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Cor certa nos pastos permite dobrar a lotação dos piquetes ESPECIAL pastagens

J. M. Nogueira de Campos

Com a melhoria das cotações do bezerro e do boi gordo, muito pecuarista está olhando com mais atenção para seus pastos e se dispõe a investir em sua melhoria. Mas nem sempre decide com racionalidade. Há quem ache que, partindo logo para piquetes rotacionados e até irrigados, em pouco tempo porá muitos quilos a mais no seu rebanho. Nada mais equivocado, diz o agrônomo e consultor Wagner Pires, um especialista em pastagens, baseado em Indaiatuba, SP. Pires desenvolveu uma metodologia própria, de passos bastante simples, mas eficientes, para saber a quantas anda o estado de um pasto e como se pode melhorá-lo. Ele dá notas a cada área da fazenda, conforme a variação das condições de fertilidade (sempre que possível baseada na análise de solo, com especial preocupação em relação ao fósforo), gramação (ausência de claros na vegetação original), infestação de invasoras e presença de outras gramíneas, atribuindo às pastagens, no final, uma cor que definirá seu estágio de comprometimento, se houver. A visualização do quadrado que ilustra esta página, dividido em quatro partes, com a escala numérica e as identificações em cada lado, facilitará, para o leitor, a compreensão do sistema de avaliação do estado das pastagens proposto por Pires. Claro que, utilizado por um profissional, o método dará respostas mais ❑ Pires: notas precisas. Mas, segundo Pires, confome o estado pode ser usado da pastagem.

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por todo fazendeiro interessado em identificar com maior dose de acerto, do que o costumeiro “eu acho”, as reais condições de seus pastos.

PASSO A PASSO – Quadrado quadriculado e lápis colorido na mão, diz Pires que o primeiro passo é percorrer a fazenda, atribuindo as notas devidas a cada local, conforme a classificação que a pastagem merecer nos quatro itens – fertilidade do solo, população de plantas-base, presença de ervas daninhas ou plantas in-

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vasoras e número de outras gramíneas, de qualidade inferior. O cruzamento das pontuações levantadas em cada lado do quadrado é que acabará por posicionar o pasto em sua cor. Pires recomenda que se dê início ao processo pelas áreas que parecem estar em melhor estado ou “que estão menos mal”. No item outras gramíneas ou capins de qualidade inferior, Pires inclui o rabo de burro, o capim amargoso, o capim navalha e outros de sua laia. A presença maciça de grama batatais, para ele, indica es-


tar o pasto degradado. Exemplos simples explicam o procedimento. Um pasto que recebeu a cor verde (o que tem o número 1) terá mostrado ser uma área com solo de média a alta fertilidade (digamos, uma nota 7 no primeiro quadrado menor, à esquerda), com capim novo e bem gramado (pelo menos um 6 no da direita, ao alto), sem espaços vazios, praticamente livre de plantas invasoras (algo como um 2 ou 3 no primeiro quadrado de cima) e também com praticamente nada de gramíneas inferiores (nota 2 no primeiro quadrado inferior). Como espaço vazio, Pires considera lacunas de gramação iguais ou superiores a 2 m2. Em outro caso, um pasto em início de degradação, com presença de invasoras classificada entre Recomposição média e alta, pode vir passo infestação de outras gramía passo, com neas, mas aincusto aceitavel da podendo ser considerae dispêndios do bem gramado, com ferescalonados. tilidade de média a alta, vai ganhar a cor amarela (2). No quadrado Amarelo (3) vão estar os pastos também a caminho da degradação, ainda com baixa incidência de plantas daninhas, fertilidade de baixa a média, mas já com muitos espaços vazios, capazes de comprometê-los no quesito população de plantas. A cor vermelha (4) será atribuída a pastagens com notas altas para os itens invasoras e outras gramíneas e baixas para fertilidade do solo e população de plantas. Para essas áreas nem compensa fazer investimentos: no máximo, dar-lhes uma roçada mecânica ou manual, se o gado estiver no grito, em termos de pastagens, mas, assim que possível, tombar a área, analisar o solo, adubar, gradear e replantar o capim. Fácil na teoria, a coisa se complica um pouco na prática, admite Wagner Pires, pois a avaliação é apenas o ponto de partida para uma série de decisões a serem tomadas. E elas esbarrarão, a cada passo, nas possibilidades financeiras do pecuarista e em sua disposição de investir nos seus pastos.

Êxito comprovado

Numa área classificada como Verde-1 vale a pena controlar eventuais invasoras

Um bom diagnóstico da real condição dos pastos é meio caminho andado para sua recuperação ou recomposição, afirma Pires, que dispõe de um portfólio de bons resultados obtidos em fazendas que seguiram à risca a sua metodologia. Na Agropecuária YKK, do grupo japonês do mesmo nome, em Bonfinópolis. MG, há quatro anos quase todos os seus 3.500 hectares de pastagens estavam em petição de miséria, mal suportando 0,6 U.A./ha. Hoje, a propriedade tem boas pastagens de andropógon e braquiarão, já cedeu mais de 1.000 hectares dos mais degradados para o plantio de soja (receberá a área de volta, em pastos, após cinco anos) e exibe uma lotação de 1,8 U.A./ha nas pastagens recuperadas. E vai muito bem, obrigado, na cria e recria de seu Nelore e algum gado cruzado. Em outra propriedade, a Fazenda Bacabal, da Agropecuária Igarapé, em Igarapé Grande, na região central do Maranhão, os mesmos 3.500 hectares de pasto, antes com baixa capacidade de suporte, agora são mostrados como exemplo de bom manejo em dias de campo, fazendo da propriedade uma referência na região Meio-Norte do País. E, destaca Pires, há sete anos a fazenda tinha seu marandu (braquiarão) tomado por invasoras e outras gramíneas. Atual mente, a propriedade, do empresário Na um Roberto Tyfer, encontra-

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se no estágio final do processo de melhoria: tem suas áreas de pastejo subdivididas e arborizadas, capazes de suportar 2,0 U.A./ha e aprontar para abate (mínimo de 16 arrobas), em dois anos e meio, o Nelore da fazenda ou, em 24 meses, os produtos cruzados. “Na base exclusiva do pasto”, destaca o agrônomo. Algo difícil no seu trabalho, admite Wagner Pires, é levar o pecuarista a acreditar na viabilidade da recuperação dos pastos, devidamente planejada e realizada passo a passo. Não adianta, adverte, querer pular etapas e ou pretender resultados imediatos, que possam remediar uma situação totalmente adversa . Ele garante, porém, que, “trabalhando em cima da melhoria dos pastos e de sua divisão em piquetes, dando mais fertilidade ao solo e controlando as invasoras, se levanta qualquer fazenda”. E sem despender fortunas, acrescenta. Pelas suas contas, mesmo com a grande variação dos números de região para região, uma reforma de pasto fica entre R$ 2.500 e R$ 3.000 por hectare; a recuperação tem custos bem menores, de R$ 1.000 a R$ 1.500/ha, dependendo do grau de comprometimento da área, “e seus resultados aparecem mais rapidamente”, destaca. Um ponto em que Wagner Pires insiste sempre: “o que não se pode é deixar a pastagem acabar, pois o custo da recomposição será sempre muito alto”.

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ESPECIAL pastagens

Dicas

Fazenda Bacabal, agora, tem áreas subdivididas e arborizadas.

Com base na freqüência das questões levantadas pelos pecuaristas em relação ao tema, Wagner reuniu um conjunto de sugestões, de encaminhamento adequado, a custos aceitáveis, com dispêndio escalonado. Algumas delas:

✔ a adubação de recuperação é cara, e eventualmente assusta, mas não se deve pensar na fazenda inteira. A receita é trabalhar passo a passo, começando pelas melhores áreas, nunca pelas mais degradadas. Regra de ouro, no particular: corrigir primeiro o solo, com calagem, depois gastar só com fósforo (e, ainda assim, por etapas), para então pensar em potássio e, bem mais tarde, em nitrogênio. Para lembrar sempre: “não adianta esperar que uma planta cresça e forneça massa verde se está subnutrida, raquítica”;

✔ quem tem R$ 100 mil para investir aplique-os nos pastos classificados como Verde-1, pois será possível dobrar sua capacidade de suporte. “Quem põe dinheiro num pasto que exige reforma pode fazer pouca coisa, e continuará passando apuro”;

✔ não se deve andar contra os ciclos da pecuária – desanimar no tempo de vacas magras e querer fazer de tudo quando o pre-

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ço da arroba melhora. Bom é estar de olho no negócio, não deixando os pastos – que são a base da produção pecuária – chegarem ao seu limite;

✔ nunca pôr todos os ovos numa cesta só. Cada fazenda deveria contar com um mínimo de três cultivares, para ter capins com diferentes ciclos (não coincidentes na rebrota e sementeira, por exemplo) e com graus também diferenciados de resistência a doenças e pragas, em especial a cigarrinha;

✔ respeitar a topografia, fertilidade e condições do terreno: em áreas acidentadas, evitar cultivares que entouceiram (por causa da erosão) e selecionar as escolhidas por sua exigência. Exemplos: o tanzânia, o mombaça e o Xaraés pedem solos mais férteis; o andropógon, as braquiárias decumbens e humidícola já aceitam terras de menor fertilidade; em áreas úmidas, dar preferência às braquiárias, dictioneura e cetárias; para as mais secas, buscar as demais gramíneas;

✔ se o objetivo é intensificar o uso dos pastos (como no sistema de piquetes rotacionados), plantar capins que oferecem mais massa, como tanzânia, mombaça e Xaraés, e selecionar as cultivares conforme o hábito de pastejo das espécies animais que vão utilizá-las.

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Num pasto classificado Verde-1, diz o especialista de Indaiatuba, vale a pena investir no controle de eventuais invasoras, por catação das gramíneas que não as originais ou mesmo aplicação de herbicidas. Mas, nessa última opção, com um cuidado: no braquiarão, por exemplo, para combate à praga rabo de burro, o produto químico será contra-indicado, já que ambos os capins têm folhas estreitas e morrerão juntos. Se necessária alguma recomposição, sempre será indicado fazê-la, depois é realizar adubação de manutenção a cada dois anos e prosseguir arrancando as outras gramíneas, periodicamente, até com enxadão. Para o pasto Amarelo-2, dependendo das condições e da disposição do fazendeiro – a gerencial e a financeira –, Pires considera duas possibilidades: o emprego de herbicida (para controle das Reformar uma invasoras) e área de pastajo uso do enxadão contra sai mais caro do outras gramíque recuperá-la neas, para colocá-lo na mas o melhor é condição Verde-1, ou deimantê-la bem xar o pasto se acabar sozinho e partir para a reforma, depois de dois ou três anos, pois as pragas vão ocupá-lo e acabarão por levá-lo à condição de Vermelho-4. No caso de um pasto Amarelo-3, a receita de Pires é iniciar a recuperação, após a análise do solo, pela calagem em cobertura, seguindo-se, também em cobertura, uma adubação fosfatada. O solo será revolvido nos espaços vazios, com ressemeadura da gramínea dominante no local. Quando o terreno estiver gramado, se dará um descanso à área, o que, certamente, a levará para a classificação Verde-1. Assinala Pires que essa situação é de mais fácil controle e reversão do que a do pasto Amarelo-2. Em contrapartida, se as providências recomendadas não forem tomadas, a fertilidade da área irá esgotar-se crescentemente, as invasoras aumentarão e o pasto acabará migrando para a situação Vermelho-4.

Pasto quadrante  

Metodo de medição dos pastos degradados

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