Page 1

1


Índice 5 O polêmico Lars Von Trier 9 O cinema da Guiné-Bissau 15 Cinema iraniano e Islamismo 19 Terror oriental: inspiração para Hollywood 23 De Lumiére a Bollywood

3


O polêmico Lars Von Trier

Lars Von Trier diz ter orgulho de ser banido de Cannes e anuncia filme pornô

L

ars von Trier é meu cineasta preferido da atualidade e este já é motivo muito forte para que eu escreva algumas linhas a respeito da declaração feita por ele no Festival de Cannes, no momento em que tinha a função de promover seu mais recente trabalho, o filme Melancolia, previsto para ser lançado no Brasil em agosto deste ano. Explico o contexto: uma jornalista perguntou a Lars von Trier – famoso por suas declarações polêmicas em entrevistas, coletivas de imprensa, etc. – sobre uma certa “cultura” alemã presente em seus filmes e ele cometeu a seguinte resposta: “A única coisa que posso dizer é que pensei ser judeu por um longo tempo e era muito feliz em ser judeu. Então conheci Susanne Bier e, de repente, não estava mais tão feliz em ser judeu. Isso foi uma piada. Desculpem. Mas acabou que eu não era judeu. Se eu fosse judeu, seria de segunda geração, mas, seja como for, eu realmente queria ser judeu – e então descobri que era nazista porque minha família era alemã. E isso também me trouxe certo prazer. Então, o que posso dizer? Eu entendo Hitler.” Dito isto, o cineasta dinamarquês até tentou corrigir a fala, mas só piorou a coisa, pois reafirmou que é nazista. Que Lars von Trier não é nazista, muitos sabem. Até tem gente que entende muito de cinema deixando bem claro isso (ver a nota do Pablo Villaça do Cinema em Cena). Que notícias com conteúdo

duvidoso alimentam uma determinada parcela do jornalismo e têm lugar e vez na imprensa, isso também é de conhecimento público. Mas isso muda o fato de Lars von Trier ter feito uma declaração lamentável e desnecessária? Não, não muda. Então, partindo para as implicações da declaração (que foi feita em tom de piada- pois o cineasta sempre torna evidente a sua impaciência com relação às perguntas lugar-comum feitas por jornalistas -, mas ainda assim merece o repúdio): fazer referência a um dos maiores crimes contra a humanidade como ele o fez é digno de reprovação não apenas porque temáticas como o nazismo são “delicadas”, mas também pelo fato de a pessoa em questão ser uma figura pública – o que quer dizer que seu comportamento no âmbito público recebe uma atenção maior que o comum. No campo da necessidade, isso talvez signifique muito, mas no âmbito da possibilidade, sim. E é ele que nos interessa. Claro, a patrulha que se opõe ao “politicamente correto” (o que para mim não é nada mais que a turma do politicamente correto com sinal contrário) já vira a cara para ações que surgem com o intuito de resolver questões mais urgentes, como, por exemplo, a não-obrigatoriedade de leituras de materiais com conteúdo racista nas escolas públicas, imagine só quando se trata do campo da “possibilidade”.

“Mesmo que o cineasta seja um criminoso, seu filme precisa estar no festival. Eu disse que simpatizava com Hitler porque consigo entender sua figura humana.”

5


Lars Von Trier no festival de Cannes em 2011

Mas explico a razão de a possibilidade ser tão importante nesse caso. É que ela não está sozinha. Um indivíduo com o mínimo de senso crítico somado a um tanto de consciência histórica pelo menos suspeita que declarações como essa são muito perigosas uma vez que podem surtir efeito nas mentes mais fracas, assim como podem ser disseminadas com mais facilidade do que, por exemplo, informações de cunho educacional. De forma muito humilde, quero dizer com isso que a história existe também para nos “jogar” na cara que os erros se repetem. Ponho em questionamento três pontos: 1) o primeiro é que comungo da idéia de que tudo é questionável, ou seja, jamais tomaria como convincente o argumento de que algo é “intocável” ou indigno de vir à tona em discussões ou debates – quero com isso deixar claro que não vejo o menor problema em se discutir o nazismo, desde que a forma de conduzir a discussão seja adequada, por motivos óbvios; 2) o segundo consiste na idéia de que o cinema é uma arte que definitivamente exerce cada vez mais influência na sociedade, uma vez que foi totalmente incorporado as mais diversas culturas; e ambos me levam ao terceiro ponto, que é 3) a discussão acerca do responsabilidade do artista quanto a sua arte e comprometimento com o seu público. É nesse sentido que o campo da possibilidade adquire um peso maior. Quer dizer, se o pensamento nazista teve recepção por uma parcela da sociedade que não está situada em um tempo cronológico tão distante de nós, isso não exclui a possibilidade de que momentos como o holocausto venham a se repetir na história.

fonte: http://virgula.uol.com.br/

Cena do filme “Anticristo”, de Lars Von Trier

Lars von Trier, depois de tomar consciência da decisão da direção do Festival de Cannes em considerá-lo “persona nongrata”, afirmou que se tivesse declarado o que declarou entre amigos, eles saberiam que não era sério e que, portanto, não precisaria pedir desculpas. Acontece que ele afirmou isso no Festival de Cannes! Portanto, não interessa se a direção é composta por amigos seus ou colegas de trabalho, a repercussão é muito maior do que se a declaração tivesse sido feita num ambiente entre amigos. E com a repercussão vem toda essa complexidade já colocada. Por isso concordo com a decisão da direção. Nesse sentido, cabe aqui colocar: um artista deve se responsabilizar com sua arte? Deve ter alguma espécie de comprometimento com o seu público? Não estou certa quanto à resposta a essas perguntas, porém fico satisfeita com a discussão gerada em torno de eventos lamentáveis como este, pois tenho a impressão de que quando consideramos declarações desse nível como “normais” significa que a impunidade está presente e o caos em processo de gestação. Não sei se isso se deve ao fato de que tenho também como diretores favoritos figuras como Chaplin, que nunca precisou filiar-se a partido político algum nem fazer declarações polêmicas para promover sua arte. Já que iniciei o texto com uma declaração infeliz, finalizo com uma declaração inspiradora. Desta vez do Chaplin – ela está presente no seu filme falado O grande ditador: “Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.”

O caos reina: em ‘Anticristo’

Lars von Trier dá vida aos seus pesadelos

Esqueça a crítica ferrenha aos Estados Unidos. Apague, por alguns minutos, da sua mente o movimento Dogma e sua “naturalidade”. Lars Von Trier deixou tudo isso de lado para fazer seu mais novo filme, Anticristo, um terror psicológico, marcado por todos os pesadelos que teve durante os dois anos que passou em depressão. O filme estreou nos cinemas brasileiros nesta sexta-feira, dia 28, e já coleciona polêmica – território onde ele costuma andar com destreza em todos os seus trabalhos – desde a exibição no Festival de Cannes (assista ao trailer abaixo da texto). Apesar de o diretor deixar de lado suas abordagens políticas, a ironia é a mesma de sempre: a mais cruel e refinada, com direito a cenas de mutilação genital, sexo explícito e questão “Deus realmente existe?”. E é justamente munido desse sarcasmo, que von Trier apresentou o filme nas coletivas em Cannes, auto-intitulado “o melhor diretor do mundo”.

fonte: http://virgula.uol.com.br/

Diante das insistências para que explicasse o filme, foi vago nas respostas e soltou farpas como “eu não me preocupo com a audiência quando faço um filme” ou “foi Deus que me fez escolher essa história e realizar esse filme agora”, além de elegê-lo o mais importante da sua carreira. Não é de se espantar, afinal Anticristo nasceu de todos os demônios que ele enfrentou nos anos de seu terror psicológico. O caos reina na história vivida pelos excelentes Charlotte Gainsbourg, premiada com a Palma de Ouro, e William Dafoe. Para termos a dimensão do significado do filme na vida do diretor, Charlotte disse em entrevista à Folha de S.Paulo que as maiores dificuldades das filmagens foram os constantes ataques de pânico que ele sofria em algumas cenas. “Sabíamos que podia deixar o set a qualquer momento”, revelou.

7


O cinema da Guiné-Bissau F

dono, está “apostado em relançar todas as actividades relacionadas com o cinema”, incluindo a dotação de uma sala de cinema digna desse nome.

Num país com as limitações da Guiné-Bissau, o desenvolvimento do cinema deparou-se sempre com dificuldades de vária ordem. O Instituto Nacional de Cinema (INC), criado pouco depois da independência, nunca foi dotado de uma política de cinema nem dos meios necessários para apoiar eficazmente o desenvolvimento da realização cinematográfica do país. Ele teve no entanto o mérito de apoiar e enquadrar os primeiros passos dos jovens realizadores de então Hoje, o INC, reactivado em Setembro de 2003 após década e meia de aban-

Apesar de um cenário caótico de apoio ao cinema nacional, este desenvolveu-se graças à persistência e vontade própria de Flora Gomes e Sana Na N’Hada, que num verdadeiro “percurso de combatente” conseguiram reunir meios e condições para se afirmarem profissionalmente, tanto a nível interno como internacional, promovendo assim uma cinematografia nacional que reúne 15 realizações de que muito nos podemos orgulhar. De notar que, não havendo actores profissionais de cinema, tiveram que recorrer a amadores que no entanto souberam estar à altura do desafio que se lhes lançava. A premiação de Bia Gomes (Morto Nega) em dois festivais (Menção Especial para a Melhor Actriz no Festival de Ouagadougou e o Prémio de Melhor Actriz no Festival Internacional de Cartago) e de Maysa Marta (Olhos azuis de Yonta, Prémio da Melhor Actriz no Festival de Ouagadougou) são bem a prova do reconhecimento da actuação destas duas actrizes nacionais.

oi preciso a Guiné-Bissau existir como Estado independente para que a 7a Arte passasse a integrar o património cultural nacional. Com efeito, foi já na segunda metade da década de setenta do século XX que surgiram as primeiras produções cinematográficas nacionais pela câmaras dos realizadores guineenses Sana Na N’Hada e Flora Gomes. As primeiras obras pioneiras foram as curtas-metragens “O regresso de Cabral” (1976) e “Anos no oça luta” (1976), duas co-realizações dos dois cineastas. A longa-metragem surgiu mais tarde, em 1987 com a belíssima e muito premiada obra de Flora Gomes “Morto Nega”.

9


Filme “nha fala” realizada em 2002

Filme “pó de sangui” realizado em 1996

Filme “mortu nega” realizada em 1988, 1o filme realizada em Guiné Bissau

Vida e obras: Flora Gomes Flora Gomes nasceu em Cadique, na Guiné-Bissau e estudou Cinema em Cuba, no Instituto Cubano de Artes e Indústria Cinematográfica e no Senegal, sob orientação de um dos mestres do cinema africano, Paulino Soumarou-Vieyra. Trabalhou como repórter para o Ministério da Informação.

Filme “olha azul” de Yonta, realizada em 1991

Flora Gomes iniciou a sua carreira ao lado de Sana Na N’Hada co-realizando com este duas curtas metragens: “O regresso de Cabral” (1976), “Anos no oça luta” (1976). Continuando a sua carreira, realizou ainda a média metragem “A reconstrução” (1977) com Sérgio Pina e “N’Trudu”. Em 1987, Flora Gomes lança-se com sucesso na realização de longas-metragens. Com “Mortu Nega”[iii], a primeira longa-metragem do cinema bissau-guineense, o realizador propulsa-se na cena internacional com a premiação deste filme em quatro festivais nesse mesmo ano: duas Menções Especiais no prestigiado Festival Internacional de Veneza; Prémio Oumarou

Ganda para o Melhor Primeiro Filme no Festival de Ouagadougou no Burkina Faso, Tanit de Bronze no Festival Internacional de Cartago na Tunísia e Prémio Especial no Festival de Khouribga, em Marrocos. Bia Gomes, a actriz estreante que brilhantemente desempenhou o papel da protagonista do filme, obteve a Menção Especial para a Melhor Actriz no Festival de Ouagadougou e o Prémio de Melhor Actriz no Festival Internacional de Cartago. “Olhos azuis de Yonta”[iv], a sua segunda longa metragem realizada em 1991, é o primeiro filme de um realizador bissau-guineense a participar na Selecção Oficial do Festival de Cannes em 1992, na secção Un Certain Regard. Nesse mesmo ano, o filme é premiado em seis outros festivais: Tanit de Bronze e Prémio OUA no Festival Internacional de Cartago; Melhor Retrato da Sociedade Africana no Festival de Cinema Africano de Milão; Prémio Especial do Júri, no Festival de Salónica, na Grécia; Primeiro Prémio no Festival dos Filmes em Línguas de Difusão Restrita, organizado em

11


Zarautz, na Espanha e Prémio do Público no Festival Internacional de Filmes de Wurzburg, na Alemanha. Maysa Marta recebeu o Prémio da Melhor Actriz no Festival de Ouagadougou pelo seu desempenho. Em 1994 e 1995, Flora Gomes realiza duas curtas metragens, respectivamente “ A Máscara” e “A identificação de um país”. A sua terceira longa metragem, “Po de sangui”[v] surge em 1996, tendo também participado na competição oficial do Festival de Cannes desse mesmo ano, bem como no Festival de Cartago onde recebeu o Tanit de Prata. O filme foi igualmente galardoado com: a Medalha de Mérito Paulino Vieira, M-Net Awards da África do Sul; o Grande Prémio do Festival de Filmes da Família de Créteil na França e o Prémio da Melhor Ficção no Festival do Filme do Ambiente, na França. A última longa-metragem em data de Flora Gomes é o filme “Nha fala”[vi], a primeira comédia musical do cinema africano, realizado em 2002. Convidado a participar no Mercado do Filme do Festival de Cannes, o filme recebeu a Bolsa Francófona de Promoção Internacional, que recompensa as obras de realizadores do Sul.

Tal como os filmes precedentes do realizador, “Nha Fala” foi recompensado em vários outros festivais em que participou. Assim, recebeu os seguintes prémios: Prémio do Júri Melhor Filme e Prémio do Público Melhor Filme do Festival “Caminhos do Cinema Português X” Coimbra 2003; Primeiro Prémio (Comunicação Intercultural) do Festival “Vues d’Afrique” de Montreal (2003); Prémio da cidade de Ouagadougou e Prémio UEMOA no Festival Fespaco Ouagadougou 2003; Grande Prémio Signis Juri 2002 e Prémio d’Amiens Métropole do Festival de Amiens 2002, na França; Prémio “Lanterna Mágica” no Festival de Veneza 2002; Prémio Città di Roma – Arco-Iris Latino no Festival de Veneza 2002. Em 2007, Flora Gomes e a jornalista-realizadora portuguesa Diana Andringa co-realizaram “As duas faces da guerra”[vii], um filme documentário sobre a guerra colonial na Guiné-Bissau e que foi apresentado na 2ª Mostra do Documentário Português que teve lugar de 15 a 24 de Fevereiro de 2008 em Lisboa. 13

Ceniastra Flora Gomes recebendo premio de tanit de prata na Africa de Sul

fonte: http://www.dadinho.org


Cinema iraniano e Islamismo Os diretores Mohsen Makhmalbaf e Jafar Panahi abordam a opressão da mulher islâmica em filmes com tom poético e, ao mesmo tempo, questionador.

O

Irã é um país Islâmico de maioria xiita, religião oficial do Estado. A palavra árabe Islam significa “submissão”. Em sua etmologia também se encontra o significado de paz. Na sociedade Muçulmana, a religião é um código de vida geral que rege todos os campos: o político, o cultural, o financeiro e o social. Os princípios da religião Muçulmana são os mesmos, mas há interpretações diferentes, que originam ramificações, como os xiitas, sunitas, wahabita, surgidas depois da morte do profeta Muhamad. Segundo a tradição muçulmana, o Alcorão são palavras que Deus – Allah – revelou ao profeta Muhamad, por intermédio do anjo Gabriel. Por quatorze séculos, nenhuma palavra do Alcorão foi mudada. Para os muçulmanos, não há separação entre Estado e a Religião, todo o código de vida está baseado no Alcorão. Ele trata de todos os assuntos relacionados aos seres humanos: sabedoria, doutrina, rituais e lei. Mas o seu tema básico é o relacionamento entre Deus e suas criaturas. O Irã viveu sob o regime de Império teocrático até março de 1979, quando um plebiscito aprovou, com 98% dos votos, a implantação da República Islâmica do Irã, e a autoridade suprema se torna Aiatolá Khomeini. Aiatolá é o título que se dá ao penúltimo estágio na hierarquia xiita, o líder máximo espiritual. Neste período pós-revolução, quando acaba o Império, várias facções disputam o poder. De um lado os Aiatolás, que estavam contestes com o regime teocrático e do outro, as forças civis, que lutam por um Estado laico. Aiatolá Khomeini morre em 1989, após ter enfrentado fases turbulentas em seus últimos anos à frente da República, como a crise com os EUA e a guerra contra o Iraque. Depois disso, o Irã foi presidido por Aiatolá Sayyed Ali Khamenei e posteriormente, por Ali Akbar Hachmi Rafsandjani, ambos conservadores. Até que, em 1997, por seu discurso moderado, Sayyed Mo-

fonte: adaptado de mnemocine.com.br

hammad Khatami ganha a eleição. Apesar de ser filho de um famoso aiatolá e usar o turbante preto daqueles que acreditam ser descendentes diretos do profeta Maomé, Khatami sempre representou politicamente uma linha mais progressista, mostrando que é perfeitamente possível conciliar os preceitos humanistas do Islamismo com uma sociedade mais livre. Alguns avanços nesse sentido já ocorriam desde 1992, quando Khatami, então Ministro da Cultura, reduziu a censura literária e criou a Fundação Farabi de Cinema. Ele é considerado o grande impulsionador do cinema iraniano. Com seu apoio, a classe cinematográfica conseguiu aprovar a lei que baixou os impostos sobre os filmes de 15% para 0,5%, permitindo maior retorno para investimentos nas produções. Mesmo assim, a censura é rígida no Irã. Há quatro estágios no controle dos projetos de filmes iranianos. Primeiro, o roteiro deve ser aprovado por um conselho, devendo estar de acordo com os preceitos morais islâmicos; segundo, a lista dos técnicos e dos atores deve ser aprovada. Estes últimos, na maioria das vezes, são parentes dos próprios diretores, ou pessoas que viveram realmente a situação que originou a ideia do roteiro. Terceiro, o filme já pronto é mandado ao Conselho de Censura do Governo, o qual aprova, exige mudanças para liberação ou proíbe totalmente. Se aprovado, o quarto estágio é a permissão de exibição, com a avaliação de A, B ou C, que determina o acesso à mídia, com a definição de comercialização para a tevê. A sétima arte chegou ao Irã em 1900, cinco anos depois do seu nascimento. Neste ano, Mirza Ebrahim Khan Akkas Bashi, fotógrafo oficial da corte do xá Mozzafar al-Din, considerado como o primeiro realizador iraniano, acompanhou uma visita do xá à Europa. Em Paris, Akkas Bashi comprou uma câmara que utilizou para filmar a visita do seu soberano à Bélgica. Data de 1905 a primeira sala de cinema no Irã, na cidade de Teerã.

15


A caminho de Kandahar Filme: , Mohsen Makhmalbaf, Irã/França, 2001

A

Caminho de Kandahar (Safar É Ghandehar, Irã/ França, 2001), do cineasta iraniano Mohsen Makhmalbaf, narra a peregrinação de Nafas (Niloufar Pazira), uma jornalista radicada no Canadá que empreende uma viagem desesperada até a cidade afegã (quartel-general da milícia Talibã). O motivo de sua jornada é impedir o suicídio da irmã, que já não tem vontade de viver sob a opressão da burca. Coberta também ela da cabeça aos pés, Nafas é conduzida através do deserto por qualquer um que se dispusesse a ajudá-la: uma família de refugiados que é roubada por milicianos; um garoto expulso da escola corânica; um negro americano que faz as vezes de médico num vilarejo e um homem mutilado por uma mina. Em pouco mais de uma hora, o diretor consegue algo que, desde os atentados de 11 de setembro, transformou-se em artigo valioso: um retrato da vida como ela realmente é, no Afeganistão do Talibã. Lançado com pouco alarde no Festival de Cannes, o filme tornou-se um título disputado pelos distribuidores internacionais. A Caminho de Kandahar tem valores que ultrapassam o caráter meramente documental. O cenário de miséria que ele revela é tanto mais marcante porque Makhmalbaf, um expoente do cinema de seu país, consegue infundi-lo com uma espécie de poesia da desesperança – como na cena, bela e horrível, em que a câmara registra os rostos de um grupo de mutilados que correm com suas muletas e próteses toscas em direção a um helicóptero da Cruz Vermelha.

Fiel à tradição iraniana, o diretor empregou quase que só amadores, no elenco. São, na maioria, refugiados afegãos que vivem na fronteira com o Irã (onde o filme foi rodado) e conhecem na pele o drama que interpretam. A protagonista é mesmo uma jornalista que mora no Canadá. Há algum tempo, Niloufar pediu a Makhmalbaf ajuda para entrar no Afeganistão e retirar de lá uma amiga. O diretor não pôde atendê-la na ocasião. Mais tarde, sugeriu que filmassem uma versão ficcionalizada da história. Makhmalbaf, contudo, diz que ela é incompleta. “Se eu mostrasse toda a tristeza que vi, ninguém acreditaria.” (adaptado de Veja On-Line)

O balão branco Filme: Badkonake Sefid, Jafar Panahi, Irã, 1995

Este é sem dúvida um dos filmes mais interessantes da década de 90. Uma verdadeira aula de direção do iraniano Jafar Panahi, que consegue nos manter completamente tensos ao contar uma história incrivelmente simples. Tudo começa quando a pequena Razieh (a adorável Aida Mohammadkhani) se interessa em comprar um peixinho colorido gordo e bonito que viu em uma loja, pois já estava cansada dos peixes magros que tinha aos montes em um pequeno lago em casa. Sua mãe inicialmente se recusa a fornecer o dinheiro para satisfazer seu desejo, porém após muitas lamúrias e a promessa de dar um balão branco a seu irmão, a menina consegue a tão desejada cédula. Mas o caminho até a loja se provará uma intensa aventura. A decisão de situar a trama em tempo real, durante os oitenta minutos restantes para o ano novo, acrescenta um nível de tensão crescente. Em pouco tempo, nós realmente nos envolvemos com as agruras da menina e nos angustiamos a cada novo obstáculo que se apresenta. O diretor demonstra um incrível senso de ritmo, inserindo com inteligência cenas de sutil humor, como uma logo no início onde vemos a mãe andando por uma conturbada rua e pedindo a um vendedor de balões que a informe sobre algo, quando lhe são indicadas duas direções diferentes, ou quando um jovem soldado tenta fazer amizade com a menina, que de início se amedronta. Nestes pequenos momentos, Panahi nos apresenta o cenário e seus componentes, que de início passam como meros figurantes, porém cada qual em sua própria e

fascinante aventura. Ao longo do caminho, todos se mostram extremamente funcionais na narrativa. A câmera foca Razieh e seu irmão; porém, ao final, acabará se atendo ao jovem vendedor de balões afegão, que, assim como todos no filme, possui enorme importância. A câmera poderia se desviar dos protagonistas e seguir qualquer personagem , garantindo ótimas histórias a serem contadas! (cinema.com.br, com adaptações)

17


Poster de Ju-on, versão original do famosos “O Grito”

Terror oriental: inspiração para Hollywood Adapatações de filmes provenientes, principalmente, do Japão, são cada vez mais comuns. Apesar disso, os originais ainda são desconhecidos pela maioria do grande público.

O

chamado, O Grito, O olho do mal e Água Negra. Quem gosta de cinema e, em especial, de terror, muito provavelmente já ouviu falar de todos estes filmes. Mas, e quanto a Ringu, Ju-On, Gin Gwai e Honogurai mizu no soko kara? Se jamais ouviu falar nesses nomes estranhos, não se preocupe, pois você não está sozinho, afinal, eles realmente são desconhecidos por grande parte do público. Uma pena, já que os quatro famosos filmes hollywoodianos citados no início são os remakes americanos para essas fitas orientais de nome esquisito que você acabou de ler. Desses 4 filmes, apenas Gin Gwai, produzido em Hong Kong, não vem de terras nipônicas, mas as referências e o estilo são muito semelhantes.O cinema de horror japonês utiliza diversos aspectos da cultura popular nipônica, se valendo, normalmente, de fantasmas, poltergeists e espíritos para criar um clima de tensão único e envolvente que deixa o espectador amedrontado. As origens do terror japonês datam do Período Meiji e do Período Edo, no qual os contos conhecidos como kaidan (história de fantasma) ganharam popularidade. Esse nome vem de uma brincadeira conhecida como Hyakumonogatari Kaidankai, cujo objetivo era entrar numa sala com várias pessoas e contar uma história de terror supostamente real. Ao contrário do terror norte-americano, famoso

por filmes recheados de sangue, monstros, gritos e assassinos em série, o terror oriental tem como característica marcante o uso do terror psicológico, no qual o medo é gerado a partir da vulnerabilidade da mente humana a alguma sensação desconfortável psicologicamente. Esse é um dos principais fatores responsáveis pelo crescimento do horror nipônico, já que a fórmula de Hollywood passou a ficar repetitiva e a alternativa encontrada foi a adaptação e refilmagem das obras originais, tornando-as mais acessíveis ao público ocidental através de pequenas alterações. Entre os diretores, quem se destaca é Hideo Tanaka. Nascido em 1961, o japonês foi responsável pela direção de grande parte dos filmes de horror do Japão, entre eles os já citados Ringu e Honogurai mizu no soko kara. Sua notoriedade fez com que fosse convidado para ser o diretor de O Chamado 2, versão norte-americana do segundo filme da série Ringu, que já contava com sua direção na versão original. A qualidade do cinema oriental se reflete no número de adaptações feitas pelo cinema norte-americano. Além destes 4 filmes, muitos outros já foram adaptados e obtiveram sucesso de público. A questão agora é fazer os filmes originais se tornarem mais populares por todo o planeta, uma tarefa difíil, já que os espectadores mais casuais podem estranhar a temática e o estilo utilizados na produção dos filmes.

19


A seguir, as informações principais sobre cada original e o seu respectivo remake.

O Original Ju-On Ano de lançamento : 2002 Diretor: Takashi Shimizu Atores principais: Yūrei Yanagi, Misaki Itô e Misa Uehara

O Original Gin Gwai Ano de lançamento: 2002 Diretor: Oxide Pang Chun e Danny Pang Atores principais: Angelica Lee, Chutcha Rujinanon e Lawrence Chou

O Remake O Grito (The Grudge) Ano de lançamento : 2004 Diretor: Takashi Shimizu Atores principais: Sarah Michelle Gellar, Jason Behr, Clea DuVall

O Remake O olho do mal (The Eye) Ano de lançamento: 2008 Diretor: David Moreau, Xavier Palud Atores principais: Jessica Alba, Alessandro Nivola e Parker Posey

O Original Ringu Ano de lançamento: 1998 Diretor: Hideo Tanaka Atores principais: Nanako Matsushima, Miki Nakatani e Yûko Takeuchi

O Original Honogurai mizu no soko kara Ano de lançamento: 2002 Diretor: Hideo Tanaka Atores principais: Hitomi Kuroki, Rio Kanno, Mirei Oguchi

O Remake O Chamado (The Ring) Ano de lançamento: 2003 Diretor: Gore Verbinski Atores principais: Naomi Watts, Martin Henderson, Brian Cox

O Remake Dark Water Ano de lançamento: 2005 Diretor: Walter Salles Atores principais: Jennifer Connelly, John C. Reilly, Ariel Gade

21


Pather Panchali, prêmio de Melhor Documento Humano no Festival de Cannes em 1953

De Lumiére a Bollywood

Conheça a trajetória do cinema na Índia

Atualmente a indústria cinematográfica indiana é, surpreendentemente, a mais expressiva do Planeta no que se refere à comercialização de ingressos, que estão entre os menos dispendiosos, e ao volume de películas elaboradas. Um grande número de pessoas frequenta os cinemas no subcontinente indiano.

cenário pós-Primeira Guerra Mundial. Foram instituídos locais de exibição das películas, enquanto os cinemas itinerantes também conquistavam seu espaço. O primeiro filme indiano de longa-metragem foi Pundalik, de N. G. Chitre

Os indianos foram apresentados à técnica cinematográfica no dia 7 de julho de 1896, através da exibição de algumas películas dos irmãos Lumiére, no Hotel Watson, na cidade de Bombain, hoje conhecida como Mumbai. Neste mesmo ano uma empresa da Índia, a Madras Photography Store, assumiu a publicidade deste gênero artístico. As apresentações de cinema no território indiano tiveram início em 1897, com mostras de filmes organizadas pelo Clifton and Co.’s Meadows Street Photography Studio. O primeiro filme documental realizado na Índia foi produzido por Harischandra Sakharam Bhatavdekar, mais conhecido como Save Dada, em 1897 – registrou um episódio de luta livre, organizado nos Hanging Gardens, em Bombaim. Ele também foi pioneiro na realização de filmes do gênero noticioso. Quanto às produções comerciais, algumas tentativas já foram promovidas neste período, com empreendimentos como os de F. B. Thanewala e J. F. Madan, que fundou a Madan Theatres Limited, maior estúdio produtor e negociante de filmes norte-americanos no

Save Dada, autor do primeiro filme documental realizado na Índia

23


e Dadasaheb Torne, lançado em 1912. Dadasaheb Phalke torna-se um grande nome do cinema indiano com a produção Raja Harishchandra, permanecendo célebre até o nascimento do cinema falado, sempre na defesa da abordagem de assuntos especificamente indianos nas telas cinematográficas. Na década de 20 o volume de filmes produzidos na Índia já é significativo. Nos anos 30 emergem novos estúdios e uma safra mais recente de cineastas.

e dança, utilizando o recurso que se tornaria tradicional neste país, o do playback, através do qual um cantor original cantava no estúdio,

menn, e outros do gênero. Os anos 70 se inspiraram mais na cultura oriental, ao mesmo tempo em que o foco nas questões sociais perdeu espaço para a produção de massa, mais direcionada para o entretenimento. Geralmente estes filmes enfocavam o tradicional conflito entre o bem e o mal, mesclando esse ancestral dilema a boas doses de dramas melosos. Os enredos eram longos e mal cabiam no convencional modelo de 3 horas de duração. O filme mais famoso desta época foi Sholay, de Ramesh Sippy, que inaugurou a fase comercial do cinema indiano.

A indústria cinematográfica desenvolvida em Mumbai tornou-se célebre por ser naturalmente associada ao explosivo poder de Hollywood, sendo assim conhecida como Bollywood, mescla de Hollywood com Bombay. Ela está ligada estritamente ao cinema produzido no idioma hindu. Esta tendência tem sido alvo de várias críticas e denúncias, pois muitos acreditam que ela profana a tradicional cultura indiana e aborda temas polêmicos, em estilo liberal demais para certas convenções indianas. Algumas de suas idéias, porém, tem sofrido várias modificações, à medida que o próprio paladar cultural do povo indiano se transforma, tornando-se mais exigente.

Poster de Alam Ara (1931), o primeiro filme sonoro indiano

enquanto os participantes do filme apenas simulavam executar as canções.

Dadasaheb Phalke, defensor da abordagem de temas indianos nas telas

Nos anos 50 vários novos talentos emergiram, entre eles o cineasta bengali Satyajit Ray, que conquistou, em 1953, o prêmio de Melhor Documento Humano no Festival de Cannes, entre outras premiações, com a película Pather Panchali. Outros diretores foram também amplamente premiados, constituindo nesta época de ouro um movimento conhecido como o Novo Cinema Indiano.

O primeiro filme sonoro surgiu já em 1931, Alam Ara, de Ardeshir Irani, alcançando grande sucesso. Outras produções surgem na esteira desta guinada no cinema indiano, apresentando muitas falas, músicas e danças. Nesta década o cinema reflete o clima de contestação social então vigente na Índia, enquanto crescem três importantes estúdios cinematográficos neste país: em Bombaim, mais voltado para o mercado nacional; em Madras e em Calcutá, célebres por suas criações regionais. Do início dos anos 40 ao fim da década de 50 o cinema da Índia viveu seus momentos mais marcantes, impressos na memória histórica da cultura indiana. As produções normalmente apresentavam cenas eletrizantes de música fonte: Ana Lucia Santana (com adaptações)

25 Temática social presente em Do Bhiga Zameen Exemplos de cartazes de Bollywood

Sholay, de Ramesh Sippy, iniciou a fase comercial do cinema indiano

Satyajit Ray, diretor de Pather Panchali

Na década de 60 tanto o cinema mais conceitual quanto o popular abordaram principalmente a temática social, com filmes como Do Bheega Za-

Na década de 80 o cinema de entretenimento conquistou um significado maior, uma tendência para o realismo, com o enredo mais voltado para os problemas enfrentados pela classe média. Uma nova onda de ídolos apareceu neste momento. Nos anos 90 o cinema se vê mais subordinado ao mercado publicitário. Cresce o número de musicais indianos e também dos filmes de ação. Novos cineastas iniciam uma transformação no seio do cinema indiano. Há uma maior preocupação com a maneira como as narrativas são elaboradas.


27


Kino  

A revista dedicada ao cinema alternativo

Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you