. In: Sociologia da Infância. Porto Alegre: Artmed, 2001, pp. 126-152.

LEONTIEV, A. N. O desenvolvimento do psiquismo. Lisboa, Livros Horizonte, 1978.

REGO, L. L. B. Literatura infantil: Uma nova perspectiva da alfabetização na pré-escola. São Paulo: FTD, 1995.

VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. 6. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

Programa televisivo

• Programa Jogo de Idéias com Ruth Rocha (http://www.youtube.com/watch?v=RLE43ngoRq8)

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A reinterpretação de Romeu e Julieta para a Literatura Infantil

Sites para navegar com as crianças...

• Site Oficial da Ruth Rocha (http://www2.uol.com.br/ruthrocha/home.htm)

• Biblioteca Ruth Rocha (http://www.bibliotecaruthrocha.com.br/)

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“Os Miseráveis” em um contexto sociocultural atual – além de Victor Hugo1

“Ensinar literatura não é apenas elencar uma série de textos ou autores e classificá-los num determinado período literário, mas sim revelar ao aluno o caráter atemporal, bem como a função simbólica e social da obra literária. A literatura deve desempenhar, assim, a sua função social, ou seja, o estudo de literatura deve ajudar os alunos a compreender a si próprios, sua comunidade e seu mundo mais profundamente, percebendo com isso as possibilidades de significação que o texto literário permite.” (Martins, 2006 p. 91)

1. Angélica Rafaela de Lima Freitas, Bruna C. Mirahy de Lima, Jessica Blasques da Silva e Tayná Mota Santos Figueiredo, alunas do 5º Termo do curso de Pedagogia da UNIFESP.

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

A proposta pedagógica é:

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Utilizar com as crianças do Ensino Fundamental I um dos livros indicados pelo Ministério da Cultura para o PROLER (Programa Nacional de Incentivo a Leitura), da Fundação Biblioteca Nacional – FBN.

Explorar as diferentes realidades sociais por meio de diversas linguagens e gêneros como o cordel e poemas.

Explorar os diferentes estilos de linguagens em ilustrações em aquarelas e em xilogravuras, atentando para a diferença entre os estilos e linguagens, e seus objetivos ao serem usadas em uma obra.

Imbricar e interligar a literatura clássica erudita com a realidade atual através de reflexões por meio de rodas de conversa sobre as vivências cotidianas, e sobre os outros materiais diversos apresentados.

Trabalhar os conceitos de obra original e uma obra adaptada, e as diferenças e semelhanças entre uma obra original e uma adaptação.


“Os Miseráveis” em um contexto sociocultural atual – além de Victor Hugo

Iniciando a proposta com as crianças... A sugestão didática, que visa alcançar os objetivos observados acima, pode ser realizada de forma interativa, contanto que promovamos a participação ativa dos educandos. Pode ser iniciada com a leitura do livro feita pelo(a) professor(a) para a classe de forma gradual, sendo um capítulo por dia (tendo por base que o livro contém nove capítulos), de forma a mostrar as ilustrações e perguntar, questionar sobre o que está sendo lido, apontando as críticas sociais, e questionando como Victor Hugo2 mostra isso em sua obra, ou também como ele retrataria nossa sociedade atual. O livro “Os Miseráveis”, adaptação por Luc Lefort3 e tradução de Luciano Vieira Machado4 (Áti2. Foi um escritor francês, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista, exercendo um importante papel na luta pelos direitos humanos francês nas causas republicanas, com grande atuação política em seu país. Deu força ao Romantismo e sua eloquência e paixão que redigia em suas obras o trouxe o reconhecimento ainda jovem. Temos como obras de destaque “O Corcunda de Notre-Dame” (1831), “Odes” (1822), “Os Miseráveis”, dentre outras. Fonte: HUGO, Victor. Os Miseráveis. Adaptação Luc Lefort. http://pt.wikipedia.org/wiki/Victor_Hugo. 3. Escritor e adaptador de outros clássicos como Ali Babá e os quarenta ladrões; O médico e o monstro; Drácula entre outros. 4. Licenciado em letras pela Universidade de Brasília. Retentor de onze prêmios nacionais por traduções de obras do inglês, alemão, francês e espanhol. Fonte: http:// www.companhiadasletras.com.br/autor.php?codigo=00618

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

ca, 2007) da obra clássica erudita de Victor Hugo, apresenta ilustrações de Gérard Dubois5 diversificadas e expressivas que possibilitam a recriação do universo e do ambiente vivido na época retratada. Com muitas cores em sua maioria escuras, realça a decadência moral e social que o texto denuncia.

5. Pintor nascido em Paris em 1968.

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“Os Miseráveis” em um contexto sociocultural atual – além de Victor Hugo

Sugestões para começar o encontro com o texto • Antes de começarmos a leitura e contextualização da obra, podemos ler a biografia do autor, que está disponível na própria obra sugerida, na página 58. Esta parte do livro traz outras referências, sendo intitulada como: “Por trás da história”, onde encontramos detalhes sobre a cidade e a época vivida por Victor Hugo. • Após o trabalho com a biografia do autor, podemos questionar em uma roda de conversa sobre o que as crianças acham que será a história, observando o título e a imagem da capa; indagando-as sobre a posição da menina que está debaixo da mesa, sobre o que tem para comer e sobre onde acham que a menina está.

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De olho no texto verbo-visual

Certa noite uma mendiga, sem nenhum agasalho, ia passando a porta do estabelecimento no instante em que dois jovens burgueses saíam de lá. Bem protegidos por seus casacos e chapéus de abas largas chamados boíveres, em moda na época, os dois jonotas estavam Bêbados e zombavam de tudo. Um deles, que acabara de jogar um punhado de neve no pára-lama de carruagem, achou divertido ir seguindo a pobre miserável, sem fazer o menor ruído; morrendo de rir, ele enfiou uma bola de neve no alto de suas costas. Sufocada a princípio, a mulher gritou um “não” assustador. Depois ela se voltou e partiu pra cima dele, gritando e dando socos no ar. (...) Um policial que estava na esquina aproximou-se e agarrou-a brutalmente pelo braço. (p.25) (...) – Ir para a prisão, senhor? – gemeu ela, desvairada. – Não! Quem vai pagar, enquanto isso, a pensão da minha filha?Minha Cossette, que está tão longe e acaba de completar oito anos. Eles aumentaram ainda mais o preço! Está sendo tão difícil pagar. (P.26)

1. Este trecho do livro permite que as crianças comparem a narração com as ilustrações presentes nas páginas 25 e 26, onde aparecem Fantine em estado decadente com um dos jovens a observando, e a figura do oficial que a prende.

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“Os Miseráveis” em um contexto sociocultural atual – além de Victor Hugo

2. As sequências narrativas permite-nos trabalhar o uso temporal dos verbos, dando destaque aos verbos no passado no tempo pretérito que também são poucos usados no cotidiano das crianças e podem ser objetos de conhecimento na escola, como: “passara”, “acabara”, e “agarrou-a”. 3. As crianças podem procurar a definição da palavra “miserável” em seus dicionários e, logo após, podem conversar sobre o possível sentido da expressão: “pobre miserável” no texto em análise. 4. A oralidade pode ser trabalhada por instigarmos uma discussão, perguntando qual seria um possível desfecho para esta parte da história, quem elas acham que está com a razão e se era necessário de fato que Fantine fosse presa. 5. As palavras “boíveres” e “janotas” presentes no trecho podem ser trabalhadas de modo a ser apresentado o significado destas, tentando antes ouvir hipóteses formuladas pelas crianças, para que possam, além de compreender e enriquecer seus vocabulários, construir seus próprios sentidos e significados.

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Fazendo relações com outros textos verbais e/ou visuais

Os Miseráveis em cordel Sem querer ir adiante Falou em tom de lamento: - Eu estou preste a dormir Na rua mesmo, ao relento! Ninguém quer me dar pousada Pois eu sou um ex-detento. Há poucos dias saí Da mais horrenda prisão, Fui condenado porque Roubei um naco de pão Para dar aos meus sobrinhos Que estavam com precisão Há cinco anos recluso, Depois que fui condenado, Fui intentar de fugir Tive um pior resultado; Quatorze anos a mais Lá me deixaram largado. [...] - Viana, Klevisson. O miseráveis em cordel. São Paulo: Nova Alexandria, 2008, p. 19

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1. Possibilitar aos estudantes a percepção da diferença entre as duas produções textuais, identificando a estrutura do cordel em sextilhas (seis versos)


“Os Miseráveis” em um contexto sociocultural atual – além de Victor Hugo

Vitor nasceu no jardim das margaridas Erva-daninha nunca teve primavera Cresceu sem pai sem mãe sem norte sem seta Pés no chão, nunca teve bicicleta Já Hugo não nasceu, estreou Pele branquinha, nunca teve inverno tinha pai, mãe, caderno e fada-madrinha Vitor virou ladrão Hugo salafrário Um roubava por pão O outro para reforçar o salário Um usava capuz O outro gravata...

2. Relacionar a contextualização de “Os Miseráveis” (adaptação) com o contexto atual expresso por meio do poema lido ou declamado por Sergio Vaz6 em vídeo7. Após a leitura e relação entre as duas produções, questionar e discutir em uma roda de conversa as relações estabelecidas entre a obra clássica erudita e a vivência cotidiana.

- Vaz, Sergio. O colecionador de pedras. São Paulo: Global, 2007 .

6. Autor dos livros “Subindo a ladeira mora a noite”, “A margem do vento”, “Pensamentos vadios”, “A poesia dos deuses inferiores”, “Literatura, pão e poesia” entre outros; publicados independentemente, com o apoio da Cooperifa e da Faculdade Taboão da Serra. Fonte:http://musicapoesiabrasileira.blogspot.com.br/2008/04/ srgio-vaz-o-poeta-da-periferia.html 7. Vídeo: Sergio Vaz declama “Os Miseráveis”: http://www.youtube.com/watch?v=LKwwwok2clw

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“Você conheceu uma parte desse romance. As mais de mil páginas de Os miseráveis trazem muitas aventuras e suspense: o inspetor Javert, implacável, persegue Jean Valjean aonde quer que ele vá; Cosette cresce e se apaixona; os Thénardier perdem a hospedaria e caem na marginalidade. Existem personagem apaixonantes como o comovente Gavroche - simbolo dos meninos de rua de Paris- que foge de casa pra não se transformar num bandido. Vale a pena conhecer a história inteira!”

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3. Comparar a obra clássica original com a adaptação. Por tratarmos de uma apresentação de uma obra clássica, faz-se necessário este processo para a compreensão dos alunos para o que está sendo trabalhado. Para iniciar, ler na adaptação de Luc Lefort, na pág 58, o trecho destacado bo box ao lado. Após a leitura deste trecho, mostrar aos alunos os dois volumes da obra “Os Miseráveis”, Hugo, Victor/ COSAC NAIFY. De forma visual, deve-se perguntar qual a primeira diferença que notam, esperando que esta seja o volume e a quantidade de páginas. Circular o livro para que todos na classe folheiamno e reparem que há menos ilustrações, e que trata-se de uma obra mais densa. Comparar um dos capítulos da obra original, com a adaptação de Luc Lefort. Discutir com os alunos as diferenças e semelhanças apresentadas, para a construção de seu próprio conhecimento.


“Os Miseráveis” em um contexto sociocultural atual – além de Victor Hugo

4. Apreciar as diferentes ilustrações das duas obras apresentadas, a pintura em aquarela de “Os miseráveis” de Gérard Dubois, 2007 e as figuras que imitam xilogravuras de Murilo e Cintia, 2008 de “Os miseráveis em cordel”, de forma a atentar a diferenças de estilos e linguagens, como também semelhanças na intencionalidade da história.

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

Produzindo com as crianças • As crianças poderão produzir, com base nos conhecimentos adquiridos no decorrer das aulas, cordéis em sextilhas, pequenas canções ou poesias referentes às problemáticas sociais percebidas a partir da leitura da obra “Os Miseráveis”. De forma a visarem adequação de suas produções e intencionalidades, tanto na linguagem escrita como na oral, a quem serão dirigidas, que nesse caso serão colegas da escola, com o intuito de que esses aprendam um pouco sobre o assunto. • Com a intenção de inserir diversas formas de linguagem e frisar as suas diferenças, bem como semelhanças comunicativas, as produções das crianças para que sejam apresentadas a outras, poderão ser gravadas em vídeos, em áudio, em pinturas e cartazes.

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“Os Miseráveis” em um contexto sociocultural atual – além de Victor Hugo

Para saber mais

FARIA, Maria Alice. Como usar a literatura infantil na sala de aula. Contexto.

MARTINS, Ivanda. A literatura no ensino médio: quais desafios do professor? In: BUNZEN, C. ; MENDONÇA, M. (Orgs.) . Português no ensino médio e formação do professor. 1. ed. São Paulo: Parábola, 2006.

VIEIRA, Alice. Formação de leitores de literatura na escola brasileira: caminhadas e labirintos. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/cp/v38n134/ a0938134.pdf. Acesso em: 18/12/2012.

Documentário

O documentário produzido pela Discovery traz o contexto da época da obra e a vida Victor Hugo. http:// www.youtube.com/watch?v=kJmIe8KvCLQ

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O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá de Jorge Amado1 “A narração se caracteriza por relatar situações, fatos e acontecimentos, reais ou imaginários. Toda história mobiliza personagens, situados em um determinado tempo e lugar. Segundo Bronckart, a sequência narrativa é sustentada por um processo de intriga que consiste em selecionar e organizar os acontecimentos de modo a formar um todo, uma história ou ação completa, com início meio e fim”. (KÖCHE; BOFF e MARINELLO, 2010, p.12)

Objetivos das sugestões didáticas •

Trabalhar os principais elementos da narrativa (foco narrativo, personagens, narrador, tempo e espaço) presentes no livro O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, bem como relacioná-los com outra obra de Jorge Amado, como A bola e o goleiro;

1. Ava Andrade, Caroline Esteves, Hugo Barreto e Karen Jacomino, alunos do 5º Termo do curso de Pedagogia (Noturno) da Universidade Federal de São Paulo.

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

Sensibilizar os alunos para a intertextualidade presente em uma mesma narrativa (utilização de poemas no decorrer da narração);

Perceber que o texto traz em sua tessitura marcas da vida e escolhas do autor, pesquisando um pouco mais sobre vida e obra do autor em análise.

Iniciando a proposta com as crianças...

O primeiro contato das crianças com a obra seria através da leitura do livro O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, de Jorge Amado. Indicamos a versão da Editora Companhia das Letras, para que se possa trabalhar a narrativa com as crianças. 84


O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá de Jorge Amado

Sugestões para começar o encontro com o texto • Podemos iniciar a exploração da obra com a sala, através da leitura em voz alta do poema sobre o amor do Gato Malhado e da Andorinha Sinhá, proposta pelo próprio autor, Jorge Amado, no começo do livro: “O mundo só vai prestar Para nele se viver No dia em que a gente ver Um gato maltês casar Com uma alegre andorinha Saindo os dois a voar O noivo e sua noivinha Dom Gato e Dona Andorinha”

• Outra alternativa para iniciar um diálogo entre o texto e as crianças é através da apresentação do vídeo “Teaser O gato Malhado e a andorinha Sinhá”. Neste momento, podemos questionar as crianças se é possível a compreen-

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

são da história a partir do que foi visto, quem são os personagens que aparecem, e se é perceptível a presença da participação do narrador no trecho em análise.

Teaser da peça O gato Malhado e a andorinha Sinhá

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O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá de Jorge Amado

De olho no texto verbo-visual Parêntesis (A história que a Manhã contou ao Tempo para ganhar a rosa azul foi a do Gato Malhado e da Andorinha Sinhá; ela a escutara do Vento, sussurrada com enigmática expressão e alguns suspiros— a voz plangente. Eu a transcrevo aqui por tê-la ouvido do ilustre Sapo Cururu que vive em cima de uma pedra, em meio ao musgo, na margem de um lago de águas podres, em paisagem inóspita e desolada. Velho companheiro do Vento, o eminente Sapo Cururu contou-me O caso para provar a irresponsabilidade do amigo: desperdiça-se o Vento em fantasias em vez de utilizar as longas viagens pelo estrangeiro para estudar comunicação, sânscrito ou acupuntura, assuntos de nobre proveito. O Sapo Cururu é Doutor em Filosofia, Catedrático de Lingüística e Expressão Corporal, cultor de “rock”, membro de direito, correspondente e benemérito de Academias nacionais e estrangeiras, famoso em várias línguas mortas.) [...]Pág. 20

1. Primeiramente, o trecho representado permite que se discuta a importância do parêntesis na língua portuguesa, destacando, quando o utilizamos, de que forma e para quê; identificando ainda a construção que o autor faz no decorrer da obra (como exemplo as intervenções do narrador, que ele as chama de “Parêntesis” e a importância deste recurso na narrativa; 87


CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

2. O trecho escolhido permite que os alunos iniciem uma reflexão sobre o papel do narrador, no decorrer da história (se ele é participativo ou não, se ele é integrante da história ou não); 3. Pode-se trabalhar com a questão dos personagens destacando quais são eles (Manhã, Tempo, Sapo Cururu, Vento etc.) e o porquê de estarem com letras maiúsculas no texto; 4. Promover a expansão do vocabulário, mediante o uso de palavras de significado desconhecido às crianças ou dúvidas de quando usá-las, partindo da análise do trecho; em palavras como: inóspita, sapiente, doutor honoris causa, cultor, acupuntura, línguas mortas, sânscrito e benemérito.

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O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá de Jorge Amado

Fazendo relações com outros textos verbais e/ou visuais SONETO DO AMOR IMPOSSÍVEL

AMOR É UM FOGO QUE ARDE SEM SE VER

A Andorinha Sinhá A Andorinha Sinhô Andorinha bateu asas e voou.   Vida triste minha vida. Não sei cantar nem voar. Não tenho asas nem penas. Não sei soneto escrever.

Amor é um fogo que arde sem se ver; É ferida que dói, e não se sente;  É um contentamento descontente;  É dor que desatina sem doer. 

Muito amo a Andorinha. Com ela quero casar. Mas a andorinha não quer. Comigo casar não pode Porque sou gato malhado. Ai! — Gato Malhado

É um não querer mais que bem querer; É um andar solitário entre a gente;  É nunca contentar-se e contente;  É um cuidar que ganha em se perder;  É querer estar preso por vontade;  É servir a quem vence, o vencedor;  É ter com quem nos mata, lealdade.  Mas como causar pode seu favor  Nos corações humanos amizade,  Se tão contrário a si é o mesmo Amor?  — Luís Vaz de Camões, in “Sonetos”

1. Pode se trabalhar com o Soneto, um recurso utilizado pelo autor no decorrer da narração. Possibilitando às crianças a percepção da semelhança entre as duas produções textuais (Soneto do Amor Impossível e Soneto de Camões), identificando primeiramente a estrutura do soneto, numa formação fixa de 14 versos dispostos em 04 estrofes, sendo dois quartetos e dois tercetos; bem como, a temática de ambos - o amor. 89


CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

2. A partir das ilustrações de Carybé, pode-se trabalhar a aparição dos personagens na obra, bem como a intencionalidade da história. Por exemplo, na ilustração que mostra a Andorinha Sinhá e um coração, demonstra o amor que ela sente pelo gato ou pode se ter alguma outra leitura. E assim pode-se pensar em todas as imagens e quais personagens são retratados. Além disso, os alunos podem pesquisar sobre a relação de amizade que existia entre o ilustrador Carybé e Jorge Amado2 3. Entender a passagem temporal do livro, através do texto “Por que existem as estações do ano?” da Revista Mundo Estranho, possibilitando a todos uma compreensão dos padrões climáticos das estações do ano como fenômenos da natureza e como se relacionam com os sentimentos dos personagens. É possível 2. http://oglobo.globo.com/cultura/entre-amigos-orixas-amado-caymmicarybe-5618208

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O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá de Jorge Amado

relacionar as estações do ano com os principais acontecimentos da história. Deste modo, primeiro vem à primavera e o início da paixão; depois, com o verão quente o desabrochar dos sentimentos e o conflito (quando surge o rouxinol e se disputa o amor da andorinha); no outono há o clímax por conta dos outros animais e suas oposições ao romance; traz consigo a melancolia, o medo da solidão e a dor. Por fim, o desfecho se dá no inverno, frio e triste como o coração dos amantes. 4. Possibilitar o contato da criança com a vida e obra do autor. Deste modo, pode-se apresentar um documentário e discutir as principais informações.

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

5. Explorar duas ou mais obras de Jorge amado, uma vez que o documentário descreve onde ele viveu e escreveu suas obras. Propomos a comparação e identificação de elementos da narrativa, a partir, dos livros: “O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá” e “A bola e o goleiro”, da Editora Companhia das Letras. Pode-se considerar os conhecimentos das crianças sobre os elementos da narrativa. Uma sugestão é apresentar para a criança uma possibilidade de reconhecer estes elementos a partir de uma tabela em que se caracterize a estruturas de uma narrativa (foco narrativo, personagens, narrador, tempo e espaço).

Produzindo textos com as crianças A partir do que foi apreendido sobre a biografia do autor, será proposto que a criança compare com a plataforma na internet Wikepedia, de modo a perceber eventuais erros, semelhanças ou omissões de parte da história do autor em tal plataforma que é pública.

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O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá de Jorge Amado

Para saber mais

FAGUNDES, Alexandra Angela; CINTRA, Jardel Francisco; CINTRA, Thaíla de Sousa; FALEIROS, Monica de Oliveira. A narrativa de o Gato malhado e a Andorinha Sinhá: uma história de amor de Jorge Amado: fiando e desfiando a literatura infantil. In: Revista Eletrônica de Letras, v. 3, n.1, 2010. Disponível em http://periodicos.unifacef. com.br/index.php/rel/article/view/393

KÖCHE, V. S.; BOFF, O. M. B.; MARINELLO, A. F. Leitura e produção textual: gêneros textuais do argumentar e expor. Petrópolis, RJ: Vozes, 2010, p. 11-20.

ZILBERMAN, Regina. A literatura infantil na escola. 11.ed. São Paulo: Global, 2003.

Website: www.jorgeamado.com.br

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As Aventuras de Pinóquio: as diversas versões para a mesma história1

“Daí a importância da Literatura Infantil, nestes tempos de crise cultural: cumprindo sua tarefa de alegrar, divertir ou emocionar o espírito de seus pequenos leitores ou ouvintes, leva-os, de maneira lúdica, fácil, a perceberem e a interrogarem a si mesmos e ao mundo que os rodeia, orientando seus interesses, suas aspirações, sua necessidade de autoafirmação ou de segurança, ao lhe propor objetivos, ideais ou formas possíveis (ou desejáveis) de participação social”. (COELHO, 1981, p.3).

1. Amanda Magnani, Carl Pissato, Jessica Sacuman e Sidney Paulo Alves Júnior, alunos do 5º Termo do curso de Pedagogia (Vespertino) da Universidade Federal de São Paulo.

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

Objetivos das sugestões didáticas

Trabalhar a versão original da obra As aventuras de Pinóquio, de Carlo Collodi2, com as crianças para possibilitar aprendizagens sobre o gênero conto maravilhoso;

Incorporar o texto literário às práticas cotidianas em sala de aula; valorizando a leitura literária como fonte de prazer e de informação;

Mostrar as possibilidades de adaptações desta história em diversas mídias e versões que se distanciam dos enfoques escolares tradicionais;

Propor a recontação da história pelos alunos em outros formatos, como, por exemplo, o uso de tecnologia Stop Motion3 e maquetes.

2. Carlo Collodi é o pseudônimo de Carlo Lorenzini ( 1826-1890), nasceu em Florença,a Itália. Foi jornalista, crítico musical e dramaturgo. Começou a escrever literatura infantil em 1875. Em 1881, publicou um folhetim chamado Storia di um burattino (A Estória de um Boneco), no jornal Gionale dei Bambini de Roma. A continuidade das aventuras do Boneco em novos folhetins, o levou ao sucesso e a publicação do livro As Aventuras de Pinóquio, em 1883. 3. O Stop Motion é uma técnica cinematográfica que usa a repetição de fotos de bonecos de massinha realizando alguma ação para montar uma sequência de imagens que dê a impressão de movimento.

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As Aventuras de Pinóquio: as diversas versões para a mesma história

Iniciando a proposta com as crianças... O livro de Carlo Collodi, As aventuras de Pinóquio, traduzido por Marina Colasanti, com ilustrações de Odilson Moraes, é a primeira e original versão deste conto maravilhoso. Porém, não é a única, pois existem muitas versões em variados gêneros. As Aventuras de Pinóquio foram lançadas em 1881, em um jornal italiano dirigido a crianças, com o nome de Storia di um burattino. A primeira edição em livro apareceu em 1883. Desde então, tornou uma referência para gerações de crianças no mundo inteiro.

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

Sugerimos o trabalho com as diversas possibilidades de recontar um conto maravilhoso através de mídias pouco exploradas no âmbito escolar; além de estudar este gênero no âmbito da formação do leitor literário. Sugestões para começar o encontro com o texto • Propor uma roda de leitura para explorar com as crianças o título, a capa, algumas ilustrações, subtítulos e outras informações a respeito do autor e da publicação desta obra. Nesta roda de leitura, sugerimos a leitura em grupos do primeiro capítulo do livro Como foi que mestre Cereja, marceneiro, encontrou um pedaço de madeira que chorava e ria como uma criança, e a contextualização do enredo. • Após esse primeiro momento de conhecimento e familiarização com a obra literária, sugerimos uma roda de conversa para discutir a respeito da 98


As Aventuras de Pinóquio: as diversas versões para a mesma história

história e das experiências das crianças em relação ao seu contato com o gênero conto maravilhoso. De olho no texto verbo-visual “Era uma vez... — Um rei! — dirão logo os meus pequenos leitores. — Não crianças, erraram. Era uma vez um pedaço de madeira. Não era uma madeira de luxo, mas uma simples acha, daquelas que no inverno se põem nas estufas ou nas lareiras para acender o fogo e aquecer a casa.” (COLLODI,2002, p.7)

1. O livro de Collodi permite que as crianças reflitam e discutam sobre aspectos da literatura infantil, como por exemplo, a atitude narrativa. Neste caso em específico, a atitude do narrador é tradicional onde o narrador coloca-se no mesmo plano de visão que o leitor, em relação a fatos do passado. É uma voz familiar que tende a anular as distâncias entre a obra e o leitor;

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

2. Com a leitura e o estudo desta obra é possível trabalhar com a pontuação e seus usos. Ao longo de toda a obra, podemos observar pontos finais, de exclamação, de interrogação e reticências. 3. Há também a possibilidade de trabalhar os aspectos do gênero conto maravilhoso, como por exemplo, a narrativa que ocorre em um espaço fora da realidade; os fenômenos que não obedecem às leis naturais que nos regem; os personagens que possuem poderes sobrenaturais e que sofrem metamorfoses ao longo da história; a personificação do bem e do mal etc. 4. A leitura também dá a chance de explorar o vocabulário e ensinar novos significados de palavras que as crianças ainda não conheçam e contextualizá-los, como por exemplo, a palavra “estufa”.

Fazendo relações com outros textos verbais e/ou visuais “Formar um leitor competente supõe formar alguém que compreenda o que lê; que possa aprender a ler também o que não está escrito, identificando elementos implícitos; que estabeleça relações entre o texto que lê e outros textos já lidos; que saiba que vários sentidos podem ser atribuídos a um texto; que consiga justificar e validar a sua leitura a partir da localização de elementos discursivos.” (PCNs,1997, p.41)

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As Aventuras de Pinóquio: as diversas versões para a mesma história

1. Através do livro Que história é essa, conhecer a significação do autor Flávio de Souza para o final da história do Pinóquio. Além disso, é possível trabalhar com os aspectos históricos do conto maravilhoso escrito por Collodi. Livro Que história é essa? – Flávio de Souza – livro que reconta os finais das histórias de acordo com a significação do autor. Um desses finais é o do Pinóquio, além disso, apresenta um pouco da história deste conto maravilhoso e compara a versão de Collodi e de Walt Disney.

2. O livro As Novas Aventuras do Pinóquio - Tudo quanto se pode fazer com um nariz comprido além de dizer mentiras traz a possibilidade de trabalhar com textos não verbais que representam atitudes que o personagem Pinóquio poderia fazer com seu nariz comprido. O próprio livro traz uma sugestão de atividade, onde propõe que as crianças desenhem o que fariam com um nariz comprido. É composto basicamente por ilustrações e é muito divertido, estimula a criatividade e propõe que as crianças também desenhem o que elas podem fazer com um nariz comprido. 101


CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

3. Com a releitura do conto maravilhoso para o cinema, há a possibilidade de trabalhar as diferentes versões para o conto de Collodi. A versão do Walt Disney, que é tão famosa quanto o conto original, se distancia muito deste último, dando-nos a possibilidade de compará-los, analisá-los e contextualizá-los. Já o filme Pinóquio 3000 retrata como seria a história da Marionete no futuro, onde há oportunidades para explorar o tempo e o contexto em que as versões de passam.

Produzindo textos com as crianças Stop Motion As crianças podem produzir, em grupos, vídeos utilizando a técnica Stop Motion, onde seria retratado algum acontecimento ou passagem do livro As Aventuras de Pinóquio, que mais chamou a atenção para os determinados grupos. 102


As Aventuras de Pinóquio: as diversas versões para a mesma história

Maquete Reprodução, em grupos, de uma cena da história que se destacou para eles através da montagem de uma maquete. Quando os produtos estiverem finalizados, sugerimos que se faça uma exposição para toda a escola, para os pais e responsáveis e também para a comunidade, onde as crianças, além de mostrar o resultado do trabalho, poderão explicar todo o processo de criação.

Para saber mais

COELHO, Nelly Novaes. A Literatura Infantil. São Paulo: Quíron, 1981.

COLASANTI, Marina. A leitura sempre renovada – Alice, Pinóquio, Peter Pan. In: Leitura: Teoria e Prática. Ano 21, Março de 2003, Número 40.

RODARI, Gianni. Gramática da Fantasia. São Paulo: Summus, 1982.

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Experimentando poemas: uma saborosa e divertida aventura1 “A literatura infantil é, antes de tudo, literatura; ou melhor, é arte: fenômeno de criatividade que representa o mundo, o homem, a vida, através da palavra. Funde os sonhos e a vida prática, o imaginário e o real, os ideais e sua possível/ impossível realização”. (COELHO, 2000, p. 9).

Objetivos das sugestões didáticas •

Trabalhar os poemas, aproximando o imaginário da criança e os mais variados elementos poéticos;

Trabalhar gêneros textuais do discurso, que se relacionam com os poemas, tais como: trava-línguas, cantigas de roda, poemas líricos, trocadilhos, poemas-piada, desafios.

1. Adriana Aparecida da Rocha Pereira, Elizete Cardoso da Conceição, Maria Aparecida Mata Costa e Simara Paula de Paula, alunas do 5º Termo do curso de Pedagogia (Vespertino) da Universidade Federal de São Paulo.

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

Apresentar de diversas modalidades de se produzir poemas: oral, escrita e visual.

Colocar a criança em contato com o poema, destacando a sonoridade, a rima, as cores, as imagense os movimentos.

Iniciando a proposta com as crianças...

A leitura de um poema pode revelar um mundo novo. Em Um caldeirão de poemas, Tatiana Belinky (Companhia das Letrinhas, São Paulo, 2003) apresenta textos alegres ou tristes, divertidos ou sérios; 106


Experimentando poemas: uma saborosa e divertida aventura

poemas que falam de aventuras, de amor, de saudade e de trabalho; composições feitas para serem lidas em voz alta ou em silêncio. Entre os poemas que podem ser declamados estão quadrinhas populares, traduzidas pela autora do russo, do inglês e do alemão e textos de sua própria autoria. Sugestões para começar o encontro com o texto • O professor pode começar o trabalho com a obra, recitando para as crianças um dos poemas do livro “Que Delícia” (páginas 34 a 37). Após a leitura, deixar que elas observem as ilustrações do livro. • Outra opção é explorar a capa do livro com as crianças, para que elas façam uma relação entre a imagem (de diferentes ilustradores e estilos) e o quê será que irão ler nas próximas páginas.

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

De olho no texto verbo-visual Maluca é a rua! A rua passava Correndo na mão Por trás do cachorro Latiu o portão. A rua assustada Correu contramão. Então o porteiro Mordeu o portão – Porteiro maluco! – Gritou o portão. – Maluca é a rua! – Relincha o cão. 2

1. Os poemas escolhidos permitem que as crianças comparem quadrinhas (quatro versos) conhecidas por eles com as sextilhas (seis versos). 2. As rimas e o ritmo da poesia podem ser explorados, jogar e brincar com essas percepções.

2. BELINKY, Tatiana. Um caldeirão de poemas. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2006.

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Experimentando poemas: uma saborosa e divertida aventura

3. As crianças podem conversar sobre o léxico dos poemas em grupos para que possam compreender os possíveis sentidos e metáforas das palavras e expressões: “latiu o portão”, “gritou o portão”. 4. O poema pode ser comparado com as ilustrações que compõem as páginas, deixando que as crianças apreciem e discutam a questão estética.

Fazendo relações com outros textos verbais e/ou visuais 1. Comparar as estrutura do poema de Arnaldo Antunes, como: as sextilhas, rimas, metáforas. “O girino é o peixinho do sapo. O silêncio é o começo do papo. O bigode é a antena do gato. O cavalo é o pasto do carrapato. O cabrito é o cordeiro da cabra. O pescoço é a barriga da cobra[...]3

2. Mostrar as possibilidades de se fazer um poema verbo- visual.

3. ANTUNES, Arnaldo. Cultura. São Paulo: Iluminuras, 2012.

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

3. Jogar e brincar com as percepções: destacar as cores da capa, o desenho com a ideia de movimento, as letras que a bicicleta vai soltando ao passar, ou outra percepção que as crianças possam ter. O Limão Agora preste atenção se atenção: Se a vida for um limão Em um copo de água Natural, fria ou gelada,[...]4

Produzindo textos com as crianças • As crianças podem produzir poemas, explorando seu imaginário. Depois de realizadas as produções, fazer um blog para divulgá-las. No blog da sala, postar sempre indicações de outros poemas. • Filmar as crianças recitando poemas (sejam produções delas mesmas, ou não). Os vídeos também podem ser divulgados no blog.

4. CAPPARELLI, Sergio. Poesia de Bicicleta. São Paulo: L&PM, 2009.

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Experimentando poemas: uma saborosa e divertida aventura

Para saber mais

FARIA, Maria Alice. Como usar a literatura infantil na sala de aula. São Paulo: Contexto, 2004.

VILLARDI, R. Ensinando a gostar de ler e formando leitores Para a vida inteira. Rio de Janeiro: Dunya, 1999.

Salto para o Futuro. Poesia e escola. Boletim 20, 2007. Disponível em: http://www.tvbrasil.org.br/fotos/ salto/series/170116Poesiaescola.pdf

Sites para navegar com as crianças...

O Pequeno Leitor http://www. opequenoleitor.com.br/ historias/poemes

Site do poeta Sérgio Caparelli http://www.capparelli. com.br/

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NARRATIVAS MÍTICAS DOS ÍNDIOS BRASILEIROS1

“A percepção das relações intertextuais, das referências de um texto a outro, depende do repertório do leitor, do seu acervo de conhecimentos literários e de outras manifestações culturais. (...) Quanto mais se lê, mais se amplia a competência para aprender o diálogo que os textos travam entre si por meio de referência, citações e alusões. Por isso cada livro que se lê torna maior a capacidade de aprender, de maneira mais completa, os sentidos dos textos (Jesus, 2003, p.48).

Objetivos das sugestões didáticas •

Apresentar a linguagem oral como forma de registro ancestral das narrativas míticas pertencentes a um povo;

1. Kerylen C. S. Barbosa, Mariana Gonzaga Moreira, Renata Rosie Massei Damasceno Sonia Regina Peres da Conceição, alunas de Pedagogia da Universidade Federal de São Paulo, campus Guarulhos.

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

Promover a imersão na cultura indígena e seus saberes na esfera escolar;

Refletir sobre a herança cultural proveniente dos povos indígenas presente em seus mitos, usos e costumes arraigados em nosso cotidiano.

Iniciando a proposta com as crianças...

A leitura da Obra O Primeiro Homem e Outros Mitos dos Índios Brasileiros, escrito por Betty Mindlin (Editora Cosac Naif, 2001), apresenta às crianças, a importância da cultura indígena impregnada em nosso cotidiano. Perguntas como quem foi o primeiro homem, a primeira mulher e como sugi114


Narrativas míticas dos índios brasileiros

ram os animais podem ser respondidas através dos mitos2 indígenas brasileiros, sem, contudo, fazer afirmações definitivas, ou seja, o objetivo é apresentá-los como explicações legítimas para as crianças sobre o mundo, o surgimento da vida. Afinal, cada povo possui a sua maneira própria de contar a história da humanidade, não podendo prevalecer uma visão única sobre a origem do mundo. Apresentar esses mitos às crianças é uma ótima oportunidade para enfatizar a importância da cultura oral de nosso povo. Sugestões para começar o encontro com o texto • Apresentar o livro O Primeiro Homem e Outros Mitos dos Índios Brasileiros, explorando o texto introdutório que nos conta, inicialmente, sobre os mitos indígenas que procuram explicar a criação dos homens, plantas e animais;

2. Patrimônio cultural de um povo. É uma narrativa que revela num determinado momento histórico, a necessidade que os seres humanos têm de compreender o universo e de entendê-lo como um todo. (Jesus. 2003, pp 48 e 49).

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

• Debater com as crianças a importância dos mitos indígenas, tanto quanto aqueles provenientes de textos bíblicos ou da Grécia Antiga; • Promover a imersão cultural indígena, através de suas tradições e costumes. De olho no texto verbo-visual O começo da humanidade3 Não existia gente no mundo, apenas um homem chamado Toba com sua mulher. Plantavam macaxeira, milho, batatas, banana e mamão. Fora a roça deles, tudo era natureza, sem plantação alguma. Eram só os dois sozinhos. Nem sequer bichos havia; só a cutia e o nambu-relógio. Um dia, viu que a colheita estava desaparecendo. Imaginando que o ladrão podia ser a cutia, se não fosse a tanajura ou a saúva, fez uma tocaia para espreitá-la, bem de madrugada. Em vez de cutia, viu que era gente, debaixo da terra, que esticava a mão por um buraco para roubar seu milho. Toba conseguia ouvir conversas no subterrâneo, pessoas brigando para quem poria a mão para surrupiar o milho. [...]

3. Betty Mindlin. O primeiro homem e outros mitos dos índios brasileiros, São Paulo: Cosac Naif, 2001. p. 13.

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Narrativas míticas dos índios brasileiros

1. Explorar com as crianças as palavras de origem indígena utilizadas em nosso cotidiano relacionadas à linguagem e à culinária; 2. Trabalhar a oralidade, proporcionando em rodas de conversa um debate sobre a relação do homem com a natureza, explorando as características das narrativas míticas; 3. Elaborar um glossário com palavras de origem indígena. 4. Explorar expressões temporais que marcam a sequência narrativa (Um dia...), assim como o tempo verbal no passado.

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

Fazendo relações com outros textos verbais e/ou visuais

A humanidade desce à Terra Antigamente, todos os homens viviam no céu. Alguns estão lá, são as estrelas. No tempo da vida celeste, um velho, numa caçada, viu um tatu e o perseguiu. O tatu enfiou-se terra adentro e o homem cavava cada vez mais fundo para apanhá-lo. Cavou o dia todo sem conseguir pegar o tatu. Voltou para casa, mas no dia seguinte recomeçou a cavar. Dizia à mulher: _Quero pegar o tatu! Cavou durante oito dias e estava quase apanhando o tatu quando o animal caiu num buraco. O velho o viu descer com um avião, cair num campo e correr em direção à floresta. Ele alargou o buraco para poder olhar para baixo, mas o vento estava tão violento que o levou de volta à superfície. [...] — Betty Mindlin. O primeiro homem e outros mitos dos índios brasileiros, São Paulo: Cosac Naif, 2001. p. 25.

1. Com esta narrativa, podemos enfatizar a necessidade dos povos antigos, em dar um sentido para as coisas e fenômenos naturais; podemos envolver as crianças na participação do mito, valorizando os conhecimentos prévios que eles detêm sobre o assunto; ainda podemos refletir sobre outras questões presentes no texto como a coesão textual. 118


Narrativas míticas dos índios brasileiros

2. Olhando o Céu noturno... Trabalhar com as crianças os fenômenos astronômicos mais comuns perguntando e debatendo se sabem o que provoca a sucessão do dia e noite, pelo movimento de rotação (um giro em torno de seu próprio eixo que dura 24 horas); debater o que são estrelas e por que podemos ser considerados “poeira de estrelas”; se já observaram a Lua, qual o formato que ela apresenta, a que horas está visível, a que horas nasce e se põe? O que acontece com as estrelas e a Lua ao amanhecer do dia? Trazer a explicação científica com o cuidado em não estereotipar, desvalorizar ou perder a riqueza da narrativa.

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

O menino que fazia coco de amendoim Nomombzia é o herói mágico que, nenezinho ainda, já virou homem. Foi ele quem deu ao seu povo Jabuti o milho, o feijão e as plantas. Também foi ele quem deu a anta e outros animais de caça que existem. Nomombzia casou com a irmã de Karupshi e Kawewé, que são companheiros criadores que tiraram a humanidade de debaixo que povoassem o mundo. Nomombzia teve um filho que só fazia coco de amendoim [...] [...] Veja só o que estamos comendo todo dia! Pensando que é planta e é essa sujeira! Apertaram a barriga do menino, saiu mais amendoim. Os tios o transformaram num pássaro chamado Japó. Começou a chover. Lá de longe, Nomombzia já percebeu que tinha acontecido alguma coisa com o filho, por causa da chuva. Era Pajé, de longe sabia. Voltou correndo para a mulher e logo perguntou para os cunhados onde estava o menino [...] — Betty Mindlin. O primeiro homem e outros mitos dos índios brasileiros, São Paulo: Cosac Naif, 2001. p. 47.

3. Explorar a narrativa, trabalhando os conhecimentos prévios que as crianças detêm sobre o amendoim e relacionar às preparações que utilizam amendoim em suas receitas.

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Narrativas míticas dos índios brasileiros

Um pé de Quê? Fazer um programa de TV sobre as árvores brasileiras. Esse era o nosso desafio. Não só pela dificuldade de convencer os parceiros e patrocinadores a transformar esse sonho em realidade mas também pela complexidade de trabalhar o conteúdo botânico como entretenimento de massa. Acho que conseguimos. Já são dez anos de programas no ar, com mais de 100 árvores retratadas, espécies de todos os biomas brasileiros. Além de apresentar aspectos morfológicos das plantas (pois um dos objetivos do programa é facilitar a identificação das espécies) o “Um Pé de Quê?” quer aproximar as árvores dos espectadores através da música, da culinária, da história, da tecnologia, da antropologia... Trazer as árvores para o dia-a-dia das pessoas, revelar, por exemplo, o que a Carnaúba tem a ver com a maneira que nossos avós ouviam música, ou entender por que o pigmento vermelho do Pau-Brasil foi tão importante para a Europa do século XVI. Com as viagens que fizemos por todo o Brasil nos primeiros anos, fomos entrando em contato a devastação da fauna e flora brasileira, a deterioração das paisagens naturais dos biomas brasileiros.... — Um pé de quê? Programa exibido no Canal Futura.

4. Pesquisar no site do “Um pé de quê?, se entre as árvores da Mata Atlântica já catalogadas têm ou não as árvores escritas da lenda (o pé de amendoim, de feijão, do milho); comparar o tempo verbal do mito com o utilizado nos textos das árvores escolhidas no site do programa.

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

Produzindo textos com as crianças • Dramatizações baseadas nas narrativas míticas (sugerimos elegê-la por votação), podendo ser abordada em teatro de sombras, dedoches ou fantoches; • Filmar a dramatização em parceria com as crianças para compartilhar com a comunidade escolar; • Reescrita de alguma narrativa mítica em forma de quadrinhos, por exemplo, e socialização sob a forma de um livrinho doado à escola, em um espaço onde todos possam ter acesso as leituras; • A partir dos mitos contados e das pesquisas no site do programa “Um pé de quê” solicitar que as crianças elaborem um livro com imagens e pequenas legendas explicativas sobre as frutas e plantas da Mata Atlântica.

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Narrativas míticas dos índios brasileiros

Para ler mais

O casamento entre o Céu e a Terra, de Leonardo Boff São Paulo: Salamandra, 2001. 160 p.

Contos indígenas brasileiros, de Daniel Munduruku – São Paulo: Global, 2004. 63 p.

Para saber mais

JESUS, Luciana Maria de. Mito e tradição indígena. In: Gêneros do Discurso na Escola. São Paulo-SP: Cortez, 2003.

Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade: •

Volume 12: Série Vias dos Saberes n.1: O índio Brasileiro: o que você precisa saber sobre os povos indígenas no Brasil de hoje.

Volume 13: Série Vias dos Saberes n. 2: A Presenção Indígena na Formação do Brasil.

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

Volume 14: Série Vias dos Saberes n. 3: Povos Indígenas a Lei dos “Brancos”: o direito à diferença.

Disponíveis em: http://portal.mec.gov.br/index. php?option=com_content&view=article&id=12814&It emid=872

Blogs para navegar com as crianças...

Os Blogs dos escritores indígenas Daniel Mundukuru e Eliane Potiguara trazem sugestões e materiais para trabalharmos a cultura indígena na escola, principalmente, através da literatura infanto-juvenil.

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http://elianepotiguara.blogspot.com.br/


Narrativas míticas dos índios brasileiros

http://danielmunduruku.blogspot.com.br/p/ daniel-munduruku.html

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Rotas Fantásticas: histórias que o povo conta...1

“Algumas lendas urbanas se tornam clássicos do gênero pelo modo como ressurgem em ciclos, mantendo um motivo comum, mais ou menos invariável, e adaptando-se aos temas locais e ao momento sócio-histórico em que circulam. É o caso, por exemplo, de uma série de histórias cujo motivo narrativo poderia ser assim definido: ‘jovem loira aparentemente angelical ou sedutora revela-se de fato uma figura ameaçadora ou diabólica’”. (Lopes, 2010, p. 11).

Objetivos das sugestões didáticas •

Trabalhar lendas urbanas com as crianças, enfatizando em que contexto ocorrem e suas principais características;

1. Aline Catarina Cabral, Lincoln Luis Carneiro, Nathalia Lima da Silva e Stephanie Ap. Spósito, alunos de Letras da Universidade Federal de São Paulo.

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

Relacionar os relatos com outros gêneros como: lendas folclóricas e contos, mostrando suas semelhanças e diferenças;

Explorar a temática do terror presente nas lendas urbanas brasileiras;

Compreender a importância desses relatos e suas origens.

Iniciando a proposta com as crianças...

A leitura da obra Rotas fantásticas, organizada por Heloisa Pietro e com ilustrações de Daniel Kondo (Editora FTD, 2003), apresenta uma série 128


Rotas Fantásticas: histórias que o povo conta...

de dez relatos sobre lendas urbanas, sendo uma das mais famosas a lenda da Loira do banheiro. As páginas são ilustradas para dar mais vivacidade aos relatos apresentados. Os relatos são contados por pessoas comuns que ouviram tais estórias de amigos, avós, pais, etc. Sugestões para começar o encontro com o texto • Seria interessante iniciar o encontro questionando sobre quais lendas urbanas os alunos conhecem. • Ler em voz alta com as crianças alguma das lendas apresentadas no livro, observando as reações provocadas em quem as ouve. • Para dar mais vivacidade à realidade do relato, apresentar aos alunos algumas imagens que caracterizam a lenda urbana que está sendo contada.

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

De olho no texto verbo-visual

1. As lendas escolhidas apresentam um texto em que a leitura ocorre de maneira fluida e com características comumente usadas na fala cotidiana. O narrador fala diretamente com o leitor de modo a persuadi-lo através dos detalhes no relato. Destaque com a ajuda das

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Rotas Fantásticas: histórias que o povo conta...

crianças quais palavras ou expressões da nossa realidade cotidiana são utilizadas na grande parte das lendas urbanas, como por exemplo, espelho, vaso sanitário, fria pra danar, entre outras. 2. As lendas urbanas em oposição aos contos são geralmente mais breves, seu enredo é mais simples, apresentam os relatos de forma dialogada para gerar mais suspense e possuem poucos personagens. Para demonstrar isso às crianças, fazer uma breve comparação na lousa entre uma lenda urbana e um conto de fadas seria interessante. Podemos utilizar, por exemplo, a lenda urbana loira do banheiro e o conto de fadas Cinderela, diferenciando os enredos através de pequeno resumo, destacando inclusive quantos personagens aparecem em ambos os casos. 3. É possível explorar os aspectos cotidianos presentes nas lendas urbanas e a contemporaneidade que elas trazem consigo - todas as histórias supostamente aconteceram recentemente. Nesse ponto, seria relevante perguntar às crianças sobre o tempo em que elas acham que se passam as lendas urbanas. 4. As ilustrações ajudam a compor a lenda urbana causando veracidade à lenda e fazendo com que imaginemos a história realmente acontecendo, diante de nossos olhos. Dessa forma, além de explorar as ilustrações do livro, seria atraente utilizar também outras imagens sobre a lenda.

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

Fazendo relações com outros textos verbais e/ou visuais “Chegamos assim ao coração do fantástico. Em um mundo que é o nosso, que conhecemos, sem diabos, sílfides, nem vampiros se produz um acontecimento impossível de explicar pelas leis desse mesmo mundo familiar. Que percebe o acontecimento deve optar por uma das duas soluções possíveis: ou se trata de uma ilusão dos sentidos, de um produto de imaginação, e as leis do mundo seguem sendo o que são, ou o acontecimento se produziu realmente, é parte integrante da realidade, e então esta realidade está regida por leis que desconhecemos. Ou o diabo é uma ilusão, um ser imaginário, ou existe realmente, como outros seres, com a diferença de que rara vez o encontra.” (TODOROV, 1981, P.15)

[...] De repente vi um sujeito pedindo carona. Gente na estrada, assim à noite, é perigo na certa. Mas quando bati o farol na cara dele, vi que era só um estudante. Um garotão. Parei e abri a porta. É bom ter com quem conversar. -Pra onde você vai? – perguntei. - Estou indo pra Sorocaba; minha família é de lá. - E por que está pedindo carona?[...] — PIETRO, Heloisa; ilustrado por Daniel Kondo. Rotas fantásticas. São Paulo: FTD, 2003, p. 15.

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Rotas Fantásticas: histórias que o povo conta...

[...] Aconteceu que um dia ele ficou doente. Teve que se aposentar. E daí? Como é que o cara ia viver em casa? Na toca do dragão, como ele dizia. No primeiro mês até que ele aguentou. No segundo, o negócio piorou. No terceiro mês, o caldo entornou. De verdade. [...] Separar da mulher, ele não queria. Separar da sogra, ele não conseguia. [...] — PIETRO, Heloisa; ilustrado por Daniel Kondo. Rotas fantásticas. São Paulo: FTD, 2003, p. 51.

1. Explorar as diferenças de composição do relato 1 “Vovó Maria” com o relato 4 “Feliz foi Adão”

2. Lendas urbanas dos anos 80. Seria interessante mostrar às crianças algumas lendas urbanas que provavelmente os seus pais conheceram em sua infância Pergunte a elas se já ouviram falar em tais lendas, instigando-as para que falem sobre as lendas que conhecem. Alguns tuiteiros enviaram para o blog da Vejinha (Veja SP) 10 lendas urbanas dos anos 80. 133


CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

3. Histórias de arrepiar com Ângela Lago. Trabalhar com este livro que também trata de temas de mistério e terror instigaria ainda mais as crianças a conhecerem sobre o tema. Esta imagem2 ilustra uma das páginas do livro 7 histórias para sacudir o esqueleto de Ângela Lago editado pela Companhia das Letras. Este capítulo narra a história “Encurtando o caminho” em que Tia Maria conta que ao sair do colégio já estava escurecendo, então para chegar em casa mais rápido resolveu ir pelo cemitério. Nisto ela avistou uma menina que andava por lá e então perguntou a ela se podia acompanhá-la. A menina disse que tudo bem, pois quando era viva, também tinha medo de andar no cemitério.

2. Disponível em http://www.angela-lago.net.br/livro.html.

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Rotas Fantásticas: histórias que o povo conta...

Neste vídeo3 as crianças da Escola Municipal Friedenreich indicam o livro de Ângela Lago. Esta aluna começa contando um pouco uma das histórias do livro, mas diz que para saber o final dessa história, só lendo o livro mesmo. Vale a pena conferir!

Produzindo textos com as crianças Após o trabalho de apresentação às principais características do gênero, é hora de pedir às crianças que pesquisem mais sobre o tema. Nesse ponto, podemos orientá-las para que elas conversem com seus pais, avós, tios e familiares, perguntando a eles sobre quais lendas mais os assustavam quando crianças. As crianças devem ouvir as lendas e 3. Disponível em http://www.youtube.com/watch?v=LDz8nz7uHXA.

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

compor a sua própria lenda urbana, baseada nos relatos dos familiares e no que foi estudado em sala de aula. Quando os relatos das crianças estiverem prontos, podemos pedir que elas os apresentem oralmente para os outros alunos. Ao orientar a exposição, procuramos saber não apenas quem narrou a lenda para o aluno, mas também quem a contou ao seu familiar ou conhecido, destacando que essas histórias geralmente não são retiradas de livros, mas fazem parte de um repertório da cultura oral. Se duas ou mais crianças trouxerem relatos diferentes sobre uma mesma lenda urbana, aproveitamos a oportunidade para enfatizar que possuir diferentes versões para a mesma lenda é uma das características que compõem o gênero, enfatizando que pequenas alterações são próprias das histórias transmitidas oralmente (“quem conta um conto aumenta um ponto”).

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Rotas Fantásticas: histórias que o povo conta...

Para ler mais

A Loira do Banheiro - http://revistaescola.abril.com. br/pdf/A_Loira_do_Banheiro.pdf

O homem do saco - http://revistaescola.abril.com. br/pdf/homem_do_Saco.pdf

Vovó Maria - http://revistaescola.abril.com.br/pdf/ VovoMaria.pdf

Acesso em 15/10/2012.

Para saber mais

LOPES, Carlos Renato. Lendas urbanas em arquivo: uma relação de suplementaridade. Campinas, 49(1): 11-20, Jan./ Jun. 2010.

TADEU, Jorge. Lendas urbanas. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2010.

TODOROV, Tzvetan. Introdução à literatura fantástica. Editora Perspectiva. São Paulo, 1981.

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CONTOS DE MISTÉRIO: DESVELANDO A SUA ESCRITA1

“É a literatura, como linguagem e como instituição, que se confiam os diferentes imaginários, as diferentes sensibilidades,valores e comportamentos através dos quais uma sociedade expressa e discute, simbolicamente, seus impasses,seus desejos, suas utopias.[...]” LAJOLO,1999, p.105.

Objetivos das sugestões didáticas •

Propiciar momentos de escuta e reconto de histórias, especificamente, do gênero narrativo de assombração.

Compreender as características peculiares das narrativas de assombração (Como por exemplo, a importância do susto nessas narrativas, qual o elemento desencadeador do medo, a frequente presença do sobrenatural, a relação entre o real e o imaginário, etc.).

1. Vilma Ricardo Dias, aluna do curso de Pedagogia da Universidade Federal de São Paulo.

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

Reconhecer os recursos linguísticos que permeiam tais narrativas e a caracterizam. (Como por exemplo, o uso do “Certa noite”, em substituição ao “Era uma vez”).

Iniciando a proposta com as crianças...

A obra “Sete Histórias para sacudir o esqueleto”, da Ângela Lago, traz em suas páginas dois importantes elementos das histórias infantis: o suspense e o humor, responsáveis por encantar e envolver os seus ouvintes. Assim, se de imediato os pequenos se hipnotizam e amedrontam com alguns seres/ objetos de caráter sobrenatural, no decorrer da narrativa ocorre um abrandamento do medo pelo humor que perpassa as linhas da obra. 140


Contos de mistério: desvelando a sua escrita

De olho no texto verbo-visual Caio Em Bom Despacho tinha uma fazenda à venda, mas ninguém queria comprar: era mal assombrada. [...] De madrugada acordou com uma voz cavernosa [...]

1. As crianças podem conversar e refletir sobre o significado de algumas expressões, tais como: matutava, voz cavernosa, murmurar, vadiar, dentre outras. 2. É possível ainda, realizar um trabalho de exploração textual acerca das diversas “vozes” presente da narrativa, ao discutir e analisar com a turma os momentos de falas do narrador e personagens, atentando para a intencionalidade presente nesta alteração de discursos. 3. É possível também analisar o clímax como parte do enredo, bem como o uso de expressões que provoquem medo, o tempo e espaço assustadores.

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

Fazendo relações com outros textos verbais e/ou visuais

1. Explorar outros livros de histórias de mistérios, comparando as narrativas entre si, tanto no aspecto textual, como no que tange a diagramação dos mesmos, com as ilustrações e uso de cores.

2. A exploração do filme A casa monstro possibilita tecer um diálogo sobre espanto, medo etc.

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Contos de mistério: desvelando a sua escrita

3. O grupo Palavra Cantada oferece uma opção de trabalho com a linguagem musical, por meio da canção Taquaras. Sendo possível explorar com a turma os sentimentos, sensações e comportamentos ocasionados por uma situação de assombramento. “Cada vez que eu lembro chego a estremecer Todo aquele esforço para adormecer Quando a minha porta começou a ranger Tinham me avisado o que ia acontecer Pus os cobertores para me esconder E eu nem respirava para não me mexer (...)”.

Produzindo textos com as crianças • As crianças podem produzir um conto de mistério a partir da sequência de quadrinhos. Para tanto, se faz necessário explorar, antecipadamente, com a turma as características desta narrativa, tais como; a brevidade do enredo

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

posto, o número reduzido de personagens, diálogos a permear a narrativa, elemento misterioso/ assustador e complicações/ conflitos. • É possível ainda a realização de uma leitura dramatizada, atentando a turma para as características desta atividade. Assim, se faz necessário um trabalho envolto a entonação nas vozes, confecção/ escolha de figurinos, maquiagens, som, luz e cenário.

Para ler mais

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BRANDÃO, Ignácio de Loyola. O menino que não teve medo do medo. São Paulo: Editora Global.

MUNARI, Bruno. Na noite escura. São Paulo: Editora Cosac Naify.

SAGE, Angie. Minha casa mal-assombrada. Ed. Rocco


Contos de mistério: desvelando a sua escrita

Para saber mais

FOUCAMBERT, Jean. A leitura em questão. Porto Alegre: Artmed, 1994.

JOLIBERT, Josette. Formando crianças leitoras. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.

KAUFMAN, Ana Maria e Maria Helena Rodríguez. Escola, leitura e produção de textos. Porto Alegre: Artmed, 1995.

LERNER, Délia. Ler e escrever na escola – o real, o possível e o necessário. Porto Alegre: Artmed, 2002.

Site para navegar com as crianças...

http://www.angela-lago.net.br/livro.html

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Pra rimar e cantar: poesia de cordel e outras batalhas1

A ligação da literatura de cordel com a poesia oral e improvisada – o duelo-performance poético e folclórico de dois cantadores, com sua estrutura básica de desafio-resposta – e com temas tradicionais folclóricos é só uma faceta de seu papel de meio impresso popular muito difundido no cenário urbano, mas de grande relevância no cenário rural. Nos poemas que tratam de acontecidos do dia, cumpre também uma função de comunicação folclórico popular: reporta eventos de sua própria comunidade e região, opina sobre eles e leva para o consumidor local, recodificadas, as mensagens de uma cultura nacional de massas. Ainda assim, a cosmovisão essencial do cordel mostra quase total identificação com as crenças e os valores do nordestino pobre e humilde, mesmo que radicado numa cidade costeira da região, no Centro-Sul do país (Rio de Janeiro e São Paulo, por exemplo), ou em Brasília. (Curran, 2003, p.25).

1. Bruno Torquato de Araújo, Bia Alves Pinheiro, Cristiane Aparecida Domingos de Oliveira, Débora Barbosa dos Santos Camargo e Rildo Nedson Mota de Sousa, alunos do curso de Pedagogia (5º Termo, Noturno) da Universidade Federal de São Paulo.

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

Objetivos das sugestões didáticas •

Apresentar a literatura de cordel, sob uma perspectiva que dialogue com outras linguagens contemporâneas de expressão popular (notadamente periféricas à arte canônica e que se utilizam do improviso e da poesia).

Explorar a relação do cordel com vertentes musicais com propósito “similar” como o rap, o repente, as emboladas, modas de viola etc.

Estimular a curiosidade a respeito de diferentes suportes textuais e/ou estéticos, para um modo de fazer poesia que, apesar de diferente na forma ou no espaço, guarda diversas similaridades.

Iniciando a proposta com as crianças... O trabalho com literatura de cordel implica em resgatar a tradição oral e popular de cantadores e poetas populares. O cordel enquanto produção cultural possibilita uma gama enorme de possibilidades para o trabalho com crianças dos primeiros ciclos do ensino fundamental. Desde o trabalho com a oralidade até o uso de música, passando

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Pra rimar e cantar: poesia de cordel e outras batalhas

pelas artes dramáticas, tradição popular etc. Soma se a isso as diversas possibilidades de letramentos que o cordel (assim como outros gêneros da tradição oral ou mesmo literária) estimula discursivamente nas práticas sociais e que a escola por muito tempo ignorou por não pertencer a uma tradição associada ao rigor acadêmico da escolarização. O trabalho pedagógico com o cordel é um caso clássico de possibilidades de estímulo de letramentos não dominantes, os chamados “letramentos vernaculares”, justamente pelas suas características de ligação ao cotidiano, à localidade e ao que não é valorizado socialmente pelo cânone cultural vigente (Rojo, 2009 e 2012). Indicamos a utilização de diferentes suportes textuais: da menção ao cordel como instrumento que registra os acontecimentos prosaicos sob uma ótica lírica, passando pela xilogravura, música etc. Além da utilização das formas informatizadas de comunicação, como blogs e outras plataformas digitais, para “fazer cordel” (o mesmo gênero em um novo suporte). Sugerimos o início do trabalho com literatura de cordel a partir da antologia de cordel chamada “Amor, História e Luta”, organizada por Márcia 149


CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

Abreu (Salamandra, 2005). O volume apresenta folhetos representativos da cultura de cordel (alguns do final do século XIX), além da contextualização, apresentação a cada cordel reproduzido etc.

Sugestões para começar o encontro com o texto • Podemos discutir com o grupo de crianças o que cada um sabe sobre cordel ou poesia popular improvisada;

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Pra rimar e cantar: poesia de cordel e outras batalhas

• Outra possibilidade consiste em apresentar apenas um folheto da antologia, tendo em vista o volume da obra em si. A sugestão fica por conta do poema “A viagem a São Saruê”, de Manuel Camilo dos Santos.

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

De olho no texto verbo-visual A Viagem a São Saruê [...] “Lá quando nasce um menino não dá trabalho a criar já é falando e já sabe ler, escrever e contar, canta, corre, salta e faz tudo quanto se mandar. La tem um rio chamado: o banho da mocidade, onde um velho de cem anos tomando banho à vontade quando sai fora parece ter vinte anos de idade. Lá não se vê mulher feia e toda moça é formosa alva, rica e bem decente fantasiada e cheirosa, igual a um lindo jardim repleto de cravo e rosa. É um lugar magnífico onde eu passei muitos dias passando bem e gozando prazer, amor, simpatias, todo esse tempo ocupei-me em recitar poesias.” [...] 2

2. ABREU, Marcia (org.) Amor, História e Luta – Antologia de folhetos de cordel. São Paulo: Salamandra, 2005.

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Pra rimar e cantar: poesia de cordel e outras batalhas

1. As crianças podem explorar o ritmo do cordel, destacando as métricas mais utilizadas (por exemplo: “batatinha quando nasce/se esparrama pelo chão”); 2. Explorar e comparar as diferentes formas de manifestações e de expressão popular, com similaridades ao cordel em relação à forma, conteúdo e/ou expressão; 3. Em outros trechos do referido poema, o autor explora a narração em forma de poesia, o que pode se tornar um mote quanto à importância do ato de narrar uma história fantástica, onde personagens adquirem características heroicas e até sobrenaturais, lugares em que o ambiente é onírico e exuberante. Sem contar como as narrativas subvertem a lógica do tempo e espaço; 4. Exploração do ideal de cidade, homem e mulher (incluindo a questão de gênero) no referido folheto a partir do discurso popular; 5. Notação de palavras (“regionalismos”) não conhecidas pelas crianças. É possível o uso de dicionários ou almanaques que discorram a respeito da etimologia das palavras, ressaltando sempre a importância da atenção ao contexto de palavras e expressões populares e as tidas como “eruditas”.

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

Fazendo relações com outros textos verbais e/ou visuais

1. Comparar a lírica de “A Poesia” (Poetas do Repente João Paraibano e Sebastião Dias) a uma faceta pouco explorada do cordel (presente em certa medida no folheto apresentado): a da sensibilidade aos fatos cotidianos e a utopia em uma força redentora da poesia frente ao mundo.

Valdir Teles e Geraldo Amâncio em Brasília

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Pra rimar e cantar: poesia de cordel e outras batalhas

A peleja de cego Aderaldo com Zé Pretinho. [...] Em casa do tal Pretinho Foi chegando o portador Foi dizendo: Lá em casa Tem um cego cantador E meu pai manda dizer Que vá tirar-lhe o calor Zé Pretinho respondeu: - Bom amigo é quem avisa Menino, dizei ao cego Que vá tirando a camisa Mande benzer logo o lombo Que eu vou dar-lhe uma pisa.”3 [...]

2. Explorar os chamados desafios, ideia que consiste em, basicamente, uma dupla disputar uma peleja musical e poética com intuito de “vencer” o oponente através do humor e do sarcasmo. Um exemplo formidável de tal possibilidade, lemos em “Peleja do Cego Aderaldo com Zé Pretinho”, de Firmino Teixeira do Amaral, que faz parte da antologia aqui apresentada. Para arrematar, uma xilogravura de “Peleja de Joaquim Jaqueira com Joao Melquíades” - de autoria não citada.

3. ABREU, Marcia (org.) Amor, História e Luta – Antologia de folhetos de cordel. São Paulo: Salamandra, 2005.

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

O Forró da Bicharada [...] Afinal chegou o dia Da grande reunião Começou chegar os bichos De mais alta posição Num salão todo enfeitado Era a recepção Chegou logo o elefante A girafa e o camelo E a onça suçuarana Trajando fino modelo E o bode todo cheiroso Endireitando o cabelo Depois chegou o veado O urso e a capivara O avestruz e a águia O papagaio e a arara E o mestre tamanduá Passando a língua na cara A garça toda vaidosa Chegou metida a grã-fina Toda vestida de branco Por ser rica bailarina Fazendo inveja ao Pavão No traje de seda fina Afinal chegaram todos Os bichos que existia No reino da bicharada Reinava grande alegria E rei recebeu a todos Com a maior cortesia.

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Pra rimar e cantar: poesia de cordel e outras batalhas

3. Demonstrar às crianças como o cordel (neste exemplo, “O forró da bicharada”4, de Apolônio Alves dos Santos) pode ser uma ótima maneira de compreender a função do verbo (destacando especialmente os que marcam o passado em uma narrativa e como o verbo pode auxiliar na descrição de uma cena).

Para ler mais

Endereço eletrônico: http://digitalizacao.fundaj. gov.br/fundaj2/modules/busca/listar_projeto. php?cod=12&from=0. Acesso em 12/12/12.

4. SANTOS, Apolonio Alves dos. O Forró da Bicharada. IN. Jangada Brasil – Edição Especial: Literatura de Cordel. Disponível em http://www.jangadabrasil.com.br/revista/ agosto93/es930818.asp. Acesso em 22/11/2012.

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

Endereço eletrônico: http://www.jangadabrasil.com. br/revista/agosto93/index.asp. Acesso em 12/12/12.

Para saber mais

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CURRAN, Mark. História do Brasil em Cordel. São Paulo: Edusp, 2003.

ROJO, Roxane. Letramentos(s) – práticas de letramento em diferentes contextos. In: Letramentos múltiplos, escola e inclusão social. São Paulo: Parábola, 2011.


Pra rimar e cantar: poesia de cordel e outras batalhas

ROJO, Roxane. Pedagogia dos multiletramentos Diversidade cultural e de linguagem na escola. In: ROJO, Roxane; MOURA, Eduardo (orgs.) Multiletramentos na escola. São Paulo: Parábola, 2012.

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Entre Contos e Poesias: versando Memória e Diversidade no Mundo das Palavras1

“Crianças e jovens querem saber sobre o mundo e seus significados, construindo o conceito das coisas que os rodeiam e de si mesmos e podem experimentar esses saberes através da leitura literária. Encontramos, nas narrativas analisadas, ludicidade e fantasia, elementos importantes para a formação do leitor; bem como a construção de um repertório em que as diferenças culturais estão presentes”. (Debus e Vasques, 2010, p.143).

1. Felipe Valentim Bonifacio, Fernando Ribeiro, Luiz Paulo Ferreira Santiago Pamella Freire, Samanta Biotti, estudantes do 5º termo do curso de Pedagogia (Noturno) da Universidade Federal de São Paulo.

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

Objetivos das sugestões didáticas

Analisar o gênero conto e fazer uma leitura critica sobre suas particularidades e sua subjetividade implícita.

Comparar os gêneros conto, provérbio e canção, explorando a construção poética do texto (semântica) diferenciada de casa um;

Explorar o léxico do texto, inserido na representação de memória e diversidade cultural como elementos essenciais para a construção da identidade humana.

Desenvolver a percepção e interpretação das metáforas, comparações e metonímias.

Iniciando a proposta com as crianças... Com essa sugestão didática, é possível problematizar a produção da Literatura Afro-brasileira e o pouco espaço dedicado a ela dentro e fora da escola. Perguntar as crianças quais as historias conhecem que vem daquele continente? Quantos saberiam contar ou já ouviram falar sobre os tuare-

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Entre Contos e Poesias: versando Memória e Diversidade no Mundo das Palavras

gues2? Ou historias dos poderosos reinos africanos de Ghana3 e Achanti4?

O Mar de Manu (Editora Kuanza Produções – São Paulo, 2011, 1ª ed.), obra criada pela escritora

2. Tuaregues são povos constituídos por pastores semi-nomâdes, agricultores e comerciantes em grande parte muçulmanos situados principalmente na região sahariana do norte do continente africano. 3. Gana foi um dos maiores impérios formados no continente africano que se desenvolveu para fora das regiões litorâneas ou da África muçulmana. Sua área correspondia às atuais regiões de Mali e da Mauritânia, fazendo divisa com o imenso deserto do Saara. Disponível em http://www.historiadomundo.com.br/idade-media/ reino-de-gana.htm - acessado em 19/12/2012. 4. Os  ashantis  ou axântis são um importante  grupo étnico  de Gana. Eles foram um povo poderoso, militarista e altamente disciplinado da  África Ocidental. Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Imp%C3%A9rio_Ashanti. Acessado em 19/12/2012

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

Cidinha da Silva5 e ilustração de Mbiya Kabengele6, é um conto que permite nos aproximar das culturas do continente africano; inspirado na região de fronteira dos países entre o Mali, Níger e Burkina Faso. Além disso, a obra nos oferece ricas ilustrações e o conto revela os costumes, lendas e os ricos provérbios próprios das culturas africanas.

Sugestões para começar o encontro com o texto • Começar a atividade convidando todos a sentarem no chão em roda; falar sobre a autora e o ilustrador, contar um pouco de suas historias pessoais, presente na contra-capa junto de suas fotografias. • Aproveitar o momento e trazer um mapa mundi e demonstrar a origem de ambos.

5. Mineira de Belo Horizonte, formada em Historia na UFMG. 6. Radicado no Brasil, é natural da Republica Democrática do Congo ex Zaire.

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Entre Contos e Poesias: versando Memória e Diversidade no Mundo das Palavras

• Contar a história para as crianças, explorando as ilustrações, permitindo suas intervenções, problematizando suas hipóteses; explorando os sentidos do texto e das palavras.

De olho no texto verbo-visual

O Mar de Manu Antes de as cigarras cantarem, chamando a noite, Manu saíra sozinho da vila, contrariando as recomendações de sua mãe. O menino contou a Kadija, a mãe, o sonho de pescar estrelas. Ao ouvir o desejo de Manu, lembrou-se que os homens azuis do deserto espetam estrelas com a ponta da lança. Sentiu cheiro de perigo e subiu na primeira árvore à sua frente. O cobertor de medo que tomara conta dele aumenta o frio na barriga. Em eras priscas7, quando os bichos falavam e confiavam nos seres humanos, (…). Os bichos só entendem o mundo pelo olhar da família.

7. Tempos muito remotos, que ninguém consegue precisar exatamente. Disponível em http://www.achando.info/Priscas - acessado em 27/11/2012

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

1. Os trechos da obra podem ser trabalhados de maneiras diferentes, orientando para as características do gênero conto. 2. Podemos reler o texto e perceber como a autora utiliza metáfora, comparação e metonímias no texto para conseguir um determinado efeito de sentido na interpretação do leitor. 3. Estudando a construção narrativa do texto podemos apontar para o acervo de palavras empregado na obra, estudando o léxico, relacionando o texto com memória e construção de identidade. 4. Conversar com as crianças sobre a relação do homem com a natureza que o conto propõe. A relação dos mais novos com os mais velhos, questionando os tipos de valores construídos e valorizados pela família.

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Entre Contos e Poesias: versando Memória e Diversidade no Mundo das Palavras

5. Explorar como as ilustrações colaboram para a interpretação do texto a partir das interpretações feitas pelas crianças. 6. Demonstrar as características dos personagens e cenários e comparar com outras obras literárias infantis chamando atenção para os traços do ilustrador. Tal atividade ajuda as crianças a compreender que as ilustrações também estão carregadas de sentido.

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

7. Pode-se propor que as crianças formem grupos pequenos e que grupos pares discutam sobre a mesma ilustração, depois os grupos apresentam a página que escolheram comparando as analises do que cada um observou.

Fazendo relações com outros textos verbais e/ou visuais PROVÉRBIOS AFRICANOS – A borboleta que esbarra em espinhos rasga as próprias asas. – O hoje é o irmão mais velho do Amanhã, e a garoa é a irmã mais velha da chuva. – Quando não souberes para onde ir, olha para trás e saiba pelo menos de onde vens. - Aquele que tenta sacudir o tronco de uma árvore sacode somente a si mesmo. – Domínio Público

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1. Explicar sobre a importância dos provérbios para algumas culturas do continente africano e qual o seu papel social. Podemos relacionar os gêneros e conversar sobre as características dos provérbios demonstrando as semelhanças com os outros textos trabalhados e analisados.


Entre Contos e Poesias: versando Memória e Diversidade no Mundo das Palavras

Estrela Há de surgir Uma estrela no céu Cada vez que você sorrir Há de apagar Uma estrela no céu Cada vez que você chorar O contrário também Bem que pode acontecer De uma estrela brilhar Quando a lágrima cair Ou então De uma estrela cadente se jogar Só pra ver A flor do seu sorriso se abrir (...)

2. Retomar os primeiros conceitos trabalhados em O Mar de Manu, explorando a percepção do gênero canção e suas características poética e sonora. Exploramos o sentido dos versos na canção relacionado à música, ao som dos instrumentos. Procuramos identificar a metáfora, comparação e personificação nos versos da canção.

– Gilberto Gil

Para saber mais

Brandão, Ana Paula. Kit “A Cor da Cultura” Saberes e Fazeres v.2 : Modos de sentir. MEC/SEPPIR - Rio de Janeiro, 2006.

Debus, Eliane e Vasques Margarida. A linguagem literária e a pluralidade cultural: contribuições para uma reflexão étnico-racial na escola. Artigo disponível em http://www.ucs.br/etc/revistas/index.php/ conjectura/article/viewArticle/19

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Descobrindo os Contos Populares1

“O conto popular revela informação histórica, etnográfica, sociológica, jurídica, social. É um documento vivo, denunciando costumes, idéias, mentalidades, decisões e julgamentos.” (CASCUDO, 1946, p.26)

Objetivos das sugestões didáticas •

Trabalhar o gênero conto popular, enfatizando suas características.

Utilizar diferentes contos para as crianças saberem distinguir e compreender o que diz o gênero conto popular;

Propiciar às crianças o entendimento de que a leitura do conto popular pode ser uma fonte de informação, prazer e conhecimento.

1. César Marinho, Fernando Guimarães, Lion Santiago e Mauricéia da Conceição (alunos de Pedagogia, 5º termo- vespertino) e Silvana Ferreira Dias – Professora da rede Municipal de Guarulhos.

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

Iniciando a proposta com as crianças...

O livro Contos africanos para crianças brasileiras, do autor Rogério Andrade Barbosa e ilustrações de Mauricio Veneza (editora Paulinas, 2004), traz dois contos que despertam o interesse das crianças, além de ilustrações coloridas que ajudam a contar essas duas histórias. Em um dos contos intitulado “Amigos, mas não para sempre”, somos apresentados à eterna luta entre gato e rato de forma concisa e divertida. Já o segundo conto esclarece o porquê dos jabutis terem o casco rachado. Ambos os contos são temas universais e tradicionais, que pertencem à literatura oral de Uganda. 172


Descobrindo os Contos Populares

Sugestões para começar o encontro com o texto • Podemos iniciar a proposta lendo sobre o autor e o ilustrador, suas origens e histórias (essas informações constam no livro). Sobre o autor podemos dizer ainda que quando a sua obra se trata de um conto, algumas vezes, ele é responsável por recontar uma história já conhecida por algumas pessoas, pois o conto popular, muitas vezes, já foi contado, mas tem autoria desconhecida. • Outra opção seria em uma roda de conversa levantar, de forma introdutória e espontânea, os elementos que compõe o conto popular como: personagens, tempo, espaço, narrador e clímax. Esse levantamento também ajudará na compreensão do conto. Além disso, nessa roda, é possível apresentar aos alunos a fábula O leão e o ratinho e, a partir dessa leitura, levantar as impressões dos alunos sobre as relações culturais existentes, ou não entre os dois gêneros. 173


CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

De olho no texto verbal Amigos, mas não para sempre Um dia, o rato resolveu que deviam guardar o leite também, da mesma forma como os homens faziam para não passar fome durante a estação da seca: – De que jeito? – questionou o gato. – Em poucos dias, o leite ficará azedo. – Deixe comigo – respondeu o rato. – Eu aprendi como as mulheres preparam um tipo de manteiga que eu adoro, a qual elas chamam de ghee. 2 [...]

1. As crianças podem grifar os verbos do conto e dizer se o verbo está em primeira ou terceira pessoa e, a partir dessa reflexão, identificar a voz do narrador e dos personagens. É importante destacar que em outros contos, o narrador pode ser também o protagonista e assim sua voz aparece em 1ª pessoa. 2. Pedir aos alunos que falem cenas aleatórias do conto. O professor (a) vai fazendo as anotações em cartazes. Depois de prontos, os alunos devem organizar as cenas na ordem original do conto, percebendo a sequência temporal narrativa do conto.

2. BARBOSA, Rogério Andrade. Amigos, mas não para sempre. Contos africanos para crianças brasileiras. São Paulo. Paulinas, 2004. p.1.

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Descobrindo os Contos Populares

3. A forma como se lê o conto é muito importante, por isso seria interessante propor que as crianças lessem o conto em voz alta, atentando-se, com auxilio do professor (a), às intenções dadas pelo autor em cada parte do texto. Para a leitura as crianças podem se dividir em narrador e personagens. 4. As crianças podem observar a movimentação do narrador no texto, identificando em que momentos aparece e quais os recursos gráficos são utilizados para que se note a sua presença no trecho transcrito, por exemplo.

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

Fazendo relações com outros textos verbais e/ou visuais “Os textos curtos, como os contos, possibilitam uma melhor adequação ao fôlego do leitor em formação. E a relação com o momento contemporâneo pode ser um instigante meio de “mergulhar” no clima da obra. Daí para a leitura de romances... E o professor, como um mediador dessas leituras, assume papel fundamental.” (Cabral e Mendonça, 2010, p. 03)

Amigos, mas não para sempre Quando a estação da seca chegou, o gato e rato se alimentaram com os produtos que haviam armazenado nos celeiros. Havia bastante comida para os dois. Mas o rato não parava de pensar no ghee que ele ocultara na igreja. – Será que não estragou? Como é que deve estar o gosto agora? – pensava o pequeno roedor. Morrendo de vontade de provar um pouquinho do ghee, ele planejou uma boa desculpa: – Tenho de ir à igreja. A filha de minha irmã vai ser batizada e ela pediu que eu fosse o padrinho. — BARBOSA, Rogério Andrade. Amigos, mas não para sempre. Contos africanos para crianças brasileiras. São Paulo. Paulinas, 2004.p. 10.

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Descobrindo os Contos Populares

O Jabuti de asas Há muito tempo, um jabuti soube que uma grande festa estava sendo organizada pelas aves que viviam voando entre os galhos das florestas. – Eu também quero ir – disse ele, pondo a cabecinha para fora do casco. – Mas a festa vai ser no céu- explicou um papagaio – Como é que você vai voar até lá?

— BARBOSA, Rogério Andrade. O Jabuti de asas. Contos africanos para crianças brasileiras. São Paulo. Paulinas, 2004.p. 17.

1. Utilizar dois contos para que as crianças notem as falas dos personagens com o uso de travessão e a fala do narrador “observador” sem o travessão, o que evidencia uma característica do gênero. Além disso, deve-se atentar ao fato de que o narrador também apresenta a fala dos personagens e para isso ocorre uma mudança no verbo, como destacado no trecho a seguir.

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

2. Apresentar para as crianças diferentes contos que contem histórias sobre animais. Essa atividade pode ajudar as crianças a perceberem como um mesmo tema pode ser abordado de diferentes maneiras, dependendo do autor e da cultura de que se origina além de notarem uma coerência quanto às características do gênero como a presença de narrador e personagens, a forma curta do texto, a presença de apenas uma história a ser contada, além de notarem que em alguns contos o desfecho pode ser enigmático.

Esta obra traz cinco contos dos Irmãos Grimm, onde animais encantados e outros seres tratam de diversos temas. Destaque para “A RAPOSA E O GATO”.

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O livro Contos Tradicionais do Brasil para crianças reúne alguns contos recolhidos pelo autor Luís Câmara Cascudo (Ilustrações Cesar Landucci) dentre os quais existe uma seleção de contos que tratam dos animais. Um exemplo interessante é POR QUE O CACHORRO É INIMIGO DE GATO... E GATO DE RATO.


Descobrindo os Contos Populares

No livro Conto de animais do mundo todo estão reunidos contos tradicionais de diversas culturas do mundo, recolhidos por Naomi Adler. Ao todo são nove contos sobre animais.

Em Contos de animais como contaram aos pais de nossos pais, os autores Alexandre Parafita e Rui Pedro Lourenço recontam contos antigos sobre animais.

3. Conversar com as crianças sobre a importância das ilustrações no conto. Será que as ilustrações são primordiais? As ilustrações sozinhas podem contar uma história? (Ilustrações de Maurício Veneza)3

3. BARBOSA, Rogério Andrade. Amigos, mas não para sempre. Contos africanos para crianças brasileiras. São Paulo. Paulinas, 2004.p. 6 e 16.

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

3. Pode-se apresentar para as crianças a história “A festa no Céu” em diferentes versões como em vídeo e livro, possibilitando que notem em diferentes versões características do gênero tanto na oralidade quanto na escrita. Versão de “Festa no Céu” da autora e ilustradora Lúcia Hiratsuka.

Versão de “Festa no Céu” da autora Ana Maria Machado.

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Descobrindo os Contos Populares

Neste Vídeo, disponibilizado no Youtube e no blog do artista, Augusto Pessôa narra o famoso conto “A Festa no Céu”.

Produzindo textos com as crianças O professor (a) pode propor que as crianças se dividam em duplas, sendo que uma ficará responsável por reescrever o conto, enquanto a outra fica responsável pelas ilustrações. As produções das crianças devem ser expostas em um blog, formando uma espécie de livro virtual. Para utilizar no blog, se as crianças preferirem, o professor (a) pode propor também que as crianças montem vídeos narrando a história, ilustrados com as imagens produzidas.

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

Para saber mais

GOTLIB, Nádia Battella. Teoria do Conto. Editora Ática, 10ª ed.; São Paulo: 2003.

LEITE, Ligia Chiappini Moraes. O Foco Narrativo. Editora Ática, 10ª ed.; São Paulo: 2002.

MESQUITA, Samira de. O Enredo. Editora Ática, 3ª ed.; São Paulo: 2002

Salto para o Futuro “Conto e Reconto: Literatura e (re) criação”, Ano XX, Boletim 16, 2010. Disponível em: http://www.tvbrasil.org.br/fotos/ salto/series/151433Contoreconto.pdf

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Descobrindo os Contos Populares

Site para navegar com as crianças...

O Blog do artista Augusto Pessôa reúne vários contos populares, seja em vídeos ou escritos. •

http://augustopessoacontadordehistorias. blogspot.com.br/2009/02/noticias.html

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Trabalhando com Contos Populares1

“Por meio da literatura, seja ela oral ou escrita, podemos penetrar diversos mundos, época e sentimentos. Os contos populares, ainda hoje, capturam os mais diferentes leitores, independentemente da época ou objetivos pelos quais foram produzidos. Eles nos mostram mais que um universo de princesas, dragões e bruxas. Às vezes ocultadas pelas brumas da fantasia, podemos encontrar reflexos de um mundo muito real: um mundo de costumes e valores, de desigualdades sociais, enfim, todo um cotidiano de diferentes povos e tempos”. (Pinheiro, 2012, p. 13).

1. Adalberto Adão Dire e Denise Helena de S. Camilloto, alunos do curso de Pedagogia da Universidade Federal de São Paulo.

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

Objetivos das sugestões didáticas •

Inserir pequenas leituras diárias no cotidiano escolar dos alunos, como forma de desenvolver o gosto pela leitura e sua produção. Trabalhar a interpretação dessas histórias, levando os conteúdos apresentados ao cotidiano das crianças.

Discutir as diferenças e semelhanças presentes na cultura de outros povos, por meio da inserção de contos de outros países.

Levar a criança a compreender o que é cultura e como a língua e a escrita expressam a formação de um povo.

Iniciando a proposta com as crianças... Os dois livros de Heloisa Pietro - Lá Vem História e Lá Vem História Outra Vez (Editora Companhia das Letrinhas, 2002 e 2003) apresentam histórias para conhecer o mundo: valentes samurais no Japão; diabos espertíssimos na Europa Central; no Pólo Norte, ursos que viram estrela, na Austrália, os imensos homens gatos, monstros muito es-

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Trabalhando com Contos Populares

tranhos. E mais: Macunaíma, Scherazade, O Negrinho do Pastoreiro, entre outras, permitem uma viagem através da imaginação de outros povos e de crianças que viveram em outras épocas.

Sugestões para começar o encontro com o texto • É possível trabalhar com a leitura e interpretação através de uma comparação entre contos populares de lugares diferentes. Uma brasileira e outra japonesa, por exemplo. De maneira que as crianças tragam informações sobre as diferenças que percebem nas histórias 187


CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

e no dia a dia em relação a esses dois povos e consequentemente desenvolver a curiosidade e o gosto pela leitura. • Outra forma de se trabalhar os contos populares é exatamente levantando com as crianças as histórias contadas no nosso cotidiano, questionando como elas acham que essas surgiram, já que são obras de autoria popular. Deixando claro para as crianças a importância dessas narrativas para a compreensão da realidade.

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Trabalhando com Contos Populares

De olho no texto verbo-visual O Pintor do Céu (História do Folclore Tibetano) Há muito tempo, vivia no sul da China um velho pintor de muito talento. O que ele mais gostava de retratar eram rostos de crianças. Certa noite [...] Ele estava tão entretido em fazer o retrato de uma linda menina que nem percebeu que à sua porta surgira uma misteriosa figura. Ela atravessou o cômodo e, quando chegou ao seu lado, disse: - Eu sou a Morte e preciso levá-lo comigo hoje. - Morte, por favor, diga ao Senhor do céu que estou muito ocupado e não posso partir sem terminar meu retrato... O rosto que ele pintava era tão lindo e vivo que parecia lhe sorrir. Emocionada, a Morte foi-se embora. Quando chegou ao céu, o Senhor do céu lhe perguntou: - Morte, o que aconteceu? Você voltou sozinha? - Senhor, me perdoe, mas não consegui interromper o velho mestre. O Senhor do céu ficou furioso com a Morte. - O que é isso? Você nunca me desobedeceu! Volte já para a Terra e traga-me o pintor! (...)

1. Todo conto popular traz consigo aspectos do cotidiano e das vivências de determinado povo. Diante desse aspecto, realizar uma atividade direcionada para o questionamento sobre o que o conto em questão es-

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

pelha sobre a realidade vivida pelo povo apresentado. Essa discussão deverá ser oral, onde a criança irá manifestar livremente as ideias formuladas mediante a interpretação dada por cada ao conto. 2. Explorar o emprego de letras maiúsculas e minúscula, bem como os de nome próprio, uma vez que há diferenças entre “Morte” e “morte”, “Senhor” e “senhor”. 3. Analisar parágrafo, travessão, interrogação, exclamação e reticências, como essas pontuações são utilizadas para representar emoções e falas, dando vida ao conto. 4. Levantar entre os alunos o porquê de o pintor gostar de pintar rostos de crianças e, porque achavam que a morte tinha vindo visitá-lo. Existe algum conto brasileiro semelhante? Todos os rostos então de criança inclusive os nossos seriam desenhados por um pintor chinês?

Fazendo relações com outros textos verbais e/ou visuais 1. Apresentar outras versões dos contos recontados nas duas obras, ampliando o repertório de leitura das crianças. A comparação pode ser uma boa estratégia para que as crianças observem semelhanças e diferenças entre os textos. Como sugestão, podemos indicar o livro Como nasceram as estrelas, de Clarice Lispector (Editora Rocco), em que a história do Negrinho do Pastoreio é retomada, além de outras lendas. 190


Trabalhando com Contos Populares

2. Ler trechos do livro Histórias de Tia Nastácia, de Monteiro Lobato. Nessa obra, há várias referências ao folclore brasileiro. O livro explora de forma muito interessante a cultura popular brasileira.

3. Assistir aos vídeos do programa Lá vem História da TV Cultura. É possível encontrar vários vídeos na internet ou no site da TV Rá-Tim-Bum (http://tvratimbum.cmais. com.br/)

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

Produzindo textos com as crianças • Organizar uma exposição de desenhos elaborados pelas crianças que recontem os contos trabalhados em sala de aula. De maneira que a criança apresente sua interpretação e representação visual sobre os mesmos. O que se deseja é promover além do gosto pela leitura e sua interpretação, levar a criança a percepção de que as imagens acabam nos oferecendo uma interpretação sobre determinada realidade, colaborando na nossa formulação de idéias sobre um objeto. • Promover um dia de contação de histórias, em que as crianças deverão narrar seus contos para os demais, desenvolvendo assim a oralidade, leitura e escrita, além de motivar os alunos na produção própria. Quando se permite que a criança fale sobre a sua vivência, sua realidade, essa acaba questionando sobre os acontecimentos ao seu redor,

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Trabalhando com Contos Populares

dando interpretação e buscando respostas e soluções para os problemas com os quais se defronta, refletindo, pensando e analisando o seu entorno.

Para saber mais

CASCUDO, Luis da Câmara. Literatura oral no Brasil. 2ª Ed. São Paulo: Global, 2009.

FERREIRA NETO, Waldemar. Tradição oral e produção de narrativas. São Paulo: Paulistana, 2011.

GOMES, Lenice. MORAES, Fabiano. Alfabetizar letrando com a tradição oral. São Paulo, Cortez, 2013.

PINHEIRO, Nárgyla Maria L. Pimenta. Como você está diferente vovó! : aspectos sócio-históricos dos contos populares. Dissertação de Mestrado apresentada a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas de São Paulo. São Paulo: USP, 2012.

ROMERO, Silvio. Contos populares no Brasil. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

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A poesia disseminando o direito1

Os enunciados – sejam eles orais, escritos ou multimodais – exprimem, em certa medida, a individualidade dos sujeitos e suas idiossincrasias, mas na dependência de situações sociais concretas de enunciação, segundo Bakhtin. (DIAS et alli, 2012)

Objetivos das sugestões didáticas

Trabalhar o gênero literário poema

Relacionar o texto com outros gêneros literários verbais e não verbais: canção, história em quadrinhos, literatura de cordel e obras das artes visuais.

Compreender e reconhecer a importância da antologia para a produção literária.

1. Carolina Zambotti Simões , Ezequiel Santos, José da Silva, Karen Regina Amorin - Alunos do curso de Pedagogia (Noturno) da Universidade Federal de São Paulo.

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

Iniciando a proposta com as crianças... A leitura da obra “Os direitos das crianças segundo Ruth Rocha”, escrito por Ruth Rocha (Ed. Companhia das Letrinhas, 2002) apresenta versos compostos por quadrinhas. As páginas são ilustradas com desenhos feitos pelo ilustrador Eduardo Rocha, que dialogam com os versos, apresentando cenas descritas no poema.

Nossa proposta tem por objetivo principal trabalhar o gênero literário da poesia, que é pouco trabalho na escola, com seus elementos característicos. Para iniciar esse trabalho, podemos sugerir uma roda de leitura, onde cada criança pode ler um trecho do livro. Podemos questionar os alunos sobre a 196


A poesia disseminando o direito

forma desse texto, o que ele apresenta de diferente, se eles percebem o ritmo, a rima, a forma etc. De olho no texto verbo-visual [...] Criança tem que ter nome Criança tem que ter lar Ter saúde e não ter fome Ter segurança e estudar Não é questão de querer Nem questão de concordar Os direitos das crianças Todos têm que respeitar [...]

1. As crianças podem conversar sobre o léxico dos poemas e canções em grupos para que possam compreender os possíveis sentidos das palavras e expressões, como: “decreto”, “casa de joão-de-barro”, “pomar”, “carreiro de saúva”, etc.; 2. Podem ser explorados as rimas e ritmos da poesia e das canções, trabalhando a repetição e o paralelismo presente de algumas palavras, como: “tem”, “criança”, “questão” e expressões “criança tem que ter”; “não é questão de querer”;

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

Fazendo relações com outros textos verbais e/ou visuais

Deveres e Direitos Crianças: iguais são seus deveres e direitos. Crianças: viver sem preconceito é bem melhor. Crianças: a infância não demora, logo, logo vai passar,  Vamos todos juntos brincar. Meninos e meninas,  Não olhem religião nem raça.  Chamem quem não tem mamãe,  Que o papai tá lá no céu, E os que dormem lá na praça. Meninos e meninas,  Não olhem religião nem cor.  Chamem os filhos do bombeiro,  Os dois gêmeos do padeiro  E a filhinha do doutor. (...) - Toquinho (1987)

1. As crianças podem conversar sobre o léxico dos poemas e canções em grupos para que possam compreender os possíveis sentidos das palavras e expressões, como: brincar, raça, trombadinha etc. Podem ser explorados as rimas e ritmos da poesia e das canções, trabalhando a repetição e o paralelismo presente de algumas palavras, como: raça e praça.

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A poesia disseminando o direito

2. Explorar a forma como o texto 茅 apresentado relacionando a Hist贸ria em Quadrinhos da Turma da M么nica em O Estatuto da Crian莽a e do Adolescente. O acesso pode ser pelo link: http://www.fundacaofia.com.br/c-eats/ eca_gibi/capa.htm. Ou pelo link http://www.unicef. org/brazil/pt/monica_estatuto.pdf 199


CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

Produzindo textos com as crianças Produzir fotografias que busquem captar alguns dos direitos das crianças que estão, ou não, sendo garantidos e, posteriormente, apresentar para a escola em murais ou em uma galeria improvisada, explorando a arte visual.

Para ler mais

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Muscat, Bruno. Coleção Sim X Não – Direitos das Crianças, SIM!. Editora Escala Educacional

Kawahara, Hiro. O Livro dos grandes direitos das crianças. Editora Panda Books, 2011

Lísias, Ricardo. Coleção Turma dos Direitos Humanos. Vol. 1 e 2. Editora Hedra, 2005


A poesia disseminando o direito

Para saber mais

DIAS, Anair; MORAIS, Cláudia G.; PIMENTAS, Viviane R. e SILVA, Walleska B. Minicontos multimodais: reescrevendo imagens cotidianas. In: Roxane Rojo e Eduardo Moura (Orgs.) Multiletramentos na Escola. Parábola Editorial, 2012.

FARIA, Maria Alice. Como usar a literatura infantil na sala de aula. Contexto.

MACHADO, Zélia et al. Literatura no ensino fundamental: uma formação para o estético. In: Egon Rangel e Roxane Rojo (Orgs.). Língua Portuguesa: Ensino Fundamental. Brasília, MEC, 2010.

RAMOS, Graça. A imagem nos livros infantis: caminhos para ler o visual. Autêntica.

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créditos das Imagens

Página 24 • Chapeuzinho Amarelo. HOLANDA, Chico Buarque de. Chapeuzinho Amarelo. (Coleção Itaú de livros infantis - 2011), 27ª Edição, Rio de Janeiro: José Olympio, 1997. http://www.ziraldo.com/livros/chapeu_a. htm Página 27 • Chapeuzinho Vermelho e Outros Contos de Grimm. http://www.livrus. net/perfil_livro.php?id_livro=1261#item1 • Chapeuzinho Redondo. http://www.brinquebook.com.br/livro. php?livro=306 Página 28 • Deu a Louca na Chapeuzinho (Hoodwinked). http://www.youtube.com/ watch?v=dN6BGajkptU • Os três porquinhos. http://www.ftd.com.br/detalhes/?id=2458 Página 32 • HAURELIO, M. Os três porquinhos em cordel. São Paulo: Editora Nova Alexandrina, 2011. http://marcohaurelio.blogspot.com.br/2011/06/ classico-da-literatura-infantil.html Página 33 • The Project Gutenberg eBook, The Story of the Three Little Pigs, by Unknown, Illustrated by L. Leslie Brooke. http://www.gutenberg.org/ files/18155/18155-h/18155-h.htm Página 35 • Os três Porquinhos Pobres. http://www.companhiadasletras.com.br/ detalhe.php?codigo=40283 • Outra Vez os Três Porquinhos. http://www.companhiadasletras.com.br/ detalhe.php?codigo=40285 Página 36 • Os 3 Porquinhos. http://www.youtube.com/watch?v=kL5EjA2xu3k • Versão da Ciranda Cultural – Sacolinha da Alegria. Digitalização do autor.

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

Página 37 • Os Três Porquinhos (2007). http://www.movimentoartecontemporanea.com/ mac/acervo/46/1132/ Página 43 • Coraline. http://www.cinepremiere.com.mx/top-10-genialidades-de-neilgaiman1.html Página 46 • Coraline Game. http://static2.wikia.nocookie.net/__cb20090829195729/coraline/images/5/56/Coraline_game2.gif Página 47 • Lucy enters the Wardrobe. http://narnia.wikia.com/wiki/Wardrobe • Coraline e o mundo secreto (2009). http://www.youtube.com/ watch?v=LO3n67BQvh0 • Coraline em graphic novels. http://neilgaiman.com/works/Books/Coraline/ Página 50 • Alice. http://www.zahar.com.br/livro/alice Página 52 • Alice no metrô. http://www.le.com.br/catalogo-interna/alice-no-metro • Alice in Wonderland: Official Trailer. http://www.youtube.com/ watch?v=pMiCJefpn9Q Página 53 • Alice do País das Maravilhas – Wii. http://www.youtube.com/ watch?v=BNxsXFVQFnE • Para baixo na toca do coelho de Salvador Dali. http://omelete.uol.com. br/galeria/Alice-por-Salvador-Dali/Para-baixo-na-toca-do-coelho/?slug_ conteudo=veja-pinturas-de-salvador-dali-para-alice-no-pais-das-maravilhas Página 57 • Romeu e Julieta, de Ruth Rocha. http://www.salamandra.com.br/main.jsp?lum PageId=4028818B2F212E9B012F2C6BF30801C2&itemId=8A8A8A8236D948F D0136EE70938D0006# Página 59 • Mil Pássaros: Sete Histórias de Ruth Rocha. http://www.radio.uol.com.br/#/ album/ruth-rocha/mil-passaros-sete-historias-de-ruth-rocha/3926 Página 62 • Romeo and Juliet: (WMC, public domain). https://share.ehs.uen.org/node/499

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Créditos das Imagens

Página 63 • Mônica e Cebolinha no Mundo de Romeu e Julieta. http://www.monicaromeuejulieta.com.br/fotos-e-videos/ • Desenho: Gnomeu e Julieta. http://www.youtube.com/ watch?v=1JGQsTTHbXQ Página 64 • Romeu e Julieta em cordel. http://lojanovaalexandria.com.br/nova-alexandria/ colecao-classicos-em-cordel/romeu-e-julieta.html • Ilustrações de Mariana Massarani. http://marianamassarani.blogspot.com.br Página 72 • Os miseráveis. http://www.atica.com.br/SitePages/Obra.aspx?cdObra=2590 Página 76 • Young Cosette sweeping: 1886 engraving for Victor Hugo’s Les Miserables. French illustrator Émile Bayard. http://commons.wikimedia.org/wiki/ File:Ebcosette.jpg Página 79 • Les misérables, Gérard Dubois, Nathan. http://www.ricochet-jeunes.org/magazine/article/126-gerard-dubois • Os miseráveis em cordel. Digitalização do autor. Página 84 • O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá. http://www.companhiadasletras.com. br/detalhe.php?codigo=40473 Página 86 e 88 • O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá. http://www.companhiadasletras.com. br/detalhe.php?codigo=40473 Página 90 • Ilustração de Carybé. http://www.jorgeamado.com.br/obra. php3?codigo=40473&ordena=1 Página 92 • A bola e o goleiro. http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe. php?codigo=40474 Página 97 • As aventuras de Pinóquio. http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe. php?codigo=40246

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

Página 101 • Livro Que história é essa? – Flávio de Souza. http://www.companhiadasletras. com.br/detalhe.php?codigo=40034 • As Novas Aventuras do Pinóquio - Tudo quanto se pode fazer com um nariz comprido além de dizer mentiras. http://www.ipiageteditora.com.br/detalhes. asp?id=135&produto=959 Página 102 • Pinocchio 3000. http://en.wikipedia.org/wiki/Pinocchio_3000 Página 106 • Um caldeirão de poemas. http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe. php?codigo=40274 Página 109 • Cultura. http://www.iluminuras.com.br/v1/verdetalheslivros.asp?cod=485&txt Busca=Infantojuvenil&autor=Arnaldo%20Antunes Página 110 • POESIA DE BICICLETA. http://www.lpm.com.br/site/default.asp?Template=../ livros/layout_produto.asp&CategoriaID=626470&ID=940028 Página 114 • O Primeiro Homem. http://editora.cosacnaify.com.br/Loja/PaginaLivro/10456/ O-primeiro-homem.aspx Página 117 • Indio bororo. http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Indio_bororo. jpg?uselang=pt-br Página 119 • Calvin and Hobbes look at the stars. http://www.zoom-comics.com/archives/4331/calvin-and-hobbes-look-at-the-stars/ Página 128 • Rotas fantásticas. http://www.ftd.com.br/detalhes/?id=3159 Página 130 • Vovó Maria. http://revistaescola.abril.com.br/pdf/VovoMaria.pdf Página 133 • Os tenebrosos quadros de crianças chorando. http://vejasp.abril.com.br/blogs/vejinha/dez-lendas-urbanas-dos-anos-80/

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Créditos das Imagens

Página 134 • Histórias de arrepiar com Ângela Lago. http://www.angela-lago.net.br/livro. html Página 140 • Histórias de arrepiar com Ângela Lago. http://www.companhiadasletras.com. br/detalhe.php?codigo=40223 Página 142 • Contos de enganar a morte. http://www.ricardoazevedo.com.br/livro/contosde-enganar-a-morte/ • Na noite escura. https://editora.cosacnaify.com.br/ObraSinopse/11121/Nanoite-escura.aspx • My Haunted House. http://www.harpercollins.com/browseinside/index. aspx?isbn13=9780060774837 • A hora do cachorro louco. http://www.ricardoazevedo.com.br/livro/trecho-dea-hora-do-cachorro-louco/ Página 150 • Amor, História e Luta. http://eileiaolivro.blogspot.com.br/2012/02/antologiade-folhetos-de-cordel-amor.html Página 151 • Viagem a São Saruê. http://www.onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php?titulo=Manoel+Camilo+dos+Santos&ltr=m&id_perso=460 Página 155 • Peleja de Joaquim Jaqueira com Joao Melquíades. http://digitalizacao.fundaj. gov.br/fundaj2/files/i/56/00.jpg Página 163 • O mar de Manu. http://cidinhadasilva.blogspot.com.br/ Página 166, 167 e 168 • O mar de Manu. Digitalização do autor. Página 172 • Contos africanos para crianças brasileiras. http://www.paulinas.org.br/loja/?sy stem=produtos&action=detalhes&produto=504580 Página 178 • Contos de Grimm: Animais encantados. http://ensfundamental1.files.wordpress.com/2012/03/contos-de-grimm.pdf • Contos Tradicionais do Brasil para crianças. http://www.skoob.com.br/ livro/52577-contos_tradicionais_do_brasil

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA

Página 179 • Conto de animais do mundo. http://www.martinsfontespaulista.com.br/ch/ prod/407169/CONTOS-DE-ANIMAIS-DO-MUNDO-TODO.aspx • Contos de animais como contaram aos pais de nossos pais. http://www.trampolimedicoes.pt/crbst_42.html • Ilustrações de Maurício Veneza. Digitalizações do autor. Página 180 • Versão de “Festa no Céu” da autora e ilustradora Lúcia Hiratsuka. http://www. editoradcl.com.br/Produto/92/festa-ceu-conto-popular-brasil-festa-marconto-popular-japao • Versão de “Festa no Céu” da autora Ana Maria Machado. http://www.ftd.com. br/detalhes/?id=2467 Página 187 • La vem história. http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe. php?codigo=40055 Página 190 • Como nasceram as estrelas. http://portugues.seed.pr.gov.br/arquivos/File/ ClariceLispector.pdf Página 191 • Histórias de Tia Nastácia. http://teopoetica.sites.ufsc.br/arquivos/lucifer/ Artigos/Hist%C3%B3ria%20de%20Tia%20N%C3%A1stacia%20-%20O%20 Bom%20Diabo%20-%20Monteiro%20Lobato.pdf Página 196 • Os direitos das crianças segundo Ruth Rocha. http://encantamentosdaliteratura.blogspot.com.br/2011/04/os-direitos-das-criancas-segundo-ruth.html Página 199 • Turma da Mônica em O Estatuto da Criança e do Adolescente. http://www. unicef.org/brazil/pt/monica_estatuto.pdf

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CADERNOS DE RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA Os Cadernos de Residência Pedagógica são materiais destinados aos residentes do curso de Pedagogia da UNIFESP e aos professores e gestores das escolas públicas de Guarulhos. Além de discutir questões de diferentes níveis e modalidades de ensino, orientam o início do Programa de Residência Pedagógica. Os volumes desta série são: Educação Infantil (volume 1), Primeiro segmento do Ensino Fundamental (volume 2) e Educação de Jovens e Adultos (volume 3), Gestão Educacional (volume 4), Educação Infantil e Direitos da Infância (volume 5), O Direito à Infância e ao Brincar (volume 06), História e Geografia nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental (volume 07).

CAPES

rodocência

Programa de Consolidação das Licenciaturas

Literatura e outras Linguagens nos anos iniciais do ensino fundamental  

Série Cadernos de Residência Pedagógica. Prodocência. UNESP. CAPES Coordenação do Volume 8: Clecio dos Santos Bunzen Júnior Literatura e...

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