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E C O L O G I A

S E B A S T I Ã O

S A L G A D O

O PROJETO QUE RECUPERA O VERDE E CONSCIENTIZA OS HABITANTES TEM ATÉ CINEMA, COM PROJETOR DOADO PELO ATOR ROBIN WILLIAMS pequena cidade de Aimorés, na região do Vale do Rio Doce em Minas Gerais, é a cidade natal de um dos brasileiros com o trabalho mais reconhecido no mundo: o fotógrafo Sebastião Salgado, que mesmo morando em Paris há mais de 30 anos jamais se esqueceu de suas origens. A maior prova disso é o Instituto Terra, um projeto que toca ao lado de sua mulher, Lélia Deluiz Wanick Salgado, há mais de 11 anos, trabalhando na recuperação florestal, na educação ambiental e no desenvolvimento sustentável de uma região que vivencia as consequências do desmatamento e do uso desordenado dos recursos naturais, como a seca, a erosão do solo e a falta de condições para o homem do campo viver e prosperar. Eis o projeto central: recuperar a grande Fazenda Bulcão (herança de família do fotógrafo) de um processo de degradação ambiental de anos. A iniciativa é um dos melhores exemplos de ações bem-sucedidas de recuperação ambiental: a fazenda tinha uma área de Mata Atlântica totalmente degradada quando recebeu o título de Reserva Particular de Patrimônio Natural, em 1998. Com animais em risco de extinção e escassez de recursos hídricos, a região viu nos últimos anos o verde sendo resgatado de baixo da terra árida pelas mãos do projeto. Hoje, 5/6 de toda área de 608,69 hectares (equivalente a 500 campos de futebol) já foram recuperados, dando origem a uma jovem floresta. Associado à recomposição do solo e ao restabelecimento da cobertura vegetal da Fazenda Bulcão, o instituto está promovendo o resgate dos recursos hídricos também: as oito nascentes da fazenda foram recuperadas. Além disso, os animais estão retornando ao local, encontrando no Instituto Terra um refúgio seguro. O monitoramento da fauna já permitiu identificar, até o momento, 172 espécies de aves, 33 espécies de mamíferos, 15 espécies de anfíbios e 15 espécies de répteis. Além de disseminar os métodos para recuperação ambiental, o Instituto Terra investe na promoção de cursos, seminários e eventos relacionados ao meio ambiente (veja mais em quadro à frente), visando promover uma nova consciência ambiental na região em que está. O trabalho desenvolvido por Sebastião Salgado na Fazenda Bulcão é realmente

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inspirador. O fotógrafo herdou a propriedade em estado extremamente degradado e conseguiu convertê-la uma década mais tarde em uma reserva ambiental grande, rica e, sobretudo, autosustentável. As mudas utilizadas hoje tanto no plantio interno da reserva quanto nos projetos externos são integralmente fornecidas pelo viveiro do próprio Instituto Terra, que está em ampliação para produzir cerca de 1 milhão de mudas por ano. Salgado, Scorcese e Bertolucci

As ações de Sebastião Salgado não se concentram apenas na recuperação da Fazenda Bulcão. Até julho de 2009, as ações do Instituto Terra na recuperação de Mata Atlântica já alcançavam mais de 20 municípios no Vale do Rio Doce. Apesar de ter hoje grandes dimensões, o projeto começou com pequenas iniciativas. E a primeira delas veio da própria Lélia, mulher de Sebastião, que plantou as primeiras mudas da reserva e desenhou o projeto paisagístico da fazenda. Hoje, o Instituto conta com centros de pesquisa e treinamento, e até mesmo um cine-teatro. Contando com o prestígio de seu anfitrião, as telas de Sebastião Salgado já exibiram filmes até de diretores consagrados como Martin Scorsese e Bernardo Bertolucci, que cederam seus filmes. O próprio projetor do cinema foi um presente do ator norte-americano Robin Williams. O cinema do instituto é o único do município de Aimorés, cidade natal de Salgado. Mais um ícone do trabalho excepcional que o fotógrafo está realizando agora muito além das lentes. EVANDRO TEIXEIRA

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A Fazenda Bulcão, em Minas, antes e 11 anos depois

NÚMEROS INCRÍVEIS "1 milhão de árvores foram plantadas numa área equivalente a 500 campos de futebol. "A área abriga mais de 293 espécies vegetais originárias da Mata Atlântica. "140 mil novas mudas devem ser plantadas até o fim deste mês. "Depois de 10 anos de atuação, só faltam 100 hectares, 1/6 da área, a serem recuperados.

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