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ARTE

Hermitage Museu

Com o requinte dos czares e a magnitude da RĂşssia, a essĂŞncia da arte sobrevive aos antagonismos humanos

por Ceura Fernandes - fotos Sergey Fedorov


ARTE

Hermitage Museu

Com o requinte dos czares e a magnitude da RĂşssia, a essĂŞncia da arte sobrevive aos antagonismos humanos

por Ceura Fernandes - fotos Sergey Fedorov


ARTE

Hermitage Museu

Com o requinte dos czares e a magnitude da RĂşssia, a essĂŞncia da arte sobrevive aos antagonismos humanos

por Ceura Fernandes - fotos Sergey Fedorov


ARTE

Há quem o considere o maior museu do mundo, superando até mesmo o mais visitado e festejado de todos, o Louvre, de Paris. Com um acervo de 3 milhões de peças, se ficássemos apenas alguns minutos diante de cada uma delas levaríamos alguns anos para conhecer o conteúdo do Hermitage, o museu russo que surpreende não só pelo volume de seu acervo, mas também pela abrangência e qualidade de suas coleções. Embora não seja prudente afirmar que se trata do mais importante - pois é difícil estabelecer

critérios, quantificar e avaliar bens desta natureza - é absolutamente certo dizer que é um museu que causa impacto pela importância e grandiosidade. O conjunto arquitetônico dos prédios, com a riqueza de estilos e detalhes decorativos internos, já seria um atrativo interessante. Imagine seus ambientes recheados de mobiliários de época, peças raras e obras de arte de clássicos famosos. Acrescente-se a isto narrativas vividas entre suas paredes e que, de alguma forma, influenciaram o fio condutor da História.

Acervo com 3 milhões de peças surpreende também pela qualidade da coleção

Prédio começou a ser construído em 1754, durante reinado de Pedro, O Grande

Sem dúvida, o Hermitage tem sua própria magia. E estes aspectos fazem dele um dos lugares que vale o esforço de vencer a dificuldade da língua e da distância para conhecê-lo. Durante o reinado de Pedro, o Grande, em 1754 , a imperatriz Anna Ioannovna ordenou a construção do Palácio de Inverno, obra principal dos dez prédios que compõem hoje o Hermitage. Às margens do rio Neva, na capital cultural do Império Russo, São Petersburgo, junto ao Mar Báltico, nascia um grande monumento. Outros seis prédios históricos de significativa importância fazem parte: o Palácio Menshikov, o Pequeno Hermitage, o Grande Hermitage, o Teatro do Hermitage, o Palácio do Estado Maior e o Novo Hermitage. Em 1762, Catarina II, junto com o marido Pedro III, tomou posse do palácio. E, já em 1764, tem início a formação de seu acervo, quando a imperatriz adquire uma coleção particular de 225 pinturas flamengas e alemãs, que pertenciam ao berlinense Johann Gotzkowski. A partir daí, começaram a adquirir, e trazer para a czarina, obras de valor artístico de toda a Europa. Além de agradá-la com a arte, isto contribuía também para que a cidade se transformasse num grande pólo cultural e o palácio fosse decorado de acordo com o refinamento admirável do prédio. O Hermitage - palavra de origem francesa que significa lugar de recolhimento, eremitério - continuou, posteriormente, servindo aos monarcas até o início do século XX. Idealizado para que suas grandiosas instalações servissem de principal residência para os imperadores e planejado pelos melhores arquitetos russos e europeus - especialmente italianos - o Palácio de Inverno é o mais importante dos prédios e está intimamente ligado à

criação e evolução do museu. Admirável pelo conjunto de estilos e detalhes, tratase de uma fantasia arquitetônica erguida como uma glorificação da Rússia, quando os czares, seus governantes na época, queriam fazer de São Petersburgo, por meio de construções magníficas, uma das mais importantes capitais da Europa. Por isso a obra empregou cerca de 4 mil pessoas e trouxe os materiais da melhor qualidade disponíveis nos mais distantes lugares do mundo. A suntuosidade de seus recintos nos leva a imaginar como era a vida no Império e talvez a entender melhor o porquê da revolução socialista. Sua história tem passagens trágicas: desde modificações para atender caprichos de seus moradores, de acordo com a moda, as necessidades de cada família imperial, até incêndio e depredação, declínio e abandono. O Palácio de Inverno passou de símbolo de momentos de glória dos czares a quartel general do governo provisório da classe proletária. Em determinado momento, inclusive, parte de seu acervo foi colocada à venda para financiar a Revolução Socialista. Calouste Gulbenkian foi um dos magnatas que adquiriu quadros do acervo do Hermitage. Eles podem ser vistos hoje em Lisboa, no museu da sua fundação. Mas, se o acervo diminuiu por um lado, por outro, voltou a crescer. Os revolucionários que assumiram o poder confiscaram as riquezas particulares dos aristocratas e destinaram seus bens ao museu. Durante a II Guerra Mundial, prevendo-se o pior, utilizaram-se de várias estratégias para salvar seu acervo, como criação de abrigos subterrâneos e transferência de peças para outros locais. Funcionários e voluntários trabalhavam dia e noite para colocar as obras a salvo. Durante momentos mais tensos, cerca

Obras foram transferidas de lugar durante II Guerra Mundial

Hermitage conta com 1.057 salas distribuídas em dez prédios

Pe r f o r m a n c e

ÍDER - Set / Dez 08

103


ARTE

Há quem o considere o maior museu do mundo, superando até mesmo o mais visitado e festejado de todos, o Louvre, de Paris. Com um acervo de 3 milhões de peças, se ficássemos apenas alguns minutos diante de cada uma delas levaríamos alguns anos para conhecer o conteúdo do Hermitage, o museu russo que surpreende não só pelo volume de seu acervo, mas também pela abrangência e qualidade de suas coleções. Embora não seja prudente afirmar que se trata do mais importante - pois é difícil estabelecer

critérios, quantificar e avaliar bens desta natureza - é absolutamente certo dizer que é um museu que causa impacto pela importância e grandiosidade. O conjunto arquitetônico dos prédios, com a riqueza de estilos e detalhes decorativos internos, já seria um atrativo interessante. Imagine seus ambientes recheados de mobiliários de época, peças raras e obras de arte de clássicos famosos. Acrescente-se a isto narrativas vividas entre suas paredes e que, de alguma forma, influenciaram o fio condutor da História.

Acervo com 3 milhões de peças surpreende também pela qualidade da coleção

Prédio começou a ser construído em 1754, durante reinado de Pedro, O Grande

Sem dúvida, o Hermitage tem sua própria magia. E estes aspectos fazem dele um dos lugares que vale o esforço de vencer a dificuldade da língua e da distância para conhecê-lo. Durante o reinado de Pedro, o Grande, em 1754 , a imperatriz Anna Ioannovna ordenou a construção do Palácio de Inverno, obra principal dos dez prédios que compõem hoje o Hermitage. Às margens do rio Neva, na capital cultural do Império Russo, São Petersburgo, junto ao Mar Báltico, nascia um grande monumento. Outros seis prédios históricos de significativa importância fazem parte: o Palácio Menshikov, o Pequeno Hermitage, o Grande Hermitage, o Teatro do Hermitage, o Palácio do Estado Maior e o Novo Hermitage. Em 1762, Catarina II, junto com o marido Pedro III, tomou posse do palácio. E, já em 1764, tem início a formação de seu acervo, quando a imperatriz adquire uma coleção particular de 225 pinturas flamengas e alemãs, que pertenciam ao berlinense Johann Gotzkowski. A partir daí, começaram a adquirir, e trazer para a czarina, obras de valor artístico de toda a Europa. Além de agradá-la com a arte, isto contribuía também para que a cidade se transformasse num grande pólo cultural e o palácio fosse decorado de acordo com o refinamento admirável do prédio. O Hermitage - palavra de origem francesa que significa lugar de recolhimento, eremitério - continuou, posteriormente, servindo aos monarcas até o início do século XX. Idealizado para que suas grandiosas instalações servissem de principal residência para os imperadores e planejado pelos melhores arquitetos russos e europeus - especialmente italianos - o Palácio de Inverno é o mais importante dos prédios e está intimamente ligado à

criação e evolução do museu. Admirável pelo conjunto de estilos e detalhes, tratase de uma fantasia arquitetônica erguida como uma glorificação da Rússia, quando os czares, seus governantes na época, queriam fazer de São Petersburgo, por meio de construções magníficas, uma das mais importantes capitais da Europa. Por isso a obra empregou cerca de 4 mil pessoas e trouxe os materiais da melhor qualidade disponíveis nos mais distantes lugares do mundo. A suntuosidade de seus recintos nos leva a imaginar como era a vida no Império e talvez a entender melhor o porquê da revolução socialista. Sua história tem passagens trágicas: desde modificações para atender caprichos de seus moradores, de acordo com a moda, as necessidades de cada família imperial, até incêndio e depredação, declínio e abandono. O Palácio de Inverno passou de símbolo de momentos de glória dos czares a quartel general do governo provisório da classe proletária. Em determinado momento, inclusive, parte de seu acervo foi colocada à venda para financiar a Revolução Socialista. Calouste Gulbenkian foi um dos magnatas que adquiriu quadros do acervo do Hermitage. Eles podem ser vistos hoje em Lisboa, no museu da sua fundação. Mas, se o acervo diminuiu por um lado, por outro, voltou a crescer. Os revolucionários que assumiram o poder confiscaram as riquezas particulares dos aristocratas e destinaram seus bens ao museu. Durante a II Guerra Mundial, prevendo-se o pior, utilizaram-se de várias estratégias para salvar seu acervo, como criação de abrigos subterrâneos e transferência de peças para outros locais. Funcionários e voluntários trabalhavam dia e noite para colocar as obras a salvo. Durante momentos mais tensos, cerca

Obras foram transferidas de lugar durante II Guerra Mundial

Hermitage conta com 1.057 salas distribuídas em dez prédios

Pe r f o r m a n c e

ÍDER - Set / Dez 08

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ARTE

Beijo de Cupido, de Antonio Canova

Retrato da Dama de Chale Azul, de Thomas Gainsborough

Local tornouse símbolo de grandiosidade e poder ao longo da História

104

Pe r f o r m a n c e

ÍDER - Set / Dez 08

de 12 mil pessoas, passando fome e sede, chegaram a viver no museu para defendê-lo e preservá-lo. No entanto, bombas danificaram o palácio. Atingir o Hermitage, um verdadeiro símbolo de grandiosidade e poder, era atingir a própria dignidade da União Soviética. No final da guerra, voltaram ao museu as obras que haviam sido levadas pelos vagões de trem a lugares seguros. Em 1945 os primeiros Rembrandt foram novamente pendurados nas paredes. Junto com eles, 69 salas foram reabertas. Além disso, com o fim do conflito, os soldados do Exército Vermelho Russo, por onde andaram, tinham ordem de se apossar e de trazer obras para serem incorporadas ao museu. Ignorando os protestos dos organismos internacionais, o governo russo argumentava tratar-se de uma compensação por perdas sofridas com a

ação dos alemães que haviam destruído e roubado relíquias do seu país. Atualmente um dos principais centros de investigação da história da arte e da cultura universal, dividido em vários departamentos - Arte e Pré-História, Arte e Cultura da Antiguidade, Arte da Europa Ocidental, Cultura Russa, Arsenal, Arte Oriental, Numismática, Palácio Menshikov, Conservação e Restauro, História e Restauração de Elementos de Arquitetura, Departamento Educacional, Biblioteca, Departamento de Exame Científico de Obras de Arte, Academia de Música, Depósitos e Centro de Restauro - o Hermitage tem uma coleção com itens de praticamente todas as épocas, estilos e culturas, desde a pré-história até os nossos dias, da história russa, européia, oriental e do norte da África. Com suas 1.057 salas, distribuídas

em seus dez prédios, abriga cerca de 800 quadros de pintura italiana e cem de pintura espanhola que, segundo os entendidos, ficam em segundo plano diante da belíssima coleção impressionista e pós-impressionista francesa. São 36 obras de Matisse, 37 de Picasso, 15 de Gauguin, oito de Monet e quatro de Van Gogh, entre outras. Quinhentas obras representam a coleção holandesa e flamenga exposta no Hermitage, em seis grandes salas. São 37 quadros de Rubens, 22 de Van Dyck e 22 de Rembrandt. Nas palavras de Mikhail Piotrovski, seu diretor, o museu é único no seu gênero, pois as realizações culturais da história mundial estão intimamente entrelaçadas com a história da Rússia. Segundo ele, o espírito dos grandes mestres, famosos ou anônimos, paira nas salas do museu junto com as sombras dos czares e seus cortesãos, dos diplomatas e militares, dos escritores e revolucionários que marcaram ali sua presença. Além do aspecto artístico e cultural, as diversas fases pelas quais passou o museu, de acordo com as mudanças na história da Rússia, têm também ligação com o significado ideológico que a Revolução Socialista representou para todos os povos. Ou seja, ao longo de sua existência o museu sofreu influências de acordo com o contexto e interesses do momento. Em última análise, de diferentes formas de poder, das dicotomias nobreza/plebe, socialismo/capitalismo que dividiu o mundo - e em alguns lugares ainda divide - por muito tempo. Mas a essência do Hermitage, como guardião de cultura dos povos, foi maior. Sua magnitude foi indestrutível. Graças à dedicação e benevolência de alguns, que souberam usar de artimanhas, em períodos difíceis para a arte que

não era vista com bons olhos, mas como luxo supérfluo da burguesia. Ou, então, apenas como símbolo de status. Apesar dos solavancos políticos que se sobrepunham à cultura, seu acervo e seus prédios foram preservados ou, então, depois de destruídos ou, por algum tempo abandonados, puderam ser restaurados com perfeição por artistas e artesãos habilidosos. Portanto, não só de luzes douradas são as paredes do Palácio. Seus espelhos também refletem retratos conflitantes da natureza humana. Hoje, milhares de visitantes vêm do mundo todo para conhecer este monumento histórico. E, ao subir a Escada de Gala do Palácio, podem confirmar que valeu o esforço: ela leva ao alto também o entendimento de quem chega. Diante do encantamento, começamos a elevar a alma num passeio pelo tempo, pelo requinte da arte e da beleza, ali eternizadas em concreto, mármore, ouro, pedras, transcendendo épocas e diferenças sociais. Mas ali não faltam também os cristais e as porcelanas para lembrar as sutilezas da vida e sua fragilidade. Enfim, apesar da ânsia de poder de alguns que se julgavam soberanos, o que ficou foi a essência do Belo e a arte do Ser, manifestada no conjunto da obra deixada por homens ousados e visionários, trabalhadores dedicados e artistas talentosos. O esforço destes diferentes talentos humanos é que tornou possível o Museu. Seus sonhos e a soma de suas diferenças sobrevivem na alma do Hermitage. E esta magnitude sobrepõese a ideologias, catástrofes, guerras e tendências sociais, encantando quem o visita. Por isso, conhecê-lo é sonho mágico para apreciadores da cultura universal. Faz bem vê-lo. Para o alargamento da visão e para o crescimento do espírito.

Napoleão na Ponte de Arcole, de Antoine Gros

Camafeu Gonzaga, século III a.C

Pe r f o r m a n c e

ÍDER - Set / Dez 08

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ARTE

Beijo de Cupido, de Antonio Canova

Retrato da Dama de Chale Azul, de Thomas Gainsborough

Local tornouse símbolo de grandiosidade e poder ao longo da História

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ÍDER - Set / Dez 08

de 12 mil pessoas, passando fome e sede, chegaram a viver no museu para defendê-lo e preservá-lo. No entanto, bombas danificaram o palácio. Atingir o Hermitage, um verdadeiro símbolo de grandiosidade e poder, era atingir a própria dignidade da União Soviética. No final da guerra, voltaram ao museu as obras que haviam sido levadas pelos vagões de trem a lugares seguros. Em 1945 os primeiros Rembrandt foram novamente pendurados nas paredes. Junto com eles, 69 salas foram reabertas. Além disso, com o fim do conflito, os soldados do Exército Vermelho Russo, por onde andaram, tinham ordem de se apossar e de trazer obras para serem incorporadas ao museu. Ignorando os protestos dos organismos internacionais, o governo russo argumentava tratar-se de uma compensação por perdas sofridas com a

ação dos alemães que haviam destruído e roubado relíquias do seu país. Atualmente um dos principais centros de investigação da história da arte e da cultura universal, dividido em vários departamentos - Arte e Pré-História, Arte e Cultura da Antiguidade, Arte da Europa Ocidental, Cultura Russa, Arsenal, Arte Oriental, Numismática, Palácio Menshikov, Conservação e Restauro, História e Restauração de Elementos de Arquitetura, Departamento Educacional, Biblioteca, Departamento de Exame Científico de Obras de Arte, Academia de Música, Depósitos e Centro de Restauro - o Hermitage tem uma coleção com itens de praticamente todas as épocas, estilos e culturas, desde a pré-história até os nossos dias, da história russa, européia, oriental e do norte da África. Com suas 1.057 salas, distribuídas

em seus dez prédios, abriga cerca de 800 quadros de pintura italiana e cem de pintura espanhola que, segundo os entendidos, ficam em segundo plano diante da belíssima coleção impressionista e pós-impressionista francesa. São 36 obras de Matisse, 37 de Picasso, 15 de Gauguin, oito de Monet e quatro de Van Gogh, entre outras. Quinhentas obras representam a coleção holandesa e flamenga exposta no Hermitage, em seis grandes salas. São 37 quadros de Rubens, 22 de Van Dyck e 22 de Rembrandt. Nas palavras de Mikhail Piotrovski, seu diretor, o museu é único no seu gênero, pois as realizações culturais da história mundial estão intimamente entrelaçadas com a história da Rússia. Segundo ele, o espírito dos grandes mestres, famosos ou anônimos, paira nas salas do museu junto com as sombras dos czares e seus cortesãos, dos diplomatas e militares, dos escritores e revolucionários que marcaram ali sua presença. Além do aspecto artístico e cultural, as diversas fases pelas quais passou o museu, de acordo com as mudanças na história da Rússia, têm também ligação com o significado ideológico que a Revolução Socialista representou para todos os povos. Ou seja, ao longo de sua existência o museu sofreu influências de acordo com o contexto e interesses do momento. Em última análise, de diferentes formas de poder, das dicotomias nobreza/plebe, socialismo/capitalismo que dividiu o mundo - e em alguns lugares ainda divide - por muito tempo. Mas a essência do Hermitage, como guardião de cultura dos povos, foi maior. Sua magnitude foi indestrutível. Graças à dedicação e benevolência de alguns, que souberam usar de artimanhas, em períodos difíceis para a arte que

não era vista com bons olhos, mas como luxo supérfluo da burguesia. Ou, então, apenas como símbolo de status. Apesar dos solavancos políticos que se sobrepunham à cultura, seu acervo e seus prédios foram preservados ou, então, depois de destruídos ou, por algum tempo abandonados, puderam ser restaurados com perfeição por artistas e artesãos habilidosos. Portanto, não só de luzes douradas são as paredes do Palácio. Seus espelhos também refletem retratos conflitantes da natureza humana. Hoje, milhares de visitantes vêm do mundo todo para conhecer este monumento histórico. E, ao subir a Escada de Gala do Palácio, podem confirmar que valeu o esforço: ela leva ao alto também o entendimento de quem chega. Diante do encantamento, começamos a elevar a alma num passeio pelo tempo, pelo requinte da arte e da beleza, ali eternizadas em concreto, mármore, ouro, pedras, transcendendo épocas e diferenças sociais. Mas ali não faltam também os cristais e as porcelanas para lembrar as sutilezas da vida e sua fragilidade. Enfim, apesar da ânsia de poder de alguns que se julgavam soberanos, o que ficou foi a essência do Belo e a arte do Ser, manifestada no conjunto da obra deixada por homens ousados e visionários, trabalhadores dedicados e artistas talentosos. O esforço destes diferentes talentos humanos é que tornou possível o Museu. Seus sonhos e a soma de suas diferenças sobrevivem na alma do Hermitage. E esta magnitude sobrepõese a ideologias, catástrofes, guerras e tendências sociais, encantando quem o visita. Por isso, conhecê-lo é sonho mágico para apreciadores da cultura universal. Faz bem vê-lo. Para o alargamento da visão e para o crescimento do espírito.

Napoleão na Ponte de Arcole, de Antoine Gros

Camafeu Gonzaga, século III a.C

Pe r f o r m a n c e

ÍDER - Set / Dez 08

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Museu Hermitage