Issuu on Google+


capa_48-finalFRENTE.indd 1 ANO 05 / 2009 DISTRIBUIÇÃO GRATUITA

#048 LEITURA NÃO RECOMENDADA PARA MENORES DE 18 ANOS.

A C S O NA M

5/13/09 1:10:37 PM


EXPEDIENTE

PONTOS DE DISTRIBUIÇÃO

Direção: Gabriel Rezende Marco Arioli Pedro Hemb Rodrigo Santanna Vicente Perrone

PORTO ALEGRE

Editores: Denise Rosa e Pedro Damasio Repórteres: Felipe de Souza, Piero Barcellos e Gabriela M.O. Revisora: Maria Edith Pacheco Projeto gráfico e Diagramação: Lucas Corrêa e Rafael Chaves @ Lava www.lavastudio.com.br Fotografia: Maurício Capellari Waldomiro Aita Administrativo/Financeiro: Vanessa Lindenau

Amistad - Padre Chagas, 276 Apolinário - José do Patrocínio, 527 Azul Cobalto - Lima e Silva, 744 Barber Shop - Independência, 747 Budha Khe Rhi - Protásio Alves, 2005 Café Cantante - Fernandes Vieira, 615 Callohã - Shopping Lindóia Colcci - Shopping Iguatemi Colcci - Shopping Praia de Belas Convexo - Shopping Iguatemi Diadora - Padre Chagas, 306 ESADE - General Vitorino, 25 Escola Tecnica Irmão Pedro - Félix da Cunha, 515 Espm - Bar Prédio 2 Espm - Bar Prédio 3 Galeria Adesivo - João Pessoa, 203 Gotan - Shopping Iguatemi, Lj 2107 Lancheria do Parque - Osvaldo Aranha, 1086 Lei Básica - Padre Chagas, 276 Live Sport Pub - Dr. Barcellos, 435 Matriz Skate Shop - Shopping Total Nike Store - Barra Shopping Sul Nike Store - Shopping Iguatemi Ossip - República, 677

INTERIOR RS Ocidente - Osvaldo Aranha, 960 Perestroika - Furriel L. A. V., 250/1302 Pó de Estrela - Alberto Torres, 228 Puc - Administração Puc - Direito, Xerox Puc - Famecos Puc - Famecos, Caap Rouparia - Fernandes Vieira, 656 Sexton - Barão de Sto Ângelo,152 Spirito Santo - 24 de Outubro, 513 Stb - Anita Garibaldi, 1515 Stb - Quintino Bocaiúva, 267 Thippos - Miguel Tostes,125 Tmaki - 24 de Outubro 636 / Lj 01 Tow In - 24 de Outubro, 484 Tow In - BarraShopping Sul Trópico - Moinhos Shopping Trópico - Shopping Praia De Belas Trópico - Shopping Iguatemi Trópico - Bourbon Shopping Trópico - BarraShopping Sul Ufrgs - Arquitetura Ufrgs - Reitoria, Bar Antônio Ufrgs - Fabico Uniritter - Orfanatrófio, 555 Vulgo - Padre Chagas, 318

Hip - Caxias Do Sul Lei Básica - Santa Maria Stb - Caxias Do Sul Swell Skatepark - Viamão SÃO PAULO Billabong - Oscar Freire, 909 Gal. Choque Cultural - João Moura, 997 King 55 - Harmonia, 452 Maze Skateshop - Augusta, 2500 WavE Boys - Augusta, 2690, Loja 313 CURITIBA Lolitas Salon De Coiffure - Trajano Reis, 115 Kitinete - Duque de Caxias, 175 Praça CWB - Cel. Amazonas Marcondes, 1493 MINAS GERAIS Blunt - Montes Claros,173 Café com Letras - Antônio de Albuquerque, 781

Comercial: João Francisco Hein Planejamento: Lucas Bergallo Samuel Attianeze Eduardo Dewes Produção: Bruna Szewczyk Jurídico: Galvão & Peter Advogados office@galvaoepeter.com.br

v Rua Felipe Neri, 148/503 Porto Alegre - RS - 90440-150 Fone: (51) 3023-7662 Email: void@avoid.com.br

www.avoid.com.br

Void FINAL CURVAS.indd 7 intro_48.indd 3

A VOID não se responsabiliza por opiniões emitidas em artigos assinados que não refletem, necessariamente, a opinião da revista. Os trabalhos identificados pelo ícone da licença Creative Commons têm sua publicação permitida nas seguintes condições: Distribuição e adaptação livre sem fins comerciais mediante o crédito do autor. Info: http://creativecommons.org/international/br

A REVISTA VOID É UMA PUBLICAÇÃO MENSAL COM DISTRIBUIÇÃO GRATUITA E TIRAGEM DE 12 MIL EXEMPLARES

5/14/09 4:42:33 PM

14.05.09 17:36:00


Void FINAL CURVAS.indd 18

13.05.09 18:14:40


Void FINAL CURVAS.indd 19

13.05.09 18:14:55


Void FINAL CURVAS.indd 20

13.05.09 18:15:03


Void FINAL CURVAS.indd 21

13.05.09 18:15:18


Void FINAL CURVAS.indd 22

13.05.09 18:15:39


# 051

#051 ANO 05 / 2009 DISTRIBUIÇÃO GRATUITA

LEITURA NÃO RECOMENDADA PARA MENORES DE 18 ANOS.

O D A L DE DE LADO capa_51-final.indd 2

8/14/09 9:56:28 PM


EXPEDIENTE

PONTOS DE DISTRIBUIÇÃO

Direção: Gabriel Rezende Marco Arioli Pedro Hemb Rodrigo Santanna Vicente Perrone

BELO HORIZONTE

Editores: Denise Rosa e Pedro Damasio Repórteres: Felipe de Souza, Piero Barcellos e Gabriela M.O. Revisora: Maria Edith Pacheco Projeto gráfico e Diagramação: Lucas Corrêa e Rafael Chaves @ Lava www.lavastudio.com.br Diagramação: Guilherme Rex Fotografia: Maurício Capellari Waldomiro Aita

Black Boots - R. Fernandes Tourinho, 182 Blunt – Montes Claros, 173 Brechó Brilhantina – R. Tomé de Souza, 821 Café com Letras – Ant. de Albuquerque, 781 Café do Museu - Av. Prudente de Desvio – R. Tomé de Souza, 815 La Toskeria – R. Claudio Manoel, 329 Mini Galeria – R. Carolina Figueiredo, 30 Pizzaria Caraíva – R. Itapeva, 19 Quina – R. da Bahia, 1148, sobrelj. 06 Moraes,  202 Social - R. Ceará, 1580 CURITIBA Airlab – Al. Prudente de Moraes, 1668 Café Lucca – Av. Presidente Taunay, 40 Café Novo Louvre - R. Trajano Reis, 36 Desmobilia - Av. Vicente Machado, 878 Fran’s Café – R. Dr. Carlos de Carvalho, 1262 Goverdhana - R. Augusto Stresser, 207 Kitinete – Duque de Caxias, 175 Lamb - Vicente Machado, 674 Lolitas Salon de Coiffure – Trajano Reis, 115 Piola - Al. Dom Pedro II, 105 Pista da Drop - Travessa da Lapa, 231 Restaurante Quintana – Av. Batel, 1440 Tienda Design – R. Fernando Simas, 27 Teix Tattoo – Av. Vicente Machado, 666 FLORIPA

Administrativo/Financeiro: Vanessa Lindenau

Hi Adventure - Sotero José Faria, 610 Players (loja) - Floripa Shopping Sul Nativo – Shopping Beira Mar

Comercial: João Francisco Hein

Porto Alegre

Produção: Bruna Szewczyk Jurídico: Galvão & Petter Advogados office@galvaoepetter.com.br

pontos_dist_51.indd 1

Amistad – Padre Chagas, 276 Azul Cobalto – Lima e Silva, 744 Billabong – Barra Shopping Sul Budha Khe Rhi – Protásio Alves, 2005 Café Cantante – Fernandes Vieira, 615 Callohã – Shopping Lindóia Convexo – Shopping Iguatemi

Convexo – Shopping Praia de Belas Diadora – Padre Chagas, 306 ESADE – General Vitorino, 25 ESPM – Bar Prédio 2 ESPM – Bar Prédio 3 King 55 – Dona Laura, 78 Lancheria do Parque – Osvaldo Aranha, 1086 Live Sport Club – Dr. Barcellos, 435 Matriz Skate Shop – Shopping Total Nike Store – Barra Shopping Sul Nike Store – Shopping Iguatemi Oakley – Barra Shopping Sul Ocidente – Osvaldo Aranha, 960 Ossip – República, 677 Perestroika – Furriel L. A. V., 250/1302 Pó de Estrela – Alberto Torres, 228 Puc – Administração Puc – Direito, Xerox Puc – Famecos, CAAP Puma – Barra Shopping Sul Rouparia – Fernandes Vieira, 656 Sexton – Barão de Sto Ângelo, 152 Spirito Santo – 24 de Outubro, 513 STB – Anita Garibaldi, 1515 STB – Quitino Bocaiúva, 267 Thippos – Miguel Tostes, 125 Tmaki – 24 de Outubro, 636 / Lj. 01 Tow In – 24 de Outubro, 484 Tow In – Barra Shopping Sul Ufrgs – Arquitetura Ufrgs – Reitoria, Bar Antônio Ufrgs – Fabico Uniritter – Orfanatrófio, 555 Vulgo – Padre Chagas, 318 RIO DE JANEIRO

Plano B - R. Francisco Muratori 2A Redley – R. Maria Quitéria, 99 Street Force - Galeria River Ultraeco – Galeria River Viva Retro - R. Francisco Sá, 95 - Lj. H SÃO PAULO AMP – R. Augusta, 2729 B.luxo - R. Augusta, 2633 Lj. 18 Billabong – Oscar Freire, 909 Billabong – Morumbi Shopping Eastpak – R. Augusta, 2685 Forever Skate – Galeria do Rock Gal. Coque Cultural – João Moura, 997 Grapixo - Galeria do Rock Ideal Shop – R. Marechal Deodoro, 1641 Cj. 23 King 55 – Harmonia, 452 Maze Skateshop – Augusta, 2500 Mission Store – Galeria do Rock Nike Sportswear – Praça dos Omaguás, 100 Plastik – R. Dr. Melo Alves, 459 Star Point Moema – Av. Iraí, 224 Ultra Skate – Av. Moací, 537 Visionaire – Galeria Ouro Fino Volt – R. Haddock Lobo, 40 Wave Boys – Galeria Ouro Fino Z Carniceria – R. Augusta, 934 OUTRAS Hip – Caxias do Sul / RS Stb – Caxias do Sul / RS Sweel Skatepark – Viamão / RS Hangar – Santa Maria / RS Roques – Niterói / RJ

Baratos do Ribeiro – R. Barata do Ribeiro, 354 – Lj. D Boards Co - Galeria River Cinema Odeon - Praça Floriano, 7 Drinkeria Maldita – R. Aires Saldanha, 98 Home Grown – R. Maria Quitéria, nº 68 Junkz – R. Francisco de Sá, 95 Junkz – R. Dagmar da Fonseca, 33 Junkz – R. Uruguiana, quadra D, Box 358 La Cucaracha – R. Teixeira de Mello, 31, Lj. H

8/14/09 10:09:40 PM


FALE COM A MINHA Mテグ POR Piero Barcellos / FOTOS Maurテュcio Capellari

materia01-07.indd 1

8/14/09 10:00:55 PM


POR INCRÍVEL QUE PAREÇA, FALAR DE MASTURBAÇÃO AINDA É TABU. VOCÊ CONHECE ALGUÉM QUE ADMITA BATER PUNHETA OU SIRIRICA COM FREQUÊNCIA? POUCOS ASSUMEM A BUSCA DA AUTOSSATISFAÇÃO, COMO SE FOSSE ALGUM PROBLEMA. E NÃO É! A INDÚSTRIA DO SEXO NUNCA ESTEVE TÃO EM ALTA, PRINCIPALMENTE COM A INTERNET: VÍDEOS E FOTOS EXPLODEM NA TELA COMO UM CONVITE AO DESCASCAMENTO DE BANANA. COMPARADO COM A ÉPOCA DOS SEUS AVÓS, É UM AVANÇO! ALIÁS, ELES TAMBÉM TINHAM AS SUAS “MANHAS”. E OS AVÓS DOS SEUS AVÓS, E POR AÍ VAI. NO MELHOR ESTILO DISCOVERY CHANNEL, VAMOS CONTAR COMO ESSA PORRA TODA (LITERALMENTE) EVOLUIU.

31

materia01-07.indd 2

8/14/09 10:01:05 PM


A LINHA DE TEMPO DA MASTURBAÇÃO IDADE DA BRONHA LASCADA (IDADE DA PEDRA) Para que haja masturbação, é necessário uma mão e um pau ou uma buceta? Necessariamente não. O seu cachorrinho criado em apartamento que o diga. Quantas vezes você já pegou o totó se esfregando loucamente numa almofada para saciar os instintos? Se esse é um comportamento próprio dos animais, é possível pensar que até mesmo os dinossauros faziam igual. Na falta de fêmeas, nada que uma árvore ou uma pedra mais jeitosinha não pudesse resolver. Pena do tiranossauro rex se ele tivesse que usar os curtos bracinhos para se masturbar. Dando um pequeno salto de milhões de anos, surgiu o homem, evoluído do macaco (outro bicho que de inocente não tem nada). O homo habilis se destacava pelo uso das mãos na criação de ferramentas e armas de caça, que facilitaram a sua vida. E, bom, se o homem já sabia como usar as mãos para sobreviver, lógico que usava também para outras coisas. Porém, os registros mais antigos são de 4 mil anos a.C., na ilha de Malta. Dentro de um templo foram encontradas estátuas de mulheres gordinhas se acabando na siririca. As moças bem fornidas de carnes eram muito visadas na época, por causa do frio – quanto mais cheinha, mais resistente às baixas temperaturas. E estão se masturbando porque... bem... todos nós sabemos como o pau encolhe quando está frio.

materia01-07.indd 3

8/14/09 10:01:08 PM


DEUS EGÍPCIO E EGOÍSTA (ANTIGO EGITO) O Antigo Egito até hoje mexe com a imaginação das pessoas, seja pelos segredos nunca desvendados, como a construção das pirâmides, seja pelo grande desenvolvimento, para a época, em áreas como medicina e astronomia. Porém, foi a religião a maior incentivadora para que os egípcios adotassem a prática de escabelamento de palhaço como algo natural. Segundo suas crenças, o deus Atun (uma das mais importantes divindades) teve uma “paudurescência”, bateu uma para aliviar a tensão e esporrou em cima da terra, de onde brotou a humanidade. Então, já que até um deus podia bater uma bronha sem compromisso, os egípcios não se faziam de rogados e também mandavam ver. Exploradores encontraram objetos em forma de pênis dentro das tumbas das mulheres. Os falos representavam a fertilidade, e também serviam como brinquedinhos sexuais das moças que só andavam de ladinho.

A LIBERDADE GRECO-ROMANA (IDADE ANTIGA) Ora, o que esperar de uma sociedade que permitia que homens mais velhos iniciassem rapazotes na arte do sexo? Tanto os gregos quanto os romanos eram absolutamente liberais em relação ao sexo e à masturbação. Mas, como tudo naquela época precisava ser contextualizado numa lenda, aí vai: Pã, o deus dos bosques e dos campos, tentou seduzir uma ninfa, mas não obteve sucesso. Seu pai, o deus Hermes, para aliviar o sofrimento do filho, mostrou como se aliviar sozinho . E Pã curtiu tanto que ensinou a arte da bronha aos jovens pastores.

ONANISMO BÍBLICO (+ OU - UNS 1000 A.C.)

ABOBADO DA PUNHETA (IDADE MODERNA)

Muita gente se refere à masturbação como a prática do onanismo ou “louvar a Onã”, como também chamam os moleques punheteiros de onanistas. Na verdade a história é outra, e pode ser conferida no Antigo Testamento (Gênesis, 38). Como sabemos que a probabilidade de um leitor da Void ter uma Bíblia em mãos é a mesma de pandas aprenderem a voar, resumimos a história: O irmão mais velho de Onã se casou, mas como Deus não ia muito com a cara dele, matou o infeliz. Para dar continuidade à família, Onã deveria se casar com a mulher do irmão morto e procriar. Porém, como havia uma herança sendo cobiçada, se a mulher não engravidasse, Onã herdava tudo. Para evitar a concepção, Onã mandava ver na cunhada, mas tirava o pau na hora de gozar – o popular coito interrompido. Como Deus é onipresente (desculpa de voyeur), fulminou com o espertinho que morreu com fama de punheteiro.

Na Idade Moderna, o homem se lançou em busca do desconhecido. O Iluminismo deu novos ares às artes e às pesquisas científicas, e era a época das grandes odisseias marítimas. Tanto tempo no mar, sem mulher alguma no barco, o marinheiro tinha que apelar para o velho cinco-contra-um para suportar a solidão. E ainda bem que ele estava em alto-mar! Na Europa, as descobertas científicas, aliadas ao fanatismo religioso, descobriram uma nova “doença”: o mal de Onã. Os sintomas descritos eram emagrecimento, dores de estômago, perda de apetite ou fome em excesso, asma, doenças de pele, cegueira, insanidade e burrice aguda. Nas mulheres, incluía-se também a possibilidade de ficar infértil, virar hermafrodita (de tanto tocar siririca, vai nascer um pinto ali!) e queda do útero. A preocupação dos pais com os jovens que acordavam pela manhã com a cama molhada e com o amigão em riste levou à criação de equipamentos antipunheta, como cinturões de ferro que continham a ereção e máquinas que disparavam sinos a qualquer indício de paudurescência. Ao ouvir os “jingle bells”, os pais sabiam que algo de ruim estava acontecendo.

Por causa dessa historinha, tanto os judeus quanto os católicos veem no desperdício do sêmen um pecado grave. Sexo, só para procriação. E ninguém havia de contrariar, com medo de levar um raio divino nas fuças!

CLITÓRIS QUEIMADO (IDADE MÉDIA) A palavra “masturbação”, em latim, deriva de duas palavras: mano e stuprare, que juntas significam “sujar com as mãos”. Se a relação punheta-pecado já era regra na era de Cristo, imagina então na Idade Média, em que uma mulher que fizesse um chá para gripe era tida como bruxa? A Igreja Católica, em 1222, através dos estudos do teólogo São Tomás de Aquino, determinou que o ato de “descascar banana” ou “tocar piano” é um pecado tão grave quanto comer a irmã ou a filha. Os punheteiros eram considerados hereges, por desperdiçarem o “líquido sagrado”, e podiam até morrer na fogueira por isso. E como sexo por prazer era coisa do capeta, as mulheres que curtiam tocar uma gloriosa tinham o clitóris queimado ou cortado fora. E você ainda acha ruim quando alguém entra no seu quarto sem bater?

PODE ATÉ LHE SER BASTANTE RECOMENDÁVEL (INÍCIO DA IDADE CONTEMPORÂNEA) Um artigo publicado no New Orleans Medical and Surgical Journal, em 1855, afirmava que a masturbação havia feito um mal tão grande para a humanidade que nem a peste, a varíola ou as guerras haviam feito! Felizmente, no início do século 20, novos estudos sobre o onanismo foram realizados. Psicólogos e psiquiatras como Sigmund Freud e Wilhelm Stekel falam sobre isso em suas pesquisas, afirmando que a punheta e a siririca fazem parte do aprendizado sexual, sem provocar qualquer distúrbio mental ou físico. Porém, mesmo com os avanços nas áreas medicinais, psicológicas e sexuais, tem gente que ainda pensa que tocar uma humilde gloriosa é um crime inafiançável. Ainda bem que eles são a minoria.

33

materia01-07.indd 4

8/14/09 10:01:08 PM


A EVOLUÇÃO DOS ESTÍMULOS A bronha e a siririca fazem parte da evolução sexual do ser humano. E se é difícil para você admitir que seus pais fazem sexo, tente conceber que eles também já se masturbaram (isso se ainda não o fazem com frequência), e que os pais deles também já passaram por isso. Tanto que, mesmo com a repressão moral de alguns anos atrás, havia uma pequena indústria voltada para o erotismo, que servia de estímulo para os punheteiros de plantão. E falamos de punheteiros porque o prazer feminino sempre foi um tabu, até mesmo para quem trabalhava com putaria.

Hoje a coisa é mais fácil e democrática, e menos estereotipada. Se antes o banheiro era o tradicional templo do onanismo, hoje a cerimônia acontece na frente do computador. Com um clique, o usuário tem acesso ao mundo da pornografia, capaz de contemplar todos os tipos de fetiches existentes. O surgimento das conexões rápidas foi um fator importante neste caso: se antes você tinha que deixar o computador ligado no telefone de um dia para o outro para baixar um vídeo de foda de 5 minutos, hoje ele carrega em segundos nos youtubes pornôs espalhados pela rede. Aquela história de ficar constrangido ao encarar a tia da locadora ou o caixa da banca de revistas acabou.

FILMES Os filmes pornôs de 1920 eram rodados em puteiros e passados em clubes privados e casas de clientes. Por serem mudos, os caras tinham que colocar algo nas legendas que fosse mais do que uns gemidos: “Oh, querida, use a ‘pele de peixe’. Eu não quero um ‘Júnior’ tão cedo” (em uma tradução direta, “ponha a camisinha que eu não quero engravidar”). A partir dos anos 70 é que esse nicho da indústria cinematográfica começou a se desenvolver. Salas “especiais” de cinema eram destinadas à sua exibição. E alguns filmes passaram até mesmo a ter uma “trama” que justificasse a metelança desenfreada – como na cinessérie erótica Emmanuelle, por exemplo. Clássicos como Garganta Profunda e Taboo marcaram época e são famosos até hoje. Hoje a mídia é o vídeo em flash. PornTube, YouPorn, RedTube e Megaporn são os nomes de alguns sites que hospedam vídeos de sexo na rede. São poucos os vídeos com “historinhas” – a maioria já é editada para ir à rede direto ao ponto que interessa. Os filmes mais populares são aqueles estrelados pelas divas do cinema pornô, como Bruna Ferraz e Mônica Matos. Porém, com a popularização da tecnologia, os filmes amadores acabaram se destacando e criando novas divas tão rápido quanto uma punheta. É só terminar de bater uma que já tem milhares de novos vídeos pipocando na internet. Basta um celular na hora da foda para que o mundo inteiro toque uma gloriosa para um anônimo(a) no dia seguinte. 34

materia01-07.indd 5

8/14/09 10:01:13 PM


GAMES Muito antes dos viciados em games se emocionarem com as coxas da Chun Li em Street Fighter II, havia os joguinhos de sacanagem da Atari nos anos 80. O mais conhecido deles era o X-Man (nada a ver com mutantes), em que você controla um bonequinho com paudurescência por um labirinto cheio de tesouras e dentaduras, prontos para decepá-lo. Ao chegar no final, o protagonista trepava com uma mulher nas mais variadas posições. Em Cluster’s Revenge, um cowboy peladão precisa atravessar uma chuva de flechas para copular com uma índia. Já em Beat’Em & Eat’Em, um cara peladão bate punheta em cima de um prédio, e o seu objetivo é fazer com que as mulheres que ficam embaixo catem a porra com a boca – há uma versão feminina deste game, em que uma mulher fica jorrando leite dos peitos, e dois caras ficam embaixo esperando para mamar.

PUBLICAÇÕES “Uma revista para os jovens alegres de todas as idades.” É assim que se autointitula A Melindrosa, uma publicação quinzenal dos anos 20 que trazia nas entrelinhas toda a malícia das relações interpessoais da época. Desenhos de mulheres em poses sedutoras num estilo que lembra as pin-ups, artigos de humor e contos picantes completam o conteúdo. Entre os anos 50 e 70, o Brasil conheceu os quadrinhos eróticos de Carlos Zéfiro, que aproveitava o tempo livre como funcionário público para desenhar. Zéfiro vendia seus quadrinhos nas bancas, cobertos por capas que lembravam livros religiosos. Era só pedir por um “catecismo” que o vendedor já sabia o que o cliente queria. Na mesma época, surgiam na Itália os quadrinhos de Milo Manara, uma referência nos gibis eróticos; e, nos EUA, surgia a Playboy, considerada a primeira revista que publicava fotos de mulheres nuas. Atualmente, boa parte das publicações de putaria já disponibiliza seu conteúdo na internet. Se não o faz, os louvadores e louvadoras de Onã dão um jeito de fazê-lo. Nos quadrinhos, os traços ocidentais perderam terreno para os olhos oblíquos dos japoneses e seus hentais com cenas de sexo bizarras e ejaculações monstruosas. Mas quem ainda curte levar uma revista para o banheiro não fica na mão (literalmente). E não são poucos!

Vinte anos depois, a pornografia atinge novamente os jogos. Se antes a sexualidade estava maquiada em jogos de protagonistas de curvas pixeladas como Lara Croft, agora ela vem mais explícita do que nunca! A ThriXXX é especializada em games de computador como o SexVilla, um ambiente virtual em que você pode customizar o seu avatar e o de seu parceiro sexual, e mandar ver da maneira que quiser. Algumas das diversões eletrônicas levam o nome de estrelas pornô, como é o caso da Virtually Jenna, jogo inspirado na atriz Jenna Jameson. Isso sem falar nas infinidades de jogos em flash, que rodam direto do navegador, sem precisar de instalação.

OLHO NO OLHO Nem sempre a masturbação se torna uma atividade solitária. Pelo menos em parte. Casais apaixonados separados pela distância tinham o telefone como salvação. Bastava o parceiro (ou parceira) falar algumas sacanagens ao fone para que, do outro lado, as calças comecassem a esquentar de tesão. Na falta de alguém para aguçar a sua imaginação, uma ligação para o Tele-Amigo resolvia o problema – com a vantagem de que você podia mandar ver todo dia conversando com uma pessoa diferente sem medo de ser feliz. Hoje o papo começa com um “oi, quer tc?”. Um computador com internet e webcam proporciona hoje o estímulo masturbatório mais interativo de todos. É só encontrar alguém com as mesmas intenções numa sala de chat, para logo começarem a sacanagem virtual. Vale tudo: de striptease até masturbação em rede – quem quer brincar é que decide as regras do jogo.

35

materia01-07.indd 6

8/14/09 10:01:15 PM


TÉCNICAS MASTURBATÓRIAS

Para homens • Mão dormente: Basta sentar em cima de mão por alguns minutos antes de descascar a banana. A sensação é a de que outra pessoa está executando o vai-e-vem pra você. • Camiseta: Enrolado numa camiseta, o seu pau aquece mais rápido. Outra variação é usar uma meia no lugar da camiseta.

A MASTURBAÇÃO É MUITO MAIS DO QUE UM IMPULSO INSTINTIVO DO CORPO EM BUSCA DO PRAZER. É UMA ARTE SOLITÁRIA E INDIVIDUALISTA QUE REQUER A PRÁTICA INCESTANTE PARA ATINGIR A PERFEIÇÃO.

• Com as duas mãos: Uma fica na base do cacete, e a outra na cabeça. Aí é só sincronizar os movimentos até gozar. • Concha: O esquema é fazer uma concha com as duas mãos, e meter loucamente como se fosse uma vagina de verdade. • Jato d’água: Durante o banho, deixe a água bater na cabeça do pau para aumen-

tar o prazer. • Mentolada: Usando pomada Vick ou pasta de dente na cabeça do pau, para dar aquele frescor. • Mosquinha: Consiste em colocar uma mosca sem asas na cabeça do pau enquanto bate a bronha. E necessária demasiada técnica para que a mosca não caia. • Circle Jerk: Não chega a ser uma técnica. Muito praticado pelos americanos, o Circle Jerk consiste em reunir os amigos para bater uma bronha em volta de um donut, em cima de onde todos devem gozar. Quem esporrar por último perde, e ainda por cima tem que comer a rosquinha com cobertura extra.

Para mulheres • Massagem normal: Segure o clitóris com o polegar e o indicador, e vá acariciando até atingir o prazer. • Massagem circular: Com o dedo indicador e médio em cima do clitóris, faça movimentos circulares, alternando a velocidade e a pressão. • Batidinhas: Com uma das mãos, deixe o clitóris exposto. Com a outra, dê pequenos “estalos” em cima dele. • Combinação: Com uma das mãos você massageia o clitóris, com a outra você introduz um ou mais dedos na vagina.

da torneira caia bem em cima do clitóris. • Spray: Mesma técnica acima, mas com a torneira tapada parcialmente com um dos dedos, fazendo mais pressão. • Chuveirinho: Para quem não tem banheira em casa, o chuveirinho é a solução! • Travesseiro/Ursinho de pelúcia: A fricção de um desses objetos entre as pernas massageia o clitóris, estimulando o prazer.

• Torneira: Esta é pra fazer na banheira. Basta se posicionar de forma que a água 36

materia01-07.indd 7

8/14/09 10:01:16 PM


BRINQUEDINHOS ATÉ MESMO O SEXO SOLITÁRIO PODE ENJOAR. PARA APIMENTAR A RELAÇÃO ENTRE VOCÊ E SEU EGO, EXISTEM MUITOS BRINQUEDOS À DISPOSIÇÃO NO MERCADO, SACIANDO AMBOS OS SEXOS NA ARTE DA MASTURBAÇÃO.

VAGINA EM CYBER-SKIN Não menstrua e não discute a relação. O material imita a pele humana e ainda possui rugosidades internas que dão realismo à coisa. R$145

BUCETÃO GIGANTE Para quem acha que tamanho é documento. R$65

ESTIMULADOR DE PRÓSTATA Invade atrás para manter o da frente ereto. R$244

PENTHOUSE ÂNUS E VAGINA COM VIBRAÇÃO E CYBER-SKIN Combo para seu pau não botar defeito algum. R$345

37

materia01-07.indd 8

8/14/09 10:01:22 PM


BRINQUEDINHOS

CONSOLO MONSTRO 37 centímetros de comprimento e 6 de grossura. Vai reclamar agora? R$130

RABBIT O consolo multifacetado vibra, estimula ânus, clitóris e vagina, e ainda possui relevo giratório. É quase uma arma. R$450

BORBOLETA COM VIBRADOR Discreto, cabe na bolsa, e quebra o galho da mulher em qualquer lugar. R$126

BATOM VIBRADOR Quem disse que os lábios inferiores também não usam batom é porque não conhece este. R$125

VAGINA E ÂNUS Para quem não se contenta só com a entrada principal, e curte também a entrada dos fundos, este é O produto. R$259

VIBRADOR PINCEL DE BLUSH Use no ambiente público para se maquiar, e no privado para se masturbar. R$180

VIBRA-POD Ligue o aparelhinho ao seu iPod, e sinta a vibração de acordo com o ritmo da música. R$399

38

materia01-07.indd 9

8/14/09 10:01:53 PM


GAMBIARRAS MASTURBATÓRIAS Não basta você ser punheteiro ou siririqueira: tem que ser um fodido(a) também, que não tem dinheiro pra comprar uma revista sequer, e só acessa a internet na lan-house. Nessas horas, a imaginação e o improviso podem ser bons aliados na busca do prazer solitário. Porém, faça isso por sua conta e risco: Na busca de algo que estimule o clitóris como um vibrador, é só usar aquele seu celular tijolão. Programe o alerta vibratório nele, e aí é correr pro abraço! Objetos de uso pessoal no banheiro, como escovas de dente, tubos de desodorante, pentes e escovas de cabelo muitas vezes ajudam no ato. Se você tocar uma camisinha num tubo de desodorante aerossol, fica tal qual uma benga (e mais efetiva do que muitas de verdade que existem por aí). As mais abonadas, que possuem escova de dentes elétrica, possuem no aparelho um discreto consolo com vibrador em casa e nem sabem o que estão perdendo. Para os covardes praticantes do cincocontra-um, qualquer estímulo visual é válido. Até mesmo aquele catálogo de lingeries do supermercado com as modeletes em trajes sumários. As revistas femininas da sua irmã também valem. Se você só funciona se ver um peitinho desnudo, ou um pelo pubiano aparecendo, nos livros de biologia existem aos montes! Caso alguém veja você entrando no banheiro com um desses,

vai pensar que até na hora de cagar você não deixa de estudar. A mãe natureza é sábia e fornece recursos até mesmo para o ato solitário. Um furo numa fruta de polpa suculenta, como a melancia, por exemplo, pode proporcionar boas experiências. As frutas e leguminosas fálicas – banana, pepino, berinjela, e por aí vai –, quando devidamente encapadas, se tornam próprias para consumo vaginal e anal. Falando em comida, o açougue também pode ser um antro de perversão. Vai dizer que um salame não daria um bom consolo improvisado? Aos homens, dá pra meter o pau no coxão de dentro ou na maminha – quase uma espanhola bovina. O primeiro amor de muita adolescente foi aquela caneta paraguaia de dez cores diferentes. Se até aquilo já foi usado para se masturbar, o que impede que outro tipo de material de escritório não seja? Se você achar que uma bic é muito fina, pegue umas cinco e junte com elástico. Só certifique-se de que as canetas continuam com as tampas nos seus respectivos lugares, e de que não se perderam em nenhuma reentrância do seu corpo.

Agradecimentos à Piacere Sex Shop – fone (51) 3225-5445

39

materia01-07.indd 10

8/14/09 10:02:09 PM


ANO 05 / 2009 DISTRIBUIÇÃO GRATUITA

#054 LEITURA NÃO RECOMENDADA PARA MENORES DE 18 ANOS.

HA G A D Í I L Æ M F A Á N N


EXPEDIENTE

PONTOS DE DISTRIBUIÇÃO

Direção: Gabriel Rezende Marco Arioli Pedro Hemb Rodrigo Santanna Vicente Perrone

BELO HORIZONTE

Editores: Denise Rosa e Pedro Damasio Repórteres: Felipe de Souza, Piero Barcellos e Gabriela M.O. Revisora: Maria Edith Pacheco Projeto gráfico e Diagramação: Lucas Corrêa e Rafael Chaves @ Lava www.lavastudio.com.br Diagramação: Guilherme Rex Fotografia: Maurício Capellari Waldomiro Aita Administrativo/Financeiro: Vanessa Lindenau Comercial: João Francisco Hein

Billabong – Av. Presidente Carlos Luz, 3001 Black Boots – R. Fernandes Tourinho, 182 Blunt – Montes Claros, 173 Brechó Brilhantina – R. Tomé de Souza, 821, Lj.3 Café com Letras – Ant. de Albuquerque, 781 De Rua Skateshop – R. Paraíba, 1061 Desvio – R. Tomé de Souza, 815 Estabelecimento – R. Monte Alegre, 160 Fumec FCH – Rua Cobre, 200 Hard Core – Av. Contorno, 6.000, sl. 201 La Tosqueria – R. Claudio Manoel, 329 Mini Galeria – R. Carolina Figueiredo, 30 Obar – Rua Cláudio Manoel, 296 Pieta Tatoo – Rua Paraíba, 1441, lj. 1 Quina – R. da Bahia, 1148, sobrelj. 06 Social – R. Ceará, 1580 Una – Rua da Bahia, 1764 CURITIBA Airlab – Al. Prudente de Moraes, 1668 Arad – Rua Vicente Machado, 664 Brique - Rua Duque de Caxias, 380 Café Lucca – Av. Presidente Taunay, 40 Café Novo Louvre – R. Trajano Reis, 36 Desmobilia – Av. Vicente Machado, 878 Fran’s Café – R. Dr. Carlos de Carvalho, 1262 Grindhouse – R. Ângelo Sampaio, 2069 Kitinete – Duque de Caxias, 175 Lamb – R. Vicente Machado, 674 Lolitas Salon de Coiffure – R. Trajano Reis, 115 Piola – Al. Dom Pedro II, 105 Quintana – Av. Batel, 1440 Teix Tatoo – Av. Vicente Machado, 666 Tienda Design – R. Fernando Simas, 27 FLORIPA Hi Adventure – R. Sotero José Faria, 610 Players – Floripa Shopping Star Point – Shopping Iguatemi Sul Nativo – Shopping Beira Mar Porto Alegre

Produção: Gabrieli Frizzo Jurídico: Galvão & Petter Advogados office@galvaoepetter.com.br

Amistad – Padre Chagas, 276 Azul Cobalto – Lima e Silva, 744 Billabong – Barra Shopping Sul Callohã – Shopping Lindóia Convexo – Shopping Iguatemi Convexo – Shopping Praia de Belas Diadora – Padre Chagas, 306 ESPM – Bar Prédio 2 / Bar Prédio 3

Fita Tape – Praça Garibaldi, 46 King 55 – Dona Laura, 78 Lancheria do Parque – Osvaldo Aranha, 1086 Matriz Skate Shop – Shopping Total Nike Store – Barra Shopping Sul Nike Store – Shopping Iguatemi Oakley – Barra Shopping Sul Ocidente – Osvaldo Aranha, 960 Ossip – República, 677 Perestroika – Furriel L. A. V., 250/1302 Pó de Estrela – Alberto Torres, 228 PUC - Administração / Famecos Puma – Barra Shopping Sul Rouparia – Fernandes Vieira, 656 STB – Anita Garibaldi, 1515 STB – Quitino Bocaiúva, 267 Thippos – Miguel Tostes, 125 Tow In – 24 de Outubro, 484 Tow In – Barra Shopping Sul Ufrgs – Arquitetura / Reitoria / Fabico Uniritter – Orfanatrófio, 555 Vulgo – Padre Chagas, 318 RIO DE JANEIRO 021 Multimarcas – Av. das Américas, 500 – Bloco 20 – Lj. 120 Addict – Shopping Leblon Addict – R. Aristides Espínola, 64 Baratos do Ribeiro – R. Barata do Ribeiro, 354 – Lj. D Billabong – Barra Shopping Billabong – Shopping Rio Design Barra Boards Co – Galeria River Circo Voador – Rua dos Arcos Home Grown – R. Maria Quitéria, 68 Hospedaria – R. Visconde de Pirajá, 303, Lj. B Junkz – R. Francisco de Sá, 95 Junkz – R. Dagmar da Fonseca, 33 Junkz – R. Uruguiana, quadra D, Box 358 La Cucaracha – R. Teixeira de Mello, 31, Lj. H Liv. Travessa – R. Visconde Pirajá, 572 Plano B – R. Francisco Muratori, 2A Redley – R. Maria Quitéria, 99 Redley – Shopping Leblon Redley – Shopping da Gávea Street Force – Galeria River Ultraeco – Galeria River Viva Retro – R. Francisco Sá, 95 – Lj. H Wall Colors – R. Lopes de Souza, nº8 SÃO PAULO AMP – R. Augusta, 2729 B.Luxo – R. Augusta, 2633 Lj. 18 Billabong – Oscar Freire, 909

Billabong – Morumbi Shopping DCK – R. Augusta, 2716 Eastpak – R. Augusta, 2685 El Cabriton y Amigos - Rua Augusta, 2008 Endossa – R. Augusta, 1360 Forever Skate – Galeria do Rock Gal. Choque Cultural – R. João Mora, 997 Galeria Polinesia – R. Pedro Taques, 110 Grapixo – Galeria do Rock Hotel Tee’s – R. Augusta, 2203 – Lj. 10 Hotel Tee’s – R. Augusta 2633 – Lj. 20 HQ Mix - Praça Franklin Roosevelt, 142 Johnny B Good – R. 24 de Maio, 116 – Ljs. 14 e 19 King 55 – Harmonia, 452 Matilha Cultural – R. Rego Freitas, 542 Maze Skateshop – R. Augusta, 2500 Mission Store – Galeria do Rock Nike Sportwear – Praça dos Omaguás, 100 Plastik – R. Dr. Melo Alves, 459 Poderosa Ísis – R. Augusta, 2202 Star Point Moema – Av. Iraí, 224 Ultra Skate – Av. Moací, 537 Visionaire – Galeria Ouro Fino Volt – R. Haddock Lobo, 40 Wave Boys – Galeria Ouro Fino Z Carniceria – R. Augusta, 934 OUTRAS Billabong – Armação de Búzios / RJ Hangar – Santa Maria / RS Hip – Caxias do Sul / RS Ideal Shop – São Bernardo do Campo / SP Nollie – Contagem / MG Roques – Niterói / RJ Star Point Pitangueiras – Guarujá / SP Stb – Caxias do Sul / RS Swell Skatepark – Viamão / RS


POR PIERO BARCELLOS ILUSTRAÇÕES RAFAEL CHAVES

32

A VOCÊ, QUE ESTÁ LENDO ESTAS MAL DIGITADAS LINHAS, DAMOS OS PARABÉNS. AFINAL, VOCÊ FAZ PARTE DE UM SELETO GRUPO DE SOBREVIVENTES DO ANO DE 2004. FORAM 366 DIAS RECHEADOS DE ACONTECIMENTOS INACREDITÁVEIS QUE MUDARAM A HISTÓRIA DA HUMANIDADE. EM MEIO A TANTAS DÁDIVAS DO DESTINO, FOI NESSE PERÍODO QUE A PRIMEIRA VOID FOI PARIDA NA GRÁFICA – MESMO QUE HOJE EXISTAM PES-

SOAS QUE SE NEGAM A ASSUMIR A PATERNIDADE DESTA CRIANÇA, QUE ESTÁ COM CINCO ANOS, MAS AINDA NÃO APRENDEU A LIMPAR A BUNDA SOZINHA. JÁ QUE A SUA MENTE DETURPADA PELO USO DE ENTORPECENTES NÃO CONSEGUE SE LEMBRAR DO QUE ACONTECEU NO DUOMILÉSIMO QUARTO ANO DO SENHOR, NÓS VAMOS FAZER UMA BREVE RETROSPECTIVA. E ACREDITE, É TUDO VERDADE. OU NÃO.


ENTRETeNIMENTO

O DESQUITE DAS BONECAS O ano de 2004 foi marcado pela separação do casal considerado perfeito por milhões de menininhas mundo afora: Barbie e Ken. A imagem da dupla se desgastou nos 43 anos de relacionamento. Agora Barbie flerta com um surfista australiano chamado Blaine. E Ken virou um símbolo do movimento gay no Colorado, cidade onde a boneca surgiu. AQUELA MÚSICA QUE EU TE FIZ... Finalmente o Festival da Canção Eurovision concluiu a semifinal do torneio que escolhe a mais bela música da Europa. O Festival começou em 1956, na Sardenha, mas foi interrompido no mesmo ano por conta de um acidente: o italiano Totto Di Baggio, um dos participantes, engasgou-se com a própria saliva ao cantar “Le canzoni che ho realizzato per voi” (“Aquela música que eu te fiz”). Baggio acabou entrando em coma profundo, despertando apenas 48 anos depois. A final do festival acontecerá quando o alemão Francis Schonauzer, hoje com 83 anos e cinco derrames na ficha médica, conseguir articular uma palavra novamente. LOBO EM PELE DE PRESIDENTE O Grammy, premiação que condecora os melhores da indústria fonográfica, foi entregue para um threesome de respeito: O expresidente dos EUA Bill Clinton, o ex-presidente da extinta URSS Mikhail Gorbachev e a atriz Sophia Loren foram premiados pela narração de um CD que conta a história infantil Pedro e o Lobo. Loren disse que Clinton ficou perfeito no papel de Lobo, encarnando o personagem até mesmo após as sessões de gravação.

REBELDIA PRA INGLÊS VER Também em 2004, a emissora de TV mexicana Televisa inovou ao criar uma série em que atores de quase 30 anos interpretavam emos colegiais, e atrizes gostosas faziam papel de adolescentes putas. Rebeldes deu tão certo que o elenco principal montou uma banda, o RBD, e desandou a se apresentar pelo mundo em megaturnês. Um frenesi de infantes espinhentas e umedecidas lotava estádios para cantar com o grupo músicas em uma língua que não conheciam bem. O grupo se separou no fim do ano, e cada integrante seguiu seu caminho montando outras bandas, como La Concha de Tu Madre e Los Emos de Guadalajara – sucesso na Europa com o hit “Mi Culo También Llora”.

POLÍTICA O ANO INTERNACIONAL DO ARROZ A Organização das Nações Unidas sancionou 2004 como o Ano Internacional do Arroz. O fato repercutiu negativamente entre os produtores de feijão, que se sentiram discriminados, à margem da produção alimentícia mundial. O presidente Luís Inácio Lula da Silva passou a concentrar seus esforços no início do ano para nomear um representante da agricultura feijoeira ao conselho de agronomia da ONU. A vaga foi perdida para Tatzuma Otaku, representante da indústria de melancias quadradas no Japão.

REVOLTA DA POMAROLA Neste mesmo período, foi institucionalizado o Partido Verde Europeu, agregando cerca de 42 partidos menores em um único nome. Os verdes também são conhecidos como “terroristas da natureza”, pelo seu radicalismo exacerbado. No mês de julho ocorreu no norte da Espanha aquele que foi considerado o maior atentado provocado pelo partido: três containers abarrotados de tomates exportados para o país foram derrubados em alto-mar pelo grupo. Durante 15 dias os espanhóis sofreram com a escassez do legume, levando as donas de casa a provocar uma verdadeira guerra nos supermercados. O ato, conhecido como Revolta da Pomarola, só acabou com a morte de Estevita González, 43 anos, que teve o baixo-ventre perfurado por uma mandioca. Os espanhóis viram que estavam brigando por um motivo idiota, e a busca desesperada pelos tomates cessou por completo. MORRE O GRANDE PAI DE KERALA Depois de anos no poder, o governador da Kerala, Sikander Bakht, conhecido como Grande Pai por ter reconhecido a paternidade de 36 filhos, faleceu enquanto tentava “fabricar” o 37º. Seu mausoléu, uma construção em formato fálico, atrai peregrinos em busca de virilidade todos os anos. ARISTIDE ACUADO Em fevereiro do supracitado ano, o presidente haitiano JeanBertrand Aristide foi deposto do cargo. Em meio aos conflitos históricos de guerrilha urbana que o país sofre, o mandatário geral da nação foi visto em cima do trio elétrico do Chiclete com Banana, ao lado de uma mulata de curvas voluptuosas. Foi o 33


estopim para que o povo saísse às ruas pedindo a renúncia de Aristide, e também reivindicando o direito de cada haitiano ter uma mulata gostosa, como ele. Acuado, o presidente entregou o cargo e se refugiou na África do Sul, onde gerencia uma empreiteira responsável pela construção de estádios para a Copa de 2010.

a fim de vendê-los para os “inimigos”. Pela internet ele monitorava gostos e comportamentos de qualquer um que acessasse o serviço. O plano transcorria bem, até o dia em que um gringo decidiu convidar um brasileiro para participar. Aí deu no que deu: invasão de perfis, vírus, joguinhos idiotas, spam e todas as pragas virtuais atribuídas à Inclusão Digital. Hoje a rede social do Seu Orkut é composta pela população terceiro-mundista que posta fotos da laje e participa de comunidades como “Odeio segundas-feiras”.

RACHA DA CHECHÊNIA As eleições na Chechênia movimentaram o cenário político da Rússia. Os separatistas queriam uma Chechênia independente, que não dá satisfações a ninguém. Já os conservadores lutaram para que a Chechênia continuasse patrimônio do país de Vladmir Putin, e exigiam o fim das piadas ruins de duplo sentido com o nome do território. No fim, o pleito democrático foi adiado por conta de um atentado contra o candidato separatista, que teve uma garrafa de vodka estraçalhada na cabeça.

AERINITA DESVENDADA Uma equipe de cientistas do Instituto de Ciências Materiais de Barcelona, dirigido por Jordi Rius, descobriu a estrutura atômica da aerinita, mineral usado para criar um pigmento azul. Após a revelação do resultado de anos de estudo, toda a equipe foi demitida por ter gastado tempo e dinheiro do Instituto para descobrir uma merda dessas.

CIÊNCIA E TECNOLOGIA

NO ORKUT DOS OUTROS É REFRESCO O engenheiro turco Orkut Buyukkokten, revoltado com a política antiterrorismo americana que discriminava seus compatriotas, criou um sistema de coleta de dados pessoais, 34

IMUNIDADE TECNOLÓGICA BRASILEIRA Um grupo de hackers desenvolveu um vírus que atingisse os aparelhos celulares. O Cabir, como ficou conhecido, utilizava a tecnologia Bluetooth para se propagar entre os aparelhos. Os criadores tinham como propósito mostrar para as empresas de segurança que nem os celulares estavam livres da contaminação. Como estamos num país de fudidos, e o celular com Bluetooth era caro na época, não houve relatos de problemas por aqui.

CHABUS ESPACIAIS Na Índia, uma explosão causou seis mortes na Central de Informação Espacial da cidade de Sriharikota. O objetivo era o envio da primeira vaca ao espaço, a fim de estudar a pasteurização do leite em gravidade zero. Na mesma onda, foi lançado o primeiro foguete brasileiro ao espaço, com o objetivo de ser mais um país capaz de lançar um foguete ao espaço.

SÓ O PÓ Depois de viciar mais de 500 pessoas, e torrarem milhões de dólares, cientistas americanos descobriram uma vacina contra a dependência à cocaína. Porém, a fórmula foi roubada pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) antes da produção em larga escala. Suspeita-se que os narcotraficantes estão “vacinando” seus “comerciantes”, para que não consumam o produto antes de chegar aos pontos de venda.


ESPORTE

PERDAS E CATÁSTROFES

OS GUEPARDOS TUNÍSIOS A seleção da Tunísia conquistou, pela primeira vez, a Copa da África, derrotando o Marrocos por 2x1. Após a conquista, o goleador do campeonato, Dos Santos, disse que o segredo da vitória foi o treino imposto pelo treinador iugoslavo Ishlah Mambetived, que colocava guepardos para correr atrás do time como forma de fazer com que eles ganhassem fôlego para os jogos. Mambetived foi acusado de tortura e cárcere privado, e encontra-se preso até o momento.

POR DUAS CABEÇAS Uma criança de duas cabeças morreu na República Dominicana. Não é nenhuma novidade no país, onde costumam nascer ciclopes, homens com chifres e mulheres com três seios. Mas, neste caso, a menina foi considerada uma entidade divina pelos nativos, cujo sacrifício poderia trazer prosperidade para a nação. No fim, a menina morreu e a nação continua na mesma merda de sempre.

PORTO CAMPEÃO Numa disputa acirradíssima, o Futebol Clube do Porto derrotou o Once Caldas na cidade de Yokohama, pela Taça Intercontinental, torneio que acontece em uma dimensão paralela. O clube português levou a vitória na cobrança de pênaltis. Sete gols para cada time, a última cobrança foi feita pelo zagueiro luso Generoso Gonçalvez, que chutou junto com a bola um naco de terra, confundindo o goleiro e convertendo o escore a favor do Porto.

MENOS UM FILÓSOFO NO MUNDO Faleceu na França o filósofo Jacques Derrida. Autor de livros como Na curva do rio só se acumula entulho e Meditação – perca muito tempo com isso, Derrida revolucionou ao desconstruir grandes filósofos dizendo: “Um operário pode passar a vida inteira sem se preocupar com questões existenciais. Refletir sobre dilemas humanos é coisa de vagabundo”.

A ÁGUA RUSSA Morreram 28 pessoas em um acidente no principal parque aquático de Moscou. Os finados faziam parte do Grupo de Degustação de Destilados. Após uma reunião, acreditaram que podiam usar o parque, mesmo com a temperatura marcando os 40° negativos. MORTE GORDA No ano de 2003, faleceu o gênio das dietas milagrosas seguidas por milhões de pessoas mundo afora, dr. Robert Atkins. Porém, só no ano seguinte descobriram que o renomado nutricionista morreu gordo e roliço como um leitão. Familiares do médico disseram que ele estava arrependido por ter contribuído para constituir os padrões de beleza estéticos impostos pela ditadura da moda. Deprimido, Atkins descontava sua tristeza na comida, o que provocou um aumento considerável no seu peso. O doutor foi encontrado em casa, pesando 160kg, e com uma porção de batatas-fritas entalada na goela.

35


ANO 05 / 2009 DISTRIBUIÇÃO GRATUITA

#0 055 55 LEITURA NÃO RECOMENDADA PARA MENORES DE 18 ANOS.

I A V A R AGO


EXPEDIENTE

PONTOS DE DISTRIBUIÇÃO

Direção: Gabriel Rezende Marco Arioli Pedro Hemb Rodrigo Santanna Vicente Perrone

BELO HORIZONTE

Editores: Denise Rosa e Pedro Damasio Repórteres: Felipe de Souza, Piero Barcellos e Gabriela M.O. Revisora: Maria Edith Pacheco Projeto gráfico e Diagramação: Lucas Corrêa e Rafael Chaves @ Lava www.lavastudio.com.br Diagramação: Guilherme Rex Fotografia: Maurício Capellari Waldomiro Aita Administrativo/Financeiro: Vanessa Lindenau Comercial: João Francisco Hein

Billabong – Av. Presidente Carlos Luz, 3001 Black Boots – R. Fernandes Tourinho, 182 Blunt – Montes Claros, 173 Brechó Brilhantina – R. Tomé de Souza, 821, Lj.3 Café com Letras – Ant. de Albuquerque, 781 De Rua Skateshop – R. Paraíba, 1061 Desvio – R. Tomé de Souza, 815 Fumec FCH – Rua Cobre, 200 Hard Core – Av. Contorno, 6.000, sl. 201 La Tosqueria – R. Claudio Manoel, 329 Mini Galeria – R. Carolina Figueiredo, 30 Obar – Rua Cláudio Manoel, 296 Pieta Tatoo – Rua Paraíba, 1441, lj. 1 Quina – R. da Bahia, 1148, sobrelj. 06 Social – R. Ceará, 1580 Una – Rua da Bahia, 1764 CURITIBA Airlab – Al. Prudente de Moraes, 1668 Arad – Rua Vicente Machado, 664 Brique - Rua Duque de Caxias, 380 Café Lucca – Av. Presidente Taunay, 40 Café Novo Louvre – R. Trajano Reis, 36 Desmobilia – Av. Vicente Machado, 878 Fran’s Café – R. Dr. Carlos de Carvalho, 1262 Galeria Lúdica – R. Inácio Lustosa, 367 Grindhouse – R. Ângelo Sampaio, 2069 Kitinete – Duque de Caxias, 175 Lamb – R. Vicente Machado, 674 Lolitas Salon de Coiffure – R. Trajano Reis, 115 Piola – Al. Dom Pedro II, 105 Quintana – Av. Batel, 1440 Teix Tatoo – Av. Vicente Machado, 666 Tienda Design – R. Fernando Simas, 27 FLORIPA Hi Adventure – R. Sotero José Faria, 610 Players – Floripa Shopping Star Point – Shopping Iguatemi Sul Nativo – Shopping Beira Mar Porto Alegre

Produção: Gabrieli Frizzo Jurídico: Galvão & Petter Advogados office@galvaoepetter.com.br

Amistad – Padre Chagas, 276 Azul Cobalto – Lima e Silva, 744 Billabong – Barra Shopping Sul Callohã – Shopping Lindóia Convexo – Shopping Iguatemi Convexo – Shopping Praia de Belas Diadora – Padre Chagas, 306 ESPM – Bar Prédio 2 / Bar Prédio 3

Fita Tape – Praça Garibaldi, 46 King 55 – Dona Laura, 78 Lancheria do Parque – Osvaldo Aranha, 1086 Matriz Skate Shop – Shopping Total Nike Store – Barra Shopping Sul Nike Store – Shopping Iguatemi Oakley – Barra Shopping Sul Ocidente – Osvaldo Aranha, 960 Ossip – República, 677 Perestroika – Furriel L. A. V., 250/1302 Pó de Estrela – Alberto Torres, 228 PUC - Administração / Famecos Puma – Barra Shopping Sul Rouparia – Fernandes Vieira, 656 STB – Anita Garibaldi, 1515 STB – Quitino Bocaiúva, 267 Thippos – Miguel Tostes, 125 Tow In – 24 de Outubro, 484 Tow In – Barra Shopping Sul Ufrgs – Arquitetura / Reitoria / Fabico Uniritter – Orfanatrófio, 555 Vulgo – Padre Chagas, 318

El Cabriton y Amigos - Rua Augusta, 2008 Endossa – R. Augusta, 1360 Forever Skate – Galeria do Rock Gal. Choque Cultural – R. João Mora, 997 Galeria Polinesia – R. Pedro Taques, 110 Grapixo – Galeria do Rock Hotel Tee’s – R. Augusta, 2203 – Lj. 10 Hotel Tee’s – R. Augusta 2633 – Lj. 20 HQ Mix - Praça Franklin Roosevelt, 142 Johnny B Good – R. 24 de Maio, 116 – Ljs. 14 e 19 King 55 – Harmonia, 452 Matilha Cultural – R. Rego Freitas, 542 Maze Skateshop – R. Augusta, 2500 Mission Store – Galeria do Rock Nike Sportwear – Praça dos Omaguás, 100 Plastik – R. Dr. Melo Alves, 459 Poderosa Ísis – R. Augusta, 2202 Star Point Moema – Av. Iraí, 224 Ultra Skate – Av. Moací, 537 Visionaire – Galeria Ouro Fino Volt – R. Haddock Lobo, 40 Wave Boys – Galeria Ouro Fino Z Carniceria – R. Augusta, 934

RIO DE JANEIRO OUTRAS 021 Multimarcas – Av. das Américas, 500 – Bloco 20 – Lj. 120 Addict – Shopping Leblon Addict – R. Aristides Espínola, 64 Baratos do Ribeiro – R. Barata do Ribeiro, 354 – Lj. D Billabong – Barra Shopping Billabong – Shopping Rio Design Barra Boards Co – Galeria River Circo Voador – Rua dos Arcos Home Grown – R. Maria Quitéria, 68 Hospedaria – R. Visconde de Pirajá, 303, Lj. B Junkz – R. Francisco de Sá, 95 La Cucaracha – R. Teixeira de Mello, 31, Lj. H Plano B – R. Francisco Muratori, 2A Redley – R. Maria Quitéria, 99 Redley – Shopping Leblon Redley – Shopping da Gávea Street Force – Galeria River Ultraeco – Galeria River Viva Retro – R. Francisco Sá, 95 – Lj. H Wall Colors – R. Lopes de Souza, nº8 SÃO PAULO AMP – R. Augusta, 2729 B.Luxo – R. Augusta, 2633 Lj. 18 Billabong – Oscar Freire, 909 Billabong – Morumbi Shopping DCK – R. Augusta, 2716 Eastpak – R. Augusta, 2685

Alucinado – Novo Hamburgo / RS Hangar – Santa Maria / RS Hip – Caxias do Sul / RS Ideal Shop – São Bernardo do Campo / SP Nollie – Contagem / MG Roques – Niterói / RJ Star Point Pitangueiras – Guarujá / SP Stb – Caxias do Sul / RS Swell Skatepark – Viamão / RS


72


POR PIERO BARCELLOS FOTOS MAURÍCIO CAPELLARI

O SHURA MONO É UMA VERTENTE DO SECULAR TEATRO JAPONÊS QUE CONSISTE EM REPRESENTAR AS HISTÓRIAS DOS GRANDES GUERREIROS, COMO UMA FORMA DE PRESERVAR SEUS FEITOS E TRANSFORMÁ-LOS EM LENDAS. SE HOUVESSE NASCIDO NO JAPÃO FEUDAL, A SAGA DE SENSEI ADERINO SERVIRIA DE FUNDO PARA UMA HISTÓRIA ÉPICA.

VERDADE PROFUNDA 73


Aderino Gonçalves da Silva é a típica figura que passaria despercebida por qualquer um. Estatura mediana e semblante de quem trabalha por horas a fio no olho do sol. Mas bastam poucos minutos na presença deste cidadão de 46 anos para que ele prove o contrário. Sem aquecimento prévio, ele abre um espacato no chão de dar inveja a qualquer bailarina russa, e aflição a qualquer um que tenha um par de ovos entre as virilhas. Não é à toa que Aderino carrega o título de sensei, graduado no terceiro dan da faixa preta do karatê kyokushin – a saber, uma das vertentes de maior contato (leia-se, porrada para derrubar macho) das artes marciais, e é considerado um dos maiores lutadores brasileiros da modalidade. Para chegar até o nosso “senhor Miyagi” versão pt-BR, nossa equipe teve que cair na estrada num fim de tarde rumo a um recanto ermo de Viamão, município satélite de Porto Alegre. Com ênfase no “ermo”, por favor. Em uma parte do trajeto, passamos por um pico conhecido na região por ser local de “desova” de carros roubados. A estrada de terra era quase um guard-rail de Fórmula 1, com muitos pneus velhos nas laterais, que com certeza não foram colocados ali para a proteção de motoristas sem sorte. Misturado a eles havia um “embrulho” de mais ou menos um metro e meio, com um par de pés à mostra – e há de convir que aquele lugar também não é um ponto em que lojistas jogariam manequins de vitrine fora. Após atravessar o inferno em forma de rua decadente, chegamos até a Academia Impacto, propriedade do sensei, onde treina cerca de 120 alunos 74

na arte do kyokushin, de crianças a idosos, além de abrir espaço para o tradicional puxamento de ferro. O próprio nos recebia com o rosto grudado na janela, como uma criança ansiosa aguardando por uma visita. Mas não era a nós que ele esperava com afinco. Poucas horas antes de chegarmos, a cidade foi acometida por um temporal do cacete, e um raio atingiu em cheio o telhado da academia. Ele nos mostrou os aparelhos que queimaram com a descarga elétrica, dentre eles um “purê” de telefone. “Agora a gente está sem luz, né? Vai ficar difícil pra fotografar a minha cara feia na revista”, brinca o sensei. Enquanto discorria sobre a chuva, era perceptível uma peculiaridade na sua forma de falar: o sotaque nordestino evidente, mas com a finalização firme e rápida das palavras. Grosso modo, seria uma mistura de sotaque baiano com japonês, incluindo aí o tradicional “né” no fim das frases. Antes de iniciar a conversa, um dos alunos que chegava ao recinto nos interrompeu dizendo que o carro da companhia de energia elétrica estava na rua. Num rompante de alegria, ele saiu correndo porta afora. “Graças a Deus a luz chegou! A luz tá voltando!” Prometeram a Aderino que a energia seria restabelecida em poucos minutos, o que não ocorreu. Preocupado com a integridade dos seus bens, o fotógrafo perguntou se, apesar do horário e da falta de iluminação, não haveria problemas de segurança. Como resposta, Aderino saca de trás do balcão de atendimento uma espada japonesa, e diz que “com uma dessas não tem problema”. Se ele diz, quem sou eu pra duvidar? Sem uma luz de vela a nos iluminar,

nosso fotógrafo apelou para a improvisação, e este que vos relata aproveitou o único filete de luz que vinha de um poste na rua para iluminar o bloco de notas e dar início a este bate-papo. Foi quando os trejeitos infantes do sensei deram lugar a uma postura de verdadeiro mestre jedi, falando pausadamente como um detentor do conhecimento secular sobre a vida, o universo e tudo mais. Não almejamos muito, só queremos saber como um grande lutador das artes marciais foi parar num cu de mundo como aquele. Void_ Pelo sotaque, dá para perceber que o senhor não é daqui. Aderino_ Eu nasci na Bahia, né? Depois a família, quando eu tinha aproximadamente 11 anos, se mudou para São Paulo. Viemos eu, meu pai, minha mãe e seis irmãos. Veio todo mundo em busca de melhoria, melhorar conhecimento geral, né? E aí foi quando aconteceram as oportunidades na área esportiva. Void_ Quando ocorreu a sua aproximação com o karatê? Aderino_ Minha aproximação com o esporte foi quando eu tinha 11 ou 12 anos, já na mesma época que cheguei em São Paulo. Sempre gostei do esporte, da arte marcial. E sentia, assim, uma maravilha quando assistia pela televisão aqueles trapezistas de circo, né? Atletismo também, que passava muito na época. Aquilo me empolgava muito. Foi quando eu procurei uma academia. Como eu já tinha uma queda por luta, e meu irmão já praticava a modalidade da capoeira, ele acabou me levando para praticar junto. Eu olhei, não simpatizei muito com o ambiente na época, e acabei não

optando pela capoeira. Casualmente, ao lado da academia havia outra, mas de karatê. Entrei lá como qualquer pessoa, iniciante, no qual eu me surpreendi com o ambiente da arte marcial. E a imagem que eu fiquei era muito boa, inclusive pela organização, disciplina, todo mundo ali uniformizado. Void_ E como foi no início? Aderino_ Na época eu comecei na filial de uma academia, né? E há 20 anos atrás o karatê era muito mais duro. No primeiro dia de aula fui recebido após o treinamento pelo professor, que nem graduado era ainda. Ele me chamou pra luta. Primeira coisa que falei foi que não sabia lutar e que não ia lutar, no qual ouvi: “aqui não se pode falar não. Quando o professor tira pra lutar, tem que encarar a onça e tem que lutar”. Então tá bom, vamos lutar. Quando levantei a perna esquerda para atacar, recebi um golpe com a perna direita contra a cabeça. Com esse chute eu já fiquei tonto. Então perguntei para mim mesmo “o que é que eu vim fazer aqui?”. E isso me gerou uma raiva, mas ao mesmo tempo uma resposta interna de que eu iria conseguir também. Se ele fez aquilo comigo, eu ia treinar duro, porque eu ia descontar aquilo. Eu não podia virar a cabeça e desistir, apesar de ser recebido já com luta, o que, em termos de preparação psicológica, para quem está iniciando, não é o mais adequado. Void_ Porra, então o cara já começou te sacaneando! Aderino_ Entendo que, na arte marcial, uma parte da filosofia é bem rígida, não só na base secular, mas também na preparação física da pessoa, quase que um regime militar, né? Então


“eu me desgastei tanto que não conseguia nem levantar o troféu. Ele deveria ter no máximo uns 20 centímetros de altura.”


“Você vai usar todos os meios possíveis para não agredir alguém. Mas, quando você realmente percebe que os limites passaram, tem que mostrar para o outro o limite dele.”

76


a mensagem que eu peguei foi a de treinar para chegar até onde ele chegou. Este episódio, ao invés de me deixar para baixo, me motivou mais. Me animou. Disse a mim mesmo: “eu vou reagir, não vou me abater”. Então eu comecei a criar expectativa, e após dois meses de academia, tive a oportunidade de ser convidado para participar do campeonato paulista de karatê. Eu não queria, porque achava muito difícil, e estava começando há pouco. Foi quando o professor me deu toda a preparação psicológica para competir. Fiquei preocupado quanto eu tinha que pagar pela inscrição, porque não tinha recursos, mas felizmente só precisei preencher uma ficha, né? Eram 64 iniciantes na competição. Contei com a sorte, e consegui ser o primeiro colocado. Eu nunca apanhei tanto em minha vida quanto neste torneio! Eu não sabia mais o que estava se passando. (risos) Muito disso foi em função da falta de experiência, como também pelo número de concorrentes. Era uma época em que a organização do esporte estava ainda em desenvolvimento. Void_ Quantos torneios você chegou a ganhar? Aderino_ Aqui no Brasil eu ganhei o campeonato brasileiro de 1989, fui vicecampeão no campeonato secular BrasilJapão em Manaus, vice-colocado no sul-americano de 1989... Void_ E teve um torneio recente do qual o sensei participou, não? Aderino_ Ah, sim! Na categoria que o mundo moderno usa hoje, na categoria Master. Foi no campeonato paulista do ano passado.

Void_ Foi neste campeonato que rolou uma treta por conta da categoria em que você ia lutar? Aderino_ Ah, isso eu nem esperava! (risos) Fui convidado através do presidente da Confederação Brasileira de Kyokushin, mas eu não queria participar porque eu não estava treinando. Mas ele me motivou, dizendo que o campeonato paulista é para a promoção do esporte, e que se eu participasse seria bom, ia trazer uma energia boa para o pessoal. Então eu aceitei, mas para uma participação sem compromisso, né? Então eu preenchi a ficha de inscrição, na categoria Master, e enviei. O que aconteceu foi que alguns atletas descobriram que eu ia participar, e começaram a desistir da competição naquela categoria. Procuraram a comissão organizadora pra dizer que estavam saíndo porque o Aderino iria participar... Chegaram a fazer fila. (risos) Aí o chefe da organização sul-americana falou com o presidente da federação do karatê daqui, para me comunicar este fato, e sugerir que eu competisse em uma categoria mais jovem. Como a ficha já estava pronta, aceitei, já que estava mais pela divulgação do esporte do que como competidor. Aí eu acho que dei sorte, pois terminei em quarto colocado. Isso mais pela experiência, e nem tanto pelo condicionamento físico. Void_ Se sem treinar “pra valer” o sensei já fez esse estrago, o que aconteceria se fosse uma participação para competição mesmo? Aderino_ Hoje na área de competição, de torneio, eu não participo mais. A última vez foi em 1997. E de lá pra cá, a última vez que eu lutei foi essa em 2008, para promover uma categoria na qual acabei não participando. (risos)

Void_ O senhor chegou a conviver com os mestres do kyokushin no Brasil? Aderino: Até a faixa marrom, eu treinei em uma academia que era filial da principal academia da federação do karatê. Em 1985 eu fui chamado pela matriz sul-americana, para poder ajudar a dar aula, transmitir o conhecimento. Lá eu convivi com grandes mestres, até 1989, quando fui designado pela matriz para vir até o Rio Grande do Sul e ajudar na divulgação do esporte.

muito amador. A organização ou o clube não tem recurso de enviar o seu esportista com antecedência para os locais de torneio. Então o atleta chega num torneio desse aí com o fuso horário alterado, praticamente um dia antes da competição. Um dia para poder descansar. Então o corpo sente muito o cansaço físico, né? E isso aí reflete na hora da luta, no desempenho da luta. Cansaço, má alimentação... Então você rende menos. E favorece o atleta que mora mais próximo.

Void_ O sensei chegou a participar de dois campeonatos mundiais no Japão. Como foi a sua participação? Parece que andou rolando alguns problemas lá, não? Aderino_ Para participar de torneio internacional, o atleta precisa fazer currículo, para depois poder participar da seletiva. A primeira delas aconteceu aqui no Brasil, em 1987, em São Paulo. Cheguei ao ponto de ficar em quarto colocado na disputa brasileira. E eram quatro vagas. E foi bom pela questão de experiência, né? Fui em função de fazer parte da equipe, não era tido como favorito. Aí depois veio outra seletiva, que rolou no sul-americano, na Bolívia. Aí sim foi difícil, por causa da altitude. Eu fui o único da equipe que saiu de lá com classificação. No primeiro mundial fiquei em 26º lugar. No segundo, em 1991, eu já tinha mais experiência, né? Aí foi mais tranquilo, e fiquei em 16º. Fiz o nocaute mais rápido de todos os campeonatos, com 15 segundos. Assim, lutar mesmo, no oriente ou no exterior, é muito difícil para o atleta, independente qual seja a arte esportiva. O fuso horário contribui muito para o desenvolvimento. E é um esporte

Void_ Qual foi a luta mais difícil para o sensei nestes anos todos de competição? Aderino_ Olha... Eu vou ser bem sincero... Toda luta é um desafio. Eu já lutei com atletas que eram favoritos e tive um bom desempenho. Mas em função da não-experiência mesmo, as lutas mais difíceis para mim foram no meu início, na primeira competição. Nesta eu me desgastei tanto que não conseguia nem levantar o troféu. Ele deveria ter no máximo uns 20 centímetros de altura. (risos) Esta foi a luta mais difícil, que eu não conseguia mais raciocinar onde é que eu estava, o que estava acontecendo. E dali pra frente, as outras todas foram acontecendo. Void_ E qual foi a mais fácil? Aquela em que o sensei conseguiu “desmontar” o cara? Aderino_ (risos) Ah, rapaz... Na época como atleta foram várias lutas boas para mim, é claro. E ruins para o adversário. Então sempre busquei a lógica do karatê que diz que, quanto menos tempo a gente ficar contra o adversário, melhor. Um bom lutador das artes marciais busca o quê? Quanto menos

75 77


tempo ele ficar lutando, melhor. Então acontece muito nocaute em menos de um minuto. É o tempo de subir lá (no tatame), começar a luta e terminar, para não perder tempo. Não lembro quantos nocautes foram aplicados, mas o que ficou para a história foi esse que aconteceu no mundial, que durou no máximo 15 segundos. Void_ Como foi essa luta? Aderino: Esse aí foi no mundial de 1991, no Japão, onde eu fiquei como 16º colocado na categoria geral. Foram dois golpes aplicados em toda a luta. Ele deu o primeiro, que ele não venceu sei lá por que, se foi por medo dele ou experiência minha, porque eu fui nocauteado em pé. Só o subconsciente funcionava. Passou um filme na minha cabeça na hora, e eu não podia perder aquela oportunidade, tive que respirar e me manter de pé. Então eu pensei “bom, o cara vai chutar de novo. Então quando ele chutar eu entro”. Questão de segundos, milésimos. Eu saí com o pé um pouquinho antes do que ele. E consegui encaixar o chute nas costelas. E foi um chute bem dado! Bem dado que quebrou as costelas dele! Então o subconsciente manteve esse equilíbrio, e eu consegui obter a vitória. Void_ Depois de participar de dois mundiais, treinar na matriz da academia sul-americana do kyokushin em São Paulo, como o sensei veio parar neste recanto exótico do mundo conhecido como Viamão? Aderino: Hummm... Esta é uma outra história boa. Eu vim para Porto Alegre em 1998, a pedido da fundação do karatê, porque faltava diretor técnico aqui. Pediram para vir ajudar os alunos 78

a se formarem faixas pretas, e disseram que, se eu gostasse, poderia ficar. E eu gostei daqui, tem muita gente boa. E com isso criei raízes aqui, não só por causa do kyokushin. Constituí família também. Em 1999 foi fundada a academia na cidade, né? E deste ano até 2005 eu estava trabalhando em Porto Alegre com a academia. Tive problemas particulares, administrativos, né? Então houve a necessidade de mudança de endereço. Neste meio tempo estava também desenvolvendo alguns projetos que ainda estão no papel... Void_ E que projetos são estes? Aderino_ São projetos na área esportiva, criar uma ONG, e trabalhar mais na área social. Estes projetos tiveram início em Porto Alegre em 2003, através de uma cooperativa, e entendemos que, para desenvolver este projeto em uma área social, um município seria mais adequado, em função da dificuldade e do desenvolvimento da região. Então eu me mudei para Viamão, para fazer um trabalho com crianças e dar a oportunidade para pessoas que moram mais longe para que possam cuidar do seu corpo, praticar um esporte. E acredito muito nisso. Futuramente esperamos que este projeto saia do papel para a realidade.

pessoa começou a procurar confusão com a gente. Estávamos num grupo de cinco pessoas, três atletas. Tivemos que sair do local, descer, fazer o caminho a pé. E aí a pessoa desceu junto com a gente. Eu busquei saídas para fugir do confronto. Então na minha mente eu pensei: “Bom, correr eu não vou porque eu não fiz nada. Não matei nem roubei, não fiz nada. Então o que acontece? Ele vai apanhar”. A gente tem um código, que é o da não-agressão. Você vai usar todos os meios possíveis para não agredir alguém. Mas, quando você realmente percebe que os limites passaram, tem que mostrar para o outro o limite dele. Foi o que aconteceu. Tinha que mostrar para ele que estava entrando numa área totalmente desfavorável. No primeiro gesto de agressão na tentativa de me empurrar, ele recebeu um golpe simples, não foi nem um golpe que causasse corte, lesão ou sangramento. Foi uma coisa lúcida. Foi um golpe no abdômen, outro na coxa e acabou. O primeiro te deixa sem fôlego, e o segundo elimina a base de sustentação totalmente. Foram dois golpes, PÁ, PÁ, e desceu. O final de tudo isso, o que eu ganhei com isso, foi particularmente nada. Não vale a pena. Não tem graça. Este era o limite dele. Então tomou dois golpes e foi a nocaute.

Void_ Alguma vez o sensei chegou a reagir na rua diante de uma ameaça, ou de alguém que queria brigar? Aderino_ Infelizmente isso aconteceu quando eu estava ainda em São Paulo. Na época faltavam 15 dias para a competição regional, e a gente fez de tudo para evitar o confronto. Eu estava num transporte coletivo quando uma

Void_ Então no caso de uma tentativa de assalto o sensei reagiria, ou não? Aderino_ Infelizmente isso já aconteceu comigo! E foi um espetáculo! A sensação foi um espetáculo! Sabe aquele tipo de coisa que só acontece com os vizinhos e nunca acontece contigo? Estava voltando para casa, no coletivo. Foi quando subiram três suspeitos. Um deles disse

“É um assalto, encosta o ônibus, motora”. Enquanto dois estavam recolhendo as coisas no ônibus, o outro estava com a arma na cabeça do motorista, e ficava cada vez mais nervoso. Dizia “eu vou te queimar, cara!”. Então eu disse comigo mesmo: “Merda, é um assalto mesmo”. Discretamente, a primeira coisa que fiz foi pegar minha carteira e colocar embaixo do banco. Nem pensei em reagir. Nessas horas, tenho que pensar que, nesta situação, eu não tenho o direito de fazer uma coisa tão estúpida, e arriscar a vida das outras pessoas, fora que ele estava armado, e ainda havia mais dois no coletivo. Então, tranquilamente, quando o assaltante chegou, eu dei para ele um cheque de um pagamento da academia que tinha voltado, e mais um real em cima e disse que era o que eu tinha. Nem olhei na cara dele, até porque nem se pode olhar hoje em dia, né? O cara está com uma arma na mão e eu vou ficar encarando? Aí eu vou apanhar de graça, né? No fim achei engraçado. Teve uns que levaram tênis, bolsa... No fim foi todo mundo para a delegacia prestar depoimento, gente descalça, gente só de cueca... Achei engraçado. Void_ A arte marcial foi muito popularizada no cinema, por astros como Chuck Norris, Steven Seagal, Van Damme, dentre outros. O que o senhor acha dessas figuras? Aderino_ Nos anos 1980 que foi aquela febre dos lutadores, né? Dos artistas que representavam a arte marcial. Então isso aí despertou em uma boa fatia de pessoas o gosto pela luta. O principal nome nesta época era o do Bruce Lee. E depois vieram os outros lutadores, os outros filmes, que ajudaram a popularizar as artes...


“O cinema é uma fantasia, é uma arte. A realidade de um lutador é muito diferente.” 79


A ARTE DO KYOKUSHIN O japonês Masutatsu Oyama foi o criador dos fundamentos do karatê kyokushin no início dos anos 50. Após passar pelo treinamento de diversas artes marciais, Oyama entrou num exílio de 18 meses, em que pôde aperfeiçoar suas técnicas treinando sob as águas do monte Kiyosumi, movendo pedras e árvores com seus golpes. Para mostrar o quão superior era a sua doutrina, enfrentava touros apenas usando as mãos – chegou a matar alguns deles com um golpe, enquanto outros tiveram os chifres arrancados. Não satisfeito, fez a prova dos cem combates, que consiste em alcançar o mesmo número de vitórias consecutivas em um dia. Oyama fez isso por três dias seguidos. Em 1954, fundou o Oyama-Dojo, primeiro centro de treinamento da modalidade. O karatê kyokushin (cujo nome significa “aprofundamento da verdade”) tem como objetivo a neutralização do oponente com o mínimo de tempo e golpes. É considerado o karatê mais organizado e forte do mundo. Estima-se que existam mais de três milhões de praticantes.

80

Void_ Na verdade eu lhe perguntei isso porque soube que, quando um dos seus alunos faz um chute errado, o sensei diz que “está chutando que nem o Chuck Norris”... Aderino_ (risos) O cinema é uma fantasia, é uma arte. A realidade de um lutador é muito diferente. O mais difícil não é fazer um filme. O mais difícil é você manter uma rotina para se preparar para chegar a fazer um filme. Quem tem recurso faz de tudo. A questão está em se identificar com aquilo que se faz. Dar um chute, dar um soco é muito fácil. Dar voadora, tem muito artista que hoje faz isso. Mas no trabalho mesmo, na realidade, no confronto direto, no combate em si é totalmente diferente. Em termos técnicos, artista é artista, praticante é praticante, professor é professor. Void_ O que representa o karatê para o sensei? Aderino_ O karatê representa qualidade de vida. E é também o meu sustento. Eu não me arrependo de nada do que eu fiz. Os benefícios são imensos, principalmente para a harmonia do corpo e da mente. Ele dá o equilíbrio para enfrentar os problemas do dia a dia.

ěũ%1"#!(,#-3.2ũ.ũ"41".ũ Falkenbach, que foi nosso guia até a inóspita bocada viamonense. ěũ22(23ũ.ũ-.!43#ũ,(2ũ1;/(".ũ".ũ torneio internacional de karatê (realizado pelo sensei Aderino) e nosso repórter tomando uma coça em www.avoid.com.br.


ANO 06 / 2010 DISTRIBUIÇÃO GRATUITA

#057 LEITURA NÃO RECOMENDADA PARA MENORES DE 18 ANOS.

O T I E J U S U A M


POR GABRIELA M.O. FOTO: RETRATOS GABRIELA M.O. SHOW LUCAS CUNHA

CARTOLAGEM BOTONISTA POR PIERO BARCELLOS // FOTOS MARCELO MIRRELA (RETRATOS) E MAURÍCIO CAPELLARI


Quem poderia imaginar que o futebol de botão, tal qual seu correspondente de carne e osso, consegue movimentar boas cifras nas transições entre os “jogadores”? No reino do galalite existem barões, oportunistas, e até mesmo pactos que perduram após a morte. O MECENAS DOS BOTÕES Quem poderia imaginar que o futebol de botão, tal qual seu correspondente de carne e osso, consegue movimentar boas cifras nas transições entre os “jogadores”? No reino do galalite existem barões, oportunistas, e até mesmo pactos que perduram após a morte.

No bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro, se localiza a loja Botão e Palheta, recanto especializado em futebol de mesa. Em meio às paredes camufladas pelos pequenos “jogadores” feitos de plástico, trabalha ou, melhor dizendo, vive Hamilton Tavares, que, no auge dos seus 50 anos, pode ser confundido com um balconista comum. A verdade é que Tavares, apesar da simplicidade, ocupa o topo da pirâmide do mercado de futebol de botão, um verdadeiro mecenas dos campos feitos de compensado. Com mais de 30 mil peças catalogadas em seus domínios, o lojista não apenas é o maior colecionador de botões do mundo, como também se tornou o “barão”, movimentando cifras com alguns zeros antes da vírgula. Não é à toa que ele afirma com a certeza de um cartola

que, “no momento em que eu falo com vocês, tem alguém comprando um botão meu em algum lugar do país”.

Tavares trabalhou por muitos anos no sistema de telefonia do RJ, antes da privatização. Era o responsável por fazer a corretagem das linhas disponíveis. Segundo ele, empresários e advogados eram os típicos abonados que sempre atrasavam com o pagamento. “Já as putas sempre pagavam em dia, ou até antecipavam quando podiam”, disse. Nessa época, pelos idos dos anos 80, usava parte do salário para sustentar o hobby de colecionar botões. Foi também nessa época que a amizade com o português e marceneiro Alberto Pereira Ribeiro mudaria sua vida.

O MECENAS DOS BOTÕES No bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro, se localiza a loja Botão e Palheta, recanto especializado em futebol de mesa. Em meio às paredes camufladas pelos pequenos “jogadores” feitos de plástico, trabalha ou, melhor dizendo, vive Hamilton Tavares, que, no auge dos seus 50 anos, pode ser confundido com um balconista comum. A verdade é que Tavares, apesar da simplicidade, ocupa o topo da pirâmide do mercado de futebol de botão, um verdadeiro mecenas dos campos feitos de compensado. Com mais de 30 mil peças catalogadas em seus domínios, o lojista não apenas é o maior colecionador de botões do mundo, como também se tornou o “barão”, movimentando cifras com alguns zeros antes da vírgula. Não é à toa que ele afirma com a certeza de um cartola que, “no momento em que eu falo com vocês, tem alguém comprando um botão meu em algum lugar do país”.

Tavares trabalhou por muitos anos no sistema de telefonia do RJ, antes da privatização. Era o responsável por fazer a corretagem das linhas disponíveis. Segundo ele, empresários e advogados eram os típicos abonados que sempre atrasavam com o pagamento. “Já as putas sempre pagavam em dia, ou até antecipavam quando podiam”, disse. Nessa época, pelos idos dos anos 80, usava parte do salário para sustentar o hobby de colecionar botões. Foi também nessa época que a amizade com o português e marceneiro Alberto Pereira Ribeiro mudaria sua vida.

81


DE HOBBY A PROFISSÃO Agora Hamilton Tavares vende e também produz botões, utilizando como matéria-prima folhas de galalite e acrílico, e fichas de pôquer usadas em cassinos. Além da sua loja, onde também comercializa brinquedos antigos, revende seu acervo de 30 mil botões para mais de 20 estabelecimentos e expõe em feiras. Os botões novos são vendidos a R$9 cada, fazendo com que um “time” de 11 jogadores saia por cerca de R$100 – tecnicamente, com o salário médio de um estagiário, você consegue comprar uns três times bem completos, com reserva e tudo.

DOIS CARROS POR BOTÕES Ribeiro fazia móveis e figas de madeira em uma marcenaria. Após ouvir conselhos de pessoas ligadas ao esporte de mesa, começou a produzir botões durante o tempo livre. Foi um sucesso instantâneo, fazendo a alegria dos moleques fissurados em punheta e futebol. Acabou deixando os amuletos de lado e montou a sua própria fábrica de minijogadores, a Bertisa. Porém, o fato de ter colaborado para a boa sorte de muitos incautos com suas figas não o eximiu das tradicionais características do DNA lusitano. De uma hora para outra, a qualidade do material fornecido para a fabricação dos botões caiu drasticamente. Os botonistas fissurados perceberam e começaram a investir seu dinheiro em outras fontes. Para agravar a situação, na mesma época, desembarcava no Brasil o Atari, que, nas palavras do Hamilton Tavares, “matou os botões”. 82

A época não era propícia para se investir no ramo. Mesmo assim, o marceneiro decidiu arriscar e vendeu seus dois carros para usar o dinheiro na compra de material de boa qualidade e dar seguimento ao negócio. E como um típico português, depois que fez a cagada, entrou em desespero por não saber como iria vender a produção e obter lucro. Foi aí que Tavares entrou no jogo, com a promessa de comercializar tudo, pagando pelos botões em 16 vezes. “Fiz essa loucura porque gostava muito de botão. Se eu não conseguisse vender, azar! Ficava com todos!”, disse. Só que ele conseguiu. Através de um minucioso esquema de distribuição e venda nas melhores casas do ramo, os botões da Bertisa se tornaram muito conhecidos, até os tempos atuais.

Porém, diferente da realidade humana, em que os jogadores de futebol mal aprendem a falar e já viram mercadoria, no universo dos botonistas, quanto mais raro e mais velho for um botão, mais valorizado ele fica. Pense que um pedaço de acrílico arredondado, com pouco mais de três centímetros de diâmetro, pode custar em média R$150 ou mais. Tudo começou quando os jogadores de futebol de mesa procuravam sua loja e, em vez de se interessarem pelos novos craques, eram os antigos que lhes atraíam. Dividido entre o lado comerciante e o lado colecionador, Hamilton passou a colocar preços altos nos botões que não queria vender. A partir daí é que foi se estabelecendo a média de valores no comércio de pequenos jogadores pelo Brasil afora, tendo como medidas reguladoras quesitos como raridade, procedência, material e apego sentimental do dono.

O problema (ou solução, dependendo do ponto de vista) é que tem gente capaz de torrar a grana que tem para saciar o hobby. Até mesmo gastar R$6 mil EM UM ÚNICO BOTÃO. “Foi a peça mais cara que já vendi. Os botões mais caros a gente acaba vendendo para o mesmo grupo de pessoas, que já são conhecidas por serem do meio. Isso facilita o comércio.” Quando os preços por uma única peça são extremamente altos, há a possibilidade de parcelar o valor, numa espécie de “acordo entre cavalheiros” – ou, no caso, botonistas – em que a palavra de um colecionador vale mais do que um papel escrito. “Eu parcelei o botão de R$6 mil para o comprador, só porque eu conhecia ele. Tem que ser amigo pra fazer isso”, afirma. Desde 1993 no ramo, ele conta que já viu gente tão aficcionada que era capaz de trocar os próprios pertences por UM botão – celular, geladeira e até moto. A roda das transições também ocorre pela internet. No profile da loja do Hamilton no Orkut, basta a publicação da foto de um botão novo para atiçar os interessados, que já perguntam quanto custa, ou tecem elogios dos mais variados para aquela “joia rara”. Outros profiles também se dedicam a compra e venda dos jogadores, a maioria numa faixa de preço entre R$100 e R$500. No site do Mercado Livre também é possível encontrar botões à venda, dos preços módicos aos mais caros, das réplicas aos botões originais.


OS CRAQUES EM TRANSAçÃO Não pense que é barato ter um bom jogador no seu time. Acontece nos grandes clubes europeus, brasileiros, e também de galalite.

Cruzeiro Invertido Fabricação Bertisa 1970/71 Preço de R$ 250 a R$400

A SAGA DO CRUZEIRO INVERTIDO Em um universo em que as minúcias de fabricação são importantes, um detalhe pode fazer a diferença. Até mesmo entregar um filho da puta que tenta ganhar dinheiro por meio da boa-fé dos outros. Segundo o jornalista e botonista Jefferson Gomes, o caso mais polêmico envolve os botões que representam o time do Cruzeiro, fabricados na década de 70 na Bertisa. Diferentemente do modelo tradicional, o Cruzeiro feito pelo Alberto é composto de uma faixa azul-celeste, ladeadas por lindas faixas em branco perolado, característica que lhe atribuiu nome e beleza únicas. Poucos possuem este botão em suas coleções, e dificilmente alguém colocaria para negócio. Exceto um

84

usuário no Orkut conhecido como “Seis Dedos” na rodinha dos colecionadores (o apelido não era à toa). Após negociar com o vendedor, o novo proprietário decidiu compartilhar com os amigos do Orkut a aquisição esperada. Dois dias depois, recebeu o comentário de que aquele era um botão falso, uma réplica que só errou em um detalhe: ter as cinco estrelas tradicionais da constelação. Sabese lá por que diabos, o português incluiu mais uma estrela no escudo, totalizando seis. O espertinho acabou sumindo do mapa, e é bem provável que o motivo não tenha sido a descoberta da sua fraude, mas o fato de ter caído no easter-egg que o portuga implantou há 30 anos.

Brasil todo perolado de ficha Fabricação desconhecida Preço de R$ 100 a R$250


Botafogo de uma camada Fab. desconhecida anos 60 Preço de R$50 a R$80

América Invertido Fabricação Bertisa anos 70 Preço de R$ 100 a R$200

CBD Ouro Fabricação Bertisa anos 70 Preço de R$ 120 a R$200

Palestra Itália Fabricação Bertisa anos 70 Preço de R$ 80 a R$150


MORFOLOGIA REGRAS DO BOTÃO O futebol de botão surgiu em 1930, pelas mãos do paulista Geraldo Décourt. Recebeu esse nome por causa das peças usadas para jogar. O cara começou usando botões de cuecas para jogar (conseguem imaginar uma cueca de botões relativamente grandes?). Em seguida passou a usar botões de uniformes escolares e casacos (mais higiênico, ao menos). Na falta de roupas para convocar jogadores para o time, vidros de relógios antigos eram usados. Logo quando surgiu, o esporte era conhecido como celotex, nome do material com que era fabricada a mesa. A data de nascimento de Décourt, 14 de fevereiro, é celebrada em São Paulo como o Dia do Botonista. (Depois deste momento cultural, será que conseguimos uma ajuda de custo da Lei Rouanet?) Atualmente os botões são feitos de acrílico ou galalite, um material plástico derivado do leite. Possuem duas camadas e têm uma aparência boleada (que vem a ser aquele desenho arredondado que facilita o deslizar da palheta para fazer o impulso). A bainha (caimento lateral) é determinante para saber se ele é atacante, consegue encobrir o goleiro com facilidade ou se é um defensor. Quanto mais aberta a bainha, maior é o ângulo de inclinação para a palhetada, e geralmente ele joga no ataque. Os de bainha fechada são melhores passadores e a inclinação é bem menor. Em alguns beques, são zagueiros que chegam a ter quase um ângulo de 90 graus de bainha.

86

Caso o leitor tenha nascido com um controle de PlayStation na mão, e nunca teve a oportunidade de se divertir com um jogo de verdade fora do ambiente virtual, saiba que o futebol de mesa possui muitas peculiaridades na forma de jogar. Para ter ideia, existem várias maneiras de realizar uma partida, e cada estado tem a sua – a regra paulista, a regra carioca e a regra baiana são as mais conhecidas. Se você quer conhecer a fundo todas as leis do esporte, visite o site da Federação de Futebol de Mesa do Rio de Janeiro (www.fefumerj.com.br).

HEREDITARIEDADE Tavares disse que não sofre com a concorrência nesta área, já que boa parte dos botões em circulação são dele, até mesmo pelo tamanho do acervo que possui. Fora que conta com a vantagem de que as peças vendidas acabam retornando para ele uma hora. “Teve uma vez que eu vendi um botão por R$400. Quatro anos depois, acabei comprando o mesmo botão por R$40, e vendi de novo para outra pessoa, mas por R$800”, explica. Segundo ele, a comunidade de colecionadores costuma ser bem unida. Só ele conhece pessoalmente cerca de 200 apaixonados pelas peças de galalite no Brasil – colecionadores “fodões”, como define aqueles que possuem

um acervo com mais de mil botões. Relata ainda a existência de “guetos” de amigos, que juntaram suas peças para formar uma única coleção. Para ter noção de até que ponto chega a paixão dessas figuras, existe um “acordo de cavalheiros” entre os colecionadores mais próximos, em caso de morte. Se por acaso alguém resolver jogar uma partida de botão com a Dona Morte e perder, a coleção do finado é distribuída entre quem está vivo. Isso evita que os botões fiquem esquecidos dentro de uma gaveta qualquer para todo o sempre. Felizmente, até o momento, não há relato de homicídios. Por enquanto.


ANO 06 / 2010 DISTRIBUIÇÃO GRATUITA

M O O B BABY LEITURA NÃO RECOMENDADA PARA MENORES DE 18 ANOS.


EXPEDIENTE

PONTOS DE DISTRIBUIÇÃO

Direção: Gabriel Rezende Marco Arioli Pedro Hemb Rodrigo Santanna Vicente Perrone

BELO HORIZONTE

Editores: Denise Rosa e Pedro Damasio Repórteres: Felipe de Souza, Piero Barcellos e Gabriela Mo

Black Boots – R. Fernandes Tourinho, 182 Blunt – Montes Claros, 173 Brechó Brilhantina – R. Tomé de Souza, 821 Café com Letras – Ant. de Albuquerque, 781 De Rua Skateshop – R. Paraíba, 1061 Desvio – R. Tomé de Souza, 815 Estabelecimento – R. Monte Alegre, 160 Fumec FCH – Rua Cobre, 200 Hard Core – Av. Contorno, 6.000, sl. 201 La Tosqueria – R. Claudio Manoel, 329 Mini Galeria – Rua do Ouro, 1381 Obar – Rua Cláudio Manoel, 296 Pieta Tatoo – Rua Paraíba, 1441, loja 1 Quina – R. da Bahia, 1148, sobrelj. 06 Social – R. Ceará, 1580 Tribe – Av. Presidente Carlos Luz, 3001 Una – Rua da Bahia, 1764 Uzina – Rua Grão Mogol, 908 CURITIBA

Revisora: Maria Edith Pacheco Projeto gráfico e Diagramação: Lucas Corrêa e Rafael Chaves @ Lava www.lavastudio.com.br Diagramação: Claudio Sudhaus Fotografia: Maurício Capellari Gabriela Mo Administrativo/Financeiro: Vanessa Lindenau Comercial: João Francisco Hein Produção: Gabrieli Frizzo Jurídico: Galvão & Petter Advogados office@galvaoepetter.com.br

30 Pés – Shopping Omar 30 Pés – Shopping Barigui 30 Pés – Shopping Crystal 30 Pés – Shoppng Curitiba 30 Pés – Shopping Mueller Airlab – Al. Prudente de Moraes, 1668 Arad – Rua Vicente Machado, 664 Brique – Rua Duque de Caxias, 380 Café Novo Louvre – R. Trajano Reis, 36 Café Skate Bar – Praça do Gaúcho Casa dos Bruxos – Rua Mario Spyra, 321 De Outros Carnavais – Rua Duque de Caxias, 378 Desmobilia – Av. Vicente Machado, 878 Fran’s Café – R. Dr. Carlos de Carvalho, 1262 Galeria Lúdica – Rua Inácio Lustosa, 367 Kitinete – Duque de Caxias, 175 Lamb – Vicente Machado, 674 Lolitas Salon de Coiffure – Trajano Reis, 115 Nayp - Shopping Omar Piola – Al. Dom Pedro II, 105 PUC - DCE Restaurante Quintana – Av. Batel, 1440 Tamarindo – Shopping Omar Teix Tatoo – Av. Vicente Machado, 666 Tienda Design – R. Fernando Simas, 27 FLORIPA Hi Adventure – Sotero José Faria, 610 Players – Floripa Shopping Sul Nativo – Shopping Beira Mar

Donuts Shop - Rua Lopo Gonçalves, 108 ESPM – Bar Prédio 2 ESPM – Bar Prédio 3 Fita Tape – Praça Garibaldi, 46 Folklore – Padre Chagas, 276 King 55 – Dona Laura, 78 Lancheria do Parque – Osvaldo Aranha, 1086 Matriz Skate Shop – Shopping Total Ocidente – Osvaldo Aranha, 960 Ossip – República, 677 Panda&Mônio – 5ª Avenida Center Perestroika – Furriel L. A. V., 250/1302 Pó de Estrela – Alberto Torres, 228 Puc – Administração Puc – Famecos Puma – Barra Shopping Sul Rouparia – Fernandes Vieira, 656 Sexton –Barão de Sto Ângelo, 152 STB – Anita Garibaldi, 1515 STB – Quitino Bocaiúva, 267 Thippos – Miguel Tostes, 125 Tmaki – 24 de Outubro, 636 / Lj 01 Tow In – 24 de Outubro, 484 Tow In – Barra Shopping Sul Ufrgs – Arquitetura Ufrgs – Fabico Uniritter – Orfanatrófio, 555 Vulgo – Padre Chagas, 318 W House - Rua Santo Inácio, 164 RIO DE JANEIRO 021 Multimarcas – Av. das Américas, 500 – Bloco 20 – Lj. 120 Addict – Shopping Leblon Addict – Rua Aristides Espínola, 64 Baratos do Ribeiro – R. Barata do Ribeiro, 354 – Lj. D Billabong – Barra Shopping Billabong – Shopping Rio Design Barra Boards Co – Galeria River Circo Voador – Rua dos Arcos – Lapa Home Grown – R. Maria Quitéria, 68 Hospedaria – Rua Visconde de Pirajá, 303, loja B Junkz – R. Francisco de Sá, 95 Junkz - Rua Dagmar da Fonseca, 33 , sala 209 Junkz - Rua Uruguiana, quadra d, box 357/358 La Cucaracha – R. Teixeira de Mello, 31, Lj. H Plano B – R. Francisco Muratori, 2ª Redley – R. Maria Quitéria, 99 Redley – Shopping Leblon Redley – Shopping da Gávea Street Force – Galeria River Ultraeco – Galeria River Viva Retro – R. Francisco Sá, 95 – Lj. H Versão 02 – Rua Arquiteto, 360 - Recreio Wall Colors – R. Lopes de Souza, 8

Porto Alegre SÃO PAULO Azul Cobalto – Lima e Silva, 744 Billabong – Barra Shopping Sul Callohã – Shopping Lindóia Casa Azul Hostel – Lima e Silva, 912 Cervantes - Rua João Caetano, 285 Convexo – Shopping Iguatemi Convexo – Shopping Praia de Belas

American Apparel - Rua Oscar Freire, 433 AMP – R. Augusta, 2729 Arterix - Praça Benedito Calixto, 103 B.Luxo – R. Augusta, 2633 Lj. 18 Bacuri - Rua Alagoas, 852 Baratos Afins – Galeria do Rock

Belas Artes – DvCM Billabong – Oscar Freire, 909 Billabong – Morumbi Shopping Buin Bom - Rua Armando Penteado, 48 Cartel 011 - Rua Artur de Azevedo, 517 DCK – R. Augusta, 2716 Doombox – Galeria Ouro Velho Eastpak – R. Augusta, 2685 El Cabriton y Amigos - Rua Augusta, 2008 Espanhol – Rua Dr. Álvaro Alvim, 135 ESPM – CA4D Estúdio El Rocha – Rua Simão Alvares, 552 FAAP – CA de Artes Forever Skate – Galeria do Rock Galeria Choque Cultural – João Mora, 997 Galeria Polinesia – R. Pedro Taques, 110 Galeria Vermelho - Rua Minas Gerais, 350 Grapixo – Galeria do Rock Hotel Tee’s – R. Augusta, 2633 – Lj. 20 HQ Mix - Praça Franklin Roosevelt, 142 Japonique - Rua Girassol, 175 Juisi by Licquor – Alameda Tietê, 43 - Loja 8 Johnny B Good – Rua 24 de Mai0, 116 – Loja 14 King 55 – Harmonia, 452 Kebabel – Rua Fernando de Albuquerque, 22 Kebabel – Rua João Moura, 871 Livraria POP - Rua Dr. Virgílio de Carvalho Pinto, 297 Loja do Bispo – Rua Dr. Melo Alves, 278 Mackenzie – DA de Comunicação e Artes Matilha Cultural – R. Rego Freitas, 542 Maze Skateshop – R. Augusta, 2500 Mission Store – Galeria do Rock Mercearia São Pedro - Rua Rodésia, 34 Nike Sportwear – Praça dos Omaguás, 100 Poderosa Ísis – R. Augusta, 2202 Polaco Tatoo – Rua 24 de Maio, 225 - 1º andar Rip Curl - Rua da Consolação, 4544 Sala Cega – Rua Augusta, 2203 - loja 07 Sensorial – Galeria Presidente Star Point – Av. Iraí, 224 Super Cool Market - Rua Purpurina, 219 Surface To Air - Alameda Lorena, 1985 Terraço Major – Rua Major Maragliano, 421 Ultra420 - Galeria Ouro Fino Ultra Skate – Av. Moací, 537 Visionaire – Galeria Ouro Fino Volt – R. Haddock Lobo, 40 Wave Boys – Galeria Ouro Fino Z Carniceria – R. Augusta, 934 OUTRAS Alucinado – Novo Hamburgo / RS Ambiente – Goiânia / GO Hangar – Santa Maria / RS Hip – Caxias do Sul / RS Ideal Shop – São Bernardo do Campo / SP Nollie – Contagem / MG Roques – Niterói / RJ Star Point – Guarujá / SP Stb – Caxias do Sul / RS Swell Skatepark – Viamão / RS Vulgo – Búzios / RJ Yzen – São Leopoldo / RS


POR PIERO BARCELLOS

FOTOS MAURÍCIO CAPELLARI

JUNTE UMA PEQUENA COMBINAÇÃO DE PRODUTOS QUÍMICOS EM TUBOS DE PAPELÃO. ACENDA O PAVIO E APONTE PRA CIMA. NÃO PRECISA SE PREOCUPAR EM JUNTAR SEUS DEDOS DEPOIS: A MENOS QUE VOCÊ ESTEJA ABSURDAMENTE CHAPADO, FAZER UMA QUEIMA DE FOGOS É SEGURA E DIVERTIDA.

36


Uma das poucas invenções chinesas que não foi copiada de outro país e tampouco usou mão de obra escrava infantil é a pólvora. A história diz que ela foi descoberta alguns anos antes de Cristo, quando alquimistas orientais faziam misturas de substâncias a fim de encontrar a fórmula da imortalidade. Ao mesmo tempo, eles também foram precursores no surgimento da “ironia do destino”, já que o composto químico que supostamente faria a humanidade viver mais está presente em tudo quanto é arma de fogo. Mas, em vez de olhar o lado negativo da pólvora, vamos manter a pureza em nosso coração e nos lembrar de momentos felizes provocados pelos estouros de grandes bolas de fogo nos céus, como uma virada de ano, a conquista de um campeonato pelo seu time, grandes shows de música, festas memoráveis, e por aí vai. O fascínio pelos fogos de artifício é tão grande que movimenta grandes cifras ao redor do mundo, sendo os Estados Unidos os maiores consumidores, e a China a maior produtora, seguida da Argentina e do Brasil. 38


a estampa diz tudo Para desmitificar essa história de que estourar um rojão é uma brincadeira perigosa (e que provoca incontinência urinária durante o sono com quem se diverte), fomos até uma das lojas do ramo para descobrir a verdade. Sabemos que você, leitor agourento da VOID, gostaria muito que fôssemos a um desses locais clandestinos que aparecem nos noticiários a todo instante, torcendo para que uma fagulha misteriosa surgisse e transformasse em carbono uma parte do staff da revista. Mas pelo contrário! Como queremos que você faça uma explosão sadia e marota de fogos em casa, procuramos uma loja dentro da lei. Segundo David Zanzi, proprietário de uma loja de fogos de artifício (e única fonte que não ficou espiada em nos contar como funciona esse maravilhoso mundo), os pontos de venda precisam de certificados emitidos pela Polícia Civil e pelo Exército para poder guardar e vender os produtos – afinal, estamos falando de pólvora. E, a julgar pelo acervo existente na loja, havia quantidade suficiente para começar uma guerrilha.

Olhando para as caixas de fogos, qualquer um ficaria na dúvida se ali dentro estaria mesmo um grupo de rojões multicoloridos ou uma placa de vídeo 3D de computador. As embalagens são muito similares, com aquele visual meio Clóvis Bornay do futuro. Algumas até com mulheres em destaque, evidenciando a virilidade (!?) do produto. Esta estética é própria dos chineses, e foi copiada pelos demais fornecedores. “Foi o próprio mercado consumidor que exigiu assim, dando preferência para as embalagens mais elaboradas na hora da compra”, explica David. Não raro imagens de santos também estampam o foguetório, já que as datas religiosas também são celebradas ao som de morteiros coloridos. Nas próprias embalagens já são exibidas as instruções de uso dos fogos de artifício. Totalmente em português, até mesmo nos importados. Tudo para evitar um fatality indesejável pelo usuário. Os rojões e bombinhas contam com um pavio cuja métrica é estabelecida pelas normas do exército – você tem que ter tempo suficiente para acender o dito cujo e sair de perto. O que pouca gente sabe é que, por menos de R$ 10, você pode comprar um dispositivo de detonação elétrica à distância. Aí é só unir a brincadeira de soltar fogos de artifício com a de engenheiro de demolição: basta apertar um botão e BUM!


QUALQUER CRIANÇA BRINCA David comercializa cerca de 300 variedades de fogos de artifício, envolvendo artigos nacionais, importados, adultos e infantojuvenis. Sim! Existem produtos feitos para os pequenos infantes que oferecem risco quase nulo de periculosidade, como é o caso dos cordões explosivos que funcionam na base da fricção, e os estalinhos que explodem quando atirados contra o chão. Outros, apesar de necessitarem de fogo para funcionar, tem combustão pequena. Um exemplo disso são as abelhinhas, pequenas bombas que, quando acessas, saem voando, imitando o barulho do inseto. No catálogo infantil há ainda buscapés, traques, velas ornamentais e cascatas luminosas apelidadas carinhosamente de “bafo de drag��o”. Mas, supondo que você já seja um adulto grandinho, gozando de plenas faculdades mentais, certamente lhe interessa fazer um barulho maior, um efeito luminoso mais grandioso. Aí é só ir direto às prateleiras cujos nomes são tão peculiares quanto as embalagens: Polvo Dourado, Excalibur, Big Cesar, Matrix,

40

Ray Star, Lily Magnólia. Além daquelas com nomes de deuses gregos (Zeus, Atlas, Artêmis), mosqueteiros (D’Artagnan, Athos) e afins. São kits compostos por vários rojões que disparam múltiplos tiros (girândolas) ou detonam em sequência preestabelecida (também conhecidos como “tortas”). Basta colocá-las em um lugar seguro e disparar para ter um céu ornamentado por sua conta. Outros artefatos, como rojões de vara e bombas cujo estampido se assemelha ao de um tiro, são menores e não provocam tantos efeitos. Em compensação, são barulhentos (ideal para incomodar a vizinhança de madrugada). “Hoje em dia, tudo o que você pensar em termos de fogos de artifício existe”, conta David. “Já teve gente que chegou aqui querendo ter o nome escrito no céu, como aparece no cinema. Até é possível, mas não fica igual”, diz. Ele explica que os efeitos que vemos, como a formação de desenhos, são feitos por um software, que programa o tempo e a posição dos disparos. Outro software é responsável por criar um puta efeito

pirotécnico em sincronia com a música que desejar – pense que ele pode programar uma explosão no ar para cada batida de “We Will Rock You”, do Queen. Agora, se a sua intenção é fazer um engodo igual ao visto nas Olimpíadas da China, em que boa parte dos fogos de artifício que vimos pipocar na abertura era efeito de computador, apele para o Adobe After Effects.


MERCADO EXPLOSIVO Os hermanos disputam com o Brasil a vice-liderança mundial na produção de fogos de artifício. E isso não é fácil, visto que são dois públicos totalmente diferentes, que possuem regras de segurança e preferências peculiares. Para ter ideia, o público brasileiro é chegado num artefato que faça mais barulho, enquanto os importados investem mais nas cores. Outra questão envolve a disposição dos tubos de papelão no caso dos packs com vários disparos: a indústria nacional deixa os tubos mais afastados que as demais. Isso provoca no comprador aquele falso efeito de que “maior é melhor”, enquanto na verdade é a mesma coisa (Gerson’s Law). A produção nacional está concentrada em Minas Gerais. Lá, além das fábricas tupiniquins, também estão sediadas duas filiais de empresas argentinas. E a localização não é por acaso. A região tem um consumo muito grande de fogos de artifício por conta das festas de São João, e pelas superstições que rondam as datas religiosas, em que os barulhos dos rojões

afugentariam os demônios chegados em pinga e pão de queijo. Porém, os períodos de alta procura por estouros e efeitos pirotécnicos não ocorrem no Réveillon. Por incrível que pareça, o pico de vendas acontece na época das eleições, para alegrar os comícios e comemorar as vitórias dos candidatos. Ou seja, neste ano você já sabe onde parte dos seus impostos vai parar... Agora, engana-se quem pensa que existe um processo mecânico na confecção dos fogos. É tudo feito a mão! David, que chegou a visitar fábricas na China e participou da criação de modelos de fogos de artifício por aqui, diz que desta forma existe maior precisão na dosagem das substâncias nos tubos e embalagens. As empresas trabalham com pequenos “bunkers” espalhados e distantes, onde grupos de poucos funcionários (em média cinco) trabalham misturando os químicos. Desta forma, se um empregado resolver socar a pólvora com um pouco mais de força que o habitual e mandar tudo pelos ares, o restante da produção fica a salvo.

GUARDANDO OS BRINQUEDOS Depois de atravessarmos clareiras e estradas de terra, chegamos ao sítio onde fica o depósito da loja de David. De acordo com as normas estabelecidas pelo exército, os produtos estocados devem ficar um tanto quanto afastados da civilização, exatamente para evitar acidentes. Lá eles são divididos em categorias que vão de um a quatro (em que os menores números indicam maior periculosidade) e guardados em galpões beeeeem afastados uns dos outros. A mesma regra também determina que não deve haver corrente elétrica dentro do ambiente onde estão os artefatos. Mesmo assim, e se porventura alguém deixa cair uma bituca de cigarro dentro de um destes depósitos? “Se algum deles pegar fogo, o máximo que se pode fazer é pegar um banquinho, sentar e assistir ao espetáculo”, afirma o proprietário. O transporte do produto da fábrica para o estoque das lojas é feito em maioria por via marítima, principalmente do material que é importado da China. Os navios levam os containers de explosivos no topo das pilhas de cargas. O motivo é simples: em caso de princípio de incêndio, a primeira coisa que cai no mar são

os fogos de artifício. O restante do trajeto é feito por caminhões. O único perigo do produto durante a locomoção e armazenagem é o mesmo de todo e qualquer comerciante: o roubo. Uma girândola de fogos não é tão pesada e custa cerca de R$ 500. Ou seja, se acontece qualquer coisa com a mercadoria, mesmo com poucas unidades, é um prejuízo considerável. No sítio também são realizados os testes com equipamentos e montagens de fogos para os clientes que desejam ver o produto antes de adquirir. Neste caso, não estamos falando do pé de chinelo que quer um rojão para soltar no estádio, e sim de prefeitos, produtores de eventos e todo esse povo que tem grana suficiente para fazer um sol brilhar à meia-noite. Lógico que nós aproveitamos a oportunidade para testar alguns dos produtos de uma maneira peculiar, e descobrimos uma nova fatia de negócios a ser explorada pelos empresários da pirotecnia: dissipar o estresse explodindo coisas diversas. Se você quiser ver a transformação de uma melancia em nuvem, e como fazer chover bacon, veja no box da matéria e dê um pulo no site ww.avoid.com.br. 41


VIROU FUMAÇA DIANTE DE TANTA PÓLVORA, DEMOS VAZÃO AO NOSSO LADO MAIS DESTRUTIVO E FIZEMOS ALGUNS TESTES INTRODUZINDO ARTEFATOS EXPLOSIVOS EM COISAS QUE FAZEM PARTE DO NOSSO DIA A DIA, OU NÃO. ENCARE NOSSO TESTE COMO UMA SUGESTÃO DO QUE VOCÊ PODE FAZER IR PELOS ARES PARA DESOPILAR DAS PREOCUPAÇÕES DA VIDA MODERNA.

TORTA DE CHOCOLATE

Depois de conseguir um desconto na confeitaria (já que o negócio estava vencido e não iríamos usar para fins alimentícios), transformamos duas bombas nº 6 em velas miguchas, responsáveis por dizimar a torta em pequenos pedaços, além de arrancar um naco da mesa onde ela se encontrava apoiada.

BONECA

Foi necessário um pequeno procedimento de deslocamento de perna da boneca para que pudéssemos meter dentro dela uma bomba nº 6. Aquele pequeno brinquedo angelical virou confete de látex depois da explosão. Só a cabeça ficou inteira. Mas, depois de algumas tentativas, conseguimos fulminá-la.

MELANCIA

O tamanho da fruta intimidava, mas não hesitamos em colocar uma bomba nº 10 dentro dela. O detalhe é que esquecemos que o tamanho da melancia é inversamente proporcional à sua densidade. Se você não entendeu o que isso significa, basta saber que ela virou uma grande nuvem, e levou consigo a mesa onde estava apoiada.

CABEÇA DE PORCO

“Vocês vão explodir isso? Boa ideia...” Foram essas as palavras do açougueiro que nos vendeu a cachola do suíno. Socamos uma bomba nº 10 na carcaça. A explosão fez a caveira do porco virar do avesso, além de nos proporcionar uma chuva de cartilagens digna de um apocalipse.

TAINHA

Nossa teoria era a de que, se as bombas normais conseguiram provocar um grande estrago, elas teriam poder de fogo suficiente para explodir um peixe em pleno ar. Contamos com a ajuda de dois rojões de vara com propulsão extra para mandar a fedegosa tainha para o espaço. Infelizmente ela foi carbonizada em terra mesmo.

42


43


COMO ANIMAR A FESTA

44

Hércules Azul – Capaz de fazer o semideus mudar de cor – R$ 133

Monster Planet – Pra mandar qualquer coisa pro espaço – R$ 480

Reggae – Para homenagear o Bob, nada melhor do que queimar um – R$ 530

Thor – Mais forte que um marretaço do deus nórdico – R$ 15

Dreamin Castle – Para derrubar qualquer castelinho de areia – R$ 22

D’Artagnan – O melhor dos mosqueteiros – R$ 90


Granadas – Para crianças brincarem de Tropa de Elite – R$ 1,50 a unidade

Estalos ANB – Pólvora com cheirinho de infância – R$ 1 a caixinha

Fosforitos – É riscar e sair de perto – R$ 1 a caixinha

Excalibur – A alegria do Rei Arthur – R$ 530

Mico Loco – Ô Loco! – R$ 13

Bateria antiaérea – Suficiente para derrubar um caça yankee – R$ 72


SEGURANÇA ESTAMOS BEM PRĂ“XIMOS DAS FESTAS JUNINAS, PERĂ?ODO EM QUE É ACEITĂ VEL SAIR POR AĂ? VESTIDO COMO UM MALOQUEIRO DO INTERIOR E ENCHER O CU DE QUENTĂƒO. A DATA TAMBÉM PROVOCA INSTINTOS PIROMANĂ?ACOS NAS PESSOAS. AĂ? É BOMBA PRUM LADO, ROJĂƒO PRO OUTRO, E TODO MUNDO SE DIVERTE. ATÉ A HORA EM QUE ALGUM IMBECIL DECIDE SOLTAR UM BALĂƒO E ACABAR COM A FESTA (QUIÇà COM A VIDA) DE TODO MUNDO. A QUESTĂƒO É QUE VOCĂŠ PODE SIM ESTOURAR ALGUNS FOGOS DE ARTIFĂ?CIO SEM PROVOCAR ACIDENTE ALGUM.

ěŊĹŠ,#-.2ĹŠ04#ĹŠ5.!eĹŠ2#)ĹŠ-+$ #3.ĔŊ3.".2ĹŠ.2ĹŠ$.%.2ĹŠ"#ĹŠ13($~!(. possuem instruçþes de uso. É sĂł seguir o que diz na embalagem e nĂŁo tem erro. Simples, nĂŁo ĂŠ? ěŊ1#!#ĹŠ("(.3ĹŠ3#1ĹŠ04#ĹŠ1#22+31ĹŠ(22.ĔŊ,2ĹŠ$.%.2ĹŠ"#ĹŠ13($~!(.ĹŠ precisam de espaço. Logo, acender uma bombinha no meio da sala da sua casa nĂŁo ĂŠ uma atitude muito inteligente. Faça isso em locais abertos. TambĂŠm nĂŁo ĂŠ auspicioso ďŹ car na frente de um rojĂŁo quando ele vai na sua direção. Mantenha sempre o caminho livre. ěŊ2ĹŠ/5(.2ĹŠ".2ĹŠ$.%.2ĹŠ2Q.ĹŠ/1.)#3".2ĹŠ/1ĹŠ"1ĹŠ4,ĹŠ,1%#,ĹŠ de tempo de segurança. Segundo o Inmetro, o tempo mĂ­nimo que os pavios proporcionam ĂŠ de cinco segundos. É acender a bagaça e sair de perto! ěŊ2.ĹŠ5.!eĹŠ-Q.ĹŠ!.-ă#ĹŠ-ĹŠ24ĹŠ!..1"#-WQ.ĹŠ,.3.1ĹŠ-ĹŠ'.1ĹŠ"# acender os fogos, existem detonadores Ă  distância. Por menos de R$ 10 vocĂŞ compra um disparador que funciona a pilha e alguns metros de ďŹ o elĂŠtrico. É sĂł apertar um botĂŁo para provocar uma faĂ­sca e BUM! ěŊQ.ĹŠ3#-3#ĹŠÄĄ341 (-1ĢŊ.2ĹŠ$.%.2ĹŠ/.1ĹŠ!.-3ĹŠ/1¢/1(Ä“ĹŠĹŠ,#-.2ĹŠ04# seja a sua vontade bater um papo com SĂŁo Pedro antes da hora. ěŊ#ĔŊ,#2,.ĹŠ$9#-".ĹŠ34".ĹŠ!#13.ĔŊ!'#%.4ĹŠ-ĹŠ'.1ĹŠ#ĹŠ.ĹŠ-#%¢!(. nĂŁo estourou, nĂŁo tente acender ou usĂĄ-lo de novo. Aceite a leve presença de Murphy que estragou seu show pirotĂŠcnico. SĂł isso. 46


FESTA, DIVERSÃO E CABUM! ALÉM DAS TRADICIONAIS COMEMORAÇÕES DESTACADAS NO CALENDÁRIO, EXISTEM OUTROS EVENTOS EM QUE A ATRAÇÃO PRINCIPAL É A QUEIMA DE FOGOS DE ARTIFÍCIO.

FESTA DE SAN JUANITO: Na cidade de San Juan De La Vega, no México, o povo celebra a vida do padroeiro da cidade. Reza a lenda que San Juanito conseguiu salvar o povoado de uma incursão de bandidos fazendo um grande barulho, que fez com que os inimigos pensassem que um exército vigiava a cidade. Hoje, os moradores relembram o fato amarrando explosivos na ponta de marretas gigantes, detonando-os com a força do impacto no chão.

SÃO JOÃO DO SERGIPE: Cinco homens se dedicam a socar em um pilão a mistura de carvão de imbaúba, salitre, enxofre e cachaça durante duas horas. A mistura é colocada dentro de um bambu seco que se une à estrutura de um pequeno barco de madeira. O barco, em vez de cair na água, é pendurado em uma espécie de varal com extensão de 50 metros. Quando acendem as espadas, o barco percorre o trajeto do varal, explodindo todos os fogos dentro dele.

GUERRA DAS ESPADAS: Junte pólvora, barro e limalha de ferro dentro de uma estrutura de bambu para obter uma espada tão luminosa quanto um sabre Jedi. Na cidade de Cruz das Almas, na Bahia, o povo celebra o São João em duelos com espadas de fogo feitas artesanalmente – o que justifica o alto número de feridos na época. Os mais “sãos” costumam se proteger antes de participar da brincadeira. A maioria não o faz. Isso que a intenção das batalhas é exatamente derrotar o “inimigo” através da intimidação com a queima da espada.

SKATOPIA: Trinta e cinco hectares de pura anarquia. Assim é o Skatopia, parque localizado em Ohio, EUA. Além de ser um ótimo local para andar de skate, a entrada é totalmente gratuita – os organizadores pedem apenas uma hora de trabalho voluntário em troca. E o melhor: a piromania é incentivada. Os organizadores do parque pedem para os visitantes levarem fogos de artifício e/ou coisas para atearem fogo. Não raro se vê a carcaça de algum automóvel virando fumaça. É um Woodstock do skate pregando a liberdade e a total falta de regras.

FESTIVAL DE YUAN XIAO: Na China, o 15º dia do primeiro mês do calendário lunar é celebrado com a Festa das Lanternas. A tradição encerra as comemorações do ano novo chinês, e a queima de fogos serve para atrair bons fluidos. Além das lanternas e dos fogos, há a tradição de bater uma barra de ferro derretido a 1300°C em uma parede fria de concreto. O impacto provoca um efeito luminoso tão grande quanto uma bombinha normal.

Agradecimentos à Fogos Gaúcho – www.fogosgaucho.com.br


# 064 CORPO SINTÉTICO VOID#64newnew.indd 1 void.pdf 1

10/18/10 19:52:22 1:12 PM 18/10/2010


EXPEDIENTE Direção: Gabriel Rezende Marco Arioli Pedro Hemb Rodrigo Santanna Vicente Perrone Editores: Denise Rosa e Pedro Damasio Repórteres: Felipe de Souza, Piero Barcellos e Gabriela Mo Revisora: Maria Edith Pacheco Projeto gráfico e Diagramação: lucas Corrêa e Rafael Chaves @ lava www.lavastudio.com.br Diagramação: Claudio Sudhaus Fotografia: Maurício Capellari Gabriela Mo Planejamento: João Francisco Hein Jurídico: Galvão & Petter Advogados office@galvaoepetter.com.br

VOID#64newnew.indd 6 void.pdf 6

PONTOS DE DISTRIBUIÇÃO BELO HORIZONTE Black Boots – Rua Fernandes Tourinho, 182 www.blackboots.com.br Blunt – Montes Claros, 189 www.blunt.com.br Brechó Brilhantina – Rua Tomé de Souza, 821 www.brechobrilhantina.com.br Café com Letras – Rua Antônio de Albuquerque, 781 www.cafecomletras.com.br De Rua Skateshop – Rua Paraíba, 1061 Estabelecimento – Rua Monte Alegre, 160 www.barestabelecimento.com La Tosqueria – Rua Claudio Manoel, 329 www.latosqueria.com.br Mini Galeria – Rua do Ouro, 1381 www.minigaleria.com Tribe – Shopping Del Rey Uzina – Rua Grão Mogol, 908 www.uzinarestaurante.com.br

CURITIBA Airlab – Al. Prudente de Moraes, 1668 www.airlabels.blogspot.com Brique – Rua Duque de Caxias, 380 www.lojabrique.com.br Café Skate Bar – Praça do Redentor, 23 Galeria Lúdica – Rua Inácio lustosa, 367 www.galerialudica.com.br Kitinete – Duque de Caxias, 175 Lamb – Vicente Machado, 674 www.lojalamb.com.br Lolitas Salon de Coiffure – Trajano Reis, 115 www.lolitassalondecoiffure.blogspot.com Nayp - Shopping Omar www.nayp.com.br Teix Tatoo – Av. Vicente Machado, 666 www.estudioteix.blogspot.com

PORTO ALEGRE Callohã – Shopping lindóia www.calloha.com.br Casa Azul Hostel – lima e Silva, 912 www.casaazulhostel.com.br Convexo – Shopping Iguatemi Convexo – Shopping Praia de Belas www.convexo.com.br Fita Tape – José Bonifácio, 485 www.fitatape.art.br Matriz Skate Shop – Shopping Total www.matrizskate.com Ocidente – Osvaldo Aranha, 960 Odessa – Rua João Telles, 542 Ossip – República, 677 Panda&Mônio – 5ª Avenida Center www.pandaemonioblog.com Perestroika – Furriel l. A. V., 250/1302 www.perestroika.com.br Sexton –Barão de Sto Ângelo, 152 www.sexton.com.br

Swell Skatepark – Viamão www.swellskate.com.br Tow In – 24 de Outubro, 484 Tow In – Barra Shopping Sul www.towin.com.br Vulgo – Padre Chagas, 318 www.vulgo.com.br W House - Rua Santo Inácio, 164

RIO DE JANEIRO Addict – Shopping leblon Addict – Rua Aristides Espínola, 64 www.verdadeiraidentidadeaddict.com.br Baratos do Ribeiro – R. Barata do Ribeiro, 354 – lj. D www.baratosdoribeiro.com.br Boards Co – Galeria River www.boardsco.com.br Home Grown – Rua Maria Quitéria, 168 www.homegrownrio.blogspot.com La Cucaracha – R. Teixeira de Mello, 31, lj. H www.cucaracha.com.br Plano B – R. Francisco Muratori, 2ª Redley – R. Maria Quitéria, 99 www.redley.com.br Roques – Niterói Street Force – Galeria River

SÃO PAULO American Apparel - Rua Oscar Freire, 433 www.americanapparel.net B.Luxo – R. Augusta, 2633 lj. 18 www.brecholuxo.blogspot.com Bacuri - Rua Alagoas, 852 www.bacurisucos.com.br DCK – R. Augusta, 2716 www.dckstore.com.br Eastpak – R. Augusta, 2685 www.eastpak.com.br El Cabriton y Amigos - Rua Augusta, 2008 www.elcabriton.com Forever Skate – Galeria do Rock www.foreverskate.blogspot.com Galeria Choque Cultural – João Mora, 997 www.choquecultural.com.br Hotel Tee’s – R. Augusta, 2633 – lj. 20 www.hoteloja.blogspot.com Japonique - Rua Girassol, 175 www.japonique.blogspot.com Kebabel – Rua Fernando de Albuquerque, 22 Kebabel – Rua João Moura, 871 www.kebabel.com.br Matilha Cultural – R. Rego Freitas, 542 www.matilhacultural.com.br Maze Skateshop – R. Augusta, 2500 www.mazeskateshop.com.br Me Gusta – Rua Augusta, 2046 Mercearia São Pedro - Rua Rodésia, 34 Nike Sportwear – Praça dos Omaguás, 100 www.nike.com Polaco Tatoo – Rua 24 de Maio, 225 - 1º andar www.polacotattoo.com.br

Rip Curl - Rua da Consolação, 4544 www.ripcurl.com.br Super Cool Market - Rua Purpurina, 219 www.supercoolmarket.com.br Terraço Major – Rua Major Maragliano, 421 www.terracomajor.wordpress.com Visionaire – Galeria Ouro Fino www.visionairestore.com.br Volt – R. Haddock lobo, 40 www.barvolt.com.br Wave Boys – Galeria Ouro Fino www.waveboys.com.br Z Carniceria – R. Augusta, 934 www.zcarniceria.com.br

UNIVERSIDADES BELO HORIZONTE Fumec FCH – Rua Cobre, 200 www.fch.fumec.br Una – Rua da Bahia, 1764 www.una.br

CURITIBA PUC – DCE www.pucpr.br

PORTO ALEGRE ESPM – Bar Prédio 2 ESPM – Bar Prédio 3 www.espm.br PUC – Administração PUC – FAMECOS www.pucrs.br UFRGS – Arquitetura www.ufrgs.br/arquitetura/ UFRGS – Fabico www.ufrgs.br/fabico/ Uniritter – Orfanatrófio, 555 www.uniritter.com.br

RIO DE JANEIRO ESPM – Rua do Rosário, 90 www.espm.br PUC – CACOS PUC – CRAA www.puc-rio.br

SÃO PAULO Belas Artes – DvCM www.belasartes.br ESPM – CA4D www.espm.br FAAP – CA de Arte www.faap.br Mackenzie – DA de Comunicação e Artes www.mackenzie.br

10/18/10 19:52:23 3:13 PM 18/10/2010

VOID


RECALL HUMANO POR PIERO BARCEllOS

FOTOS MAuRíCIO CAPEllARI

Todo mundo se fode nessa vida. uns mais, outros menos. Tem gente que leva um pé na bunda do chefe e acha que é o fim do mundo perder o emprego. Ou toma um fora da namorada que lhe trocou por um cara com um cano de PVC de 16 polegadas dentro das calças. Mas a vida é assim mesmo, você pode perder um emprego e conseguir outro. Pode perder a mulher e encontrar outra. Mas... E se perder um braço, uma perna, um olho? Fodeu? Sim, mas nem tanto. Infortúnios do destino à parte, ninguém está salvo de se tornar dublê de saci de uma hora pra outra, ou de sair “direto da fábrica” com a necessidade de um recall. É aí que entra a medicina especializada em próteses. A história registra artefatos usados para reposição de membros desde o antigo Egito. Porém, foi na

Alemanha pós II Guerra Mundial que as próteses começaram a ganhar uma atenção especial, em função do contingente de desmembrados pelo conflito no país. De lá pra cá, muita coisa evoluiu, tanto no quesito de estética quanto de funcionalidade. Apesar de a prótese ter como objetivo suprir necessidades e funções de uma parte do corpo amputada, ainda não chegamos naquele estágio em que desconfiamos se a mão de alguém é verdadeira ou biônica. Em compensação, existem inúmeras possibilidades de reposição. Até mesmo em casos de amputação DAQuElE membro (sim, caras, isso acontece). Foi por isso que a gente foi atrás de quem dá uma mão (ou uma perna, ou um olho...), e descobrir o que tem por trás de uma prótese – e também para saber como evitar a necessidade de conseguir uma.

30 VOID#64newnew.indd 30 void.pdf 30

10/18/10 19:52:24 3:14 PM 18/10/2010


51

31 VOID#64newnew.indd 31 void.pdf 31

10/18/10 19:52:24 3:14 PM 18/10/2010


MANUTENÇÃO E REVISÃO Roberto Pacheco tem uma loja onde comercializa e produz próteses de membros superiores e inferiores. É ele quem tira as medidas das pessoas e confecciona as peças de acordo com o tamanho e biotipo do cliente. “Não dá para deixar alguém com uma perna maior que a outra, então o ajuste tem que ser preciso pra poder devolver a funcionalidade aproximada do membro”, explica. Se você tem moto e adora se exibir em alta velocidade sobre duas rodas, está propenso a se tornar um assíduo cliente dos serviços de Pacheco. A maioria das próteses que ele fabrica é de membros inferiores, boa parte delas por conta da imprudência dos “cachorros-loucos” do asfalto. O restante é por conta de trom-

bose, diabetes e deficiência física. Podemos resumir da seguinte forma: tenha uma vida saudável, não seja sedentário e, se quiser fazer alguma merda em duas rodas, use uma bicicleta. O valor de uma prótese pode variar de acordo com a tecnologia e com o tamanho do coto do paciente, podendo custar entre R$ 2,8 mil e R$ 5 mil. Pacheco nos mostrou dois tipos de prótese que podem ser utilizadas em pessoas que ainda possuem o joelho. uma delas é feita de madeira, oca por dentro – excelente lugar para guardar coisas como dinheiro, camisinhas e drogas ilícitas (já viu algum meganha, numa batida policial, revistar o conteúdo da perna de alguém? Pense nessa possibilidade, candidato a

pirata!). Já a outra é composta por látex e um suporte de alumínio entre o encaixe do coto e o “pé”, permitindo o ajuste conforme o crescimento do indivíduo. Se a pessoa tem o coto na altura da coxa, a prótese pode vir equipada com um joelho mecânico, permitindo o movimento de caminhada e praticamente indestrutível em caso de uma dividida com o Felipe Melo.

cenário que faria escapar um sorriso no canto da boca do Jigsaw. lá as peças de encaixe das próteses são confeccionadas e os ajustes nelas são feitos. “Aqui a gente funciona como uma oficina de automóvel mesmo, com direito a revisão e ajuste de tempos em tempos”, explica, com a vantagem de que ninguém vai tentar te passar a perna (rá) de que o problema é na carburação.

Nos fundos da loja, Pacheco possui uma oficina, onde produz as pernas e pés sintéticos. Qualquer semelhança com uma borracharia especializada em recauchutagem de barbies e falcons seria mera coincidência. Moldes de cotos em gesso, ferramentas como lixas e lâminas, esmeril e um forno industrial compunham o

32 VOID#64newnew.indd 32 void.pdf 32

10/18/10 19:52:24 3:14 PM 18/10/2010


SPIDER-LEG Já que estamos comparando a fabricação das próteses com o sistema automotivo, imagine então um lugar em que se fabricam cerca de três pares de pernas por semana seguindo um modelo industrial digno de Henry Ford? É assim que funciona dentro da Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD). Como são muitos os pacientes que eles atendem (não só crianças, como também muito marmanjo com problemas de saúde ou que está aprendendo a voar com sua motinho de baixa cilindrada), o ritmo é frenético. Enquanto de um lado estão preparando os moldes, de outro estão fazendo o acabamento, pintando, montando com as demais peças e por aí vai. O supervisor ortopédico Cláudio Postel conta que as próteses de membros inferiores são as mais produzidas, por interferirem diretamente na independência de ir e vir das pessoas. “As mais difíceis de serem feitas são aquelas em que não há o coto para fazer o apoio”, diz ele, e mostra uma prótese que vai presa ao corpo do paciente pelo quadril, dando a ele uma perna inteira igual à do exterminador do futuro. Para onde você olha enxerga pernas penduradas, com cores simulando os diversos tons de pele existentes. A mistura de corantes aproxima a cor do látex ao da tez de quem vai usá-la. Para ocultar a

extensão de alumínio na canela, muitos usam um enchimento de espuma, que dá volume e formato iguais aos do membro original. Outros já preferem ostentar sua canelinha de metal brilhosa, sem medo de ser feliz. Tanto que algumas próteses podem ser customizadas de acordo com o usuário. uma delas trazia a estampa do Homem-Aranha. “É um recurso usado até mesmo pra tornar a prótese menos fria, mais agradável, principalmente aos olhos da criança”, explica Postel. Havia também uma prótese com tribais desenhados. Não vai demorar para a street art descobrir mais este espaço para customizar. Comparadas com as próteses de membros inferiores, as superiores são menos funcionais e mais estéticas. O movimento mais complexo possível com uma prótese convencional é o de pinça, e pode permitir ao usuário fazer alguns serviços, como carregar caixas, por exemplo. Também recebem espuma para ganhar volume, e, dependendo da amputação, ganham um cotovelo mecânico que pode ser travado para ficar com o braço esticado ou dobrado em 90 graus. Por enquanto ela ainda não permite levantar o dedo médio para alguém no trânsito, ou fazer o tradicional sinal de “joinha, campeão” diante de uma cagada. Mas um dia chega lá.

51

33 VOID#64newnew.indd 33 void.pdf 33

10/18/10 19:52:24 3:14 PM 18/10/2010


34 VOID#64newnew.indd 34 void.pdf 34

10/18/10 19:52:24 3:14 PM 18/10/2010


TODOS OS OLHOS MAIS PSICOLÓGICO QUE FÍSICO O supervisor ortopédico da AACD conta que o processo de adaptação da prótese é mais complexo do que fazê-la. Não é fácil para alguém, de uma hora pra outra, trocar seu pé cheio de calos e unhas encravadas por um de fibra de carbono, mesmo pensando que nunca mais terá problemas como esses. “O trabalho de reabilitação é mais demorado que o de confecção. Geralmente as crianças possuem uma facilidade maior que os adultos para se acostumar com a prótese. Tem que ter sensibilidade para trabalhar com os pacientes e atender seus anseios”, conta. Segundo Cláudio Postel, existem muitos casos de pacientes que antes de perderem um membro eram extremamente sedentários, e agora que usam próteses se aventuram na prática de esportes. “Há uma necessidade da pessoa em mostrar que o fato de usar uma perna ou um braço mecânico não a

torna inválida.” Em alguns casos, existem próteses especiais para a prática de esportes, usadas principalmente pelos atletas paraolímpicos, que dão mais impulso e mobilidade na hora de correr, por exemplo. Atualmente, as próteses mais modernas são chamadas de mioelétricas. Além de serem feitas sob medida para o paciente, elas passam por uma revisão mecânica e computadorizada. Isso porque possuem em seu interior um software que faz a regulagem dos movimentos. A prótese calcula, por exemplo a pressão que o corpo exerce para dar um passo a fim de suavizar o movimento das articulações. Porém, para ter uma perna ou um braço biônico é preciso vender um rim – cerca de R$ 90 mil para chutar a bunda de alguém com uma perna de Robocop. Ser um ciborgue custa caro!

E se, em vez de um membro, você arrebenta um olho (do rosto, vamos ser específicos)? Não é difícil de acontecer. Basta uma farpa, uma coçadinha com a mão suja de pesticida, ou, como na maioria dos casos, um tiro nas fuças. Quem nos contou isso foi a técnica em prótese ocular Renata Giürgel, que trabalha há 25 anos na área. “Em adultos, o maior índice de procura é de vítimas de assalto, que acabam alvejados no rosto. Nos últimos dias recebi cinco pessoas por assalto”, conta. Dependendo da situação do paciente, o espaço do globo ocular é preenchido por uma esfera composta por uma mistura de materiais resistentes. “Tão resistentes que nem uma martelada forte é capaz de danificar”, diz Renata. Mesmo que alguém tente martelar o olho falso de uma pessoa, o máximo que vai conseguir é deixar a esfera um pouco achatada. Pouco mesmo. Ela é que será responsável por dar suporte e movimento real à prótese. Só depois do procedimento cirúrgico é que o paciente procura Renata. Ela realiza a análise do olho funcional levantando dados como profundidade, tamanho da abertura da pálpebra, entre outros. As informações, anexadas a fotos, são encaminhadas para uma clínica especializada. lá o desenho do olho é reproduzido com todos os detalhes em uma espécie de concha, que vai por cima da esfera no espaço do globo. O processo todo demora cerca de

30 dias, da coleta de dados até a entrega da prótese ao paciente. Enquanto ela não fica pronta, o paciente sai do consultório da Renata com uma prótese provisória, para ir acostumando com a nova situação. Pela protética já passaram inclusive pessoas com síndrome de David Bowie, que queriam se aproveitar da possibilidade de ter um olho de uma cor diferente do outro. “A gente acaba convencendo as pessoas de que isso não é uma boa ideia. O objetivo da prótese é estético, é devolver para o rosto a mesma harmonia que existia antes. E da forma como eles querem foge deste propósito”, explica. No caso dos adultos, a prótese é trocada a cada sete anos, por conta das mudanças faciais provocadas pela velhice. Em uma pequena caixinha é que Renata guarda os seus “filhinhos”, como costuma se referir às próteses. O mostruário dela conta com peças que variam de tamanho e espessura, além, é claro, das cores. Olhos com veias destacadas, de diferentes cores de íris e de tons de branco não tão brancos compunham o acervo. A riqueza de detalhes é tanta que fica difícil dizer qual é o olho verdadeiro ou o falso. Portanto, se você fizer um ato de estupidez extrema com o risco de perder uma parte do corpo, lembre-se: caia de cara. Além de o olho ser mais discreto, é a prótese mais barata: entre R$ 600 e R$ 700. 51

35 VOID#64newnew.indd 35 void.pdf 35

10/18/10 19:52:24 3:14 PM 18/10/2010


SORRISO DE PORCELANA um belo dia você está lá, rodando com seu carrinho pela cidade, quando de repente surge uma pedra no meio do caminho. É skate prum lado, você pro outro e dente pra cima. Nem precisa estar praticando um esporte: basta levar sua fuça de encontro ao chão com demasiada força para resultar numa fantasia permanente de caipira de São João. O dentista Marcelo Soares Davi fala que, além de acidentes, as cáries e as doenças periodontais (moléstias que afetam gengiva e ossos) podem causar a perda dos dentes. “Pode começar com uma gengivite, e evoluir para uma inflamação dos tecidos”, conta. Como perder um dente pode acontecer por diversos fatores, colocar um no lugar

também pode ser feito de várias maneiras. A única coisa que é comum entre as próteses é o material usado para reconstituir seu aparelho mastigatório: porcelana. Assim como na confecção das próteses oculares, o paciente passa por uma avaliação da arcada dentária para a prótese ser aplicada. O dente é reconstituído através de medição e fotos do paciente, e recebe uma pintura especial para adequar o tom de branco aos tom dos dentes naturais que ainda permanecem encrustados na gengiva. As próteses podem ser divididas em dois modelos: as removíveis e as fixas. As removíveis são as mais comuns – a popular dentadura faz parte deste grupo –, e podem ser acopladas na boca

do banguela com um produto fixador (corega feelings). Outro tipo de prótese removível é semelhante a um daqueles aparelhos corretivos, feitos com estrutura de metal e acrílico para encaixar sobre pressão. Aí é só tirar quando quiser para fazer a higiene e colocar no lugar. Já a prótese fixa passa por um processo mais complicado. Se ainda houver uma nesga de raiz no espaço onde o dente vai, ele é atochado lá. Caso contrário, é preciso preparar a região com um implante em forma de parafuso. O processo é cirúrgico, e a recuperação total pode demorar entre 4 e 6 meses. Segundo o Dr. Marcelo, este tempo é relativo, podendo variar de acordo com a estrutura do paciente. Depois de recuperado, o

banguela tem sua dentição de porcelana fixada permanentemente e está pronto para comer uma maçã, dar uma dentada numa espiga de milho, e por aí vai. O valor das próteses varia de acordo com o caso do paciente, mas se estima um custo entre R$ 2 mil e R$ 3 mil para cada dente implantado. Aviso aos piratas que querem meter um dente de ouro: apesar de ser raro hoje em dia, esta era uma boa opção tempos atrás. O ouro, além de ser um material antioxidante, é o que menos oferece risco de alergias em contato com o corpo. Tanto que existem próteses fixas cujo núcleo do implante é feito com o nobre metal. É o legítimo sorriso dourado!

36 VOID#64newnew.indd 36 void.pdf 36

10/18/10 19:52:24 3:14 PM 18/10/2010


É RARO, MAS PODE ACONTECER O que um velhinho sacana, um usuário de drogas e um fanático religioso têm em comum? Os três podem precisar de uma prótese peniana. Nem o membro mais importante para a classe masculina escapa de ter um auxílio da ciência protética. Porém, esta é apenas a solução final para ter uma ereção juvenil novamente. O urologista Dr. Caio da Silva Schmitt é um dos responsáveis pelo milagre da “ressurreição dos mortos”. Ele diz que boa parte de seus pacientes são senhores entre 60 e 70 anos que ainda querem mostrar serviço, principalmente fora de casa. “Alguns pacientes nos procuram porque em casa não possuem mais vida sexual ativa, e querem agradar as amantes. Aí dizem para as esposas que vão fazer uma viagem de negócios e ficam internados para colocar a prótese”, explica. O paciente pode optar por três tipos de próteses para reativar seu amigão. A mais comum delas é a semirrígida, uma estrutura maleável de silicone com fios de prata no interior, que vai dentro do corpo cavernoso do pênis. O grande problema deste modelo é que o cara fica com ereção permanente. Depois do sexo, é preciso “dobrar” o dito cujo para baixo para diminuir o volume dentro das calças. “Com uma cueca apertada, passa despercebido. Só vai ser perceptível se ele for de sunga para a praia”, diz o médico.

As outras duas possibilidades estão nas próteses infláveis. A grande vantagem delas em relação à anterior é que elas “murcham”. Dentro do pênis vão dois volumes infláveis, ligados a uma bombinha com soro fisiológico que vai dentro do saco. Quando o homem quer ter uma ereção, ele fica apertando o saco até encher os balões com o líquido. Quando quer dar por encerrados os trabalhos sexuais, ele aciona a válvula dentro do saco para o líquido voltar ao recipiente inicial. Não é uma maravilha da ciência? E o que é melhor: não há o risco de o cara se emocionar apertando o saco e explodir o pinto por bombeamento excessivo. As próteses infláveis já custam mais caro. A com dois volumes custa R$ 12,5 mil. Já a com três volumes (dois que vão dentro do pênis, e um que fica na altura da bexiga com o líquido para bombear) sai por R$ 36 mil. O único incômodo que ela pode causar é a autoinsuflação. Ou seja, dependendo da forma como você sentar, ou apertar a barriga, pode provocar uma ereção involuntária – o que pode ser até agradável, já que ereção involuntária é uma coisa que este pessoal não tem faz tempo. Da parte feminina, não há o que se preocupar. A prótese só é perceptível pelo toque da mão. Por fora, ele é apenas mais um membro viçoso pronto pro game por quantas vezes elas quiserem. Apesar de a ereção ser mecânica (chamada pelos usuários como “pênis gelado”), o cara pode gozar muitas vezes sem o “moleque” sequer demonstrar sinais de cansaço.

Em casos de amputação do pênis ela também é utilizada. Segundo o urologista, “são casos raros, porém mais comuns do que se possa imaginar”. Já passaram pelo consultório pacientes que arrancaram o pau por estarem demasiadamente chapados, e também pela crença religiosa excessiva. “Teve um paciente que acreditava que ter ereção antes do casamento era pecado. Chegou ao ponto em que ele, para não pecar, cortou o pênis fora. Quando percebeu que tinha feito uma bobagem, colocou uma toalha no meio das pernas e veio para o hospital”, conta. Em casos em que não há a possibilidade de reimplantar o pau, este é reconstituído através de enxerto de pele. E mesmo após uma cagada dessas, o cara volta a ter prazer e ejacular normalmente. É bom avisar que turbinar o pinto com uma prótese é o último recurso para aqueles que possuem disfunção erétil. O médico explica que, antes de ir para a mesa de cirurgia, o paciente passa por um tratamento médico, que pode incluir o famoso Viagra, como também injeções de vasodilatadores direto no pinto. Só quando estes recursos não funcionam é que o salame entra na faca. Outros dois fatores que provocam a impotência são a baixa autoestima e a má qualidade de vida. Ou seja: pratique exercícios e trate suas neuras para não ficar broxa.

32 VOID#64newnew.indd 37 void.pdf 37

10/18/10 19:52:25 3:14 PM 18/10/2010


NEM PARECE QUE NÃO TEM TEM MUITA GENTE QUE CIRCULA POR AÍ NA MAIOR TRANQUILIDADE E NEM PARECE QUE USA UMA PRÓTESE. OU QUE TODO MUNDO PENSA QUE USA, MAS NA VERDADE É FRESCURA POÉTICA. SACA SÓ:

ROBERTO CARLOS O rei da música brasileira perdeu parte da perna direita na infância, quando brincava nos trilhos do trem. Foi aí que surgiu a expressão “mais difícil que ver Roberto Carlos de bermuda”. É raro, mas não impossível. DAVID BOWIE Como todo rockstar, Bowie coleciona muitas histórias conspiratórias sobre a diferença entre seus olhos. uma delas diz que o cantor foi atingido por uma faca em uma briga no colégio, e que usa uma prótese até hoje. A verdade é que a briga aconteceu de verdade, mas, no lugar da faca, Bowie levou uma boa porrada no olho esquerdo, provocando a sua paralisia. HELOÍSA HELENA A frontwoman da política arretada que concorreu à presidência em 2006 chegou a expelir um dente em uma entrevista na TV, fazendo o primeiro cosplay de Chiquinha em tempo real (tá no Youtube, manolo!).

HEATHER MILLS A modelo, ativista vegana e ex-mulher do Paul McCartney (sendo mais conhecida por este último fator) perdeu uma perna ao ser atropelada por uma moto da polícia. Chegou a participar do programa americano Dancing with the Stars, em que, em uma das performances apresentadas, sua prótese resolveu fazer uma apresentação solo (também tá no Youtube).

AGRADECIMENTOS: Ortopedia Alves - (51) 3013-5232 AACD POA - (51) 3382-2200 Ortoponto - (51) 3286-3174 Hospital Mãe de Deus – (51) 3378-9999 Dr. Marcelo Soares Davi - (51) 3268-4688

WAGNER MONTES LÁ, LÁLÁLÁLÁLÁ... O jurado do finado Show de Calouros e atual apresentador de programa policial tem uma perna mecânica fruto de um acidente com triciclo. O que a gente não sabia é que a dentição do apresentador também já passou por uma recauchutagem – mal feita, pois ele já perdeu um dente ao vivo no programa. Tá no... Ah, vocês já sabem onde encontrar essas pérolas!

38 VOID#64newnew.indd 38 void.pdf 38

10/18/10 19:52:25 3:14 PM 18/10/2010


# 066

ANO 06 / 2010 DISTRIBUIÇÃO GRATUITA LEITURA NÃO RECOMENDADA PARA MENORES DE 18 ANOS.

#066

FEZES FEZES VOID#66.indd 1

12/14/10 11:39 PM


EXPEDIENTE Direção: Gabriel Rezende Marco Arioli Pedro Hemb Rodrigo Santanna Vicente Perrone Editores: Denise Rosa e Pedro Damasio Repórteres: Felipe de Souza, Piero Barcellos e Gabriela Mo Revisora: Maria edith Pacheco Projeto gráfico e Diagramação: lucas Corrêa e Rafael Chaves @ lava www.lavastudio.com.br Diagramação: Claudio Sudhaus Fotografia: Maurício Capellari Gabriela Mo Planejamento: João Francisco Hein Jurídico: Galvão & Petter Advogados office@galvaoepetter.com.br

VOID#66.indd 6

PONTOS DE DISTRIBUIÇÃO BELO HORIZONTE Black Boots – Rua Fernandes Tourinho, 182 www.blackboots.com.br Blunt – Montes Claros, 189 www.blunt.com.br Brechó Brilhantina – Rua Tomé de Souza, 821 www.brechobrilhantina.com.br Café com Letras – Rua Antônio de Albuquerque, 781 www.cafecomletras.com.br De Rua Skateshop – Rua Paraíba, 1061 Estabelecimento – Rua Monte Alegre, 160 www.barestabelecimento.com La Tosqueria – Rua Claudio Manoel, 329 www.latosqueria.com.br Mini Galeria – Av. Cristóvão Colombo 550 sl.27 – Savassi www.minigaleria.com Tribe – Shopping Del Rey Uzina – Rua Grão Mogol, 908 www.uzinarestaurante.com.br

CURITIBA Airlab – Al. Prudente de Moraes, 1668 www.airlabels.blogspot.com Brique – Rua Duque de Caxias, 380 www.lojabrique.com.br Café Skate Bar – Praça do Redentor, 23 De Outros Carnavais - Rua Duque de Caxias, 378 São Francisco Galeria Lúdica – Rua inácio lustosa, 367 www.galerialudica.com.br Kitinete – Duque de Caxias, 175 Lamb – Vicente Machado, 674 www.lojalamb.com.br Lolitas Salon de Coiffure – Trajano Reis, 115 www.lolitassalondecoiffure.blogspot.com Nayp - Shopping Omar www.nayp.com.br Teix Tatoo – Av. Vicente Machado, 666 www.estudioteix.blogspot.com

PORTO ALEGRE BANX - Alameda Major Francisco Barcelos, 127 www.banx.com.br Callohã – Shopping lindóia www.calloha.com.br Casa Azul Hostel – lima e Silva, 912 www.casaazulhostel.com.br Convexo – Shopping iguatemi Convexo – Shopping Praia de Belas www.convexo.com.br Fita Tape – José Bonifácio, 485 www.fitatape.art.br Matriz Skate Shop – Shopping Total www.matrizskate.com Ocidente – Osvaldo Aranha, 960 Odessa – Rua João Telles, 542 Ossip – República, 677 Panda&Mônio – 5ª Avenida Center www.pandaemonioblog.com Perestroika – Furriel l. A. V., 250/1302

www.perestroika.com.br Sexton –Barão de Sto Ângelo, 152 www.sexton.com.br Swell Skatepark – Viamão www.swellskate.com.br Tow In – 24 de Outubro, 484 Tow In – Barra Shopping Sul www.towin.com.br Vulgo – Padre Chagas, 318 www.vulgo.com.br W House - Rua Santo inácio, 164

RIO DE JANEIRO Addict – Shopping leblon Addict – Rua Aristides espínola, 64 www.verdadeiraidentidadeaddict.com.br Baratos do Ribeiro – R. Barata do Ribeiro, 354 – lj. D www.baratosdoribeiro.com.br Boards Co – Galeria River www.boardsco.com.br Home Grown – Rua Maria Quitéria, 168 www.homegrownrio.blogspot.com La Cucaracha – R. Teixeira de Mello, 31, lj. H www.cucaracha.com.br Plano B – R. Francisco Muratori, 2ª Redley – R. Maria Quitéria, 99 www.redley.com.br Roques – Niterói Street Force – Galeria River

SÃO PAULO American Apparel - Rua Oscar Freire, 433 www.americanapparel.net B.Luxo – R. Augusta, 2633 lj. 18 www.brecholuxo.blogspot.com Bacuri - Rua Alagoas, 852 www.bacurisucos.com.br DCK – R. Augusta, 2716 www.dckstore.com.br Eastpak – R. Augusta, 2685 www.eastpak.com.br El Cabriton y Amigos - Rua Augusta, 2008 www.elcabriton.com Forever Skate – Galeria do Rock www.foreverskate.blogspot.com Galeria Choque Cultural – João Mora, 997 www.choquecultural.com.br Hotel Tee’s – R. Augusta, 2633 – lj. 20 www.hoteloja.blogspot.com Japonique - Rua Girassol, 175 www.japonique.blogspot.com Kebabel – Rua Fernando de Albuquerque, 22 Kebabel – Rua João Moura, 871 www.kebabel.com.br Matilha Cultural – R. Rego Freitas, 542 www.matilhacultural.com.br Maze Skateshop – R. Augusta, 2500 www.mazeskateshop.com.br Me Gusta – Rua Augusta, 2046 Mercearia São Pedro - Rua Rodésia, 34

Nike Sportwear – Praça dos Omaguás, 100 www.nike.com Polaco Tatoo – Rua 24 de Maio, 225 - 1º andar www.polacotattoo.com.br Rip Curl - Rua da Consolação, 4544 www.ripcurl.com.br Super Cool Market - Rua Purpurina, 219 www.supercoolmarket.com.br Terraço Major – Rua Major Maragliano, 421 www.terracomajor.wordpress.com Visionaire – Galeria Ouro Fino www.visionairestore.com.br Volt – R. Haddock lobo, 40 www.barvolt.com.br Wave Boys – Galeria Ouro Fino www.waveboys.com.br Z Carniceria – R. Augusta, 934 www.zcarniceria.com.br

UNIVERSIDADES BELO HORIZONTE Fumec FCH – Rua Cobre, 200 www.fch.fumec.br Una – Rua da Bahia, 1764 www.una.br

CURITIBA PUC – DCe www.pucpr.br

PORTO ALEGRE ESPM – Bar Prédio 2 ESPM – Bar Prédio 3 www.espm.br PUC – Administração PUC – FAMeCOS www.pucrs.br UFRGS – Arquitetura www.ufrgs.br/arquitetura/ UFRGS – Fabico www.ufrgs.br/fabico/ Uniritter – Orfanatrófio, 555 www.uniritter.com.br

RIO DE JANEIRO ESPM – Rua do Rosário, 90 www.espm.br PUC – CACOS PUC – CRAA www.puc-rio.br

SÃO PAULO Belas Artes – DvCM www.belasartes.br ESPM – CA4D www.espm.br FAAP – CA de Arte

12/14/10 11:53 PM

VOID


POR PIERO BARCELLOS

Nós já fizemos muita merda nas páginas desta revista. Admitimos. Porém, desta vez nós chafurdamos na diarreia da demência humana, rompemos com os limites da linguagem literal e compramos um cocô. Mais simples impossível. Até porque não há nada mais simples do que cagar! Não adianta ter nojinho. A menos que Deus tenha te sacaneado no projeto de engenharia, você nasceu com um cu. A principal função dele é ser o duto de saída de esgoto do corpo (apesar de algumas pessoas descobrirem outras utilidades seguindo na direção contrária). Quando menos se espera, a natureza chama dando uma fisgada no baixo-ventre. É hora de passar um telegrama pra Boston e eliminar tudo o que seu organismo não precisa mais. Agora, o que vai ser eliminado só depende de você e da sua dieta.

Fato é que a merda é um tabu social gigantesco. Tanto que propaganda de papel higiênico tem labradores, e produtos para cagar melhor têm pessoas esbeltas e sorridentes. Ora, não conhecemos ninguém que tenha limpado a bunda com um cachorro, mas sim muitas pessoas felizes com barriguinhas murchas depois de sujar a louça. Cagar é alegria, e às vezes é até sinônimo de orgulho, dependendo do tamanho do toroço que suas tripas expelirem. Pois eis que neste universo intrínseco da bosta existem pessoas que fazem disso seu ganha-pão. E não, não estamos falando de adubos orgânicos. Entramos de vez no limite da caudalonga para comprovar que há mercado pra tudo. Inclusive para quem curte uma chuva negra no conforto e solidão do seu lar.

28 VOID#66.indd 28

12/17/10 3:46 PM


enquanto você descarrega a sua podridão na privada, puxa a descarga e dá tchau, tem gente que ganha dinheiro com isso. um bom dinheiro, diga-se de passagem. Obviamente não é uma coisa comum, do tipo ir na padaria e dizer “me vê 200 gramas de merda, por favor?”. É por isso que os comerciantes de cocô não são tão populares por aí. Alguns preferem o anonimato e, pelo fato de pessoas que compram merda não se enquadrarem num consenso de normalidade, optam pelo distanciamento físico. Coisa que só a internet faz por você. em sites de arremate existe um mercado underground que atende aos sonhos de qualquer pervertido que se preze. Quer uma calcinha com fluidos de xereca? em dois cliques já ta na tela. lingerie com uma freada de Monark no rego? Só digitar o número do cartão e receber em sua casa. “e se eu quiser só a merda, tem como?” Tem sim, e um potinho com um gomo de tolete custa R$ 50. Sabemos disso porque comprovamos in loco! Duvidamos, é claro. Até o dia em que uma pequena caixa do Sedex chegou na redação. No meio de um emaranhado de plástico-bolha, lá estava a nossa encomenda. Visualmente passaria tranquilo por uma amostra de sorvete de chocolate. Até a hora em que tiramos o tampão da bagaça e presenciamos o ambiente ser tomado pelo amargo cheiro da putrefação. Nossa encomenda chegou intacta e fresca! A “fornecedora” da vez foi Carina Cardoso, uma menina de bem, casada, com filhos, que trabalha como supervisora de atendimento de uma grande empresa de São Paulo, e que descobriu que pode complementar a renda da família vendendo não só lingerie cagada como também a própria merda. Carina ganha cerca de R$ 350 ao mês com o esforço do seu esfíncter. Você, que está lendo isso comendo barrinha de cereal e tomando Activia, já pensou em repor o dinheiro gasto com esses reguladores intestinais usando o “efeito” deles para fazer dinheiro? Quer enviar o seu humilde tolete para alguém? Fica a dica de presente de Natal para o seu pior inimigo. Ou para a galera aqui da Void. Temos um novo estagiário para abrir correspondências.

VOID#66.indd 29

12/14/10 11:54 PM


DESARRANJO PSICOLÓGICO Se você pensa que vamos cortar o rabo do macaco por aqui, está enganado. Antes de Carina, muitas pessoas já olhavam o cocô com outros olhos. Sigmund Freud foi um que conseguiu ver a merda de uma maneira profunda (a bosta bate na água e a água bate na bunda. Rá!). De acordo com a psicanalítica, todos nós passamos pela chamada “fase anal” durante a infância, em que, de acordo com a psicanalista Katia Wagner Radke, a criança aprende a controlar, dominar seu esfíncter, desapegar de uma parte de si que está indo para o esgoto e aplicar esse aprendizado em suas relações com o mundo. e aí é que está a merda! Quem hoje tem probleminhas de relacionamentos, tiques nervosos, inseguranças, psicopatias, esquizofrenias, verrugas e transtornos compulsivos pode ter tido questões mal resolvidas com seu próprio cu nessa etapa da vida. A cartilha diz que devemos aprender a cagar com naturalidade e no momento certo, livrar-nos do produto corporal para uma vivência de domínio plena, criando barreiras saudáveis para manter uma distância higiênica da merda. “Quando a aquisição desses diques é precária, a pessoa não desenvolve a noção de nojo pelo seu excremento e, em casos de grave distúrbio mental, pode desenvolver sintomas como a coprofagia”, alerta a psicóloga Helena Surreaux. Se você se identifica com essa parcela fedida da sociedade, você está catalogado como um portador de uma profunda desorganização psíquica, segundo Freud, é claro. e como a Void não está aqui para julgar nem analisar ninguém, se você quer comer ou erotizar suas fezes o problema é seu. Não sabe o que coprofagia significa? então é bom cuidar o que anda colocando no seu prato. Se for marrom e fedido, você está quase lá!

30 32 VOID#66.indd 30

12/14/10 11:54 PM


COCÔ VERDE GELADO

COCÔ S2S2

Todo mundo tem uma história de cocô de quando era criança que é retirada do limbo em toda reunião de família. Se você, como um ser desprovido de consciência, chegou a meter a mão na merda, quiçá a boca, será um fato lembrado por gerações. Até aí você era criança e nem via nada demais em brincar com o toroço. Depois você cresce e vai aprendendo que cocô é sujo, não é higiênico, e que o lugar dele é no troninho. Mas quando a criatura já adulta questiona que gosto tem a bosta, dá uma provadinha pra ver qual é, e acaba gostando, entramos na coprofagia (ingestão das próprias fezes ou das fezes dos outros). Fomos atrás de casos, mas não encontramos fontes a fim de dizer “eu como merda e me lambuzo”, tudo por causa dessas tais de barreiras sociais. Coitados, são oprimidos. Se você gosta, conta para a gente sem fazer cu doce, tá? Sem preconceitos. Só avisa antes de vir querer dar beijinho.

Todo mundo dá uma olhadinha pra privada antes de dar tchau pro cocô. É inevitável, seja pra ver o resultado daquela massa ao pesto depois de processada pelo aparelho digestivo, seja pra constatar que o milho da pipoca realmente não foi dissolvido. Dentro da normalidade podemos ter um carinho especial pela nossa obra. Tem gente que bate foto do cagalhão e ainda exibe pros amigos com uma certa aura de orgulho: “Filho meu, fui eu que fiz. Tem até CPF”. Ok se você é assim, ninguém vai te receitar Gardenal. É normal que tenhamos uma relação mais aberta nesse sentido, chega a ser engraçado – pelo menos. então não se prenda, tome um Activia e deixa fluir a brincadeira! Mas claro que existe um limite, uma linha não muito tênue entre ser aberto e ser esquisito.

No Japão, o restaurante Modern Toilet estimula a galera a curtir a coprofagia. Além de todos os pratos parecerem com merda, nos seus mais variados formatos, as cadeiras do estabelecimento na verdade são vasos sanitários. As sobremesas são sorvetinhos de chocolate que remetem ao cocô de cachorro, servido em pequenas privadas. e você pode solicitar de flocos, ou incrementado com passas para dar mais consistência ou pedir na versão tolete. Já dá para começar por aí e se acostumar com o design da coisa. Ainda na ásia, existe um café caríssimo produzido a partir dos grãos ingeridos e defecados pelo luwak, uma espécie de sagui. São produzidos apenas 450 quilos por ano, e o quilo custa mais de uS$ 440. e você achando que merda não valia nada.

31 VOID#66.indd 31

12/14/10 11:55 PM


CAGAR É UMA ARTE COCÔ FÁLICO Agora, se comer (ou beber, se for uma infecção intestinal) é, hum, “diferente”, pense que tem gente que encara aquele bostão duro de frente e sente um CliMÃO MANeiRO. isso acontece, e é a coprofilia, quando a merda faz uma participação especial previamente combinada na hora do sexo, provocando tesão em todos os envolvidos – a modalidade é conhecida por especialistas como “chuva negra”. É um nível avançado de amor ao cocô. O filme 2 Girls one Cup, suposto trailer do pornô Hungry Bitches, feito pela produtora brasileira MFX Media, ilustra bem essa história. O vídeo mostra duas garotas se deliciando e se lambuzando com o creminho marrom uma da outra – um enredo para poucos. Se existe a produção desse tipo de pornografia é porque existe audiência. Muita gente de respeito mantém a prática na intimidade para não ser ridicularizado. e ela acontece muito em relações de dominação durante o sexo, no sadomasoquismo, por exemplo. então olhe para aquela patricinha toda cheia de frufrus, ou pro seu amigo puxador de ferro na “kdimia”, e pense que qualquer um deles pode curtir enfiar a cara no meio de um balde de merda entre quatro paredes e você não sabe. Melhor nem pensar. Se são eles o mercado consumidor deste nicho da pornografia, você não vai querer saber, tampouco tomar água no mesmo bebedouro que eles, certo?

Tem gente que solta aquele barro violento, num formato meio abstrato, e se acha um artista. Tá certo que o resultado de algumas cagadas é mais expressivo que muita intervenção artística por aí, mas tem gente que leva o negócio ao pé da letra. O italiano Piero Manzoni foi um dos pioneiros a misturar arte com merda, assim, de maneira literal. O cara defecou em 90 latas (haja intestino) nos anos 60 e nomeou-as como Merda d’artista, fechou todas e expôs. Cada louco com suas manias, certo? O surpreendente foi a Merda d’artista ser vendida no meio deste ano por 120 mil euros. Será que mesmo depois de 50 anos lacrada no alumínio a bosta continua com a mesma consistência e odor? usar cocô pra fazer desenho de um merda chega a ser irônico. Foi o que o alemão Martin von Ostrowski fez: utilizou a ponta dos dedos e os seus próprios excrementos para pintar um retrato de Hitler. uma mistura de protesto com muita coragem e falta de asco. Ostrowski já usou também, em vez de tinta óleo, esperma parar criar suas obras. ele poderia justificar tudo isso dizendo “Ninguém pinta como eu pinto” (tum-dun tsss), mas seu discurso é “eu existo assim como faço digestão, assim como produzo sêmen”. Nem toda arte precisa fazer sentido. Aliás, no mundo das artes, a merda já tem virado clichê – e anda bem cotada. Mais recentemente, Wim Delvoye esculpiu a Cloaca, uma reprodução do sistema digestivo humano em seus mínimos detalhes e especificidades. É uma máquina de 200 mil dólares e 12 metros de extensão para digerir e produzir nada menos do que cocô. O artista belga coloca-se lado a lado com Deus, que considera o “maior criador de merda” que já existiu. Você duvida?

32 VOID#66.indd 32

12/14/10 11:55 PM


MERDA LITERÁRIA Além deles, poetas também expressam suas emoções através da merda. É o caso de Paul Valéry, que na prosa diário de Emma, de 1923, escreveu: “Comer, respirar! O que entra é mais sujo do que o que sai! Pois o que sai do homem é puro, elaborado, produto sábio de uma indústria muito complicada. Oh corpo inglorioso, algum santo deveria ter amado seus excrementos! Quando ainda interiores, eles são sagrados, como o eu: e quando eu digo eu, eles estão compreendidos. Depois, eles se fazem distintos ainda em mim, e imperiosos. estranhos a serem expulsos. eles são entretanto MiNHA criação, minha obra mais importante”. No Brasil, o escritor Rubem Fonseca dissertou sobre a merda em sua obra secreções, excreções e desatinos, de 2001. A obra inicia com uma reflexão simples: “Por que Deus, o criador de tudo que existe no universo, ao dar existência ao ser humano, ao tirá-lo do nada, destinou-o a defecar? Teria Deus, ao atribuir-nos essa irrevogável função de transformar em merda tudo que comemos, revelado sua incapacidade de criar um ser perfeito? Ou sua vontade era essa, fazer-nos assim, toscos? ergo, à merda?”. Se você pensava que só os livros de autoajuda eram uma merda, passe a rever seus conceitos...

EVERYBODY LOVES COCÔ Agora que estamos em clima natalino, não há como esquecer Mr. Hankey, o tromoço com chapéu de Papai Noel e símbolo do espírito de Natal no desenho animado South Park. Os criadores pensaram em Hankey como uma crítica ao falso moralismo e sensibilidade religiosa das pessoas no fim do ano. Bastou um episódio para que o cocô falante se tornasse popular, tanto que hoje você pode comprar nos euA uma réplica do personagem por até uS$ 11 e dar de presente praquela sua tia carola no amigo secreto. Agora, se o seu negócio é foder com um desafeto, o esquema é caprichar na bosta. O site www. cocomania.com.br eleva isso a níveis épicos, dando a possibilidade de mandar até um quilo de bosta de elefante para quem você quiser, e de maneira anônima, o que é melhor. Você ainda pode optar pela merda de outras espécies, como cavalo, vaca e carneiro. Pense o quão fétido deve ser um tolete de elefante! Mandar pra alguém é pedir pra figura ficar uma semana interditada até sair o aroma fedegoso. Faça um pedido e coloque um generoso sorriso no rosto. No seu, claro.

33 VOID#66.indd 33

12/14/10 11:55 PM


34 VOID#66.indd 34

12/14/10 11:55 PM


EVERYBODY HATES COCÔ Também tem os frescos. Os intolerantes. Os conservadores. Os impecáveis, que desenvolveram grande nojo e associam diretamente o excremento à sujeira. Não mais saudáveis do que os que cultuam a merda, os limpinhos também sofrem, ficam constipados, não largam o número 2 fora de casa e precisam preparar todo um ritual, que pode envolver horários, revistas, sons, odores e banhos demorados só para soltar um barro. Essas pobres almas são presas ao seu lar, não podem viajar por períodos muito longos, ficam dependentes de certos tipos de alimentos e podem até ser mais inchados e barrigudinhos do que os cagões. O risco de segurar seus ímpetos naturais é grande. Quando o intestino não funciona como um reloginho e você não sente vontade de colocar a máquina de churros pra trabalhar por muito tempo, pode ocorrer um empedramento de cocô, em que ele tem que ser tirado cirurgicamente no hospital. A famosa prisão de ventre pode ser tão intensa que a bosta literalmente vira pedra de verdade, tampando seu cu como uma rolha e provocando dores terríveis. As fezes ressecam e, se não for feita uma lavagem, a merda vira fecaloma, vulgo empedramento. Dizem que Elvis Presley morreu disso. Na necropsia do cantor, foi encontrado em seu intestino o dobro de fezes considerado normal. Uma cirurgia teria garantido a vida do Rei do Rock, mas ele preferiu morrer a cagar. Ninguém avisou que um Lactopurga ajudaria. A este tipo de pessoa, dedicamos nossos sinceros desejos de liberdade. Não deixe seu cu fazendo bico por muito tempo. Relaxe e liberte todos esses cagalhões que ocupam seu interior. Você vai se sentir mais feliz, relaxado, e com a pele lisinha. E lembre-se que todo mundo caga (menos a Sandy, claro), e que este nobre ato é o que aproxima as pessoas de seus semelhantes e da natureza. Portanto capriche na ração humana, abuse da maionese, e deguste aquele cachorro-quente de dois contos da esquina sem medo de cagar violentamente e ser feliz.

O SARgEnTO CEliTO POR MAURÍCIO CAPELLARI

A REAL INSPIRAÇÃO DESTA MATÉRIA SURGIU NUMA REUNIÃO DE PAUTA, QUANDO NOSSO INTRÉPIDO FOTÓGRAFO SACOU A FOTO DE UMA CAGADA QUILOMÉTRICA. EIS A SUA HISTÓRIA. Algumas coisas na vida não carecem de explicações. E eu não vou explicar aqui o motivo que me faz carregar, há quase duas décadas, uma foto velha, porém nítida, de um cocô. Eu a carrego na minha carteira, junto com documentos e algum dinheiro. Não é uma foto qualquer, não é um cocô qualquer. A foto tem dedicatória, e o cagalhão tem história. A merda foi defecada em algum lugar do passado, num quartel do famigerado exército brasileiro, e atribuída sem provas ao então grosseiro e ríspido sargento Celito. Pode até ter sido cagada por outro sargento, de repente foi expelida por algum oficial. A julgar pelos pratos animalescos que a maioria dos soldados costumavam devorar, pode ser que tenha sido arte de um desses praças sem relevância. Mas não sei, desconfio que não. Nunca se saberá ao certo quem produziu esta volumosa escultura que beira a perfeição divina dos moldes excrementares. Morreremos com essa dúvida. Nada vai nos levar de volta ao fato, de volta àquela privada, de volta àquela cagada solitária. Eu ganhei a foto de um amigo no exato dia em que fui expulso da corporação sob alegação de que minha ausência na tropa seria um bem à disciplina. O Sargento Celito estava de folga. Tudo naquele ano, pra mim, pode ser resumido como uma grande cagada. Para o nosso nobre sargento, uma grande cagada é uma coisa à toa. Recorte e guarde o seu Celito. Se você estiver na rua, apertado para cagar, e não houver banheiro por perto, ore. Apenas ore para o Santo Celito das Merdas Colossais. Funciona.

35 VOID#66.indd 35

12/17/10 4:00 PM


PoR PieRO BARCellOS

foToS MAuRiCiO CAPellARi

54 VOID#66.indd 54

12/14/10 11:56 PM


leilão é um negócio que inverte a lógica do comércio. enquanto a maioria das pessoas chora um desconto mirrado, ou aceita que o juro do parcelamento lhe coma a bunda todo mês, neste evento é diferente. Porque, na verdade, a bagaça toda É um evento mesmo, um encontro místico que só o capitalismo selvagem e a gana da disputa entre quem paga mais pode proporcionar. Quinta-feira, nove e pouco da manhã. O fotógrafo Mauricio Capellari e eu quase nos perdemos no meio do caminho pra chegar até o nosso destino. esquerda, direita, dobra na rótula, pega estrada de areia, volta pro asfalto, pede informação pra um daqueles seres estranhos que caminham em beira de estrada, e lá chegamos. Onde? Na Reinaldo Pestana leilões! O lugar tem um pátio enorme, lotado com toda sorte de veículos em quatro rodas. Ou que já foram um dia. ia desde uma pickup importada inteirona até uma massa disforme de metal com pneus, coisa gerada em algum acidente, todos com um número em cima para identificar o lote a que pertenciam. em volta dos carros, os futuros compradores passam, olham, levantam o capô, colocam a mão no queixo, balbuciam alguma coisa como “meh” e “hummm”, folheiam uma listinha e vão olhar outra coisa que lhes interessam. A tal lista é distribuída pro pessoal antes de o leilão começar. lá contém o número e os dados de cada lote a ser arrematado. um lote não precisa necessariamente ser composto de um objeto apenas. Óbvio que você não vai encontrar coisas do tipo “um fusca e uma caixa de mariola”. Há uma relação de valores – e de lógica – a ser respeitada. Mas, neste caso específico, cada lote equivalia a um veículo. O esquema na Reinaldo Pestana são os leilões extrajudiciários, que envolvem patrimônio de empresas privadas. Digamos que a empresa X, do ramo de varejo, vai renovar a sua frota de carros. então ela pega a velharia e deixa isso com o leiloeiro. O mesmo para bancos, que retomam bens de gente que deixou a dívida na pindura, e deixam nas mãos do seu Reinaldo para que ele bata o martelo pelo melhor preço.

55 VOID#66.indd 55

12/14/10 11:56 PM


ÃÃÃÃÃÃ! ! ! Antes de falar com o seu Reinaldo, fomos acompanhar como funciona a bagaça in loco. No mesmo pátio onde ficam expostos os carros a serem leiloados está instalado um salão gigante. Em termos de comparação, a estrutura é similar à das igrejas evangélicas que transmitem o culto na TV. Tem cadeiras perfiladas, púlpito, telão, gente com cara de quem comeu o pão que o diabo amassou. Só não tem oração, nem capeta. Ao menos a olho nu não se podia ver nenhum deles. Enquanto os futuros arrematadores se acomodam em cadeiras de plástico acompanhando os lances, os leiloeiros ficam no palco coordenando tudo. A função exige mais de um no comando do martelo para irem se revezando e permitir que o esquema siga num ritmo frenético até o último lote ser disputado. Além deles, uma equipe faz o registro dos lances, seleciona as imagens que vão para o telão e fazem o contato com as empresas para troca de informações em tempo real. Quem puxa a galera com a maestria de um apresentador de programa de auditório é o próprio Reinaldo Pestana. “Lote 23. Kombi Wolksvagen ano 2004. Vamos lá, pessoal, quem começa? Vejam só, é uma bela duma peça, não?”, ele fala enquanto o telão exibe uma carcaça pelo avesso que, se me dissessem que era uma intervenção artística urbana, eu acreditaria. Ouve-se um grito seco. “ÃÃÃÃÃÃÃ!!!” No meio do povo ficam os pisteiros, responsáveis por ressaltar quem foi o caboclo que deu o lance. Para isso usam uma bandeirinha e o gogó. O inferno sonoro fica mais ou menos assim: ÃÃÃÃÃÃÃ! MIL! ÃÃÃÃÃÃ! MIL E QUINHENTOS! ÃÃÃÃÃÃ! DOIS MIL! E por aí vai, até que alguém desiste e o seu Reinaldo faz a contagem final: “Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três, vendido”. Tem gente que diz que num leilão você consegue adquirir bens por um preço sensato, até mesmo abaixo do esperado. Pelo que vimos, há essa possibilidade, como também existe a discrepância. Teve veículos que foram comprados por valores iguais ou maiores do que se estivessem expostos em uma concessionária. Em compensação, você não pode berrar e disputar o bólido lance a lance dentro de uma loja de seminovos. Se o ônus é a grana, o bônus é a diversão.

O DONO DO MARTELO Conversamos com o seu Reinaldo depois de quase três horas de falatório, animação e lotes arrematados. Saindo do burburinho e da agitação, ficava mais evidente o forte sotaque português do leiloeiro. De família lusitana, veio para o Brasil nos anos 50. “Sempre gostei de assistir a leilões. Até que um dia eu fui convidado a leiloar”, disse. Atuou na área jurídica até mudar de ramo e abrir a sua empresa, há 27 anos. O mais curioso é saber em que parte o leiloeiro lucra na história. Segundo o próprio, na hora do arremate, o comprador já paga uma taxa de 5% em relação ao valor da compra, que vai direto pro caixa da firma – o que explica boa parte do frenético “não para não para não para” do evento. Quanto ao clima descontraído da função, Reinaldo explica: “Vem muita gente do interior, de outros estados. Chegam aqui cansados. Então tem que rolar uma piadinha ou outra pra animar um pouco”. Apesar dos chistes, ele afirma várias vezes a seriedade da profissão, bem como o respeito pelas normas dos leilões. Comprovei isso quando perguntei se havia a possibilidade de algum conhecido chegar para ele e tentar comprar um carro ou outra mercadoria antes da disputa. Na hora o rosto ficou vermelho e o tom de voz mudou: “Se alguém me faz esta proposta, mando dar meiavolta e nunca mais aparecer na minha frente porque isso, além de ser crime, é uma falta de respeito!”. Reinaldo Pestana pode dizer que já leiloou de tudo um pouco. De terrenos que custavam milhões até uma dentadura com três dentes de ouro. “A dentadura foi confiscada por motivo de dívida. Achei que não ia conseguir vender um negócio daqueles, mas consegui. Quem arrematou foi o próprio dono”, conta.

Pra ser um leiloeiro O sistema de leilões surgiu na época do Império Romano. Soldados levavam escravos e mercadorias apreendidas nas batalhas para as cidades e as expunham à venda em praça pública. Mulheres também eram postas à venda – saía vencendo quem pagava o dote maior para a família da moça. Fato é que nos dias de hoje você não precisa ser um saqueador romano para se tornar um leiloeiro. Basta ser uma pessoa alfabetizada, se expressar bem e ter o registro de leiloeiro na junta comercial do estado onde vive. Ah, é claro que ter boas relações com as pessoas do meio ajuda, e muito. O martelo, símbolo da ordem e do fechamento dos negócios, custa cerca de R$ 50 e pode ser encontrado (veja só) no Mercado Livre!

56 VOID#66.indd 56

12/17/10 4:09 PM


57 VOID#66.indd 57

12/14/10 11:56 PM


PROFISSÃO: PISTEIRO imagine a seguinte situação: o cara chega naquela mina gostosa na balada, cheio de amor pra dar, mas quando ela pergunta o que ele faz a resposta sai quase automática: sou pisteiro de leilão. e aí, gata, vai encarar? Acha que ele vai pedir pra rachar o motel, ou vai te levar pra uma suíte de luxo e dá-lhe uma, dá-lhe duas, dá-lhe três? enquanto dividíamos nossa atenção entre o que acontecia no ambiente e um generoso salgado folhado, ficamos na espera de leonardo Parmeggiani, 21 anos, quatro deles dedicados a apontar pessoas com uma bandeirinha e gritar. logo entendemos por que o mancebo foi indicado para falar sobre o astuto ofício de pisteiro. O rapaz é sobrinho do seu Reinaldo. Mas, apesar de ter conseguido essa barbada com um tiquinho de nepotismo, garante que não é assim tão fácil. “Tem muita gente que vem pra cá achando que é moleza, mas se for incompetente não fica aqui. O dono pode ser meu tio, mas, se eu não fizesse meu trabalho direito, já estava na rua”, conta. leonardo é estudante de educação Física. Trocou o estágio com turnos diários pela ocupação atual realizada duas vezes por mês. “A grana é boa, e varia de acordo com o tipo de leilão.”

Mas, antes que vocês deem uma bicuda no trampo atual e digam que seu sonho de carreira é apontar para as pessoas e gritar, avisamos que a renda é pouco superior a um salário-mínimo. O que leva a crer que estagiários de educação Física são os escravos do século XXi. Falando em carreira, nem o próprio leonardo queria estar ali. “A última coisa que eu queria fazer na vida era ficar gritando no meio das pessoas. Mas acabei pegando gosto da coisa”, explica. e declarou: “eu gosto é de ganhar o lance. Acaba rolando uma competição indireta entre nós, pisteiros. Gosto quando o cara que eu estou sinalizando ganha a disputa”. Como alguns já são rostos conhecidos, o pisteiro acaba criando um laço de afinidade com o frequentador de leilões. “eu já conheço a figura, e vejo que ele está indeciso, se vai ou não vai em um lote. Aí, quando o lance está quase fechando, eu me antecipo e grito. Por incrível que pareça, nunca tive problema com isso. um dia um comprador até agradeceu por isso e me deu uma Playboy de presente.” Sei não, mas com um presente desses tudo indica que o lance que ele queria era OuTRO.

58 VOID#66.indd 58

12/14/10 11:56 PM


CALOR E POVÃO

RITMO DE FESTAAA

Depois de saber como é a sistemática de um leilão, convencemos o FMi da redação a liberar uma pequena verba para sentir na goela o gostinho da disputa. Pequena mesmo, o que inviabilizou logo de cara a tentativa de arrematar uma Belina para ser nosso transporte de operações especiais, mas fez brilhar a possibilidade de levar para o QG um conjunto de tacos de golf, uma bicicleta ou uma minimoto. Mercadorias tão discrepantes assim só poderiam ser vistas em um leilão da Receita Federal.

Pensei que o fato de ser um leilão da Receita Federal teria algum tipo de pompa. Até mesmo pelo nível dos carros lá estacionados. ledo engano. Churrasquinho de gato assando perto da entrada do ginásio, ambulantes com snacks sortidos circulando do lado de fora. Dentro, o povo se concentrava nas arquibancadas, lotando cerca de 1/3 do espaço, se aglomerando o máximo possível em frente à estrutura montada na quadra para a equipe do leilão. José Schitz é Presidente da Comissão de leilões Municipal. Ou seja, ele é o responsável por organizar e fiscalizar esses eventos, a fim de que tudo dê certo. “Daqui a pouco chega o leiloeiro, e aí os trabalhos começam”, disse com uma voz soturna o homem magro vestido de preto, que lembrava muito José Mojica Marins em áureos tempos.

Diferente do anterior, o leilão dessa vez contemplava as mercadorias apreendidas em portos, fronteiras e demais apreensões policiais. Os produtos ficam expostos em lugares diversos, e podem ser vistos horas antes do início da sessão. A sistemática de pagamento continua a mesma: dinheiro na hora ou nem arrisque a disputar. O local onde haveria a disputa dos lotes foi o ginásio municipal. Calor dos infernos cozinhando os miolos, somado à dificuldade de encontrar uma vaga para estacionar. Pelo nível dos carros, dava pra crer que os responsáveis pelo PiB da cidade decidiram se encontrar para jogar um futsal. Só bólido importado, daqueles que você vende um rim pra poder encerar. Dizem que a vantagem de se comprar um carro num leilão é a possibilidade de pagar cerca de 60% mais barato do que no mercado comum. Mas quem tem grana pra andar de Hilux por aí não precisa sair de casa e passar trabalho só para comprar um novo “brinquedo”.

A aura “dark” de Schitz se dissipa quando o evento começa. Aí ele deixa emergir aquele pequeno Silvio Santos que existe dentro de cada um de nós. Povo suando em bicas dentro daquele caldeirão, e ele solta um “bom-dia, amigos!” com tamanha animação que foi correspondido. “Que plateia animada nós temos aqui hoje!”, falou ao microfone, cujo sistema de som e acústica tratava de abafar a ponto transformar a voz de um representante do Ministério Público em um grunhido de urso. “Hoje o nosso leiloeiro veio de uruguaiana, veio de longe, então palmas pra ele! Mais palmas, porque ele é bom, muito bom!” Qual é o próximo passo? Aviõezinhos de dinheiro?

Pisteiros já se posicionavam nos melhores lugares para não deixar nenhum lance escapar. entre eles, uma loirinha que pra gostosa não servia, mas cuja calça atochada provocava reações instintivas dos detentores de bagos, como assovios e outros elogios de pedreiro que a moça ignorava solenemente, mas volta e meia deixava escapar um sorriso de canto de boca. O primeiro lote foi o de uma bicicleta de criança. Quando o leiloeiro iniciou a disputa em R$ 50, começou o frenesi. Dez segundos, e o negócio estava vendido por R$ 250. ligaram as pessoas no modo turbo. Segunda bicicleta e lá foi o homem apontando seu martelinho para o lado que indicavam. ”CiNQueNTACeMCeNTO eCiNQueNTADuZeNTOSDuZeNTOS eCiNQueNTATReZeNTOSDOulHe uMADuASTRêSVeNDiDO.” Nossa esperança de adquirir um bem pra redação foi embora aí. Com os dinheiros milimetricamente contados, nossos objetos de desejo ultrapassaram consideravelmente a cota de gastos prevista. Não foi dessa vez que entramos para a panelinha do golf no Country Club, ou fizemos rachas com uma minimoto menor que um metro de altura. Ao meu lado, um grupo de quatro marmanjos havia comprado um lote com duas bicicletas infantis, e estavam se preparando para arrematar mais itens. um deles, Gabriel Martins, tem uma revenda de automóveis. ele compra veículos nos leilões por um preço abaixo do mercado para depois vendê-los pelo valor real. “Como eu tenho uma filhinha, e o meu amigo aqui também tem, levamos as bicicletas e dividimos o valor do lote. É a primeira vez que eu compro algo para uso particular”, diz.

59 VOID#66.indd 59

12/14/10 11:56 PM


OOOOLA! O problema em um leilão deste porte é que você pode levantar a mão ao mesmo tempo em que outras cinco pessoas e seu lance ser o último, por um valor que não se estimava gastar. eu corria o risco de coçar a cabeça e o leiloeiro apontar pra mim: “... dou-lhe três! Vendido por cinco mil”. O ápice do evento acontece quando aparecem no telão os carros importados, que em grande parte são apreensões de traficantes. Tem até um Pontiac no lote. lance inicial de R$ 20 mil. O normal seria que a velocidade dos lances diminuísse de acordo com o alto valor dos produtos. Porra nenhuma! Neguinho com as mãozinhas pra cima bem alucinadas, dando lance em cima de lance. Quando passou dos R$ 60 mil, começou o Oeeeee da galera. O leiloeiro cantava “sessenta e dois mil”, e a galera “Oeeeeee!”. “Sessenta e cinco mil! Oeeee!” Parei de contar nos R$ 80 mil, quando fui interrompido por um transeunte de idade avançada que queria puxar assunto sobre política. Quando voltei minha atenção para o leilão do carro, já tinha acabado e a plateia aplaudia como se tivesse acabado de ver um gol marcado. Com direito a “ola” e tudo.

QUEM DESCE PRO PLAY Você pode dividir a ida a um leilão em três fatores: negócios, diversão com a família e ociosidade. Começando pelo primeiro, basta pensar que o leilão é um evento que movimenta dinheiro não só dentro do próprio meio como em torno dele. e isso vai dos ambulantes até aqueles cuja profissão é ser “comprador” em leilões. Alexandre Gomes é uma dessas figuras que se comporta num leilão como um operador na bolsa de valores, mas sem a pompa toda. Telefone na mão, ele vai dando lances conforme o cara do outro lado da linha permite. “eu compro principalmente para clientes que estão fora do estado, ou não podem comparecer pessoalmente aqui”, conta. O fato de ser despachante também é um fator que, digamos, facilita a realização do negócio. Quem se beneficia dos serviços do Alexandre são pessoas que têm revenda de automóveis ou ferrovelho. É o caso da Gisele Saraiva, uma moça bonita na flor da juventude que trabalha junto com o namorado, dono de uma revenda de automóveis do interior. “Dependendo da mercadoria e da demanda, é mais fácil adquirir um carro ou uma sucata em outro estado, por conta do preço. em São Paulo, por exemplo, é mais caro”, conta. Tem gente que foge desse lado mais empresarial para investir seus caraminguás num produto melhor. A julgar pelo comportamento das figuras,

são novos-ricos que ganharam muita grana sabe-se lá como, e, cansados de limpar o cu com garoupas, deixam seu lado brega aflorar, levando toda a família ao leilão. Não raro são vistas tiazonas metidas a socialites enfiadas em roupas apertadas com estampa de tigre e enormes óculos Jackie O, enquanto seus maridos fazem cosplay de Nerso da Capitinga. Carrinhos de bebês e crianças ranhentas compõem o elenco da família Doriana. obs.: Óbvio que, neste meio dos negociantes e famílias, há alguns laranjas que estão ali para retomar a propriedade do “dono da boca”, ou que dão às mercadorias destinos não lá muito honestos. Certo que estes não costumam abrir seus segredos para a imprensa, mas era possível notar na face de alguns a expressão “não respondo nada e caia fora daqui antes que eu chame os manolos”. Agora, se você não tem dinheiro, nem família, nem ocupação, pode ir num leilão só pra não se sentir sozinho. Como o senhor que encontramos vagando entre as arquibancadas do ginásio, e encontrou na gente alguém para conversar sobre problemas mundanos como as eleições pra presidente e o tempo. Tentamos despistar, mas lá estava o velhinho “forever alone” querendo dar seu pitaco político. Quem sabe um dia ele não se torne um lote a ser arrematado por uma pessoa que lhe dê atenção?

60 VOID#66.indd 60

12/14/10 11:56 PM


61 VOID#66.indd 61

12/14/10 11:56 PM


PRA NÃO SE DAR MAL eXiSTeM AlGuMAS ReGRAS Que SÃO eSSeNCiAiS PARA VOCê Que QueR DAR O PONTAPÉ iNiCiAl NeSTe, DiGAMOS, NiCHO De MeRCADO. Tenha sempre a grana em mãos. Nada de mixaria. Afinal, é uma disputa, e ganha quem paga mais. Fora que você é obrigado a pagar na hora, em dinheiro ou deixando um cheque caução até o dia seguinte, e olhe lá.

PRA SER UM LEILOEIRO O sistema de leilões surgiu na época do império Romano. Soldados levavam escravos e mercadorias apreendidas nas batalhas para as cidades e as expunham à venda em praça pública. Mulheres também eram postas à venda – saía vencendo quem pagava o dote maior para a família da moça. Fato é que nos dias de hoje você não precisa ser um saqueador romano para se tornar um leiloeiro. Basta ser uma pessoa alfabetizada, se expressar bem e ter o registro de leiloeiro na junta comercial do estado onde vive. Ah, é claro que ter boas relações com as pessoas do meio ajuda, e muito. O martelo, símbolo da ordem e do fechamento dos negócios, custa cerca de R$ 50 e pode ser encontrado (veja só) no Mercado livre!

Toque, mas não teste. Você pode abrir um carro exposto num leilão, ver o motor, analisar a lataria, mas não pode ligá-lo. Normas da casa. Se comprou um bólido por ele estar inteirinho por fora, mas com o motor fundido, problema seu. isso não é um jogo de truco. então, se você não tem grana, não blefe. em caso de arrematar uma mercadoria e não pagar, você é multado em até 20% o valor do produto, além de ficar queimado com o leiloeiro. Faça amizade com os pisteiros. Se eles já te conhecerem, certamente vão te dar preferência na hora de disputar um lance. Controle a emoção. isso é praticamente um jogo. então não se emocione demais para não gastar muitos dinheiros numa porcaria que não vale tudo isso. evite movimentos bruscos. Numa dessas você coça a cabeça, o pisteiro aponta pra você e grita e, quando vê, acaba de comprar um Fusca por R$ 10 mil.

62 32 VOID#66.indd 62

12/14/10 11:56 PM


# 069

ANO 07 / 2011 DISTRIBUIÇÃO GRATUITA LEITURA NÃO RECOMENDADA PARA MENORES DE 18 ANOS.

#069

meia nove MEIA NOVE


EXPEDIENTE Direção: Gabriel Rezende Marco Arioli Pedro Hemb Rodrigo Santanna vicente Perrone Editor: Pedro Damasio Repórteres: Felipe de Souza, Piero Barcellos e Gabriela Mo Projeto gráfico e Diagramação: Lucas Corrêa e Rafael Chaves @ Lava www.lavastudio.com.br Diagramação: Claudio Sudhaus Fotografia: Maurício Capellari Gabriela Mo Planejamento: João Francisco Hein Jurídico: Galvão & Petter Advogados office@galvaoepetter.com.br

PONTOS DE DISTRIBUIÇÃO BELO HORIZONTE Black Boots – Rua Fernandes Tourinho, 182 www.blackboots.com.br Blunt – Montes Claros, 189 www.blunt.com.br Brechó Brilhantina – Rua Tomé de Souza, 821 www.brechobrilhantina.com.br Café com Letras – Rua Antônio de Albuquerque, 781 www.cafecomletras.com.br De Rua Skateshop – Rua Paraíba, 1061 Estabelecimento – Rua Monte Alegre, 160 www.barestabelecimento.com La Tosqueria – Rua Claudio Manoel, 329 www.latosqueria.com.br Mini Galeria – Av. Cristóvão Colombo 550 sl.27 – Savassi www.minigaleria.com Tribe – Shopping Del Rey Uzina – Rua Grão Mogol, 908 www.uzinarestaurante.com.br

CURITIBA Airlab – Al. Prudente de Moraes, 1668 www.airlabels.blogspot.com Brique – Rua Duque de Caxias, 380 www.lojabrique.com.br Café Skate Bar – Praça do Redentor, 23 De Outros Carnavais - Rua Duque de Caxias, 378 São Francisco Galeria Lúdica – Rua Inácio Lustosa, 367 www.galerialudica.com.br Kitinete – Duque de Caxias, 175 Lamb – vicente Machado, 674 www.lojalamb.com.br Lolitas Salon de Coiffure – Trajano Reis, 115 www.lolitassalondecoiffure.blogspot.com Nayp - Shopping Omar www.nayp.com.br Teix Tatoo – Av. vicente Machado, 666 www.estudioteix.blogspot.com

PORTO ALEGRE BANX - Alameda Major Francisco Barcelos, 127 www.banx.com.br Callohã – Shopping Lindóia www.calloha.com.br Casa Azul Hostel – Lima e Silva, 912 www.casaazulhostel.com.br Convexo – Shopping Iguatemi Convexo – Shopping Praia de Belas www.convexo.com.br Fita Tape – José Bonifácio, 485 www.fitatape.art.br Matriz Skate Shop – Shopping Total www.matrizskate.com Ocidente – Osvaldo Aranha, 960 Odessa – Rua João Telles, 542 Ossip – República, 677 Panda&Mônio – 5ª Avenida Center www.pandaemonioblog.com Perestroika – Furriel L. A. v., 250/1302 www.perestroika.com.br

Sexton –Barão de Sto Ângelo, 152 www.sexton.com.br Swell Skatepark – viamão www.swellskate.com.br Tow In – 24 de Outubro, 484 Tow In – Barra Shopping Sul www.towin.com.br Vulgo – Padre Chagas, 318 www.vulgo.com.br W House - Rua Santo Inácio, 164

RIO DE JANEIRO Addict – Shopping Leblon Addict – Rua Aristides Espínola, 64 www.verdadeiraidentidadeaddict.com.br Baratos do Ribeiro – R. Barata do Ribeiro, 354 – Lj. D www.baratosdoribeiro.com.br Boards Co – Galeria River www.boardsco.com.br Home Grown – Rua Maria Quitéria, 168 www.homegrownrio.blogspot.com La Cucaracha – R. Teixeira de Mello, 31, Lj. H www.cucaracha.com.br Plano B – R. Francisco Muratori, 2ª Redley – R. Maria Quitéria, 99 www.redley.com.br Roques – Niterói Street Force – Galeria River

Polaco Tatoo – Rua 24 de Maio, 225 - 1º andar www.polacotattoo.com.br Rip Curl - Rua da Consolação, 4544 www.ripcurl.com.br Super Cool Market - Rua Purpurina, 219 www.supercoolmarket.com.br Terraço Major – Rua Major Maragliano, 421 www.terracomajor.wordpress.com Visionaire – Galeria Ouro Fino www.visionairestore.com.br Volt – R. Haddock Lobo, 40 www.barvolt.com.br Wave Boys – Galeria Ouro Fino www.waveboys.com.br Z Carniceria – R. Augusta, 934 www.zcarniceria.com.br

UNIVERSIDADES BELO HORIZONTE Fumec FCH – Rua Cobre, 200 www.fch.fumec.br Una – Rua da Bahia, 1764 www.una.br

CURITIBA PUC – DCE www.pucpr.br

SÃO PAULO

PORTO ALEGRE

American Apparel - Rua Oscar Freire, 433 www.americanapparel.net B.Luxo – R. Augusta, 2633 Lj. 18 www.brecholuxo.blogspot.com Bacuri - Rua Alagoas, 852 www.bacurisucos.com.br DCK – R. Augusta, 2716 www.dckstore.com.br Eastpak – R. Augusta, 2685 www.eastpak.com.br El Cabriton y Amigos - Rua Augusta, 2008 www.elcabriton.com Forever Skate – Galeria do Rock www.foreverskate.blogspot.com Galeria Choque Cultural – João Mora, 997 www.choquecultural.com.br Hotel Tee’s – R. Augusta, 2633 – Lj. 20 www.hoteloja.blogspot.com Japonique - Rua Girassol, 175 www.japonique.blogspot.com Kebabel – Rua Fernando de Albuquerque, 22 Kebabel – Rua João Moura, 871 www.kebabel.com.br Matilha Cultural – R. Rego Freitas, 542 www.matilhacultural.com.br Maze Skateshop – R. Augusta, 2500 www.mazeskateshop.com.br Me Gusta – Rua Augusta, 2046 Mercearia São Pedro - Rua Rodésia, 34 Nike Sportwear – Praça dos Omaguás, 100 www.nike.com

ESPM – Bar Prédio 2 ESPM – Bar Prédio 3 www.espm.br PUC – Administração PUC – FAMECOS www.pucrs.br UFRGS – Arquitetura www.ufrgs.br/arquitetura/ UFRGS – Fabico www.ufrgs.br/fabico/ Uniritter – Orfanatrófio, 555 www.uniritter.com.br

RIO DE JANEIRO ESPM – Rua do Rosário, 90 www.espm.br PUC – CACOS PUC – CRAA www.puc-rio.br

SÃO PAULO Belas Artes – DvCM www.belasartes.br ESPM – CA4D www.espm.br FAAP – CA de Arte www.faap.br Mackenzie – DA de Comunicação e Artes www.mackenzie.br


TIGERBLOOD! Charlie Sheen é o cara. Em uma semana conseguiu destruir uma das séries de maior sucesso na Tv, enfrentar os executivos de grandes empresas midiáticas, expor o lifestyle hollywoodiano de putaria e drogas que todos os astros escondem. Em suma: ligou o foda-se e foi ser feliz. Mais do que isto, virou ídolo num mundo onde o bom-mocismo e o politicamente correto ainda imperam. Por isso vamos realizar uma pequena comparação entre o homem com sangue de tigre e a celebridade-mor tupiniquim que, tal como uma menina superpoderosa, representa tudo o que existe de bom e legal: Luciano Huck. A partir daí, escolha seu caminho.

ExTREMOS

LUCIANO HUCK

CHARLIE SHEEN

Bordão

Loucura, loucura, loucura!

Winning!

Filmes

Xuxa Requebra, Xuxa e os Duendes, Um Show de Verão e Turma da Mônica em Cine Gibi.

Platoon, Curtindo a Vida Adoidado, Wall Street, Top Gang, Os 3 Mosqueteiros... 64 filmes ao todo.

Séries

Participações especiais no Casseta e Planeta, Malhação, As Cariocas e na novela Beleza Pura.

Two and a Half Man e Spin City como ator principal, participações em The Big Bang Theory e Tonight Show with Jay Leno.

Dublagens

Príncipe de um filme da Disney, Enrolados.

Family Guy, dublando ELE MESMO.

Mulheres

Uma. A Angélica.

Três. A ex-mulher, uma atriz pornô, e a babá gostosa dos seus filhos.

Tempo que demorou para atingir 1 milhão de seguidores no Twitter

4 meses

24 horas

Colaboração para a humanidade

Restaurar carros velhos e casas de pessoas necessitadas, além de ajudar inúmeras instituições de caridade.

O cara bebe, fuma, cheira e trepa feito um animal e está aí, vivo. A ciência vai descobrir a cura pra inúmeras doenças se examinar o corpo de Sheen.

Ir pra Globo participar do Criança Esperança.

Dar uma entrevista em que admite que bebe, fuma, cheira e trepa feito um animal, que consegue isso porque tem “sangue de tigre” nas veias, e manda todos seus desafetos (incluindo chefes) tomarem no cu.

Ápice do sucesso

RESULTADO DA COMPARAÇÃO: Charlie Sheen comeria o Huck com Sucrilhos no café da manhã.

16 / na PRIVADA


Crédito: ConeCtandoWeb.Com.br

RANKING DOS MEMES Não tá entendendo a última piadinha idiota da internet? A gente te atualiza. Em primeiro lugar temos FICA, VAI TER BOLO. O meme foi criação dos perfis fake do Twitter @ nairbelo_ e @hebecamargo. A frase típica da vovozinha que quer segurar o netinho mais tempo consigo ganhou diversas variações e imagens engraçadinhas, que estão no site ficavaiterbolo. tumblr.com . Chegando em segundo, o TODOS CHORA. A gíria veio do agonizante Orkut, onde um incauto descrevia sua ida a um funeral, dizendo que o ambiente era triste e que “todos chora”. Bastou um print rolar na internet para TODOS REPETE. Na terceira posição e ativo há bastante tempo,

temos o TENSO. De uma sequência de imagens que retratavam situações críticas, hoje é usado a esmo nas redes sociais para ilustrar uma situação realmente tensa, como aquela cantada inesperada mal-feita. Em penúltimo lugar, VEM, GENTE! O termo foi cunhado por um vídeo da Xuxa, na época em que o cenário do programa dela pegou fogo. Para tirar as crianças do lugar, a apresentadora gritava VEM, GENTE! Na finaleira e não menos importante, o GENTE QUE. Usado a fim de evitar processos por calúnia e difamação, e dar indiretas quando há falta de valentia. Exemplo: “Gente que não liga no dia seguinte”, ou “Gente que irrita fazendo listinhas toscas”.

Crédito: HolyCalamity

A MORTA SORRIA, ELE QUER COMER VOCê

ELE TROCA O DISJUNTOR DO CHUVEIRO

Boa parte do universo feminino acredita num fenômeno raro: a amizade entre homens e mulheres. A grande verdade é que aquele cara por quem você coloca a mão no fogo e tem enorme estima, se não for gay, está louco para socar o pilão na sua cumbuca, só aguardando uma brecha na “amizade”. você, mocinha ingênua, coloca as mãos na cintura e pensa “Ai, será mesmo?” É sim, gata. Observe os indicativos de ações maliciosas do seu “amigão”.

PODE BEBER QUE ELE TE LEVA EM CASA

ELE OUVE SEUS PROBLEMAS

vamos combinar que ninguém tem paciência para ouvir dramas alheios. Ainda mais os famosos mimimis sem importância. Mas ele é seu amigo, ele ouve desde a sua choradeira por uma unha quebrada até sobre como anda seu relacionamento (ou o fim do mesmo). Por quê? Por que são INFORMAÇÕES ÚTEIS para ele usar quando quiser te conquistar (ou chantagear, dependendo do quão psicopata o cara for). Ele sabe seus gostos, suas manias, seus defeitos, e principalmente, sabe como usar isso a favor dele.

O amigo prestativo é um amor, não é mesmo? A figura está sempre disponível pra você a hora que quiser. Precisa de um livro? Ele tem. O gato está doente? Ele leva o bicho ao veterinário pra você. Queimou o chuveiro? Ele vai lá e troca o disjuntor, mas troca torcendo para a tubulação de água arrebentar e vocês ficarem molhadinhos no banheiro tal qual um filme pornô de 2ª.

Ah, o amigo sempre é parceria pra noitada. Ainda mais depois de ter te “amaciado” com os itens acima. Tá sem companhia? Ele vai contigo, sem problema. Se não tiver carro, ele racha o táxi contigo. você pede pra ele cuidar de você e evitar que faça qualquer merda. Ele aceita enquanto pede uma dose de Tequila pra vocês. Depois da quarta dose de tequila você apaga e acorda com o amigão do seu lado, dizendo que é culpa da bebida e esperando que isso não estrague a amizade de vocês, enquanto tenta esconder aquele sorriso safado.

17


Crédito da Foto: CC – blaiSe

INTERNET REGULADA

22 / na PRIVADA

Num mundo ideal, as pessoas deveriam passar por uma prova teórica e uma prática antes de adquirir seu computador. Caso infringissem um conjunto de regras, pontos seriam descontados. Tal como na carteira de motorista, ao esgotar 20 pontos o diabo teria a carteira confiscada, assim como sua conexão com a internet cancelada e todos os seus perfis de redes sociais deletados. Depois de um tempo, após passar por uma rehab virtual, ele voltaria à ativa. vejamos agora alguns casos:

Usar gírias e memes da internet na vida real menos 6 pontos

Dizer que teve uma “noite maravilhosa com companhia agradável” menos 4 pontos

POR QUE? Aí você precisa deixar um recado pra aquele amigo que recém engatou um namoro e lá está o profile de duas cabeças, exalando paixão entre os pombinhos e confusão para quem tenta mandar uma mensagem e confunde um com o outro. Pior se é um perfil compartilhado por ambos: individualidade de cu é rola, né?

POR QUE? Quando alguém faz questão de salientar as maravilhas da sua noitada com alguém no Twitter, pode significar duas coisas: a primeira é que houve um “amorzinho gostoso” e você sente a necessidade de esfregar nas fuças de seus amigos virtuais (ou de algum eventual caso antigo nas suas redes) que possui uma vida sexual ativa. Sexo é bom, mas ninguém precisa saber quantas vezes você dá o cu por semana. O segundo caso é quando você mente: quer dizer que estava num clima de amor e paixão, mas na verdade estava se entupindo de comida vendo Sex and The City ou jogando Call of Duty online. Loser.

POR QUE? Porque isso é sinônimo de gente chata e sem vida social. Ninguém suporta uma mala que fica o tempo inteiro dizendo TENSO, ou repetindo “fica, vai ter bolo” como se fosse algo muito engraçado. Não é. Na internet talvez. Gêmeos siameses no Facebook, Twitter, MSN... menos 4 pontos

Check-in em motel no Foursquare mais 8 pontos POR QUE? Opa, aqui a regra muda. Porque a pessoa que tiver cara de pau de fazer check-in em motel no Foursquare e expor isso pro mundo é digno de respeito e merece pontos extras para gastar. Ainda mais se aparecer um “with 2 others” seguido de um badge de mayor. Aí sim!


buraco negro 32


PoR PIERO BARCELLOS

Desde que o mundo é mundo, o cu está aí para ser a válvula de escape dos detritos do corpo (ei, isso rende sambaenredo, não?). Apesar do projeto inicial dizer que esta é a finalidade daquele pequeno orifício (há controvérsias), há muito tempo descobriu-se que o “terceiro olho” também é um ponto de excitação sexual, uma zona erógena que, se estimulada com maestria, pode provocar prazer em quem, literalmente, toma no rabo. A literatura especializada (que abrange do Kama-Sutra a aquele sitezinho maroto escondido no meio dos seus “favoritos”) trata do cu com uma naturalidade ímpar, do tipo “se é buraco, pode meter”. Há quem rejeite a prática do sexo anal, seja pela dor provocada pelo arregaçamento das pregas, ou pelo nojinho de entrar pela porta dos fundos. Resumindo a história com uma rima pobre, o cu ainda é tabu. Aqueles que clicam no botão “Like” quando o assunto é levar uma cutucada por trás nem sempre se sentem à vontade de expor seus desejos. Então, para saciar aquela coceirinha que surge entre as nádegas, os incautos acabam partindo para a diversão solo com algo que estiver mais à mão no momento: um cabo de vassoura, uma garrafa, um tubo de desodorante, qualquer coisa que preencha o seu “vazio interior”. Porém, essa sensação de prazer logo pode ser tomada pelo desespero, pela dor, e pela perda – principalmente quando acontece da figura perder o que meteu lá dentro. Na internet existem muitas histórias. Algumas, de tão absurdas, recebem o status de lendas urbanas. Eventualmente uma ou outra ganha um espaço discreto na grande mídia. Porém, a verdade é que tem mais gente se auto-enrabando por aí do que você pensa. E, trocadilhos à parte, se fodendo por causa disso.

33


ª ERA UMA VEZ UMA GARRAFA...º O rapaz estava aproveitando o ar fresco da noite para correr no parque e terminar o dia com o cooper feito (rá). No meio da atividade, ele sentiu o famigerado chamado da natureza com uma contorcida no baixo ventre. Foi o tempo de escolher uma moita, arriar as calças e ficar de cócoras. Eis que um marginal, que estava vendo a cena, passa correndo pelo cara e, vendo-o naquela posição ingrata, dá-lhe um empurrão, fazendo com que o esportista cagão caia, em cheio, em cima de uma garrafa de refrigerante que estava coincidentemente de pé naquele lugar. Infortúnio do destino, o objeto fálico adentra o duto de escapamento do rapaz, tirando-lhe a virgindade anal. A história acima é uma das que os médicos plantonistas são obrigados a ouvir sem questionar a veracidade dos fatos, tampouco a capacidade de mira que o acaso do destino é capaz de prover. “Óbvio que nós sabemos que é mentira. Mas o paciente já chega até aqui constrangido, e a nossa função é ajudá-lo, não deixá-lo mais acanhado ainda. Poucos são os que dizem a verdade”, diz o doutor Mauro Soibelman, que atua há 23 anos no atendimento clínico de prontosocorro. “As histórias são quase sempre as mesmas. Eles dizem que estavam em casa, sozinhos, andando pelados, quando escorregaram e caíram bem em cima de uma lâmpada, de uma garrafa. Ou que foi sentar no sofá e não viu o controle remoto. Não varia muito. E nós sabemos das impossibilidades deste tipo de coisa acontecer”, explica.

Outro médico (que não quis se identificar), conta que a maioria dos pacientes que atendeu são homens, na faixa dos 30 anos, assumidamente héteros, e que chegaram naquela situação tentando se estimular sozinhos em casa. “Às vezes a esposa nem sabe que o marido tem este tipo de fantasia, não conversam sobre o assunto. Só descobrem quando o homem acaba internado na emergência do hospital”, adverte. Mulheres costumam ser casos raros. “Já atendi uma moça que chegou até aqui se queixando de dores, e quando vimos, ela havia introduzido um pinheirinho de Natal”, conta Mauro Soibelman. “A primeira coisa que as pessoas pensam é que isso só acontece com homossexuais. Na verdade, boa parte dos pacientes nunca teve uma relação homossexual, mas sente-se excitado quando estimulado no ânus”, explica o doutor. Atender pessoas com objetos enfiados na bunda não é uma coisa rara. São cerca de três atendimentos por semana, o que dá a incrível média de, dia sim, dia não, aparecer um cara no hospital que escorregou e, ops, caiu sentado em cima de um objeto fálico. Afinal, acidentes acontecem. A coincidência maior é que todos eles possuem uma vocação literária para contar como o “acidente” aconteceu. Poderiam até mesmo concorrer a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. No caso desse pessoal, bastaria virar o banquinho de pernas pra cima para ganharem não um, mas quatro assentos.

35


ILuMInAndO Onde O SOL nÃO bATe Um dos casos mais folclóricos, que circula na internet e nas lendas urbanas que permeiam a imaginação humana, foi a do cara que se fantasiou de vaga-lume para uma festa de carnaval. Para dar mais veracidade ao figurino, deixou uma lâmpada posicionada na beira do seu forévis. Ficou tão acostumado com o adorno lá que o esqueceu. Lembrou-se dele só quando se atirou no sofá e sentiu aquele vazio interior sendo preenchido. Pois saiba que isto não é, necessariamente, uma lenda. Lâmpadas de diversos formatos (tradicional, econômica, fluorescente) são retiradas das reentrâncias alheias. O problema é quando a bagaça quebra lá dentro. Os cortes na mucosa anal podem provocar infecção, sem falar no contato do fósforo (aquele pozinho branco que tem dentro dos tubos) com a corrente sanguínea.

36

Além das lâmpadas, as gambiarras improvisadas feitas de madeira também entram na brincadeira. O mais utilizado é o cabo da vassoura, seguido de cabos de outros utensílios domésticos, como desentupidor de pia (basta grudar a ventosa numa superfície pra ficar firme), e espanador (para os mais criativos que gostam de brincar de rinha de galo). Portanto, PENSE BEM antes de saciar seus desejos secretos para não fazer cosplay de pavão no Pronto-Socorro. O maior problema dos cabos é que basta um escorregão ou uma estocada mais forte para que você seja empalado que nem picanha em churrasco, tornando seu problema bem mais complexo do que entrar no hospital caminhando de ladinho. As dimensões anatômicas colocam o desodorante aerosol no topo de objetos mais comuns encontrados nos rabicós alheios, seguido das garrafas de produtos diversos – cerveja, refrigerante, energético... Obviamente que, se o curioso em questão quiser levar aquele velho pagode a sério e descer até embaixo na boquinha da garrafa, é bom lembrar das aulas de física, principalmente sobre como é formado o vácuo. E aí, amigo, só quebrando o fundo do casco para tirar a maldita sem graves lesões. óbvio que frutas, legumes e toda aquela gama de vegetais de duplo-sentido também são retirados de dentro das pessoas. Segundo o doutor Soibelman, alguns pacientes acreditam que o fato de usar algum “produto da natureza” como bananas, mandiocas, berinjelas, cenouras e afins não causa nenhum risco ao organismo. “Se uma fruta porventura quebra dentro do ânus, e não é totalmente retirada, ela pode inchar e obstruir o intestino, ou ainda apodrecer e provocar uma infecção interna”, conta. Portanto, nada de bancar o vegano nessas horas, OK?


en enTROu, e AGORA? Então você tentou se divertir sozinho em casa com seu tubo de desodorante, e na empolgação acabou perdendo a referida embalagem na imensidão do seu ser ou ficou com ela trancada na metade do caminho. Isso acontece por causa dos movimentos do esfíncter – estrutura muscular responsável pela expulsão e retenção das fezes. Neste caso, ele retém o corpo estranho que é introduzido. O que os médicos dizem é que, se por acaso o objeto trancou, o ideal é correr (se conseguir correr com uma trolha no cu, claro) para o atendimento médico mais próximo ou, dependendo do que você usou para cutucar o fundo do pote, chamar uma ambulância. Tentar tirar sozinho pode acarretar em enfiar ainda mais o objeto, ou lesionar as mucosas do ânus, provocando infecção. O primeiro procedimento médico é aplicar o bom e velho relaxante muscular, para o esfíncter afrouxar e o objeto ser removido manualmente. Caso não seja possível tirar na mão, o doutor pode anestesiar o paciente e remover com o uso de instrumentos como pinça e alargador. O último recurso é a mesa de cirurgia, e aí estamos falando de um procedimento de alto risco. “O intestino é uma região com alto índice de infecção por causa das bactérias provenientes das fezes e de todo o processo digestivo. Antes de qualquer operação nesta região do corpo, nós fazemos uma lavagem para poder eliminar qualquer resquício de fezes. Agora, imagine uma situação onde o paciente obstrui o único canal de saída? “Operamos mesmo assim, mas o risco de complicações aumenta muito mais”, explica o doutor Soibelman. Nestes casos, abotoar o paletó de madeira é comum. “Já vi casos de pessoas que ficaram seis meses em coma por causa de complicações da cirurgia, bem como gente que foi a óbito”, comenta o médico. Mas isto não é o pior que pode acontecer. Às vezes as lesões no ânus são tão violentas que o cidadão pode ter seu duto de escape fechado para sempre. Literalmente perde o cu. Será obrigado a fazer colostomia e sentenciado a carregar uma bolsa de merda por toda a vida.

37


“furo de reportagem” evITAndO PRObLeMAS Os médicos são enfáticos: o ideal é usar a via única do seu fiofó. Mas caso insista em entrar na contra-mão, existem alguns procedimentos que podem evitar acidentes inesperados: Use lubrificante. Não tente dar uma de Marlon Brando e amanteigar o forévis. Compre lubrificante próprio para relações sexuais em farmácias ou sex-shops. Usar qualquer outro tipo de substância pode ser danoso para a mucosa do ânus. Use camisinha. Não, o seu tubo de desodorante não vai lhe passar HIv. A camisinha evita que a superfície do objeto lesione o ânus. E como a camisinha é lubrificada, facilita a penetração. Saiba seus limites. Não tente enfiar algo maior do que suas pregas possam suportar, nem tão fundo a ponto de não sair mais. Use brinquedos próprios pra isso. Não improvise se a indústria do sexo já faz produtos pensando em você. Afinal o que é menos vergonhoso? Sair de uma sex-shop com uma benga de plástico na sacola, ou entrar num hospital com um cabo de vassoura no cu?

38

BEM QUE TENTARAM, MAS NÃO DEU PRA ESCONDER, E A HISTóRIA CAIU NA GRAÇA DA MíDIA: • Em agosto de 2010, um artesão de 40 anos de Cuiabá procurou o hospital municipal depois de ficar dez dias com um pedaço de mandioca enfiado no cu. Quando retiraram o legume, perceberam que o mesmo estava esculpido em formato de pênis. • Em março de 2010, um senhor de 68 anos deu baixa no hospital de Garanhuns (PE) com uma garrafa de refrigerante de 290ml enfiada naquele lugar. O idoso relatou que foi abordado por dois homens, que o levaram a um terreno baldio, fizeram-no baixar as calças e lhe atocharam o casco de bebida no reto para depois ir embora. • Em junho de 2006, um homem adentrou o Hospital Geral do Estado, em Alagoas, dizendo que sofreu um acidente no banheiro e estava com a bunda machucada. Os plantonistas constataram que o tal “machucado” era, na verdade, uma grande escova de cabelo rosa. Os funcionários do hospital verificaram que ele havia passado pelo atendimento poucos

meses atrás pelo mesmo motivo, sendo que o objeto anterior era um desodorante de alumínio. • Era novembro de 2009, o chinês Huang Chen havia acordado de um porre daqueles. Procurou um médico porque estava sentindo dores no abdome. Um raio-X revelou que Chen estava com um controle remoto introduzido no seu baixo-ventre. O surgimento do objeto em suas tripas foi atribuído a uma “brincadeira de mau gosto” feita pelos amigos quando ele estava bêbado. Sei... • No Mato Grosso do Sul, um homem de 52 anos foi, supostamente, assaltado enquanto estava em casa. Ele relatou que durante a ação dos criminosos, um dos bandidos pegou um copo e meteu no seu cu. O mais curioso é que a vítima se negou a prestar queixa na polícia... • Em Minas Gerais, um mecânico de 42 anos foi internado em estado grave no hospital. Motivo? Teve uma mangueira de compressão enfiada no ânus, que provocou perfuração do intestino. Isso aconteceu durante uma “brincadeirinha” entre ele e um cliente dentro da oficina onde trabalhava.


39


SÃO LUÍS EM 4X4 60


PoR PIERO BARCELLOS foToS MAURICIO CAPELLARI

O Maranhão é a típica região que desperta curiosidade, seja pelas praias, pela diversidade do ecossistema, pela rica cultura, ou pelo povo hospitaleiro. É um estado de contrastes, característica que se reflete nos seus dois principais produtos de importação: a família Sarney e o Reggae. Como nós já estouramos a cota de escatologia desta edição, vamos focar no famoso ritmo jamaicano. O correto seria pegar o primeiro vôo direto para São Luis, mas gastamos a verba da produção comprando merda (vide void #066). Qual não foi a nossa surpresa ao descobrir que aqui perto havia uma pequena embaixada informal do estado nordestino, localizada em Alvorada, cidade satélite de Porto Alegre. Joãozinho, conhecido no RG como João de Deus, veio do Maranhão passar as férias no extremo sul do país e gostou tanto que ficou por aqui. “Se tivesse vindo no inverno, não ficava, não”, disse, terminando em riso uma de suas muitas afirmações. Quem o conhece de primeira não diz que ele é um entusiasta do reggae, exceto pela camiseta com estampa do Bob Marley. No entanto, sua casa abriga um acervo inacreditável de discos, fitas, DvDs e laser-discs (se você não sabe o que é isso, significa que ainda está fedendo a leite materno). A coleção não se limita às músicas: recortes de matérias em jornais, revistas importadas, livros, ingressos, credenciais de shows e cartazes de muros compõem seu acervo. O eletricista (“trabalho remendando uns fiozinhos por aqui) conta como foi que o reggae se popularizou no Maranhão: “Dizem que tudo começou com um cara que foi até uma feira de discos no Belém do Pará e achou um disco de reggae. Gostou, e começou a tocar na sua radiola. Aí começou a cair no gosto do povo”. As radiolas são sistemas

de som montadas em salões de bailes ou áreas pra festas na periferia, onde o DJ manda o seu recado em cima da base da música. “Naquela época, o pessoal chamava a gente de maloqueiro, porque era o pessoal mais humilde que costumava curtir o som”, explica. Contrariando o estereótipo, Joãozinho não é usuário da cannabis, e explica que esta característica da cultura jamaicana não fez parte do movimento. “Lá as pessoas começaram a curtir a música pela música, pelo som ser gostoso de ouvir. Não havia ninguém que gostasse de reggae pela ideologia. Claro que, se você fosse num baile, ia encontrar os maconheiros, mas eles não estavam fumando por conta da doutrina Rastafari, ou porque são fãs de reggae”. As pessoas só foram conhecer a música a fundo, seus artistas e suas aspirações políticas e religiosas quando Fauzi Beydoun (vocalista da Tribo de Jah) começou a apresentar um programa de rádio na região e a falar sobre ícones como Isaac Hayes, Gladiator, Bob Marley, dentre outros. No Maranhão, os bailes de reggae (sim, bailes, com pessoas dançando agarradinhas como num bom e velho bate-coxa) eram vistos como redutos de marginais. “Era tal como o baile funk no Rio. Ir numa festa de regueiros era entrar em barra pesada. Quem tinha medo não ia”, explica Joãozinho. Porém, com a popularização da música, a elite também começou a curtir reggae, e o som passou a ser mais reproduzido em festas, mais radiolas foram surgindo, abrindo espaço para festivais do gênero. A proximidade com o Caribe fez com que os artistas jamaicanos passassem a se apresentar mais em São Luís. “Hoje o músico que faz show no Maranhão não precisa se preocupar com a banda. Ou ele já tem uma de apoio no Estado, ou ele canta em playback numa radiola, lotando ginásios e estádios”, explica.

61


ª LÁ AS PeSSOAS COMeÇARAM A CuRTIR A MÚSICA PeLA MÚSICA, PeLO SOM SeR GOSTOSO de OuvIR. ª

Enquanto degustávamos uma lata de Guaraná Jesus, Joãozinho ia de uma ponta a outra de seu acervo para mostrar o que recolheu em mais de 30 anos de paixão regueira. Boa parte do material que ele colecionava no início acabou se perdendo em empréstimos para jornalistas “Teve uma jornalista que pediu para levar um material pra estúdio, pra fazer uma matéria, e nunca mais devolveu. Liguei pra emissora de Tv, e ela não trabalhava mais lá. Sacanagem!”, conta. Por causa de episódios como este, ele mantém duplicatas de todo o material que possui, inclusive a biografia do Bob Marley xerocada. “Uma é pra ter aqui. Se o cara me pedir emprestado, toma a cópia, hahaha!” Ele consegue suas raridades em encomendas e trocas com amigos que viajam pelo mundo: “Quando viajo pro RJ, levo sempre algumas cópias de coisas que tenho por aqui e troco com o pessoal. Às vezes os amigos do Maranhão ligam dizendo que acharam um negócio legal pra mim e mandam pra cá. É assim que funciona”.

Fã da Tribo de Jah, Joãozinho foi um dos responsáveis pela divulgação da banda no sul do Brasil. Logo quando se mudou, começou a conhecer pessoas e freqüentar os ambientes onde se tocava reggae. Levava sempre consigo uma fita K7 com as músicas do grupo e distribuía aos amigos. Estava feita a corrente, e não demorou muito para que a Tribo viesse para Porto Alegre. “O Fauzi soube que eu tenho esse cantinho do reggae e num dos shows que veio fazer em Porto Alegre, acabou passando aqui. Ele ficou impressionado, e voltou outra vez, com a esposa, para filmar tudo. vai aparecer no próximo DvD da banda, com os amigos de estrada da Tribo”, disse.


63


64


ª eSSe É O AnTIGÃO, AQueLe Que bATe e FICAº

Hoje a música reggae feita no Maranhão é um pouco acelerada, com batidas eletrônicas marcando o ritmo. Um ouvido despreparado facilmente confundiria com um forró – eu confundi algumas vezes, e quando isso acontecia, Joãozinho me corrigia rapidamente, como quem se ofendesse com a troca. Na gambiarra elétrica - que envolve aparelho de DvD, vídeo-cassete, laser-disk, Tv, mini-system e mesa de áudio – os ritmos vão se alternando entre o reggae recordação (“esse é o antigão, aquele que bate e fica”) e o eletrônico (feito pra dançar junto). “vou tocar aqui só uma palhinha pra vocês verem como é”, e lá vinha a tradicional batida num tom mais grave e com um leve chiado, típico dos bolachões de vinil. A casa de Joãozinho é um pequeno pedaço do nordeste. Por onde você olha tem um artesanato feito de palha de coqueiro, réplicas de bumba-meu-boi, e pedras de beira da praia. “Eu coleciono várias. vou para a beira da praia e sempre trago uma”, conta. No pátio dos fundos é onde estão os cartazes. Pilhas de papel que quando desdobradas ficam do tamanho de um outdoor. Alguns, como o cartaz do recente show do Ziggy Marley, são montados no chão como um quebra-cabeça. A intenção de Joãozinho é ampliar seu espaço para poder expor mais coisas da sua coleção. “Os cartazes ficam aqui fora, as camisetas eu deixo no armário, e eu quero deixar tudo à mostra pra quando as pessoas vierem aqui”, fala. Há anos Joãozinho não vai para o Maranhão. É casado e tem quatro filhos (“Rapaz, eu sou um terror!”), sendo que dois deles moram em São Luis. Limita suas viagens até o Rio de Janeiro, destino mais barato, e onde busca material para sua coleção, além de alguns frutos da sua terra na feira de São Cristóvão, como camarão, frutas, e o famoso Guaraná Jesus – um refrigerante rosa com gosto de groselha, muito bom por sinal. “É o sonho cor-de-rosa das crianças”, diz. Sente saudade da família e dos amigos que deixou por lá, e espera rever a terrinha em breve. Enquanto esse dia não chega, coloca um Gladiator na vitrola, deita-se na rede e deixa a cadência do reggae ressoar pela casa mais uma vez.

65


# 070

ANO 07 / 2011 DISTRIBUIÇÃO GRATUITA LEITURA NÃO RECOMENDADA PARA MENORES DE 18 ANOS.

#070

POIS FOI POIS FOI


EXPEDIENTE

PONTOS DE DISTRIBUIÇÃO BELO HORIZONTE

Direção: Gabriel Rezende Marco Arioli Pedro Hemb Rodrigo Santanna Vicente Perrone Editor: Pedro Damasio Repórteres: Felipe de Souza, Piero Barcellos e Gabriela Mo

Black Boots – Rua Fernandes Tourinho, 182 www.blackboots.com.br Blunt – Montes Claros, 189 www.blunt.com.br Brechó Brilhantina – Rua Tomé de Souza, 821 www.brechobrilhantina.com.br Café com Letras – Rua Antônio de Albuquerque, 781 www.cafecomletras.com.br De Rua Skateshop – Rua Paraíba, 1061 Estabelecimento – Rua Monte Alegre, 160 www.barestabelecimento.com La Tosqueria – Rua Claudio Manoel, 329 www.latosqueria.com.br Mini Galeria – Av. Cristóvão Colombo 550 sl.27 – Savassi www.minigaleria.com Tribe – Shopping Del Rey Uzina – Rua Grão Mogol, 908 www.uzinarestaurante.com.br

CURITIBA

Projeto gráfico e Diagramação: Lucas Corrêa @Lava www.lavastudio.com.br Diagramação: Claudio Sudhaus www.sudhouse.com.br Fotografia: Maurício Capellari Gabriela Mo Planejamento: João Francisco Hein Jurídico: Galvão & Petter Advogados office@galvaoepetter.com.br

Airlab – Al. Prudente de Moraes, 1668 www.airlabels.blogspot.com Brique – Rua Duque de Caxias, 380 www.lojabrique.com.br Café Skate Bar – Praça do Redentor, 23 De Outros Carnavais - Rua Duque de Caxias, 378 São Francisco Galeria Lúdica – Rua Inácio Lustosa, 367 www.galerialudica.com.br Kitinete – Duque de Caxias, 175 Lamb – Vicente Machado, 674 www.lojalamb.com.br Lolitas Salon de Coiffure – Trajano Reis, 115 www.lolitassalondecoiffure.blogspot.com Nayp - Shopping Omar www.nayp.com.br Teix Tatoo – Av. Vicente Machado, 666 www.estudioteix.blogspot.com

PORTO ALEGRE BANX - Alameda Major Francisco Barcelos, 127 www.banx.com.br Callohã – Shopping Lindóia www.calloha.com.br Casa Azul Hostel – Lima e Silva, 912 www.casaazulhostel.com.br Convexo – Shopping Iguatemi Convexo – Shopping Praia de Belas www.convexo.com.br Fita Tape – José Bonifácio, 485 www.fitatape.art.br Matriz Skate Shop – Shopping Total www.matrizskate.com Ocidente – Osvaldo Aranha, 960 Odessa – Rua João Telles, 542 OI FM – Padre Chagas, 347 www.oifm.com.br/portoalegre Ossip – República, 677 Panda&Mônio – 5ª Avenida Center www.pandaemonioblog.com Perestroika – Furriel L. A. V., 250/1302 www.perestroika.com.br

Pandorga – Miguel Tostes, 897 www.lojapandorga.com.br Sexton –Barão de Sto Ângelo, 152 www.sexton.com.br Swell Skatepark – Viamão www.swellskate.com.br Tow In – 24 de Outubro, 484 Tow In – Barra Shopping Sul www.towin.com.br Vulgo – Padre Chagas, 318 www.vulgo.com.br W House - Rua Santo Inácio, 164

RIO DE JANEIRO Addict – Shopping Leblon Addict – Rua Aristides Espínola, 64 www.verdadeiraidentidadeaddict.com.br Baratos do Ribeiro – R. Barata do Ribeiro, 354 – Lj. D www.baratosdoribeiro.com.br Boards Co – Galeria River www.boardsco.com.br Home Grown – Rua Maria Quitéria, 168 www.homegrownrio.blogspot.com La Cucaracha – R. Teixeira de Mello, 31, Lj. H www.cucaracha.com.br Plano B – R. Francisco Muratori, 2ª Redley – R. Maria Quitéria, 99 www.redley.com.br Roques – Niterói Street Force – Galeria River

Nike Sportwear – Praça dos Omaguás, 100 www.nike.com Polaco Tatoo – Rua 24 de Maio, 225 - 1º andar www.polacotattoo.com.br Rip Curl - Rua da Consolação, 4544 www.ripcurl.com.br Super Cool Market - Rua Purpurina, 219 www.supercoolmarket.com.br Terraço Major – Rua Major Maragliano, 421 www.terracomajor.wordpress.com Visionaire – Galeria Ouro Fino www.visionairestore.com.br Volt – R. Haddock Lobo, 40 www.barvolt.com.br Wave Boys – Galeria Ouro Fino www.waveboys.com.br Z Carniceria – R. Augusta, 934 www.zcarniceria.com.br

UNIV VERSIDA ADES BELO HORIZONTE Fumec FCH – Rua Cobre, 200 www.fch.fumec.br Una – Rua da Bahia, 1764 www.una.br

CURITIBA PUC – DCE www.pucpr.br

SÃO PAULO

PORTO ALEGRE

American Apparel - Rua Oscar Freire, 433 www.americanapparel.net B.Luxo – R. Augusta, 2633 Lj. 18 www.brecholuxo.blogspot.com Bacuri - Rua Alagoas, 852 www.bacurisucos.com.br DCK – R. Augusta, 2716 www.dckstore.com.br Eastpak – R. Augusta, 2685 www.eastpak.com.br El Cabriton y Amigos - Rua Augusta, 2008 www.elcabriton.com Forever Skate – Galeria do Rock www.foreverskate.blogspot.com Galeria Choque Cultural – João Mora, 997 www.choquecultural.com.br Hotel Tee’s – R. Augusta, 2633 – Lj. 20 www.hoteloja.blogspot.com Haters and Skills – Rua Augusta, 1371 - Loja 209 www.hatersandskills.com Japonique - Rua Girassol, 175 www.japonique.blogspot.com Kebabel – Rua Fernando de Albuquerque, 22 Kebabel – Rua João Moura, 871 www.kebabel.com.br Matilha Cultural – R. Rego Freitas, 542 www.matilhacultural.com.br Maze Skateshop – R. Augusta, 2500 www.mazeskateshop.com.br Me Gusta – Rua Augusta, 2046 Mercearia São Pedro - Rua Rodésia, 34

ESPM – Bar Prédio 2 ESPM – Bar Prédio 3 www.espm.br PUC – Administração PUC – FAMECOS www.pucrs.br UFRGS – Arquitetura www.ufrgs.br/arquitetura/ UFRGS – Fabico www.ufrgs.br/fabico/ Uniritter – Orfanatrófio, 555 www.uniritter.com.br

RIO DE JANEIRO ESPM – Rua do Rosário, 90 www.espm.br PUC – CACOS PUC – CRAA www.puc-rio.br

SÃO PAULO Belas Artes – DvCM www.belasartes.br ESPM – CA4D www.espm.br FAAP – CA de Arte www.faap.br Mackenzie – DA de Comunicação e Artes www.mackenzie.br


O FINAL FI AL DO FIN FI DO MÊS DE ABRIL FOI MARCADO POR UM MOMENTO DISNEY NO O MUNDO: MUN UNDO O O CASAMENTO DO PRÍNCIPE WILLIAM COM A PLEBEIA KATE MIDDLETON. M IDD ID D LLET DD ETON N MAS NÃO SE DESESPERE, MULHER MODERNA. VOCÊ TAMBÉM PODE POD O E DEIXAR ODE D XA ESSA VIDA DE BUSÃO LOTADO E CANTADA DE PEDREIRO PARA DE DEI INGRESSAR IING NGR RE RES ESSAR SA NO MUNDINHO DE LUXO E RIQUEZA DA MONARQUIA. PRÍNCIPE É O QUE QUE UE NÃO NÃ N Ã FALTA NESSE MUNDO. BASTA ESTAR NO LUGAR CERTO, NA HORA HO HOR A CERTA CER ER RTA (E SABER PRATICAR A FINA ARTE DO POMPOARISMO) PARA CONSEGUIR C CON NSEG SEGUIR UIR UI I O SEU TÍTULO DE NOBREZA. DÊ UMA OLHADA NO NOSSO CATÁLOGO CA CAT C AT TÁLOG OGO DE BONS PARTIDOS E ESCOLHA O SEU ALVO: POR PIERO BARCELLOS

DOM D OM M LUÍS LUÍ S GASTÃO GA AS STÃO TÃ ÃO MARIA JOSÉ PIO MIGUEL GABRIEL RAFAEL GONZAGA DE ORLÉANS E BRAGANÇA E WITTELSBACH

16 / na PRIVADA

SAUNDAY BAALA

O príncipe com nome digno de um ditado oral é descendente da família real brasileira. Tem 73 anos, é trineto de Dom Pedro II. Se você quer uma coroa, e é chegada num coroa (rá), taí a oportunidade. Depois de uma chave de perna, é só torcer por um retrocesso político para virar rainha do Brasil (não que seja algo para se orgulhar, mas é melhor que um nome escrito num crachá seguido de “auxiliar administrativo”).

Que tal juntar o melhor (e o pior) de dois mundos tão distintos como a monarquia e o futebol? Se você tem vocação para Maria-chuteira, pode pegar o primeiro avião para a Espanha e começar a rondar o príncipe Saunday, herdeiro do trono de Zongo, uma das regiões dentro de Gana. Até aí tudo bem, tudo maravilhoso, se não fosse por alguns pequenos detalhes: Saunday joga num time da quarta divisão do campeonato espanhol, e saiu fugido do país onde morava depois que seu pai, o rei de Zongo, foi morto em um atentado. Mas fora isso é só alegria!

PRÍNCIPE AZIM

C CERVEJA PRÍNCIPE

Caso você queira ser princesa de um reino distante, pode partir para o Brunei e tentar o Príncipe Azim, quarto na linha sucessória do trono do país. Com pinta de ator de filme indiano, o cara é herdeiro de uma fortuna estimada em US$ 22 bilhões. É conhecido por fazer extravagâncias, como contratar Michael Jackson pra tocar na sua festa de aniversário de 25 anos, e levar os convidados para um safari na África. Claro que todo luxo tem seu preço: no Brunei impera o Islamismo, o que significa ter um armário cheio de burkas e nada de bebida alcoólica nas festinhas.

Encontrada em países como Bélgica, Alemanha, Polônia e Hungria, a Prince Beer faz jus ao mais puro malte germânico. Sua fermentação provoca pouca espuma quando servida, conservando o sabor amargo do lúpulo. Peça para aquele seu primo mochileiro da Europa despachar umas garrafas para você tomar um porre. Pois só assim para ficar perto de um príncipe e esquecer, mesmo que momentaneamente, a sua realidade suburbana.


“ISSO É ABJETO!” POR PIERO BARCELLOS FOTOS: MAURICIO CAPELLARI

NÃO É UMA TAREFA FÁCIL ENTREVISTAR UMA FIGURA COMO O LOBÃO, UM DOS ÍCONES DO ROCK BRASILEIRO QUE NOS ÚLTIMOS TEMPOS SE TORNOU MAIS FAMOSO PELAS SUAS OPINIÕES FORTES DO QUE PELA MÚSICA. FICA MAIS DIFÍCIL QUANDO O CARA LANÇA A PRÓPRIA BIOGRAFIA (50 ANOS A MIL, NOVA FRONTEIRA, 2010), E RESPONDE A QUALQUER TIPO DE PERGUNTA COM “LEIA MEU LIVRO”.

Torna-se mais agravante ainda quando a primeira lembrança que o repórter tem do entrevistado é a de um teatro de fantoches apresentado na primeira série do colégio, onde um boneco de lobo cantava “Decadence Avec Elegance”. Mas missão dada é missão cumprida, e lá estava eu, no Fórum da Liberdade (um evento político-econômico-ideológico) para bater um papo com o sr. João Luiz Woerdenbag Filho, afim de tentar algo de inédito deste homem cheio de opinião. VOID: Você é um cara de muitos predicados: cantor, compositor, agitador cultural... e polêmico. Como você encara essa profissão de “ser polêmico” que as pessoas lhe atribuem? Lobão: É engraçado isso. Porque só é polêmico quem foge da linha de pensamento estabelecida. As pessoas transformam isso numa caricatura aqui no Brasil. Eu sou uma figura

24 / na PRIVADA


caricaturada por ser sincero, e isso é ofensa no nosso país. Aí tem aquela coisa de “ah, mas o Lobão isso, o Lobão aquilo...” Na verdade eu sou um doce de pessoa! VOID: Você falou há pouco na sua apresentação que a juventude brasileira está se infantilizando. Qual é a parcela de culpa da indústria musical neste processo? Lobão: Não existe culpado na indústria musical. Quer dizer, existe e não existe ao mesmo tempo, porque faz parte de um ciclo vicioso. Você tem o Estado que trata a população como babaca, você tem o sistema de ensino que não forma o pensamento crítico, que não ensina as pessoas a se expressarem... Aí por isso é que nós temos essa juventude apática, sem conteúdo, que não sabe discutir ideias, que consome porcaria... VOID: Falando nisso, nos últimos dias você atacou o pessoal do sertanejo universitário, o rock colorido... Qual seria a sua reação se um Luan Santana ou um Restart fosse num programa de visibilidade como o Faustão e cantasse “Me chama”? Lobão: Não, nada a ver... Eu falo deste pessoal que está no mainstream porque é o reflexo do povo brasileiro. É um agrobrega bonitinho pra agradar papai e mamãe, que vai contra aquela fase dos hormônios em ebulição. E a verdade tem que ser dita: é ruim, é muito ruim. Mas se um deles cantasse uma música minha, tudo bem. Eu já deixei até o Biquini Cavadão fazer isso nos anos 80, porque seria contra agora? (risos) VOID: Você ainda defende o rádio como potencializador de talentos... Lobão: Não é um potencializador de talentos, mas de visibilidade. Talento o artista já tem ou não tem. Tanto que existe muita gente aí sem talento e fazendo sucesso porque toca na rádio. O que eu defendo é que o pessoal do rock underground pare de focar só na internet e deixe de demonizar o rádio. Se eles querem realmente atingir o público e fazer sucesso, devem seguir o curso natural do processo, que começa na FM. Caso contrário, vão continuar no underground, enquanto os outros vão fazer sucesso. VOID: Mas mesmo assim, em pleno século XXI, quando a internet se destaca como meio de comunicação... Lobão: Não, cara. Não e não. O processo é assim e não vai mudar. O rádio nunca vai deixar de ser rádio, não vai perder lugar pra internet, continuará importante e ponto! Ponto! Ponto! VOID: OK... Mudando um pouco de assunto, você lançou agora sua biografia. Quando foi que aconteceu o “estalo” pra escrever o livro? Ou você esperou

completar 50 anos para fazer esse trocadilho na capa do livro? Lobão: Logo quando eu saí da cadeia eu queria escrever um livro. Mas aquele não era o momento. Aí, recentemente, quando cheguei em São Paulo, recebi o convite para escrever um livro, de poesia ou um romance. Aí eu vi que era a hora de colocar no papel a minha história. VOID: Durante o processo, teve algum episódio que você omitiu por achar forte demais ou inconveniente. Lobão: Com certeza. A minha preocupação era a de escrever um livro que fosse gostoso de ler. Eu me vi como um personagem de literatura, e procurei deixar este personagem interessante. Mais adiante nós vamos lançar a versão em e-book, que terá mais conteúdo que a edição impressa. VOID: Hoje você faz parte de um hall de músicos que lançaram suas auto-biografias, como o Ozzy Osbourne e o Keith Richards, inclusive ultrapassando este último em vendas nesta semana... Lobão: E o Ozzy também! VOID: ... Sim, o Ozzy também. Qual seria a diferença entre a sua biografia e a deles? O fato de você ter cheirado menos cocaína que eles ajuda a se lembrar de mais coisas do passado? Lobão (quase metendo uma porrada na mesa): Isso é abjeto! É um absurdo isso que você disse! Você não pode julgar um cara como o Keith Richards por causa das coisas que ele usou. É preconceituoso e minimalista! Olha só o Keith, o Ozzy, a idade que eles têm e o show foda que eles fazem ainda hoje! Sem falar em tantos outros ícones do rock, como o Jimi Hendrix, por exemplo! As pessoas deviam pagar imposto por caretice quando fossem ouvir alguma coisa do Hendrix! E se vacilar, a minha memória é muito melhor do que a tua. VOID: Disso eu não duvido. Mas voltando ao livro, está para sair um filme baseado nele, não? Lobão: Sim, já estamos bem adiantados com a produção. Não posso falar muito, mas já temos um roteiro, e agora estamos naquele processo de escolher os atores. Já tenho uma ideia de quem vai me interpretar, mas ainda não posso dizer quem é. Também estou trabalhando na trilha sonora. Ao mesmo tempo em que escrevia o livro, eu também compunha pra ele. Tenho duas músicas prontas gravadas durante o processo. Então em breve sai um disco com músicas feitas por causa do livro e que vão integrar a trilha do filme. VOID: Bom, Lobão, era isso. E agora? Lobão: Agora é festa, meu camarada!

25


POLITICAMENTE INCORRETO POR PIERO BARCELLOS

32

FOTOS MAURICIO CAPELLARI


UM JUDEU, UM NEGRO, UM ANÃO, UM GAGO, UM CEGUINHO, UM GAY, UMA LOIRA E UM PORTUGUÊS ENTRARAM NO ESCRITÓRIO DE UM ADVOGADO PARA PROCESSAR O HUMORISTA. FIM DA PIADA. DE UMA HORA PRA OUTRA O SIMPLES ATO DE RIRMOS DE NÓS MESMOS (E DOS OUTROS) FOI SUMARIAMENTE CENSURADO DA TV. E O QUE AINDA NÃO FOI, RECEBE ATAQUES CADA VEZ MAIS DUROS DE SETORES CONSERVADORES E RADICAIS DA SOCIEDADE, LIGADOS À POLÍTICA, RELIGIÃO, PROTEÇÃO AOS ANIMAIS, DEFESA DOS DIREITOS HUMANOS E FÃS DO MARCELO CAMELO.

Pare e pense como o mundo ficou mais chato nos últimos anos. O altruísmo global é tão grande que todo mundo está preocupado com alguma causa. Olhe para o lado: você certamente tem algum amigo vegano que caga como um cabrito e se ofende quando alguém almoça um bife suculento. Tem também aquele que não pode ver uma pessoa bronzeando os pulmões com tabaco para dizer que aquilo causa câncer. Ou ainda o engajado político/ social que adora uma passeata e faz pose pra foto no jornal fazendo o sinal da paz, e se irrita porque você vai pra baladinha todo findi ao invés de usar seu tempo para servir sopa para os pobres. Pior que isso, só os fãs do “rock colorido”, que pregam o amor em música e gestos de S2 coraçãozinho. E o meu (e o seu) direito de ser politicamente incorreto, onde fica? Por que eu não posso rir da situação econômica dos outros? Ou achar graça das diferenças que a sociedade cria em cima da cor de pele ou do sexo? Qual o problema em fazer uma piada com religião? São assuntos sérios, mas que possuem alto grau de zoação, porque fazem parte do cotidiano. Além de tudo, possuem o estigma de serem intocáveis – é o mesmo que dizer pra criança não meter o dedo na tomada. Ninguém pensa na piada como fator que colabora na inclusão social – além de evitar males como úlcera, bullying e tratamentos caros com psicólogos. Este mundo criado a leite com pêra e Ovomaltine está afetando diretamente a forma de fazer rir no principal meio de comunicação de massa: a TV. Os programas de humor são campeões nos índices de reclamações das emissoras e no congresso, e não raro sofrem mudanças na estrutura, no horário e no roteiro. Tudo por que a milícia do politicamente correto acha uma piada feia, chata e boba.

33


PODER PARA O POVO POBRE “Chegou ao ponto em que você não pode fazer uma piada de anão que aparece o sindicato dos anões e mete um processo. Se fizer uma piada de manco, chega o sindicato dos pernetas” diz Marcelo Madureira, um dos integrantes do Casseta & Planeta, programa que recentemente entrou em recesso para uma reformulação. O grupo tem mais de 20 anos na TV e estava perdendo em qualidade e em liberdade criativa. Basta lembrar que os “cassetas” foram responsáveis pela TV Pirata, um dos poucos humorísticos que fazia jus ao nome. Então se você foi parido nos anos 90 e diz que o grupo carioca é uma merda, devia repensar seus conceitos ou, no mínimo, fazer um search no Youtube – lugar que só é censurado por subcelebridades que trepam no mar e olhe lá.

MUNDINHO IMPERFEITO Marcelo Tas, que em 1984 já fazia na TV um esboço do que hoje é o CQC, também é vitima da censura do politicamente correto. O programa que mistura jornalismo com humor é alvo de processos e de críticas, principalmente da classe política, que se sente ofendida pelas abordagens agressivas dos repórteres. “A realidade é muito complexa, e só o humor consegue encarar este cenário, dando o distanciamento possível para tratar o assunto com a ironia e o humor que merece”, comenta.

Pra você, leitor baiano que está numa leseira pra ligar o computador, dizemos que os três vídeos mais vistos da TV Pirata somam cerca de 1,2 milhão de visualizações no Youtube. Os temas abordados satirizam o preconceito racial e homofóbico (em um dos quadros, a família se irritava com a decisão do filho em se assumir como negro. Detalhe: a família era toda de negros), além de esculachar com a macheza exacerbada e violência à mulher. Em tempos de Lei Maria da Penha, bastaria cinco minutos de programa pra entupir a TV Globo de processos.

Sobre a onda do politicamente correto, é categórico: “É um mal da nossa era. É uma espécie de vírus que nós temos que tomar muito cuidado pra não tornar o mundo um lugar ‘photoshopado’, blindado. As pessoas gostam de viver num ambiente controlado para que não haja nenhum imprevisto, nenhum choque de ideias. É muito perigosa essa cultura de se viver apenas em shoppings, em condomínios fechados, só falando de coisas sensatas. O ser humano é imperfeito, e a gente tem que mostrar este lado também”.

“Dentro do período de redemocratização do país, há pouco mais de 20 anos, teve um momento em que surgiram vários movimentos de humor, provocado pela própria sede de liberdade depois de tanto tempo sob um regime autoritário. Foi um momento muito criativo da história”, explica Madureira. Um dos aspectos que ele aborda é a ascensão econômica das classes C, D e E no país, somada ao interesse das empresas em atingir este público. “Hoje os anunciantes estão preocupados em atingir este grupo de pessoas. O problema é que a visão que os investidores possuem é que este público tem uma série de características, como falta de oportunidades, valores conservadores e um nível intelectual não tão satisfatório. Por isso não podemos falar nada que possa agredir estas pessoas, ou que não seja do conhecimento delas”, conta.

Por andar na corda-bamba do jornalismo e do humor, o programa é cobrado mais pelo compromisso do primeiro. Na sua ficha criminal constam processos de políticos e artistas que se sentiram ofendidos com algum comentário. Basta lembrar que o programa já foi ao ar gravado para evitar novos processos. Durante as últimas eleições, foram censurados pela lei que impedia qualquer tipo de piada com aqueles que concorriam aos cargos públicos. Sem falar nos processos que cada um dos integrantes possui no lombo por conta de uma ou outra piadinha. Danilo Gentili e Rafinha Bastos foram alvos da patrulha do politicamente correto: o primeiro fez uma piada envolvendo judeus e Auschwitz, e o segundo disse que mulher feia não devia reclamar quando fosse estuprada. Confesse: você acabou de soltar um risinho no canto da boca, não é?.

34


35


DE VOLTA AO PASSADO NOS ANOS 80 NÃO HAVIA INTERNET, TINHA INFLAÇÃO E AS PESSOAS SE VESTIAM COMO FIGURANTES DO BLADE RUNNER. AO MENOS PODÍAMOS RIR SEM SER CHAMADOS DE PRECONCEITUOSOS.

PERÍODO

ANOS 80/90

ANOS 00/10

PROGRAMAS INFANTIS

Os Trapalhões tinham os estereótipos do negro pinguço e da bicha enrustida. Angélica recebeu a banda de rock gaúcho Cascavelettes no seu programa, que cantaram “Eu quis comer você”, fazendo a criançada dançar adoidado. Bozo cheirava cocaína.

Adolescentes passam lições de civilidade na TV Globinho. Crianças ligam pro programa da Maísa para participar de brincadeiras toscas e ganhar um Playstation.

HORÁRIO NOBRE DE TERÇA-FEIRA NA GLOBO

TV Pirata fazia aquilo que tinha potencial de ser o nosso Saturday Night Live: humor irreverente, nonsense e tocando na ferida. Casseta e Planeta abordava temas como maconha sem ser acusado de apologia à droga.

Casseta e Planeta se resumiu a fazer paródia das novelas e a cair no humor de bordão. Agora o horário do programa foi substituído por alguma série de TV genérica.

SÁBADO DA DESGRAÇA (POIS FICAR SÁBADO À NOITE EM CASA É UMA DESGRAÇA)

Chico Anísio e Jô Soares faziam o típico humor de bordão, mas com crítica social forte. Em compensação, A Praça É Nossa era aquilo que a gente já sabe como é.

Ficar em casa e ver Zorra Total tornou-se sinônimo de depressão aguda. E A Praça É Nossa conseguiu uma proeza: ficou pior ainda.

STAND-UP COMEDY

Ninguém sabia o que era e todo mundo era feliz.

Figura no hall de profissões hype do século XXI, como DJ, designer e fotógrafo.

36


PASTEURIZARAM O MUNDO Ou “como a merda do politicamente correto está fodendo o mundo”. - Animies japoneses contém alto índice de sangue e violência e são voltados para crianças e adolescentes. Nos EUA e no Brasil, são feitas edições a fim de eliminar as cenas mais “fortes”. A maior prova que isso não afeta psicologicamente as pessoas é que o Japão é um dos países mais civilizados do mundo. Já aqui, onde os jovens maneiros assistem “Malhação”... - Nos EUA, desenhos clássicos como Os Flinstones e Tom & Jerry sofreram cortes para tirar cenas de personagens que apareciam fumando ou bebendo até ficar de porre. - Uma lei tentou barrar o livre exercício do humor com políticos durante o período de eleições em 2010. A intenção era evitar a zoação em cima dos candidatos para que isso não prejudicasse a arrecadação de votos. O Horário Eleitoral Gratuito acabou ficando sozinho com as melhores piadas prontas da época, roubando a audiência dos humorísticos. - Programas como CQC e Pânico na TV são constantemente alvos de processos por grupos da sociedade que se ofendem com situações tidas como preconceituosas, machistas, ou de agressividade gratuita. Políticos reclamam de bullying, e senhorinhas reclamam de baixaria. Bom mesmo é repetir bordão do Zorra Total.

SOBROU ATÉ PRA GENTE Nem sempre a fina arte do humor é compreendida. Nós sabemos bem como é isso. - Em 2009, na véspera do show do Oasis, fizemos uma brincadeirinha de primeiro de abril no nosso site, dizendo que o show não aconteceria. Conseguimos a ira dos fãs e da produtora do show, e tivemos que deixar uma nota de esclarecimento na página inicial durante um dia inteiro. Nem no dia dos bobos podemos brincar mais. - No mesmo ano, o Oasis voltou a nos dar problemas. Uma nota no “Na Privada” intitulada “Porrada na bicha inglesa” falava sobre o incidente em que um fã da banda subiu ao palco e derrubou um dos irmãos Gallagher na mão. Um grupo de defensores dos direitos homossexuais achou que estávamos incentivando a violência contra o gênero, e bem... Lá fomos nós ver o doutor Juiz. - Em outubro de 2009 lançamos a edição #053 da revista, cuja matéria principal era sobre um baile de debutantes que aconteceria em Sobradinho, cidade interiorana do Rio Grande do Sul. Infelizmente a população da cidade não compartilhou do nosso jeito peculiar de ver o mundo. Recebemos carta do prefeito e uma “moção de repúdio” da Câmara dos Vereadores, sem falar nas inúmeras ameaças que vieram por e-mail e nos comentários da matéria. - Os defensores dos animais também não entenderam a piada quando, na edição #057 (março de 2010) fizemos uma matéria sobre zoofilia, ensinando as pessoas como dar e obter prazer através dos bichinhos de estimação. Os absurdos que escrevemos (como sexo com golfinhos, por exemplo) só não foram maiores do que a enxurrada de e-mails que recebemos, que iam de ameaças de morte até fotos de animais violentados nas ruas. Foram dias longos aqueles...

37


# 071

ANO 07 / 2011 DISTRIBUIÇÃO GRATUITA LEITURA NÃO RECOMENDADA PARA MENORES DE 18 ANOS.

#071

SEMPRE SEMPRE


EXPEDIENTE

PONTOS DE DISTRIBUIÇÃO BELO HORIZONTE

Direção: Gabriel Rezende Marco Arioli Pedro Hemb Rodrigo Santanna Vicente Perrone Editor: Pedro Damasio Repórteres: Felipe de Souza, Piero Barcellos e Gabriela Mo Projeto gráfico e Diagramação: Lucas Corrêa @Lava www.lavastudio.com.br Diagramação: Claudio Sudhaus www.sudhouse.com.br Fotografia: Maurício Capellari Gabriela Mo Planejamento: João Francisco Hein Jurídico: Galvão & Petter Advogados office@galvaoepetter.com.br

Black Boots – Rua Fernandes Tourinho, 182 www.blackboots.com.br Blunt – Montes Claros, 189 www.blunt.com.br Brechó Brilhantina – Rua Tomé de Souza, 821 www.brechobrilhantina.com.br Café com Letras – Rua Antônio de Albuquerque, 781 www.cafecomletras.com.br De Rua Skateshop – Rua Paraíba, 1061 Estabelecimento – Rua Monte Alegre, 160 www.barestabelecimento.com La Tosqueria – Rua Claudio Manoel, 329 www.latosqueria.com.br Mini Galeria – Av. Cristóvão Colombo 550 sl.27 – Savassi www.minigaleria.com Tribe – Shopping Del Rey Uzina – Rua Grão Mogol, 908 www.uzinarestaurante.com.br

CURITIBA Airlab – Al. Prudente de Moraes, 1668 www.airlabels.blogspot.com Brique – Rua Duque de Caxias, 380 www.lojabrique.com.br Café Skate Bar – Praça do Redentor, 23 De Outros Carnavais - Rua Duque de Caxias, 378 São Francisco Galeria Lúdica – Rua Inácio Lustosa, 367 www.galerialudica.com.br Kitinete – Duque de Caxias, 175 Lamb – Vicente Machado, 674 www.lojalamb.com.br Lolitas Salon de Coiffure – Trajano Reis, 115 www.lolitassalondecoiffure.blogspot.com Nayp - Shopping Omar www.nayp.com.br Teix Tatoo – Av. Vicente Machado, 666 www.estudioteix.blogspot.com

PORTO ALEGRE BANX - Alameda Major Francisco Barcelos, 127 www.banx.com.br Callohã – Shopping Lindóia www.calloha.com.br Casa Azul Hostel – Lima e Silva, 912 www.casaazulhostel.com.br Convexo – Shopping Iguatemi Convexo – Shopping Praia de Belas www.convexo.com.br Fita Tape – José Bonifácio, 485 www.fitatape.art.br Matriz Skate Shop – Shopping Total www.matrizskate.com Ocidente – Osvaldo Aranha, 960 Odessa – Rua João Telles, 542 OI FM – Padre Chagas, 347 www.oifm.com.br/portoalegre Ossip – República, 677 Panda&Mônio – 5ª Avenida Center www.pandaemonioblog.com Perestroika – Furriel L. A. V., 250/1302 www.perestroika.com.br

Pandorga – Miguel Tostes, 897 www.lojapandorga.com.br Sexton –Barão de Sto Ângelo, 152 www.sexton.com.br Swell Skatepark – Viamão www.swellskate.com.br Tow In – 24 de Outubro, 484 Tow In – Barra Shopping Sul www.towin.com.br Vulgo – Padre Chagas, 318 www.vulgo.com.br W House - Rua Santo Inácio, 164

RIO DE JANEIRO Addict – Shopping Leblon Addict – Rua Aristides Espínola, 64 www.verdadeiraidentidadeaddict.com.br Baratos do Ribeiro – R. Barata do Ribeiro, 354 – Lj. D www.baratosdoribeiro.com.br Boards Co – Galeria River www.boardsco.com.br Home Grown – Rua Maria Quitéria, 168 www.homegrownrio.blogspot.com La Cucaracha – R. Teixeira de Mello, 31, Lj. H www.cucaracha.com.br Plano B – R. Francisco Muratori, 2ª Redley – R. Maria Quitéria, 99 www.redley.com.br Roques – Niterói Street Force – Galeria River

Nike Sportwear – Praça dos Omaguás, 100 www.nike.com Polaco Tatoo – Rua 24 de Maio, 225 - 1º andar www.polacotattoo.com.br Rip Curl - Rua da Consolação, 4544 www.ripcurl.com.br Super Cool Market - Rua Purpurina, 219 www.supercoolmarket.com.br Terraço Major – Rua Major Maragliano, 421 www.terracomajor.wordpress.com Visionaire – Galeria Ouro Fino www.visionairestore.com.br Volt – R. Haddock Lobo, 40 www.barvolt.com.br Wave Boys – Galeria Ouro Fino www.waveboys.com.br Z Carniceria – R. Augusta, 934 www.zcarniceria.com.br

UNIVERSIDADES BELO HORIZONTE Fumec FCH – Rua Cobre, 200 www.fch.fumec.br Una – Rua da Bahia, 1764 www.una.br

CURITIBA PUC – DCE www.pucpr.br

SÃO PAULO

PORTO ALEGRE

American Apparel - Rua Oscar Freire, 433 www.americanapparel.net B.Luxo – R. Augusta, 2633 Lj. 18 www.brecholuxo.blogspot.com Bacuri - Rua Alagoas, 852 www.bacurisucos.com.br DCK – R. Augusta, 2716 www.dckstore.com.br Eastpak – R. Augusta, 2685 www.eastpak.com.br El Cabriton y Amigos - Rua Augusta, 2008 www.elcabriton.com Forever Skate – Galeria do Rock www.foreverskate.blogspot.com Galeria Choque Cultural – João Mora, 997 www.choquecultural.com.br Hotel Tee’s – R. Augusta, 2633 – Lj. 20 www.hoteloja.blogspot.com Haters and Skills – Rua Augusta, 1371 - Loja 209 www.hatersandskills.com Japonique - Rua Girassol, 175 www.japonique.blogspot.com Kebabel – Rua Fernando de Albuquerque, 22 Kebabel – Rua João Moura, 871 www.kebabel.com.br Matilha Cultural – R. Rego Freitas, 542 www.matilhacultural.com.br Maze Skateshop – R. Augusta, 2500 www.mazeskateshop.com.br Me Gusta – Rua Augusta, 2046 Mercearia São Pedro - Rua Rodésia, 34

ESPM – Bar Prédio 2 ESPM – Bar Prédio 3 www.espm.br PUC – Administração PUC – FAMECOS www.pucrs.br UFRGS – Arquitetura www.ufrgs.br/arquitetura/ UFRGS – Fabico www.ufrgs.br/fabico/ Uniritter – Orfanatrófio, 555 www.uniritter.com.br

RIO DE JANEIRO ESPM – Rua do Rosário, 90 www.espm.br PUC – CACOS PUC – CRAA www.puc-rio.br

SÃO PAULO Belas Artes – DvCM www.belasartes.br ESPM – CA4D www.espm.br FAAP – CA de Arte www.faap.br Mackenzie – DA de Comunicação e Artes www.mackenzie.br


VOCÊ CRESCEU, ELES TAMBÉM Por PIEro BArCELLoS

Ah, A infânciA... ÉpocA em que suAs únicAs preocupAções se resumiAm em não tirAr o quebrA-cAbeçAs no Kinder ovo e não perder o horário dos desenhos e sÉries preferidAs nA tv. isso AtÉ A horA em que os hormônios explodem, e você pAssA A ver sexo AtÉ no simples Ato de pAssAr mAnteigA no pão (mAnteigA? hummm...). e isso se AplicA tAmbÉm Aos seus progrAmAs infAntis fAvoritos: eles sAírAm dAquele Ambiente fAntástico de trAços toscos e AgorA estão de cArne e osso, mAndAndo ferro nA xurAnhA.

JUSTICE LEAGUE OF PORNSTAR HEROES única película que foge à regra de nomes com “xxx” e “parody” no título. o filme faz uma singela homenagem ao antigo desenho da liga da Justiça. como história e coerência não são o forte destas megaproduções, a equipe de super heróis precisa descobrir onde está escondida uma bomba que explodirá com a cidade. Óbvio que antes disso muitos orifícios foram arregaçados. A cena final (sim, são spoilers) termina com a trupe comemorando o sucesso da ação, com a mulher maravilha dando um trato nas bengas heroicas dos seus colegas. o Aquaman, apesar de aparecer neste filme, não participa de nenhuma cena de foda. Afinal, que tipo de mulher fornicaria loucamente com um cara que conversa com peixes? foge, mulher maravilha!

16 / na PRIVADA

SUPERMAN XXX A PORN PARODY nesta pérola do cinema putanhesco, superman precisa lidar com a queda de um avião, a ameaça do lex luthor e a invasão do general Zod e seus asseclas, e ainda assim comparecer com sua giromba kriptoniania na lois lane.

BATMAN XXX A PORN PARODY diferente do imaginário popular, neste filme o menino prodígio não agasalha o croquete do cruzado encapuzado. pelo contrário: a dupla dinâmica precisa enfrentar charada e coringa no seu plano malévolo, que pouco importa qual seja num filme pornô. nesta obra prima, um coringa oriundo do seriado dos anos 60 come duas mulheres ao mesmo tempo, e a pergunta que não quer calar é: alguma mina daria pra um cara vestido de palhaço?

SCOOBY-DOO XXX A PORN PARODY os nomes dos filmes não variam, pois são feitos pelos mesmos pervertidos de sempre. mas neste caso, uma curiosidade: o cachorro que dá nome ao filme sequer ApArece! em compensação, fred, daphne, Welma e salsicha (rá) revezam-se na arte do “tome-lhe, tome-lhe” frenético. quem acreditava no potencial de gostosice da gordinha nerd do seriado que levante a mão peluda, pois ela aqui traça até a ruivinha tapada.

THE FLINTSTONES A XXX PARODY este filme é a maior prova de que gordo só se fode (ou melhor, não fode). fred flintstone é um homem de adiposidade extrema que sonha com sua esposa e sua vizinha colando velcro loucamente, desconfia que Wilma o está traindo com um amigo de infância, acredita que pedrita ainda é virgem (só se for na orelha) e que ninguém gosta dele. dois terços das fodas do filme são as fantasias do fred, que não pega nem gripe. o resto é a metelança da clave na caverna que todo mundo já conhece.

SIMPSONS: THE XXX PARODY para satisfazer todos aqueles que possuem um tesão na voz esganiçada da marge é que existe esta paródia onanista. o filme começa com um suposto homer (suposto, pois está disfarçado), trocando a sextape dele e da esposa por uma rosquinha. Além deles, moe atocha a piromba numa tetéia genérica e há uma foda com aquele personagem-paródia do Arnold schwazzeneger. fica a dúvida em como conseguiram deixar os atores amarelos: se foi efeito especial proporcionado pela maravilhosa edição, ou se pintaram todos com caneta marca-texto. e acreditem, alguém dublA o ator que faz o homer, propiciando uma foda literalmente gozada!


A MORTA

VOCÊ NÃO É NERD É inadmissível conceber que com todo este bullying maroto pegando lá fora, tenha gente que estufe o peito (depois de usar a bombinha de ar) para dizer que é nerd. Todos sabem que estes seres míticos foram extintos em 1994, quando foi lançado o último filme da série “Vingança dos Nerds”. O que há hoje é popularmente conhecido como MODINHA. E como toda modinha merece ser achincalhada, aí vai:

BISCOITOS DO AZAR Alguém já levou a sério as mensagens dos biscoitos da sorte chineses? Não, né? Quem nunca recebeu a mensagem “Você viajará em breve” e nunca teve oportunidade de ir nem para São José do Buraquinho? A fim de renovar as mensagens de sorte e torná-las um pouco mais realistas, criamos sugestões alternativas para serem adotadas pelos restaurantes chineses e afins.

ME VISTO COMO PERSONAGEM DE STAR WARS. SOU NERD? Não. No máximo você é alguém com um leve retardo mental que se apega num universo paralelo para se esquecer da sua vida de “gente grande”. única exceção se aplica às gostosas que usam o biquíni de metal da Princesa Leia.

Quem come sempre a sobremesa, se torn

ará obeso.

Contas a pagar chegarão em breve. Mais ganha um puxa-sacos do Nossa cozinha tem baratas.

que um competente no trabalho

O molho agridoce lhe causará diar

A conta do restaurante é maior do que seu

.

réia.

limite bancário.

Em um ambiente com 10 pessoas, uma tem HPV. Um Tic Tac tem mais do que duas calorias.

Se você nunca foi traído, um dia será. O Pólo Norte pode desaparecer até 2020.

COLECIONO QUADRINHOS. SOU NERD?

Amigo, se você tem mais de 14 anos, e a sua pilha de gibis da Turma da Mônica supera a da Playboy, você não é nerd, só tem probleminha. Ter um encadernado do Watchmen ou do Cavaleiro das Trevas não te faz um especialista no assunto também, só prova que você tem grana para gastar num gibi gigante cuja história você está se esforçando pra entender até agora.

TENHO SEMPRE AS ÚLTIMAS NOVIDADE DA APPLE. SOU NERD?

De forma alguma. O fato de você ser um

macfag diz muita coisa a seu respeito. A principal delas é que você é só mais um coxinha que não entende porra nenhuma de nada, mas quer ganhar status na rodinha hipster de publicitários, DJs e designers.

FICO 24H CONECTADO NA INTERNET. SOU NERD?

Crianças, não digam para si mesmas que são nerds apenas para justificar o fracasso das suas vidas sociais. Vocês ficam este tempo todo conectados porque são feios como um rascunho do capeta e cuja única emoção na vida se resume a encontrar alguém brincando de pintocóptero no ChatRoulette e reclamar de quem faz check-in no Foursquare (já que estes estão fazendo coisas que você não faz, como sair, beber e trepar).

17


# 072

ANO 07 / 2011 DISTRIBUIÇÃO GRATUITA LEITURA NÃO RECOMENDADA PARA MENORES DE 18 ANOS.

#072

OLHO DE GATO

OLHO DE GATO


EXPEDIENTE

PONTOS DE DISTRIBUIÇÃO BELO HORIZONTE

Direção: Gabriel Rezende Marco Arioli Pedro Hemb Rodrigo Santanna Vicente Perrone Editor: Pedro Damasio Repórteres: Felipe de Souza, Piero Barcellos e Gabriela Mo

Black Boots – Rua Fernandes Tourinho, 182 www.blackboots.com.br Blunt – Montes Claros, 189 www.blunt.com.br Brechó Brilhantina – Rua Tomé de Souza, 821 www.brechobrilhantina.com.br Café com Letras – Rua Antônio de Albuquerque, 781 www.cafecomletras.com.br De Rua Skateshop – Rua Paraíba, 1061 Estabelecimento – Rua Monte Alegre, 160 www.barestabelecimento.com La Tosqueria – Rua Claudio Manoel, 329 www.latosqueria.com.br Mini Galeria – Av. Cristóvão Colombo 550 sl.27 – Savassi www.minigaleria.com Tribe – Shopping Del Rey Uzina – Rua Grão Mogol, 908 www.uzinarestaurante.com.br

CURITIBA

Projeto gráfico e Diagramação: Lucas Corrêa @Lava www.lavastudio.com.br Diagramação: Claudio Sudhaus www.sudhouse.com.br Fotografia: Maurício Capellari Gabriela Mo Planejamento: João Francisco Hein Jurídico: Galvão & Petter Advogados office@galvaoepetter.com.br

Airlab – Al. Prudente de Moraes, 1668 www.airlabels.blogspot.com Brique – Rua Duque de Caxias, 380 www.lojabrique.com.br Café Skate Bar – Praça do Redentor, 23 De Outros Carnavais - Rua Duque de Caxias, 378 São Francisco Galeria Lúdica – Rua Inácio Lustosa, 367 www.galerialudica.com.br Kitinete – Duque de Caxias, 175 Lamb – Vicente Machado, 674 www.lojalamb.com.br Lolitas Salon de Coiffure – Trajano Reis, 115 www.lolitassalondecoiffure.blogspot.com Nayp - Shopping Omar www.nayp.com.br Teix Tatoo – Av. Vicente Machado, 666 www.estudioteix.blogspot.com

PORTO ALEGRE BANX - Alameda Major Francisco Barcelos, 127 www.banx.com.br Callohã – Shopping Lindóia www.calloha.com.br Casa Azul Hostel – Lima e Silva, 912 www.casaazulhostel.com.br Convexo – Shopping Iguatemi Convexo – Shopping Praia de Belas www.convexo.com.br Fita Tape – José Bonifácio, 485 www.fitatape.art.br Matriz Skate Shop – Shopping Total www.matrizskate.com Ocidente – Osvaldo Aranha, 960 Odessa – Rua João Telles, 542 OI FM – Padre Chagas, 347 www.oifm.com.br/portoalegre Ossip – República, 677 Panda&Mônio – 5ª Avenida Center www.pandaemonioblog.com Perestroika – Furriel L. A. V., 250/1302 www.perestroika.com.br

Pandorga – Miguel Tostes, 897 www.lojapandorga.com.br Sexton –Barão de Sto Ângelo, 152 www.sexton.com.br Swell Skatepark – Viamão www.swellskate.com.br Tow In – 24 de Outubro, 484 Tow In – Barra Shopping Sul www.towin.com.br Vulgo – Padre Chagas, 318 www.vulgo.com.br W House - Rua Santo Inácio, 164

RIO DE JANEIRO Addict – Shopping Leblon Addict – Rua Aristides Espínola, 64 www.verdadeiraidentidadeaddict.com.br Baratos do Ribeiro – R. Barata do Ribeiro, 354 – Lj. D www.baratosdoribeiro.com.br Boards Co – Galeria River www.boardsco.com.br Home Grown – Rua Maria Quitéria, 168 www.homegrownrio.blogspot.com La Cucaracha – R. Teixeira de Mello, 31, Lj. H www.cucaracha.com.br Plano B – R. Francisco Muratori, 2ª Redley – R. Maria Quitéria, 99 www.redley.com.br Roques – Niterói Street Force – Galeria River

Nike Sportwear – Praça dos Omaguás, 100 www.nike.com Polaco Tatoo – Rua 24 de Maio, 225 - 1º andar www.polacotattoo.com.br Rip Curl - Rua da Consolação, 4544 www.ripcurl.com.br Super Cool Market - Rua Purpurina, 219 www.supercoolmarket.com.br Terraço Major – Rua Major Maragliano, 421 www.terracomajor.wordpress.com Visionaire – Galeria Ouro Fino www.visionairestore.com.br Volt – R. Haddock Lobo, 40 www.barvolt.com.br Wave Boys – Galeria Ouro Fino www.waveboys.com.br Z Carniceria – R. Augusta, 934 www.zcarniceria.com.br

UNIVER RSIIDAD DES BELO HORIZONTE Fumec FCH – Rua Cobre, 200 www.fch.fumec.br Una – Rua da Bahia, 1764 www.una.br

CURITIBA PUC – DCE www.pucpr.br

SÃO PAULO

PORTO ALEGRE

American Apparel - Rua Oscar Freire, 433 www.americanapparel.net B.Luxo – R. Augusta, 2633 Lj. 18 www.brecholuxo.blogspot.com Bacuri - Rua Alagoas, 852 www.bacurisucos.com.br DCK – R. Augusta, 2716 www.dckstore.com.br Eastpak – R. Augusta, 2685 www.eastpak.com.br El Cabriton y Amigos - Rua Augusta, 2008 www.elcabriton.com Forever Skate – Galeria do Rock www.foreverskate.blogspot.com Galeria Choque Cultural – João Mora, 997 www.choquecultural.com.br Hotel Tee’s – R. Augusta, 2633 – Lj. 20 www.hoteloja.blogspot.com Haters and Skills – Rua Augusta, 1371 - Loja 209 www.hatersandskills.com Japonique - Rua Girassol, 175 www.japonique.blogspot.com Kebabel – Rua Fernando de Albuquerque, 22 Kebabel – Rua João Moura, 871 www.kebabel.com.br Matilha Cultural – R. Rego Freitas, 542 www.matilhacultural.com.br Maze Skateshop – R. Augusta, 2500 www.mazeskateshop.com.br Me Gusta – Rua Augusta, 2046 Mercearia São Pedro - Rua Rodésia, 34

ESPM – Bar Prédio 2 ESPM – Bar Prédio 3 www.espm.br PUC – Administração PUC – FAMECOS www.pucrs.br UFRGS – Arquitetura www.ufrgs.br/arquitetura/ UFRGS – Fabico www.ufrgs.br/fabico/ Uniritter – Orfanatrófio, 555 www.uniritter.com.br

RIO DE JANEIRO ESPM – Rua do Rosário, 90 www.espm.br PUC – CACOS PUC – CRAA www.puc-rio.br

SÃO PAULO Belas Artes – DvCM www.belasartes.br ESPM – CA4D www.espm.br FAAP – CA de Arte www.faap.br Mackenzie – DA de Comunicação e Artes www.mackenzie.br


FIZ UM HIT E CAÍ FORA POR PIERO BARCELLOS

HOUVE UMA ÉPOCA EM QUE O SONHO DE TODO MOLEQUE ERA JOGAR FUTEBOL OU TER UMA BANDA. COMO A PRIMEIRA OPÇÃO REQUER TALENTO, A SEGUNDA FOI ADOTADA POR MUITOS QUE QUERIAM VER SUAS MÚSICAS NO TOPO DAS PARADAS, PEGAR UMAS MENININHAS NO BACKSTAGE E GANHAR UMA GRANA. NO ENTANTO, ESTES QUE AQUI ESTÃO DERAM UM TAPA NA CARA DO SUCESSO, E SEUS 15 MINUTOS DE FAMA FORAM REDUZIDOS A DURAÇÃO DE UMA FAIXA NO CD, QUE HOJE SÓ É LEMBRADA EM VIDEOKÊS OU EM RODAS DE AMIGOS SAUDOSISTAS, SEGUIDAS DAS FRASES “EU OUVIA ESTA MERDA” E “SBT FORMOU MEU CARÁTER”.

Lembrou de alguma banda de um hit só? Manda pra void@avoid.com.br aquele hit que só Deus sabe porque você se lembra, e, com sorte, criamos outra lista medonha com a sugestão dos leitores.

18 / na PRIVADA

VIRGULÓIDES

BAGULHO NO BUMBA

P.O. BOX

PAPO DE JACARÉ

Algumas das bandas que você vai ver aqui podem ser classificadas como dMA (depois de Mamonas Assassinas). Depois da morte do grupo, pipocaram genéricos querendo aproveitar o vazio existencial de uma banda engraçadinha no cenário do rock. O trio Virgulóides surgiu em 1997 com a música “Bagulho no Bumba”. Percorreu o caminho do sucesso no Brasil (rádios, programas de auditório e show lotado em Osasco), e chegaram a tocar até no Rock in Rio! Mas ninguém se lembra de outras músicas deles, e, depois de tentarem se manter com mais dois discos, caíram no ostracismo.

O grupo fazia sucesso local em Goiás, até que alguém resolveu exportar o conjunto para o resto do Brasil. O primeiro disco nacional saiu no final dos anos 90, uma gravação ao vivo de um dos shows da banda, onde havia o sucesso “Papo de Jacaré”. Tornou-se uma das músicas mais tocadas das rádios na época, rendendo ao P.O. Box aquela caralhada de discos de prata, ouro, platina, etc., e também uma participação – olha só que máximo - no Criança Esperança! Depois disso, a banda lançou mais um disco, mas nunca desistiu da carreira. Dá pra conferir o novo som deles em meadiciona.com/bandapobox .

Nessa bumba eu não ando mais Acharam um bagulho no banco de trás O motorista se levantou Falou que o bagulho era do cobrador E o cobrador, muito invocado Falou que o bagulho é de quem tá sentado É, é, é, eu acho que o bagulho é de quem tá de pé

Vou te bater uma real Vou dizer que sou o tal Bater um papo no café É papo de jacaré Mas vê se fala por favor A minha língua Que já tem até uma íngua Por causa do seu inglês

VAGABUNDOS RELAXA

O que é pior do que uma banda fazendo cosplay de Mamonas Assassinas? Uma banda de axé fazendo cosplay de Mamonas. Esta era a premissa dos Vagabundos: vários componentes fazendo uma coreografia tosca, sob medida para quem paga muitos dinheiros para vestir um abadá e sair por aí distribuindo herpes atrás de um caminhão com som. Graças à música “Relaxa”, o grupo atingiu o ápice do sucesso para uma banda há anos atrás: coletar sabonetes na banheira do Gugu. Mas não pense você que a banda acabou! Os Vagabundos não seguiram o fluxo da descarga da fama e continuam aí, boiando em privadas menos populares. Quando você dá alguma coisa a alguém Não espere nada em troca porque não vem Mas uma coisa eu te dou, e te peço sem graça Ah! Uh! Relaxa e vem! Relaxa senão não encaixa, relaxa senão não encaixa Relaxa senão não encaixa, relaxa!


O SURTO

TWISTER

DR. SILVANA E CIA

A CERA

40 GRAUS

A indústria musical descobriu que umedecer calcinhas com uma banda de garotos que seguem a modinha do momento sempre fatura uns bons trocados. Hoje são as bandas coloridas, mas no início do século XXI, junto com o temor do “bug do milênio”, surgiu a banda Twister, seduzindo menininhas com seu hit “40 Graus”. Na onda do sucesso, gravaram até CD em espanhol e fizeram turnê nos EUA e América Central. Mas não contavam com o fechamento da sua gravadora e com a prisão de um dos membros por posse de drogas. E não se tratava dos CDs da banda.

SERÃO EXTRA

Desde 1994 na atividade, a banda hardcore O Surto só conheceu os píncaros da glória no ano 2000, quando lançaram o seu segundo disco com o hit A Cera. Foi a mais tocada nas rádios, surf shops e discmans de skatistas. Continua até hoje na ativa, mas não lançou outra música capaz de pirar o cabeção da geral. Aliás, qual o nexo do título da música com a letra? Um rosto lindo e um sorriso encantador E um jeitinho de falar que me pirou, que me pirou o cabeção Um rosto lindo e um sorriso encantador

Meu amor, este amor Dá 40 graus de febre Queima pra valer, queima pra valer... É assim, como o sol Derretendo toda neve Dentro de você, dentro de você...

BABA CÓSMICA SÁBADO DE SOL

AS MENINAS

XIBOM BOMBOM Banda de axé é uma praga porque se reproduzem que nem célula – termina o sucesso da banda, vai vocalista pra um lado e forma outro grupo, enquanto o antigo coloca outro elemento pra encabeçar a bagaça e continuar tocando o terror. Foi o que aconteceu com As Meninas em 2002, após o sucesso meteórico de Xibom Bombom, de ritmo baiano e letra de cunho social. Após a separação, foram quatro anos de agonia até encerrarem as atividades. Analisando esta cadeia hereditária Quero criticar esta situação precária Onde o rico cada vez fica mais rico E o pobre cada vez fica mais pobre E o motivo todo mundo já conhece É que o de cima sobe e o de baixo desce

Taí uma banda que conseguiu uma proeza: fazer a música virar sucesso com outra banda e depois seguir no rastro dela. Foi o caso do Baba Cósmica, responsáveis por criar “Sábado de Sol”, que ficou mais famosa na versão dos Mamonas Assassinas. Aliás, se não fosse o baterista Rafael Ramos, filho do dono da gravadora EMI, ouvir uma certa fita demo no carro do pai, jamais conheceríamos a banda de Guarulhos. O Baba Cósmica gravou dois CDs no embalo do rock engraçadinho, mas ficou nisso aí e acabaram em 1997. Sábado de sol Aluguei um caminhão Pra levar a galera Pra comer feijão Chegando lá, mas que vergonha Só tinha maconha Os maconheiro tava doidão Querendo o meu feijão

Os anos 80 produziram o maior número de bandas de um hit só. Todas elas frequentavam o mesmo meio: programas de auditório, programas infantis, dominicais, e vez ou outra lançavam clipe no Fantástico. De todas, escolhemos uma que representa o destino da maioria: Dr. Silvana e Cia. Ficaram famosos fazendo um rock engraçado, de duplo sentido, o que dá pra ver na música Serão Extra, sucesso nas rádios e que contou com a participação da Xuxa em uma das gravações. Sobrevivem até hoje graças ao saudosismo da década perdida, animando festas temáticas por aí. Tudo aconteceu quando ela chegou atrasada / Eram 3 e meia, alta madrugada / E sua mãe a esperava no portão / Logo, pintou bateboca, a mãe já gritando, / Tava quase louca e exigia em altos berros / Alguma explicação / Eu fui dar mamãe... (foi dar mamãe) / Eu fui dar mamãe... (foi dar mamãe) / Eu fui dar um serão extra / Trabalhei com o patrão

PROFESSOR ANTENA PROFESSOR ANTENA

Desenterramos esta pérola da música brasileira em homenagem aos artistas que sequer fizeram uma figuração no programa do Didi, nem estouraram balões numa gincana maluca do SBT, e fazem parte da memória afetiva de poucas mentes deturpadas. Professor Antena foi a primeira banda brasileira a ter um DJ como integrante. Alguns dirão que “Pipoco” é a música mais famosa do grupo, mas achamos engraçado o fato de terem uma música com o nome da banda. Narcisismo? Auto-afirmação? Não tinham nome melhor? Nunca saberemos. O Professor Antena / está aqui pra tocar fogo na panela e ver o milho pipocar, / você entrar no som e dançar. / Na sala o som rolando pesado / e eu aqui pelado com uma garrafa de uísque escocês - eu guardei um pouco pra vocês. / O Professor Antena ataca outra vez

19


EMBAIXO DA LONA 32


POR PIERO BARCELLOS

FOTOS MAURICIO CAPELLARI

Pare e pense como sua vida é uma merda. Acorda cedo pra bater o ponto na firma, passa oito horas por dia com o olhar fixo na tela de um computador, tem que enfrentar a loucura do trânsito, a mijada do chefe, as contas a pagar, sobreviver num apartamento minúsculo no meio de uma metrópole barulhenta e poluída. E se de uma hora para outra você pudesse mudar para um lifestyle em que o seu trabalho lhe proporciona alegria e vigor físico, além de conhecer novas cidades (quiçá países) durante o ano? Melhor que isso, só se você não se preocupasse em gastar seu dinheiro com condomínio, água, luz e IPTU, e ainda terminasse o dia sob os aplausos da galera. Brilhou o olhinho? Então arrume suas malas, pois seu lugar é no circo! Aproveitamos que um picadeiro foi armado aqui perto da redação e fizemos uma visita à esta instituição tão peculiar que existe há séculos e sobrevive ante as tecnologias de entretenimento (e também para deixar um currículo, sabe como é...). Terça-feira, dez da manhã. Após uma conversa de poucas palavras ao telefone, fomos instruídos a comparecer no Circo Vostok neste horário, dedicado aos ensaios da equipe. O Vostok, um dos picadeiros circenses mais tradicionais da América Latina, depois de anos fora do circuito de apresentações, estava retornando naquela temporada (e bem perto da Void, que carma!). Porém, quando chegamos, a primeira impressão foi de que só a estrutura veio para o show: as únicas almas ali presentes eram as nossas. O circo vazio era um cenário digno de um filme do Stephen King – e não me surpreenderia se It, aquele palhaço medonho, tivesse aparecido para nos atacar. Desbravamos aquele ambiente bucólico e kitsch, tudo com aspecto de abandono, saca? Se este que vos fala fosse um maníaco depressivo, teria aproveitado a situação para se matar ali mesmo. Felizmente a coisa toda começou a mudar quando o primeiro ser vivo do lugar apareceu com um bambolê na mão para iniciar os exercícios matinais.

ME APAIXONEI PELA ACROBATA Carlos Ferreira é natural de Buenos Aires. Levava uma vidinha comum: há 11 anos trabalhava como designer gráfico numa agência na capital hermana e tocava bateria numa banda de pop rock nas horas vagas. Então, um belo dia, numa apresentação da banda no Rio de Janeiro, ele conheceu a Gisselle Repetto, que também nasceu na terra de Don Diego Maradona, e estava por lá curtindo as férias. Depois de um chá-lá-lá e outras cositas mais, o amor floresceu. Porém, Gisselle já trabalhava no circo naquela época. Carlos teve que escolher entre a rotina de escritório e uma vida itinerante com o circo. Foi uma decisão fácil, ainda mais quando sua namorada é uma acrobata contorcionista que consegue abrir as pernas num ângulo de 180 graus. “A vida mudou bastante, mas eu gostei muito. O mundo do circo é mágico, você começa a trabalhar aqui dentro e não consegue mais sair. Hoje não entendo como eu trabalhei tanto tempo em escritório sem conhecer isso antes”, conta Ferreira. Ele se matriculou numa escola de artes circenses, a mesma onde Gisselle dava aula. Não demorou para que eles logo caíssem na estrada com os demais colegas da trupe. “Na Argentina, o circo fica um mês em cada cidade. Durante um ano eu morei em doze cidades diferentes. E é muito bom, pois você conhece muitas pessoas e culturas distintas”, explica. Além da Argentina, o casal trabalhou no Uruguai, e agora está no Brasil. “Aceitamos vir para cá porque há uma grande visibilidade para nós, artistas. Existem grandes circos aqui, como o Vostok, o Beto Carreiro, e acreditamos que aqui possa ser o trampolim para uma carreira na Europa”.

33


VIDA EM QUATRO RODAS Hoje, Carlos realiza com a esposa dois números próprios dentro do circo - uma performance acrobática e um número cômico – além de uma apresentação coletiva de dança com outros integrantes. Durante a semana, entre terça e quinta, são realizados os ensaios das apresentações, que servem também para manter o condicionamento físico. O tempo restante é livre para fazer o que quiser. As apresentações ocorrem seis dias por semana, com uma folga na segunda. Conhecemos o trailer onde o argentino mora com a esposa. As residências da comunidade circense são instaladas atrás da lona do circo, longe das vistas do público. Nem todos moram numa casa sobre rodas: algumas pessoas estavam instaladas em uma espécie de containers adaptados – ali moravam os responsáveis pela infra-estrutura do circo, como montadores, guardas do estacionamento, e por aí vai. Os artistas, em sua maioria, possuem trailers próprios. “Nem sempre trabalhamos a vida toda no mesmo circo. Podemos estar aqui hoje, e, de repente, amanhã recebermos outra proposta, ou o dono pode reformular o espetáculo e o nosso número não servir mais”, explica. Qual não foi a surpresa ao constatar que o trailer do casal era mais confortável e melhor mobiliado do que muito JK por aí: cozinha completa, TV de plasma, computador com internet, parabólica para captar os canais da Argentina... “No circo não gastamos dinheiro com luz, água, imposto de moradia. Tudo que ganhamos serve para alimentação e para gastar com coisas que queremos comprar”, conta. Pelo jeito a grana é boa, então? “Não ganho tanto quanto na época que trabalhava como designer, mas sou muito mais feliz hoje. O homem é um animal de costumes. Não sinto falta de morar numa residência fixa. Eu tenho um apartamento em Buenos Aires. Como não moro mais lá, eu alugo. Hoje a minha casa é o circo, é tudo isso aqui. E o meu quintal é o mundo!” falou tão exaltado que deu vontade de largar o bloco de notas ali mesmo e perguntar quando podia começar.

34

A GOSTOSA DO CIRCO É natural que se pense no circo como um refúgio para todas as vítimas de bullying do mundo, como anões, gordos, mulheres barbadas e demais seres não aceitos pela sociedade. Pelo contrário: todos os artistas possuem um condicionamento físico de dar inveja a muito rato de academia. Gisselle, por exemplo, é uma mulher que chama a atenção pela ausência de gordura no corpo e excesso de músculos. Isso fica mais evidente ainda durante o ensaio, quando projeta o corpo para se equilibrar em cima de um arco suspenso. A força empregada para se manter no ar e contorcer coluna e membros até limites inimagináveis é grande. E você aí pagando academia por anos a fio e se entupindo de Activia, hein? Mas não era dela o posto de gostosa do circo. Afinal, todo circo tem uma boazuda para chamar a atenção dos marmanjos que levam seus filhos para uma apresentação. Este posto era ocupado pela voluptuosa Marine Maineri. A moça, uma hermana de 31 anos, é dona das pernas mais torneadas e desprovidas de celulite que este repórter já viu in loco. Marine participa de três blocos do show: dança acrobática, dança aérea e trapézio. “Eu trabalho no circo desde os três anos, junto com meus pais. É um misto de emoção, adrenalina, nervoso, alegria... Não existe nada igual”, conta. Como quem não quer nada, perguntei como ela lida com questões como relacionamento, namoro, enfim... “Eu sou casada, e meu marido não era do circo. Aí quando me conheceu, largou a Publicidade e seguiu a carreira comigo”. Sentindo o teor da entrevista, logo surgiu o esposo para proteger seu território. Começo a desconfiar que os circos possuem um plano de captação de elenco que envolve mulheres gostosas e homens babões.


“O HOMEM É UM ANIMAL DE COSTUMES. NÃO SINTO FALTA DE MORAR NUMA RESIDÊNCIA” FIXA.” 35


36


DA RUA PRO PICADEIRO

“EU FICAVA O DIA INTEIRO NUMA SALINHA, E GANHAVA MAL PRA CARAMBA. FATURAVA MAIS FAZENDO MALABARISMO NAS RUAS.”

Ricardo Piva, de 23 anos, é um dos únicos que participam apenas de um número do espetáculo: o de malabarista. Se você é de São Paulo e tem carro, já deve ter topado com ele em algum semáforo da vida e lhe negado uns trocados. Isso porque Piva era moleque de rua, e começou a brincar nos cruzamentos para ajudar na renda familiar. Ingressou numa escola de artes circenses para crianças carentes e aperfeiçoou sua técnica. “Eu fazia meus malabares com cabos de vassoura e garrafas pet. Depois juntei uma grana e comecei a comprar o equipamento próprio pra isso. Cheguei a viajar pelo estado inteiro num fusquinha para me apresentar nas ruas, em praças, ou junto com outros circos”, diz. Como sempre ouviu da família que devia ter estudos e uma carreira séria, fez faculdade de administração por dois anos. “Não deu para me formar. Não aguentava mais fazer estágio. Eu ficava o dia inteiro numa salinha, e ganhava mal pra caramba. Faturava mais fazendo malabarismo nas ruas. Larguei o estágio no terceiro mês. Saí da minha zona de conforto e fui atrás do que me dava satisfação”, conta. O ex-moleque de rua agora emprega seus esforços para ter seu próprio circo e ajudar outras crianças a ingressar nesse mundo místico. “Já comprei um circo pequeno no interior de São Paulo, agora trabalho para investir nele e montar a minha escola, formar novos talentos e mudar a vida de outras pessoas”. Ele afirma que não é fácil, que são poucos os artistas que conseguem entrar para um elenco fixo, e que é necessário muito treino e sorte. “Mas depois que você consegue entrar neste mundo, é só alegria”. E as mulheres? “Rapaz, eu namoro uma paulista que também é do circo. Mas nossa relação anda meio desgastada por causa da distância. Mas antes disso era uma loucura. Era que nem marinheiro, ficava com uma em cada cidade. E quando a mina descobria que eu era do circo, aí sim, enlouquecia, pedia pra ir embora comigo! Mas não dá pra se comprometer”, conta o esperto. Então fique ligado amigo: aquele cara pra quem você fecha o vidro do seu bólido compacto na cara pode estar ganhando mais do que você, pegando mais mulheres e numa vida menos burocrática que a sua.

FUGIU DA IGREJA PARA VIRAR PALHAÇO Daniel Moura tem sotaque típico do Nordeste. Nasceu em Teresina, Piauí e trabalha no circo desde os 14 anos, quando fugiu do seminário. “Minha família queria que eu fosse padre, e me mandou pro Seminário no Maranhão. Fugi de lá por causa de uma menina que conheci e que trabalhava no circo”, contou, repetindo mais uma vez a história recorrente no meio. “Hoje eu sou casado com outra pessoa, tenho quatro filhos trabalhando comigo aqui, e outros três fazendo faculdade lá pra cima”. Logo no início, Daniel começou a trabalhar no trato com os animais. Aos poucos foi aprendendo com os colegas de picadeiro outras funções, e hoje atua como trapezista e palhaço. “Não pense que é fácil ser palhaço. Você pode estar triste, mas na hora que coloca os pés ali no palco tem que extravasar. Você pode estar chorando, mas tem que alegrar o povo”, explica. Moura divide a cena com Danielle, sua filha de oito anos. Desde os quatro ele ensina a ela tudo o que sabe. Juntos fazem o número do Pinóquio – em que a menina fica dentro de uma caixa “dobrada” e sai de lá como uma boneca desarticulada – e o número do trapézio. Enquanto conversávamos, Danielle se alongava, colocando a perna na altura da cabeça com facilidade extrema. “Ela é bem inteligente, fala inglês e espanhol. A gente chegou e eu fui correndo matricular ela no colégio pra aproveitar o tempo. Depois, quando o circo mudar de cidade, tenho que pedir transferência pra um lugar mais próximo. Ela não perde uma aula”, explica.

37


NÃO QUERO VOLTAR PARA VEGAS “Aqui até as crianças participam das apresentações. Todas estudam e possuem responsabilidades. Se as notas não estão boas, ou se estão desobedecendo, o castigo é não ir para o picadeiro”, conta Cecília Vostok, diretora do show. Formada em Direito, estava morando com a família em Las Vegas e trabalhando nos bastidores do Cirque Du Soleil, quando, segundo a mesma, surgiu a oportunidade de voltar com o circo para o Brasil. Hoje ela atua em frente ao picadeiro, apresentando os números do espetáculo. Junto com ela, vieram o marido, Sidney, e a filha Ana, de oito anos. A menina, mesmo falando pouco português, estava ensaiando junto com os acrobatas, e faz parte do número de abertura vestida de palhaço. “Ela nunca morou num trailer, nunca viveu num ambiente como este. Agora que está vendo como é, ela já me disse ‘mãe, não quero mais voltar pra Vegas, quero morar aqui para sempre’. Não sente falta de nada, nem dos primos com quem convivia lá”, conta. Cecília vem de uma família famosa no meio circense, que atingiu gerações distintas com as apresentações de cidade em cidade: “Hoje quem mais frequenta as apresentações são pais que vieram ao circo quando crianças e querem mostrar aos seus filhos. Os adultos acabam se emocionando mais do que os pequenos por causa da nostalgia”.

38

VIDA EM COMUNIDADE Todo o ambiente do circo remete a uma grande comunidade alternativa, em que todo mundo vive em harmonia. “As pessoas acabam se conhecendo e tudo vira uma grande família. Claro, rolam os atritos de vez em quando, disputa de egos. Mas, se ocorre, a gente procura resolver rapidamente. São todos profissionais, então, se tem um problema, ele fica atrás da cortina e não vai para o palco”, explica Sidney de Souza, que atua na gerência do circo e como acrobata e trapezista. Segundo ele, para a pessoa entrar nesta comunidade, basta querer. “Quem tem aprendizado em artes circenses pode aparecer aqui e pedir uma audição com o dono. Se for aprovado, entra no elenco. Caso a pessoa não saiba nada de circo, pode entrar e aprender com a gente. Basta ter vontade”, diz. Mas mesmo numa comunidade fechada, o din-din é importante. Como Sidney trabalha na parte administrativa, ele estaria apto a nos falar de valores, mas não foi detalhista nas cifras pagas. “Os salários pagos no circo variam muito, de acordo com o papel que ele exerce em cena. O malabarista ganha mais que o palhaço, por exemplo. Mas ganha menos que um trapezista, por conta do risco de acidentes que ele corre. O dinheiro dá tranquilo para a pessoa sobreviver, já que o artista não paga pelos serviços básicos. Quem tem cabeça consegue administrar bem o salário e comprar uma casa em pouco tempo”, avalia.

“ERA QUE NEM MARINHEIRO, FICAVA COM UMA EM CADA CIDADE. E QUANDO A MINA DESCOBRIA QUE EU ERA DO CIRCO, AÍ SIM, ENLOUQUECIA, PEDIA PRA IR EMBORA COMIGO!”


ATRÁS DA CORTINA Voltamos naquela mesma noite para acompanhar toda a movimentação de uma apresentação no circo, mas desta vez nos bastidores. O dia que escolhemos para tal foi o pior possível: terça-feira, início da semana. Se houvessem umas trinta cabeças naquele recinto, seria exagero. Do outro lado, os artistas se instalavam atrás de um biombo coletivo para realizar a troca de roupa. Cecília Vostok tem um camarim próprio onde prepara seu figurino. O número de plumas, paetês, lantejoulas e demais penduricalhos que saíam de um baú fariam a alegria de um transformista. Toda a movimentação ocorre com uma trilha sonora digna de um musical da Disney, em um coro que terminava com a célebre frase “o show tem que continuar”. A gama de espetáculos no palco não corresponde ao número de artistas. Eles chegam a se apresentar duas, três vezes, com nomes diferentes, para dar aquela ideia de diversidade no elenco. Neguinho sai do palco, troca de roupa correndo, faz maquiagem, e volta pro número seguinte. Os locutores induzem a ação do público impostando emoção em suas vozes. Quando acontece uma falha no meio de um número, são eles que “matam” o tempo enquanto tudo se ajeita. “No circo tudo é ao vivo”, disse um deles no meio da montagem de uma estrutura. O último número da noite foi anunciado como “importado de Las Vegas, em uma escala menor”. Eram as Águas Dançantes – uma combinação de chafariz e holofotes que, comandados por uma mesa eletrônica, faziam o líquido espirrar e gerar formas de acordo com o andamento da música. Não foi o suficiente para suprir a falta de elementos tradicionais, como um mágico e o Globo da Morte. Tampouco tinha os “freaks” da era de ouro e do imaginário popular. Mesmo com estas ausências, o show continua, dando indícios que a tradição nunca vai ter fim.

39


VIVA A DIFERENÇA POR SABRINA DURAN

62


É bem provável que tudo o que você e eu pensarmos nas próximas 10 horas do dia, haverá pelo menos uma pessoa no universo com uma tara por isso. E se quisermos continuar pensando para o resto das nossas vidas e ainda pedir reforços a 57 mil pessoas, ainda assim, haverá alguém com alguma tara referente ao que pensarmos. Pode acreditar. A humanidade é bem mais interessante do que a mente mais criativa alcança. Eu, por exemplo, sempre achei mulheres mancas e cegas uma maravilha, dessas de entrar na lista “top five de mulheres desejáveis”. Em 1993, eu tinha 12 anos e estudava em um colégio público que admitia alunos com deficiência em salas de alunos sem deficiência. E na minha sala havia uma menina cega (suspiro). Durante o intervalo, ela circulava pela escola escorregando a mão pelas paredes pra se guiar. Sabia onde estava tudo: o banheiro, a cantina, o bebedouro, o lugar no pátio onde a gente sentava pra ficar fazendo nada. Acho que ali ainda não tinha safadeza no que eu sentia, mas rolava uma admiração meio voyer que eu, por pudor, não dividia com mais ninguém. Gostava de vê-la fazer suas coisas toda independente, e (condenem-me), eu podia olhar pra ela o quanto quisesse, quando bem entendesse, que ela jamais me repreenderia.

Aí a produção de hormônios começou a mudar e o mundo ficou mais interessante. No início da minha vida como repórter, lá pelo ano 2000, tive que entrevistar uma moça cega que era toda linda, cabelos compridos, perfumada, doce. E hétero. Ela também caminhava pela casa escorregando a mão pela parede e aquilo foi um gatilho que ressuscitou o voyerismo-mirim lá de 1993. Depois entrevistei uma tetraplégica igualmente linda, e cheirosa, e inteligente, e gostosa. E hétero. Com as mancas nunca tive a chance nem de conversar. Só as via (e vejo) de passagem, de longe – o que também não é pouco, porque enquanto elas caminham, gosto de observar aquele descompasso das pernas. Acho lindo. Em 2003, concluí a faculdade de jornalismo com um projeto final bastante suspeito: uma revista para... pessoas com deficiência. A ideia do projeto não foi minha, mas não reclamei. Conheci mulheres e homens cegos, surdos, paraplégicos, tetra, amputados. Mais que tudo, o projeto foi revelador. Naquela época, durante uma das entrevistas, descobri que meu apreço por meninas cegas e mancas tinha um nome específico – devoteísmo –, e que essa tara existe por praticamente todas as deficiências, que há pessoas que dedicam a vida a isso, que essas pessoas estão no mundo todo, que há diferentes modalidades e graus de devoteísmo e que há uma rede de sites incríveis sobre o assunto. Embora não me considere um exemplar “clássico” do caso, eu sempre intuí que não estava sozinha nisso.

63


GIANECCHINNI SEM PERNAS. OI?

DEVOÇÃO A palavra usada no Brasil e na gringa para denominar quem sente tesão por pessoas com deficiência física é “devotee” (pronuncia-se devotí), que significa devoto, e “devoteísmo” é a palavra que designa a prática. Um devotee pode ser um homem ou mulher, hetero, homo ou bissexual, que se sente sexualmente atraído exatamente pela falta e/ou limitação de algum membro ou parte do corpo de outra pessoa. Se em você, por exemplo, uma mulher com o braço amputado ou um homem numa cadeira de rodas causa pena, repulsa ou qualquer outro sentimento desabonador para o deficiente, em um devotee essas particularidades liberam um calor intenso, lascívia, fluidos e uma vontade incrível de trepar. Pois é. Aqui no Brasil, quase não há debates ou estudos com rigor científico sobre devoteísmo. O que existem são discussões e textos informais em fóruns virtuais sobre o tema, sites alimentados por pessoas com deficiência e devotees, além de salas de bate-papo em que deficientes e devotos se encontram para espraiar suas dúvidas, curiosidades e, se for o caso, marcar encontros e mandar ver. A internet, com a barricada do anonimato que oferece, torna-se o desaguadouro dessa prática considerada cabeluda por muita gente. O preconceito é a razão mais citada por devotees e deficientes para explicar por que o tema não rende estudos sérios. E o preconceito vem de todos os lados:

64

a) de não-deficientes e não-devotees que acham toda essa história uma grande aberração; b) de deficientes que evitam devotees porque os consideram pervertidos sádicos; c) de deficientes que consideram sádicos e com baixa autoestima os deficientes que se relacionam com devotees; d) de devotees que acusam deficientes de se anularem sexualmente por terem baixa auto-estima; e) de devotees que acusam outros devotees de perversão porque estes últimos colecionam fotos e vídeos de pessoas com deficiência à base de roubar as imagens sem a autorização do fotografado/filmado; f) de devotees que têm vergonha de serem considerados como tal e por isso malham a nomenclatura e suas definições para não se enquadrarem nela; g) de pessoas em geral (incluindo deficientes) que acham uma puta sacanagem alguém ser desejado por um motivo que, em tese, não é positivo (positivo segundo os contemporâneos padrões físicos de sanidade e beleza). Ou seja: tá fácil viver, não? Essa baciada de preconceito não tem nada a ver com os deficientes, especificamente. Isso tem a ver é com a raça humana mesmo, muito dada a caixinhas, a guetos e a guerrinhas sociais diárias – a maioria sem sentido. Como a gente aqui não tem qualquer pretensão de oferecer uma análise científica do tema, sacramentar definições ou lançar nova luz sobre o assunto, mas apenas mostrar que ele existe, nos abstemos de qualquer julgamento. Não cabe a nós defender nenhuma posição, a não ser aquela que dê mais tesão e felicidade às partes envolvidas.

Em sites norte-americanos e europeus, é grande a quantidade e diversidade de materiais sobre devoteísmo. Basta digitar as palavras-chave corretas, pular de um site para outro e pronto, abre-se um mundo de fotos, vídeos e textos. A maioria desses sites traz imagens de mulheres amputadas ou em cadeira de rodas. Elas aparecem sorrindo, algumas posando, outras sendo acariciadas ou cuidadas por homens gentis. Um verdadeiro sonho para devotees do sexo masculino, que parecem ter uma preferência por essas duas condições físicas. Em meio aos desejos de homens, as taras femininas também são contempladas no universo devo virtual. No site www.paradevo.net, mulheres devotees encontram farto material, desde um mural de mensagens com centenas de tópicos e posts diários de deficientes e devotees até indicação de filmes e livros com essa temática, camisetas com mensagens devo, links para sites correlatos (como o www.devoteen.webs.com, para devotees adolescentes), fotos reais de homens com deficiência e até montagens feitas com imagens de deficientes reais que receberam o rosto de famosos, tipo Keanu Reeves. Vejam vocês que entre essas fotos encontrei, nuzão, protegido apenas por uma toalha, o safado do Reinaldo Giannechinni devidamente amputado pelo photoshop dos joelhos para baixo. Outro site ponta firme no assunto é o www.ascotworld.com, criado por Jama Bennet, amputada há mais de duas décadas e que hoje é importante referência entre devotees e pessoas com deficiência. O ASCOT é um grupo de suporte e clube social para amputados, pessoas com outras deficiências e devotos de ambos os sexos e preferências sexuais. O site também oferece fotos, grupos de discussão, e, com freqüência, Jama organiza conferências para falar sobre o tema e promover o encontro entre deficientes e seus admiradores. Na página do site em que conta sua história, Jama diz que seu casamento acabou assim que ela teve a perna amputada, e “depois de ter sido rejeitada por alguns homens e meramente tolerada por outros porque “eu era ‘diferente’, fiquei emocionada ao descobrir que existem homens que não apenas não se importam com o fato de eu ser amputada, como apreciam minhas diferenças”.


SE VOCÊ É DEVOTEE... Sinceridade por sinceridade, Ron Jones é o homem das intenções claras. Ele é devotee e criou o site www.rongineer. com pra falar sobre isso. No link intitulado “Você gosta do quê?”, Ron explica: “eu sou um homem que acha uma mulher amputada sexualmente atraente. (...) Eu não entendo de psicologia e não pretendo ser um expert. Eu mesmo não entendo a atração. Eu apenas sei que ela é real. Eu também sei que nem eu nem ninguém consegue explicar por que homens são sexualmente atraídos pelos seios, pernas, dedos dos pés, lóbulo das orelhas ou qualquer outra parte do corpo de uma mulher. Eu não acho que alguém conheça a base da atração física do homem pela mulher, e o mesmo se aplica à atração sexual por uma mulher amputada ou por seu cepo (o coto do braço ou perna). Por quê? Quem sabe o porquê? Desde que ninguém seja machucado, quem se importa?” Ron parece tão bem resolvido com seu gosto sexual que até tira uma de leve com a cara dos seus iguais devotees. Ao clicar no link “Álbum de Fotos”, o visitante não encontra foto alguma, mas um texto: “se você é um devotee, você provavelmente veio para esta página primeiro, não é?” – (te peguei, safado!, ele parece dizer). Ron explica que prefere manter a privacidade das pessoas com as quais se envolve, e prossegue: “eu recomendo que você ‘crie’ suas próprias fotos, com você aparecendo ao lado da mulher dos seus sonhos, e algum dia, fotos reais de você e sua mulher estarão no seu álbum de fotos. Ponha a si mesmo na foto. Isso funcionou comigo!”.

65


A falta de informação sobre devoteísmo e o fato de nem sempre saberem explicar ou nomear o que sentem faz com que muitos devotees considerem-se a si mesmos seres estranhos com hábitos esquisitos. O grande choque (interno e externo) acontece porque, de novo, segundo os padrões contemporâneos/senso comum de beleza e tesão, um corpo com alguma deficiência não é um corpo capaz de desencadear prazer sexual, mas complacência e cuidados. Confere? Bullshit. O www.amputeeangels.com desmente isso de alguma forma. Trata-se de um site de relacionamentos muito bem estruturado que ajuda deficientes e seus apreciadores a se encontrar, fazer amizades e até engatar relações duradouras – tudo depende da harmonia do match, claro. Nas ferramentas de busca, na parte em que o interessado estabelece que tipo de pessoas procura, há um campo específico para as deficiências preferidas e que abrange muitos gostos devo, desde asma a bipolaridade, epilepsia, paralisia cerebral, nanismo, diabetes, distrofia muscular, cadeirantes, tetraplegia e Parkinson. Como o Amputee Angels, existem muitos outros sites de relacionamento (a maioria gringo) com uma infinidade de gente cheia das especificidades e atributos que vão além dos cabelos longos, pele morena, 1,68m de altura. Nesse universo, um seio que falta excita muito mais do que um par siliconado.

66


DIVISÃO DA DIVISÃO Um ex-editor meu costumava dizer que se a gente conhecesse todas as taras sexuais dos nossos vizinhos, certamente não os cumprimentaríamos no elevador. Durante as pesquisas sobre devoteísmo, descobri duas taras bastante peculiares entre os devotees que, de tão peculiares, acabam dividindo-os em dois subgrupos: os devotees pretenders (“fingidores”, na tradução) e os devotees wannabes (os “que querem ser”, numa tradução livre).

TRANSANDO ONLINE Foi difícil conseguir alguém que topasse falar sobre o assunto, devotees ou deficientes. Durante quase um mês procurei em blogs e sites algumas pessoas dispostas a me dar entrevista. Surgiram alguns contatos que depois sumiram, deixando de responder meus e-mails. Mas me provando que a pauta não estava perdida, apareceu na minha caixa de entrada um e-mail de alguém que viu um comentário meu em um blog mantido por deficientes e devotees. Era Edu O., dançarino e artista plástico que ganhou um edital do governo da Bahia em 2009 para montar um espetáculo de dança chamado O Corpo Perturbador, baseado na percepção dos devotees sobre o corpo com deficiência. O espetáculo é foda, e a entrevista com Edu você lê logo mais – segura aí um pouco.

no caso – e garantir o prazer dele naquele dia. Mas nem todos foram tão incisivos assim. A maioria dos devos com quem conversei se mostrou interessada em explicar suas preferências sexuais e deixar bem claro que buscava um envolvimento real, físico. Eu insistia com eles no fato de que alguns devotees não se relacionam fisicamente com as pessoas que admiram porque estão tão absortos na deficiência em si que acabam não conseguindo se envolver com a pessoa por inteiro, e recorrem a ela apenas para se excitar observando a deficiência. Quanto a isso, todos foram unânimes em dizer que não compartilhavam desse comportamento e que me queriam inteira, sim. Verdade ou não, o discurso era coerente. Mas, né, era coerência na terra de ninguém. Desconto seja dado.

Além da experiência do Edu, fui atrás de outras. Durante alguns dias, freqüentei o chat de pessoas com deficiência no portal UOL. Conversei com alguns devotees, demonstrei curiosidade sobre o tema, perguntei detalhes sobre o desejo específico. - Quais suas preferências? - Amputadas e anãs. - Por quê? - Não sei, sempre foi assim. - E o que você sente quando vê uma amputada? - Sinto um desejo muito grande por dentro, um tesão incrível, fico doido. Você é amputada? - Sou. - Eu te chuparia agora como ninguém nunca te chupou.

Um fato interessante é que todas as vezes que me logava no chat com um nick feminino, tipo “flavinhaamputada”, ou “renatadevotee”, os convites para conversa pipocavam freneticamente. Quando me logava como homem devotee, pastava uma profunda solidão na sala virtual apinhada de gente. Nenhuma mulher vinha conversar comigo e nem respondia quando eu tentava um contato. Não dá pra saber se há mais homens ou mulheres devotees, mas é possível perceber que os homens, devos ou deficientes, são bem mais atirados do que as mulheres (virtualmente falando e no universo da pesquisa que fiz nesse chat).

Entendeu? Ok. Eu estava falando/transando com um desconhecido na internet, terra de ninguém. A qualquer momento eu poderia sair dali e ele tinha que dizer logo o que queria – me comer,

Em cada um dos contatos com meus interlocutores, devotees e deficientes, todos foram muito bem tratados, respondidos e saciados em suas taras – talvez não exatamente como eles queriam, porque não gosto de ficar rebolando nua na frente do meu PC pra nego dar print screen da minha bunda. Mas, olha, houve pelo menos dois interlocutores devotees que me mostraram suas respectivas pirocas, e ambas pareciam bem felizes.

Os pretenders são devotees nos moldes clássicos, mas que também se sentem sexualmente estimulados quando fingem possuir alguma deficiência. Pra isso, utilizam cadeira de rodas, próteses, bengalas, muletas e outros aparatos. No site www.devguide.org, espécie de portal com links para assuntos ligados ao devoteísmo, há indicação de diversas páginas de pretenders em fotos e vídeos com suas cadeiras de rodas e muletas, por exemplo. No site www.pretendercity. com, os administradores da página, Lady Alessa e Governor Avaro, fazem questão de esclarecer que sabem quão triste pode ser para um amputado e sua família o peso da deficiência, e que eles, os pretenders, não têm nenhuma intenção de machucar os sentimentos de ninguém com sua prática. Mas, “a maioria dos pretenders são devotos dos amputados e poderiam dar de volta a eles coisas que faltam, como um relacionamento ou atenção sem piedade”. E completam: “é fato que nenhuma pessoa com deficiência vai recuperar seus membros nem deixar de estar paralisada se este site não existir”. Os wannabes vão além dos pretenders. Para eles, fingir deficiência não é suficiente, e muitos sonham em se tornarem deficientes de fato. No fórum www.missingtoes-forum.net.ms, os usuários discutem sobre um tema muito específico: o desejo de ter os dedos do pé amputados. Há dezenas de fotos de pessoas que tiveram os dedos dos pés retirados – acidental ou propositalmente? Não dá pra saber –, além de relatos, vídeos e tópicos de discussão com títulos como “Para todas as pessoas que têm o sério desejo de amputar um dedo do pé. Este não é um lugar para wannabes que nunca cortarão fora um dedo do pé”. Choca agora? Não, não choca. Assim é o mundo, diverso, e pelos elevadores da vida você certamente já terá cumprimentado (sem prejuízo para sua pessoa) muitos pretenders e wannabes.

67


TESÃO NO CORPO SACRALIZADO Edu O. criou um espetáculo de dança desconcertante no qual, entre outros movimentos, ele arrasta o corpo sobre o chão com a força de mãos e braços e tem preso às pernas um par de patas (de cavalo?). Edu tem deficiência e utiliza cadeira de rodas, mas não no espetáculo O Corpo Perturbador (www. ocorpoperturbador.blogspot.com), que ganhou um edital do governo da Bahia em 2009. A sensação de ver o dançarino arrastando-se com aquelas patas é brutal, poética, agoniante, sensível, medonha e linda. Edu consegue perturbar tanto quanto a sensação de quem cogita, pela primeira vez, a hipótese de transar com um corpo amputado, por exemplo. Foi a visão dos devotees sobre o corpo com deficiência que deu a Edu O. o embasamento para o espetáculo. Ele pesquisou muita coisa na internet, e foi lá, num blog sobre devoteísmo mantido por devotees e deficientes, que ele me encontrou e se dispôs a me ajudar com o tema. Edu O., algum tempo antes, teve seus comentários bloqueados naquele blog. O motivo, e outras coisas sobre o tesão pelo corpo deficiente, ele explica nessa entrevista. O que chamou sua atenção sobre os devotees na hora de pensar o espetáculo? Fiquei surpreso e curioso quando tive contato com este termo pela primeira vez. Isso aconteceu há pelo menos sete anos, numa palestra dentro da programação de um evento que tratava sobre sexualidade de forma abrangente. Eu dancei nesse dia sobre (o tema) devoteísmo. Desde então fiquei pesquisando na internet sobre o assunto e ficando cada vez mais interessado em fazer algum trabalho artístico em torno de um tema tão intrigante e desconhecido, inclusive para eu compreender, em meu próprio corpo, o que os estimulava. Nunca tive problemas de relacionamento, sempre tive uma vida muito ativa socialmente e sexualmente falando, mas saber que existe um determinado grupo que se interessa exatamente pelo que causa repúdio e constrangimento para a maioria das pessoas foi como abrir uma porta e com

68

certeza isso reforçou bastante minha relação com meu corpo. Quando eu percebi que já tinha material suficiente para me dar apoio no projeto do espetáculo O Corpo Perturbador, inscrevi em editais e vencemos. Qual o seu sentimento em relação ao sentimento de um devotee? Eu não tenho tabus ou pudores em relação à sexualidade, acho super natural alguém ter interesse sexual por um determinado tipo físico. O que me incomoda em relação aos devotees é que me parece que eles não são bem-resolvidos com eles mesmos e tentam forjar um sentimento de cuidado, carinho, atenção, negando a atração física. Acho muito mais interessante quando encontro nos bate-papos um que assume de cara que sente tesão pela deficiência, o que não impede essa pessoa de se interessar depois pela outra, pelas qualidades, pela personalidade do outro. É assim em qualquer relação. Interessamo-nos primeiramente por uma pessoa que nos atrai fisicamente ou pelo estilo, pelo olhar, mas algo que é exterior. Então para mim não há problema algum que alguém se aproxime por causa de minha deficiência. Já teve vontade de se relacionar com algum devotee? Sim, já tive por curiosidade, para ter contato com esse comportamento, para saber o que aconteceria. Sabendo que cada um é cada um, é lógico que as experiências são diferentes de pessoa para pessoa, mas deve haver algo em comum entre eles. A deficiência, de alguma forma, é um fetiche pra você em algum nível? Sou uma pessoa de cabeça muito aberta, sempre olhei para deficientes e não-deficientes da mesma forma. Tem uns deficientes que são muito atraentes, assim como pessoas sem deficiência também.

Você sente que devotees têm receio de dizer que o são e que pessoas com deficiência sentem receio de dizer que se relacionam ou gostariam de se relacionar com devos? Sim, há um certo comportamento velado em ambas as partes. O diálogo fica escancarado quando não precisam se revelar. Na internet, por exemplo, nunca mostram o rosto em comunidades de sites de relacionamento, usam nomes falsos. Há um certo receio de julgamento. Até entendo, porque é um assunto delicado, mas essa atitude também só faz reforçar preconceitos. Falar sobre sexualidade gera constrangimento, falar de sexo num corpo sacralizado como é o corpo com deficiência torna-se ainda mais difícil de se entender. O pensamento do senso comum deve passar por “como alguém pode macular um corpo indefeso, assexuado, coitadinho?”. Torna-se um absurdo você desejar um corpo que não pertence a ninguém, nem a quem o possui, mas é um corpo social, vitimizado. Por que acha que foi hostilizado pelo pessoal do blog que, segundo você contou, bloqueou seus comentários? Porque questiono justamente o comportamento de se esconder, o radicalismo de achar que determinadas situações ou todas as situações que envolvem deficientes é uma situação de devoteísmo, porque preferem ficar discutindo entre eles mesmos, sem abrir o diálogo para o mundo, mesmo que com isso venham críticas. Se fossem bem resolvidos com sua própria sexualidade, acho que o diálogo seria mais fácil. O link para o vídeo do espetáculo do Edu O. é esse aqui: http://goo.gl/mAhxJ


69


PATERNALISMO DESNECESSÁRIO POR PIERO BARCELLOS Juliana Carvalho é publicitária, escritora, apresentadora de um programa de TV, e pode ser considerada um tesão para devotees e não-devotees. Desde os 19 anos, Juliana roda pelo mundo em sua cadeira de rodas por conta de uma inflamação na medula. Em 2010 ela lançou o livro “Na Minha Cadeira ou Na Tua?”, onde fala sobre este período da sua vida, quando passou por adaptações e redescobertas, dentre elas a sexualidade. Ela conversou com a gente sobre devoteísmo, defendendo que o pessoal que sente atração por pessoas com necessidades especiais não tem que ficar se escondendo por aí. Você chegou a se relacionar com alguém que é devotee? O que aconteceu foi interessante. Eu saí com um cara uma vez que me disse que sentia tesão por cadeirante. Que era louco pra transar com uma mina numa cadeira de rodas. Ele era devotee mesmo sem conhecer o termo. Assim, como muita gente que curte, mas não gosta de mostrar a cara. Por que você acha que isso acontece? O devoto é visto como um alienígena na sociedade. As pessoas acham que eles são o “lobo mau” da história, que estão abusando do coitadinho ou da coitadinha que anda em cadeira de rodas, que usa uma prótese... Como se o carneirinho não pudesse caçar também. É uma visão paternalista de que alguém numa cadeira, por exemplo, não sabe se virar.

70

Pode haver também o preconceito de quem possui algum tipo de necessidade especial, por achar que o fato de ter uma deficiência significa perder a sexualidade? Pode sim. Muitos acabam internalizando isso, como se fosse um impedimento para ter uma vida sexual ativa. No meu caso, depois que me tornei cadeirante, a minha referência de sexo mudou. É como se eu tivesse ficado virgem de novo. A dificuldade inicial é grande, e aos poucos você vai descobrindo como sentir prazer e dar prazer, mesmo com as limitações físicas. O melhor orgasmo que tive aconteceu depois que me tornei cadeirante. Qual seria a solução para reverter essa percepção da sociedade de que o devotee é um pervertido aproveitador, e de que o deficiente é um coitadinho? Seria com informação. Muita informação. Os devotees não são pessoas estranhas, e não devem se esconder por causa disso. É um fetiche como qualquer outro. Não tem gente que tem fetiche por pé, por mina com peitão? É só mais um tipo de atração com o qual a sociedade ainda torce o nariz. As pessoas também têm que ter consciência de que canalha tem em todos os lugares, em todos os setores. Não é porque o cara tem uma deficiência que ele ganha automaticamente uma auréola de anjo. Aqueles que são portadores de alguma necessidade especial devem entender que suas limitações não impedem de serem objetos de desejo, nem de cultivarem sua sexualidade. E ainda bem que tem gente que curte e garante o nosso lado também!


DESEJO NO CINEMA POR PIERO BARCELLOS Devoteísmo não é um tema tããão tabu na indústria cinematográfica. Existe uma grande lista de filmes que abordam estas relações, e você já deve ter os assistido por aí, mas nunca pela ótica dos “desejos tortos”. Caso contrário, vale à pena pegar na locadora torrent mais próxima de você. ENCAIXOTANDO HELENA (Boxing Helena, 1993) O filme conta a história do médico solitário Nick Cavanaugh, que fica obcecado pela prostituta Helena. Ele se apaixona por ela, e tenta conquistá-la a todo custo, mas ela o rejeita. Até que um acidente de carro deixa a moça frágil o suficiente para que o médico a sequestre. Para mantê-la perto de si, o Dr. Cavanaugh amputa as pernas de Helena, para que ela não possa fugir e se torne dependente dele. Com seus membros decepados, a moça fica presa a uma espécie de altar, onde Nick passa a idolatrá-la. Psicopatia total, com um plot twist não muito surpreendente no fim. QUID PRO QUO (idem, 2008) Primeiro filme do diretor Carlos Brooks, conta a história de um radialista paraplégico depois de um acidente que também matou seus pais. Depois de receber a denúncia sobre um caso de erro médico, passa a investigá-lo, e acaba conhecendo uma mulher que o apresenta a um submundo onde pessoas deficientes buscam a descoberta de novas sensações. CRIME DELICADO (idem, 2005) Filme brasileiro baseado no livro de Sérgio Sant’Anna. Nele, Antônio, um crítico teatral, se apaixona por Inês, uma moça atraente e desinibida que não tem uma das pernas. Ela possui um relacionamento com um pintor, que a usa como modelo para seus quadros. O amor de Inês por outro homem faz com que Antônio fique obcecado e sinta cada vez mais ciúmes pelos dois. DEVOTEE (idem, 2008) Taí um filme bem específico sobre o tema. Feito na França, conta a história de Hervé, um homem de 43 anos que nasceu sem braços e sem pernas, e que é chegado em rapazes mais novos. Porém, sua deficiência dificulta a aproximação com outras pessoas. Até que num chat online ele conhece um jovem de 21 anos que é devotee. O filme mostra a dificuldade de Hervé em encontrar alguém que não o encare como um fetiche, e sim como um ser humano. A PELE (Fur: An Imaginary Portrait of Diane Arbus, 2006) O filme estrelado pela Nicole Kidman é uma semi-biografia da fotógrafa Diane Arbus (1923-1971). “Semi” porque alguns dos fatos do filme teriam sido baseados em supostas experiências da mulher cujo foco de seus retratos eram pessoas conhecidas como “freaks”. No filme, Lionel, um portador de tricotomia (doença de pele que deixa a pessoa totalmente peluda,) se muda para um apartamento acima onde moram Diana e seu marido. A curiosidade por Lionel faz com que ela entre cada vez mais neste mundo semi-secreto de pessoas estranhas. Chega ao ponto do marido de Diana perceber a atração da mulher por Lionel e deixar a barba crescer, numa espécie de competição.

71


# 073

ANO 07 / 2011 DISTRIBUIÇÃO GRATUITA LEITURA NÃO RECOMENDADA PARA MENORES DE 18 ANOS.

#073

AFIADA

AFIADA


EXPEDIENTE Direção: Gabriel Rezende Marco Arioli Pedro Hemb Rodrigo Santanna Vicente Perrone Editor: Pedro Damasio Repórteres: Felipe de Souza, Piero Barcellos e Gabriela Mo

COLABORADORES Leandro Vignoli é radialista da

Oi FM e nosso expert em música e adjacências. Ele é residente nas seções “Na Caixa” e “1001 Discos”. Lise Bing NÃO É uma garota quietinha. Gadgets e bizarrices internéticas são o recheio da sua coluna Bing Bang! lisebing.tumblr.com

Fabrizio Baron vive em um mundo envolvente onde tudo é possível. Nas horas vagas, trabalha com carteira assinada. É dele a coluna I Shot Macunaíma. Denise Rosa não canta mais as bolinhas do bingo, mas ajuda a organizar o galeto da paróquia. denise@avoid.com.br

Lucas Pexão é dono da Galeria

Projeto gráfico e Diagramação: Lucas Corrêa @Lava www.lavastudio.com.br Diagramação: Claudio Sudhaus www.sudhouse.com.br Fotografia: Maurício Capellari Gabriela Mo

Fita Tape e representa artistas via noz.art. Na Void ele escreve sobre arte e faz a curadoria da seção Magma. www.noz.art.br/pexao Ana Ferraz faz um monte de

coisas ligadas a projetos de arte e divide com Pexão a responsa na Galeria Fita Tape, e na seção Magma da Void. Mr Lexuz é um cara

Planejamento: João Francisco Hein

que vai no intestino grosso da televisão mundial transmitida a baixo custo, sempre a bordo do seu inseparável controle remoto.

Jurídico: Galvão & Petter Advogados office@galvaoepetter.com.br

Tobias Sklar é

DISTRBUIção A VOID É DISTRIBUÍDA GRATUITAMENTE NAS CIDADES DE PORTO ALEGRE, CURITIBA, SÃO PAULO, RIO DE JANEIRO E BELO HORIZONTE.

editor da Vista e colabora para a Void na seção Na

Lairton Rezende, também conhecido como Jacaré do Mar, é artista visual e pai do HomemBanana, o herói da dúvida. lairtonrezende@gmail.com

COLABORARAM TAMBÉM NESSA EDIÇÃO...

André Barros é pai de uma grande

família formada por um filho, esposa, amigos, agregados e a comunidade do skate ao seu redor, a família RTMF (Rio Tavares Mother Fucker). Determinado a levar o skate para os 4 cantos do Brasil. Rafael Chaves

é um caos ambulante.

CORROBORE! VOCÊ TAMBÉM TEM ALGO A DIZER, MOSTRAR, SOCAR NA FERIDA OU ARREMESSAR NO VENTILADOR? MANDE UM EMAIL PARA VOID@AVOID.COM.BR E CORRA O RISCO DE ENTRAR PARA ESSA LISTA DE NOBRES IMORTAIS PENSADORES. A REVISTA VOID É UMA PUBLICAÇÃO MENSAL COM DISTRIBUIÇÃO GRATUITA E TIRAGEM DE 20 MIL EXEMPLARES


ÍNDICE AEROSMITH DE AVALIAÇÃO FEMININA POR PIERO BARCELLOS

TODA MULHER GOSTA DE AEROSMITH, ISSO É FATO. SE NÃO GOSTA, OU É PORQUE NUNCA OUVIU, OU PORQUE NÃO É MULHER, SEM POSSIBILIDADES DE MEIO-TERMO. CIENTISTAS BRITÂNICOS DESCOBRIRAM QUE ISSO ACONTECE PORQUE CADA MÚSICA DA BANDA DE STEVE TYLER É FEITA PENSANDO EM UM TÍPICO ESPECÍFICO DE MULHER, O QUE PROVOCA A IDENTIFICAÇÃO IMEDIATA DA COCOTA COM A CANÇÃO. DEPOIS DE ANALISAR AS QUASE 140 MÚSICAS CRIADAS PELA BANDA DURANTE MAIS DE 40 ANOS DE CARREIRA, FOI ELABORADO O ÍNDICE AEROSMITH DE AVALIAÇÃO FEMININA, CUJO NOME FOI ESCOLHIDO PARA QUE SUA ABREVIAÇÃO (IAAF) FICASSE PARECIDO COM UMA ONOMATOPEIA DE ORGASMO. SELECIONAMOS ALGUNS TRECHOS DESTE ESTUDO INTERESSANTE RELACIONANDO PSICOLOGIA E MÚSICA.

16 / na PRIVADA

CRYING A VACA

PINK A NINFETINHA

JADED A MIMADA

Todo cara no mundo já encontrou uma mina que faz cu doce. Moça difícil que só com muita luta e muita fé se entrega. A frase dela no “Face” é “Mulheres são como maçãs, as melhores estão no topo da árvore e são mais difíceis de pegar”. O problema é que depois de pegar você se apaixona perdidamente, mas ela mantém a frieza calculada do sexo feminino. Sabe que é gostosa, e que num estalar de dedos tem o homem que quer. Vai te fazer pagar cinema, motel, restaurante, e até comprar um presente beeem caro em alguma data comemorativa. Dois dias depois ela termina tudo dizendo que se sente sufocada, que quer pensar no relacionamento e bla bla bla... Na semana seguinte ela está com outro e você está com uma coceirinha na testa. É a vida.

Hormônios em ebulição, corpo de mulher e cabeça de criança. É a típica menina de 18 anos que anseia os benefícios da vida adulta, mas sem sair do casulo da adolescência. Sabe seduzir um homem como ninguém, ainda mais se for mais velho. O quarto desta moça é todo cor-de-rosa, e ela tem um ursinho de pelúcia enfeitando a cama (de solteiro). Tolere se ela usar uma camiseta do Black Sabbath e tiver Restart como toque do celular. Tampouco perca tempo tentando entender o que ela digita no MSN. Ah, e não se deixe iludir pela idade: você pensa que vai ensinar alguma coisa pra ela, no entanto é você que aprende uma lição.

Ela não aceita um “não” e tudo tem que ser do jeito dela. Age como se fosse uma criança algumas vezes, é carente de atenção e reclama quando você não liga pra saber como ela está. De vez em quando ela merece um block no MSN só pra você não ter que ler suas lamentações. No entanto, ela tem o dom de fazer você se sentir culpado por não dar a atenção que lhe é devida. Mais cedo ou mais tarde você vai acompanhála quando ela for ao shopping comprar roupas, ou vai encarar aquela festa estranha com gente esquisita só porque ela curte. Diga não e perderá o seu amor. Diga sim e ela te transforma numa marionete.

Pink it was love at first sight Pink when I turn out the light

You got your mamma’s style


CRAZY A AMIGA FF (FODA FIXA)

DUDE (LOOKS LIKE A LADY) É UMA BILADA, CINO!

I DON’T WANNA MISS A THING PRA APRESENTAR PRA FAMÍLIA

Nem todo mundo busca um relacionamento duradouro. Às vezes só é necessário alguém pra uma boa trepada e saciar as necessidades físicas. Aí que entra a amiga “foda-fixa”. Vocês se conhecem há anos, e encaram o sexo como algo rotineiro da amizade, “just for fun”. Esta mulher é bem decidida no que quer, e consegue diferenciar sentimento do sexo. Ela procura o amigo FF quando precisa dar uma pra desopilar do serviço, se vingar de um namorado otário ou esquecer uma separação – o que pode explicar o olhar distante no meio do “tome-lhe tome-lhe”. Terminou o serviço, ela se veste e vai embora. Dormir de conchinha é coisa de casalzinho. Logo, se você se apaixonar, fodeu, pois não é isso que ela quer de você.

Você está na balada, já com o nível de álcool batendo os limites do tolerável, quando vê aquela morena alta bebericando sozinha no canto do balcão. Se aproxima e larga um papinho escroto. Pior é que ela te dá a maior bola. Você quer ela na sua cama e nem repara que a moça tem um gogó saliente, nem na largura dos seus ombros, tampouco no buço. Só na hora H você percebe que a mina tinha um atributo diferente das demais no meio das pernas, e com 20 cm de comprimento. Independente desta surpresa, ela é uma mulher e se comporta como uma. Ela deixa a decisão de um amor desprovido de preconceito na sua mão. Dedicada ao leitor Ronaldo Nazário.

Quando você chega ao ponto de acordar no meio da noite e ficar observando a sua mina dormindo, é porque ela conseguiu. Você se apaixonou, e ela pode dormir tranquila sem se preocupar com o futebol com os amigos, com a secretária do trampo, nem com aquela colega da faculdade. Você já apresentou pra família, tua mãe já chama de nora, e agora é só uma questão de tempo pra colocar o anel no dedo. Ah, e não se iluda: ela sabe que você acordou e está olhando ela dormir. Só não abriu os olhos para não estragar o clima.

FALLING IN LOVE A ARREPENDIDA SWEET EMOTION A HIPSTER

LOVE IN AN ELEVATOR A TARADA

A música fala de uma mina que fala de coisas que ninguém liga, e veste o que ninguém usa. É uma hipster total. Ela tem um iPhone, usa óculos wayfarer e curte fotografia. Você vai encontrar ela numa baladinha alternativa, tomando uns bons drinks. Pode puxar um papo com ela sobre os modismos da internet que ela vai curtir. Não critique seus cineastas favoritos, e elogie aquele filme que ganhou um festival lá na puta que pariu, mesmo que nunca tenha visto. Ela certamente vai reparar no seu jeito de vestir, então use camisetas com referências pop como HQ’s e seriados para conquistar a moça. Tome cuidado com a falsa bipolaridade que todo hipster ostenta e abstraia o papo chato sobre Bukowski.

São raras as mulheres que não tem um lado pervertido dentro de si. Umas são mais diretas quando o assunto é sexo, outras mais recatadas. Mas entre quatro paredes viram um furacão. É só ter a oportunidade certa. Tenha certeza de que ela vai tomar a iniciativa praquela rapidinha no horário do almoço, vai deixar a mão entrar na sua calça dentro do carro, e vai acabar contigo antes mesmo da porta do elevador abrir. Mantenha seu estoque de ovos de codorna e Redbull sempre em dia, pois ela vai exigir desempenho total. Aliás, esta é a música preferida para tocar na hora do sexo.

Tipo de mulher mais comum do que se pensa. Ela tem um relacionamento seguro, estável, cheio de amor, mas falta algo que nem ela sabe direito o que é. Descobre isso num happy hour, quando saiu com as colegas de trabalho e conheceu o amigo da amiga. No entanto, ela ainda ama o namorado/marido. O arrependimento pela pulada de cerca faz ela ser mais amável com o “titular do campinho”. Aí num belo dia, na hora do sexo, ela deixa escapar o nome do amante. Para tudo, recolhe os brinquedos, e explica essa porra direito. Ela chora, diz que não vai acontecer de novo, e implora pelo perdão. O pior é que o homem é capaz de perdoar porque gosta da mulher, mesmo com a probabilidade de repeteco. Ou seja, a música além de falar de uma mulher arrependida pela traição, também fala de um personagem do anedotário popular: o corno manso.

19 17


28


JUVENT U D E TRANSV IADA TINHA UNS 13, 14 ANOS QUANDO FUI NA MINHA PRIMEIRA FESTA ADOLESCENTE COMO UM MEMBRO DA ESPÉCIE. AS BALADINHAS ROLAVAM NO SALÃO DO APARTAMENTO DE ALGUM COLEGA DE AULA, RARAMENTE TINHA BEBIDA ALCOÓLICA E TODO MUNDO ERA MEIO CAGADO PARA CHEGAR NA MENINA QUE ESTAVA A FIM. DOS QUE OBTINHAM ALGUM SUCESSO, ARRISCO DIZER QUE EM 95% DOS CASOS A COISA NÃO PASSAVA DE UNS BEIJOS E SÓ. OU SEJA, UMA MERDA PARA QUEM ESTAVA NO ÁPICE DA EXPLOSÃO TESTOSTERÔNICA.

POR PIERO BARCELLOS

FOTOS MAURICIO CAPELLARI

AGORA, DEPOIS DE SOBREVIVER AOS PERCALÇOS DA JUVENTUDE, FUI COM O FOTÓGRAFO MAURÍCIO CAPELLARI VER O QUE A GAROTADA CRIADA A LEITE COM PÊRA E OVOMALTINE ANDA FAZENDO NA NOITE. E ADIANTO A MINHA AVALIAÇÃO: SE OS ANOS 90 TIVESSEM UM DÉCIMO DA EFERVESCÊNCIA DA FESTINHA QUE FOMOS, MUITA GENTE NÃO SOFRERIA COM PROBLEMAS DE ACNE, TAMPOUCO PROCURARIAM PSICÓLOGOS PARA ENTENDER O SENTIDO DA VIDA DEPOIS DE ADULTOS.

29


CHEGUEMO NO PICO Mal botamos os pés na frente da casa noturna e um cara numa Lamborghini fez o motor roncar alto, garantindo a alegria da galerinha que esperava do lado de fora para entrar. A função não muda com os anos: os carros chegam dirigidos pelos pais trazendo, na maioria das vezes, um par ou trio de adolescentes. Muitos progenitores contorceram o semblante ao ver que sua filha era vista como um pedaço de carne pelos urubus mirins que ali estavam. Como a ideia era se enturmar, aproveitamos que dois deles se aproximaram para pedir fogo, e batemos um papo sobre a festa. “Ah, cara, é sempre lotado. Sempre pego umas dez minas ou mais aqui”, disse um deles. “O esquema é pegação forte. Dependendo rola sexo depois”, conta o outro. O primeiro rapaz, que nem buço tinha em cima dos beiços, começou a contar vantagem: “Lá em casa eu já aviso meu pai. Peço pro velho pegar as coisas dele e ir pra casa da namorada, pra eu poder levar alguma menina pra lá. Da última vez fiz isso e fiquei comendo a mina a noite toda”.

30


NA BALADA A casa noturna é dividida em duas pistas: balada pop e área rock. No entanto, tinha gente lá com um neon na testa escrito “vim só pra me dar bem”. O dresscode denunciava quem era da turminha do pagode, do funk, do skate, dos emos... Até porque a música pouco importava. O esquema mesmo era contabilizar quantas línguas se enroscaram com a sua até o fim da noite, no mínimo, já que o objetivo principal seria feito longe dali, quiçá na cama de casal dos pais. Fui abordado por um moleque cujo rosto calejado denunciava a prática de louvor a Onã. “Tio, compra uma ceva aí pra mim?” Não consegui pensar em outra resposta que não fosse “Como assim, caralho?” Aí me liguei que o bar só vende ceva para quem atingiu a maioridade. Mandei o guri a merda. Pouco tempo depois, um par de minas também veio com a mesma abordagem. Gostosinhas até, com shortinho atochado na bunda, decotão, cara de quem tinha uns 19 anos. Larguei um papinho idiota pra cima delas, quando uma respondeu: “Toma cuidado, eu tenho 16 anos! Eu posso te processar!” Mandei elas tomarem uma Fanta Uva.

31


DRAMA ADOLESCENTE Durante a função de observação e diversão, uma menina se aproximou com aquele papinho de “bate uma foto pro site”. Acabou conversando com a gente por um tempo. “Ai, meu, tou mal pra caramba. A mina que eu tou a fim não quer nada comigo”. Tentarei explicar o drama da moça, que aqui vamos chamar de Maria Joana (só de zueira): MJ estava a fim de outra menina. Porém, a amiga dessa menina estava a fim de MJ, e tentou ficar com ela. Como não era o alvo principal, levou um fora, e a amiga, em solidariedade, também não cedeu às investidas. Complicado? Imagine lá no meio da festa, tentando entender que isso saía da boca de uma pirralha de 14 anos e que eu jurava ter no máximo uns 17... Mais adiante encontramos um grupo de meninas tentando consolar a amiga que levou um pé na bunda do namoradinho. Enquanto as lágrimas faziam da menina uma versão mirim do Alice Cooper, as parceiras de balada incitavam a vingança: “fica com outro, ele não te merece”. Recém passaram pela primeira menstruação e já despertaram o gene feminino do “olho por olho”. Sem conhecer a história e os envolvidos, já fiquei com pena do rapaz e do que ele poderia sofrer nas mãos daquelas moças. Não interessa a idade: mulher quando fica com ódio é melhor sair correndo ou aguentar as consequências.

32


SEXO: AINDA NÃO SEI Maria Joana não era a única menina lá querendo fazer um spider fight. Tampouco estava sozinha no quesito “foda-se se é homem ou mulher, tou pegando igual”. Jair Bolsonaro, se ali estivesse, teria um AVC ao ver o futuro do Brasil trocando saliva com seres do mesmo sexo. A história entre as meninas é quase a mesma: ficaram com uma amiga do colégio só de brincadeira e acabaram gostando. Já entre os caras era mais difícil saber este tipo de coisa. Interceptamos dois “amigos coloridos” que, quando questionados se eram namorados, soltaram um “pfff”, abanando a mão na nossa direção como se fossem divas, e negando qualquer traço de homossexualidade, ainda que sua linguagem corporal dissesse o contrário. Em outro momento, um grupo de amigos passou por nós e pediu uma foto, já posando para tal. Depois de ouvir que a intenção é registrar espontaneidade, um carinha disse “Ah, se é assim, xá comigo”, para em seguida engolir a amiga que estava do lado. Cliques feitos, a turminha sumiu na pista. Tempos depois, encontramos ela, sozinha, com um grupo de amigas. “E o teu namorado?”, perguntamos. “Ah, ele não é meu namorado. É meu amigo gay”. “Mas vocês se beijaram com força!” A resposta dela resumiu-se em um risinho safado dado com a mão na frente da boca. Perto dali, chamou nossa atenção aquele que seria o minicraque do Léo Áquila. Loiro, cabelo armado e maquiagem carregada, na mesma faixa etária dos da maioria na festa. Circulava de mãos dadas com outro cara numa boa, e fazia carão quando percebia que a câmera o mirava. Aliás, acredito que no fundo o mais legal da noite tenha sido perceber que a geração Z, apesar de mimada e com um péssimo gosto musical, está crescendo desprovida de preconceitos, respeitando a opção sexual dos seus pares e descobrindo a sua com mais liberdade e aceitação. Ao menos isso acontece do lado de dentro da festa, já que o ar ortodoxo dos pulmões paternos embaçava os vidros dos bólidos que esperavam ou deixavam suas crianças na frente da balada. Bastava uma menina com um pouco menos de roupa ou um moleque com trejeitos femininos para que alguns adultos torcessem o nariz dentro de seus carros.

33


O FIM DOS FREAKS Outro fato interessante é que aparentemente TODO MUNDO estava se dando bem naquela noite. Durante a festa, encontramos várias vezes o nosso contador de vantagem do início da matéria, e em cada uma delas ele estava com uma menina diferente. “A louca me deixou com umas marcas foda no pescoço, olha só”, e levantava o queixo mostrando os chupões como um troféu da noite. Outro que se destacava no lugar era uma versão do Harry Potter com dois metros de altura. Em outros tempos ele seria um dos “freaks” do colégio. Lá ele era só mais um a se divertir, e que depois vi caminhando de mãos dadas com uma baixinha para um canto mais reservado da casa. Sem falar nas gordinhas. Creio que durante os anos que separam a minha geração da deles, as moças com uma concentração maior de adiposidade aprenderam o poder da autoestima, e a usar roupas que valorizassem seus atributos físicos, sem precisar das amigas esbeltas na volta para se darem bem. Pior para as magrinhas bulímicas e sua falta de voluptuosidade. O padrão estético “Beth Ditto” era bem assediado. Nunca estavam sozinhas, sempre com um taradinho a tiracolo. Agora, não podemos falar o mesmo dos caras...

34


O DRAMA DE RUFUS Não sei se este é o nome verdadeiro dele. Chamo-o assim pela sua semelhança com Rufus o lenhador, do desenho Corrida Maluca. Gordinho, 17 anos no lombo, cara de bolacha Trakinas, estava ali pelo mesmo motivo que todos da sua faixa etária: pegar umas menininhas. Entrou na festa acompanhado de uma amiga, pagou uma bebida pra ela, e nos abordou para fazer uma foto. Quando falamos que a gente estava lá para uma matéria, ficou batendo papo, e se juntou conosco para aconselhar Maria Joana sobre como conquistar a amiga ressentida. Quando se ligou, Rufus havia perdido a amiga. Partiu atrás dela como se fosse a última esperança de se dar bem naquela noite.

Cruzamos com Rufus mais tarde... “E a amiga, cara? Achou?” “Que nada... Encontrei ela pegando outro”, disse com uma certa melancolia no olhar. Incentivamos ele a ir a luta. Como a tendência de todo ser masculino de IMC elevado é se foder, lá foi Rufus cumprir com a profecia. Encontramos com ele novamente outras vezes, sempre com um sorriso bonachão cheio de esperança de que tudo ia dar certo. Nós, como arautos do mau agouro, sabíamos que não era isso que ia acontecer. Não deu outra – topamos com o gordinho botando as tripas pra fora no banheiro como se não houvesse amanhã. “Acho que fiquei uns cinco quilos mais leve”, comentou conosco. Já do lado de fora da festa, esperando um táxi para ir embora, vimos Rufus saindo da balada com aquela cara de quem ficou no zero a zero total. E, óbvio, veio falar com a gente, quiçá ouvir uma palavra amiga. “Que deu errado nessa noite, Rufus?” “Cara, há dois anos venho aqui e nunca peguei ninguém. Mas sei lá... As meninas que vem pra essas festas não são muito o meu perfil...” refletiu, buscando uma desculpa para a sua fracassada noite. Interpelado pelo fotógrafo Maurício Capellari sobre como fazia para saciar as necessidades físicas, soltou um tímido “dou meu jeito”, como quem tem vergonha de admitir que mais uma vez o palhaço ficaria despenteado naquela noite. (recomendo a leitura deste último parágrafo ouvindo The Lonely Man, do antigo seriado do Incrível Hulk) Confesso que fiquei compadecido daquele jovem. Faltando um ano para a vida adulta, ele já sofre com a peculiar crueldade feminina e com a falta de traquejo social em ambientes descoladinhos. Falamos para ele que com a maioridade as coisas melhoram, e que no futuro bastará ele ter grana o suficiente para baixar uma garrafa de whisky com Redbull para comer quantos cus ele quiser. Que só a experiência com as mulheres erradas fará ele encontrar a mulher certa. Se este guri seguir todos os nossos conselhos, será um jovem adulto feliz – com sífilis, mas feliz. Mas no tempo presente, ele é só mais um adolescente desajeitado rumando para casa sozinho para mais uma seção de espancamento covarde de cinco contra um e buscando seu lugar no mundo, como todo mundo faz nesta idade.

35


KANIBA LIZANDU O SINEMA 70


POR PIERO BARCELLOS

FOTOS GABRIELA MO

No ano em que entrei para o seleto grupo de nobres notáveis que escrevem nesta publicação, fui incumbido de entrevistar um maluco do interior de Santa Catarina que fazia filmes trash. O “maluco”, neste caso, é um adjetivo positivo atribuído a alguém que trabalha com cinema alternativo em meio a um monopólio industrial de produção em massa, para a massa. Principalmente quando o termo “alternativo” não classifica bem o gênero utilizado por Petter Baiestorf. Munido de sua câmera VHS, um grupo de amigos elevados a atores, baixo orçamento e tendo como cenário a pacata cidade de Palmitos, Baiestorf deixou verter a demência que todos nós temos em algum recanto do cérebro e transformou-a em filmes trash-gore-pornô, com homens decepando bucetas e mulheres nuas se divertindo em meio a tripas frescas de um cadáver qualquer. Foi o que vimos quando chegou até a redação uma cópia da obra à época recente chamada “Vadias do Sexo Sangrento”. No meio daquele regozijo visual, decidimos entrevistar o jovem talento para a edição #042 da Void. Três anos depois, encontramos Petter Baiestorf praticando uma de suas atividades sociais recorrentes (a.k.a. bebericando um suco de cevada) junto da namorada, a artista plástica Leyla Buk. Aproveitamos para bater um papo sobre cinema, seus projetos, e como ajudamos (ou não) sua carreira.

Void_Como foi a repercussão da matéria? Mudou alguma coisa ou não aconteceu merda alguma? Petter Baiestorf_Olha, ninguém me disse nada (risos). Teve uma gurizada que comentou que viu na internet, mas ficou nisso. O pessoal do Rio Grande do Sul falou bastante, mas fora isso não teve grande repercussão. Void_Então nem ajudamos, nem pioramos a situação? Baiestorf_Mas é como eu falo, sempre é válido todo tipo de divulgação. Às vezes pode pegar um público que é diferente do que eu estou acostumado, que é um público mais chinelão, aquele cara bêbado que vai em show de metal e punk, tosco, que fica na porta do show enchendo o saco... É mais este público mesmo. Void_Na época que nós conversamos você estava envolvido no lançamento do filme “Arrombada”... Baiestorf_Eu havia terminado as gravações de “Arrombada – Vou mijar na porra do seu túmulo”, e estava divulgando “Vadias do Sexo Sangrento”. Depois disso eu fiz “Ninguém deve morrer” e “O doce avanço da faca”, filmei um curtinha em HD, e fui ator num filme chamado “A noite do Chupacabra”, que foi lançado recentemente. Void_Nestes últimos três anos você tem participado de muitos festivais de cinema, teus filmes tem bastante procura? Baiestorf_Bastante. E cada vez mais, na verdade. Tanto que eu não fazia trabalho de ator. Só abria uma exceção para amigos. Aí me convidaram pra este filme aí, e foi uma experiência boa pra caralho, porque é um filme que tu não precisa se preocupar com dinheiro, coisa com a qual eu estou acostumado. Desta vez foi ao contrário, só se preocupar em ensaiar as falas e tal, e eu achei bem mais sossegado. “A noite do Chupacabras” já está agendado para participar de vários festivais, começou no Fantaspoa1 e já tem exibições marcadas em Rio de Janeiro e São Paulo. A produção dele foi de R$ 130 mil, uma coisa mais profissional do que estou acostumado. Void_Você começou fazendo filmes em câmera VHS, depois passou pra mini-DV. Hoje tem gente fazendo filmes com a câmera do celular. Essa evolução tecnológica afeta seu trabalho? De que maneira? Baiestorf_Eu estou cada vez mais me adaptando. Rodei dois curtas com uma câmera em HD, uma câmera fotográfica que filma, e a qualidade é foda. Fora que diminui os custos da produção também.

71


recordar é morrer Void_Falando em produção, como anda a captação de atores para os filmes? Na época você disse que havia uma grande procura, e que era necessária uma filtragem pra não colocar qualquer pessoa... Baiestorf_A seleção está cada vez melhor. Por exemplo, agora em 2012 a Canibal Filmes vai fazer 20 anos. Pra comemorar, já estamos pensando em fazer um filminho um pouco maior, com gente de todo o Brasil. Já tou com gente de Minas Gerais que vai trabalhar na parte técnica, atriz de São Paulo, atores que vão vir de outros estados... Na verdade eu tou montando o orçamento, que é outro problema, mas já sei o que vou fazer. Em 2012 quero fazer um filme bem violento e porra-louca, quero botar todas as coisas que não se deve. Provavelmente vai ser um filme que eu não vou conseguir colocar em festival nenhum porque vai ficar muito louco. Mas a ideia é essa, fazer algo que representasse a tônica da Canibal Filmes. Void_Então o Manifesto Canibal continua firme e forte em seus ideais? Baiestorf_O Manifesto Canibal (o livro) estava sendo sondado para ter mais uma edição, mas eu não sei como está isso. Void_Coincidentemente, o lançamento nacional do “A noite do Chupacabras” aconteceu na mesma semana em que foi lançado nos cinemas de grande porte “Cilada.com”, do Bruno Mazzeo. E o cara tem o casting inteiro da Globo à disposição dele. O que você faria se contasse com o mesmo acervo de talentos nacionais? Baiestorf_Não filmaria com ninguém da Globo. Eu acredito que são dois mundos diferentes. Eu nem sei quem trabalha na Globo hoje em dia, mas vou citar pessoas do tempo que eu via TV: Tarcísio Meira, Glória Pires... Esse pessoal não trabalharia porque não interessa. O negócio é underground. Por exemplo, eu filmaria com um vocalista de uma banda underground que talvez chamaria público. Mas os demais, eu quero que eles fiquem no canto deles. Void_Mas nem pra empalar um ator de Malhação? Baiestorf_Não. O cara sabe que só vai se incomodar com uma figura dessas. Tu tem que filmar com um orçamento minúsculo. Às vezes tu só tem uma semana à disposição pra filmar. Então tu vai fazer um filme com um cara que vai ter que acordar às quatro da manhã, trabalhar 24 horas por dia, molhado de sangue, passando frio... Tu acha que esses caras da Globo não vão dar chilique?

72


Void_Com quem você gostaria de fazer um filme, que ainda não fez? Baiestorf_Santiago Segura, um comediante espanhol. Respeito muito a obra dele. O dia que eu conseguir um dinheirinho eu vou trazer ele pro Brasil pra filmar, com certeza. Ele começou fazendo fanzine, então eu me identifico muito com ele por causa disso, pois também comecei fazendo fanzine. Conheço os curtas dele desde quando ele fazia em VHS também, tem uma história muito parecida com a minha. E filmaria também com o Ron Jeremy. Void_ E o que você anda assistindo de filme? Baiestorf_Eu vejo de tudo. De filme da Disney até pornô extremo japonês com gente se jogando merda na cara. A maioria eu não gosto, mas eu tenho uma curiosidade cinematográfica muito grande, aí praticamente tudo me interessa. Void_Qual foi o último filme que você viu e gostou? Baiestorf_Foi “´Pólvora Negra”, do Kapel Furman, que foi o responsável pelos efeitos especiais do último filme do Zé do Caixão. Void_Quais são os teus próximos projetos? Baiestorf_No momento estou focado na captação de recursos para o filme dos 20 anos da Canibal Filmes, pra lançar no segundo semestre de 2012, se nada der errado. É que sempre pode dar tudo errado. Se eu não conseguir fazer isso, eu já tenho um roteiro pra um curta, que não tem nada a ver com os meus outros filmes, é mais dramático, pra filmar com um casal de velhos. É um filme mais contido, mais intelectual. Tá ligado que eu faço umas paradas de vídeo-arte? Se eu não conseguir fazer o primeiro, este ultimo fica mais barato, acho que com R$ 15 mil dá pra fazer algo bem bacana. Void_E a tua cidade continua sendo cenário das atrocidades? Baiestorf_Sim, sim. Gosto muito de filmar lá no oeste. Já filmei em vários lugares, mas eu prefiro lá. Acho melhor em Palmitos.

Não lembra da edição onde desbravamos a estética do Cinema Canibal? Confere uma parte desta coisa medonha que nós chamamos de matéria:

Em 2002, foi lançado o livro Manifesto Canibal, em que Petter Baiestorf e outros entusiastas deste cinema explicam como revolucionar a sétima arte no Brasil, restrita atualmente, segundo aos autores, a um cinema acéfalo, de padrões estéticos glamourizados por Hollywood e pela Globo. Em uma das passagens, Baiestorf destila sua fúria: “Se a ideia é o Governo patrocinar o cinema brasileiro dito oficial, precisamos contestar os valores das grandes produções. Ao invés de dedicar R$ 12 milhões para um único filme, poderíamos produzir filmes de R$ 100 mil (é possível realizar obrasprimas com este valor, sem corrupção, lógico). Teríamos 120 trabalhos com possibilidade de lucro e explorando as mais diversas temáticas possíveis”. Aliás, é a fúria que move o Kanibaru Sinema. “Soltemos nossos urros de revolta!!! Construamos nossos próprios filmes e que sejam feios, sujos, malvados, alucinados, aleijados, bêbados, contestadores e transgressores dos valores sociais”, despeja Baiestorf. Em resumo, os caras querem ser toscos e agredir a sociedade. Um exemplo disso está no trailer de Arrombada - Vou Mijar na Porra do seu Túmulo. Uma das chamadas do filme incita as pessoas: “Cuidado! A sua filha pode estar neste filme”. Em outra, os personagens dementes e pervertidos são identificados pelos cargos que ocupam, como o padre, o médico da

família, o juiz de direito, o deputado eleito senador, e por aí vai. Esta é a forma que Baiestorf usa para inserir uma crítica política em meio ao pornôgore da tela. Para ser um adepto do Kanibaru Sinema é preciso, antes de tudo, esquecer quaisquer regras, seja de estética, de moral ou de comportamento. Faça o filme com poucos recursos mesmo. “Se não tiver como conseguir uma câmera, roube uma”, indica o Manifesto. Faça tudo sozinho, desde a produção até a distribuição. Chame seus amigos, parentes e tudo que houver de mais freak do seu convívio social para atuar. Inserir os filmes em mostras não-competitivas também faz parte do movimento, bem como avacalhar as mesmas (a competição é uma bobagem criada pelo capitalismo). Não queremos festivais, não queremos prêmios, não queremos pessoinhas alegres com suas caras de saco murcho! Abaixo os bonzinhos, abaixo os saudáveis, abaixo historinhas de ninar, abaixo toda sua bosta light! Nós queremos que você enfie seu jornal no cu, nós queremos que sua TV se foda, nós queremos que vocês continuem sendo capachos do politicamente correto!(trecho do livro Manifesto Canibal)

Quer ler mais? A matéria completa está lá no site da Void. É só conferir em www.avoid.com.br

73


# 074

ANO 07 / 2011 DISTRIBUIÇÃO GRATUITA LEITURA NÃO RECOMENDADA PARA MENORES DE 18 ANOS.

#074

NÃO COMPRE!

NAO COMPRE!


EXPEDIENTE Direção: Gabriel Rezende Marco Arioli Pedro Hemb Rodrigo Santanna Vicente Perrone Editor: Pedro Damasio Repórteres: Felipe de Souza, Piero Barcellos e Gabriela Mo Projeto gráfico e Diagramação: Lucas Corrêa @Lava www.lavastudio.com.br Diagramação: Claudio Sudhaus www.sudhouse.com.br Fotografia: Maurício Capellari Gabriela Mo Planejamento: João Francisco Hein Jurídico: Galvão & Petter Advogados office@galvaoepetter.com.br

DISTRBUIção A VOID É DISTRIBUÍDA GRATUITAMENTE NAS CIDADES DE PORTO ALEGRE, CURITIBA, SÃO PAULO, RIO DE JANEIRO E BELO HORIZONTE.

COLABORADORES Leandro Vignoli é radialista da

Oi FM e nosso expert em música e adjacências. Ele é residente nas seções “Na Caixa” e “1001 Discos”. Lise Bing NÃO É uma garota quietinha. Gadgets e bizarrices internéticas são o recheio da sua coluna Bing Bang! lisebing.tumblr.com

Fabrizio Baron vive em um mundo envolvente onde tudo é possível. Nas horas vagas, trabalha com carteira assinada. É dele a coluna I Shot Macunaíma. Denise Rosa não canta mais as bolinhas do bingo, mas ajuda a organizar o galeto da paróquia. denise@avoid.com.br

Lucas Pexão é dono da Galeria

Fita Tape e representa artistas via noz.art. Na Void ele escreve sobre arte e faz a curadoria da seção Magma. www.noz.art.br/pexao Ana Ferraz faz um monte de

coisas ligadas a projetos de arte e divide com Pexão a responsa na Galeria Fita Tape, e na seção Magma da Void. Mr Lexuz é um cara

que vai no intestino grosso da televisão mundial transmitida a baixo custo, sempre a bordo do seu inseparável controle remoto. Tobias Sklar é

editor da Vista e colabora para a Void na seção Na

Lairton Rezende, também conhecido como Jacaré do Mar, é artista visual e pai do HomemBanana, o herói da dúvida. lairtonrezende@gmail.com

CORROBORE! VOCÊ TAMBÉM TEM ALGO A DIZER, MOSTRAR, SOCAR NA FERIDA OU ARREMESSAR NO VENTILADOR? MANDE UM EMAIL PARA VOID@AVOID.COM.BR E CORRA O RISCO DE ENTRAR PARA ESSA LISTA DE NOBRES IMORTAIS PENSADORES. A REVISTA VOID É UMA PUBLICAÇÃO MENSAL COM DISTRIBUIÇÃO GRATUITA E TIRAGEM DE 20 MIL EXEMPLARES


O GARANHÃO ITALIANO (1970)

LIÇÕES DE VIDA DE SYLVESTER STALLONE POR PIERO BARCELLOS

18 / na PRIVADA

LÁ NO INÍCIO DOS ANOS 1970, ALGUÉM NOS EUA DISSE A UM FILHO DE IMIGRANTES ITALIANOS QUE ELE PODERIA SE DAR BEM NO CINEMA. ESSE GURI HOJE É CONHECIDO COMO SYLVESTER STALLONE, ATOR, DIRETOR E ROTEIRISTA CONSAGRADO DE HOLLYWOOD E ÍCONE “BRUCUTU” DE FILMES DE AÇÃO. O QUE POUCA GENTE CONSEGUE VER É QUE EM CADA UMA DE SUAS PRODUÇÕES ELE DÁ UM JEITO DE INSERIR AS LIÇÕES QUE APRENDEU AO LONGO DA VIDA, ORA COMO MENSAGEM SUBLIMINAR, ORA COMO DECLARADA MESMO.

Foi o primeiro filme do Stallone, e ainda por cima um soft-porn. Nele, Sly namora uma moça numa relação baseada em sexo e sadomasoquismo. Aí num belo dia três mulheres vão até a casa dele para uma festa, e a surra de trolha corre solta. No entanto, no filme não aparece nenhuma cena mais forte. O ator só topou fazêlo porque estava na merda, e ele ganharia US$ 200 por cada dois dias de trabalho. Lição de vida: se você está fodido, entre no embalo e comece a foder também.

DEATH RACE 2000 (1975)

Um filme futurista onde os participantes de uma corrida de carros ganham pontos ao atropelar pessoas no meio da pista. Os veículos são adaptados com lâminas e armas para aumentar a periculosidade. Stallone é o Machine Gun Joe, praticamente uma versão carne, osso e queixo torto do Dick Vigarista (até o carro é igual). Lição de vida: 35 anos depois surgiram o Carmageddon, o GTA, e um maluco num Golf preto atropelou um bando de ciclistas. Seja visionário!

ROCKY (1976)

Aqui Stallone não só escreveu o roteiro como decidiu que deveria interpretar o personagemtítulo, um boxeador regional que faz uns trampos pra um agiota. Até que ele recebe a proposta de lutar contra o campeão dos pesos-pesados Apollo Creed, para quiçá conquistar o título máximo do boxe. Ganhou o Oscar de melhor filme, melhor diretor e melhor edição em 1977. Lição de vida: Quem disse que não se ganha nada na base da porrada?

FUGA PARA A VITÓRIA (1982)

Um clássico dos anos 1980. A história se passa na Segunda Guerra Mundial, quando um grupo de prisioneiros do exército aliado é obrigado a participar de um jogo de futebol contra os alemães, a fim de estes mostrarem a superioridade da raça ariana. Se os presos perdessem, poderiam ser soltos. Caso ganhassem, seriam mortos. O treinador do time era interpretado por Michael Caine, e tinha Stallone como goleiro e Pelé (!) no ataque! Lição de vida: Num rachão, sempre mande o parrudo pro gol, e escale o neguinho franzino e topetudo pro ataque. Sempre.


STALLONE COBRA (1986)

Cobra é o policial chamado pra resolver qualquer problema, até mesmo quando uma facção terrorista está atormentando uma cidade. Logo no início do filme, toda a polícia local está cercando um assassino dentro de um mercadinho. No entanto, quem entra lá e mata o bandido é o Stallone, munido de um palito de dentes e trocentas frases de efeito, como “Você é um cocô, e eu vou matar você”, “Com louco eu não negocio, eu mato”, e a famosa “Você é a doença, e eu sou a cura”. Lição de vida: Crie bordões fodásticos e ninguém irá se meter contigo.

FALCÃO O CAMPEÃO DOS CAMPEÕES (1987)

Clássico da Sessão da Tarde que inspirou muitos moleques a praticarem queda de braço no colégio e arrebentarem algumas mesas. Sly é Falcão, um caminhoneiro que precisa reconquistar o amor e a guarda do filho, que fica sob tutela do avô depois que sua ex-esposa morreu. Paralelo a isso, ele vende seu velho caminhão pra poder participar de um torneio de queda de braço, cujo prêmio é um truck novo. Lição de vida: Se a coisa ficar difícil, é só virar seu boné pra trás.

O DEMOLIDOR (1993)

Pouca gente se lembra da história deste filme onde Stallone é um policial do século XX que estava congelado crionicamente e acordou no ano de 2032 pra caçar um bandido da sua época. Detalhe é que a sociedade em que ambos estavam não conhecia a violência, liberdade de expressão e nem o sexo. Lição de vida: você nunca vai descobrir como se usam as três conchas do filme.

ALTA VELOCIDADE (2001)

Neste filme, Sly é um corredor veterano da Fórmula Indy que é chamado para ajudar um piloto novato e deslumbrado a se focar na carreira. A obra também mostra os bastidores das disputas e como a vida particular dos corredores afeta o seu desempenho nas pistas. Lição de vida: Via de regra, pilotos de competições são como jockeys de cavalos: magros e de baixa estatura, para não influenciarem no peso do carro e ganharem com isso mais velocidade. Só o braço do Stallone pesa mais que um piloto e mesmo assim ele podia competir. Logo, nunca desista dos seus sonhos.

ROCKY BALBOA (2006)

Trinta anos depois do primeiro filme da série, Stallone, agora com 60 anos, volta a interpretar o famoso boxeador da Filadélfia, atualmente dono de um restaurante na cidade. No entanto, ele ainda sente vontade de lutar, apesar da idade. A oportunidade surge num desafio contra o campeão atual, que quer aumentar a popularidade entre os fãs do esporte. Ao mesmo tempo, Rocky precisa lidar com seu filho, que sente vergonha do pai que tem. Lição de vida: Tirando a cena do diálogo entre Rocky e o filho (que é uma lição pra vida por si só), procure demonstrar um pouco de respeito aos mais velhos, Nunca se sabe se o “vovô” pra quem você não cede lugar no ônibus é pugilista.

OS MERCENÁRIOS (2010)

Esqueça o roteiro. Esqueça a história. É um filme de brucutus que reúne os maiores nomes do cinema de ação de todos os tempos para estourar cabeças e fuzilar alguns soldados inimigos. Uma parte deste filme foi rodada no Brasil, e a turma do Stallone detonou várias bombas na cidade de Mangaratiba. Saiu do lugar dizendo que no Brasil “você pode explodir o país inteiro e eles vão dizer ‘obrigado, e aqui está um macaco para você levar para casa’.” Lição de vida: É preciso fazer algumas coisas por pura galhofa, ainda mais se você é um grande astro de Hollywood cheio da grana.

19


MATEI COM O QUE TINHA


POR PIERO BARCELLOS FOTOS MAURICIO CAPELLARI

QUANDO SE PENSA EM ARMAS, A PRIMEIRA COISA QUE VEM À CABEÇA É QUALQUER OBJETO QUE TENHA UM GATILHO, FAÇA BUM, E SEJA USADO POR JOGADORES DE VIDEOGAME E RPG (AO MENOS É O QUE A CLASSE MÉDIA PENSA). NO ENTANTO, A MENTE HUMANA É CRIATIVA QUANDO SE TRATA DA ARTE DE ELIMINAR OUTRA PESSOA, E A HISTÓRIA NOS MOSTRA ISSO. OBJETOS QUE FAZEM PARTE DO NOSSO COTIDIANO PODEM SE TORNAR EXTREMAMENTE MORTAIS E FIGURAR NUMA LISTA DE DESARMAMENTO DO GOVERNO. ESTÁ PREPARADO PARA ANDAR POR AÍ COM SEU PORTE DE “JACA” EM MÃOS? OU TER UM DOCUMENTO ALEGANDO QUE SEUS PEITOS NÃO OFERECEM PERICULOSIDADE?

GUARDA-CHUVA

PORRA

Os primeiros guarda-chuvas da história não foram criados com este intuito. Há cerca de 3500 anos, na região que hoje conhecemos como Iraque, os reis utilizavam um artefato semelhante para proteger a cabeça do sol escaldante. Afinal, devia ser comum morrer de insolação naquela época, sem vendedores ambulantes de água mineral, nem protetor solar fator 120 pra usar no meio do deserto.

Desde que o mundo é mundo que existe a permuta de valores em troca de uma boa trepada. Não é a toa que a prostituição é a profissão mais antiga de todas. Dizem até que grandes guerras foram travadas não por motivos econômicos ou desentendimento entre nações, e sim por causa da manipulação de belas tetéias que queriam que seus amantes trouxessem para elas uma “joia do Nilo” ou uma peça de seda do Oriente. Isso sem falar em lideranças derrubadas após descobrirem que o governante possuía filhos ilegítimos fora do casamento. Ninguém morria de porra naquela época, mas a falta que fazia uma camisinha podia causar uma verdadeira merda federal.

Recentemente este emaranhado de tecido e arame foi utilizado como arma nas ruas de Porto Alegre, RS. Em meio a um temporal, dois vendedores de guarda-chuva se desentenderam no meio da rua. O mais novo deles, de 15 anos, não pensou duas vezes, e com uma destreza digna de um inimigo do Batman, enfiou o artefato no olho esquerdo do outro, que morreu a caminho do hospital. O guri, depois de eliminar a concorrência, desapareceu. Talvez planeje matar alguém usando galochas desta vez. A mente de um criminoso é imprevisível...

Até poucos anos atrás, tudo indicava que o principal mal que uma ejaculada podia causar era expelido pelo organismo naturalmente depois de nove meses. Mas Sean McDonnell descobriu ao acaso a “gozada mortal”. Ele conheceu uma mulher num chat sobre zoofilia e chamou a dama para tomar um café em casa. Só que não era um café, era um chá de rola. Um chá de rola de cachorro, pra ser mais exato. Depois do sexo animal com o pastor alemão de McDonnel,

a mulher teve uma reação alérgica provocada pela porra do bicho e morreu no hospital. O homem foi preso e acusado de sodomia, crime que consta nas leis da Irlanda desde 1861, e do qual ninguém nunca tinha sido acusado, até Mr.Sean aparecer e executar a façanha.

51


GARFO Não há indícios de quando surgiu este utensílio de cozinha. No entanto, seus primeiros registros apontam para o século XI, quando a princesa Teodora, de Constantinopla, foi para o ocidente casar-se com um nobre de Veneza. Em sua bagagem levava um garfo de ouro com duas pontas, que usava para comer frutas cristalizadas. Os sacerdotes ficaram horrorizados com o objeto, por se remeter ao instrumento de Satã para cozinhar almas no inferno. No entanto, a moda pegou e o talher já havia se difundido por toda Europa. Ninguém havia sido morto até então, só era cutucado no inferno por esta “arma branca”. Atualmente, o garfo ganhou mais uma utilidade além de segurar a comida. É alta a incidência de crimes cometidos onde os assassinos, na falta de algum objeto perfurante, matam a vitima com garfadas – o que não teria lógica, já que o talher sempre forma par com uma faca, e ela seria mais eficaz nestes casos. Boa parte das incidências de óbitos com esta “arma” são do nordeste, e provocados por discussões após alguma festa. Com isso podemos dizer que todo “cabra arretado”, quando bebe demais, fica criativo e psicopata.

52


POODLE

PEITOS

RÁDIO

As diversas raças de cães que conhecemos hoje são o resultado de uma seleção natural imposta pelo homem ao longo de 100 mil anos. O lobo primitivo foi domesticado para servir às criaturas com polegares opositores altamente desenvolvidos, A cruza entre os diferentes tipos de canídeos deu origem aos bichinhos domésticos que temos hoje, que vão dos brincalhões labradores até os asquerosos pinschers – uma verdadeira arma de destruição de massa.

Dizem que desde que o homem das cavernas descobriu a putaria, sua preferência sempre coube às mulheres voluptuosas. Nossos ancestrais gostavam das fêmeas que possuíam seios fartos e ancas largas por acharem que as mesmas seriam mais resistentes às variações de temperatura, bem como capazes de gerarem uma grande prole. Modelos bulímicas não teriam vez na préhistória e as gordinhas iriam se fartar.

Há muitas divergências quanto a quem criou o rádio. O mundo fica indeciso entre os inventores Nikola Tesla e Guglielmo Marconi. Já no Brasil, estima-se que antes deles, em 1893, o padre Landell de Moura já brincava de transmissões radiofônicas em Porto Alegre. Diferente dos EUA e Europa, onde seus colegas eram reverenciados por cada descoberta científica, aqui o nosso padre inventor foi chamado de louco, bruxo e herege, por ouvir vozes que vinham sabe-se lá de onde e que saíam de uma caixinha. Chegou a escrever para o governo da época, pedindo financiamento para continuar suas pesquisas e provar a existência de algo que, segundo o próprio, iria permitir no futuro a comunicação interplanetária. O assistente do presidente achou que ele era um maluco, e negou o pedido. Neste caso, o rádio foi o protagonista da morte de um gênio pela burocracia e ignorância (triste isso, não?).

No entanto, aquele que é considerado o melhor amigo do homem pode, em condições de fúria extrema, se tornar a melhor arma improvisada. Foi o que aconteceu em Caxias do Sul, onde um homem, possesso de ciúmes, agrediu a esposa com o poodle de estimação do casal. Neste caso, quem morreu foi o cão. A mulher ficou gravemente ferida, e o homem foi preso por crime ambiental pela morte do bichinho.

Agora, amigo, já pensou em levar uma tetada de mais de seis quilos nas fuças? Foi o que aconteceu com o namorado da britânica Claire Smedley. Na hora do tome-lhe tome-lhe, a mulher se emocionou e deixou suas mamas no rosto do incauto. Quando o rapaz começou a se debater, ela não deu bola, por achar que ele estava era tendo um orgasmo. Poucos minutos depois, ele havia apagado. Quando viu que o “herói” não respondia, Claire entrou em desespero. Mas pouco antes de ligar para o serviço de emergência, o cara havia retornado do mundo dos mortos – meio debilitado, mas vivo. Felizmente ele não teve o mesmo destino que o bichinho de estimação da modelo israelense Orit Fox. A tchutchuca posava para uma sessão de fotos enroscada em sua cobra (isso mesmo!), quando a mesma se irritou com os flashes e descontou a raiva com uma dentada na mama da dona. A mulher foi medicada e sobreviveu, mas a cobra morreu após ingerir alta dose de silicone. Portanto, pense bem antes de fazer um carinho mais agressivo em mamilos alheios...

Mais de cem anos se passaram desde que a invenção do padre Landell de Moura saiu do papel para ganhar os ouvidos da população e virar a preferência nacional durante um jogo de futebol. Ninguém, nem mesmo o sacerdote, pensaria que um ingênuo radinho poderia levar alguém ao óbito. Mas quase levou. Em Bagé, no interior do Rio Grande do Sul, um bandidinho pensou que seria uma boa roubar a bolsa de uma velhinha à paisana numa rua quase vazia. Durante o ato, Estácio Blascoski, morador da região, viu o ocorrido e partiu atrás do meliante. Quando viu que não iria alcança-lo, jogou a única coisa que tinha na mão: um rádio de pilha. Acertou na cabeça, espatifando o objeto e derrubando o ladrão, que foi levado para o hospital com traumatismo craniano. Se sobreviveu, deve ouvir o chiado de estação mal-sintonizada até hoje.

53


SANDUÍCHE DE PRESUNTO

CAPACETE

O sanduíche teria surgido em 1762, criado pelo inglês John Montagu, Conde de Sandwich. O nobre tinha como hábito comer pedaços de carne entre dois pães enquanto jogava cartas com os amigos. De lá para cá, muitas variações de sanduíche surgiram no mundo, do hambúrguer ao misto-quente, e ao que tudo indica, as únicas mortes que provocaram foram de modo indireto através do aumento de colesterol da vítima.

O capacete foi criado para salvar vidas após uma personalidade importante se arrebentar num acidente de moto. Thomas Edward Lawrence, o oficial britânico conhecido mundialmente como Lawrence da Arábia (ganhou esse nome após virar herói de guerra no Oriente Médio, em 1916), acabou morrendo fora de combate, quando andava de moto: tentou desviar de um grupo de crianças que brincavam numa estrada sinuosa, caiu, bateu a cachola e faleceu. O neurocirurgião que o atendeu, Hugh Cairns, ficou abalado com a morte do militar, e iniciou um estudo sobre prevenção de acidentes para motociclistas. Acabou se tornando responsável por implantar a cultura do uso do capacete nos motoristas do exército, e posteriormente nos civis, salvando um número sem-fim de vidas.

A única pessoa que teria motivos para matar alguém por um sanduíche de presunto seria o Chaves (aquele mesmo, do seriado que passa na TV do Seu Sílvio). No entanto, há um caso mal esclarecido na música internacional que envolve a iguaria como “arma”. Ellen Naomi Cohen, conhecida como Mama Cass Elliot, ou simplesmente a gordinha do grupo The Mammas and The Pappas, foi encontrada morta em seu apartamento, e ao seu lado um generoso sanduba já mordido. Médicos apontam como suposta morte a “degeneração gordurosa do miocárdio devido à obesidade”. Seria apenas mais uma coincidência se não houvessem muitas histórias paralelas. Cass Elliot já foi casada com um dos membros da banda, e seguia em carreira solo. Seu último disco não se chamava “Don’t Call Me Mamma Anymore” à toa: muitos desentendimentos entre os ex-colegas provocaram isso. Fora que ela estava fazendo muito mais sucesso em carreira solo do que com o quarteto. Logo, um sanduíche mal intencionado pode ter sido plantado no quarto da moça já esperando que a gordinha se estrebuchasse em triglicerídeos com sua última refeição.

54

Pois o objeto que foi criado para proteger também é utilizado para agredir. Em Maceió (AL), um rapaz foi morto por golpes de capacete após pedir carona a um motociclista. Segundo testemunhas, o piloto vinha em alta velocidade quando freou bruscamente, jogando o carona no chão. Em seguida, levantou-se na moto e desferiu vários golpes de capacete nos miolos da vítima, até despachar a alma do infeliz pra outra dimensão. Em Ribeirão Preto (SP), um vigilante foi morto por desconhecidos após sair de uma boate, e também com golpes com o mesmo objeto. Em Uberlândia (MG) um débito com um traficante local custou a vida de um homem de 37 anos, que tomou uma surra adivinha do quê? E você ainda reclama quando perde o espelho retrovisor pra um motoboy, hein?


EXTINTOR DE INCÊNDIO

VIOLÃO

JACA

O capitão George William Manby trabalhava no resgate de vitimas de um incêndio em Edimburgo, em 1813. Viu um prédio de quatro andares ser consumido pelo fogo sem que se pudesse ser feito qualquer coisa, já que as mangueiras de água eram muito curtas e não chegavam até aquela altura. Três anos depois, desenvolveu um cilindro de cobre com capacidade de armazenar 15 litros de um fluído anti-chamas e acionado por ar comprimido. Era o primeiro extintor de incêndio da história, posto que é mais uma criação humana pensada para salvar pessoas.

Dizem os estudiosos que o primeiro violão teria surgido na época de Cristo, na antiga Babilônia, e teria se originado a partir da Khetara, instrumento de cordas grego. Outros afirmam que ele é uma variação do alaúde árabe, e sua popularização ocorrera na época da invasão muçulmana à península ibérica, no ano 711. Nesta época, ele só era utilizado como arma para derreter corações de moças com músicas melosas e contar histórias de quem morre de amor por mulheres ingratas.

A jaca é uma fruta originária da Índia, trazida pelos portugueses para o Brasil no século XVIII. No entanto, por ser grande e chegar a pesar 15 quilos, dificilmente é encontrada em supermercados ou fruteiras (melhor comer uma maçã, mais fácil de levar). Ao contrário do que muita gente pensa, a expressão “enfiar o pé na jaca” em nada tem a ver com a fruta. Antigamente, os tropeiros que faziam longas viagens paravam nos botecos da estrada para beber um pouco antes de encarar a viagem novamente. Como normalmente saíam trêbados, era comum que ao subir no cavalo enfiassem, sem querer, o pé numa cesta que ficava apoiada na cela para carregar mercadorias, chamadas de jacá.

Hoje você encontra extintores de incêndio em qualquer canto, seja dentro de um Fusca ou no corredor do condomínio. Faz parte dos princípios e normas de segurança. No entanto, não demorou para que algum desorientado mental visse que o artefato de metal é anatômico e pesado o suficiente para ser usado como arma. Tanto que no filme “Irreversível” (2002) ele foi utilizado como ferramenta para exercer a vingança dos protagonistas. Tal como aconteceu na cidade de Alfenas

(MG): O garçom Fernando Alves não aceitou a cantada que recebeu de um cabelereiro gay, e demonstrou seu descontentamento invadindo a casa do rapaz e esmagando-lhe a cabeça com um extintor. Não contente ele também arrancou as vísceras do seu paquerador, além de cortar fora o pinto da vitima e coloca-lo na boca do defunto. Não é por nada, mas assassino que paga de machão não ia se fixar em cortar pintos alheios, né mesmo?

Nos tempos atuais, basta uma rusga para que a melodia seja deixada de lado e o violão se torne uma arma mortal. Que o diga o músico Marcelo José da Silva, de Mauá (SP). O rapaz foi se encontrar com São Pedro mais cedo graças a uma surra de viola. Segundo a polícia, o crime fora cometido pelo excunhado de Silva, que o havia convidado para tocar em um baile. A morte do rapaz seria um pedido da ex-mulher, que não aceitava a separação. Com isso mais uma pessoa aprendeu da pior forma possível que se cunhado fosse uma coisa boa na vida, não começaria com cu.

Pois foram exatamente dois bêbados que protagonizaram a primeira morte utilizando uma jaca (fruta). Em Goiânia (GO), o caseiro identificado como Alberto C.R. estava brigando com outro borracho, de nome Cleidson, por causa de uma garrafa de pinga. Indignado, Cleidson, que estava perto de uma jaqueira, pegou uma das frutas que estava ao pé da árvore e golpeou Alberto até que ele apagasse eternamente. Depois de cometer o crime, o assassino sentou no meio-fio da calçada para descansar, e recuperado o fôlego, foi até o supermercado comprar mais cachaça. Quando viu a polícia se aproximando, tentou correr mas não conseguiu, acabando por meter o pé na jaca atrás das grades.

55


DANรงAR COMO DAnร‡A Um BLACK


POR PIERO BARCELLOS FOTOS MAURICIO CAPELLARI

>

POUCO ANTES DE ENTRAR NO PALCO, GERSON KING COMBO1 BRINCAVA COM TODOS NO CAMARIM, ENQUANTO AQUECIA A GARGANTA BEBERICANDO ALGO QUE, PELA TONALIDADE E PELO CHEIRO FORTE, PASSARIA FACILMENTE POR ÓLEO DIESEL. O SENHOR DE 66 ANOS TRAJAVA ROXO DO PESCOÇO AOS PÉS, OFUSCANDO A LUZ DO AMBIENTE COM SUAS CORRENTES E ANÉIS DE OURO. ATENDIA A TODOS NO CAMARIM SEMPRE SORRINDO E BRINCANDO, E NEM PARECIA QUE DALI A POUCOS MINUTOS ELE SE TORNARIA UMA ENTIDADE MÍSTICA INTUÍDA PELO ESPÍRITO DA BOA MÚSICA NEGRA.

PARA FALAR DO SENHOR GERSON RODRIGUES CORTÊS, É INEVITÁVEL EMBARCAR NUM DELOREAN MENTAL E VOLTAR QUASE 50 ANOS NO PASSADO, ONDE A DITADURA IMPERAVA, E O FUNK NÃO ERA TERRITÓRIO DE MULHERES-FRUTA. ELE FOI UM DOS RESPONSÁVEIS PELA CRIAÇÃO E DIFUSÃO DO MOVIMENTO BLACK NO BRASIL, TRAZENDO TODO O SWING E SONORIDADE DIGNOS DA MOTOWN PARA CÁ. NÃO É A TOA QUE O CARA ERA AMIGO E TROCAVA CARTAS COM O SAUDOSO JAMES BROWN. POUCO ANTES DO SHOW COMEÇAR, CONVERSAMOS COM KING COMBO NO HOTEL ONDE DESCANSAVA. A ENTREVISTA, COMBINADA PARA TER 20 MINUTOS, TORNOU-SE QUASE UMA CONVERSA DE BOTECO QUE DUROU CERCA DE UMA HORA. AFINAL, O CARA É UMA LENDA, E TEM HISTÓRIA PRA CONTAR!

Void: Como é que você conheceu o James Brown? Gerson King Combo: Até já recebi ele aqui quando veio pro Rio de Janeiro e em São Paulo. Na época ele não tinha muito nome aqui. Conheci o cara em Porto Rico. Na época eu viajava com a banda do Wilson Simonal, fazia backing vocal. Nós íamos fazer um show num navio onde ia se apresentar o The Four Tops, Steve Wonder, e o James Brown. Chegaram pra gente e perguntaram “vocês querem ver filme de putaria ou assistir aos shows?” E foi lá que a gente conheceu o James Brown. Ele me viu dançando e me chamou pro palco com ele. Come here, e eu fui. Ele se amarrou na minha. Aí a gente virou amigo, trocamos cartas, ele me mandava discos com a capa assinada atrás com uma letra elegante. Nós nos encontramos em 1968. Em 1969, o Big Boy 2 deu o pontapé inicial pra inaugurar o movimento black no Rio de Janeiro através da Rádio Mundial. Foi aí que começou tudo.

O nome artístico é inspirado na banda americana de soul e jazz chamada King Curtis Combo. Gerson lançou quatro CDs ao longo da carreira.  Big Boy é o apelido de Newton Alvarenga Duarte, DJ que revolucionou o rádio no Brasil ao adotar uma linguagem mais jovem, influenciado pelo DJ americano Wolfman Jack.

61


Carlos Imperial é um dos nomes mais importantes do rádio e da TV brasileira. Foi responsável por alavancar o sucesso do rock no país através da Jovem Guarda. Também foi compositor e produtor musical.  Wilson Simonal foi acusado de ser aliado da ditadura militar e entregar amigos e pessoas próximas ao regime, o que provocou seu ostracismo no meio artístico.  O Clube Renascença foi fundado por descendentes de escravos na Guanabara. Foi marco no surgimento da música negra no Brasil. Foi deste clube que surgiu a primeira negra candidata à Miss Brasil, Vera Lúcia Couto dos Santos.

62

Void: E você começou sua carreira na música com o Wilson Simonal? GKC: Na verdade comecei bem antes. Antes mesmo do Simonal despontar. Antigamente havia um programa de rádio chamado “Hoje é Dia de Rock”, na rádio Mayrink Veiga, em 1964. Nesta época eu dançava com a minha esposa, e me tornei amigo do Roberto Carlos, do pessoal da Jovem Guarda. O Carlos Imperial3 comandava este programa no rádio, e na TV Continental apresentava “Os Brotos Comandam”. Aí ele me chamava para ir na TV fazer dublagem do Chubby Checker, dos cantores negros americanos. Ficava nesse meio. Meu irmão, Getúlio, foi autor de cerca de 18 músicas do Roberto Carlos. “Negro Gato”, por exemplo, é dele. “Eu sou um negro gato de arrepiar / E esta minha vida é mesmo de amargar...”. O Roberto se ligou na gente, é até padrinho do meu filho! Então eu fui chamado para ser coreógrafo do programa Jovem Guarda. Foi quando eu conheci a banda do Renato e seus Blue Caps. Eles precisavam de um crooner, e eu fui, só no “embromation”. Cantei também com The Fevers, Edson Sá, banda Fórmula 7, e Tim Maia. Foi depois disso tudo que eu conheci o Simonal e fiquei quatro, cinco anos trabalhando com ele. Vi de perto toda aquela parafernalha, aquele tumulto que aconteceu com a Ditadura4. Mas antes disso, em 1970, nós estávamos com a Seleção Brasileira na Copa. Quando voltamos, fui para o Rio, pro Clube Renascença5. Eu cheguei dessa viagem cheio de capote, que nem aqueles negros americanos. Montei uma banda chamada Gerson Combo Brazillian Soul. Ali estava acontecendo um movimento diferente. O pessoal do gueto se reunia lá pra ouvir todo o tipo de som. Aí o Big Boy me chamou e disse: “Vamos fazer um barulho da pesada aqui!” Só negrão.


E foi uma baita festa! Veio até uma jornalista do Jornal do Brasil fazer matéria. Deu uma página do jornal pra gente, mostrando os negões dançando, se divertindo no meio da rua. Claro que isso assustou a Ditadura, né? Imagina só, do nada surge um pessoal levantando a bandeira black, elevando a auto-estima do negro da periferia, que só trabalha dia e noite, que não tinha dinheiro pra comprar um ingresso pra ver um show dos The Fevers, que na época custava quinze mirreis? A gente fazia festa a um conto o ingresso, então descia aquela negada toda pra se divertir. Foi aí que rolou toda a efervescência do movimento. Nós arrebentamos. Fomos realmente o ícone da música black. Haviam outros artistas negros, claro, mas nenhum deles alinhados com a proposta do Movimento Black Rio, e acabaram não durando muito... Void: O Toni Tornado6 foi um deles? Até porque ele lançou dois discos e depois largou a carreira... GKC: Justamente. O Toni não teve muito conteúdo dentro da Black Rio. Nós estávamos levantando a bandeira da auto-estima, e ele estava em outra, até mesmo pelo sofrimento particular dele. Tanto não fazia parte que todos nós fomos chamados (pra depor), menos ele. O Toni disse que foi, mas nunca passou pela Federal.

como se não tivesse entendido, e ele ria pra caramba. Cada vez que me pegavam eram cerca de três horas de depoimento. Eu dizia que tinha que ir pra casa, ver minha esposa, cuidar das crianças, e nada. Eles sabiam tudo da minha vida, e falavam que eu era formador de opinião, porque quem colocava 15 mil pessoas num evento era formador de opinião. Ora, eu ia cantar e nem sabia quantos estavam lá no show! Os militares sabiam melhor do que eu! Void: Como você vê hoje essa vertente atual do funk, que é bem diferente do som que você faz, apesar de levar o mesmo nome? GKC: Eu não assino embaixo daquilo não. Por vários motivos, pela apologia às drogas, por colocar a mulher quase que como prostituta, eu não concordo com isso. Não vejo conotação social nenhuma, nem conteúdo. Nós tentamos melhorar a auto-estima do negro para mostrar como ele deve se comportar em uma sociedade fechada pra eles. Como é que o negro vai se portar dentro de uma empresa? Vai servir cafezinho pra sempre? A gente mostra que não pode se deixar ficar em segundo plano, que tem que colocar a auto-estima lá em cima e trabalhar bem, para que as pessoas te admirem, pra que gostem do teu trabalho. E fazemos isso através da música.

 Toni Tornado é ator, mas no início de carreira era cantor de funk. Lançou dois discos, e ganhou o Festival da Música Brasileira de 1970 com a célebre canção BR-3. Sofreu muito com o preconceito por ser casado com uma atriz branca (Arlete Salles).

Void: Já com você... GKC: A gente já saía fichado dos festivais de música e ia pra Delegacia. Eu dizia que não ia, mas quando via já estava num camburão junto com a banda indo prestar depoimento. Uma vez eu desci do avião e fui direto pra mesa do delegado. No final a gente ficou até amigo. O nome dele era Jairo Cuma, e eu ainda brincava com o sobrenome do cara. Ele dizia alguma coisa e eu perguntava “cuma?”

63


 Tijolinho, música da Jovem Guarda interpretada por Bobby di Carlo e que, realmente, é um pé no saco.  “Ninguém Sabe o Duro Que Dei”, documentário sobre Wilson Simonal, de 2009.

64

Void: Mas você chegou inclusive a participar de um movimento recente para que o funk fosse reconhecido como patrimônio cultural do Rio de Janeiro, não? GKC: Até fiz uma coisa lá, mas a minha opinião é que deve ter um conteúdo social, a minha proposta é essa. O que tem hoje é um meio de sobrevivência. Eu convivo com o pessoal dos bailes funk e sei que eles não possuem o mesmo compromisso ideológico que o meu. Como é que você vai deixar uma filha sua ir pro baile pra ouvir e dançar “bota, bota, bota na bundinha”? Não é legal. Agora a nossa música tem uma batida boa, passa uma mensagem e todo mundo dança. A gente canta “amar como ama um black, dançar como dança um black”, e defendendo que o branco é a cor da bandeira da paz, da pureza da alma, que é pra todo mundo curtir. Eu não gosto daquela coisa “100% negro” porque parece que limita, que segrega, e a música é pra todo mundo.

Void: Até porque a música é uma linguagem universal. GKC: Exatamente. Hoje eu viajo por todo o Brasil. Vou no Rio de Janeiro, no Rio Grande do Sul, vou em Minas, e é tudo igual. Em Santa Catarina, fui fazer show e na plateia só tinha duas pessoas da minha cor. E tava lotado. Aí como é que eu vou fazer show só pra preto, ou só pra branco? Quero fazer música pra todo mundo dançar, que seja gostosa de ouvir.

Void: Você surgiu numa época em que estouraram grandes nomes da música brasileira, que são famosos e cuja música permanece até hoje com sucessos intocáveis, como Roberto Carlos e Tim Maia. Como você vê a produção musical de hoje se comparada com a de quando você começou? GKC: Atualmente é uma produção mais inteligente. Naquela época haviam umas baboseiras da Jovem Guarda, “meu tijolinho” 7, e não-sei-oque mais. Como o país evoluiu daquele tempo pra cá, a música também evoluiu. Djavan, por exemplo, é um maravilhoso intérprete, excelente compositor. Caetano Veloso também. A música tem mais conteúdo. Um negócio que não gosto muito são os grupos de pagode, que lembram muito as bandas da Jovem Guarda: um copia o outro, aí junta aquele bolo de gente no palco, e quanto mais quantidade, menos qualidade musical. Hoje neguinho pára de trabalhar pra bater num tam-tam e achar que é artista. Pra ser artista tem que ser músico, ter conteúdo, ser diferente. Pega todos estes grupos de pagode e tu não sabe quem é um e quem é outro. Todos são cópias do Raça Negra. Agora nós temos outro patamar, que é Arlindo Cruz, Fundo de Quintal, Jorge Aragão, Zeca Pagodinho, Almir Guineto... Estes são meus amigos, cresceram e fizeram sucesso na periferia. São artistas completos. Você sabe quem são quando ouve.

Void: Hoje está acontecendo um movimento de resgate de grandes nomes da música no Brasil, principalmente da música negra. Tanto que o documentário sobre o Simonal 8 fez um grande sucesso e trouxe as músicas dele pra uma nova geração. Está pra sair também um documentário sobre você, que está em fase de captação de recursos. Teria algo haver com a necessidade de olhar para o passado atrás de uma música com mais conteúdo? GKC: Olha, pra ter ideia, o hip-hop que é feito nos Estados Unidos é bem diferente do que é feito aqui. Lá eles retratam mais as questões políticas e sociais por quais passam. Eles cantam “tenho fome”, falam sobre seus problemas. No Brasil, o cara canta que um traficante tá vendendo mais do que o outro. Aí é que está a minha diferença. Eu gravei uma música chamada “Mão Branca”, que era o nome de um pseudo-policial que mandava passar o rodo na comunidade toda. Naquela época a bandidagem era mais branda do que é hoje. Mas mesmo assim, eu fui o primeiro a falar dessas coisas no Brasil. Por isso que o pessoal me considera um ícone do movimento. Eu conhecia o que rolava fora do país, aqui ninguém nunca tinha ouvido. Acompanhei os americanos que cantavam em cima de uma base eletrônica. Só que eu me renovei. Quando eu fui fazer, sabia que tinha que ser do meu jeito. Então tirei a base eletrônica e botei logo uma banda completa no palco. Ficou bonito e funciona até hoje.


Void: E a produção de um novo disco, a quantas anda? GKC: Pois é, o pessoal anda me cobrando muito. Por onde eu passo falam que eu tenho que lançar um CD só de inéditas. Ano passado andei gravando algumas coisas novas, e neste ano já estamos pensando em gravar mais. A ideia é ter com a banda atual umas 16 músicas totalmente novas pra por no disco.

Void: Você possui um grande número de fãs fora do Brasil, em vários outros países, inclusive no Japão. Esse reconhecimento internacional chega a ser maior do que aqui? GKC: Quando vou para o Japão os shows lotam, o público pede autógrafo e canta junto. São eles que me levam pra lá. Com a minha música, eu saí pouco do Brasil. Quando viajava com o Simonal, rodei o mundo inteiro, mas em carreira solo foram poucas vezes. Meu reconhecimento maior é aqui mesmo. De vez em quando faço show fora, ou dou entrevista para um jornalista de outro país. Dia desses falei com uma TV da Alemanha. Os caras me ligaram, fiquei quase uma hora na linha, chegou até a me dar um problema no ouvido! E eles traduziam tudo que eu falava na hora, ao vivo. Void: Qual a média de shows hoje em dia? GKC: Do ano passado pra cá tem aumentado muito. Fizemos excursões, com 20 shows programados, e todo mês temos cerca de cinco apresentações garantidas, com público lotado.

Void: O que tu anda ouvindo bastante nos últimos dias? GKC: Maceo Parker. Sabe quem é? É o saxofonista do James Brown. Muito das coisas que eu curto em música está no CD dele. Também gosto de ver aqueles DVDs mais antigos, de bandas variadas. Eu prefiro DVD porque eu me ligo muito no visual, sabe? Por exemplo, os roqueiros. Eles se apresentam com aquele visual todo rasgado, e para o público deles tá tudo certo, tudo OK. Já os fãs de soul notam e se importam. Eles querem ver o negão no palco bem alinhado, bem elegante, porque isso marca. Eu tenho muitas capas para vestir nas apresentações. E a felicidade do negão quando entro? Pareço uma entidade, eu me transformo no palco.

Void: Quando a garotada se junta para montar uma banda, normalmente ou é rock, ou é pagode. Qual o conselho que você dá para aqueles que querem trilhar o caminho do funk e da soul music? GKC: Todo músico iniciante sempre se acha melhor do que o mais velho. A humildade vem dos mais velhos, dos mais cascudos. O soul é muito disciplina. Tanto em ritmo quanto em altura de música, é muito dinâmico. Pra um roqueiro, quanto mais ele se emocionar na guitarra, melhor. Quanto mais arrebentar na bateria, melhor. E isso não funciona no soul, é mais metódico. Nós temos um guitarrista de rock na banda. Ele demorou dez anos pra se acostumar na batida certa. Tanto que no meio do show, se eu percebo que ele está se emocionando muito, olho pra ele meio torto e ele já segura e volta pro ritmo. Disciplina é o detalhe. Saber que não pode tocar mais alto que o outro, que tem várias pessoas tocando e não é ele só.

Void: E a parte boa de montar uma banda, que são as mulheres? GKC: Esse pessoal do pagode, por exemplo, já monta uma banda pensando em comer todo mundo. Pô, uns neguinhos feios que doem, e acham que tão agradando! E o pessoal do soul, eu volto a dizer, eles queriam mais é a aparecer do que namorar. Até porque quando conseguiam se aproximar de uma menininha durante o show, já vinha o segurança e cortava com um empurrão. Então não rolava. Nos nossos bailes a negada ia pra dançar mesmo, pra mostrar quem era o melhor. O visual do cara era mais importante do que dar umazinha. O alter-ego deles estava a flor da pele, e eles queriam aparecer. As meninas estavam em segundo plano porque ficavam admirando os caras dançando entre eles e não chamavam a atenção. Até que elas também começaram a aparecer. Em Minas Gerais surgiu um grupo chamado As Damas do Soul por isso.

Void: Quem vai num show teu, o que encontra no palco? GKC: Vai encontrar um vulcão lá, tipo aquele do Chile, fervendo e esquentando tudo!

65


# 075

ANO 07 / 2011 DISTRIBUIÇÃO GRATUITA LEITURA NÃO RECOMENDADA PARA MENORES DE 18 ANOS.

#075

TCHAN!

TCHAN!


EXPEDIENTE Direção: Gabriel Rezende Marco Arioli Pedro Hemb Rodrigo Santanna Vicente Perrone Editor: Pedro Damasio Repórteres: Felipe de Souza, Piero Barcellos e Gabriela Mo Projeto gráfico e Diagramação: Lucas Corrêa @Lava www.lavastudio.com.br Diagramação: Claudio Sudhaus www.sudhouse.com.br Fotografia: Maurício Capellari Gabriela Mo Planejamento: João Francisco Hein Jurídico: Galvão & Petter Advogados office@galvaoepetter.com.br

DISTRBUIção A VOID É DISTRIBUÍDA GRATUITAMENTE NAS CIDADES DE PORTO ALEGRE, CURITIBA, SÃO PAULO, RIO DE JANEIRO E BELO HORIZONTE.

COLABORADORES Leandro Vignoli é radialista da

Oi FM e nosso expert em música e adjacências. Ele é residente nas seções “Na Caixa” e “1001 Discos”. Lise Bing NÃO É uma garota quietinha. Gadgets e bizarrices internéticas são o recheio da sua coluna Bing Bang! lisebing.tumblr.com

Fabrizio Baron vive em um mundo envolvente onde tudo é possível. Nas horas vagas, trabalha com carteira assinada. É dele a coluna I Shot Macunaíma.

COLABORARAM TAMBÉM NESSA EDIÇÃO...

Lucas Pexão é dono da Galeria

Gabriel Kverna

Fita Tape e representa artistas via noz.art. Na Void ele escreve sobre arte e faz a curadoria da seção Magma. www.noz.art.br/pexao

é o bastardo vida loca mais meiguxo que a Terra já pariu.

Ana Ferraz faz um monte de

Gabriel Soares

coisas ligadas a projetos de arte e divide com Pexão a responsa na Galeria Fita Tape, e na seção Magma da Void.

é fotógrafo, straight-edge, vegano, velho e chato.

Mr Lexuz é um cara

que vai no intestino grosso da televisão mundial transmitida a baixo custo, sempre a bordo do seu inseparável controle remoto. Denise Rosa não canta mais as bolinhas do bingo, mas ajuda a organizar o galeto da paróquia. denise@avoid.com.br Lairton Rezende, também conhecido como Jacaré do Mar, é artista visual e pai do HomemBanana, o herói da dúvida. lairtonrezende@gmail.com

CORROBORE! VOCÊ TAMBÉM TEM ALGO A DIZER, MOSTRAR, SOCAR NA FERIDA OU ARREMESSAR NO VENTILADOR? MANDE UM EMAIL PARA VOID@AVOID.COM.BR E CORRA O RISCO DE ENTRAR PARA ESSA LISTA DE NOBRES IMORTAIS PENSADORES. A REVISTA VOID É UMA PUBLICAÇÃO MENSAL COM DISTRIBUIÇÃO GRATUITA E TIRAGEM DE 20 MIL EXEMPLARES


R-TYPE

(1991, SUPER NES, MEGA DRIVE E NES)

(1987, ARCADE, MASTER SYSTEM, SUPER NES, GAME BOY)

O jogo conta a história dos sapos mutantes Rash e Pimple, que precisam salvar seu irmão Zitz da malvada Dark Queen. Até aí, mais um daqueles games de pancadaria em que você vai andando pelo cenário e batendo nos inimigos. Porém, ele possui níveis alternados com desafios diferentes, como corrida e salto em plataformas móveis, tudo numa velocidade absurda. Considere-se um vitorioso se chegar até a fase do patinete no trilho, pois daí você não passa.

É um daqueles jogos em que você controla uma nave que voa em um cenário horizontal e precisa atirar nas esquadras inimigas que vão surgindo pela frente. Pode-se conseguir novas armas ao longo do percurso, que termina sempre com um chefe gigantesco e fodão. A dificuldade está em desviar dos lasers dos adversários, bem como passar em espaços estreitos do cenário sem danificar o veículo. A primeira fase é fácil perto das seguintes. Dá-lhe coordenação motora!

DIFICULDADE: Mais fácil ganhar sozinho na Mega-Sena acumulada.

DIFICULDADE: Faz o cara chorar no sofá depois de meia-hora errando.

18 / na PRIVADA

REPRODUÇÃO

BATTLETOADS

REPRODUÇÃO

MEGA MAN (1987, NES, SUPER NES) Personagem conhecido no mundo dos games, Mega Man é um robô azul construído pelo Dr. Light, e que precisa salvar a humanidade do exército mecânico do Dr. Willy. O terceiro jogo da série, no Nintendinho, era daqueles que chegava a dar raiva de tão difícil! Sem falar que muita gente queimou os neurônios tentando descobrir qual arma era mais efetiva contra cada chefe. DIFICULDADE: Ódio extremo a ponto de estourar o joystick na parede.

REPRODUÇÃO

POR PIERO BARCELLOS

REPRODUÇÃO

NÃO SABE JOGAR? NÃO DESCE PRO PLAY

TEM UM PESSOAL QUE COMEÇOU A JOGAR VIDEOGAME AGORA, COM OS CONSOLES DA NOVA GERAÇÃO, E SE ACHAM OS MAIORAIS QUANDO ACERTAM UMA SEQUÊNCIA DE NOTAS ACIMA DOS 90% NO NÍVEL EXPERT DO ROCK BAND. OU COMEMORAM AQUELAS MAIS DE 60 HORAS DE JOGO DE UM RPG QUALQUER, DESTRAVANDO TODAS AS ÁREAS SECRETAS. POIS BEM, ESSA RAPAZIADA NADA MAIS É DO QUE UM BANDO DE BUNDINHAS. HOUVE UMA ÉPOCA EM QUE NÃO EXISTIAM CARTÕES DE MEMÓRIA PARA SALVAR O JOGO QUANDO BEM ENTENDESSE. ONDE UM PIXEL DE DISTÂNCIA ERA A DIFERENÇA ENTRE UM PULO CERTEIRO OU A QUEDA EM UM ABISMO SEM FIM. QUEM PEGOU A ERA DE OURO DOS VIDEOGAMES DE 8 E 16 BITS SABE BEM DO QUE ESTAMOS FALANDO. AGORA, SE VOCÊ É UM DESSES BUNDINHAS E ACHA QUE SABE JOGAR, ESCOLHA UM DESTES TÍTULOS, BAIXE UM EMULADOR E CHORE NO CANTINHO.


SUPER MARIO WORLD (1990, SUPER NES)

(1986, MASTER SYSTEM) Este maldito joguinho vinha na memória dos finados consoles da Sega, sendo o game mais odiado por dois motivos: tinha uma música enjoativa pra cacete e algumas fases eram impossíveis de passar. Horas e horas de jogo nunca eram suficientes para chegar até o fim. Pra dificultar, certos níveis tinham chefes que desafiavam para uma partida de jokempô – os primeiros duelos eram fáceis, mas conforme chegava no final, ficava mais difícil de ganhar no pedra-papel-e-tesoura.

DIFICULDADE: Trauma eterno com os 5% faltantes e a falta de lógica nos 110%.

REPRODUÇÃO

GHOULS’N’GHOSTS

REPRODUÇÃO

ALEX KIDD IN THE MIRACLE WORLD

REPRODUÇÃO

REPRODUÇÃO

REPRODUÇÃO

Super Mario World é um jogo fácil. Você acumula muitas vidas rapidamente, o que permite uma vasta sequência de tentativas e erros até passar de uma etapa. Boa parte dos gamers reclama das fases aquáticas ou dos enigmas nos castelos assombrados. Porém, a merda acontece quando depois de passar pelos trocentos estágios do jogo e terminá-lo, aparece a estatística de que só 95% do game foi concluída. Pra piorar, sempre tinha um amigo que dizia que concluiu SMW com 110% de aproveitamento, desbloqueando todos os níveis. Noites foram viradas para descobrir onde estão as fases secretas. Muita gente vai morrer sem saber onde estão.

CONTRA

(1988, MASTER SYSTEM, MEGA DRIVE, NES, SUPER NES)

(1987, NES, GAME BOY, SUPER NES, MEGA DRIVE)

Neste jogo você controla Arthur, um cavaleiro que precisa enfrentar uma horda de monstros para salvar a princesa Tamara das mãos do demônio. Você começa o game com uma roupa que, no primeiro golpe sofrido, se desmancha e deixa o personagem só de cuecas. As armaduras mais fortes resistem a dois golpes. Se morrer, volta para o início da fase. Quem viu o final desta porra pode ser considerado um herói (ou um viciado sem vida social).

Uma salada de referências: os personagens principais são clones do Stallone e do Schwarzenegger, que estão em guerra contra ETs inspirados no Alien, o Oitavo Passageiro. As fases alternavam entre ação 2D na horizontal e na vertical, além de estágios em um 3D tosco. O problema é que o jogo se resumia ao seguinte: tiro, tiro, pula, tiro, desvia, morre. Jogue e nunca mais você vai se orgulhar de ter terminado qualquer game de Xbox 360 ou PS3.

DIFICULDADE: Enfie dois dedos no cu e rasgue.

DIFICULDADE: You shall not pass!

DIFICULDADE: Você tem tempo e a paciência de um monge?

19


Matérias da Void