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CYAN MAGENTA AMARELO PRETO

CADERNO B 8

Jornal do Brasil B8 |JB CADERNO B |Domingo, 15 de novembro de 2009

cadernob@jb.com.br

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CAPA

Berros e lendas do

Lançamento de edição especial de 20 anos de ‘Bleach’, o primeiro álbum do Nirvana, e de livro de fotografias de Michael Lavine lançam nova luz sobre o movimento que mudou o rock nos anos 90

Luiz Felipe Reis

No encarte de Bleach, álbum de estreia do Nirvana, a grafia Kurdt Kobain divide espaço com Krist Novoselic, Chad Channing e... Jason Everman. Jason quem? Sim, graças ao então guitarrista de apoio do Nirvana, parcos US$ 606,15 foram gastos para acertar as contas com o produtor Jack Endino, responsável pelas gravações do álbum que marcou a estreia da até então desconhecida banda de Seattle. Gravado em três apressadas sessões no Reciprocal Studios, entre dezembro de 1988 e janeiro de 1989, o disco evidencia a crueza – dado os poucos recursos do estúdio e dos equipamentos da banda – e a urgência – marcada pelo caráter irascível e instável do líder – que impulsionaria, dois anos mais tarde, a explosão do movimento grunge por todo o país, a bordo do clássico Nevermind. Editado em junho de 1989 pela Sub Pop, a bolacha que inicialmente vendera cerca de 40 mil cópias completa 20 anos. Para celebrar a data, o disco ganha as prateleiras numa edição de luxo em CD duplo, remasterizado a partir das fitas originais e acrescido com uma apresentação ao vivo da banda – ambos com a supervisão de Endino.

Após o estouro de ‘Nevermind’, ‘Bleach’ ganhou fôlego e chegou à marca de 1,7 milhões – Eu sabia que tínhamos em mãos um bom disco, mas eu faço uma porção de bons discos todos os anos. Acho que todos deveriam ser escutados por muito mais gente, o que geralmente não acontece... com exceção de Bleach. Escoltado pelos bateristas Dale Crover e Chad Channing, Cobain finalizava as letras pouco antes de Endino dar o comando de “gravando”. O resultado é um álbum cru, pantanoso, com uma coleção de melodias arrastadas adornadas por guitarras distorcidas que fundiam a ferocidade do punk e das bandas de garagem ao ar lúgubre do metal setentista cunhado pelo Black Sabbath. Da caneta do compositor, escorriam referências biográficas, tanto de seu traumático histórico familiar quanto de sua adolescência na conservadora e remota Aberdeen, como em School, Floyd the barber e Mr. Moustache. O disco já continha os lancinantes urros que tornaram-se sua marca, como em Negative creep e Blew, além da veia

G R U N G E

Michael Lavine

Pearl Jam e Alice in Chains também voltam às prateleiras A efeméride que marca as duas décadas do lançamento de Bleach e a efeméride do movimento grunge mostra que o passar do tempo não serviu para desbotar por completo as surradas camisas xadrezes de flanela – ícone do gênero. Além do relançamento do debute, a histórica apresentação do Nirvana na noite principal do Reading Festival em 1992, na Inglaterra, ganha as prateleiras nesta terça, em dois formatos, CD e DVD. As imagens cristalizam uma banda em seu auge, com um Dave Grohl furioso acelerando as baquetas nos maiores hits da banda, como Smells like teen spirit, Drain you, Come as you are, Lithium, In bloom, entre outras. Há poucos meses, os fãs da sonoridade de Seattle puderam matar as saudades do Alice in Chains, que voltou à ativa com o lançamento de Black gives way to blue. Também este ano, o Pearl Jam, banda “rival” do Nirvana, lançou seu mais novo trabalho, Backspacer. Oferecendo um cardápio sortido aos fãs, o PJ teve, em março, o lendário álbum Ten relançado em quatro diferentes edições, todas remasterizadas e mixadas por Brendan O’Brien, com direito a extras como um DVD para o MTV Unplugged de 1992 e um LP da performance realizada pelo grupo também em 1992, no Magnuson Park, em Seattle. As novidades do PJ servem como prévia ao relançamento de todo o catálogo da banda, além de um longa dedicado à história do grupo, a ser dirigido por Cameron Crowe, planejado para chegar ao circuito em 2011, quando completa-se o ciclo de 20 anos desde a explosão do Pearl Jam.

pop para melodias açucaradas, como em About a girl. Apesar de lembrar detalhes da gravação, Endino confessa que seu relacionamento com Kurt foi tão rápido e focado quanto as gravações do seminal álbum. – Não nos conhecemos muito bem, apenas passamos alguns dias juntos. Não fui muito próximo dele, até porque ele não morava em Seattle (na época, o roqueiro vivia na cidade vizinha de Aberdeen) e não tínhamos muito contato social fora das sessões – conta. O produtor prossegue: – Kurt era um cara fácil de se lidar. Ouvia a opinião das outras pessoas e era extremamente focado. Não consigo lembrar sequer de ter visto os caras bebendo cerveja durante o tempo em que passamos no estúdio. Não perdíamos tempo, só queríamos saber de gravar e tirar um bom som. Cobain nunca mostrou evidências de seus problemas. Por “problemas”, Endino se refere à instabilidade mental do líder da banda, que, somada ao vício em

Kurt fez lembrar a todos que a melodia é fundamental para uma boa composição Jack Endino Produtor de ‘Bleach’

heroína, o levou ao suicídio em abril de 1994, pouco mais de cinco anos depois do lançamento do disco de estreia. Após o estouro de Nevermind, Bleach ganhou fôlego renovado e chegou a marca de 1,7 milhões de cópias vendidas apenas nos EUA. Fato que sedimentou e projetou a carreira de Jack Endino como produtor musical. Até então, ele se dividia entre o trabalho no estúdio e o posto de guitarrista da banda Skin Yard. – Percebi que poderia viver disso quando o Skin Yard acabou, em 1992, na mesma época em que o grunge estava explodindo. Parecia que o mundo exigia que eu me

tornasse um produtor, mais do que um guitarrista. Meu telefone não parava de tocar. A segunda metade do pacote ilustra uma apresentação poderosa e, como sempre, caótica do grupo, com Cobain quebrando sua guitarra ao fim da apresentação. Extraída de um show no Pine Street Theatre, em Portland, em 9 de fevereiro de 1990, a gravação traz versões ao vivo para covers como Love buzz e Molly’s lips, e foi remixada a partir das fitas originais. – O grunge era uma combinação do rock de garagem dos anos 60 com o hard rock dos 70 e com a atitude punk dos 80 – define Endino, com a autoridade de quem é tratado como o avô do grunge. – Tínhamos uma filosofia muito forte: faça-você-mesmo, monte-a-sua-banda, grave-o-seu-próprio-disco. E, é claro, muitos gritos e uma série de guitarras estrondosas. Kurt fez lembrar a todos que a melodia é fundamental para uma boa composição e que é preciso cantar com paixão.

Imagens de Seattle: cidade depressiva e experimental

Movimento é generalização de grupos de sonoridades distintas

Autor do recém-lançado livro de fotografias Grunge, Michael Lavine iniciou seus primeiros experimentos fotográficos quando ingressou na Evergreen State College, em Olympia. Lá acompanhou de perto uma intensa movimentação ao ser contratado pelo selo Sub Pop (que lançou Nirvana, Mudhoney e Soundgarden) como fotógrafo oficial. Para ele, o grunge é resultado de uma combustão entre desconforto psíquico, condições atmosféricas desfavoráveis e um cruzamento musical abrangente. – Tudo tem a ver com o ambiente de Seattle. Nove meses de chuva, céu cinzento, nuvens carregadas e muito frio. Um clima que levava todos a um mesmo estado mental: depressão – diagnostica. – É uma cidade isolada, mas com uma cena experimental intensa. Os

Philippe Noguchi

moradores de Seattle eram rebeldes e propunham mudanças significativas à ordem estabelecida. Sentia isso na molecada. Lavine lembra bem da primeira sessão de fotos do Nirvana, que ilustra essa página. – Eles não tinham grana, nem sucesso. Nos encontramos em Nova York, no CBGB. Era um cara genial, amistoso. – diz o fotógrafo. – Kurt nos fez entender que o rock tem poder de influenciar. Thurston Moore, do Sonic Youth, assina o texto que contextualiza a coleção de fotografias. – As fotos capturam muitas bandas e personagens que foram precursores do grunge – conta. – Até hoje muitas pessoas são inspiradas por eles. É como o punk, sempre terá alguém tocando e se inspirando nessas bandas.

A onda que nasceu em Seattle e varreu o mundo com rock’n’roll estava longe de ser uma unidade, como se pode imaginar. É o que afirma o jornalista André Barcinski, autor do livro Barulho, que reúne registros das viagens que fez pelos EUA entrevistando os nomes por trás do então insurgente novo rock americano. Segundo ele, as bandas que encabeçaram o grunge, como Nirvana, Alice in Chains, Mudhoney, Pearl Jam, Soundgarden e Stone Temple Pilots eram substancialmente diferentes. – O que as pessoas chamavam de grunge era uma denominação um tanto generalizadora – analisa Barcinski. – As bandas eram muito diferentes entre si. O Nirvana, por exemplo, propunha um rock com

mais peso, que dialogava com o punk; já o Alice in Chains tinha claras influencias do heavy metal. Para o escritor, o elemento unificador do movimento era, na verdade, um sentimento. – Era uma época em que se sentia uma grande euforia em se ouvir bandas novas e muita gente acabou descobrindo um som mais alternativo do que o que circulava no mainstream. Barcinski crê que a maior herança do grunge foi trazer uma tolerância maior do ouvinte comum para sons pesados ou sujos, algo que se refletiu no Brasil e no mundo. – Muitas bandas sugaram isso aqui no Brasil, fizeram discos mais pesados, mais sujos. Um exemplo é o Titãs – aponta. – A banda teve o disco Titanomanquia, de 1993, produzido pelo próprio Jack Endino.

PARA OS FÃS – A edição comemorativa de ‘Bleach’ (acima) e o novo livro de Michael Lavine e Thurston Moore, ‘Grunge’ (abaixo), saciam a curiosidade dos órfãos de Kurt Cobain


Grunge