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VIAGENS DA MINHA VIDA

ÀS VOLTAS COM EÇA Foi a 25 de Novembro de 1845, na Póvoa de Varzim, que uma senhora, de sua graça Carolina Augusta Pereira d’Eça (menina bonita de Monção e órfã do coronel José António Pereira d’Eça, com 19 anos) deu à luz um rebento chamado José Maria. No nome desta criança figuraria também o apelido Queirós, do brasão da família de seu pai – José Maria Teixeira de Queirós (de origem brasileira e à data procurador régio em Ponte de Lima). Nascia na cidade que hoje alberga o maior evento literário nacional – Correntes D’Escritas – José Maria de Eça de Queirós, um dos ícones da escrita em língua portuguesa. Eça teve uma vida atribulada q. b. para o seu tempo e o rebuliço começou logo nos primeiros dias de vida. É declarado filho de mãe incógnita porque na altura em que vem ao mundo os seus pais ainda não eram casados. Um escândalo para os cânones morais de então e razão pela qual a progenitora foi dar à luz na Póvoa de Varzim, a casa de familiares. Mas em vez de ficar aos cuidados da mãe, anda a saltitar de terra em terra. É baptizado, a 1 de Dezembro de 1845, na igreja matriz colegiada de Vila do Conde, onde vive meia dúzia de anos, e depois é enviado para casa dos avós paternos, que moravam num solar em Verdemilho, Aveiro. É lá que brinca e cresce. Em carta enviada a Oliveira Martins, datada de 1884, há-de descrever-se como “filho de Aveiro, educado na Costa Nova, quase peixe da ria...”. Entretanto, os avós morrem e aos dez anos é matriculado no Colégio da Lapa, na cidade do Porto, que era dirigido pelo pai de Ramalho Ortigão. Curioso é o facto de o seu pai viver na cidade do Porto, onde era juiz da 1.ª vara do tribunal, e não o ter acolhido. Eça viverá sempre com o estigma de ter sido criado por toda a gente menos pela família. E essa temática está presente nas suas obras, sempre compostas por agregados mutilados e pouco tradicionais. Da escolaridade obrigatória até ao seu ingresso na universidade foi um pulo. E é “em Coimbra, na ardente

e fantástica Coimbra do meu tempo”, como dirá em Cartas Familiares, que Eça descobre uma panóplia de novas ideias e concepções sobre o mundo. Vai cursar Direito e conhece Antero de Quental, Teófilo Braga e Oliveira Martins – o grupo de intelectuais que formaria a chamada Geração de 70. E como o marcarão, ao longo da vida, as ideias que germinaram na cidade dos estudantes e que dariam origem, mais

• José Maria de Eça de Queirós, um dos maiores e mais importantes escritores portugueses de todos os tempos (à esquerda) • O Teatro de São Carlos, citado na obra Primo Basílio, na época em que Eça escrevia e actualmente (em cima)


tarde, às famosas Conferências Democráticas do Casino Lisbonense, quando Eça morava na capital. LISBOA E O MUNDO A partir de Coimbra, a vida de Eça de Queirós é feita de viagens. Teve uma curta incursão por Évora, onde redigiu e foi director de um jornal. Trabalhou em Leiria, onde escreveu O Mistério de Serra de Sintra, em conjunto com Ramalho Ortigão, e, com Leiria como cenário, introduziu o Realismo em Portugal com a obra O Crime do Padre Amaro, publicada quando, em 1884, estava em Bristol. Entretanto, começam as suas viagens pelo mundo, algo que, à época, não é também muito normal para um português. O mundo desenvolvido e de progresso será sempre a oposição com o Portugal atrasado e rural. Assistiu à inauguração do Canal do Suez e conheceu o Egipto e a Terra Santa. Mas a partir de 1875 grande parte da sua vida é passada fora do País. A sua carreira diplomática levou-o a Havana, Newcastle, Bristol e Paris, onde viria a falecer. Mas a Lisboa voltava sempre que podia. É por isso que a cidade é tão importante na sua obra, porque Eça fez um retrato singular das

vivências e dos hábitos dos lisboetas do final do século XIX como mais ninguém fez. Grande parte da acção dos seus escritos passava-se na capital, em sítios por todos conhecidos: “Recomeçara os seus passeios pelo Chiado, as suas estações melancólicas à porta da Casa Havaneza” (A Tragédia da Rua das Flores); “… tomando da mão de Luísa o binóculo, explicou os camarotes, disse os títulos, citou as herdeiras ricas, nomeou os deputados, apontou os literatos - Ah! Conhecia bem o São Carlos! Havia dezoito anos!” (O Primo Basílio); “Ia encontrar-me com o Alemão, numa grande Praça que

• Foi em Leiria que Eça escreveu O Mistério da Estrada de Sintra, em conjunto com Ramalho Ortigão (em cima, à esquerda) • Em Aveiro, crescendo em casa dos avós paternos, auto-apelidou-se de “quase peixe da ria” (em baixo, à esquerda) • Cidadão do mundo, o escritor português viria a falecer em Paris (em cima) • “Recomeçara os seus passeios pelo Chiado, as suas estações melancólicas à porta da Casa Havaneza”, escreve em A Tragédia da Rua das Flores (em baixo)


• Aos dez anos é matriculado no Colégio da Lapa, na cidade do Porto, que era dirigido pelo pai de Ramalho Ortigão (em cima) • Mais viajado do que o comum dos portugueses da época, assistiu à inauguração do Canal do Suez (à esquerda e em baixo) • Eça estava em Bristol quando, em 1884, foi publicada em Portugal a obra O Crime do Padre Amaro (em cima, à direita) • É em Coimbra, na “ardente e fantástica Coimbra do meu tempo”, como dirá em Cartas Familiares, que Eça descobre uma panóplia de novas ideias e concepções sobre o mundo. E é lá que, cursando Direito, conhece Antero de Quental, Teófilo Braga e Oliveira Martins (em baixo, à direita)

dizem de lá os de Alexandria que é muito melhor que o Rossio… Maior e mais abrutalhada talvez seja. Mas não é esta lindeza, o ladrilhinho, as árvores, a estátua, o teatro… […] Para meu gosto e para um regalinho de Verão, prefiro Rossio. E lá o disse aos Turcos.” (A Relíquia), ou “[…] e Ega voltou a falar dos inundados do Ribatejo e do sarau literário e artístico que em benefício deles se ‘ia cometer’ no salão da Trindade…” (Os Maias). O facto de viver fora de Portugal muito ajudou ao distanciamento crítico sobre a realidade nacional. A maneira como caracterizava a sociedade, os seus usos e costumes, os vícios e as falsidades é um verdadeiro raio X social às gentes do seu tempo. A todos dissecava – a classe política, a burguesia, o clero, os jornalistas, a Administração Pública, o povo… Mas chegou também a dizer, quando era cônsul em Havana: “Eu, de Portugal, esqueci o mau e constantemente penso nas belas estradas do Minho, nas aldeolas brancas e frias, no bom vinho verde que eleva a alma, nos castanheiros cheios de pássaros, que se curvam e roçam por cima do alpendre do ferrador”.


Viagens da minha vida