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9 de Fevereiro 24 de Marรงo

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Perve galeria

Têmpera e tinta da china s/ papel, 24x31,5 cm, n.d.

Imagem da Capa • O Tinteiro em 1969 | Têmpera e tinta da China s/ impressão s/ sobre papel, 30x21,5 cm, 1969


As possibilidades do surrealismo são infinitas e não se confundem com as da arte. Enquanto a arte é uma matéria que envelhece, o surrealismo é a própria alma da criação, sempre viva, nas suas infinitas metamorfoses e imagens. O surrealismo é tão antigo e será tão duradouro como a alma do homem. Nunca será de mais afirmar a sua dimensão humanista, o seu alcance filosófico. E querendo ser fiéis à ambição gnoseológica e amorosa que aqui surge seremos obrigados a dizer que o surrealismo é tão perene como a alma do mundo. Nem ao que de mais permanente existe no homem o surrealismo se prende, porque quando falamos dele é o infinito do universal que se apresenta. Artur Manuel do Cruzeiro Seixas é um alquimista das imagens, um arquitecto do espírito. Os seus desenhos, que melhor é chamar caligrafias psíquicas ou registos pulsionais, mesmo quando enquadrados por um traço que nos parece tão rigoroso quanto talentoso, são a linguagem mesma da alma humana; movem-se na tela ou no papel onde o seu autor os lança em momento de cegueira ou de possessão como os sonhos, os mais maravilhosos, se mexem no céu imaterial do pensamento. Não há por isso limites para os sinais que se tatuam nos desenhos de Cruzeiro Seixas. Se o Universo é um caos organizado, uma anarquia espontânea, onde os astros fazem a vez duma ordem desconhecida e superior, os desenhos de Cruzeiro Seixas são a escrita automática do espírito, um alfabeto psíquico capaz de registar as pequenas e as grandes convulsões da alma, onde as imagens, sempre escaldantes, sempre borbulhantes, tomam o lugar de mediadores entre a matéria densa do mundo e a liberdade gratuita do espírito. Na tapeçaria dramática de Cruzeiro Seixas um braço nunca é um braço, um cavalo nunca é um cavalo. Não nos iludamos, a não ser por via da

participação consciente neste teatro lúdico de acasos, porque é disso que se trata. Todas as realidades que saem das mãos de Cruzeiro Seixas são apenas imagens de outras realidades, metáforas vivas e reveladas, num processo contínuo de metamorfoses, que opera por sucessivas e imperceptíveis trasladações de sentido. Na rotação das imagens, na velocidade alucinante das figurações, na permanente desconstrução das identidades, temos o carnaval intenso da criação, a festa do mundo tal como ela pôde ser superiormente vivida em colectivo nas culturas magnas do Neolítico, tudo antes que a História, com a folha relativa à produção e acumulação, sufocasse a vida mágica da civilização. Convenço-me que o homem arcaico, o homem natural, o homem-criança via o mundo – animais, plantas, pedras e astros – desenrolar-se diante dos olhos como nós o vemos metamorfosear-se num desenho de Cruzeiro Seixas. Daí a ideia de tapeçaria dramática, de montagem psíquica, mas também de percepção em estado puro, a propósito da actividade das suas mãos. Por isso Cruzeiro Seixas não teve atelier, não marcou o ponto, não se funcionalizou como artista. Ao invés, não se cansando de gritar a morte da pintura e da arte, bem como o horror das academias e das escolas, fugiu para a selva, vadiou pelos trilhos poeirentos, perdeu-se na África escura da alma. A sua oficina, se a teve, foi na alma que a encontrou. Por isso lhe bastou, como ele insistiu, um canto de mesa para deitar ao papel as imagens. Eu acrescentaria até que nem sequer de aparo e tinta ele necessitou; para desenhar o mundo da alma bastou-lhe o sangue como tinta e o dedo como lápis. Estava tudo dentro dele, intacto e vivo. Não foi, não é, um artista, mas um condutor de imagens psíquicas. Não expôs talento; antes deu a alma, naquilo que esta tem de supranatural e de genial. António Cândido Franco - 2011

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Perve galeria | Obras em exposição

Tinta da china sobre papel, 13,5x10,5 cm, 1947

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• Estudo para escultura Tinta da china s/ papel, 19,5x16,5 cm, 1960

• ”Como às sete horas eram ainda duas horas o amor foi devolvido à procedência” Desenho a grafite e caneta preta, 27,4 x 21,3 cm, 1968

Tinta da china s/ papel, 19x14 cm, 1955


• O Encontro | Tinta da China e têmpera s/ papel, 23x32 cm, 1957

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Tinta da China e têmpera s/ papel,8,5x11,5 cm, 1959

Tinta da China e carvão sobre papel, 26x20,5 cm, n.d.


Perve galeria | Obras em exposição

• Estudo para um desenho perdido | Tinta da china sobre papel, 29x39 cm, n.d.

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Tinda da china e têmpera s/ papel, 26 x 20 cm - 1954

Têmpera e tinta da china s/ impressão s/ papel, 30,5x32,5 cm, n.d.

• Estudo para desenho à pena Esferógrafica e tinta da china s/ papel, 26x21 cm, 1957


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Tinta da china e TĂŞmpera s/ papel, 21 x 16,5 cm, 1961


Perve galeria | Obras em exposição

Técnica mista s/ papel, 14x22 cm, circa anos 50 (Angola)

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Técnica mista s/ papel, 20x30 cm, n..d.

Lápis de cor e tinta-da-china s/ papel 22,5x26,5 cm | 1955


Tinta da China e têmpera sobre papel, 20,5x14,5 cm, 1956 7

Técnica Mista s/ papel, 31x22 cm | 1952

• Amo a paisagem cada vez mais indecifrável | Têmpera s/ papel, 7,5x10,5 cm | 1951

Têmpera e tinta da china s/ papel, 23x22 cm | 1952


Perve galeria | Obras em exposição

Óleo sobre esteira de fibras naturais, 28,5x23 cm, 1953

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Têmpera e tinta da china s/ papel, 28x21 cm, n.d.

• Sem título (verso) Grafite, tinta-da-china s/ papel, 29,5x20,5 cm, 1957


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• Sem título (frente) Grafite, tinta-da-china s/ papel, 29,5x20,5 cm, 1957 Na página 8 em baixo do lado direito está o verso


Perve galeria | DAdos Biográficos

Artur Manuel Rodrigues do Cruzeiro Seixas nasceu na Amadora a 3 de Dezembro de 1920. Em 1935, matriculou-se na Escola de Artes Decorativas António Arroio, em Lisboa, onde conheceu, entre outros, Mário Cesariny, Marcelino Vespeira, António Domingues, Fernando José Francisco, Fernando Azevedo e Júlio Pomar. Com estes e outros artistas participou, em 1943, em tertúlias de carácter vanguardista no Café Herminius da Av. Almirante Reis. Depois de uma fase expressionista-neo-realista, as inquietações plásticas e os desejos de libertação estéticos e ideológicos levam Cruzeiro Seixas a abraçar o projecto perfilhado pelo Grupo Surrealista

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de Lisboa, tornando-se, sempre se diga, uma das figuras de referência daquele grupo fundado em 1947 e liderado por Mário Cesariny de Vasconcelos. Desde que assumiu os preceitos surrealistas não mais os abandonou, mantendo-se fiel ao onirismo figurativo dessa poética que empregou também em colagens e objectos. Com Mário Cesariny, António Maria Lisboa, Mário Henriques Leiria, Pedro Com, Fernando José Francisco, Risques Pereira, Fernando Alves dos Santos, Carlos Eurico da Costa, Carlos Calvet e António Paulo Tomás, organiza a Primeira Exposição dos Surrealistas na cidade de Lisboa (Janeiro de 1949, entre a Sé e o Aljube). No ano seguinte, participa na segunda exposição de “Os Surrealistas” (Lisboa,

Livraria Francesa) e assina diversos manifestos e folhas volantes. Assiste, ainda, aos debates que Guilherme Filipe organiza no “Jardim Universitário de Belas Artes”. Em 1951, Cruzeiro Seixas alista-se na Marinha Mercante, viaja até à Índia e Extremo Oriente, acabando por se fixar em África, Angola, durante doze anos. Durante esta estada descobriu a arte dita “primitiva”, em consonância com a recuperação que desta arte fizera o modernismo internacional. Em Angola, realizou uma parte significativa da sua obra, desenhada, pintada, objectualizada e escrita. Foi, precisamente, em Luanda que realizou a sua primeira exposição individual na qual apresentou 48 desenhos sob a evocação de Aimé Cesaire (no Cinema da Restauração a 24 de Outubro de 1953). Exposição que, como todas as outras que viria a realizar no continente africano, foi alvo de controvérsia e escândalo. Em 1960 começa a trabalhar no Museu de Angola, onde organiza exposições em moldes absolutamente novos no país, e, principalmente, formou um salão de pintura permanente. Não obstante o facto de, até à data, a sua experiência africana lhe ter propiciado muitos e grandes resultados no campo artístico, em 1964, com o intensificar da Guerra Colonial, Cruzeiro Seixas vê-se constrangido a regressar à Europa. De volta a Portugal, participa em inúmeras exposições. Entretanto, o trabalho que iniciara no Museu de Angola prossegue-o em Lisboa, onde será consultor artístico da Galeria S. Mamede, e posteriormente no Estoril (1976-1983), dirigindo a Galeria da Junta de Turismo da Costa do Sol e, em Vilamoura, a Galeria D’Arte (1985-1988). Como consultor artístico da Galeria S. Mamede, durante cinco anos, organizou exposições com António Areal, Mário Cesariny, Jorge Vieira, Júlio, Carlos Calvet ou Helena Vieira da Silva e em muito contribuiu para a promoção de artistas emergentes, como Raúl Perez e Mário Botas. É ainda neste espaço que, pela primeira vez, são apresentadas no país obras de Henri Michaux e do Grupo CoBrA.


O ano de 1969 seria úbere em exposições artísticas: participa, entre outras, na XII Exposição Surrealista de São Paulo (no Brasil), inaugura com Mário Cesariny a Exposição Pintura Surrealista, na Galeria Divulgação, no Porto (12 a 21 de Junho), novamente com Cesariny integra a Exposição Internacional Surrealista, organizada por Laurens Vancrevel em Scheveningen (Holanda) e, por último, é organizada a primeira retrospectiva de Cruzeiro Seixas na Galeria Buchholz (Lisboa) com folha volante de Pedro Oom e prefácio de Rui Mário Gonçalves. Em edições limitadas a 250 exemplares numerados e assinados, edita com Cesariny, em 1970, “Reimpressos Cinco Textos Surrealistas em Português”, “Aforismos de Teixeira de Pascoaes” e “Contribuição ao registo de nascimento, existência e extinção do Grupo Surrealista Português”. Ainda na década de 70, participa em inúmeras colectivas do movimento surrealista internacional, principalmente aquelas ligadas ao Grupo Phases (liderado pelo poeta e ensaísta Édouard Jaguer, ao qual havia, entretanto, aderido). Posteriormente, dá continuidade ao trabalho iniciado na Galeria de S. Mamede, durante mais de uma década nas supraditas galerias do Estoril e Vilamoura.

Artista Versátil, explorou, ao longo de décadas, as infinitas poéticas do surrealismo. Animou a renovação da arte portuguesa, propiciando exposições de artistas novos e a divulgação de artistas e movimentos internacionais nas galerias onde colaborou; Figurou em inúmeras exposições colectivas e individuais em Portugal e no estrangeiro, refira-se: “Maias para o 25 de Abril”, que pretendia mostrar as obras proibidas pelo fascismo (1974), exposição de Cadavres-exquis e pinturas colectivas por ocasião dos 50 anos do Surrealismo (Galeria Ottolini, 1975), Exposição de homenagem a Conroy Maddox-Surrealism Unlimited (Londres, 1978), “Presencia viva de Wolfgang Paalen”, (México, 1979), “Desaforismos” individual na Galeria Soctip (1989, Prémio de Artista do Ano, instituído pelo Centro de Arte SOCTIP; trabalhou como ilustrador, colaborando, por exemplo, com as revistas surrealistas Brumes Blondes (Holandesa), Phases (Francesa) e La Turtue-Lièvre (Canadiana) e realizou, entre outras, ilustrações para Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica (dos Cancioneiros Medievais à Actualidade) de Natália Correia que originou um processo por “abuso de liberdade de imprensa”; Executou, ainda, cenários para a Companhia Nacional de Bailado e para a Companhia de Bailado da Gulbenkian. No campo literário, para além da poesia, redigiu prefácios para exposições dos seus amigos e colegas pintores.

Em 1999, doa a totalidade da sua colecção à Fundação 11 Cupertino de Miranda, com vista à constituição de um Centro de Estudos e Museu do Surrealismo. No ano seguinte, a conceituada Fundação de V. N. de Famalicão, organiza, por ocasião do 80º aniversário de Cruzeiro Seixas, uma exposição retrospectiva e de homenagem ao artista. Mesmo depois de ter ultrapassado a barreira dos oitenta anos de idade, Cruzeiro Seixas continua a expor: em 2001 expõe com Eugenio Granell na Galeria Sacramento, em Aveiro e, nesse mesmo ano, tem lugar uma grande exposição retrospectiva, sendo paralelamente publicado o livro biográfico «Cruzeiro Seixas», na Fundação do mesmo artista Eugenio Granell em Santiago de Compostela. Nos anos seguintes, são ainda organizadas exposições retrospectivas da obra de Cruzeiro Seixas no Centro de Cruzeiro Seixas está representado no Museu do Chiado Arte e Espectáculos da Figueira da Foz e na Galeria (Lisboa); Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian (Lisboa); Instituto da Biblioteca Municipal Artur Bual (Amadora). Nacional e do Livro; Museu Nacional Machado de Em 2005 são expostos 60 trabalhos de Cruzeiro Seixas Castro (Coimbra); Museu Francisco Tavares Proença em Santo Tirso, numa iniciativa “A Poesia está na rua”, Júnior (Castelo Branco); Fundação António Prates onde o artista apresentou, ainda, o terceiro volume (Ponte de Sôr); Fundación Eugénio Granell (Galiza), da sua “Obra Poética”. Em Outubro desse ano, esteve etc. patente na Livraria Alfarrabista Miguel de Carvalho Actualmente vive e trabalha em Lisboa. (Coimbra) a exposição “Naufrágio de Ilustraletrações” onde foram expostos trabalhos de Cruzeiro Seixas, bem como uma série de cartas escritas pelo artista a importantes personalidades europeias.


Perve galeria | Obras em exposição

Têmpera e colagem s/ papel, 27x35 cm, n.d.

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Colagem sobre papel 15,5x12,5 cm, cerca anos 50

Colagem sobre papel , 29,5x15,5 cm, n.d.


TĂŠcnica mista e colagem s/ papel , 16,7x17,9 cm, 1966

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Colagem , 17x23 cm, n.d.

Colagem , 20x25,5 cm , n.d.


Perve galeria | Obras em exposição

Têmpera e colagem s/ papel, 41,3 x 32 cm, n.d.

• Arte Tinta da china e Têmpera s/ papel, 25x6 cm, n.d.

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• A grande viagem Mista sobre papel, 19,50x18,50 cm, n.d.

Colagem e têmpera s/papel, 25,5x31,5 cm , n.d.


Tinta da china, Têmpera e colagem s/ papel, 21x34 cm, n.d.

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• Os meus dois automóveis Têmpera s/ fotografia realizada por Mário Botas , 18x24 cm, 1974

Mista s/ papel, 43x34 cm, n.d.

Têmpera, colagem e ocultação s/ papel, 28x18 cm, n.d.


Perve galeria | Obras em exposição

• Duas figuras com rugas | Tinta da China sobre papel, 20x16,5 cm, n.d.

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Têmpera e colagem s/ papel, 25x13,5 cm, n.d.

Técnica mista s/ papel fotográfico, 17x21 cm, n.d.

• Assim ficámos a saber que o deserto sabe escrever ler e contar Têmpera e colagem s/ papel, 17x12 cm, 1970


Técnica mista s/impressão serigráfica, 35x25 cm, 2009

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• Projecto para dois azulejos Tinta da china e Têmpera s/ papel, 30x15 cm, 1960

Tinta da china e Têmpera sobre papel, 119,5x16 cm, 1965

Técnica Mista s/ papel, 332x22 cm, 1979


Perve galeria | Obras em exposição

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• Do mesmo prato comem,deuses, homens e animais - Octávio Paz Têmpera e tinta da China s/ papel, 30,5x41,5 cm, 1994

• Lá onde o negro sémen do mundo se gera no mais profundo dos vulcões Técnica mista s/ papel, 24x16,5 cm, n.d.

Técnica mista s/ papel, 20x30 cm, 1971


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• Personagem estudando o cometa Halley Cruzeiro Seixas, Tinta da china sobre papel, 29x19 cm, 1978


Perve galeria | Obras em exposição

• A noite sem fim Têmpera e tinta da china s/ papel, 43x30,5 cm, 1977

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Técnica mista s/ papel de telegrama, 20x21 cm, n.d.

Têmpera e tinta da China s/ papel, 26,5x21 cm, n.d.


• Paisagem da alma | Tinta da china e Têmpera s/ papel, 20x26,5 cm, n.d.

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Tinta da china e Têmpera s/ papel 26,50x16 cm, n.d.

Têmpera e tinta da China s/ papel, 22x16,50 cm, n.d.

Tinta da china e Têmpera s/ papel, 23,50x18,50 cm, n.d.


Perve galeria | Obras em exposição

Tinta da china s/ papel, 16x24 cm, n.d.

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• O Maquinismo dos Sonhos Colagem, Têmpera e tinta da china s/ papel, 25,5x27,5 cm, 1980

Têmpera e tinta da china s/ papel, 30x34 cm, n.d.


��� Duas Ilhas | Têmpera e tinta da china s/ papel, 31,5x43,5 cm, 1978

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Técnica mista s/ impressão serigráfica, 25x35 cm, 2009

• O salteador - memória do dia 5 de Abril de 1963 Cruzeiro Seixas, Têmpera sobre papel, 22x31 cm, 1996


Perve galeria | Obras em exposição

• Projecto de Farol | Têmpera e tinta da china s/ papel, 40,5x28,5 cm, 2000

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Têmpera e tinta da China s/ papel, 20,4x14,5 cm, n.d.

• Por toda a parte há sonhos que empurram outros sonhos para o abismo Grafite, tinta-da-china e Têmpera s/papel, 28,5x21 cm, 1961

Tinta da china e Têmpera s/ papel, 28x22 cm, n.d.


A minha homenagem a Cruzeiro Seixas O SONHADOR IMPENITENTE DO AMOR EM LIBERDADE “Que Deus tenha um sonho em carne viva” –Herberto Helder Ao recortar, colar e associar livremente fragmentos de imagens serigráficas e fotográficas de desenhos e pinturas da sua autoria, por vezes conjugados com pormenores de obras de arte de outros autores, antigos e modernos, Cruzeiro Seixas experimenta os múltiplos sentidos que esta actividade promove. A sua imagética surrealista recorre frequentemente ao desenho e à colagem, que são os seus modos de intervir na recriação da visão onírica e transfigurada do mundo. Na descendência de Jerónimo Bosch, notável pintor fantástico do séc. xv, Cruzeiro Seixas cria personagens semi-humanas, semi-animalescas, tão demoníacas quanto angelicais, em cenários de abismo e vertigem. A sua obra devolve-nos a costela satânica, neo-primitiva e neoromântica do Surrealismo que, através das vias abertas pela imaginação, faz da rebeldia, do desregramento e do humor a razão da sua permanência. Cruzeiro Seixas relaciona-se com o que faz, ou melhor, com a imagem que paciente e meticulosamente elabora, de um modo tão imprevisível e inexplicável quanto põe á prova a sua capacidade de transgressão e transformação. Desenhar, pintar, recortar e colar o que desenha e pinta, é o seu processo de trabalho implicado no acto livre que, a partir da exploração do acaso, proporciona o alargamento e o aprofundamento de uma linguagem, enraizada na vida oculta do inconsciente. Em termos psicanalíticos freudianos, o princípio do prazer subverte o da realidade, pelo que, no seu caso, a beleza convulsiva adquire uma dimensão teatral tão impetuosa e dramática quanto lúdica e provocatória. Com figuras repetitivas, retiradas da reprodução em série de provas serigráficas de desenhos seus, inseridos em novos contextos, estas colagens não só transformam o múltiplo em obra única, como acentuam a vocação expressiva de todos os elementos que constituem a sua imagética delirante, tão capaz de tactear o desconhecido como de alterar o conhecido, enchendo de infinito o finito, tornando metafísica a sensualidade de repentinos corpos adolescentes que, em ascensão, pairam no espaço onírico. A sua aventura poética não se delimita, antes se assume no fazer e no desfazer de situações insólitas, estranhamente contagiantes. Na sua imagética delirante, nada é calculado ou premeditado, tudo se desencadeia súbita e inesperadamente como no sonho. Seres alados invadem o espaço e descrevem curvas harmoniosas em arabescos que envolvem sensuais corpos entrelaçados, ávidos de subirem nas alturas e daí avistarem o que se passa cá em baixo: alongados aquedutos em extensas planícies com horizontes longínquos; movimentadas cenas teatrais com transfigurados personagens e objectos dispersos como caixas, cubos, pirâmides, esferas coloridas, ornatos, leques, bandeiras e improvisadas embarcações de náufragos à deriva... Numa sucessão imprevisível de figuras, a obra de Cruzeiro Seixas casa a Poesia da Imagem com a Imagem da Poesia, de uma forma tão tumultuosa quanto obsessiva e fascinante. O autor reconhece que é na juventude que tudo se afirma e se interroga, com natural inquietação, ansiedade, encanto,

amor e paixão. Ao evocar essa época d’ouro, o velho pintor “voyeur” é um coleccionador de imagens, com que se entretém a reconstituir pacientemente cenas amorosas e a recriar outras não menos surpreendentes, plenas de mistério e fascínio, em colagens e remontagens, que exaltam o seu poder metafórico. Velho pintor “voyeur” foi Picasso, quando, octogenário, realizou uma notável série de desenhos eróticos. Dizia ele: “Com a idade avançada, deixei de fumar e de beber. Mas, em relação ao amor, a ideia persiste”. Também Cruzeiro Seixas, apesar dos seus oitenta e nove anos de idade ou talvez por isso, persiste na ideia e nas audácias da imaginação motivada pela memória do amor na juventude. O que de melhor nos acontece na vida merece ser lembrado e enaltecido. Tanto na Pintura como na Poesia, “Acho natural que Seixas queira repor o seu próprio discurso juvenil” -diz Rui Mário Gonçalves, que acha natural porque muitos dos pontos altos da sua obra, conhecidos e admirados, “podem agora ser melhor entendidos, mesmo nas suas pessoalíssimas subtilezas; e também porque a reconstituição da sua juventude é para ele necessária, como um autoesclarecimento dos seus sonhos”. “A enumeração de corpos e de objectos (...) não definiria a melhor expressividade do desenho, se não reparássemos no modo como aparecem. Os seus contornos nítidos engendram-se uns aos outros, mercê do poder orgânico da linha que os abraça a todos. É uma linha contínua que liga os corpos metamorfoseados. Pode admitir-se que o seu arrebatamento é que fez germinar as figuras”- conclui Rui Mário Gonçalves. Nada impede que a linha possa caprichar ao passar de25 uma figuração para outra completamente diferente. É o ritmo gráfico que aceita todas as metamorfoses da imagem que, recortada e fragmentada, proporciona, na colagem, a possibilidade de provocar rupturas ou cortes voluntários na leitura habitual do mundo visível, promovendo novas leituras, novas interpretações, através da desmontagem e remontagem dos mesmos elementos, que adquirem significados diversos em diversos contextos. Repetições obsessivas, que ocorrem nos sonhos, fazem parte de um vocabulário interiorizado e dominado pelo autor de uma linguagem pessoalíssima e universal. Nos seus desenhos e colagens, como estas agora reunidas em exposição, a linha do horizonte é sempre longínqua e demasiado baixa, fazendo-nos sentir que olhamos tudo de um ponto de vista muito alto. Temos a sensação de pairar vertiginosamente sobre a extensa planície. Entre o céu e a terra, a movimentação de corpos e objectos cresce, em ritmo ascensional, em direcção ao infinito. O dia desvenda o que a noite oculta. Da treva emerge a luz. Sobre fundos negros cerrados ou em obscuros azuis translúcidos, recortam-se esculturais corpos iluminados, lívidos de tanto sonharem, conjugados com objectos voadores e astros fulgurantes como luas e sóis multicolores, que anunciam um Novo Mundo, onde o Amor renasce constantemente, pleno de sentido e de verdade. Verdade rima com Liberdade. Dor rima com Amor. A Invenção do Novo Dia rima com Poesia. “LIBERDADE, AMOR E POESIA” é a trilogia proclamada, desde sempre e para sempre, pelos arautos do Surrealismo. EU R I C O G O N Ç A L V E S


Perve galeria | Obras em exposição

• Histórias das portas feridas pela tua ausência | Têmpera e tinta da china s/ papel, 41,5x29,6 cm, 1999

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• ...nascente das palavras e da poesia Têmpera e tinta da China s/ papel, 25,5x16 cm, n.d.

Tinta da china e Têmpera s/ papel, 28x19 cm, n.d.

• Nenhum abismo é intransponível Tinta da china, tempera e colagem sobre papel, 24x18 cm, n.d.


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Tinta da china, têmpera e colagem s/ impressão serigráfica, 22,5x16 cm, n.d.


Perve galeria | Obras em exposição

• Édipo e as esfinge ou esfingimento da esfinge Têmpera e tinta da china s/ papel,30,5x39,5 cm, 2005

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• Um farol Tinta da china s/ papel, 47x44 cm, n.d.

Têmpera e tinta da China s/ papel, 23,5x37,5 cm, n.d.


• Édipo e as esfinge ou esfingimento da esfinge Têmpera e tinta da china s/ papel,30,5x39,5 cm, 2005

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• O Poeta e a Lua Escultura-objecto, 28x16x 3 cm, n.d.

Técnica mista s/impressão serigráfica, 35x25 cm, 2009

• As árvores de um outro mundo Têmpera e tinta da china s/ papel, 21x45 cm, n.d.


Perve galeria Cadavre - Exquis e Cruzeiro Seixas

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No início do Século XX, o movimento Surrealista francês, liderado por André Breton, inaugurou o método de construção de uma obra de arte realizada por dois ou mais autores, a que deu o nome de “Cadavre. Os surrealistas portugueses recuperaram-no e Mário Cesariny apelidava-o de “Cadáver esquisito”, assim como outros jogos sujeitos às regras do automatismo psíquico puro e da actividade colectiva e praticaram-nos activamente, tanto em expressões plásticas como literárias, indo do desenho a quadros de grandes porporções, e da simples frase ao poema extenso. Chegaram, com isso, a alcançar uma riqueza e variedade maiores do que as que se podem encontrar entre os surrealistas franceses. Cruzeiro Seixas, fundador com Cesariny do anti-grupo “Os Surrealistas”, foi um dos mais activos Surrealistas portugueses a praticar este método. São célebres os seus “Cadavre-exquis”. Os que se incluem nesta exposição, em conjunto com Alfredo Luz, Cesariny, Fernando José Francisco e Mário Botas, resgatam o imaginário inscrito nas suas vivências do início dos anos 1970, altura em que regressa de Angola, onde esteve mais de uma década, para se fixar definitivamente em Portugal.

• Cadávre-Exqui (assinaturas no verso) Cesariny | Cruzeiro Seixas , Lápis de cor e caneta s/ papel , 31,5 x 41 cm, 2006

• Cadavre Exquis Cruzeiro Seixas e Mário Botas Técnica mista s/ papel,21x15.5 cm, 1973

• Cadávre-Exqui (assinaturas no verso) Cesariny | Cruzeiro Seixas , Tempera, carvão e caneta s/ papel, 31,5x41 cm, 2006


• Cadávre-Exqui (assinaturas no verso) Cesariny | Cruzeiro Seixas , Lápis de cor, caneta e têmpera s/ papel ,25,5x35,5 cm, 2006

• Pescarias da alma Cruzeiro Seixas | Fernando José Francisco, 24 x30 cm, 2007

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• Cadávre-Exqui (assinaturas no verso) Cesariny | Cruzeiro Seixas | Fernando José Francisco, Lápis de cor e caneta s/ papel , 31,5x41 cm, 2006

• Esperança Cruzeiro Seixas | Fernando José Francisco, 24 x30 cm, 2007

Mário Botas | Cruzeiro Seixas | Fernando José Francisco, Esferográfica s/ papel , 31x24 cm, n.d.

• As descobertas Cruzeiro Seixas | Fernando José Francisco, 24 x30 cm, 2007


Perve galeria

Alfredo Luz | Cruzeiro Seixas, Técnica mista s/ papel, 21x29 cm, 2009

Alfredo Luz | Cruzeiro Seixas, Técnica mista s/ papel ,121x29 cm , 2010

Alfredo Luz | Cruzeiro Seixas, Técnica mista s/ papel ,121x29 cm , 2010

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Alfredo Luz | Cruzeiro Seixas, Técnica mista s/ papel, 21x29 cm, 2009

Alfredo Luz | Cruzeiro Seixas, Técnica mista s/ papel, 21x29 cm, 2009

Alfredo Luz | Cruzeiro Seixas, Técnica mista s/ papel, 21x29 cm, 2010

Alfredo Luz | Cruzeiro Seixas, Técnica mista s/ papel, 21x29 cm, 2010

Alfredo Luz | Cruzeiro Seixas, Técnica mista s/ papel, 21x29 cm, 2009

Alfredo Luz | Cruzeiro Seixas, Técnica mista s/ papel, 29x21 cm, 2009


Alfredo Luz | Cruzeiro Seixas, Técnica mista s/ papel, 21.5x30 cm, 2010

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• Cadávre-Exqui ?


Perve galeria | Obras em exposição

Cruzeiro Seixas | Benjamin Marques, Tinta da China s/papel, 21x 28,9 cm, 2010

Mário Botas | Cruzeiro Seixas | Fernando José Francisco, Esferográfica s/ papel , 31x24 cm, n.d.

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Cruzeiro Seixas | Benjamin Marques, Tinta da China s/papel, 21,2 x 29,2 cm, 2010

Cruzeiro Seixas | Benjamin Marques, Tinta da China s/papel, 21,2x 29,2 cm, 2010

Cruzeiro Seixas | Benjamin Marques, Tinta da China s/papel, 21,2 x 29,2 cm, 2010


Escultura em Bronze (3/7), 46x12,7x9 cm, n.d.

M ú lt i p l o s Artísticos

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Prosseguimos Cegos Pela Intensidade da Luz, Cruzeiro Seixas, 2009, Livro-objecto artístico com 57 páginas em serigrafia sobre papel fabriano de 350g. Edição de 350 exemplares numerados e assinados pelo autor. Acondicionado em estojo de luxo. Dimensões: 25cm x 18cm x 2cm


Perve galeria Multiplos artísticos

M ú lt i p l o s Artísticos

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Imagem da Contracapa - Un couteau pur pinceau | Colagem sobre papel , 29x19 cm, n.d.


Ficha técnica exposição conceito e curadoria | Carlos Cabral Nunes autor | Cruzeiro Seixas design, multimédia e audiovisual | Carlos Cabral Nunes produção executiva e direcção financeira | Nuno Espinho produção, comunicação e web | Graça Rodrigues Assistente de produção | Bruna Pelissari execução gráfica | Nelson Chantre agradecimentos Eurico Gonçalves, António Moreira - Atelier, Verde Alface - Catering, Gracinda de Sousa, Aurora C. Nunes, muito especialmente ao autor homenageado.

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E x p o si ç ã o Obras de

organização

parceiros

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Perve Galeria

Inauguração Simultânea Perve Galeria - Alfama

Abertura ao público: 2ª a Sábado / 14h - 20h

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Homenagem a Cruzeiro Seixas - mostra antológica 1940-2010