Revista +Cinemas #4

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ANO 4

*±+CINEMAS

CINEMA NO BRASIL_ _ALEM DA GLOBO FILMES

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Por um cinema além da Globo Filmes por Maiana Brito

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ara além de uma das maiores produtoras e distribuidoras do Cinema e Audiovisual do país, ainda temos um rico e problemático cenário no cinema nacional: alguns filmes vistos em mostras e festivais e muitos outros sem público. Aqui trazemos uma questão com distribuição, mas sabemos que no país há problemas para financiamento, produção e difusão no mercado cinematográfico. A necessidade de afirmação da produção do cinema nacional já vem de muito tempo ou desde sempre. O cinema novo gritou por um cinema de identidade nacional e o cinema marginal por um cinema de gênero político e debochado, entretanto, a janela de difusão e distribuição dos filmes nacionais, em geral, sofre até hoje com o monopólio de filmes estrangeiros que são exibidos nas salas de cinema. No cenário Hegemônico que vai contra a corrente, podemos citar a Globo Filmes, empresa que detêm o suporte da maior empresa de comunicação do país que é a Rede Globo de televisão, os filmes produzidos por eles passam por divulgação em seus programas, e possuem atores e atrizes que fazem parte de seu casting. As chances de grande público e distribuição nas salas de cinema do país geralmente são garantidas. Cabe aqui questionar o monopólio existente, mas também pensar estas obras que são produzidas no esquema hollywoodiano com muita verba e apelo comercial. Filmes de grande público como Cidade de Deus, Tropa de Elite 2, Faroeste Caboclo e o mais recente Que horas ela volta fazem parte do cardápio da distribuidora. Muitas obras do nosso cinema tem ido primeiro para fora do país conquistando prêmios e lugar de difusão, antes mesmo de serem lançadas em território nacional. Nesta edição a revista +Cinemas traz algumas sugestões fílmicas que não foram distribuídas e nem produzidas pela Globo filmes. De maneira política e reflexiva a proposta é discutir e pensar o cinema nacional no que tange as possibilidades de visibilidade, curiosidade e questionamento sobre o que podemos assistir VS o que nos resta assistir.

Revista +Cinemas Realização: PETCinema Coordenação: Rita Lima Textos: Caíque Guimarães, Clarissa Brandão Evanize Essi, Maiana Brito, Rafael Rauedys e Tiago Araújo

Revisão: Tiago Araújo Ilustração da capa: Fefa Yanevisk Fotos: Divulgação Diagramação: Rafael Rauedys Supervisão de diagramação: Edelsio Lima Apoio: UFRB - CAHL, Cinema e Audiovisual


Índice Os 3

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Ai que vida!

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BRASIL S/A

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Carreiras

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O céu de Suely

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O menino e o mundo

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Os 3

por Evanize Essi

F ilme de estreia de Nando Olival, diretor da O2 Filmes, Os

3 (2011) foi produzido de forma independente e sem patrocínio sob o selo Cinema Sport Clube. A produção foi concebida pelo diretor como uma forma urgente de voltar a se dedicar ao cinema, cenário o qual estava afastado desde a co-produção de Domésticas (2001).

Rodado entre setembro e outubro de 2009 e finalizado em novembro do mesmo ano, foi lançado em 2011 devido à agenda da Warner, que entrou posteriormente como distribuidora do filme.

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O filme é protagonizado por Rafael (Victor Mendes), Camila (Juliana Schalch) e Cazé (Gabriel Godoy), três estudantes que se conhecem numa festa e passam a morar juntos, compartilham a


vida durante os quatro anos de faculdade ligados por um forte vínculo de amizade que é abalado pelo romance entre Camila e Cazé, quebrando a regra que os mantinham unidos. Poderia ser mais um filme sobre um triângulo amoroso entre jovens salvo pelo contexto em que ele se dá no roteiro assinado por Olival e Thiago Dottori (VIP’s, 2011) - a proposta que os jovens recebem de implementar e protagonizar o seu trabalho de conclusão de curso: transformar o apartamento onde vivem num palco para um reality show, no qual tudo o que eles usam pode ser comprado pela internet em tempo real. Encarando como a última oportunidade de permanecerem mais um tempo juntos, aceitam publicitar sua privacidade. A realidade vivida por eles é a comum e rotineira, até que para se tornar interessante e vendável, passam a viver uma ficção construída por eles e pelos patrocinadores. Num dado momento já não há muita distinção do que é e o que não é real para os personagens. Os sentimentos verdadeiros afloram diante das ações premeditadas, fruto do relacionamento intenso vivido por eles o qual amor, amizade, paixão e tesão não se dissociam. É o que se ilustra na introdução do filme, com o uso da palavra e a plasticidade da imagem e toma forma narrativa ao longo da trama.

A situação vivida sob as câmeras proporciona a crítica ao mercado consumidor em torno da mídia e a manipulação dos agentes em prol do efeito de impacto no expectador. É o princípio do reality show, onde os personagens são instruídos a “encenar a realidade” de acordo com o que o público quer ver, para então venderem mais produtos, venderem sua imagem. A metalinguagem se apresenta como uma estratégia de revelar o comportamento violado diante das câmeras, como essa manipulação acontece e por quais meios ela se dá, revela que tudo está à venda, principalmente o que se vê. A montagem de Daniel Rezende (Cidade de Deus, 2002) modela o ritmo do filme de acordo com o pensamento lógico e emocional de Rafael, narrador da trama, com a rápida passagem pelos quatro anos de convivência dos três, em uma visão nostálgica apresentada pelos flashes de memória até o presente fluido que se alterna com as imagens captadas pelas câmeras de vigilância. A imagem é o mais atraente do filme, tanto pelo valor estético com a bela fotografia de Ricardo Della Rosa (O homem do futuro, 2011), quanto pelo valor simbólico da representação dos três enquanto real e fictício.

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Ai que vida!

por Tiago Araújo

A i que vida (2007) é provavelmente o fenômeno mais curioso

do cinema independente brasileiro na última década, diferentemente dos longas metragens feitos com grandes orçamentos e focados em atuações com nomes conhecidos,

o filme de Cícero Filho atua em um segmento órfão dentro do cinema brasileiro contemporâneo: o cinema popular, que durante seus anos de gloria com os filmes descompromissados e divertidos de Mazzaropi conseguia

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chegar e sensibilizar camadas sociais que não eram predominantemente o circuito foco e consumidor do cinema Brasileiro, a classe média. A produção Piauiense realizada com 30


mil reais, valor extremamente baixo em relação aos orçamentos milionários que imperam na indústria atual, foi filmado e interpretado por técnicos e atores que nunca atuaram no setor antes, mas utilizou o que havia de mais moderno em audiovisual no estado. O diretor, na sua vigésima quarta produção e segundo longa-metragem, acumulou diversas funções, distribuiu pessoalmente o filme nos cinemas e gravou 300 cópias originais do filme da produção que acabou sendo recopiadas e distribuídas em barracas de camelô por todo o norte/nordeste onde o filme se tornou bastante popular através do boca a boca. Política, ética, corrupção e família são os principais temas abordados no longa metragem que retrata a realidade de muitas cidades do interior do Brasil, principalmente do nordeste. No filme os valores sociais são debatidos na fictícia cidade de Poço fundo, na década de 90 onde o prefeito Zé Leitão, candidato à reeleição está fazendo um verdadeiro caos na administração pública da cidade, onde a população iludida por promessas e programas sociais não consegue enxergar a face corrupta do prefeito que mantem a postura do coronelismo que fez e faz parte da história política do Brasil, no entanto uma popular, revoltado com os impropérios do político começa uma revolução em

busca de acordar a população local para os diversos problemas sociais e morais presentes na cidade e no seu representante. Com uma trama simples, aspectos técnicos questionáveis e atuações exageradas e caricatas, é impressionante a popularidade e representatividade do filme de Cicero Filho, que depois de diversos problemas na distribuição onde o diretor não conseguia vender o filme aos cinemas que achavam a mesma inviável e não comercial, conseguiu estrear uma única cópia no shopping de Teresina, onde na primeira semana alcançou a incrível marca de mais de mil espectadores, ultrapassando filmes consagrados como Harry Potter e a ordem da fênix, blockbuster internacional líder de bilheterias no brasil naquele ano, chegando ao final com mais de cinco mil espectadores e abrindo as portas para o filme em outros estados como o maranhão em que o mesmo teve que ganhar sessões extras. Ai que vida é uma ótima maneira de conferir o que é produzido longe de estúdios consagrados, dos grandes orçamentos e das produções de arte que ainda imperam no nosso cinema independente, é a oportunidade de ver uma obra verdadeiramente com cineastas e imagens do povo.

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BRASIL S/A

por Rafael Rauedys

B rasil S/A (2014) compõe a filmografia de um diretor já

muito conhecido nos circuitos alternativos de cinema e festivais brasileiros: Marcelo Pedroso.

Diretor e roteirista, acumula filmes bem recebidos pela crítica, conhecedores e estudantes da sétima arte. Mais popular por trabalhos que atravessam a questão do dispositivo no documentário (Câmera escura e Pacific), produzido em 2014 mas

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ainda sem data de lançamento, Brasil S/A apresenta uma proposta inovadora sobre sua linha de produção autoral, a ficção e o experimental passam a ser o link que concretizam sua crítica ao Brasil que “tanto cresce”.


Em Brasil S/A parece que nos falta muito ou muito pouco para a estruturação de um grande país, é sobre esse embate e orquestrado pela ausência de ordem que o (des)progresso no filme parece avançar sobre perspectivas históricas, de modo que se implementa um caráter visionário a partir do que viria a ser o contexto contemporâneo do próprio país, ou como sugere o próprio título, a empresa BRASIL. Talvez um dos pontos mais delicados trabalhado dentro do filme seja a performática cena de uma dança experimental entre um trabalhador rural e seu instrumento “rústico” de trabalho. Nesse momento os dois “corpos” parecem não se reconhecer e a dança entre eles sugere um envolvimento ao desconhecido que ao decorrer dos passos vão se tornando íntimos e reconhecíveis, é claramente o espelho do progresso, em que o reflexo inverte a realidade, o progresso em si se apresenta como avassalador e violento, de forma que a tradição se perde sobre os devaneios prioritários dos avanços tecnológicos na construção de um grande país. Contrapondo o crescente desejo de progresso e da realização dele, a crise avança não somente na camada da tradição, mas também na ascensão de ideologias

históricas que pareciam ter sido superadas (em tempos) em prol de um pseudo-bemestar social. O que marca essa passagem no filme é exatamente a apresentação de um ponto de decolagem onde a igreja é um foguete que avança em direção ao céu (a sua ascensão) e logo em seguida nos são apresentadas imagens de manifestações religiosas aparentemente católicas e evangélicas (religiões hegemônicas no país). E porque não citar o caráter visionário que o filme ganha nesse momento quando em quase 20 anos de política e governabilidade “elegemos” a bancada mais conservadora dos últimos tempos? Parece então que o desejo de estruturação de um grande país invoca um cenário caótico social e histórico em diversos aspectos, dessa forma uma das cenas finais do filme surge como a personificação desse mal-estar. Uma grande bandeira do Brasil balança sobre o céu e nela não temos o centro esférico azul com a frase ordem e progresso, é então a partir do feixe de luz do céu que sai desse vazio na bandeira que as pessoas em seu cotidiano são abduzidas para um lugar desconhecido que o filme não nos apresenta, seria então a questão mais profunda a ser feita a partir desse trabalho de Marcelo Pedroso: o ausente progresso e a presente ideia de progresso nos levará a lugar nenhum, ou sendo mais otimista, ao desconhecido?

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Carreiras

por Maiana Brito

D e Domingos de Oliveira, Carreiras (2005) traz uma proposta

para @ espectador@ bem distinta dos filmes convencionais. Quem não conhece as obras do então diretor e dramaturgo irá se deparar com um filme de diálogo,

seja em sua linguagem cinematográfica ou nas ações de seu enredo. Carreiras traz a história de uma jornalista em crise com o sistema de funcionamento do seu local de trabalho,

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uma emissora de televisão e diante de suas frustrações o longa-metragem irá se desenrolar em um turbilhão de emoções que só cresce ao longo do filme. Ana Laura personagem da atriz Priscila Rosenbaum e seu enredo são


uma adaptação do texto teatral Corpo a Corpo do dramaturgo Oduvaldo Vianna Filho (Vianinha), no texto original um monólogo que traz um homem em crise em vez de uma mulher. Em 2004 Domingos estreia a peça Profissão Âncora com a mesma atriz do filme, a sua relação com o teatro e o cinema é praticamente inseparável. Em 2005 ele lança Carreiras com a adaptação do texto agora para as telonas.

ao sistema que a mídia projeta para a imagem e principalmente a imagem da mulher. A carreira de Ana Laura parece estar decaindo, não somente em cima da mesa, mas como uma âncora jogada ao fundo do mar. Ao nos encontrar com esta mulher que deseja e ambiciona o vazio, nos deparamos com sua fragilidade ao lidar com a perda de uma referência feminina no trabalho e o machismo sobre o corpo feminino.

Para quem se interessa por cinema, teatro e televisão este filme traz questionamentos, ações e diálogos sobre o assunto. Em cenas inicias somos surpreendidos com a quebra da quarta parede onde vemos as cenas das gravações e logo após algumas cartelas falando sobre a sua produção independente. Na mesa de bar, amigos conversam sobre a relação teatro VS cinema, o diretor do filme presente na mesa, conversa interpretando um personagem, um diretor de cinema. A metalinguagem neste sentindo se torna um artifício para o filme que lida com a questão teatro e cinema, cinema e televisão entre outras combinações. Ana Laura personagem protagonista nos insere no seu universo rapidamente, passaremos uma noite com ela, uma mulher que aos 40 anos beira a crise da imagem e do orgulho. Entre as carreiras de cocaína e os diálogos vorazes da jornalista, vemos o apelo à reflexão

Sendo um filme de baixo-orçamento Domingos de Oliveira politicamente traz também este questionamento do fazer cinema, com uma equipe reduzida, gravado em uma semana e sem grandes virtuoses técnicas. Esta obra pode ser para um espectador curioso em conhecer mais do cinema nacional, sem medo de encontrar uma estética que não seja plastifica e clean como as das novelas, uma experiência de um cinema independente. A atuação de Priscila Rosembaum é uma aula de interpretação, uma personagem visceral para uma interpretação tão quanto, ganhadora de melhor atriz no festival de Gramado e no festival de Brasília esta dupla faz deste filme uma experiência única e sem falar na presença ilustre do fotógrafo Dib Lutf na equipe.

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O céu de Suely

por Caíque Guimarães

R ifa-me! Este era o título anterior do filme. A protagonista

Hermila decide rifar-se, como saída para mais um das desilusões de sua vida. Com a grana arrecada, a personagem quer tentar uma nova vida,

agora na Região Sul do país. Porém, como o filme não se trata somente de uma rifa, foi intitulado com o nome de O Céu de Suely (2006). Por que assim se tem uma visão mais abrangente do que o diretor

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Karin desejava apresentar. O mundo apresentado aqui é o da personagem Suely, a história é a dela, é o seu céu que está sobre nossas vistas, é o céu de Suely.


Como na parábola do filho pródigo, “Um bom filho a casa retorna”. Mesmo que, nem sempre se tenha um pai, como na história bíblica para lhe abrigar novamente, e lhe dar de tudo. O filho aqui é Hermila, que depois do fracasso em São Paulo, volta para Iguatu, no sertão do Ceará. Agora, presa naquela cidade que nada lhe oferece, sua única saída é propor “uma noite no paraíso” com ela. Essa decisão, de agir como prostituta apenas uma vez, já expõe uma das grandes questões do filme, a mulher como objeto. Mas aqui, não se tem outras pessoas a impulsionando para isso, é uma opção da própria protagonista como mulher e dona de si. Não sendo reduzida a uma vítima. O filme tenta ser o mais natural possível aos olhos dos espectadores, fugindo da representação estilizada, construindo a naturalidade em cada cena. O Próprio nome dos atores é usado nos personagens, a não ser pela protagonista, Hermila Guedes, que posteriormente, tem seu nome trocado na narrativa por Suely. Essa questão ator/personagem é muito importante para o filme, à construção dele se dá aí. Vemos na própria narrativa, onde Suely é uma personagem criada por Hermila, que com seu novo nome, parece testar outras possibilidades pessoais, para seu sucesso, como se tivesse tornado uma nova pessoa, embora tenha apenas

mudado seu nome após seu regresso ao Nordeste. Por sua vez, tanto Hermila, quanto Suely, é uma construção da atriz Hermila Guedes, que procura em si algo da moça que sem sucesso volta para Iguatu, no Ceará. A intenção do filme é também de tratar do quadro social e político do país em que vivemos. A ficção representa algo além do que imediatamente vemos na tela. É o que o crítico de cinema José Carlos Avellar vai chamar de “Fora de quadro”. No sentido de que a história do filme é a história de muitas Hermilas que vão tentar a vida nos grandes polos industriais da região sul e sudeste, mas que muitas vezes precisam retornar as suas cidades natal. Quantas Hermilas existem por aí? Quantas delas não foram abandonadas por seus companheiros? E quantas não deixaram seus filhos com parentes para começar uma nova vida em cidades mais desenvolvidas? Fora do quadro, fora da tela, temos milhares de histórias parecidas ou iguais a da protagonista. Uma história micro, mas ao mesmo tempo macro, se pensada fora do contexto fílmico. O Céu de Suely é um filme sutil, realista e que fala principalmente das mulheres. A história se passa na verdade entre elas, expondo seu lado sensível mas acima de tudo guerreiro.

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O menino e o mundo

por Clarissa Brandão

A produção de longas metragens de animação do país vem

crescendo nos últimos anos, entre 2014 e 2015 mais de cinco filmes de animação participaram de festivais nacionais e internacionais, além de alguns entrarem em cartaz nos cinemas do Brasil.

Esse formato de produção vem ganhando força desde os anos 2000, com o advento do digital e os programas de leis de incentivo que se intensificaram nessa época. As animações nacionais tem em

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sua maioria um traço mais autoral, o que faz com que elas se destaquem das demais produções que rodam o mercado de filmes 2D e 3D, diferente do enfoque dessas produções, preocupadas em


sua maioria, a trabalhar com o 3D de forma mais realista, as animações aqui produzidas, tem uma maior preocupação com a linguagem. O diretor e animador Alê Abreu fez alguns curtas metragens de animação, como o Espantalho de 1997 e trabalhou com publicidade e televisão durante um tempo, em 2007 lançou seu primeiro longa-metragem de animação, “Garoto Cósmico”, filme que narra a trajetória de três amigos que vivem em uma sociedade futurista totalmente controlada. Em O Menino e o Mundo (2013), o cineasta conta a história de um garoto que viu o pai partir para a cidade grande em busca de trabalho. Os filmes de Abreu trazem sempre uma reflexão do cotidiano atual da sociedade, de maneira colorida e melancólica ao mesmo tempo. O Menino e o Mundo estreou nos cinemas brasileiros no início de 2014, após rodar por festivais no Brasil e no exterior obtendo vários prêmios. O projeto do longa foi selecionado pelo programa Petrobrás Cultural e BNDS, produzido pela Filme de Papel com parceria com a Espaço Filme. Alê Abreu além da direção assina o roteiro do filme e a coordenação do projeto de animação. As técnicas de animação utilizadas pela obra são essenciais para a construção do discurso fílmico, além da animação

2D em determinadas sequências podese observar o uso de colagem e em uma sequência que retrata a degradação da natureza pelo homem, uma folha de papel pega fogo e vemos cenas reais de desmatamento, queimadas e rastros de todo o tipo de destruição provocadas pela sociedade. De maneira lúdica o filme conta a trajetória deste menino, que vive no campo com os pais e que por falta de prosperidade no mesmo, se lança em um trem rumo à cidade. Simultaneamente acompanhamos a trajetória de pai e filho neste lugar onde todos trabalham para manter o sistema e pouco usufrui o que produz. Em uma das sequências mais belas do filme a voz de jovens que vivem nessa cidade, representadas por um grande pássaro colorido é derrotada por um enorme pássaro negro, o símbolo da repressão dentro da narrativa. O menino retorna para a casa, já adulto - teve a vida igual à de seu pai – assim como todos que se lançaram no trem e que vivem em favelas nas grandes cidades para suprir os anseios da elite. Sua antiga casa está em ruínas, um fio de esperança apresenta-se em forma de bolas coloridas, extraídas de cantos de crianças que ali passam, dando origem a um novo pássaro colorido.

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