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Rinaldo Henrique Aguilar da Silva Pós-doutorando em Ensino na Saúde pela UNIFESP. Possui doutorado em Genética Humana pela Universidade Federal de São Carlos – UFSCar. Mestre em Genética Humana pela UFSCar e especialista em Administração e Gestão Acadêmica pela Fundação Pedro Leopoldo – Belo Horizonte – Minas Gerais.

Aprender e ensinar na escola vestida de branco

Hissachi Tsuji É diretor da graduação da Faculdade de Medicina de Marília – Famema. Doutor em Fisiopatologia em Clínica Médica sobre metabolismo e nutrição. Título adquirido pela Faculdade de Medicina de Botucatu – UNESP. Mestre em Medicina Baseada em Evidência pela UNIFESP e mestre em Fisiopatologia em Clínica Médica pela Faculdade de Medicina de Botucatu – UNESP.

s doutores Hissachi e Rinaldo, eméritos docentes da Faculdade de Medicina de Marília – Famema, transportam para a presente obra suas experiências vivenciadas nessa Instituição, uma das primeiras escolas a implementar mudanças curriculares e a utilizar métodos de ensino-aprendizagem inovadores para os cursos da área da saúde. Tais métodos contribuem para a aprendizagem baseada em problemas (ABP), dentre outras estratégias de ensino, conforme preconizam as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) dos cursos de graduação da área da saúde. Esta obra induz à reflexão sobre as diversas estratégias inovadoras de ensino-aprendizagem, ao analisar, detalhadamente e com rigor científico-acadêmico, tais metodologias. Os referidos autores atuam de forma destacada nos movimentos que avaliam e acompanham as mudanças nos cursos de graduação da área de saúde, como, por exemplo, o projeto da Comissão de Avaliação das Escolas Médicas (CAEM), que é uma das comissões da Associação Brasileira de Educação Médica (ABEM), composta por professores estudiosos envolvidos com avaliação no âmbito da educação na área da saúde.

Hissachi Tsuji Rinaldo Henrique Aguilar da Silva

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O título Aprender e ensinar na escola vestida de branco: do modelo biomédico ao humanístico é proposital. Muitos poderão entendê-lo como o relato de experiências vivenciadas nas escolas médicas. Ele o é. No entanto, traduz também o momento da educação superior no Brasil. As escolas, independentemente de serem escolas médicas, estão vestidas de “branco”. Do “branco” do esquecimento, de investimentos e recursos. Do “branco” da busca do lucro fácil sem compromisso. Do “branco” da elitização do acesso, mas, acima de tudo, do “branco” que se traduz na entrega de certificações profissionais sem qualidade.

ISBN 978-85-7655-099-0

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Instituto Phorte Educação Phorte Editora Diretor-Presidente Fabio Mazzonetto Diretora-Executiva Vânia M. V. Mazzonetto Editor-Executivo Tulio Loyelo

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Aprender e ensinar na escola vestida de branco do modelo biomédico ao humanístico

Hissachi Tsuji – Rinaldo Henrique Aguilar da Silva

São Paulo, 2010

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Aprender e ensinar na escola vestida de branco: do modelo biomédico ao humanístico Copyright © 2010 by Phorte Editora Ltda. Rua Treze de Maio, 596 Bela Vista – São Paulo – SP CEP: 01327-000 Tel/fax: (11) 3141-1033 Site: www.phorte.com E-mail: phorte@phorte.com

Nenhuma parte deste livro pode ser reproduzida ou transmitida de qualquer forma ou por quaisquer meios eletrônico, mecânico, fotocopiado, gravado ou outro, sem autorização prévia por escrito da Phorte Editora Ltda.

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ T819a Tsuji, Hissachi     Aprender e ensinar na escola vestida de branco / Hissachi Tsuji, Rinaldo Henrique Aguilar da Silva. - São Paulo: Phorte, 2010.      240p.: il.       Inclui bibliografia     ISBN 978-85-7655-099-0       1. Educação médica - Brasil. 2. Escolas para profissionais de saúde Brasil. 3. Medicina - Estudo e ensino - Brasil. 4. Pessoal da área médica Treinamento - Brasil. I. Silva, Rinaldo Henrique Aguilar da. II. Título. 10-0080.                       CDD: 610.70981                                      CDU: 378:61(81) 06.01.09       08.01.09                                 017027

Impresso no Brasil Printed in Brazil

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Àqueles que se dedicam à Educação em Saúde.

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Agradecimentos Às companheiras incansáveis, Elisa Kimihe Tsuji e Andréa Giampietro Alves Silva. À bibliotecária, Helena Maria da Costa Lima, pelo auxílio na elaboração das referências bibliográficas. Ao professor doutor Djalma Rabelo Ricardo, pelo incentivo e amizade. Aos estudantes da Faculdade de Medicina de Marília, molas propulsoras de nossas ideias.

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O mestre eficiente nĂŁo se coloca em alturas, bombeando conhecimento sob alta pressĂŁo a recipientes passivos... ele ĂŠ um estudante mais idoso, ansioso para auxiliar os jovens. Osler (1950)1

1 Osler, W. Aphorisms from His Bedside Teachings and Writings. Yale J Biol Med. 1950 November; 23(2): 162-163.

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Prefácio Os autores, ao afirmarem “esperamos poder contribuir para a reflexão desta nova escola que surpreendentemente já pode ser vista em tantos lugares do Brasil e que ainda tímida, mas forte e corajosa já começa a mudar o futuro deste país” mostram o que está por traz desta obra: vontade de compartilhar vivências, preocupação e responsabilidade com a educação médica, capacidade de enfrentar e vencer desafios. O livro traduz ainda uma das mais corajosas mudanças recentes da escola médica brasileira que a Faculdade de Medicina de Marília desenvolveu, trazendo para a nossa comunidade um novo olhar sobre a formação de médicos mais críticos, criativos e competentes e tornando-se uma referência para o movimento de transformação da educação médica brasileira. A forma como o livro foi planejado pelos autores, a disposição dos capítulos, o encadeamento das ideias são aspectos merecedores de um primeiro destaque: a fluidez da escrita, a linguagem clara, a preocupação com a articulação de reflexões teórico-conceituais com situações vivenciadas no cotidiano do ensino médico fazem com que o leitor não consiga interromper a leitura, ficando uma sensação de “quero mais” ao chegar ao fim do texto. Discutindo sobre o Ensino da Medicina no novo milênio, os autores nos convidam a uma reflexão sobre a Ciência e a própria Medicina e suas funções, nos conduzindo à percepção de que o “ser humano e a sua natureza passa a ser essencial, pois, dependendo de como o profissional o percebe, suas ações na identificação das necessidades de saúde serão abrangentes ou fragmentadas”.

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E concluem que “o desafio da educação médica do novo milênio é contribuir para processar a mudança de postura de inquisidor para ouvinte, de tratador de doenças para cuidador de processo de saúde/doença das pessoas”. O segundo capítulo “Por quê e para quê mudar?” traz pressupostos importantes para a re-estruturação do ensino médico, com ênfase em um processo formativo comprometido com o “desenvolvimento da capacidade de observar e escutar nos estudantes” e, consequentemente, “pronto para aprender a aprender, ser, fazer e conviver”. Do terceiro ao quinto capítulos, uma experiência exitosa de mudança que incorpora metodologias ativas de ensino e aprendizagem e de currículo orientado por competências é apresentada. Ressalta-se, no terceiro capítulo, a cuidadosa descrição do “como fazer”, com a ilustração de situações a serem discutidas com os estudantes e o “guia do tutor” com os pontos a serem devidamente explorados na sessão tutorial. A aprendizagem baseada em problemas (ABP) e a problematização são claramente descritas, tornando claro ao leitor suas especificidades bem como suas convergências. A “Gestão do conhecimento em escolas inovadoras” merece um destaque especial dos autores ao enfatizarem que “o processo de gestão necessita privilegiar a eficácia das decisões e sobretudo a autoaprendizagem organizacional”. O último capítulo Considerações finais? encerra esta obra colocando para o leitor uma interrogação e enfatizando que “pensar a mudança curricular e método pedagógico visando a formação do profissional que saiba pescar, que seja capaz de cuidar do doente com a doença e não somente da doença é da responsabilidade de todos que se dedicam à educação médica”.

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Este livro, com certeza, contribui muito com a transformação da educação médica brasileira estimulando o debate em um momento de busca de novos caminhos e soluções para a formação de um perfil de médico proposto pelas Diretrizes Curriculares Nacionais.

Prof. Dr. Nildo Alves Batista Prof Titular. Departamento Educação, Saúde e Sociedade. Universidade Federal de São Paulo

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Apresentação Honra-me apresentar o livro Aprender e ensinar na escola vestida de branco: do modelo biomédico ao humanístico, especialmente pelo privilégio da prioridade da leitura desta importante obra que vem ao encontro do anseio da comunidade acadêmica e científica, como o mais novo trabalho sobre metodologias ativas de ensino-aprendizagem. Esta obra é fruto de longos anos de pesquisa e vivência de dois ícones da educação brasileira, que se debruçaram sobre a temática em tela e captaram, com grande maestria, as dificuldades que permeiam os processos de ensino-aprendizagem, vividos pelas escolas brasileiras, em especial pelas vocacionadas para o ensino das ciências da saúde. Os doutores Hissachi e Rinaldo, eméritos docentes da Faculdade de Medicina de Marília – FAMEMA, transportam para a presente obra suas experiências vivenciadas nessa Instituição, uma das primeiras escolas a implementar mudanças curriculares e a utilizar métodos de ensinoaprendizagem inovadores para os cursos da área da saúde. Tais métodos contribuem para a aprendizagem baseada em problemas (ABP), dentre outras estratégias de ensino, conforme preconizam as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) dos cursos de graduação da área da saúde. Esta obra induz à reflexão sobre as diversas estratégias inovadoras de ensino-aprendizagem, ao analisar, detalhadamente e com rigor científico-acadêmico, tais metodologias. Cabe ressaltar que os referidos autores atuam de forma destacada nos movimentos que avaliam e acompanham as mudanças nos cursos de graduação da área de saúde, como, por exemplo, o projeto da Comissão de Avaliação das Escolas Médicas (CAEM), que é uma das comissões da Associação Brasileira

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de Educação Médica (ABEM), composta por professores estudiosos envolvidos com avaliação no âmbito da educação na área da saúde. Ressalte-se o caráter inovador da obra, inigualável na literatura nacional, aberta à constante atualização, de modo a contribuir para as gerações futuras de educadores e profissionais da saúde que dela se beneficiarão e cujo valor será atestado por eles. Hipócrates dizia: “a vida é curta e a arte é longa; a ocasião fugidia; a esperança falaz e o julgamento difícil”. Aprender e ensinar na escola vestida de branco: do modelo biomédico ao humanístico abrange as vertentes e os meandros das metodologias ativas de ensino-aprendizagem, redescobrindo todas suas nuances e, principalmente, analisando criticamente, como é peculiar aos autores, todas as suas facetas da forma como se apresentam na educação brasileira e mundial. Os autores conseguem fazer interpenetrar nesta obra o humanismo e a ciência que caracterizam suas vidas profissionais e acadêmicas. Íntegros e honestos, deixam transparecer o amor pela verdade científica e pela educação em sua mais sublime expressão. Com este livro, os profissionais de saúde aprenderão além da temática aqui exposta, já que ele expressa a grandeza humana de seus idealizadores que incentivam não apenas aqueles que com eles convivem, mas todos que se enriquecerem com a leitura de Aprender e ensinar na escola vestida de branco: do modelo biomédico ao humanístico. É importante destacar o justo reconhecimento de toda a comunidade acadêmica, em especial dos estudantes brasileiros, pela contribuição dos autores para o enriquecimento de nossos processos de ensino-aprendizagem e para os novos rumos da educação no País.

Prof. Dr. Djalma Rabelo Ricardo Diretor de Ensino, Pesquisa e Extensão Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde de Juiz de Fora – MG

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Sumário Introdução

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1 Ensino da medicina no novo milênio

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1.1 Ciência e sua função

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1.2 Medicina e sua função

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1.3 Ser humano

31

1.4 Necessidade de saúde e integralidade

42

1.5 Escuta atenta

56

1.6 Relação médico-paciente e relação professor-estudante

63

Referências

73

2 Por que e para que mudar?

77

2.1 Reestruturação do currículo

78

2.2 Modelos pedagógicos

84

Referências

96

3 Caminhos de mudança: aprendizagem baseada em problemas e problematização

99

3.1 Aprendizagem baseada em problemas

100

3.2 Problematização

181

3.3 Semelhanças e diferenças entre aprendizagem baseada em problemas e a problematização

185

3.4 Correlação dos passos da tutoria e ciclo pedagógico com a prática profissional

189

Referências

192

4 Construção do currículo integrado e orientado por competência

195

4.1 Competência

196

4.2 Definição da competência profissional na área da saúde

201

4.3 Organização do currículo integrado e orientado por competência 206

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4.4 Avaliação da competência profissional

208

Referências

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5 Gestão do conhecimento em escolas inovadoras

217

Referências

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6 Considerações finais

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Referências

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Anexo

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Introdução Este livro surgiu das experiências e longas conversas que tivemos, durante alguns anos, sobre os processos que vivenciávamos a cada dia junto à Faculdade de Medicina de Marília, nos congressos de educação médica e nas visitas que fizemos às escolas médicas e não médicas com seus sotaques e costumes. Conversas com professores e estudantes que partilharam olhares e vivências. No frio inverno do Sul do país, ao redor do fogão de lenha quente com seus pinhões assados, o churrasco característico e o bom chimarrão que possibilitaram horas e horas de conversas. No Norte do país, com seu clima quente, o refresco de cupuaçu, o peixe assado, a farinha de mandioca feita pelos índios, as lindas paisagens ainda não descobertas e mais horas de conversas. No Centro do país, com seus pequis, torresmos, tutu de feijão e mais horas de conversa. Enfim, fartamo-nos de diferentes culturas e conhecimentos. O que ficou de tudo isso? Amigos, que de alguma forma se reconhecerão nestas páginas, já que elas são os frutos dessa convivência. Portanto, este livro não carrega a pretensão de um guia pedagógico. A sua elaboração seguiu somente o desejo expresso dos que nos ouviram e de quem também ouvimos. Preocupamo-nos em reproduzir e registrar esses momentos e percepções, além de reunir aquilo que acreditamos ser um caminho para uma escola mais livre que forme de fato pessoas que gostem e cuidem de pessoas. O leitor irá perceber que utilizamos vários referenciais teóricos e pedagógicos, permeados de histórias e exemplos que vivenciamos.

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O título Aprender e ensinar na escola vestida de branco: do modelo biomédico ao humanístico é proposital. Muitos poderão entendê-lo como o relato de experiências vivenciadas nas escolas médicas. Ele o é. No entanto, traduz também o momento da educação superior no Brasil. As escolas, independentemente de serem escolas médicas, estão vestidas de “branco”. Do “branco” do esquecimento, de investimentos e recursos. Do “branco” da busca do lucro fácil sem compromisso. Do “branco” da elitização do acesso, mas acima de tudo do “branco” que se traduz na entrega de certificações profissionais sem qualidade. A escolha do título surgiu da expressão que ouvimos tantas vezes dos estudantes, que ao terminarem suas provas utilizaram a expressão “deu um branco”. É também desse esquecimento que queremos falar. Para nós, ele está ligado à maneira pela qual professores e estudantes entendem o processo de aprendizagem. É um reflexo dos nossos modos de cobrança em que os estudantes desenvolvem a habilidade de escrever e falar aquilo que os professores querem ler e ouvir. E como não falar do “branco” das relações humanas já tão desgastadas pela competitividade do mundo atual? Do “branco” da relação médico-paciente e da relação professor-estudante? Enfim, esperamos poder contribuir para a reflexão dessa nova escola que surpreendentemente já pode ser vista em tantos lugares do Brasil e que ainda tímida, mas forte e corajosa, já começa a mudar o futuro deste país.

Hissachi Tsuji e Rinaldo Henrique Aguilar da Silva

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Os pacientes desejam ser ouvidos e compreendidos. Os pacientes desejam que os médicos se interessem por eles como seres humanos. Os pacientes esperam a competência profissional na ciência e tecnologia médica. Os pacientes desejam manter-se razoavelmente informados. Os pacientes não querem ser abandonados. Smith Jr.(1986)*

A epígrafe traduz os anseios dos pacientes em relação ao atendimento médico. Há anos, temos observado na literatura médica estudos mostrando preocupação com a forma como vem sendo praticada a medicina no mundo moderno.1-2 O professor

* Smith LH Jr. A medicina como uma arte. In: Wyngaarden JB, Smith LH Jr, editores. Cecil tratado de medicina interna. 16a ed. Rio de Janeiro (RJ): Guanabara; 1986. p. xxix-xxxiii.

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Bernard Lown também expressa a sua preocupação, na introdução do seu livro, A arte perdida de curar, onde cita que A medicina jamais teve a capacidade de fazer tanto pelo homem como hoje. No entanto, as pessoas nunca estiveram tão desencantadas com seus médicos. A questão é que a maioria dos médicos perdeu a arte de curar. Esta vai além da capacidade do diagnóstico e da mobilização dos recursos tecnológicos.3

No nosso país, a Associação Brasileira de Educação Médica, a Associação Paulista de Medicina, os Conselhos Federal e Regional de Medicina têm demonstrado preocupação com a situação do ensino médico e a qualidade de assistência médica prestada à população. Recentemente, o Ministério de Educação e o Ministério da Saúde se uniram com o intuito de melhorar a educação médica e a assistência à saúde aos usuários do Sistema Único de Saúde. O resultado disso são as Diretrizes Curriculares Nacionais do curso de Medicina, Enfermagem e Nutrição promulgadas em 7.11.2001 (resolução CNE/CES, no. 4) que trazem uma série de recomendações em relação ao perfil do egresso (art. 3º), currículo (art. 4º, 5º, 6º e 12) e método pedagógico (art. 9º).4 Temos, além disso, o Programa de Incentivo às Mudanças Curriculares das Escolas Médicas (PROMED),5 Programa Nacional de Reorientação de Formação Profissional em Saúde (PRÓSAÚDE)6 e Programa de Educação para o Trabalho em Saúde

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(PET-SAÚDE).7 Esses programas são frutos da articulação dos Ministérios de Educação e Saúde que ajudam a implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais. As Diretrizes Curriculares Nacionais preconizam uma estrutura curricular que transcenda as disciplinas, orientada por competência e método ativo de ensino/aprendizagem centrado no estudante. Além disso, recomenda a diversificação de cenários de aprendizagem com a ida dos estudantes, desde o primeiro ano, à rede de atenção básica visando ao reconhecimento das necessidades de saúde da população e atenção ao processo de saúde/doença no eixo da integralidade. Entretanto, essas Diretrizes Curriculares Nacionais que procuram viabilizar uma maior efetividade no processo de ensino/ aprendizagem também trazem alguns problemas na área da educação médica. Isso porque esta sempre foi e ainda é realizada por médicos sem preparo especial na área pedagógica. Existem médicos que realizam essa tarefa com sucesso, revelando-se verdadeiros mestres na difícil missão de preparar os jovens estudantes para que sejam bons médicos, haja vista que historicamente o profissional com uma boa formação na sua área de atuação sempre foi considerado um bom professor. Entretanto, a prática tem demonstrado que não há correlação entre bom especialista, pesquisador e bom professor. Assim, com a promulgação das Diretrizes Curriculares Nacionais do curso de medicina, os professores se viram diante de uma enxurrada de termos pouco conhecidos como, por exemplo, ensino centrado no estudante, método ativo de ensino/aprendizagem, competência, humanização, necessidades de saúde, integra-

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Aprender e ensinar na escola vestida de branco

lidade, universalidade, equidade, avaliação somativa, formativa, normorreferenciada e critério referenciada etc. Para se adequarem às recomendações das Diretrizes Curriculares Nacionais, as escolas médicas passaram a realizar várias modificações, tais como: ƒƒ

elaborar um currículo integrado, isto é, sem fragmentação por disciplinas;

ƒƒ

promover a integração das ciências básicas e clínicas;

ƒƒ

implementar o método ativo de ensino/aprendizagem;

ƒƒ

capacitar os professores, visando a mudança de postura do centro de atenção para quase anonimato;

ƒƒ

estimular a mudança de postura do estudante, de passiva para ativa;

ƒƒ

determinar o conteúdo programático pela necessidade do estudante ou do grupo e não pela do professor;

ƒƒ

colocar os estudantes em contato com a comunidade desde o primeiro ano do curso;

ƒƒ

aumentar o número de professores (pelo menos um para cada grupo de seis a dez estudantes);

ƒƒ

constituir um Núcleo de Avaliação;

ƒƒ

constituir grupos para elaboração de problemas de estudo (no caso da aprendizagem baseada em problemas);

ƒƒ

readequar a semiologia médica à nova realidade;

ƒƒ

constituir um Núcleo de Capacitação docente: educação continuada e permanente;

ƒƒ

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constituir um Núcleo de Assistência ao Discente;

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Rinaldo Henrique Aguilar da Silva Pós-doutorando em Ensino na Saúde pela UNIFESP. Possui doutorado em Genética Humana pela Universidade Federal de São Carlos – UFSCar. Mestre em Genética Humana pela UFSCar e especialista em Administração e Gestão Acadêmica pela Fundação Pedro Leopoldo – Belo Horizonte – Minas Gerais.

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Hissachi Tsuji É diretor da graduação da Faculdade de Medicina de Marília – Famema. Doutor em Fisiopatologia em Clínica Médica sobre metabolismo e nutrição. Título adquirido pela Faculdade de Medicina de Botucatu – UNESP. Mestre em Medicina Baseada em Evidência pela UNIFESP e mestre em Fisiopatologia em Clínica Médica pela Faculdade de Medicina de Botucatu – UNESP.

s doutores Hissachi e Rinaldo, eméritos docentes da Faculdade de Medicina de Marília – Famema, transportam para a presente obra suas experiências vivenciadas nessa Instituição, uma das primeiras escolas a implementar mudanças curriculares e a utilizar métodos de ensino-aprendizagem inovadores para os cursos da área da saúde. Tais métodos contribuem para a aprendizagem baseada em problemas (ABP), dentre outras estratégias de ensino, conforme preconizam as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) dos cursos de graduação da área da saúde. Esta obra induz à reflexão sobre as diversas estratégias inovadoras de ensino-aprendizagem, ao analisar, detalhadamente e com rigor científico-acadêmico, tais metodologias. Os referidos autores atuam de forma destacada nos movimentos que avaliam e acompanham as mudanças nos cursos de graduação da área de saúde, como, por exemplo, o projeto da Comissão de Avaliação das Escolas Médicas (CAEM), que é uma das comissões da Associação Brasileira de Educação Médica (ABEM), composta por professores estudiosos envolvidos com avaliação no âmbito da educação na área da saúde.

Hissachi Tsuji Rinaldo Henrique Aguilar da Silva

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O título Aprender e ensinar na escola vestida de branco: do modelo biomédico ao humanístico é proposital. Muitos poderão entendê-lo como o relato de experiências vivenciadas nas escolas médicas. Ele o é. No entanto, traduz também o momento da educação superior no Brasil. As escolas, independentemente de serem escolas médicas, estão vestidas de “branco”. Do “branco” do esquecimento, de investimentos e recursos. Do “branco” da busca do lucro fácil sem compromisso. Do “branco” da elitização do acesso, mas, acima de tudo, do “branco” que se traduz na entrega de certificações profissionais sem qualidade.

ISBN 978-85-7655-099-0

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APRENDER E ENSINAR NA ESCOLA VESTIDA DE BRANCO: do modelo biomédico ao humanístico  

Prévia do Livro APRENDER E ENSINAR NA ESCOLA VESTIDA DE BRANCO: do modelo biomédico ao humanístico

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