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Diziam as lendas antigas que nas noites de sexta-feira 13, as águas escuras do oceano ficavam mais agitadas, e em suas casas as mães recolhiam seus filhos e olhavam assustadas para seus maridos que se preparavam como se fossem para uma guerra. Pegavam arpões e lanças, colocavam dentes de alho em velhos sacos puídos de tecido grosso para sua proteção, calçavam as suas galochas, vestiam suas pesadas capas e partiam para o mar. A maioria das vezes essas famílias eram desfeitas, ninguém sabia bem o que era e o que acontecia, e nem um por que eles tinham que ir. Era como se ouvissem um chamado. Teles, aquilo é uma embarcação? Gritou o capitão de um frondoso navio da Frota Nacional. Ou deveria ser uma, porém estava completamente destruída e não sabiam como não tinha afundado ainda. Suas torres de madeira estavam despedaçadas, o convés uma verdadeira bagunça com pedaços de cordas e correntes, baús e barris, esparramados junto as pilhas de madeiras destroçadas. Procuravam por alguma coisa ou alguém, que pudesse relatar o que tinha ocorrido em mais uma noite enluarada. Ouviram um chiado como se fosse um choro, atrás de um balcão na parte interna da cabine. Ali também tudo estava revirado de cabeça para baixo, como se os tripulantes tivessem tido uma batalha entre si. Parecia que não havia sobrado ninguém, nenhuma alma. No entanto as marcas recentes de sangue contavam uma história sombria. O que pensava o comandante cada vez que um de seus homens gritavam que o local estava limpo? E aquele ruído insistia atrás de um amontoado de cordas e barris, dessa vez de bebidas, pois os poucos barris “inteiros” apresentavam furos e rachaduras e de lá escorriam cerveja, água e conhaque. O líquido apontou para um jovem magrelo com óculos fundo de garrafa. Choramingava e tremia feito uma criança, com o corpo cheio de arranhões e sangue escorrendo de sua barriga. Estava encolhido quase em posição fetal. Não deveria ter mais que 16 anos e não era um homem totalmente formado, mas em tempos assim, qualquer um que pudesse ajudar a enfrentar uma caçada dessas era bem vindo a bordo. Buk "Quatro-Olhos" levantou-se com ajuda e ajeitando o corpo segurando sua dor, apesar que continuava tremendo feito vara-verde, relatou a seguinte passagem: Estávamos felizes cantarolando as cantigas do mar enquanto o capitão guiava o navio Tempestade Vermelha para dentro


do oceano. Íamos atrás desses seres mitológicos. Caçaríamos todas elas e traríamos suas caldas como prêmio. Mas quem iria imaginar que numa noite assim, elas mostravam que eram mais do que os monstros que fantasiávamos. Os olhos do comandante e de seus soldados arregalaram ao ouvir a frase final daquela triste história de uma noite de terror. Elas não eram seres comuns, não eram humanos. Elas eram bruxas-sereias! Buk Quatro Olhos subiu pelo mastro com uma boa agilidade. Se agarrava pelas cordas e usava seu peso pra controlar o impulso. O jovem acabara de completar seu 16° aniversário e pôde escolher entre ir com os mais fortes e corajosos tentar capturar as bruxas-sereias ou ficar no campo, com outro tipo de afazeres. Não pensou muito, desde que nasceu e que se lembra adorava estar com a luneta e subir nas árvores para brincar de pirata e avistar a próxima ilha do tesouro. Gostava de ouvir histórias, coisa que vinha herdada de uma avó que fazia segundo ele, o melhor pão de queijo de todos os tempos. Agora usava o objeto de longo alcance para tentar achar algo além daquele infinito horizonte azul. Muito azul. Sabe qual é a sensação de ser o primeiro a ver algo naquela linha fininha lá ao longe, quase não se diferencia um navio petroleiro de uma ilha. É como se o tempo passasse mais lento, que você vê por fotogramas. Mas não pode piscar, ele dizia entre risadas, senão vai perder o movimento e quando assustar o navio estará fora de alcance de visão. Buk tinha outros delírios com a beleza esfuziante das vistas que podia ter agora. Daquela altura o alcance até o horizonte mostrava uma curvatura que o obrigava a virar o pescoço para procurar. A gávea era circular e o garoto podia dar a volta e ter 360 graus de vista. E ele aproveitava cada momento para rabiscar o que via com anotações e desenhos rápidos registrando como podia, pois era analfabeto de pai e mãe, e o pouco que se esforçava para aprender, recebia ajuda de um sujeito estranho de nariz adunco com um caroço peludo na ponta. Era Sr. Letrasleve, o cartógrafo, e ele sabia ler muito bem. Os dois passavam alguns momentos juntos, Buk cheio de perguntas e com dificuldade de repetir os exercícios de ditado que recebia de seu tutor. Entretanto sempre que podia ele pulava da gávea e com aquele caderno de trapos sentava ao lado daquele velho carrancudo e tomava suas lições com muita empolgação de sua parte. Jamais imaginou uma noite daquelas.


O comandante da Frota Nacional andava de um lado para outro naquele pequeno salão de oficiais, onde o jovem grumete Buk estava sendo digamos, entrevistado por ele e mais dois outros oficiais de alto escalão, sendo um deles do Principal Comando da Nação. Puxava seu fino bigode que adornava com o cavanhaque pontudo, e soltava uns Hmms em meio as perguntas. Você disse que aconteceu alguma coisa, você se lembrou de algo não foi meu pequeno menino? A forma como as palavras chegaram aos ouvidos de Buk fez ele gelar o sangue e sentir seus poucos pelos eriçarem. Sabia que não podia mentir, ele realmente se lembrou daquela figura apavorante, todavia muito sedutora, que com um olhar, deixou ele paralisado acreditando que era amor. Há três semanas ele foi pela primeira vez para dentro de um barco. Sonhou dia e noite com esse momento e se preparou muito para subir no mastro com estilo para que os oficiais e demais tripulantes vissem que não era um marujo bobo, que havia acabado de chegar pro serviço. Ele fora introduzido com um discurso breve e algumas piadinhas sobre a idade e seu corpo magrelo, mesmo assim de boa estatura para sua idade. Não jogava basquete no time da escola por que ao invés de estudar numa sala de aula preferiu estudar ao ar livre, com outros marujos, velhos rabugentos que contavam histórias verdadeiras e mentiras deslavadas, que no fim das contas eram boas lições para aqueles que tinham juízo de entender o que estava nas entrelinhas daqueles contos. Relatou sua história e sobre o terrível ataque que sofreram. Alguém tinha que ter avisado as bruxas-sereias que estávamos ali, por que foi tão de repente, eu tinha acabado de descer do mastro, não havia visto nada por 45 longos minutos, e decidi fazer uma boquinha, afinal já ouviu sobre escorbuto, não é mole não, aquilo mata! Foi quando sentiu a pancada de um pedaço de madeira que havia voado do convés. Ele desmaiou no mesmo minuto, e ao voltar ainda ouviu parte da confusão. Tentou se levantar e cambaleando foi até a escada que dava acesso a proa. Viu tudo revirado no chão, as especiarias que estavam estocadas, alguns sacos de frutas, barris de água e cerveja, varas de pesca partidas em vários pedacinhos e linhas e cordas, tudo embolado e enrolado. A bruxa-sereia saiu de trás de um pequeno balcão de estoque. Ela me viu e se atirou em mim tão rápido que não pude reagir. Senti as unhas rasgarem minha barriga e só consegui gemer de dor. Quando nos encaramos, juro senhor, eu senti um nada tão...


Ele olhou para os homens com a boca aberta mas não saia nenhuma palavra. Tinha ficado mudo por que era essa a sensação, sem forças contra algo que não entende. Sei que ela viu o meu medo, sentiu aquilo. Buk voltou a si... E me jogou para o outro lado, bati minha cabeça e desacordei de novo até me encontrarem naquele momento. Creio eu senhor, que se não fossem por vocês, eu estaria morto. O comandante e os oficiais trocaram olhares e ele soltou um leve sorriso amarelado para o garoto. Qual o seu nome mesmo, perguntou já dando outra volta em seu corpo para continuar sua caminhada pelo pequeno aposento. Eles me chamam de Buk Quatro Olhos Senhor, por causa dos meus óculos, e eu aceito por que sei que sou novo ainda. Mas quando eu tiver mais idade terei o respeito deles, tenho certeza que um dia trarei um rabo de sereia, não, de uma bruxa-sereia, para mostrar que eu tenho valor. Apesar da aparência frangalha ele possuía valentia em seus olhos e gente determinada costuma viver uma vida de mais emoções fortes. O risco daquelas jornadas que ele tinha escolhido já lhe mostrara no primeiro encontro como você deve estar atento para lidar com uma situação tão comprometedora. A vida de todos foi ceifada, fora você, meu garoto sortudo, ninguém mais viveu para contar o que viu. Vamos, desembuche logo. Quando acordei não a vi mais, mas antes do meu ataque, ela segurava um pequeno baú cravado de pedras e um diamante do tamanho de meu punho fechado com uma caveira na frente, para abrir com uma chave, creio eu de aparência antiga. Você não precisa opinar rapaz, só nos conte o que aconteceu e damos por satisfeito. Um dos oficiais cortou a forma prolixa com que Buk desenvolvia seu modo de contar histórias, em certo ponto, afinado dando tempo para rirmos ou sentirmos curiosidade. Mas se enrolar, fica muito chato! Ela jogou o baú e me atacou, logo depois desmaiei. Não sei se pegou o baú. Os homens se olharam e um deles saiu as pressas. Voltou em seguida com mais um outro oficial que foi quem achou Buk desmaiado. Vocês procuraram ou viram algum objeto que chamava a atenção, pelo brilho que tinha. Os homens trocaram olhares ansiosos e o oficial respondeu que ele e seus homens não haviam encontrado nada. Quando Buk percebeu estava com um sujeito um pouco mais alto e encorpado ao seu lado, vestindo em sua roupa as cores da Nação. Em uma galera clássica, ele navegava junto ao Principal Comando da Nação, os


especialistas, os melhores dos melhores marinheiros, militares, caçadores, claro, esses devidamente pagos a parte. Mesmo assim ficou pensando nessa situação, desde bem pequeno, quando estava na banheira fingindo ser um barco que afundava pois a água estava a sua volta, ele se imaginava vestindo as cores dos piratas, e não a dos soldados da pátria. Acho que é uma loucura isso que estou fazendo, sou muito jovem, já vivi essa situação uma vez e essas cicatrizes todas me alertam do como podemos morrer no dia de hoje! Estava com os olhos arregalados e havia umas boas duas horas que estavam ali e não trocaram uma só palavra. O oficial ao seu lado se permitiu um gesto delicado e tentou confortar o jovem Buk colocando uma mão no seu ombro. O garoto não reagiu, ficou quieto forçando a vista, sabendo que a qualquer momento poderia ocorrer um ataque. Já navegavam há dias para dentro do oceano, já haviam cruzado o Recife das Baleias e a pequena Ilha de Cristais de Aquário. Na primeira vez, quando um camarada baixinho e calvo com um lenço amarrado de lado na cabeça e com um protuberante dente superior sendo palitado por grossos dedos peludos chegou na porta de sua casa com um papel amassado. Parecia um "anão" de um livro de fantasia. Mas era real, Buk não conteve o sorriso e abraçou e dançou com esse sujeito que até que era gente boa. Deu a notícia e seguiu seu caminho sem mais delongas. O garoto virou grumete naquele dia, e estava na gávea de um belo barco de madeira e ferro fundido. Nos primeiros dias soube se situar muito bem, olhando para todos os lados e anotando nem seu caderno sua posição em relação ao que via no horizonte. Tendo o cuidado de anotar detalhes e características, Buk era um sujeito bastante entusiasmado sobre as coisas que iria ver, praticamente tudo seria novidade. Viajaram por dias até o ataque das bruxas-sereias. Ele tem certeza que eram mais de uma pois ouviu gritos assustadores o tempo inteiro, e não eram apenas dos marujos. Agora pela segunda vez, seu corpo alertava mais forte, a cicatriz da barriga repuxava curiosa e ele se encurvava para suportar a dor. Acho que fui envenenado senhor. Desde que fui resgatado nunca me recuperei totalmente. Sinto uma fome danada, e um desejo... Parou de falar quando avistou algo pela luneta. Lá senhor! O Oficial pegou o objeto e levou ao olho direito seguindo o dedo apontado de Buk para o além mar. Alguns segundos foi o suficiente para o som chegar aos ouvidos. A melodia era linda, não sei nem explicar. Alguns falariam que é música élfica, eu


acredito que é música da natureza, o que não deixa de ser élfica também! Paralisado de horror e completamente entregue aos prazeres daquele som, seu corpo amoleceu e Buk entendeu que seria naquele momento o ataque.


Existia uma leve brisa no ar quando Buk acordou. Ele sentiu uma pontada forte na cabeça e tinha escoriações por todo o corpo. Estava deitado com o rosto sobre algumas pedrinhas dentro de uma "caverna" de onde podia-se ver a praia. Sentia-se zonzo e sua visão inteira estava turva. Lançou as mãos no rosto e ficou aliviado de sentir seus preciosos óculos. Ufa! E agora onde estou? Procurou a sua volta e não viu o navio do Principal Comando da Nação e nenhum dos tripulantes muito menos o Capitão. Onde estarão todos? O jovem se pôs em pé e sentiu uma explosão forte na mente e suas memórias vieram à tona. Recordou do momento exato do ataque e de quando a bruxa-sereia havia impedido a sua morte. Não encoste nele! Ela gritou para uma outra que era maior e mais encorpada, mas que não reagiu, apenas deu um guincho como uma fera amarga. Depois olhou dentro dos olhos dele e passou a língua na ponta de seu nariz. Você é meu! E com um sorriso maligno pulou de volta para o mar puxando o braço de Buk, que sem resistência apenas caiu desesperado pois não sabia mergulhar. Debaixo d'água ele viu aquele monstro fazer seu primeiro truque para mantê-lo vivo. A sereia soprou uma bolha que que foi crescendo até cobrir a cabeça dele. Então Buk podia respirar na água como os peixes e ela aumentou o puxão deixando os dois bem próximos. Agarrou-o pela cintura e afundou a toda velocidade. Muito metros abaixo e ele não conseguiu mais distinguir as próximas cenas, como se milhões de bolhinhas invadissem seus olhos. Assim ele percebeu que estava sem a proteção da bolha e ficou desesperado novamente. Começou a engasgar e a tossir água e já não podia sentir nada, seu cérebro foi apagando e ele foi desligando. Ela está aqui! Buk ficou aflito e seu corpo ficou atento. A barriga também doía, ele não tinha ideia se havia quebrado algum osso, mas as dores nos músculos pinchavam e ele podia sentir a cada momento em um lugar diferente de seu corpo. Não havia nada que pudesse pegar para se defender a não ser algumas pedras na praia. Não vou atirar pedras nela, vai ser ridículo! Ele pensou na cena e balançou a cabeça. Também não tinha nada que pudesse carregar como provisão, estava apenas com a roupa do corpo e não usava mais sapatos. É não vai ser fácil, mas preciso sair dessa! Cabaleante ele deu uma volta pela caverna, não vou me aprofundar, vai que elas estão escondidas ai dentro, ou se tem algum monstro pior. Vou dar o fora daqui! Falando sozinho Buk se arrastou até a praia lutando contra seu corpo, ele estava bastante fraco. Caiu na beira mar apoiando sobre as mãos. Fechou


um punhado de areia numa delas e buscou lá no fundo do peito um grito choroso e angustiado. Olhando para trás viu a abertura da caverna, era ampla e não parecia tão profunda. Notou que a ilha também não parecia grande, toda entrecortada com poucas árvores saindo das pedras, essas sim grandes e de diversos formatos, criando um relevo que aparentava ter difícil acesso. Será que alguém sobreviveu? Ele se indagou pensando nos tripulantes e no capitão do navio de novo. Tinha sorte de estar vivo ainda. Depois de presenciar um segundo ataque, ele podia-se dizer um cara afortunado em certas circunstâncias. Outra vez de pé resolveu dar uma volta pela ilha, precisava achar comida, água e um jeito de sair dali. Não havia nenhum destroço de navio pela praia, e ao longe ouvia o barulho de pássaros. Caminhou por um tempo até ver uma ilhota feita somente de pedras a uns 100 metros para dentro do mar. Dá para ir a pé até lá, ele pensou quando reparou que havia alguém sentado em uma pedra mais escarpada. Parecia estar penteando os cabelos e não se via abaixo do quadril. Uma mulher, sozinha! Admirado, ele correu gritando e agitando seus braços, quando percebeu que aquela não era uma mulher qualquer, e dai foi tarde demais. Ela virou-se e deu um largo sorriso. Finalmente você acordou. Por sua causa fiz muitas loucuras meu menino. Segurou o rosto dele entre as mãos. Ele estava paralisado pela beleza dela, sem nenhuma expressão no rosto. Apenas impressionado. Ela falava sem parar, contando para ele todo o caso até então. Por que não me matou? Entre risadas ela disse que ele não serviria de comida pois era muito magrelo, não serviria como escravo para seus apetites carnais pois notava-se que não tinha experiência alguma com mulheres, e também não seria um "protetor" muito útil, não tinha tamanho e não parecia ter força suficiente para um combate. Você é um bibelô, ela disse. Vou te guardar para mim, até você crescer mais e eu poder me utilizar de seu corpo. Horrorizado ele indagou, mas vocês não devoram os homens? Mais risadas e ela explicou mais alguns detalhes do ataque. Nem sempre comemos, sabemos que vocês nos podem nos ser pertinentes de outras maneiras também No entanto meu jovem bibelô, eu briguei com as minhas irmãs por sua causa. Serena queria abrir sua barriga e engolir suas entranhas. Mathilde queria usar seu cérebro nas nossas poções mágicas. Não pude deixar isso acontecer, consegui convencê-las de sua importância aos nossos


planos. Eu quero você para ser meu escravo, você irá atrair outros homens para nós. Não podemos nos colocar em mais perigo, os seus nos caçaram tanto e nossa espécie precisa se recuperar. Não concebemos normalmente, precisamos da semente do macho de sua espécie para gerar nossas crias híbridas. Os de nossa espécie são como peixes selvagens e só servem para uma boa contenda. Não queremos filhos peixes! Ela terminou sua explanação e Buk estava atordoado com tudo aquilo. Nessas épocas em que a pirataria era clássica e desonesta, os corsários eram considerados o lado ruim pela classe burguesa, entretanto eles tinham estilo, eram bastante ousados e sempre sedutores. Suas roupas mendigavam por uma costura, uma limpeza simples com uma escova que fosse, e estariam fardados como qualquer oficial do Principal Comando da Nação. O Capitão surgiu no meio dos destroços de seu indômito navio. De onde estava a cena pode ser descrita como um homem forte e triste que sobreviveu como que por milagre. Retirou um pedaço de beiral da cabine que atravessava seu caminho e ergueu o corpo completamente ferido. Sentiu uma pontada no braço direito, uma fisgada no pescoço e as pernas estavam pulsando na altura das coxas. Cambaleante foi até o que seria a proa e recostou-se em uma parte da grade de madeira que estava inteira. Olhando o horizonte soltou um grito de raiva, mais forte do que a dor que sentia e jurou vingança contra aquelas monstruosidades. Não pode acreditar no que veio na sequência, avistou uma embarcação se aproximando e quem estava na gávea. Sim, o garoto encrenqueiro das aventuras passadas com aqueles óculos grossos. Ele nos trouxe até os monstros em uma oportunidade, vai me levar até elas de novo. E desta vez estarei melhor preparado, juro pela minha unidade de comando, irei vingar cada um dos meus homens e trarei os rabos dessas malditas "mulheres-peixes" de uma vez. O Capitão foi então resgatado por um navio mercante, homens de diversas estirpes estavam a bordo e vieram procurar pelas embarcações destroçadas para ver se ainda teria alguma pessoa viva. Aportaram na praia de Bela Mar, um vilarejo pequeno e totalmente devoto ao Principal Comando da Nação. Os moradores eram humildes pescadores que haviam recebido novos barcos e equipamentos para pesca, e para tanto faziam vista grossa às estripulias que os oficiais participavam noite adentro com as mundanas no único bar da região. Ali também eram feitas algumas


reuniões clandestinas para as conspirações de poder do Capitão e seus homens. E em teoria essas conversas não chegariam ao ouvido dos Governantes Imperiais da Nação. Ao atravessar a porta, o Capitão foi até o balcão do bar e falou no pé do ouvido com um sujeito de ombros largos e cabeça quadrada que lembrava um ogro, caso você já tenha visto algum sabe bem como é. O homem se retirou limpando as mãos em um trapo sujo e jogou no balcão. Alice, o ogro chamou uma mulher que usava bandana vermelha sobre os cabelos também vermelhos. Cochichou algo para ela e com um ar sério ela se retirou do bar sumindo por alguns instantes, E lá estava Buk, o jovem que se metia em encrencas sem saber como, tinha as mãos amarradas para trás e dois trogloditas, um de cada lado para assegurar que não fugiria. O Capitão se aproximou já todo enrolado com faixas e curativos pelo corpo. Maria Gancho é a senhoria desse bar, é uma velha amiga, e conseguiu me deixar quase novo, não acha meu jovem? Perguntou com um sorriso feio na cara, de onde seguia uma cicatriz saliente. Ele apontava para o outro lado onde uma senhora baixa e gorda usando um vestido florido que a deixava parecida com um botijão de gás, atendia mais um freguês com um caneco de chope. Por que me prendeu, eu lhe ajudei, trouxe os homens para resgatar o senhor e sua tripulação. O olhar do Capitão para ele foi severo. Fez um gesto com a mão e Buk "Quatro Olhos" se calou na hora. O que não entendo é por que você sobreviveu. Participou de dois ataques daquelas coisas, e conseguiu sobreviver aos dois. Um moleque esquálido como você, me conte tudo garoto, quero saber tudo o que viu naquela noite e por que elas te deixaram viver. Ele olhou para o sujeito da direita, tinha uma face torta com um nariz grande que parecia ter levado uma tijolada na cara. O Capitão fez um gesto e o homem tirou um punhal da cintura. Buk esbugalhou os olhos e engoliu seco. Por favor senhor Capitão, eu lhe conto tudo o que quer saber. Nesse momento o ogro levantou o braço e Buk se encolheu todo já sentindo o golpe quando as cordas em seus pulsos se afrouxaram após a navalha afiada passar rente a sua pele. Ufa! Soprou aliviado. Ei Maria, traga um chope para esse garoto. Temos muito o que conversar, pode ser que hoje seu estabelecimento tenha que ter uma hora extra de funcionamento. E voltou a encarar o menino.


Buk não sabia onde estava se metendo. O primeiro ataque ele considerou como um azar danado, mas o segundo, com o que havia ocorrido na Ilha de Pedra, a Bruxa-Sereia disse que havia transformado-o em uma espécie de zumbi. Que em certos momentos iria sentir uma dor que se intensificava e a medida que sua barriga repuxasse sua vontade de sangue seria como a delas. Ele iria atacar para defender sua doutrinadora. Passou a mão na barriga e sentiu uma contração desagradável. Deu uma golada e a bebida gelada desceu cortando sua garganta. Engoliu uma, duas vezes seguidas, goles grandes. Enxugou a espuma com a barra da camisa puída e pensou se poderia contar todos os detalhes, se a Bruxa realmente iria saber caso ele a traísse. Eu não quero ser um monstro Capitão, quero minha vida normal de volta, mas eu posso sentir ela bem aqui. Levantando a camisa mostrou a cicatriz feia, grande e ruguenta. O Capitão prometeu ao garoto que iria ajudá-lo, no entanto era uma troca. Eles usariam o plano da bruxa ao contrário. Buk teria que atrair aqueles seres abomináveis para que o Capitão conseguisse sua vingança, com um detalhe, o baú. Quero o conteúdo do baú. Mas eu não sei onde ela o guarda e nem o que tem dentro dele, o grumete falou já enrolado pela bebida. O Capitão fechou a cara de novo para Buk. Não te importa o que tem lá dentro certo, eu sei e você tem que me prometer que não vai abrir o baú por nada. Vai conseguir ele para mim, e depois atrairá todas aquelas bruxas para que possamos acabar com elas.


Aquele feitiço era muito poderoso. Combinava todos os elementos necessários para uma perfeição mágica. Não sei se sabem disso, mas nem todo encantamento sai 100%, sempre tem uma sequela ou outra. Isso não quer dizer que é ruim. Às vezes nem se nota e passa rápido demais para sentir. Todavia aquela bruxa usou de todos os seus conhecimentos no limite, trabalhou com os melhores ingredientes e executou cada procedimento dentro do padrão de tempo e espaço necessários para que ocorressem essa plenitude. Serena era uma bruxa-sereia e como tal tinha uma sede de sangue e de carne humana, de homens principalmente. Ela era a mais jovem das três irmãs, uma linhagem sobrenatural e milenar, e enquanto fossem bem sucedidas em suas caçadas, iriam viver por mais mil anos. Era também a que maquinava os planos, ela tinha aprendido a controlar seus impulsos melhor que suas irmãs, que se levavam pelo desejo da orgia, de quanto mais sangue, melhor. Serena sabia que em algum momento tudo poderia ruir, de caçadoras elas poderiam se tornar presas. E com os homens indo cada vez mais longe para encontrar a morada das bruxas-sereias, ela percebeu que precisava agir acima de seus estímulos, precisava capturar um deles e transformá-lo em um aliado. Assim elas poderiam continuar suas farturas sem nenhuma culpa. Em sua cabeça vinham os devaneios e ela quase podia sentir o gosto do sangue e das entranhas de seus inimigos, e ela quase entrava em frenesi. A pata traseira esquerda de um coelho branco, a primeira gota de orvalho que nascia na pétala da crisálida rubra acima das rochas, os pelos de um filhote de morcego hematófago, ungüentos de diversos tipos, algumas folhas afrodisíacas, um dente humano de um jovem virgem e o raro solstício de verão e lua cheia ao mesmo tempo. Todos esses princípios alinhados fizeram de Buk um fantoche na mão de Serena. Agora a temível monstruosidade poderia controlar algumas vontades do garoto, e ainda ter sentimentos quase como previsões de seus atos. Ela sabia de sua traição e ele não iria gostar nadinha do que ela estava preparando para ele.


Era mais um dia como outro qualquer. Fez um sol de rachar os ossos da cabeça pela manhã, porém durante a passagem foi ficando mais ameno, e ao final da tarde, com o céu coberto de nuvens roxas e lilás, o sol se pôs atrás daquelas montanhas de pedra e Buk sabia que elas estavam lá ao longe, só lhe observando. E como ele poderia saber de tal coisa, foi a pergunta que o Capitão lhe fez repetidas vezes e o garoto só conseguia ouvir aquele som bem baixinho dentro da sua cabeça. Ele acordou como em qualquer outro dia, teve um café da manhã proveitoso, coisa que não era muito comum e após uma breve entrevista forçada pelo oficial, foi deixado em sua cela. Porém não ficou lá por muito tempo, além de atacar o guarda que estava com as chaves do Quinto Quartel, Buk não sabia como seu corpo agia da forma que agia, no entanto não tinha mais domínio sobre suas mãos, braços, pernas e pés. Ele ouvia alguma coisa que não sabia o que era, no entanto obedecia e conseguiu executar movimentos dançantes para acabar com boa parte da tropa do Capitão e ainda sair ileso. Apesar de ele gritar que não era ele quem estava fazendo aquilo, não soube explicar para o Capitão o que aconteceu, seu corpo simplesmente parou e desfaleceu. Ao acordar no dia seguinte, a coisa se repetiu até que se viu só, nenhum guarda, nenhum oficial, nenhum faxineiro ou cozinheiro, ninguém mais estava de pé, pois Buk havia acabado com todos eles pelas ordens de sua mestra Serena, a bruxa-sereia. Ela queria vingança contra o jovem grumete, mas ao invés de acabar com sua vida, decidiu que ele faria uma bagunça no mundo dos homens. E assim estava feito, agora na praia sentado com um galho em uma mão, desenhava qualquer coisa na areia, abraçando os joelhos com a outra mão. Se sentia triste, pois viu nos olhos do Capitão uma maldade humana, talvez tão ruim quanto a que tinha visto quando as bruxas atacaram os barcos em que estava por duas vezes. Mas maldades de homens davam mais medo por que era ali que ele vivia, naquele meio, com pessoas que se aproveitavam umas das outras, de uma forma muito mesquinha. E elas, as bruxas em teoria, eram alucinações, não deveriam existir, portanto de forma racional, elas poderiam ser fadas mágicas criando feitiços de amor e paz. Mesmo assim, essa conexão com Serena estava atrapalhando seus julgamentos, e hora ou outra se pegava pensando em matar uns dois caboclos e arrastar para o mar para que as aberrações pudessem saciar sua fome.


Ao fugir não levou nenhum corpo, e procurou ficar escondido o máximo possível para que o Capitão ou a bruxa quando voltassem, não o encontrasse. O oficial havia saído para resolver problemas do governo, já se sabia que alguns ataques tinham sido infrutíferos, e duas tropas inteiras se perderam. A pequena população da cidade de El Flores onde ficava seu regimento, estavam apavorados. Ali também no palácio do governo, os ministros o pressionavam em busca de soluções para aquele infeliz problema. Ele teve que inventar mil histórias para livrar sua responsabilidade, mas agora tinha que dar um jeito, ele tinha que evitar novas arremetidas dos monstros e ainda oferecer segurança ao seus ministros e ao povo simples que viviam naquela costa norte do continente. O mar estava tranquilo naquela noite, e era uma noite bem escura. Muitas nuvens cobriam o céu, deixando a lua quieta e sem brilho. Buk viu ao longe, se aproximando compassada, com tons cintilantes de verde e rosa, uma calda que surgia e afundava, provocando pequenas ondas no breu. Ouviu de novo dentro de sua cabeça, um uivo fraco e constante. E pensava estar ficando perturbado, já que durante os dois dias que se passaram, fez coisas que não sabia ser capaz de fazer, e não se lembrava de como, apenas agiu. Estou indo meu servo, vamos acabar com essa história, é chegado o tempo das rainhas tomarem seus lugares. Era uma peça muito bonita. Com certeza havia de ter pertencido a uma rainha, um rei ou algo assim. Era de madeira maciça, e seu topo estava cravado de jóias coloridas. No centro um enorme diamante brilhava. A fechadura era composta por uma caveira dourada. Em seus dentes inferiores havia a abertura para uma chave. Não dava para abrir com magia, muito menos com força bruta. Nem mesmo chaves mestras ou falsificadas conseguiram abrir aquele pequeno cofre. Dusva colocou-a em cima de uma mesa. Olhava fixamente para o objeto e tinha uma raiva muito grande em seus olhos. Nalhi adentrou o aposento e colocou a mão sobre o ombro do raivoso monstro. Ela deixou por uns segundos sentir compaixão, porém como a mais acidulada das três irmãs, se esquivou soltando um som parecido com o de um chocalho de cobra. "Precisamos abrir esse baú. O que tem dentro nos dará mais mil anos de vida. É nosso prêmio por derrotarmos a armada." Independe disso irmã, uma hora ele estaria conosco. O problema é a chave. A lenda diz que somente quem domina os poderes sagrados e tem em sua existência o hibridismo, vindo de lugares


profundos e quietos, como o ventre de uma fêmea, úmido e aconchegante..." Elas se olharam, "poderiam abrir o objeto como fosse e usar de seu poder." Dusva pegou a arca e a lançou na parede. O som seco, e depois o nada. As duas se abraçaram e Nalhi terminou, "precisamos de um escravo, um humano. Ele pode nos conseguir a chave." Dusva levantou a cabeça perplexa. "Serena!" As duas saíram apressadas do cômodo e foram atrás da irmã. "Onde ela está? Onde ela está?" Se perguntaram mas também, nada. Ela foi caçar. Foi atrás daquele jovem estúpido de novo. Ao longe da vista das duas, a calda de Serena brilhava forte. Ela mergulhava e suspendia com força sua traseira, e isso a impulsionava rápido para seu destino. Seu pensamento estava fixo. Ela queria aquele garoto. Ela iria dominá-lo, depois manipular suas vontades, faria ele fazer de tudo para obter a chave. E depois iria arrancar seus membros e comê-los em frente aos seus olhos amedrontados. Vou fazer você sofrer pelo tempo perdido moleque. A bruxa-sereia mergulhava raivosa. Em solo e aprisionado, Buk não podia fazer nada a não ser tentar dominar suas indecentes visões. Pensava em fazer amor com Serena, e ao mesmo tempo em se banhar em sangue. Sangue humano. Em que ele iria se esbanjar rolando seu corpo nu junto ao dela. Seus sentidos estavam confusos. Ouvia ordens do tipo "fuja", "ataque", "defenda-se" e "ataque" de novo, ao mesmo tempo que ia desferindo golpes e derrubando os soldados da Nação. Chegou de madrugada com uma chave distante feita de ouro no bolso e ficou escondido atrás de grandes pedras na praia, com esperança de não ser achado pelo Capitão e seus comandados, ou mesmo por Serena. A Bruxa-sereia está vindo, estou perdido! Foi seu último pensamento antes de sentir o golpe na nuca e desmaiar. Agora Buk estava deitado com a cabeça enfaixada em uma confortável cama de solteiro. Não sabia onde estava, quando acordou abriu os olhos devagar, pois a luz incomodava um tanto. Uma jovem com uma touca na cabeça veio com um pano encharcado de água quente e limpava o rosto de Buk. Não falou nada, e ele também não perguntou nada. Pouco depois entrou um sujeito largo, parecendo um guarda-roupas de tão grande. Tinha um sorriso quando falou "Bom dia pequeno grumete, desculpe o mau jeito mas precisei trazer você para minha humilde casa. Estou a dias te procurando, soube que você também sofreu um ataque das bruxas-sereias".


Ele levantou sua camisa e mostrou a Buk uma cicatriz no mesmo local, na barriga, muito parecida com a que o jovem carregava agora. A coisa complicou, o sujeito disse calmamente. Precisamos fugir! Olhos arregalados para todos os lados, seu braço magrelo naquela mão gigantesca levando-o por túneis debaixo da ilha. "Vamos para o continente. Trouxe você para minha casa por que achei que seria mais seguro. Eu estava no primeiro barco que foi atacado, não creio que se lembre de mim, já que não falou nada". Buk "Quatro Olhos" mal tinha tempo de ajeitar seus óculos e só desviava dos barris e caixas que seguiam pelo caminho. Chegamos a um bote que tenho para, enfim, esse momento. Buk o encarou. Eu sabia que um dia isso ia acontecer garoto. Estava lá naquele maldito navio, as bruxas-sereias atacaram, uma delas tentou fazer comigo o que a irmã fez contigo! Buk usou de uma força que nem sabia que tinha e puxou seu braço. O homem assustado parou de correr e os dois ficaram se encarando por aquele momento lento e terrível que tornam as coisas mais dramáticas do que deveriam ser. Ok te conto tudo mas precisamos alcançar logo o meu barco. Se não chegarmos ao continente, ela te pega! Nesse momento Buk falou algo que deixou aquele cara daquele tamanho bobo feito criancinha. A expressão de incredulidade em seu rosto, só teve coragem de perguntar o por que. Eu não sei. Tenho sentido essa vontade sabe... Buk parou de falar e abaixou os olhos. O sujeito afagou o ombro de Buk e falou para continuarem lá fora. Chegaram ao barco. "E a garota que estava cuidando de mim?" Buk perguntou. É minha filha. O homenzarrão respondeu. Desamarrou a corda e empurrou com força o pequeno monte de tábuas água adentro. Somente um remo e um balde enferrujado de metal. Talvez eu devesse ter cuidado melhor dele. Buk estava amedrontado ali dentro. Mas de verdade não pensei que aconteceria, apenas no dia em que subi naquele maldito navio para fazermos a caçada e levamos aquele choque é que as coisas mudaram... Agora ele era quem abaixava os olhos. Eu devia ter precavido melhor. Buk se ajeitou na tábua que fazia de banco, e sentou-se. Ela não corre perigo? Digo, sua filha? O homem levantou a cabeça e puxou o remo pro seu lado. Uma mulher sabe lidar com uma mulher. Mesmo que ela seja metade peixe. E Buk completou no pensamento, ainda assim era uma mulher. No entanto uma bruxa-sereia não se considerava nem humana, nem outro ser que não algo superior a espécie humana. Serena destruiu o casebre e a filha daquele homem não


sobreviveria para cuidar de seu velho pai. Ela saiu na forma humana de dentro da casa e olhou para o oceano. Pôde ver ao longe a minúscula imagem da embarcação, com os dois sujeitos lá dentro, remando desesperadamente. Ela sorriu de esguelha. Esse jogo de gato e rato, começa a ficar mais interessante... Voltou ao mar e assumiu sua verdadeira forma. Sua calda brilhava mais ainda, ela queria mostrar que os perseguia, que o que eles enfrentariam era como um desses bichos que emitem luz para avisar que são perigosos. Buk sentiu um puxão na barriga. Olhou para o sujeito, nem haviam se apresentado, toda aquela correria e não teve tempo de tirar as mil dúvidas que rondavam sua vida, desde o fatídico primeiro ataque. Eu acho que ela me possui... Falou quase sussurrando e sentiram uma batida no fundo do barco. Os olhos deles ficaram alertas, o fulano levantou o remo para dar um golpe e deixou o braço descer com força na água, espirrando para todo lado o líquido salgado do oceano. Buk recuou e foi agarrado pelas costas. O movimento imprudente do grandalhão fez a água se agitar e a bruxa teve tempo de subir junto com o estouro da água, o homem não foi rápido o suficiente e Buk já estava no mar com a sereia olhando feroz para ele. Não adianta fugir meu jovem, já te disse, você é meu! Ela soltou o garoto e mergulhou. Me ajude, me ajude! Buk gritou em desespero mas só pode ver o barco receber uma, duas batidas e virar com aquele homem gigante caindo na água. A sereia saltou, deu uma piscadinha para Buk e voltou a afundar dando batidas fortes com a cauda. Estava acabado. Ele alcançou o barco virado para apoiar e ficou procurando pelo próximo movimento. Curiosamente a água em seu entorno ficou quieta. Nada se movia. A noite escura, a lua abafada pelas nuvens, ele não ouvia nem via mais nada.


Ao redor de uma antiga e aconchegante lareira, aquelas três pessoas compartilhavam de forma entusiasmada, algumas guloseimas e sucos, histórias de mil sabores diferentes. A conforável sala tinha um sofá xadrez bem judiado pelo passar dos anos, e lá estava sentado o sujeito mais velho. Iluminado por uma fraca luz de um lampião, estaria por volta de seus 82 anos, "humanos". A cabeça com pouco cabelo, e os que sobravam eram brancos e brilhantes. Continuava usando um gorro, não era mais aquele lá de outrora, o que fez desse senhor uma lenda quando jovem. "Ou se não, pelo menos participou de uma boa história", como ele mesmo adorava mencionar. Contava entre uma baforada e outra de um fumo no cachimbo que durava horas, e que deixava o senhor mais relaxado para descrever os "causos" de piratas daquela parte de onde moravam. "Estou aqui a vida inteira, só sai para ir para dentro do mar." Bateu as cinzas na beirada da cômoda esculpida por ele em madeira bruta. Não conheço outras terras, mas tenho uma história linda para contar. Começou com tragédias e guerras, e terminou num grande amor, ou pelo menos de minha parte. Eu acredito que aprendi a amá-la por tolerância. Tornei-me cúmplice e procurei entender o lado delas na situação. Éramos assim também, seres humanos nos achamos racionais por que criamos leis que limitaram nossos extintos. Sentimos fome e vamos ao mercado, mas e se... Comecei a caçar por ela, e a gostar de fazer isso, por que as guerras pararam. Pode parecer loucura, mas no reino animal, os mais velhos se retiram de cena, eles sabem que irão morrer e procuram ir para lugares onde vão fazer sua passagem numa boa. Os doentes bem, vão mais rápido que os sadios, e quem não irá? Se as sereias não comem, elas não podem continuar existindo, é uma lei de sobrevivência que vale para qualquer ser na terra, inclusive nós mesmos. Continuamos matando, mas criamos coisas que façam a dor dos animais serem apaziguadas, ou acreditamos nisso, vai entender. O velho pigarreou e voltou a por o novo gorro. Apontou para o outro ainda pendurado solitário no alto de um cabideiro de madeira entalhado pelas suas próprias mãos. A prova do que eu falo pra vocês jovens, é a mais pura verdade. Sentada num tapete grosso e felpudo, a menina estava fascinada, suas pintinhas no rosto eram parecidas com as do velho, e usava uma coisa de metal na boca, para acertar alguns dentes. Ela falava


engraçado por conta disso. Estava por volta dos 13 anos e era prima em primeiro grau do garoto. Ele era um ano mais novo, e era muito agitado também. Compartilhava o tapete com ela, usando almofadas de um tecido macio e liso. Era ali naquele ambiente contemplativo onde apenas as histórias de seu avô o deixavam quieto por mais de uma hora. Aliás, quando o senhor marujo Buk "Quatro Olhos" sentava para falar, era bem mais legal que ver qualquer filme de terror, romance ou ação de hoje em dia. Imagina os idos de 1720 e alguma coisa, um homem calvo, com muitas rugas na face e cicatrizes pelo corpo que contavam aventuras que eles estudavam em seus livros de escola. Descrevia com detalhes ricos essas situações incertas que havia vivido com a idade aproximada das deles. "Eu era um pouco mais velho que você Anita." Embaralhou o cabelo dela com a mão. "E você homenzinho, ele tirou o pito da boca, pode comprovar essas histórias agora comendo as delícias feitas por sua avó. Serena não envelhecera nada, aliás estava "humana" e muito linda. Vestia um traje longo e escuro e os cabelos acompanhavam, ondulantes pintados como sempre com algumas mechas de cores extravagantes. Dessa vez eram roxas e verdes. Ela estava de costas para os três e misturava algumas coisas numa velha panela de ferro. De vez em quando olhava de esgueira para Buk e tinha uma paixão forte ali. Era para eu ter te manipulado garoto. Era para eu ter acabado com você há tempos. Mas não o fiz. Ainda não sei bem o por que, vi você envelhecer ao meu lado com minha decisão de mantê-lo. E agora sinto uma falta grande e nem se foi ainda. Como isso pôde acontecer?!


As Lendas das Bruxas-Sereias  

As histórias de aventura, romance e fantasia de um jovem grumete apaixonado por um mito do oceano.

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