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MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO SECRETARIA DE EDUCAÇÃO PROFISSIONAL E TECNOLÓGICA INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA DE SANTA CATARINA CAMPUS FLORIANÓPOLIS

A influência do fanatismo futebolístico na percepção das cores dos produtos The influence of soccer fanaticism in the color perception of products

Palavras-Chave:design, semiótica, fanatismo. Este artigo se propõe a analisar a percepção das cores dos produtos pelo ponto de vista de torcedores futebolísticos fanáticos. Apesar de introdutória, a discussão levantada propõe uma reflexão construtiva acerca da percepção visual dos produtos sob uma perspectiva semiótica. Para tanto, fundamenta-se em aspectos perceptivos, semióticos e relacionados ao fanatismo futebolístico. Key-words: design, semiotic, fanaticism. This article aims to examine the perception of the colors of the products by view of fanatical soccer fans. Although introductory, the discussion raised proposes a constructive discussion about the visual perception of products from a semiotic perspective. Thus, is based on perceptual features, and related to the semiotic soccer fanaticism.

1 - Introdução O campo perceptivo humano está intimamente ligado às sensações e aos sentidos e à configuração com a qual as coisas que se manifestam ao nosso redor. De acordo

com Flusser (2004, p.78), "somos capazes de criar percepções, sentimentos, desejos, e pensamentos distintos alternativos".

Av. Mauro Ramos, 950 – Centro 88020-300 – Florianópolis/SC Fone: (48) 3221-0500 http://si.florianopolis.ifsc.edu.br


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Em se tratando de um objeto, a leitura visual dá-se a partir de aspectos perspectivos como: unidade, segregação, unificação, fechamento e continuidade (GOMES FILHO, 2004). Além disso, os estímulos a que somos provocados pelos objetos se manifestam por meio de características como harmonia, contraste e cor. Os aspectos físicos que percebemos, entretanto, dependem de dados psicológicos individuais para que sejam percebidos. A cor, por exemplo, "não tem existência material: é apenas sensação produzida por certas organizações nervosas sob ação da luz." (PEDROSA, 2002, p.17) No universo esportivo, especialmente futebolístico, os aspectos psicológicos na percepção das cores exercem um papel ainda mais relevante, uma vez que as relações individuais estabelecidas na visualização de determinada cor recebem, em muitos casos, influências sentimentais relacionadas às cores-símbolos dos times. Suspeita-se, nesse contexto, que os produtos sofrem alteração de significado a partir de relações cromáticas estabelecidas pelos torcedores fanáticos - positivas e negativas - devendo ser, por isso, levadas em consideração no desenvolvimento de produtos. Diante do mencionado, estabelece-se como problema da presente reflexão a não consciente e comprometida compreensão da influência do fanatismo futebolístico na percepção dos produtos. Este artigo objetiva oferecer, portanto, uma contribuição para o alcance de conclusões fundamentadas acerca da percepção visual dos produtos no âmbito do design por uma perspectiva fanática.

2 - Embasamento Teórico Para a proposição de uma reflexão pautada em uma discussão fundamentada, apresenta-se alguma base acerca da percepção visual, do fanatismo futebolístico e da perspectiva semiótica dos produtos.

2.1- A percepção visual A percepção visual sofre influências do meio externo e das associações individuais que estabelecemos. Segundo o médico e físico alemão Hermann von Helmholtz (1821-1894), nossa percepção é construída por meio de inferências que inconscientemente fazemos sobre o mundo à nossa volta. Essas inferências são contrastadas com informações que o organismo colhe do ambiente. Cada vez que essas expectativas não são correspondidas, ajustamos nossos perceptos, criando novas inferências e testando novas conjecturas. (BALDO; HADDAD, 2003, p.7)

Conforme Arnheim (2002) não há como negar que as cores carreguem intensa expressividade. O autor explica ainda que não se sabe ao certo todas as relações que as cores causam na mente humana, por outro lado acredita-se que grande parte dessa expressividade seja baseada na associação tal qual a percepção explicitada por Hermann von Helmholtz (1821 - 1894). 2.2 - A Perspetiva semiótica dos produtos No âmbito do design, a semiótica tem por objetivo, além de tornar explícito o potencial comunicativo dos produtos, explorar os efeitos produzidos no receptor/usuário. (SANTAELLA, 2005). A sua aplicação pode se manifestar a partir de uma análise crítica pautada nos seus pontos de vista fundamentais (qualitativo-icônico, singular-indicativo e convencionalAv. Mauro Ramos, 950 – Centro 88020-300 – Florianópolis/SC Fone: (48) 3221-0500 http://si.florianopolis.ifsc.edu.br


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simbólico). A perspectiva semiótica pode ser compreendida, ainda, por meio de modalidades de apreensão de fenômenos: primeiridade, secundidade e terceiridade. Ainda com base em Lucia Santaella (2005), pode-se dizer que da perspectiva qualitativa-icônica são observadas as qualidades físicas - tais como cores, linhas, volume, dimensão, textura, luminosidade, composição, forma - e as caracterísitcas abstratas - leveza, sofisticação, fragilidade, pureza, severidade, elegância, delicadeza, força, monotonia, entre outras. Do ponto de vista singular-indicativo tem-se a relação com o contexto em o produto está inseirdo (ambiente de uso) e a relação com as funções que desempenha (finalidades a que se presta). Em se tratando da perspectiva semiótica convencional-simbólica, de um modo geral, são analisados os padrões do design e padrões de gosto (valores culturais), o poder representativo do produto (status) e o tipo de usuário/consumidor a que o produto se destina (significados e valores percebidos pelo usuário). A análise de um produto pode, portanto, ser discutida a partir do produto (pontos de vista semióticos) e a partir de uma perspectiva momentânea de um receptor (modalidades de apreensão). 2.3 - O fanatismo futebolístico No livro "As faces do fanatismo", apresenta-se como conceito de fanático "pessoas que seriam partidárias extremistas, exaltadas e acríticas de uma causa religiosa ou política." Por tratar-se de pessoas que costumam ter um culto extremo, "o grande perigo do fanático consiste na certeza absoluta e incontestável que ele tem a respeito de suas verdades." (PINSKY, 2004). Dessa

forma, o termo fanático pode se referir a vários campos de estudo, estabelecendo conexões relevantes entre eles. Leonardo Gonçalves de Alvarenga (2007, p.3) correlaciona o futebol à religião afirmando que são coisas distintas mas que freqüentemente o futebol "provoca um sentimento tão ou mais profundo que a religião e, tal como esta, é uma parte do tecido comunitário, um repositório de tradições. Mais do que um esporte, o futebol é um modo de vida; abrange questões complexas que ultrapassam a arte do jogo." Segundo Alvarenga (2007, p.4) uma tentativa comum por parte dos fanáticos é a de usar o proselitismo, ou seja, tentar convencer aos outros de que seu time é o melhor. O mesmo autor afirma que quando o interlocutor alcança o seu objetivo é "uma verdadeira festa, mas do outro lado, torcedor que vira a casaca é considerado um traidor, 'vira casaca', não é digno de confiança." Outra forma de fanatismo explicitada pelo referido autor é o sentimento "pós-jogo". A vitória do time é a certeza de que seus dias seguintes serão de paz e sossego, livre de qualquer ameaça; mas essa sensação pode durar pouco, talvez, somente até a rodada seguinte do campeonato que, se acompanhada de derrota o sentimento transforma-se em intranquilidade e desespero. De toda forma Alvarenga (2007, p.4) explica que esse sentimento jamais será um apostata, na alegria ou na tristeza "uma vez flamengo, sempre flamengo". 3 – Análise e discussão De uma perspectiva semiótica, as cores apresentadas pelos produto são analisadas sob o ponto de vista qualitativoAv. Mauro Ramos, 950 – Centro 88020-300 – Florianópolis/SC Fone: (48) 3221-0500 http://si.florianopolis.ifsc.edu.br


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icônico, por tratar-se da qualidade da matéria que são feitos. Para Santaella (2005), essas qualidades visíveis sugerem características abstratas e são responsáveis pelas associações de idéias que a primeira impressão desperta. Essa modalidade de apreensão - primeiridade - por sua vez, refere-se à qualidade do sentimento, à primeira impressão que se tem de determinado produto. A cor de um produto é percebida, portanto, em primeiridade, a partir de um sentimento (como surpresa, admiração) relacionado à sua qualidade física, visível. Durante o processo de apreensão do fenômeno da percepção da cor, são sugeridas por essa característica física, de maneira incontrolável, associações de idéias despertadas pelo alcance da primeira impressão. Dessa forma, em secundidade, estabelecem-se conexões com a realidade, lembranças. Trata-se da reação do sentimento de primeiridade por estímulos como as "verdades" de um culto de que se é partidário. Aponta-se ser nesse estágio da percepção, portanto, que o fanatismo se manifesta e pode alterar a síntese intelectual por meio da qual interpretamos o mundo. Assim, quando as conexões mais próximas do racional são alcançadas, em nível de terceiridade, a percepção dos produtos já teria sido influenciada, de forma consciente ou não. No futebol, considera-se a cor como uma das características físicas de maior relevância uma vez que é capaz de identificar e representar os times. Mesmo em um cenário de produtos distinto do universo de artefatos dessa modalidade esportiva, as conexões fanáticas são estabelecidas e distorcem a percepção aparentemente dissociada desse

contexto. Pode-se dizer, com isso, que do ponto de vista fanático o fenômeno de apreensão apresenta-se diretamente correlato com o objeto cultuado pelo fanatismo e que, portanto, a interpretação dos produtos pelos fanáticos futebolísticos encontra-se indissociada das cores-símbolo dos times que adoram ou odeiam. Diante do discutido, percebe-se ainda que essa indissociabilidade ultrapassa o limite sentimentais ao se consolidar no nível de secundidade e influenciar a reflexão racional. 4 - Considerações Finais Embora existam muitos estudos científicos acerca do universo futebolístico, no âmbito do Design essas discussões ainda se apresentam incipientes. O potencial analítico desse universo, principalmente no cenário brasileiro, entretanto, pode ser percebido pela relevância social e cultural que o futebol destaca no nosso país. Nesse sentido, este artigo se configurou com apenas uma breve análise de um dos aspectos correlatos ao design de produtos, dando foco na percepção das cores pelos fanáticos. Os torcedores, bem como os outros personagens desse universo, se agrupam e se dissociam por características passíveis de análises de correlações. A discussão levantada neste trabalho provoca uma reflexão voltada para a compreensão da necessidade de se considerar a percepção fanático no processo de desenvolvimento de produtos. Não se pretendeu, contudo, esgotar as possibilidades analíticas da percepção das cores pelos torcedores fanáticos; buscou-se suscitar discussões semióticas no sentido de contribuir para a expansão dos horizontes críticos do Av. Mauro Ramos, 950 – Centro 88020-300 – Florianópolis/SC Fone: (48) 3221-0500 http://si.florianopolis.ifsc.edu.br


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Design. GOMES FILHO, João. Gestalt do Objeto: sistema de leitura visual da forma. São Paulo: Escrituras Editora, 2000. Referências ALVARENGA, Leonardo Gonçalves de. FutBaal: A relação entre futebol e religião. Disponível em: <http://www.metodista.br/ppc/correlatio/corre latio12/fut-baal-2013-a-relacao-entre-futebole-religiao/>. Acesso em: <06/07/2009>. ARNHEIM, Rudolf. Arte e Percepção Visual: uma psicologia da visão criadora. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2002. BALDO, Marcus Vinícius C; HADDAD, Hamilton. Ilusões: o olho mágico da percepção. Revista Brasileira de Psiquiatria, São Paulo, v.25, sup.ll, p.6-10, dez. 2003. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rbp/v25s2/a03v25s 2.pdf>. Acesso em: <06/07/2009>.

PEDROSA, Israel. Da cor à cor inexistente. Rio de Janeiro: Christiano Editorial/EDUFF, 2002. PINSKY, Jaime; PINSKY, Carla Bassanezi. As faces do fanatismo. Disponível em: <http://books.google.com/books?hl=ptBR&lr=&id=MJWue09DrxUC&oi=fnd&pg= PA6&dq=defini%C3%A7%C3%A3o+fanatis mo&ots=GVa8x-QWHB&sig=atcTI1qUFn94Cz-JQ15bTC4UjA>. Acesso em: <06/07/2009>. SANTAELLA, Lúcia. Semiótica Aplicada. São Paulo: Pioneira Thompson Learning, 2005.

FLUSSER, Vilém. O Mundo Codificado. São Paulo: Cosac Naify, 2004.

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