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SOCIEDADE

JUSTIÇA

À falta de uma explicação lógica para o suque os fosse buscar e devolvesse. Levantavao no ar, segurando os brinquedos que o bicho cedido, dada a relação de proximidade entre prendia na boca. Na sua página de Facebook, o animal e Dinis, a procuradora do Ministéjá alterada, ostentava a imagem estilizada de rio Público, Fátima Valente, quis ouvir um um corpo humano, musculado, com cara de especialista em comportamento canino. pit bull. Partilhava ilustrações de pit’s a es- Bruno Lopes, comandante da companhia cicorrer sangue da boca ou com coleiras de pi- notécnica da GNR, avançou com a hipótese cos, à volta do pescoço. No inquérito à morte de o bicho ter atacado por instinto de presa de Dinis, a cunhada disse que ele descrevia ou de caça. É o nome dado à reação instintiva o cão como uma máquina de guerra. Pedro de um cão quando vê algo em movimento. Janeiro nega ter usado essa expressão, bem Ataca, morde e não larga o objeto, fazendo como ter participado em lutas de cães ou tração. Este comportamento é potenciado quando o animal é treinado para morder usado o pit bull como arma de defesa. Zico foi comprado a um criador ilegal de brinquedos ou ir buscar paus. O inquérito deveria durar oito meses mas cães que morava no bairro do Texas, em Beja, e queria desfazer-se dele, por ter sarna. Pe- ainda não foi arquivado porque a procuradro teve pena do cachorro, que então tinha dora tem dúvidas em relação ao relatório da três meses, e comprou-o, já com as orelhas autópsia. Bruno Santos, o médico responsácortadas, por 50 euros. Foi ficando. Cres- vel pela análise do cadáver, escreveu que as ceu. Tornou-se um capricho, a que toda a lesões causadoras da morte «denotam terem sido produzidas por ação de família se submeteu. Era a mãe, natureza perfurocontundenMaria Antónia, quem cuidava VISAO.SAPO.PT te, ou atuando como tal, como dele: comprava a comida, aliTODO O CASO o que pode ter sido a mordementava-o, limpava os dejetos, REPORTAGEM dura de um cão». A hipótese, dava-lhe banho. O pai, Jacinto A NOVA VIDA DO PIT BULL, inconclusiva sobre se foram Manuel, quando tinha disposiÀ GUARDA DA ASSOCIAÇÃO ANIMAL ou não as mordeduras do cão ção, levava-o à rua, sem açaime. CONTEXTO a provocar a morte de Dinis, Podiam passar-se dias sem que COMO SE VIVE NO BAIRfez com que a magistrada eno bicho saísse. RO DO TEXAS, EM BEJA viasse ao perito, em outubro, CRONOLOGIA DESCODIFICANDO algumas perguntas escritas. Acusação ou arquivamento? A BATALHA LEGAL O médico ainda não responDinis não estava em nenhum ENTREVISTA deu, apesar da insistência do infantário, era a família que PEDRO GALVÃO, AUTOR tribunal. cuidava dele. Brincava muiDE OS ANIMAIS TÊM Quando tal acontecer, o to com o cão: fazia-lhe festas, DIREITOS? PERSPECTIVAS E ARGUMENTOS Ministério Público arquiva o abraçava-o quando este estava estendido no chão e Zico lambia-lhe a cara. processo ou deduz acusação de homicídio Às vezes, o canídeo roubava os brinquedos por negligência, crime com moldura penal ou as bolachas ao petiz. Outras, era a criança até cinco anos de prisão. Essa decisão poderá que lhe oferecia os seus «tesouros». No dia ser crucial na conclusão da ação que também da tragédia, Vanessa, João e Maria Antónia decorre no Tribunal Administrativo e Fiscal estavam em casa. Dinis corria entre o quarto de Beja, e que determinará qual o destino de dos pais e o da avó. A certa altura, deixaram Zico. Apesar de, através de uma providênde o ver. Ouviram um barulho. Maria An- cia cautelar, o cão ter sido entregue à guarda tónia correu para a cozinha, acendeu a luz, da associação Animal, que o rebatizou como e viu o pit bull com a cabeça do miúdo na Mandela, a ordem para abatê-lo mantém-se boca. Gritou, pedindo ajuda. João estrangu- apenas suspensa, até à decisão final do trilou o pescoço do cão, com o braço, e Vanessa bunal. A morte do pit bull é o desfecho premeteu-lhe as mãos na boca, até conseguir visível desta história, com contornos draque largasse o filho. Ficou com escoriações máticos – a exceção seria não ser abatido. A e feridas nos dedos. Dinis estava coberto de mãe, o pai e a avó de Dinis, os adultos que, sangue, com a cabeça rasgada. Pediram um no momento da tragédia, estavam em casa, carro emprestado a um vizinho e correram foram constituídos arguidos, em setembro para o Hospital de Beja, a 600 metros de passado. O tio, proprietário do animal, foi casa. Ainda nessa noite, o menino foi trans- ouvido no processo apenas como testemuferido para a Unidade de Cuidados Intensi- nha. Numa história fatal entre um cão e uma vos Pediátricos do Hospital de Santa Maria, criança, um destes adultos terá de assumir responsabilidades. Ou não? em Lisboa. Mas não resistiu.

'Zico' atacou, Dinis morreu: quem tem culpa? (2)  

A VISÃO consultou, em primeira mão, o processo-crime relativo à morte da criança de 18 meses atacada pelo pit bull da família, em Beja, no a...