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azougue, 2014


Coordenação editorial Sergio Cohn Assistência editorial Evelyn Rocha Projeto gráfico Sergio Cohn Capa Tiago Gonçalves Equipe Azougue Barbara Ribeiro, Evelyn Rocha, Tiago Gonçalves e Welington Portella Revisão Barbara Ribeiro e Evelyn Rocha

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ A899c Avelar, Idelber Crônicas do estado de exceção / Idelber Avelar. - 1. ed. - Rio de Janeiro : Azougue Editorial, 2014. 200 p. ; 24 cm. ISBN 978-85-7920-156-1 1. Direito e política. 2. Soberania. 3. Estado. I. Título. 14-16842 CDD: 340.11 CDU: 340.115 14/10/2014 14/10/2014

[ 2014 ] Beco do Azougue Editorial ltda. rua jardim botânico, 674 sala 409 cep 22461-000 - rio de janeiro- rj tel/fax 55_21_2259-7712 www.azougue.com.br azougue - mais que uma editora, um pacto com a cultura


Para Alexandre e Laura Para Camilla


Cortando o tecido dos dias, por Eliane Brum Prólogo e agradecimentos

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Mundo Expatriamento O adeus de Fidel e o legado da Revolução Cubana Paternalismo etnocêntrico e islamofobia Sete teses sobre as ocupações de 2011 O primeiro preso político global da Internet e a intifada eletrônica A desilusão de Jürgen Habermas com a Europa unificada Que não se roube a Salvador Allende seu último gesto

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Estados Unidos Democracia à venda A emergência das forças teocratas nos EUA A derrota no Iraque: o declínio de um modelo Jose Antonio e a fúria contra o outro Três livros sobre o governo Bush As origens da expressão “politicamente correto” Ocupar Wall Street e a luta contra a financeirização do mundo

55 61 67 73 79 87 91

Palestina Mitos e vocabulário da ocupação israelense A limpeza étnica da Palestina Anatomia do sionismo O lobby pró-Israel

97 107 123 129

Brasil Desmemória e oxímoro: para um ensaio sobre o Brasil Sobre A esquerda que não teme dizer seu nome, de Vladimir Safatle Sofismas contra o financiamento público de campanha Uma proposta de ética da escuta para quem não é vítima de racismo

139 145 151 157


Dilma Rousseff e a encruzilhada do desenvolvimentismo tecnocrata Crônica de recentes agressões contra a Amazônia e seus povos Reinaldo, a ditadura militar e a homofobia no futebol Sobre o Ciência Sem Fronteiras Sobre algumas vitórias recentes da luta afro-brasileira A esquerda e a guerra contra as drogas O enigma de Junho: os protestos de 2013 e a democracia brasileira

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Cortando o tecido dos dias Eliane Brum

Temos vivido por espasmos. Essa é uma das marcas dessa época, em que a cada manhã parece acontecer algo histórico, mas com duração de apenas um dia. E logo o acontecimento de ontem é superado pelo de hoje, que será suplantado pelo de amanhã. O que parece grito é som, mas o que diz é ausência. É nesse contexto que as Crônicas do estado de exceção de Idelber Avelar se tornam prioritárias. Ao atravessarem essa condição de anestesia provocada pela repetição, os ensaios deste livro devolvem aos fatos o seu desenho de teia. Restauram as conexões e também as rupturas, retiram o véu que pasteuriza com uma mesma textura o que é diferente. Em uma frase: devolvem o tempo ao tempo. É essa a força do que Idelber escolhe chamar de “textos de intervenção”. Cortar o tecido dos dias para interromper o fluxo de nadas e produzir pensamento. No Brasil atual, sua escrita tornou-se uma dissidência do estado de mesmice, superficialidades e truques que assinala parte dos artigos de opinião publicados na imprensa — assim como do hermetismo igualmente fácil que atinge parte dos ensaios produzidos na academia, às vezes ocultando a falta de originalidade do conteúdo com o empolamento da linguagem. Ao combinar erudição com clareza, aliado a um senso de oportunidade bastante jornalístico, no melhor sentido, os ensaios de Idelber são hoje uma leitura de referência para quem desconfia das aparências e se move por inquietações. Para mim e para tantos, diante da irrupção dos acontecimentos tornouse corriqueiro perguntar: “o que será que o Idelber pensa sobre isso?”. E em seguida buscá-lo na Internet. Não para concordar ou discordar, verbos menos interessantes do que parecem, mas para ampliar as dúvidas e qualificar as contradições. Em resumo, para complicar a vida, uma ação que sempre vale a pena para quem se recusa a ser reduzido à condição de consumidor — ou de produto. É significativo que partedos textos aqui reunidos tenha sido escrita para a internet. Decodificada, a princípio, como um meio para as notícias rápidas 


e curtas, os comentários rasos, a rede vem se tornando um lugar também para a produção e a circulação de textos de profundida de que há muito já não tinham espaço na imprensa tradicional. A internet tem provado que, no atoleiro de informações da vida cotidiana, conquista reputação aquele que se mostra capaz de respeitar a complexidade dos fatos, escrevendo de forma simples — o mais difícil —, mas sem escorregar nas simplificações. É dessa estirpe a notável série de ensaios sobre a Palestina deste livro. No contexto da ocupação da rede, Idelber Avelar, professor de literatura respeitado em círculos acadêmicos, mas circunscrito a uma determinada área de influência, tornou-se uma “voz” amplificada na internet pela força da palavra escrita, que ganhou expressão inédita a partir da primeira década desse século. Sua primeira incursão foi o blog “O Biscoito Fino e a Massa”, que tanto conquistou milhões de acessos como provocou mudanças de rota em sua vida. O espaço foi criado em 2004 pelo inconformismo de Idelber com a cobertura das eleições americanas pela imprensa brasileira, um dos temas desta obra, o que diz bastante da estreia e da inserção de seu autor na Internet. Poucos acadêmicos circulam com tanta desenvoltura pelas redes sociais e as usam com tanta competência quanto Idelber. Em parte, por não ceder a uma visão ingênua sobre o que são, como mostra ao analisar os movimentos de 2011, em diferentes cidades do mundo, e os protestos de junho de 2013, no Brasil. Entre as virtudes de Idelber para a narrativa do hoje está a ausência de dogmas: no mesmo texto, ele tanto pode criticar Cuba como os críticos de Cuba. Essa capacidade de se colocar no avesso e, em seguida, esmiuçá-lo como se avesso não fosse, é um dos prazeres proporcionados por este livro. Como pensador, Idelber mantém-se fiel ao que escreve no artigo sobre a morte de Salvador Allende: “Quando se falsifica a verdade histórica em favor de um projeto político, sacrificase não só aquela, mas também este. A mentira acerca do passado nunca serviu a oprimido nenhum”. Para compreender como Idelber se transformou no que já definiu, com certo humor, como “intelectual público na Internet”, vale a pena fazer um breve passeio pela biografia desse mineiro de Uberaba, depois radicado em Belo Horizonte e por fim em New Orleans. Se não chega a ser uma exceção na paisagem brasileira, é bastante singular. Filho de uma professora primária e de um homem que foi enfermeiro, dono de um depósito de papel velho, porteiro e finalmente desempregado, Idelber teve como primeira expressão pública a vitória em dois quadros do programa de Flávio Cavalcanti, nos

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anos 1970, no período mais brutal da ditadura. Com apenas dois anos e oito meses de idade, quando a TV se consolidava como veículo de massa, ele era o menino prodígio que recitava a escalação de times de futebol e reconhecia escritores célebres por fotografias, anunciando bem cedo que futebol e literatura seriam síntese na sua vida. Foi criança jogando bola em campinho de terra e lendo Dostoiévski e Voltaire, seus preferidos. Ainda com dentes de leite, dava palpites sobre a loteria esportiva num programa de uma rádio de Uberaba. Na adolescência, atuou na Democracia Socialista, organização clandestina de esquerda que se tornou uma das tendências abrigadas no Partido dos Trabalhadores. Aos 16 anos, ganhava a vida como professor de inglês e militava no recém-criado PT, onde dava curso de formação política para operários. Deixou essa militância quase profissional para se dedicar à faculdade de letras na Universidade Federal de Minas Gerais, às peladas de futebol e à torcida do Galo. Acabou desembarcando nos Estados Unidos para um mestrado (Universidade da Carolina do Norte), depois um doutorado (Duke) e, por fim, uma carreira como professor de literaturas latino-americanas na Universidade de Tulane, em New Orleans. Embora tenha apoiado Lula e depois Dilma Rousseff, Idelber tornou-se um crítico consistente do PT no governo, em especial a partir do final do segundo mandato de Lula. Essa abordagem se faz presente em textos sobre o programa Ciência Sem Fronteiras, sobre a “guerra contra as drogas”e sobre a associação com o fundamentalismo religioso que marcou a campanha eleitoral de 2010, assinalando em seguida as relações com o parlamento e as políticas públicas do governo de Dilma. Mas é no tratamento da Amazônia e dos povos da floresta que Idelber se soma a outras vozes na exposição de uma das maiores contradições aparentes do Brasil atual: uma ex-guerrilheira é a executora da política da ditadura para a região. Hoje, Idelber se divide entre Estados Unidos e Brasil. A Internet lhe permitiu, parodiando uma de suas expressões, nem estar completamente lá nem completamente aqui quando em um e outro lugar. A vantagem dessa condição se revela particularmente em alguns momentos dessa obra. Como ao mostrar até que ponto o Wikileaks testa os limites da liberdade de expressão nos Estados Unidos, expondo a famosa Primeira Emenda como uma ficção, ou como “o etnocentrismo ocidental se perpetua com o argumento de que é necessário salvar os outros de si próprios”. Ou ainda em sua abordagem da “desmemória” como eixo da História do Brasil, um processo mais complexo do que o esquecimento. 


Em Crônicas do estado de exceção, os textos formam uma trama. Ampliam, pelo diálogo entre eles, o sentido individual de cada um. Mas cada ensaio é também um corte, obrigando o leitor a desacomodar seu olhar pela ausência de padrões e lugares-comuns que o confortem. Nesse livro, não há segurança para o pensamento.

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Prólogo e agradecimentos

Este livro reúne ensaios inéditos e versões ampliadas de escritos publicados nos últimos três anos, tanto na Internet como na revista Fórum e na Folha de S. Paulo. O meu propósito não foi compor uma galeria aleatória de textos desconexos. Apesar de lidar com temas bastante diversos, os ensaios têm em comum a preocupação com os lugares que ocupam, nas democracias modernas, os procedimentos de suspensão da própria democracia e as iniciativas de resistência a eles por parte da cidadania. Os trinta e dois textos se dividem em quatro seções, sobre quatro dimensões do que poderíamos chamar o estado de exceção contemporâneo: a paulatina desmontagem da democracia nos EUA pelo poder do dinheiro e pela ação do aparato de guerra, desde as reiteradas suspensões da legalidade a partir do 11 de setembro de 2001 até as poderosas e imprevistas manifestações do Ocupar Wall Street em 2011; a colonização israelense dos territórios palestinos, com tratamento dos antecedentes históricos, da responsabilidade ocidental e da participação brasileira; a resistência às suspensões ou limitações da democracia no Brasil, da ditadura militar às manifestações de 2013, passando pela luta dos amazônidas em defesa da floresta; as operações do estado de exceção em momentos específicos da História recente da América Latina e da Europa, da derrubada de Salvador Allende aos movimentos de ocupação de 2011. Em todos os casos, trata-se de textos de intervenção sobre conjunturas específicas, mas que mantêm o propósito de dizer algo para além delas e que foram reescritos com esse objetivo em mente. Camilla Magalhães Gomes foi a primeira pessoa a ver nascer este livro e contribuiu com ele de mais maneiras que eu seria capaz de nomear. A ela e a meus filhos, Alexandre e Laura, o livro é dedicado. Apenas três dos textos que seguem tiveram alguma existência em versão anterior no meu primeiro blog, O biscoito fino e a massa (disponível em: <http://idelberavelar.com>), mas foi lá que se gestou a escrita que apresento aqui. Sou grato a um grupo 


enorme de leitores e interlocutores daquele espaço, em especial a Alexandre Nodari, Flávia Cera e Renata Lins. Na universidade brasileira, a interlocução de uma série de colegas tem sido decisiva, mas não posso deixar de mencionar a generosidade de Jaime Ginzburg, César Geraldo Guimarães e Regina Dalcastagné. Luiz Antonio Simas e Eduardo Viveiros de Castro inspiraram o capítulo “Desmemória e oxímoro” e a amizade deles continua inspirando muito mais. Sou grato a Ana Maria Gonçalves, que revisou as primeiras versões de vários destes ensaios, e à revista Fórum, que foi a primeira morada de outros tantos. Alguns destes textos foram escritos enquanto eu desfrutava a hospitalidade de Ivan e Hélia Gonçalves, em Três Corações, e a eles sou muito grato. Os textos sobre o Brasil se nutriram da recente e fecunda interlocução de Marcos Nobre e Eliane Brum. Constantes referências minhas para tudo o que se refere ao Direito são Pádua Fernandes, Moysés Pinto Neto e Deisy Ventura, e que Deisy tenha gostado de uma versão anterior do capítulo três é uma honra. A interlocução e a hospitalidade de Rondinelly e Zé Márcio no sertão e no litoral da Paraíba ecoam em vários trechos do livro. As passagens que se referem à Amazônia se apoiaram no trabalho de inúmeros especialistas, jornalistas e lideranças indígenas, mas tenho uma dívida de gratidão especial com Helena Palmquist. Os textos sobre a Palestina Ocupada se nutrem de uma rede de interlocutores cujos nomes prefiro omitir, por medo do que uma menção lhes possa custar. Mas minha dívida com a escritora palestina Susan Abulhawa é imensa. O capítulo sobre futebol deve agradecimentos especiais aos amigos José Miguel Wisnik e, in memoriam, Sócrates Sampaio de Souza Vieira de Oliveira. Beatriz, Charley, Alysson e Larissa Avelar têm sido companheiros de jornada durante toda a vida e suas marcas estão presentes aqui. Também as marcas de Nara Lemos se fazem sentir em vários textos. Uma rede de interlocutores chilenos tem me presenteado com sua hospitalidade ao longo dos últimos vinte anos. Citá-los todos seria impossível, mas é grande o meu débito com Willy Thayer, Nelly Richard, Pablo Oyarzún, Federico Galende, Néstor Sepúlveda, Claudio Ibarra, César Pérez, Sergio Parra e Rodrigo Karmy. O livro se nutre de um enorme círculo de amigos no ativismo e na reflexão intelectual realizada na Internet. Agradeço em especial a interlocução oferecida ao longo dos anos por Vanessa Rodrigues, Fal Azevedo, Luiz Biajoni, Júlia Moita, Cynthia Semíramis, Camila Pavanelli e Eduardo Sterzi. Certamente omitindo muita gente, agradeço a inspiração oferecida em uma ou várias ocasiões por Veronica Stigger, Vincent Carelli, Felipe Milanez,

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Túlio Vianna, Fabiana Motroni, André Vallias, Bruno Cava, Júlia Porto, Paulo Candido, Nelson Moraes, Cynthia Feitosa, Verena Glass, Fabiano Camilo, Débora Vieira, Augusto Mozine, Ronaldo Bressane, Gabriel Divan, Adriana Torres Ferreira, Bob Fernandes, Felipe de Carli, Carla Garcia, Diego Cervelin, Raquel Moreira, Fabiano Calixto, Carlos Henrique Schroeder, Fernando Bastos Neto, Lucas Morais, David Butter, Celso de Barros, João Villaverde, Altino Machado, Marcelo Sá de Sousa, Márvio dos Anjos, Aline Lima, Silvio Pedrosa, Magno Karl, Juliana Sampaio, Laura Guimarães, Sabrina Aquino, Raquel Azevedo, Juliana Fausto, Lauro e Tiago Mesquita, Deborah Danowski, Felipe Corazza, Ana Torres, Bruno Borges, Luis Fernando Tófoli, Marjorie Rodrigues, Pablo Ortellado, Adriano Pilatti, Susan de Oliveira, Daniel Nascimento, Iara Paiva, Iara Ávila, Ana Paula Medeiros, Fernanda Marra, Bruno Bimbi, Renato Rovai, Bianca Cardoso, Kristhianne Schornobay, Marcelo Caetano, Thiago Candido, Glauco Faria, Hugo Albuquerque, Cláudio Costa, Milton Ribeiro, Douglas Ceconello, Daniel Cassol, Viviane Vê, Ricardo Cabral, Raphael Neves, Mauricio Santoro, Patricia McQuade, Álvaro Costa e Silva, Vinicius Duarte, Luciana Nepomuceno, Pedro Moraes, Yuri Herrera, Rebecca Atencio e Christopher Dunn. Devo um agradecimento especial a Sergio Cohn e à Editora Azougue, pelo interesse no projeto desde o primeiro minuto e pelo belo trabalho editorial, e a Evelyn Rocha, pela primorosa revisão.

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Expatriamento

A reunião de expatriados corre o perene perigo de fundar estranhas seitas dedicadas a render culto a uma identidade perdida que nunca existiu. Nestes 24 anos de residência nos Estados Unidos, tenho cultivado muitas amizades brasileiras, participado cada vez mais em debates especificamente brasileiros e ao mesmo tempo me tornado cético e cínico quanto ao poder simbólico, ou mesmo imaginário, dos rituais de recuperação retrospectiva da identidade. Exilada no México durante as duas últimas ditaduras em seu país (1966-73 e 1976-83), a escritora argentina Tununa Mercado nota, em um belo livro intitulado Em estado de memória,1 que os argentinos que mais se queixavam da obsessão carnívora da cozinha de seu país foram aqueles que, uma vez no México, entraram em depressão pela falta do bife de chorizo e do doce de leite. De volta à Argentina durante a redemocratização, eles passaram a arrastar-se na saudade do chile chipotle mexicano que, no exílio, suportavam como um mal necessário e que agora era impossível encontrar em Buenos Aires. Se não se cuidar, o expatriado vira um mero projétil nesse monótono pingue-pongue do imaginário. No caso do brasileiro, a coleção de símbolos reunida pelo expatriado exerce um poder considerável. Os membros dessa curiosa nacionalidade, que não possuem um biótipo ou um padrão étnico definidos, reconhecemse com facilidade estonteante no exterior, antes da emissão de qualquer signo verbal. A identidade nacional é uma construção imaginária e muitos já notaram essa obviedade. Mas entre os que se dedicaram a desvendar o fundamento imaginário da pertença nacional, poucos foram capazes de explicar como e por que esse sentimento continua exercendo atração tão poderosa no caso brasileiro, dentro e fora das fronteiras nacionais. Ao contrário de um colombiano, que ao se encontrar no exterior com um compatriota tenderá a se identificar imediatamente como originário de uma 1 MERCADO, Tununa. Em estado de memória. Trad. Idelber Avelar. São Paulo: Record, 2010.

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determinada região (Caribe, Cauca, Antioquia, Andes), às vezes até antes do mútuo reconhecimento nacional, um brasileiro expatriado em geral só se identificará com algum estado ou região a posteriori. O poder da identidade nacional é mais unificado que o da colombiana, exerce um poder de tração bem mais considerável e tende a ser anterior à identificação com a região. Em duas décadas e meia de residência nos EUA, não me lembro de ter sofrido qualquer ato de xenofobia, fato menos atribuível à minha condição de brasileiro do que às de branco, universitário e falante de inglês desde a pré-adolescência. Se nunca topei com xenofobia, no entanto, a estereotipia nacional tem sido companheira constante. Ninguém estranharia que um holandês se dedicasse a estudar literatura alemã, mas a frase “você, brasileiro, escreve livros sobre literatura argentina?” já me foi lançada em mais tons do que eu seria capaz de reproduzir. Recentemente, um antropólogo norteamericano que visitava minha instituição não conseguiu se conformar com o fato de que eu, “um brasileiro”, me comunicasse sem dificuldade em outras línguas e me dedicasse a escrever sobre temas tratados por filósofos europeus e não a estudar a capoeira. A compartimentalização da que foi vítima o colega — que estuda, diga-se, o Brasil — é fruto da notável atração que exercem certas fábulas identitárias brasileiras e seria impensável, por exemplo, para um canadense ou um sueco. Mais que os hispano-americanos, nós brasileiros cultivamos uma imagem nacional que não se subsume sob qualquer outra categoria. Poucos brasileiros se identificariam como latinos ou sul-americanos antes de se apresentar com uma referência à sua nacionalidade. Não é assim necessariamente com um salvadorenho ou um peruano. Ao contrário dos mexicanos, nós brasileiros vivemos com datas e símbolos oficiais pátrios quase desprovidos de conteúdo: carente de heróis, de guerras de independência, de figuras populares vitoriosas e de revoluções bem-sucedidas, o Brasil tem uma relação cínica com a memorabilia oficial da identidade pátria. Não conheço brasileiro — civil, pelo menos — para quem o Sete de Setembro tenha qualquer densidade simbólica que vá além do feriado escolar ou laboral. A força da identidade nacional brasileira passa por outro lugar. Aos olhos de um brasileiro, a relação dos sujeitos mexicanos com a simbologia oficial do país parece uma bizarra história em quadrinhos na qual todos representam uma espécie de teatro da credulidade, inimaginável para nós. Os símbolos pátrios têm peso e densidade simbólica e a crença neles e talvez também o fundamento histórico dessa crença, é real, realíssimo. Neste sentido, o México se parece muito mais, sem dúvida, com os Estados

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Unidos que com o Brasil. Sempre me assaltou a sensação de que, mesmo entre poloneses monoglotas, eu sinto mais comunhão e identificação que no México, apesar de eu ser fluente em espanhol e analfabeto em polonês. Isso não me impede de admirar a notável cultura mexicana, é evidente, mas há que se observar que o nosso senso de nacionalidade passa por um registro que contrasta com o deles. O registro brasileiro é irônico, de autocrítica. A mais essencial comunhão da brasilidade consiste na conversa sobre quão esculhambado é o Brasil. Apesar de que o sentimento de pertença nacional e identidade é forte entre nós, as relações mais típicas do brasileiro com os símbolos oficiais da nacionalidade são de distância irônica, de crítica, de indiferença ou de deboche. Exceto para o brasileiro nostálgico. Ah, expatriado com saudade não brinca de ser brasileiro, não! Mesmo formado com Iron Maiden ou a vanguarda paulistana, ele não se furtará a demonstrar que sabe os passos do samba. Ainda que, em terras brasileiras, tenha pertencido à minoria que odeia futebol, ele se vestirá de verde e amarelo nas Copas do Mundo. Conhecedor da violência urbana carioca ou paulistana, ele se revoltará contra editoriais, reportagens ou filmes estrangeiros que a retratem. Esse tipo de expatriado é o brasileiro que se torna (imaginariamente) brasileiro no exterior. Mas a emigração também produz outra forma de expatriado, o “bem-adaptado” que já não “entende” como é possível viver com um salário brasileiro, “esquece” palavras em português e vocifera receitas econômicas fáceis, que funcionaram, garante-nos, em outros lugares. Esse personagem vai tecendo uma identidade híbrida, baseada em um pastiche de valores aproveitados da terra adotiva e em uma brutal simplificação metonímica de traços do país de origem. É o brasileiro que (imaginariamente) deixa de ser brasileiro no exterior. Ninguém escapa a essa dialética, mas estar consciente dela é um primeiro passo para manter relações menos especulares, automáticas, raivosas ou ideológicas com um desarraigo que, a partir do expatriamento, é irredutível e irrevogável. Sim, aplica-se ao expatriado, mais que a qualquer um, o dito de Heráclito sobre a impossibilidade de banhar-se duas vezes no mesmo rio. Mesmo que você volte, a coxinha com guaraná jamais terá o mesmo gosto. Constatar, inclusive, que ela não tem o gosto fantasiado no exílio é parte fundamental do aprendizado de ser brasileiro, em uma época, afinal, em que nem nós estamos completamente aqui nem vocês estão de todo aí.

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O adeus de Fidel e o legado da Revolução Cubana

Um certo professor de literatura cubana de uma universidade pública da Flórida preparava seu histórico de pesquisa e magistério para apresentar aos comitês avaliadores que decidiriam sobre seu tenure, a estabilidade no emprego que, nas universidades dos EUA, conquista-se (ou não) depois de um período probatório de sete anos. Filiado à semiótica, a chamada ciência geral dos signos, método de leitura bem formalista, o trabalho do docente era completamente apolítico. Popularíssimo como professor, com excelentes avaliações, amplo leque de artigos nas revistas mais conceituadas, dois livros publicados (o requisito para a promoção e a estabilidade costuma ser um livro), ele foi aprovado em uma votação unânime do departamento. O dossiê seguiu para a esfera superior, a do college, e também ali ele foi aprovado por unanimidade. O reitor da universidade corroborou, como é de costume, a decisão dos especialistas. Só ficou pendente o carimbo do governo estadual, coisa absolutamente proforma nas universidades públicas estaduais dos EUA. Foi quando um setor da comunidade cubana de Miami entrou em ação. Protestos e abaixo-assinados pediam que o governador cancelasse a promoção do docente com um curiosíssimo argumento: o fato de que ele não lecionava a literatura do exílio cubano em suas aulas era uma violação do direito de livre expressão da comunidade exilada. Um caso comum e corrente de avaliação acadêmica transformava-se em uma estranha guerra política. Foi a primeira aula que tive sobre o que o setor mais ruidoso da comunidade cubana exilada em Miami entende por livre expressão. Seus métodos, que nos EUA têm bastante em comum com os do lobby pró-Israel, colocam boas dúvidas sobre seu compromisso com a democracia, que tanto apregoam querer trazer de volta a Cuba. O tenure foi revertido e a carreira do profissional foi destruída. O segundo caso é curioso e aconteceu comigo. Passeando pelo centro de Miami, lembrei-me de que havia uma notícia argentina que eu queria 


conferir, já não me lembro se política ou esportiva. Parei em uma banca de jornal e vi o Página 12, que na época ainda não havia se convertido no portavoz extraoficial do kirchnerismo. Como sabe quem o lê, trata-se de um jornal que está, digamos, um pouco à esquerda da Folha de S. Paulo. Não é, nem de longe, um jornal “comunista”. Pedi um exemplar ao cubano que estava na banca e lhe estendi uma nota de dez dólares. O sujeito de imediato iniciou uma diatribe inesquecível: “¿Qué quiere Usted con este diario de comunistas? ¿Qué va a hacer con un periódico de comunistas? ¿Por qué leer estas cosas de comunistas?”. Perorando com a velocidade de um locutor de corrida de cavalos, o cabra inseria o termo “comunista” a cada três palavras. Eu o olhava atônito, sem acreditar que, em nome do capitalismo, ele se recusava a me vender um produto da sua própria banca de jornais! Era uma mistura de Fellini com o teatro do absurdo. Em geral, evito esses confrontos, mas decidi que não sairia dali sem meu exemplar do Página 12. Coloquei a nota de dez dólares no bolso, tirei o dinheiro trocado, enfiei o dinheiro na mão dele, esperei que ele terminasse e peguei o jornal. Foi uma das perorações mais surreais que já vi. Conto os casos para ilustrar a imensa falta de credibilidade de boa parte dos que gritam por democracia em Cuba. O problema é que, do outro lado, na esquerda, a situação é bem problemática também. Tenho amigos que até muito recentemente diziam que “essa história de presos políticos em Cuba é propaganda”. Movida pela compreensível solidariedade a uma Revolução acuada e sabotada e pela indignação com as centenas de tentativas norteamericanas de assassinato a Fidel, a esquerda fez vista grossa a uma situação indefensável. Agindo assim, também perdeu credibilidade. Cuba se transformou em uma espécie de espelho distorcido no qual cada um projeta a imagem que já traz de antemão. Amigos de esquerda viajam à ilha, cumprem o roteiro oficial sugerido pelo governo e voltam com relatos sobre um povo muito orgulhoso do que fez. Os relatos que escapam do itinerário oficialista trazem outra realidade: a da quase prostituição das relações pessoais com estrangeiros e as limitações à liberdade de expressão e de associação. Aí não posso deixar de lamentar que as pessoas dedicadas a defender a Revolução Cubana — causa mui legítima — não mencionem o fato. As discussões terminam na mesma ladainha: os defensores mencionam a educação e a saúde; os detratores citam a falta de imprensa livre e os presos políticos. Ambos têm razão. Ambos vão perdendo a razão na medida em que se recusam a olhar a coisa de uma maneira mais tridimensional.

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Não há dúvidas de que o bloqueio dos EUA tem um papel no quadro que vemos hoje. Mas também é fato que em 1965, quando o bloqueio ainda não havia tido grande impacto, o Comitê Central do Partido Comunista já discutia se autorizava ou não a publicação de uma obra prima como Paradiso, de Lezama Lima (um extraordinário escritor que jamais saiu da ilha, talvez o maior escritor cubano de todos os tempos). No final das contas, a obra foi publicada, mas o próprio fato de que a discussão tenha existido já indica que a vertente autoritária é bem antiga. Quando se revela ao mundo, no começo dos anos 1970, que a perseguição aos homossexuais é política estatal explícita, fica sacramentado que qualquer visão emancipatória, libertária da situação cubana não poderia omitir esse fato. Conta-se que nos anos 1960, foi dirigida ao Premiê Zhou Enlai a pergunta acerca do que ele achava da Revolução Francesa. A resposta foi lapidar, pura sabedoria chinesa: “Ainda é muito cedo para saber”. Não há frase mais perfeita para definir o legado da Revolução Cubana. Sou defensor intransigente da soberania dos povos e inimigo declarado de qualquer intervenção estrangeira, em Cuba ou em qualquer lugar. Denuncio o indefensável bloqueio norte-americano em todas as oportunidades possíveis. Mas não vou maquiar o sofrimento alheio por preguiça de repensar a derrota de um sonho.

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Paternalismo etnocêntrico e islamofobia

No dia 14 de setembro de 2010, o Senado francês aprovou uma lei que proíbe a cobertura do rosto nos espaços públicos, ratificando legislação aprovada pela Assembleia Nacional em 13 de julho do mesmo ano. Apesar de que a lei não fazia qualquer referência ao Islã e também bania outros tipos de cobertura facial além da burca e do niqab, o contexto no qual ela era aprovada nitidamente sugeria um ataque à comunidade muçulmana do país. Em nove de abril de 2011, aconteceram as primeiras prisões de mulheres por violação da lei. Observei os intensos debates que a lei provocou, mas não me pronunciei na época. É o momento de tecer algumas considerações sobre ela a partir de um exame mais detido do contexto francês e ocidental de hoje. Confesso que me espantou a rapidez com que várias pessoas de minha amizade se pronunciaram em apoio à lei de Sarkozy na Internet brasileira, em alguns casos decorridas menos de 24 horas depois de sua promulgação e, em sua totalidade, sem qualquer consideração do histórico recente de islamofobia na França, óbvio marco no qual se insere a lei. Nenhum dos artigos que li na Internet brasileira em defesa da lei mencionava alguma escuta da opinião daquelas que são afetadas pela legislação, as mulheres muçulmanas. Os argumentos em defesa da lei eram previsíveis: as roupas também podem ser uma forma de opressão, as mulheres islâmicas com frequência são obrigadas por pais e maridos a utilizar a burca ou o niqab, os véus são parte de uma lógica machista. Todos são, ou podem ser, argumentos verdadeiros. É claro que um sujeito moderno razoável não se oporia à intervenção legal contra homens que obriguem suas cônjuges ou filhas a utilizarem o véu (ou qualquer outra vestimenta, diga-se). O salto lógico que a defesa da lei não conseguiu efetuar com eficácia é como passamos disso ao apoio a uma penalização estatal às mulheres que escolhem vestir a burca ou o niqab. 


A melhor tentativa que encontrei de realizar esse salto lógico foi a reiteração do argumento de que não há escolha de verdade no caso do véu islâmico, posto que as mulheres são condicionadas pela lógica machista e seriam, portanto, vítimas da cultura que lhes impõe essa prática. Segundo esse raciocínio, essas mulheres não teriam escolha efetiva. Nenhum dos textos brasileiros mencionou qualquer tentativa de consulta às mulheres islâmicas acerca desse curioso pressuposto, o de que o livre-arbítrio é exercido pelas mulheres que escolhem utilizar crucifixos, mas que aquelas que optam pelo niqab são vítimas de sua cultura. Nenhuma das defesas da lei de que tomei conhecimento parece ter suspeitado da contradição entre esse pressuposto e o fato de que a maioria das mulheres islâmicas não usa a burca. Algumas islâmicas são vítimas de sua cultura, mas a maioria não o é? Dizer que o crucifixo não fere a integridade física da mulher como faz a burca não resolve o problema teórico: o conceito de livre-arbítrio no Ocidente é inseparável de uma história etnocêntrica na qual as sociedades euroamericanas sistematicamente arrogaram para si o atributo da racionalidade universal, reservando para as africanas, orientais, ameríndias e árabes a condição de vítimas de uma cultura particular. Será que aqueles que falam em nome da outra sem consultá-la também não repetem um cacoete de sua própria cultura? O que está em jogo quando representamos a outra como vítima de sua cultura sem sequer considerar a possibilidade de que nossa própria vitimização dela seja tão culturalmente específica como qualquer opressão vivida por ela? Já tendo algum tempo de engajamento com a causa palestina, sendo estudante ocasional da língua árabe e residente de um país onde a islamofobia chegou a níveis assustadores, acredito poder dizer que desfruto de um leque de amizades árabes e/ou muçulmanas mais amplo que a maioria das pessoas que se pronunciaram sobre a lei. Mesmo assim, achei que antes de opinar sobre o tema, valia a pena consultar aquelas que são afetadas pela lei, ou seja, as mulheres muçulmanas ou mulheres de ascendência árabe residentes em regiões ou países onde o Islã tem presença importante. Trata-se de um preceito ético básico que tento seguir de forma rigorosa: em matérias que envolvam racismo, ouvir com a maior atenção e humildade possíveis o que os negros e os indígenas têm a dizer sobre o assunto; acerca da homofobia, escutar gays e lésbicas antes de emitir opiniões peremptórias; sobre machismo, tentar ouvir suas vítimas reais, as mulheres. Isso não quer dizer, é evidente, que você não vá formar a sua própria opinião com independência. Mas falar de discriminação antes de ouvir o discriminado não costuma ser um bom caminho.

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Entre a data da promulgação da lei de Sarkozy e as primeiras prisões, acredito ter entrevistado pelo menos cinquenta mulheres árabes e/ou muçulmanas, residentes de países tão distintos como a própria França, os EUA, Israel, os territórios ocupados da Palestina e as nações do Magreb. Entre as mulheres árabes consultadas, havia não só muçulmanas, mas também cristãs, agnósticas e ateias. Embora o grau de indignação contra a lei de Sarkozy fosse variável entre elas, nem uma única defendeu a lei ou deixou de apontar nela uma motivação islamofóbica. Minha pesquisa amadora e precária não estava desacompanhada. A Open Society Foundations, através de seu projeto “Em casa na Europa”, publicou um relatório baseado em entrevistas com 32 mulheres francesas que usam a burca ou o niqab. Nenhuma delas afirmou ter sido obrigada a usá-los e algumas, inclusive, testemunharam que os utilizam apesar da pressão contrária de familiares. Será que o livre-arbítrio de todas essas mulheres foi sequestrado por sua cultura? Estimativas publicadas pelo jornal Le Monde apontam que menos de 2.000 mulheres em toda a França usam a cobertura completa do rosto, seja com a burca, seja com o niqab.2 Por motivos que suponho óbvios, o impacto cultural e político da lei de Sarkozy se faz sentir, no entanto, em toda a população muçulmana da França, que anda em torno de seis milhões de pessoas. Logo depois da entrada em vigor da lei, Kenza Drider, francesa e mãe de quatro filhos, saiu de casa disposta a cometer um crime, como disse o Guardian em reportagem sobre ela.3 Usando sua burca em ato de desobediência civil, ela declarou: “Continuarei vivendo a minha vida com o véu completo, como fiz ao longo dos últimos 12 anos, e nada nem ninguém vai me deter. Jamais imaginei que veria o dia em que a França, a minha França, país no qual nasci e que amo, o país da liberdade, igualdade e fraternidade, faria algo que tão obviamente viola a liberdade das pessoas”. Aos opinólogos nacionais que argumentaram a favor da lei de Sarkozy com a premissa de que as mulheres muçulmanas são vítimas de sua cultura e não têm realmente escolha no que fazem, sugere-se uma entrevista com Kenza Drider, notável desobediente civil na melhor tradição democráticoiluminista ocidental. Para quem defendeu mais esse ataque contra o mundo árabe e/ou muçulmano com argumentos supostamente feministas, sugiro 2 Niqab: arrestations lors d’une manifestation interdite devant Notre-Dame. Le Monde. 11 de abril de 2011. 3 Burqa ban in France: Housewife vows to face jail rather than submit. The Guardian. 9 de abril de 2011.

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também o eloquente texto das feministas Piya Chatterjee e Sunaima Maira, publicado no site Alternet e intitulado “Carta aberta a todas as feministas: apoiem as mulheres muçulmanas, árabes e palestinas”, no qual as autoras afirmam: No atual clima de agressões iniciadas ou apoiadas pelos EUA contra as mulheres no Afeganistão, Iraque e Palestina, perturba-nos profundamente um tipo de discurso feminista ocidental hipócrita que continua a se preocupar com alguns tipos de violência contra as mulheres muçulmanas e do Oriente Médio, enquanto escolhe permanecer silencioso acerca da violência letal perpetrada sobre mulheres e famílias pela ocupação militar, os F-16, os helicópteros Apache e os mísseis pagos pelos contribuintes dos EUA.4 A violência imposta pela nova lei francesa sobre o corpo das mulheres muçulmanas não é idêntica, evidentemente, à dos mísseis. Mas a lógica que a justificou é a mesma, e se repetiria depois na Líbia e na Síria, como havia se repetido antes no Iraque e no Afeganistão: o bom e velho etnocentrismo ocidental continua se perpetuando com o argumento de que é necessário salvar os outros de si próprios.

4 Chatterjee, Piya e Sunaina Maira. An open letter to all feminists: Support Palestinian, Arab, and Muslim women. <http://www.alternet.org/story/80131/an_open_letter_to_all_feminists%3A_ support_palestinian%2C_arab%2C_and_muslim_women>.

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