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TAB CADERNO B 3

Jornal do Brasil Terça-feira, 27 de outubro de 2009

cadernob@jb.com.br

CRÍTICA | CD | EDU KRIEGER

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Navegação apenas em mares seguros Em ‘Correnteza’, compositor acerta nas letras, mas atraca em melodias pouco fluidas Divulgação / Fábio Seixo

Luiz Felipe Reis

Em seu primeiro trabalho solo, lançado há dois anos, o cantor, compositor e instrumentista Edu Krieger extraía de seu balaio o melhor de um repertório autoral talhado ao longo de anos dedicados a imersões criativas em muitos sambas, marchinhas e forrós, entre outros gêneros brasileiros enraizados em botecos espalhados pela Lapa. Deixando-se levar pela mesma maré que conduziu sua primeira barca de canções, Krieger segue caminho estético similar nas 12 faixas que moldam Correnteza(Biscoito Fino), atracadas ao porto seguro de violões (de sete e oito cordas), cavaquinho, guitarra e percussão – e avança pouco. A faixa-título e também abre-alas do seu novo álbum mostra o quanto o músico se banhou em linhagens melódicas e líricas que prestam tributo à fina estirpe de Paulinho da Viola – em especial, seus sambas que tratam do mar como inspiração, tanto pela fluidez melódica quanto pela atmosfera melancólica e contemplativa. Introduzida pelas graves notas de um sete cordas e pelo ressoar nostálgico de uma cuíca, a canção desliza por versos simples que clamam que a tal correnteza o leve, o mais depressa possível, ao encontro de um amor perdido ou distante. Já nas faixas seguintes, Feira livre e, principalmente, Desestigma, Krieger acerta a caneta em longas e inventivas letras, mas deixa a desejar em motivos melódicos cíclicos e pouco inspirados. Versos como “Nem tudo que se publica é fato / Nem todo galã das oito é rico / Nem todo camisa 10 é Zico / Nem todo cantor de rock é chato” e “Nem todo maluco é sem juízo / Nem todo grã-fino tem fineza / Nem toda pintura tem beleza / Nem toda beleza é paraíso“ si-

OITO CORDAS – O violão guia a maior parte das canções assinadas pelo músico, que não repete o êxito artístico do álbum de estreia

nalizam a imaginação fértil de um compositor maduro, mas igualmente solto e repleto de frescor em seus traços. Contando com a participação especial de um dos integrantes do grupo Tira Poeira, o bandolinista Henry Lentino, Krieger sem empenha em levar adiante o samba de roda Clareia, mas o resultado deixa a desejar se comparado aos sambas que o mesmo riscou em seu debute. Também adornada pelo instrumento de um antigo companheiro de Lapa, o violinista Nicolas Krassik, Galileu é outra que, salvo o belíssimo solo final do francês, pou-

Sobre as mãos, assinado em parceria com o violonista Zé Paulo Becker e com direito ao trombone de Roberto Silva e o sofisticado piano de João Donato, além da bela A mais bonita de Copacabana, azeitada pela gaita quente de Rildo Hora. Inusitado arranjo de cuícas

co acrescenta ao repertório melódico de Krieger. Dando sequência à série de participações musicais que recheiam o miolo de Correnteza, o músico apresenta o bolero

Pouco ousado, Correnteza surpreende apenas pelo inusitado arranjo tecido para Ela entrava, onde a voz de Krieger é embalada pelos “sopros” de um naipe de cinco cuícas sobrepostas, tocadas pelo percussionista Fabiano Salek. E só recolhe a fluidez plantada na faixa

>> Lançamentos

inicial ao se deixar levar pela sanfona de Marcelo Caldi no xote Rosa de Açucena, assim como no forró Graziela, disfarçado de canção pop. Encerrado com o samba(anti)exaltação Serpentina, este ciclo de canções repousa em calmaria e deixa clara a urgência de novas, e talvez revoltas, ondulações musicais.

>> Nas lojas Correnteza Edu Krieger. Biscoito Fino, R$ 34,90

Cotações:  ruim  regular  bom  ótimo Divulgação

DUNKEL E GODIN – Sexto CD soa genérico

Love 2  AIR

Nicolas Godin e Jean-Benoît Dunckel, a dupla mais conhecida como Air, não querem ficar presos ao conceito que apresentaram em Moon safari (1998). Entretanto, no seu sexto disco de estúdio, falta estofo musical aos dois para arriscarem-se a sair da equação eletrônica retrô + lounge + leve psicodelia. A coleção de timbres pseudo-antiquados continua interessante e variada (agora com uma renovada ênfase em guitarras e violões, que aparecem mais do que nunca). Só que os arranjos não conseguem disfarçar a esqualidez das composições. Os temas instrumentais se sustentam, mas a coisa fica complicada ou nas canções com vocais – como na letra minimalista (preguiçosa?) de Love, que se restringe a repetir a palavra... “love”. A longa Tropical disease, com seu saxofone trilha-sonora-de-motel, é o exemplo mais típico do caráter genérico do disco. Em outros momentos, Godin e Dunkel armam uma trilha de filme de espionagem (fake e com pique pós-punk, em Be a bee), incursionam por um rock meio sombrio (Do the joy) e passeiam pela new wave (Eat my beat). (Marco Antonio Barbosa)

Sete chaves 

Who’ll speak for love 

NX ZERO

TRAINCHA & METROPOLE ORCHESTRA

Alive in Brazil  JAY VAQUER

Os paulistas voltam equilibrando as distorções com baladas que repetem o esquema de antes. E falham, tanto nas faixas mais melódicas quanto nas que procuram soar mais pesadas. Não abrem mão dos clichês e continuam capazes de cometer versos como “O meu céu não tem mais estrelas” - que só não constrangem mais que as duas faixas instrumentais. Um disco de tentativas (mal-sucedidas) e cheio de fórmulas. A boa notícia é que a banda parece realmente ter encontrado sua sonoridade, infelizmente igual a de tantos outros. (Philippe Noguchi)

Traincha (codinome da holandesa Trijntje Oosterhuis), cantora de classe e muita técnica, foi a escolhida para dar voz à faixa-título deste disco – nada menos que uma composição até então inédita de Burt Bacharach. A canção, uma bela balada, não faz feio diante dos vários outros clássicos de BB revistos no CD. Traincha revê com elegância tanto os cavalos de batalha (What the world needs now, Any day now, This girl’s in love) quanto músicas menos conhecidas, como Stronger than before e Love is the answer. (Marco Antonio Barbosa)

O filho de Jane Duboc é um cara meio deslocado. Tenta fazer rock moderno com guitarras pesadas, acento pop e letras ácidas – um tríptico que parece impedi-lo de atingir o estrelato.Chega ao primeiro DVD ao vivo com um espetáculo bem-produzido em termos de cenário, mas que padece um pouco no critério da criatividade musical (as canções se parecem demais umas com as outras). Outra roqueira que prometia decolar e nunca alçou altos voos – Megh Stock, ex-Luxúria – participa em Estrela de um céu nublado. (Marco Antonio Barbosa)

Wolfgang Amadeus Phoenix... 

Pra quem quiser 

Por todas as razões 

PHOENIX/VÁRIOS

LIA SABUGOSA

MARIA CANDIDA

Mesmo para os fãs, aturar 15 remixes de oito canções do último CD do grupo, o excelente Wolfgang Amadeus Phoenix, é de lascar. A maquiagem hip hop que o 25 Hours A Day insere no hit eletro-rock Lisztomania pode até apresentar uma galera menos underground ao som dos franceses – assim como as batidinhas que Bo Flex’d inseriu em 1901 e os Friendly Fires espalharam por Fences. Já a versão da banda indie americana The Soft Pack vale pela surpresa: releu Fences com batida chacundum, pandeirinho e vocal deprê. (Ricardo Schott)

A cantora Lia Sabugosa aposta na recente safra de compositores e músicos da cena independente carioca, como Daniel Lopes, Apoena Frota, Liô Mariz e MarthaV para trilhar a sonoridade pop rock estampada nas oito faixas que alimentam Pra quem quiser. Sua voz cheia e rascante responde melhor aos momentos melódicos que exigem um pouco mais de catarse que de sutileza, como o refrão e versos finais da faixa de abertura, Imagina e Subst. feminino. Produzido por Daniel Lopes, Luca Duque e Cesinha, o disco carece de arranjos mais criativos. (Luiz Felipe Reis)

Advogada de formação e cantora-compositora que lança tardiamente seu primeiro CD (cujo repertório mostra quinta no Posto 8) MC atua num meio em que é praticamente impossível inovar e que requer precisão: a MPB derivada do jazz, com ligeiros toques orquestrais (como em Depois de tanto tempo) e astral herdado de nomes como Edu Lobo e Chico Buarque (as parcerias teatrais da dupla rondam Flor do bem querer e a faixa-título). Com voz trabalhada e boas canções autorais, faz o que pode para criar sua assinatura musical. (Ricardo Schott)


Critica NX Zero