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IP7/EIXO NORTE-SUL E AVENIDA GENERAL CORREIA BARRETO Campolide, Lisboa Debaixo deste viaduto dormem búlgaros, cabo-verdianos, romenos, turcos, ucranianos. São dezenas. Neste lado da linha férrea há apenas muçulmanos. Recusam mostrar a cara. Têm medo, não dizem de quem. Os de leste passam uns meses cá, regressam às terras, tornam a voltar. Chegam e partem em autocarros, na Estação do 94 v 28 DE NOVEMBRO DE 2013

Oriente. Um deles mostra o bilhete: Tulcea (na Roménia)-Lisboa, €122, dois dias de viagem. Só ali estão homens, vários adolescentes. Pedem trabalho, dinheiro, cigarros. As mulheres, ausentes, são denunciadas pela roupa nos estendais. Compram comida no Minipreço. Vagueiam pela cidade. Mendigam, arrumam carros, roubam.

Ou procuram trabalho, à jorna, na Praça de Espanha, em Sete Rios e em Monte Abraão. Alguns foram apanhar azeitona para Beja. Trabalharam um mês e mandaram-nos embora – sem um cêntimo, juram. Ao lado, sob o Eixo Norte-Sul, o cenário repete-se há três anos. Pernoitam aqui uma centena de almas: 35 barracas de papelão e

canas desengonçam-se a cada rajada de vento. Há lixo e pó por todo o lado. Ninguém fala nem se deixa fotografar. Volta e meia, as autoridades destroem o acampamento. Depois, tudo volta a erguer-se. A polícia diz desconhecer se aqui opera uma rede de tráfico de pessoas. Umas horas de reportagem deixam poucas dúvidas.


Viver debaixo da ponte (3)