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CONVIVÊNCIA REVISTA DO PEN CLUBE DO BRASIL

_______________________________________________ Segunda Fase - Número 2 / 2012 - Rio de Janeiro – Brasil

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PEN CLUBE DO BRASIL Fundado a 2 de abril de 1936 Filiado ao PEN Internacional de Londres

CONVIVÊNCIA REVISTA DO PEN CLUBE DO BRASIL

Segunda Fase - Número 2 / 2012 - Rio de Janeiro – Brasil ISSN 1518-9996

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PEN CLUBE DO BRASIL DIRETORIA (Triênio 2011/2013) Presidente: Cláudio Aguiar Vice-Presidentes: Clair de Mattos e Cecília Costa Conselho de Curadores Antonio Carlos Secchin Antonio Fantinato Neto Délio Mattos Godofredo de Oliveira Neto Ivan Junqueira Reynaldo Valinho Álvarez Ronaldo Mourão Conselho Fiscal Ana Arruda Callado Helena Ferreira Francisco de Paula Souza Brasil

Sede Social Própria: Praia do Flamengo, 172 – 11º Andar Flamengo – Rio de Janeiro / RJ CEP 22210-030 – Brasil Tele-Fax: (21) 2556-0461

www.penclubedobrasil.org.br pen@penclubedobrasil.org.br

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CONVIVÊNCIA / REVISTA DO PEN CLUBE DO BRASIL EDITORA-RESPONSÁVEL Cecília Costa CONSELHO EDITORIAL Alcmeno Bastos Ana Arruda Callado Antonio Carlos Secchin Cláudio Aguiar Délio Mattos Geraldo Holanda Cavalcanti Godofredo de Oliveira Neto Helena Ferreira Ivan Junqueira Mary del Priori Reynaldo Valinho Álvarez Ronaldo Mourão Tânia Zagury CORRESPONDENTES Ceará: Roberto Pontes Paraíba: Elizabeth Marinheiro Pernambuco: Lucila Nogueira Bahia: Aleilton Fonseca Minas Gerais: Ronaldo Werneck Brasília: Fabio de Souza Coutinho São Paulo: Raquel Naveira Santa Catarina: Péricles Prades Paraná: Miguel Sánchez Neto Rio Grande do Sul: Flávio Loureiro Chaves

* Pede-se permuta. We ask for exchange. Pide-se canje. On demande l´échange. Man bitter um Austausch. Chiedesi scambio. * Os textos assinados são de inteira responsabilidade de seus autores.

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SUMÁRIO Editorial: Prossegue a caminhada, 7 Especial 76 Anos do PEN Clube do Brasil: Palavras do Presidente Cláudio Aguiar, 8 Jorge Amado e a Liberdade de Expressão, Eduardo Portela, 13 Crítica O choque do mundo em Exercícios de Utopia, Astrid Cabral, 19 Nada mais que isto ou Tudo isto, Raquel Naveira, 23 Algumas palavras correntes, Marcelo Caetano,28 Mais que uma alegoria idealista, uma paródia do quixotismo. Um escritor marcado pela cor e pela classe: Lima Barreto, Clair de Mattos, 32 Poesia Testamento, Ives Gandra, 39 Três Poemas de Marcia Agrau, 41 Rimas Perdidas..., Claire Leron, 44 Artigos Educação limpa, Arnaldo Niskier, 46 Pai e Zweig, Sylvio Back, 48 Conferência Tradução e Globalização, Geraldo Holanda Cavalcanti, 55 Homenagem O meu tipo Inesquecível, Mary del Priore, 67

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Encontro com o escritor: Agradecimento Embaixador Vasco Mariz, 73 Memória Cláudio de Souza completa 136 anos de nascimento, 80 Registros Ciclo de Conferências PEN Clube do Brasil 2012, 81 Prêmio Literário Nacional PEN Clube do Brasil 2012, 89 Tributo a Autran Dourado, 91 Colaboradores, Escreveram neste número, 97 Normas editoriais da Revista Convivência, 100

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EDITORIAL PROSSEGUE A CAMINHADA Neste segundo número de Convivência, em sua nova fase, além de assuntos especiais e registros importantes vinculados às atividades literárias e culturais do PEN Clube do Brasil, surgem as seções de Crítica, Poesia, Artigos, Memória, Conferência e Depoimento. Vale observar que o surgimento desses temas dependeu, a rigor, da natureza das colaborações cedidas por sócios integrantes do quadro social. A exceção cabe, apenas, a “Pai e Zweig”, do cineasta e poeta Sylvio Back (ainda não filiado a este Clube Literário), que escreveu profundo e comovente depoimento sobre sua experiência como diretor e roteirista do filme “Lost Zweig” (2004). A propósito afirmou Back ter incursionado por outras paragens do real e do imaginário, acrescentando ser o filme “quase um poema em prosa, uma reinvenção que propositadamente se descola do registro cotidiano e, especulando, adensa o que teria ocorrido na última semana de vida do casal Stefan-Lotte, tanto em Petrópolis quanto no Rio de Janeiro.” Assim, os leitores poderão desfrutar de importantes colaborações dos sócios Eduardo Portella, Astrid Cabral, Raquel Naveira, Marcelo Caetano, Clair de Mattos, Ives Gandra, Marcia Agrau, Claire Leron, Arnaldo Niskier, Geraldo Holanda Cavalcanti, Mary del Priore e Vasco Mariz. Ainda não será desta vez que a Revista Convivência aparecerá, simultaneamente, nos formatos físico e digital. No entanto, é bom lembrar que estamos bem próximo desse momento auspicioso. É que, até o presente, a Diretoria concentrou seus esforços no sentido de dar prioridade à solução de assuntos urgentes e inadiáveis ligados à própria sobrevivência patrimonial da entidade. Cláudio Aguiar Presidente do PEN Clube do Brasil

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ESPECIAL

PEN CLUBE DO BRASIL: 76 ANOS (1936-2012) Cláudio Aguiar O sentido de qualquer comemoração é lembrar e louvar. No caso do PEN Clube do Brasil, lembrar, sobretudo, aqueles que, exatamente, há 76 anos, num dia como o de hoje - 2 de abril de 1936 -, tiveram a ideia de fundar este Clube Literário no Brasil. Não apenas fundá-lo, mas dotá-lo das condições materiais para o seu funcionamento com firme estrutura administrativa e institucional, permitindo-lhe resistir a todos percalços que, infelizmente, abatem-se com frequência sobre a maioria das associações culturais brasileiras. Por sorte, o PEN Clube nasceu dentro da Academia Brasileira, entidade máxima das letras nacionais, como iniciativa de um de seus membros, o Acadêmico Cláudio de Souza. Não só dentro do seu espaço físico, mas, desde logo, contando com a participação de seus membros como fundadores. Daí, ter sido possível manter-se, até hoje, essa real e salutar aproximação

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entre as duas entidades literárias, tradição que ambas entidades reavivaram no ano passado com a celebração de convênio de cooperação, passo fundamental para nos permitir a continuidade de esforços na consecução de nossos objetivos fundamentais. Por isso, quando esta entidade completa 76 anos de fundação, acreditamos ser importante louvar o Acadêmico Cláudio de Souza, homem de visão e generoso, por ter legado ao PEN Clube os meios necessários para empreender essa caminhada já longa e, ao mesmo tempo, cumprir suas finalidades básicas: incentivar o convívio de escritores, promover a literatura e defender a liberdade de expressão. Aliás, essa tendência de conviver com escritores e entidades congêneres, remonta às origens do PEN Internacional. Apesar de o Centro brasileiro manter-se independente para decidir sobre sua gestão administrativa e cultural, está filiado à rede mundial de mais de 150 Centros PEN espalhados pelo mundo. Seguindo essa política de buscar apoios e parceiros, o PEN Clube do Brasil, atualmente, também estreitou os laços de cooperação e amizade com algumas instituições brasileiras, a exemplo da Academia Brasileira de Letras, já mencionada. Foi consolidada, também, a cooperação entre o PEN Clube e o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), presidido pelo nosso sócio, historiador Arno Wehling. No momento, estamos em contato com o Museu Imperial, de Petrópolis, a fim de estabelecermos iniciativas de interesse comum. Por que essa aproximação? É que com ele nos aproxima auspicioso fato: foi àquele Museu que Cláudio de Souza legou sua mansão de Petrópolis, com fartíssimo acervo

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pessoal. No ano passado, graças às ações levadas a cabo pelo Dr. Maurício Vicente Ferreira Jr, dinâmico diretor do Museu Imperial, aqui presente, a Casa de Cláudio de Souza foi totalmente restaurada, passando a cumprir, após seis décadas, a finalidade para a qual foi destinada: funcionar como centro de apoio a atos culturais promovidos por entidades sediadas em Petrópolis. Hoje, também, aproveitamos a oportunidade para informar ao nosso corpo social e aos amigos presentes, com brevidade, as principais ações a serem desenvolvidas pelo PEN Clube ao longo do ano cultural 2012. Em primeiro lugar, anunciamos a realização de quatro Ciclos de Conferências sobre os seguintes temas: Mulheres, Paz, Tradução e Liberdade de Expressão. Escritores e especialistas nos temas propostos, apresentar-se-ão, aqui, em nossa sede social, quinzenalmente, durante o período de abril a novembro. No primeiro semestre teremos os ciclos sobre Mulheres e Paz; no segundo, os de Tradução e Liberdade de Expressão. Com essas conferências alimentamos a esperança de que, simultaneamente, ou, no final delas, tenhamos condições de criar e estruturar, se não todos, pelo menos alguns dos quatro comitês responsáveis no Brasil pelas ações relativas às mulheres, à paz, à tradução e direitos linguísticos e à liberdade de expressão. É preciso lembrar que as estruturas organizacionais de quase todos os Centros PEN do mundo e do próprio PEN Internacional, atualmente, contam com esses comitês coordenadores de ações e iniciativas vinculadas a essas áreas. O Centro brasileiro não pode mais continuar indiferente a tal responsabilidade histórica e estatutária. Atento às atividades de seus membros titulares e demais cultores da palavra, escrita ou falada (inclusive das imagens que elas possam simbolizar), a partir de hoje, ficam criadas duas medalhas de honra ao mérito. A primeira, de Honra ao Mérito Literário Cláudio de Souza, em homenagem ao fundador e primeiro presidente do PEN Clube do Brasil; a segunda, de Honra ao Mérito Cultural Barbosa Lima Sobrinho, o segundo Presidente. Essas medalhas serão distribuídas, anualmente, por ocasião da solenidade de aniversário deste Centro, de modo preferencial a poetas, ensaistas, narradores, jornalistas, editores,

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tradutores, cineastas, pintores e gestores culturais que se destaquem na área de sua especialidade ou, ainda, que, nestas condições, tenham prestado algum serviço relevante ao PEN Clube do Brasil. Vamos realizar, também, a segunda edição do Prêmio Literário Nacional PEN Clube do Brasil 2012, nos mesmos moldes adotados no ano passado, quando foi restabelecido este conhecido e disputado certame literário, criado há mais de 70 anos, sendo, talvez, o mais antigo do Brasil. Senhoras e senhores: 2012 é o ano de centenário de nascimento de Jorge Amado. O PEN Clube do Brasil não poderia deixar de registrar em seus anais esse acontecimento. Além de grande romancista, Jorge Amado foi também amigo e membro desta Casa. A melhor maneira de lembrar e louvar a passagem desses 76 anos de existência do PEN Clube do Brasil será promover, no seu dia, como o fazemos agora, a louvação de uma figura ilustre de nossas letras como Jorge Amado, visto e revisitado pelo documentário do jornalista Ancelmo Gois e, dentro de poucos instantes, pelas luminosas palavras do Acadêmico Eduardo Portella, um dos membros mais e fieis e amigos do PEN Clube do Brasil. Detentor do Título de Grande Benemérito por relevantes serviços prestados a este Clube Literário, Eduardo Portella sempre esteve atento e interessado pela trajetória desta entidade. Exemplo disso, vale recordar, foi a sua participação no Congresso do PEN Internacional, realizado aqui no Rio de Janeiro, em julho de 1979, ocasião em que fez a saudação oficial na condição de Ministro da Educação. Ministério, diga-se de passagem, que funcionava com a estrutura de um superministério, vez que abrangia as áreas da Cultura, do Deporto, da Ciência e da Tecnologia, setores que hoje funcionam como ministérios autônomos. O Acadêmico Eduardo Portella, além dos inúmeros méritos pessoais de que é possuidor, é um escritor com vasta obra publicada no campo da crítica literária e do pensamento filosófico, vez que domina e aplica em seus ensaios conceitos da moderna filosofia e de outros saberes correlatos. Além do mais, é, também, um homem de ação, reconhecido gestor da coisa pública, sobretudo quando exerceu funções de elevada responsabilidade, dentro e fora do Brasil, a exemplo do já mencionado cargo de Ministro da Educação,

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Presidente da Biblioteca Nacional e dirigente da UNESCO, em Paris. As atividades de crítico literário militante aliadas ao exercício da cátedra universitária, com certeza, permitiram-lhe desenvolver iniciativas pessoais de relevância, como a fundação da Editora e da Revista Tempo Brasileiro, em 1962, órgão cultural de feição singular, porque nela convivem, a um só tempo, o editor e o professor comprometidos com um projeto de mudança em nome da liberdade de pensamento. Há que se destacar, ainda, outra iniciativa de Eduardo Portella no campo do ensino: a criação do Colégio do Brasil. Sendo uma instituição pensada nos moldes do Collège de France e do Colégio do México, vem atuando sob a direção de Eduardo Portella, alcançando positivos resultados na formulação de inúmeras pesquisas e na orientação do ensino. Suas ações estão sempre voltadas para uma reflexão aberta, na qual o pensar funciona como elemento catalizador e capaz de abordar as ciências humanas em suas mais amplas possibilidades e dimensões. Por todos esses méritos, estou certo de que hoje, aqui, seremos brindados pelas sábias e inteligentes palavras do Acadêmico Eduardo Portella a respeito do romancista Jorge Amado, um dos mais ilustres filhos da Bahia, palavras, aliás, pronunciadas por outro filho não menos ilustre da mesma terra. Afinal de contas, além de ter sido grande amigo do romancista baiano, Eduardo Portella é autor de recente ensaio intitulado Jorge Amado: a sabedoria da fábula, no qual ficou evidenciado o sentido e o alcance da obra amadiana como fruto de um escritor “infatigável” que viveu o “sonho da liberdade”, a mais elevada bandeira que tem justificado a existência do PEN Clube do Brasil. Com a palavra o Acadêmico Eduardo Portella.

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JORGE AMADO E A LIBERDADE DE EXPRESSÃO Eduardo Portella Quando recebi o convite de Cláudio Aguiar para falar aqui no PEN Clube, me sensibilizou, em primeiro lugar, a possibilidade de retornar a esta Casa que me é muito grata, e, em segundo, me lembrar dos ex-presidentes Marcus Almir Madeira, que era um professor de convivência; lembrar de Maria Beltrão, esta figura admirável; e de Geraldo Holanda Cavalcanti, meu poeta. Um conjunto de razões se somou à minha pronta aceitação: falar sobre Jorge, meu companheiro, meu amigo, ao longo da vida, uma convivência de 50 anos, a que assisti passo a passo as suas construções sucessivas. O que eu não esperava - o que para mim está sendo uma surpresa e, por isso, vim um tanto descontraído para essa reunião -, é que fosse antecedido por um documentário tão qualificado e que aqui estivesse presente Sérgio Paulo Rouanet, crítico de minha preferência, que acaba de falar em Paris sobre Jorge Amado e cujos ecos altamente positivos acabo de receber por minha mala direta.

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Tudo isso me gera uma responsabilidade adicional. Se não fosse o tema Jorge Amado eu me sentiria ainda mais preocupado. Estou vendo, aqui, também, amigos muito queridos: Nelson Mello e Souza, Délio Mattos, Ricardo Cravo Albin, Ronaldo, enfim, uma lista interminável; Stella Leonardos, essa combatente do bom combate. E, por todas essas razões… – estou vendo ali a minha vizinha, Cleonice Berardinelli, vizinha para honra minha… Por todas essas razões falar sobre Jorge Amado fica mais fácil. Falar sobre Jorge, vendo rostos amigos, autorizações, senão explícitas, pelo menos, implícitas, tornam a tarefa fácil. Cláudio Aguiar relembrou minha cooperação constante – seja no Brasil, seja no Exterior - com as tarefas do PEN Clube. É verdade e foi um prazer muito grande para mim. Jorge é um tema bem preferido de longa data. O tema que me foi confiado pelo Cláudio – a liberdade de expressão eu vejo que atravessa toda a obra de Jorge. É um incessante conluio entre a liberdade de expressão e a expressão da liberdade. São essas as duas linhas mestras de compreensão da obra de Jorge Amado. Elas se inscrevem no arco da modernidade literária do Brasil. A primeira etapa ocorreu por volta dos anos 1922, em São Paulo, o primeiro momento. Essa modernidade cada dia nos criava uma relação crítica. Não conseguia saber até o momento quanto esse modernismo foi realmente moderno. Além do excessivo apego, um apego quase fanático e apologético ao Brasil profundo, uma modernidade cosmopolita, universalista. Abraçar esses polos do Brasil profundo, não é tarefa muito fácil. O segundo momento dessa modernidade, gira em torno dos anos 30. Não adoto e não concordo com a periodização cronológica, mas se convencionou falar de uma Geração de 30. Esse é o segundo momento modernista. Está constituído pelos romancistas regionalistas, seja ao Nordeste, seja ao Sul, com Érico Veríssimo; ao Nordeste, evidentemente, com Jorge, Rachel, Zé Lins e tantas figuras, sem falar em Graciliano que tem uma estreia um pouco retardatária com relação a esses precursores de 30, mas que foi uma figura verticalmente exemplar. Essa é a segunda. A terceira, eu a considero a contra a modernidade: a Geração de 45. Ela não leva adiante a experiência moderna. Ela

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tentou reconstituir formas fixas, e foi malograda. O soneto insosso, insuficiente e arcaico. Tentou também trabalhar temas sublimes que estavam esgotados pela estética laboriosa. Procurou, ainda, valorizar um vocabulário excessivamente luxuoso para o meu gosto. Tudo isso, eu tenho impressão, que o grito de independência do movimento modernista paulista ecoou nos anos 30 e teve dificuldades de prosseguir nos anos 45. Nos anos do após-guerra, como não acredito no conceito cronológico do conceito de geração, posso destacar nesse período um grande poeta que estreou e passou desapercebido em 1942, João Cabral de Mello Neto, com Pedra do Sono, que veio a ter um reconhecimento nacional quando ganhou o prêmio do IV Centenário de São Paulo, com o livro O Rio. A minha saudosa e querida amiga, que me lembro também, Clarice Lispector, autora de uma narrativa crispada, densa, pouco frequente, capaz de dar conta, com propriedade, da subjetividade. E Guimarães Rosa? Guimarães Rosa é a nossa enciclopédia ficcional. De maneira que as coincidências cronológicas não funcionam. Nenhum desses três autores são considerados como integrantes da Geração de 45. João Cabral, em uma entrevista concedida a mim, em remotas eras, disse que não pertencia à Geração de 45. Jorge, portanto, é um nome inscrito na segunda geração moderna. Estreou, como foi dito aqui, com o livro País do Carnaval. O tema que me foi confiado é a liberdade de expressão e Jorge, como sempre, o tempo todo, foi um protagonista da liberdade. A liberdade no que ela possa ter de mais criadora e no que ela possa ter de mais sofrida. O exercício da liberdade promove alegrias e gera sofrimentos. Isso aconteceu com Jorge ao longo de sua obra. Jorge, portanto, manteve esse sentido da liberdade diante das ideias e das ideologias. Fundamental dizer que ele nunca sacrificou as ideias por causa da pressão excessiva da ideologia. Quando foi obrigado a fazer uma opção radical entre a ideia e a ideologia, não vacilou. Ele também se mostra coerente diante das ideias, das religiões, da linguagem. Há uma dessacralização, uma descanonização do cânone. Jorge trabalha com o cânon convencional e recebeu um reforço recente da universidade americana, por parte do crítico Harold Bloom. Não, Jorge estaria

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fora desse cânon consagrado e hierarquizado e aplaudido de uma maneira generalizada. Ele também se rebela diante da caixa fechada, lacrada, da linguagem institucional. Então, há, também, por meio da oralidade, um trabalho de reoxigenação da linguagem. Mas não é aquela linguagem que nós ouvimos todos os dias, aquela linguagem entrópica que faz parte de um falar desvitalizado. É uma linguagem que mergulha no fundo da experiência humana. Ele também se mostra um rebelado diante dos temas convencionais e dos estereótipos. Preferiu sempre os espaços abertos: a rua, o mar, a praia, as festas, os festejos e os bordeis. O bordel é um espaço privado, escancaradamente aberto. E Jorge não teve, desde o País do Carnaval, nenhuma dificuldade em enfrentar essas expressões da carnavalização. Aí, o Carnaval se desloca e deixa de ser uma festa específica e passa a ser um comportamento cultural independente, contendo, inclusive, dentro dele uma certa taxa de criticidade que a gente nunca espera no aspecto lúdico da cultura, mas que está presente em Jorge Amado. Há também a delegação das convenções e a promoção de uma política relacional. Jorge é um autor que leva em conta o outro. Ele não está trancado na consciência. Não é um autor autocentrado. É um autor que precisa da relação, que incorpora o outro como uma peça constitutiva do processo literário. Por isso, ele dispõe também de uma excepcional mobilidade narrativa. Essa mobilidade narrativa está ao longo de sua obra e, às vezes, dentro de cada personagem. Por exemplo: Quincas Berro D’Agua é o protagonista de uma cisão interna entre o funcionário exemplar, bem comportado, e o boêmio Quincas Berro D’Agua. Há uma cisão interna neste personagem. Não se pode dizer que seja um, ou, seja o outro. Por outro lado, na segunda novela dos Velhos Marinheiros, que é o Comandante Asco Moscoso de Aragão, Capitão de Longo Curso, há também uma cisão interna entre o oficial aposentado, destinado a rememorar ociosamente passagens de sua biografia e a opção imaginária do contador de histórias para o deleite da comunidade local. Há, portanto, dois Comandantes Vasco Moscoso de Aragão. Na mesma figura, no mesmo personagem, no interior de cada um deles há essa pluralidade, essa multiplicidade típica do Jorge e dos autores não burocratas, aqueles que desenham perfis de personagens e

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começam de um jeito e terminam do mesmo jeito, nos quais, a partir da terceira página, já sabemos como é que ele vai se comportar nas próximas páginas. Vale lembrar, também, Dona Flor e Seus Dois Maridos. Há bipolaridade erótica em Dona Flor, que é uma das responsáveis pela anistia do corpo. Jorge é um autor grandemente responsável pela retirada do corpo do cárcere privado e expor o corpo à visitação pública. Ele criou, até, uma figura que me toca muito, que é mais uma oscilação dele entre a metáfora e a metonímia. Ele criou a mulher metonímica. A mulher metonímica é Gabriela. É aquela que, na metonímia, a parte vale pelo todo. Ao contrario da metáfora, que o todo vale pela parte. Gabriela realmente teve uma projeção excessiva, eu talvez diria, mas bem a gosto do povo brasileiro, neste destaque excessivo da metonímica estrutural de Gabriela. Por isso, Jorge tem esse elenco tão diversificado e em revigoramento constante de centro e margem. Há momentos em que não se sabe se o personagem é um habitante da margem ou um frequentador do centro. Há uma mobilidade constante estrutural entre margem e centro, um deslocamento interminável e incessante entre margem e centro. Está aí Maria Lúcia que não me deixa mentir. No mais, por que tudo isso acontece? Porque Jorge dispõe, é dono, é proprietário de um olhar voltado para o outro. O outro é um grande renegado, seja no pensamento do Ocidente, extremamente autocentrado, seja nas construções intelectuais. Repetidamente o outro é convocado para exercer um protagonismo na cena ficcional de Jorge Amado. E aí nós temos o outro assumindo o papel que outrora fora destinado ao mesmo. Abre-se, portanto, novos espaços de convivência e nesse momento ele recorre ao humor. Mais precisamente ao riso. O riso é um fator das construções acabadas. Uma sociedade que não ri, um povo que não ri, um indivíduo que não sabe rir, está fadado ao precoce envelhecimento. Jorge acionou o dispositivo do riso para sustentar alguns personagens fundamentais da sua obra romanesca. Com isso, há uma infiltração do pitoresco, que desestabiliza a estrutura compacta e coesa do heroísmo. O pícaro é o anti-herói. Quem começou a utilizar o anti-herói, se Helena Ferreira não me corrigir, foi Dom Miguel de Cervantes. Aí, aparece na história da literatura do Ocidente a figura do pícaro, já não falando em nome de um possível heroísmo

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totalmente consagrado, mas falando em função da greve do heroísmo, da greve do herói barroco. Uma das poucas greves que nós podemos aceitar, de saída, sem esperar nenhuma manifestação pública, nem uma passeata ou nenhum quebraquebra. Essa é uma greve extremamente desse tipo. É por isso que Jorge soube, portanto, abrir passagem para a miscigenação. A miscigenação também é uma construção unitária, não apoteótica, não sublime, não totalmente idealizada. Abriu passagem para a mestiçagem, para a hibridização produtiva, e para o sincretismo não revanchista. É fundamental perceber que nas construções de Jorge Amado os encontros étnicos se produzem dentro de um clima jamais revanchista. Isso identifica Jorge como um autor, um narrador, um militante da condição humana, de um servidor atento da liberdade. ________ (*) Discurso do Acadêmico Eduardo Portella (pronunciado de improviso) no dia 2 de abril de 2012, no PEN Clube do Brasil.

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CRÍTICA

O CHOQUE DO MUNDO EM EXERCÍCIOS DE UTOPIA Astrid Cabral Pela terceira vez, cometo a ousadia de tecer alguns comentários sobre a obra do magistral poeta Francisco Carvalho. Parece-me leviandade abordá-la sem o aparato crítico e o aprofundado estudo que seus versos requerem. Mas penso que a todo poeta sempre agrada saber a repercussão de sua palavra no espírito do leitor. No decurso de vasta e significativa criação, FC já definiu sua poderosa voz, caracterizada por absoluto domínio técnico, aguda consciência da condição humana, individual ou social, visão da realidade contemporânea aliada ao conhecimento do passado, evidente na constante reverência à tradição literária do ocidente, presença do universal sem menosprezo das raízes brasileiras. Esses aspectos todos continuam presentes em seu último livro Exercícios de utopia, título que cai como luva para a atividade poética, que é sempre envolvimento com a espiritualidade por meio da palavra, bem como aspiração ao abstrato e remoto reino dos sonhos de perfeição e beleza. Gostaria de ressaltar aqui a pujante vinculação telúrica que irriga esses exercícios poéticos. Anteriormente, em resenha sobre Mortos não jogam xadrez, já me referi à gangorra existencial entre natureza e cultura que alimenta toda obra de FC. Grande parte dos atuais exercícios poéticos gira em torno da celebração do mundo natural. Os quatro elementos primordiais, apontados desde os pré-socráticos, terra, água, fogo e ar comparecem diretamente, ou em poemas sobre chuva, nuvem,

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raios, arco-íris, vento e outros afins. O poeta, inclusive, proclama a natureza como sede da poesia. Lê-se no Exercício 38 que a poesia está nos rios, está no vento, poesia é a onda, poesia é a ostra. Não bastasse isso, o próprio autor se assume e se define como natureza. A identificação com o mundo que o cerca, a fusão do eu com o não-eu, surge de modo vigoroso em seus versos. Vejamos alguns: Sou o vértice/ da noite voltado/ para as fogueiras da lua. Sou um campo de centeio/ destruído pela cólera dos pássaros. No Exercício 152, dá-se uma reiterada afirmação a encabeçar numerosos dísticos: Sou o rascunho dum pássaro, Sou o espectro da água, Sou a sombra dos raios. É principalmente com os animais que a identificação se estabelece. Às vezes experimenta a sensação de estar na jaula das feras (101), em outras ocasiões declara: Teu verdadeiro rosto está soterrado no limo do id....É lá que se encontram teus primeiros sonhos/ de primata, tua cauda de lagarto. Francisco Carvalho parece retomar a filosofia do transcendentalista norte-americano Henry David Thoreau, quando em sua obra-prima do século XIX, Walden ou a vida nos bosques, sustentou que o homem não está acima da natureza, mas é parte integrante dela. E acrescentou: a natureza do homem não difere muito daquela dos animais, tese que abalou a generalizada crença nos preceitos bíblicos que conferiam ao homem superioridade quase divina, o que para Arnold Toynbee acarretou a errônea dominação da natureza em certas culturas. Os versos de FC: O homem é o predador do homem/O lagarto que devora o lagarto, constituem a demonstração poética da afirmativa de Thoreau. À luz desses pensadores é que sigo interpretando os seguintes versos de Francisco Carvalho, no Exercício 117: O homem não é um deus acima de todas as coisas. Um deus à frente de um exército de escorpiões. ............................................................. Apenas um descendente da dinastia dos répteis. Essa visceral comunhão, de franciscana irmandade, pode ser detectada em vários níveis. Os animais que surgem em sua obra, tanto comparecem flagrados no concreto aspecto

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existencial, quanto despontam na percepção da essência que alimenta o mundo das metáforas. Assim, FC nos diz que O tempo é um dragão pousado/ nos vidros das janelas; Camelo que não se dobra/para ser engolido/por uma cobra. Também a noite é vista como leopardo a caminho ou um pássaro negro de perfil famélico, e o mar, tigre no cio. Tal contaminação imagética pode ser também observada entre esferas contrastantes. É o que acontece quando o trem de ferro, ícone do progresso industrial do século XIX, é chamado de velho boi, dragão, negra alimária. Há nesses epítetos uma espécie de nostálgica resistência à máquina, a inorgânica intrusa do progresso na paisagem virgem intocada pelo homem. Coerentemente, as estrofes do texto 11 desenvolvem uma análise de tom elegíaco visto que o cenário atual é apresentado não de um ponto de vista marinettiano, de louvor às transformações urbanas. Estamos longe do clima modernista do começo do século XX, caracterizado pelo delirante e inconsequente entusiasmo industrial. O poema brota da perspectiva de frustração que gera a sátira: Em arranha-céus de quarenta andares, não passamos de formigas que escrevem garatujas de amor para namoradas que trocaram os seios por melancias de silicone. Para o poeta os espigões de concreto são o pobre simulacro das árvores, lápides de areia para epitáfios de suicidas, moradores exilados do chão a que pertencem, órfãos da edênica herança de jardins e pomares. Afinal, não se pode negar a violência que vem sendo perpetrada pelo homem contra a terra mãe, a gaia, cuja placenta de ouro, argila areia e espuma é cantada no texto 157. O mesmo clima nostálgico de sutil denúncia contra a agressão à natureza se faz sentir no poema 33, quando o peixe frito tem/ saudades do balanço/das ondas quando/flutuava entre/avenidas de corais. O autêntico respeito pelos animais, nossos semelhantes, leva o poeta a lamentar-se da cegueira que impede a valorização dos entes mais humildes na hierarquia orgânica: Ninguém para escrever uma ode aos/ovos das galinhas. Ninguém para

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celebrar/ a insônia dos cachorros e a música/ dos cascos dos cavalos. Creio que o ardente amor telúrico de Francisco Carvalho explica o inegável choque diante da contemporaneidade, de tão duvidoso progresso, por conta dos deploráveis crimes ecológicos. Daí o forte desconforto, abalo mesmo, ante o desacerto do mundo, gritante em vários momentos do seu discurso poético. O fato é que não basta o mito para tanto exílio, e que o homem, em que pesem repetidos esforços para transformar sua condição, é impotente. Leia-se o doloroso poema 173, em que o poeta insiste sobre a absurda realidade de não se conseguir operar uma mudança fundamental. São cinco estrofes de seis versos que enumeram mudanças, seguidas sempre do refrão: porém muda em vão. Parece-me que a amarga consciência, diante do desacerto das coisas atuais, bem como o sentimento de derrota, o desesperançado pessimismo quanto às perspectivas do mundo imediato, fazem que o telurismo de FC transborde os limites terrestres e procure abranger o cosmo distante, num impulso de legítima utopia. Vagarosamente acompanho a metamorfose das galáxias que se dispersam com a simetria de uma diáspora de formigas.

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NADA MAIS QUE ISTO OU TUDO ISTO Raquel Naveira Nada mais que isto, de Mirian de Carvalho, é um grande livro. Tudo isto: grande porque é definitivo, maduro, estranho. Mirian escreve versos de argila, moldados dia a dia, versos atemporais, feitos de antigas palavras. Muito de seus poemas são sobre a própria poesia, questionando a crise da identidade social do poeta e da própria poesia. No primeiro poema de “Distraidamente”, confessa: “Tal aquele barqueiro distraído/ que perdeu a isca e fisgou o remo ao pescar/ a lua, eu queria escrever distraidamente.” E frisa mais além: “Eu queria saber escrever distraidamente”, “De modo espontâneo, eu queria saber/ guardar nestes versos as cores do calor,”. Este meu poema conversa com o de Mirian e com as ideias estéticas de Manoel de Barros, quando diz que “O poema é antes de tudo um inutensílio”, que não serve para nada e que “ninguém é pai de um poema sem morrer”. É o “Bicho Esquisito”: Poeta é cão perdigueiro Farejando tudo: Até no lixo Encontra cacos de estrela. Poeta é inseto de antena, Captando sons, Imagens, Mensagens telepáticas. Poeta vive procurando rastros, Códigos cifrados, Hieróglifos em rosetas.

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Poeta vive deixando trilhas, Caindo em armadilhas, Desvencilhando-se de teias. Poeta vive catando sinais, Atento a gestos, a gosmas, A gemidos no vento. Poeta é bicho esquisito, Meio cachorro, Meio mosquito E com mania de perseguição. Mirian é mulher/poeta apaixonada por flores e livros. Vive saindo “à caça de flores e pássaros”. “Flores a pulsar”, explica ela: o narciso- “Extinto o fogo da manhã, endurecidas águas de cristal/ engolindo o olhar e o falo de Narciso”; as violetas: “...preparando meu alimento.// De violetas./ De orações.” Há ainda camélias cor de neve dos Himalaias, rosas de cristal, rosas vermelhas estampadas no pelo das panteras negras, flores-do-campo, flores bordadas em lençol de algodão, glicínias azuis e o lugar das acácias. Pinço estes versos: “Em nosso leito deitam-se violetas”; “Entre o lilás e a véspera, a memória invade meu canteiro de violetas”. Querida poeta, ofereço-lhe o meu melancólico “Violeta”: Estou em perigo: Uma angústia, Um desejo de morrer, Minhas pétalas murcham Num roxo mortiço, Perco o viço, De amor tão intenso Desfaleço. Estou em perigo: Uma felicidade, Um deleite, Minhas raízes sugam húmus, Encharcam-se,

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Amoleço. Estou em perigo, Nada no mundo me vale nesse transe; Num jardim cheio de sombras Permaneço. Sem encontrar apoio na terra, Sem poder subir ao céu, Vivo frágil, Presa num caule suspenso. O Tempo é fortíssimo tema do livro. O Tempo que nos devora, que atravessamos e que nos atravessa como flecha, que nos seca e decifra. Mirian lamenta: “Eu queria segurar o tempo./ Eu queria saber segurar o tempo que se vai” e constata: “Segurar o tempo vivo/ é quase impossível” pois “Tudo tem seu tempo certo”, “Ao tempo transitório,/ Ao tempo exato.” E por falar em tempo e em exatidão, converso mais uma vez com Mirian e com Cecília Meireles quando esta última, pasma diante da passagem inexorável do tempo e com a chegada da velhice, ao ver sua face no espelho, escreve: “Eu não tinha este rosto de hoje,/ assim calmo, assim triste, assim magro,/ nem estes olhos tão vazios,/ nem o lábio amargo...//Eu não dei por esta mudança,/ tão simples, tão certa, tão fácil:/ _ Em que espelho ficou perdida/ a minha face?”. Na mesma situação de mulher que pressente as marcas do tempo e vive a eterna busca de autoconhecimento, escrevi: Estou triste, Cortei o cabelo. Não sou mais adolescente De tranças E olhos lânguidos. Não sou mais moça, Balançando a crina, Como égua musculosa Na colina.

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Não sou mais princesa, Usando tiaras, Arrastando a coma Como se tivesse na cabeça A cauda de um cometa. Adeus, cabelame! Derrame de seiva sobre meus ombros, Véu natural Com que penetrava câmaras ardentes. Por que cortei o cabelo? Por que não o mantive longo, Mesmo branco e seco, Preso na nuca Por marfins e pentes? Todo esse poema em poemas que é Nada mais que isto tem um toque bíblico, ora de Eclesiastes (“Tempo de alimentar feras./ Tempo de amansá-las”, pois, “Sob os céus há intervalos/ Para todos os propósitos”), ora de Cântico dos Cânticos, de sensualidade com a Poesia, com o Amor feito Homem que é Jesus, o jardineiro. A alma é o jardim por onde o jardineiro passeia, um jardim fechado, onde a mulher/poeta “acende lâmpadas”. Ao deitar-se com o jardineiro, adorna-lhe o corpo “com flores e camaleões”. O jardineiro reconta os mitos do amor para a poeta/mulher. As mãos do jardineiro seguram suas aflições, enquanto ela, pobre alma, aguarda outra espera, outro tempo. Esse jardineiro, esse Amor total e misterioso está presente em meu poema “Noivo”: Penso em meu noivo, Em nossas bodas, No momento em que ele abrirá as portas Ante nosso leito de núpcias. Quantas qualidades, Quantos haveres tem meu noivo! É dono de campo, De mares,

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De castelos suntuosos E vai me levar para sua terra Numa carruagem aberta À aragem do vento. Como poderei contentar meu noivo? Dar-lhe prazer, Conformar meu gênio ao seu Para que nada em mim o desagrade, Para que eu seja em suas mãos Um lírio puro, Uma petúnia? Se meu noivo for ciumento E não permitir tratar senão com ele? Ah! Eu não tenho pai, nem mãe, Nem irmãos, Nem ninguém, Mas nele tenho tudo que desejo. Quem será o meu noivo? Só de lembrar meu corpo treme, Como tremem diante dele Os anjos lá do céu. Mirian pede-me mais poemas que conversem com os seus e há tantos possíveis diálogos: a figura de Carmen, a bailarina, a casa, os frutos e as flores, as cigarras, as pedras, os cavalos, os lobos, os relógios e as horas, os cisnes, as transmutações. Somos irmãs e poetas, Mirian, nada mais que isto. Ou tudo isto.

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ALGUMAS PALAVRAS CORRENTES Resenha de O amor é vermelho (*) Marcelo Caetano Em seu O amor é vermelho (VARGAS, 2005), Suzana Vargas propõe, dentre outros, um exercício até as últimas consequências da máxima aristotélica: “só a tautologia comunica”. Quando nosso sábio de Estagirita disse isso, estava ensinando a seus discípulos do Liceu que, na comunicação humana, incapaz de exprimir por si só e em si só a condição natural de cada um de nós, apenas dizer “uma rosa é uma rosa” é, de fato, verdade, não apenas verossímil. A verossimilhança em oposição à verdade, em tempo, era preocupação da tríade grega: em Sócrates/Platão, esse conceito era pejorativamente nomeado como “simulacro”; em Aristóteles, não necessariamente depreciativo, o conceito ampliou-se e ganhou o contorno semântico de “verossimilhança”. Mas onde quer que estejamos, quando falamos em crítica literária, na questão do poeta, mais especificamente, de Sócrates a Eliot, a verdade, e não o simulacro ou a verossimilhança, interessa-nos mais de perto. O que faz de palavras poesia? O que faz da poesia um poema? (uso aqui a dicotomia de Antonio Carlos Secchin). Como o LÓGOS grego parte do princípio da racionalidade como força motriz do julgamento humano (de onde Kant foi beber proficuamente para tecer suas “Críticas puras”), nos é espantoso que um prógono como Heráclito nos tenha afirmado, contradizendo (ou complementando) a tríade

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grega acima exposta: “Só o paradoxo comunica”. Por essa razão é que o mito e a ciência, presentes, ambos, na obra “O amor é vermelho”, gozam e sofrem o mesmo espartilho de aço quando pretendem expressar suas ideias. A física de partículas (newtoniana), a subatômica (quântica) e a da velocidade da luz (einsteiniana, da relatividade) não conseguem se comunicar linearmente, assim como o mito material e o mito imaterial. E, no entanto, somos todos eles e todos eles têm uma voz loquaz o suficiente para, no mínimo, querer falar-nos algo de fundamental. Assim se comporta o livro de Suzana Vargas: entre o “mergulho” (2005, p. 43) e a “tato suave” (2005, p. 26), somos tudo. Entre a lógica seca e asséptica da tautologia ou pleonasmo aristotélicos e o desconcerto mítico do paradoxo heraclítico, situa-se O amor é vermelho. Isso porque a obra de Suzana trata da faceta humana capaz de gerar guerras (como a “Ilíada”) e de promover todas as pazes (como a “Odisseia”). Posso ousar dizer que a obra é um pouco uma saída à batalha, um pouco o aconchego reconfortante do lar? Posso ousar dizer que ela possua um quê de guerreiro e um quê de monge ou de iogue? O livro é humano demais, e por isso esbarra na fragilidade da linguagem, incapaz, como se disse, de representar as mãos e contramãos humanas – simultaneamente. “O mapa não é o território” – gritaram filósofos como Lacan, Derrida, Foucault. Mas o poeta não quer “reproduzir” territórios, porque o poeta não trabalha exclusivamente nas plagas da consciência : o lugar do poeta é o subconsciente (Jung), ou até o inconsciente (Freud). Dialética que, em vez de se propor uma solução, prefere um moto-perpétuo, assim como outras dialéticas da História, como a de Chomsky-Piaget, Duchamp-Leibniz. Parece-me que, metalinguisticamente, O amor é vermelho explicita a impossibilidade da linguagem logo no primeiro poema, “Quase decálogo do amor” (2005, p. 10): “e a falta da palavra meu amor” (v. 4)/ “Se está perto, não sabe o que fazer com as mãos / nem com as palavras” (vs. 9 e 10) / “do verbo ao toque” (v. 12). O paradoxo que Heráclito tentou curvar está, igualmente, no mesmo poema: “E porque sabe que é feito de finais / o amor nunca começa / ou se perde no momento em que inicia” (vs. 13-15). Só há uma conclusão, que é paradoxal e pleonástica, simultaneamente: “O amor vicia” (v. 16).Detive-me

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no “Decálogo” porque, como os “Dez Mandamentos” ele nos dá pistas do mapa cujo território, embora não tenhamos, somos. Na segunda parte do livro, eis-nos novamente face a face com a tautologia: “Tudo o que já dissemos” (2005, p. 13). No fundo, o que podemos dizer sobre o amor? Se formos racionais, seremos absurdos; se paradoxais, óbvios. Surge daí, mais uma vez, a necessidade do poeta, que trabalha numa linha tênue entre o absurdo e a obviedade e, ali, sobre a delicada “faca afiada” (2005, p. 14), constrói “meias medidas” (id.), apenas “o início” (id. Ib.). A intensidade, que meu caro amigo Secchin evocou sabiamente como força artística na poesia de Suzana Vargas, numa das orelhas da obra, torna as semioses, incontestavelmente, vermelhas. O amor é vermelho é um livro “Rubedo”. Quem o lê já passou pelo “Nigredo” e pelo “Albedo” (embora passar não signifique deixar para trás), e pode enxergar a vida como a eterna ferida aberta de Nietzsche, que, longe de causar dor e desatino (apenas), causa gozo e plenitude (também). O corpo é o limite da obra, que por sua vez se espraia em “tentáculos” (2005, p. 54) pelo céu e pelo mar: EPIGRAMÁTICO Um sonho não pode ser maior que nossos braços Nem tão estranho Que não pertença ao nosso corpo (p. 23)

dos

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escolásticos.

Assim, toda a transcendência ou imanência do signo linguístico, que Saussure ou Todorov evocaram se concentra na lei do eterno retorno, no fato de que “mortos sempre voltam” (v . 4, 2005, p. 24). O livro é uma experiência dos milhares de sentidos que possuímos e que vão além Sucedem-se fatos e vibrações,

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calendários e paisagens, desejos azuis e verdes, flautas, mergulhos, memórias e pianos. A física é colocada em sua limitação nomeadora junto com a teologia, com a “cruz” (2005, p. 52). São todas linguagens limitadas, como já se disse. O cientista, por mais que creia no contrário, não possui privilégios, diante da língua que usa, em relação ao místico, ao músico, ao poeta. Somos todos limitados e só podemos expressar parte do território cujo mapa consideramos fidedigno: “As palavras assassinam” (Sem título, 2005, p. 57, v. 6) “E se retalham de indefinições” (idem, ibidem, v. 9). O amor é vermelho é, ademais, perpassado por lindas fotografias de Antonio Lacerda, que sobre sacralizam o teor inefável das palavras. Não se trata de um livro apenas de sentidos, mas sobretudo de um livro que aborda algo que, por sua natureza infinita, não deve ser abordado impunemente: o amor. Embora, à primeira vista, esse vocábulo seja o alvo de muitos poetas, dificilmente a sua plenitude sígnica consegue ser alcançada com tanta veracidade. O que mais temos são simulacros (voltando a Sócrates e Platão), verossimilhanças (voltando a Aristóteles), mas dificilmente obtemos, neste tema, obras cuja profundidade rasa tenha conseguido, de fato, e no seu grau máximo, o que de mais espetacular e assustador poderia ter conseguido: a obra de Suzana conseguiu ser vermelha. E todo o mais que se fale dela terá como convergência esse fato raríssimo: olhar o “avesso” (2005, p. 14) “sem compostura” (2005, p.89). “Vai passar muito tempo” até que outra experiência nos proporcione os incômodos e os regozijos da obra de Suzana. “Vai passar muito tempo” (2005, p. 98), “até dizer eu te amo”. (*) VARGAS, Suzana. O amor é vermelho. Rio de Janeiro: Garamond, 2005.

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MAIS QUE UMA ALEGORIA IDEALISTA, UMA PARÓDIA DO QUIXOTISMO. UM ESCRITOR MARCADO PELA COR E PELA CLASSE: LIMA BARRETO Clair de Mattos Afonso Henriques de Lima Barreto, brasileiro, carioca, nascido em 1881, falecido em 1922, aos 41 anos. Filho de João Henriques de Lima Barreto, tipógrafo mestiço, e Amália Augusta, mulata bem-educada, nascida sob o teto de família rica e conceituada, os Pereira de Carvalho de quem vinha a ser afilhada. O menino Afonso, muito cedo perde a mãe, vítima de Tuberculose galopante. Graças aos bons Relacionamentos de seu pai, Lima Barreto faz os Primeiros estudos em excelentes colégios, ingressando, mais tarde, na Escola Politécnica. É aí que vem a sofrer a primeira das muitas injustiças que lhe marcariam a vida. Por ser negro, é reprovado nos exames e não consegue doutorar-se engenheiro. No entanto, a sedução pelas letras o impele em direção ao fazer literário e, assim, nasce o escritor. Mulato e boêmio, sua prosa ficcional é das mais representativas do romance tipicamente urbano e da crítica social, e, nesse contexto, a fina ironia se mescla à perspicácia de um enfoque sociológico, sob o prisma de uma ótica aguçada e sagaz. Em seus textos, de nítidas características confessionais, viceja o gérmen da denúncia social, talvez resultante de seus próprios conflitos existenciais, e sua literatura caracteriza-se pela exposição em cores vibrantes do drama íntimo de cada um, das misérias de uma sociedade envolvida pela hipocrisia de uma “moral” comprometida com padrões injustos, atrelada a normas discriminatórias. Sua literatura militante jamais deixou de se

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envolver intimamente com as questões da cidadania e da solidariedade humana. Lima Barreto extravasa suas amarguras de homem pobre e mulato na rebeldia contra o descrédito preconceituoso: “Como todo bom romancista, Lima Barreto constrói seu universo ficcional focalizando o homem e seu destino na sociedade à qual pertence.” No entanto, não falta em sua prosa o toque essencialmente romântico da vida suburbana, a evocação de noites amenas ao som de serestas, um Rio modesto que se estende ao longo dos trilhos rangentes para, afinal, perder-se nos confins de alguma vilazinha tranquila, longe do rebuliço da grande metrópole. Como todo bom romancista, Lima Barreto constrói seu universo ficcional focalizando o homem e seu destino na sociedade à qual pertence. Sua matéria-prima repousa no contexto sociocultural da gente humilde, acomodada, pequena classe sofrida dos subúrbios cariocas, e reflete a concepção humanista de sua filosofia de vida. Em sua obra, duas temáticas se tornam predominantes: a defesa dos injustiçados e a proposta de uma ética moral capaz de transfigurar as grandes divergências sociais. Policarpo Quaresma, personagem tipicamente barretiano, reflete a mentalidade cômico-satírica do ingênuo brasileiro ufanista, crédulo na grandeza de seu país, na dignidade inquestionável de seus semelhantes, na riqueza de uma terra abençoada e generosa, na defesa de um idioma nacional livre de estrangeirismos, enfim, na suprema benesse de “nascer brasileiro”. Suas humanas decepções reproduzem com viva fidelidade a grande complexidade do pensamento nacional, a perplexa constatação do nosso “gigantismo” anêmico e indefinido, sob um enfoque alegórico e sutilmente mordaz.

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Hispânico, o Major Quaresma carrega um conteúdo saturado de grandeza e verossimilhança nem de longe característico de um projeto caricatural, nem de longe um arremedo do herói de Cervantes, mas, sim, a capital expressão humana das contingências a que o moralismo idealista está sujeito quando seus propósitos se contrapõem aos valores de uma sociedade ainda mal constituída, cambaleante e, muitas vezes, omissa. Isaías Caminha, outra personagem de sua particular galeria, é também, à sua feição, um idealista. Porém, mestiço, esperto e inteligente, estimulado por uma formação cultural estribada na compreensão humanista do processo social, ao contrário do Major, entende longo que, para alcançar um patamar mais elevado na hierarquia social, faz-se necessário barganhar com a rigidez dos próprios princípios éticos. E barganhando, capitulando, bajulando e abrindo mão dos próprios ideais, consegue, sob pressão de artifícios e hipocrisias, atingir a meta do prestígio social e do sucesso profissional. Em As recordações do escrivão Isaías Caminha, o autor marca o clímax de sua obra como um insolente grito de protesto à postura de alguns privilegiados do jornalismo vigente, do carreirismo à custa de submissões indignas. Um grito de protesto contra os pretensos “senhores do saber”, os donatários do conhecimento, os forjadores da opinião pública, que, através da imprensa, são capazes de construir ou destruir ideais e reputações ao sabor dos próprios interesses ou em troca de vantagens. Isaías Caminha reproduz a caricatura cruel dos poderosos inflados de empáfia e sordidez a vicejar impunes nas cúpulas do poder arbitrário, acobertados pela conivência dos submissos e dos covardes. No entanto, engana-se quem supõe que a condição de mulato incompreendido e rebelde teria sido a única responsável pelo vigor analítico da prosa de Lima Barreto. Há em toda a sua obra uma intensa compreensão humana, um profundo conhecimento do processo social como um todo, uma aprimorada conceituação do exercício da cidadania. Na qualidade de escritor essencialmente memorialista e confessional, Lima Barreto deixa a seus estudiosos a dificuldade de determinar os limites entre a ficção e o verídico, visto que sua obra se confunde, muitas vezes, com o real vivenciado, qual enorme vitral desdobrado em sucessivas reproduções de fatos

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acontecidos. Lá estão retratados os acontecimentos da insurreição antiflorianista, a luta contra a febre amarela, os critérios de Rio Branco na condução do Itamarati, o período Hermes da Fonseca, a participação do Brasil na Primeira Guerra Mundial, as primeiras greves do operariado, os primórdios do movimento feminista, antevisão do modernismo, o futebol e o jogo do bicho. Tudo em perfeita fusão com a realidade brasileira, sua miséria e sua grandeza, seu ridículo e sua inocência, o pretensioso vazio intelectual engalanado com falsas plumagens, a ganância da politicagem inescrupulosa contrapondo-se à cordialidade inata do brasileiro comum. Lá estão a luta modesto funcionário público empenhado em educar seus filhos com vistas a um “destino melhor”, o prodígio da sobrevivência do povo humilde dos subúrbios cariocas, e, apesar de tudo, a brasileira capacidade de rir no infortúnio e cantar para enganar a condição de miséria. Esta realidade que os olhos do autor vêm e registram. Em Isaías Caminha, Lima Barreto reproduz a sua luta individual contra o preconceito de cor e classe social, a tacanha mediocridade pequeno-burguesa, a amarga experiência do êxito pessoal ao preço de todas as transigências e todas as concessões, ao preço do sacrifício da própria dignidade humana. Em Triste Fim de Policarpo Quaresma, Lima Barreto refaz a patética figura do patriota ingênuo que se propõe a salvar o país da ganância dos inescrupulosos, sem se dar conta de que sua pretensão só consegue provocar risos e pilhérias no seio de uma sociedade corrompida e velhaca. Já em Numa e a Ninfa, o romancista retrata a enorme e tragicômica galeria dos figurões sequiosos de poder e dinheiro, entre os quais se enreda o inocente Numa, genro aparvalhado, protótipo do “bom moço”, crédulo, meio cínico. O autor se utiliza da sátira, do remoque, da caricatura para expor a nu as fragilidades e indefinições de uma cidadania ainda capenga, cheia de imperfeições. Seus romances são um verdadeiro libelo de crítica social, sem dogmatismos, sem doutrinarismos e sem retórica inútil. Com Lima Barreto inicia-se a fase da literatura compromisso, fecundada na questão social, nas diferenças de classes, nos desacertos de uma sociedade aética e cruel. Foi esse mulato carioca, suburbano, discriminado, dominado pelo vício da embriaguez que terminaria por conduzi-lo ao desequilíbrio mental e finalmente à morte precoce.

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Foi esse mulato sofrido e pobre, o introdutor da nova concepção do romance brasileiro. O romance comprometido com o cidadão e com a sociedade em que vive, o romance denúncia social, o romance como elemento de construção de uma ética social mais justa e humana, partícipe ativo no processo evolutivo da cidadania brasileira. Lima Barreto passeia sua prosa entre personagens civis e fardados, concentrando-se com maior ênfase nos burocratas de uniforme. Aqueles militares mais empenhados em ofícios de gabinete do que em campo de batalha, divagando entre o sonho da aposentadoria calma e a rotina insossa e inodora da vida familiar. Além desse burocrata de uniforme, Barreto concentra seu foco de atenção nos titulares de postos e medalhas da antiga “Guarda Nacional”, daí extraindo substâncias primorosas para sua pena satírica e implacavelmente ferina. Dentre os tipos humanos, sutilmente captados pelo olhar aguçado do romancista, seria impossível esquecer a figura do General Albernaz, amigo de Policarpo, uma das mais primorosas criações da ficção brasileira, a sempre branda e cordata Adelaide, irmã do Major, e Ricardo Coração do Outros, o sentimental seresteiro. Apesar da vida marcada por amarguras, ressentimentos e malogros pessoais, o autor carioca desenha com lirismo e gentileza as paisagens do Rio, no entremeio de suas histórias, e, tal qual Machado de Assis, o mestiço Lima Barreto pode ser considerado um dos melhores retratistas da nossa literatura ficcional. A obra de Afonso Lima Barreto é conceituada por seus críticos como uma reprodução de processos íntimos, mágoas dolorosas que o

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escritor teria vivenciado e sofrido devido à sua origem humilde e ao preconceito racial. No romance Clara dos Anjos, o autor relata a história de uma moça modesta, mulata, seduzida e depois desprezada por um jovem branco de condição social superior. O autor enfatiza com cores dramáticas o drama do desnível social, da diferença de classes e raças e o pesado estigma da cor. No entanto, a meu ver, seria injusto analisar uma obra de tal magnitude sob ótica tão estreita e acanhada, vendo-se nela apenas e não mais que uma outra alusão autobiográfica. Não contexto que na literatura barretiana sejam facilmente identificáveis os padecimentos e as suscetibilidades pessoais do criador. No mesmo romance, Clara dos Anjos, é possível identificar o retrato do próprio autor nos traços do personagem Leonardo Flores, o poeta mulato. Porém, a arte do romancista é bem maior, consegue transfigurar o meramente confessional, reconstruindo com sutileza o “real imaginário” tipicamente lítero-romanesco, estabelecendo a perfeita adequação entre forma e conteúdo, solucionando com maestria o critério da verossimilhança, e finalmente, vinculando no contexto da trama a simétrica tensão entre o real e o imaginário, imprescindíveis numa boa literatura. Barreto debruça-se sobre si mesmo, porém, mais que isso, desdobra-se na galeria fantasiosa da criação ficcional para desaguar na pura limpidez artística do fazer literário. Como contista, Lima Barreto surpreende pela fina ironia de suas histórias, pela crítica inclemente a uma sociedade perversa e hipócrita, visualizada através da fria e cirúrgica lente de aumento com que focaliza e disseca os meandros sutis da natureza humana, suas pequenas crueldades, suas inesperadas grandezas, sua surpreendente capacidade de metamorfosear-se para melhor adaptar-se às situações diferenciadas ou insólitas. Exemplo clássico dessa agudeza são os contos O homem que sabia javanês e Nova Califórnia. Morto aos 41 anos de idade, Afonso Lima Barreto deixa uma obra de dezessete volumes, entre romances, contos, ensaios de crítica literária e artigos de ordem política, sem trair um só momento sua vocação de escritor marcado pelo trágico e o maldito, marcado a ferro e fogo na luta pelos sagrados direitos do cidadão no contexto da sociedade vigente, marcado desde o berço pela desigualdade de cor e classe que o discriminaria vida

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afora. Essas marcas, ele as conservaria indeléveis ao longo de seu trajeto como homem e como escritor. Por mantê-las vivas, dolorosas e abertas como chagas, Barreto pagou o alto preço de um viver atormentado e de um morrer em quase solidão. Ao seu enterro quase indigente, compareceram não mais que os parentes próximos e alguns poucos amigos. A glória não lhe sorriu em vida, nem a fortuna acompanhou seus passos. Foi sua sina, seu fado e sua escolha, a luta em favor dos excluídos, das minorias visadas pelo poder discricionário, dos mal aquinhoados, aos quais não é concedido o pleno direito de cidadania. Segundo suas próprias palavras: “A arte é um fenômeno social.” Afonso Lima Barreto jamais negou a essência filosófica dos direitos humanos assimilada nos estudos adolescentes e direcionou sua carreira literária e profissional segundo os parâmetros humanistas que sempre o nortearam. Foi fiel a si mesmo e a seus princípios, foi coerente em todas as circunstâncias, leal a seus credos, princípios, e filosofia de vida. Jamais recuou um passo, jamais se afastou do ideal perseguido. Traçou sua meta e conduziu sua vida em plena conformidade consigo mesmo, vindo a pagar com a própria desdita o pesado óbolo de suas convicções. Há quem veja em Afonso Henriques de Lima Barreto apenas um genial rebelde, inconformado com a sociedade em que viveu. Eu vejo mais que isso. Vejo um homem que se propôs a mudar a conceituação hipócrita de seu tempo. Vejo um homem que ousou extrapolar os limites restritos de uma cidadania mal-construída, acovardada pela imposição de padrões arcaicos e cruéis. Vejo um homem que pensou além de seu tempo e seu momento e que, com garra desabrida, abriu à força os portais da nova consciência nacional. É assim que vejo o homem, o escritor e o brasileiro Lima Barreto.

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POESIA

TESTAMENTO Ives Gandra Na voz do verso que resta, Na velhice já sem festa, Meu grito soa distante, Sem ser triste ou ser tristonho, Continuo o mesmo sonho, Que vivi desd’eu infante. Deus, família, minha’amada, No descer da estreita escada, Que me leva ao fim da vida, Eu os tenho agora ao lado, Tornando doce o meu fado, A curar qualquer ferida. Meu testamento guerreiro Eu os deixo, por inteiro, Aos que lutaram comigo. Mesmo fraco, vi-me forte, Sujeito aos toques da sorte, Fazendo amigo o inimigo. Meu verso pobre e diário, Escrito em meu calendário, Fez do combate certeza, Qual astronauta no espaço, Tracei sempre cada passo, Sem medo da correnteza. Pouco fiz, mas pouco importa, A estrada não se fez torta, Porque lutei sem descanso, Na derrota e na vitória, Sem nunca fazer história,

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Mas tendo discreto avanço. Das lições eu deixarei Bem poucas: servi a lei, Da luta não desisti. Deus, família a inspiração Foram de meu coração E tudo agradeço a ti, Companheira da virtude, Desde minha juventude, Nestes anos sem tormento, A ti, Ruth, tão querida, Hoje perto da partida Entrego meu testamento.

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TRÊS POEMAS DE MARCIA AGRAU

Às vezes Às vezes me dá vontade de grafitar a casa toda: paredes, portas, tetos, móveis... vontade de acabar com a mesmice e encher de inesperados o meu entorno. Pra não fazer isso é que viajo. A cada compromisso A cada compromisso, um anel, um papel, uma palavra. Mas às vezes dá vontade de se despir dos anéis, rasgar os papéis e emudecer. Ou, pelo menos, vir a ser quem não sinta a prisão dos anéis, quem só entenda de panos, sonhos e pastéis, quem não seja muito crítica mas não deixe de ser tonta, quem não note o que se apronta, inconsequente mulher. Carta a um amigo distante (Doídamente Marcia Agrau)

O tanto que eu sinto falta de você de lhe falar, de lhe ver, se torna uísque nos copos com gelo e ao fazê-lo, se tomar assim, me toco que cada copo é uma fase,

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uma frase completa da poeta que não esquece o nome e o sobrenome do amigo retirado e exilado. Do convívio da gente, tão distanciado... E lembro, então, os papos-coração, papos-cabeça até, que a vida reuniu em nós, nos deu a voz, que a vida fez dar pé. E, sabe como é, eu fico assim nostálgica e bêbada porquê me lembro de você e me lembro de mim e como eu era em pleno coração e primavera a sensibilidade adolescente na gente já madura, embora pura e a vida em volta pra você pura revolta e a minha organizada, assim guardada de ser rebelde,então, que a rebeldia passara-me mais antes e a alegria sucedera-a no encontro com o amor. Se for para voltarmos a nos vermos e novamente nos perdermos eu não quero. Mas quero tanto, esta saudade imensa que abrange tudo o que vivemos, pensa, recorda o que foi isso. O compromisso

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da irmandade, o fraterno que se expôs e retorna no tempo como eu: Vai ver como era bom sermos nós dois naquele tempo passado tão recente quando éramos tão juntos, tão irmãos, tão amigos e tão gente.

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RIMAS PERDIDAS... Claire Leron Para quem eu vou deixar os meus versos, meu amor infinito, minha sede imensa de viver? De sentir, de beber a seiva de terra, o perfume das flores, suas cores, o meu céu e minhas estrelas? O sol que vejo nascer, quando ainda nem dormi e já chega a alvorada. Queima e aquece minh`alma sofrida e presa neste corpo meu, sem mim... Para quem eu vou deixar os vaga-lumes, que em bandos, iluminam, só eles, o meu caminho? O frio que cerca e envolve o meu corpo à noite, que anseia loucamente por ti e para ti quer se entregar? O orvalho da madrugada, que em sua carícia meu corpo todo molha? Os meus pardais, que brincam no alto dos galhos das árvores,

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tentando em vão me alegrar? Toda a minha dor, minha única e fiel companheira, que por toda esta vida, só ela, me acompanhou... Para quem eu vou deixar minh`alma vagabunda, caminhante em busca de amor pelas estradas por onde andei? Minha saudade profunda dos sonhos que não realizei e de alguém que eu não fui? Os raios de luar, que beijam meus lábios em uma volúpia insana de prazer e dor? E a marca do teu beijo ansiado e não recebido, sentido e não imaginado, que por minha culpa, muitas vezes, eu perdi? Para quem eu vou deixar meus filhos que não nasceram, almas perdidas no tempo, minhas lágrimas sofridas que não chorei? Ah... Deixarei tudo para vocês, almas felizes que pela vida passaram e tiveram a alegria que nunca alcancei e o amor que um dia eu pensei existir... (Do Ensaio sobre Florbela Espanca - Rimas Perdidas)

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ARTIGOS

EDUCAÇÃO LIMPA Arnaldo Niskier “O futuro da Terra depende das decisões tomadas agora pela humanidade.” Com essas palavras, o dr. Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias de São Paulo, abriu os trabalhos da Rio+20, no deslumbrante pavilhão que levou o nome de Humanidade 2012, nas instalações do Forte de Copacabana. Um público numeroso prestigiou o painel de Educação, que contou com as palestras de Sílvio Meira, especialista em tecnologias educacionais, e Tião do Lixo, um extraordinário e aplaudido exemplo de superação, vivido no Aterro de Gramacho e hoje exercendo atividade de especialista em reciclagem. Ao falar para a plateia de 500 professores do Sesi, tivemos o ensejo de cunhar uma expressão que foi muito apreciada: “Queremos uma educação limpa para os nossos jovens estudantes.” O que significa isso? Chegamos a esse raciocínio a partir das grandes preocupações da Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável (Rio+20): água, alimentos e energia. Desta se exige, para a salvaguarda do planeta, que seja cada vez mais limpa, prestigiando soluções como o etanol, a energia eólica e a energia solar, que não são poluentes. Preocupados com as inovações nas sociedades sustentáveis, devemos exigir para todos um ensino de qualidade, que valorize o meio ambiente, atacando frontalmente os graves problemas da educação brasileira, entre os quais a baixa remuneração do magistério, a evasão do ensino médio, a ausência quase absoluta de tempo integral nas escolas, a existência de 14 milhões de adultos analfabetos e a permanência por longos anos de currículos ultrapassados em nossas escolas, além do envelhecimento das propostas dos nossos cursos de Pedagogia. Uma educação limpa valoriza também as bibliotecas e os laboratórios. Na exposição da Rio+20, ao lado do pavilhão referido, havia outro, uma belíssima concepção da cenógrafa Bia Lessa, contendo cerca de 10 mil livros dispostos artisticamente e

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que foram selecionados por 120 personalidades brasileiras, que cederam obras para essa mostra. Uma forma de estímulo necessário. Voltando à iniciativa do Sesi, da Firjan e da Fundação Roberto Marinho, em nossa pequena palestra sobre “Educação e Sustentabilidade”, acompanhada do lançamento de um livro com esse título, felicitamos o jornal O Globo pela campanha em defesa da preservação das toninhas (golfinhos) que estão desaparecendo da baía de Guanabara, em função das suas terríveis condições de poluição irrefreável. Com olímpica objetividade, dissemos que as toninhas são indispensáveis, “mas devemos nos preocupar também com os milhões de toninhos existentes em todo o território brasileiro, que não dispõem de escolas adequadas para o exercício da sua cidadania.” O nosso desejo é que, pela vontade política, que nos tem faltado, se possa dar à educação todo o apoio, inclusive financeiro, para que a atual geração cumpra a sua obrigação de forma competente.

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PAI E ZWEIG Sylvio Back Que feliz coincidência: setenta e seis anos depois de Stefan Zweig ter vindo ao Rio de Janeiro pela primeira vez a convite do PEN Clube do Brasil, recém fundado, o único filme sobre a “vida brasileira” dele, “Lost Zweig” (2004), acaba sendo a peça audiovisual mais exibida e difundida no país em todas as mídias, ao longo de 2012, assinalando os setenta anos de morte do casal Zweig em Petrópolis. A exposição culminará em novembro próximo (de 21 a 25), com ciclo de filmes em homenagem ao escritor programado pela Cinemateca Brasileira, em São Paulo. Com este depoimento, atualizado pelas circunstâncias do infausto acontecimento, repertório existencial de anos de pesquisas, leituras, realização e lançamento cinematográficos, sinto-me tolhido por uma recorrente sensação, misto de tristeza e exaltação moral, de como a liberdade poética presente no longa-metragem é uma irrecorrível exegese biográfica. Do começo: há mais de três décadas, melhor, em 1981, quando a biografia de Stefan Zweig (1881-1942), “Morte no Paraíso”, de Alberto Dines, ainda estava nas provas, formatei mentalmente a ideia do filme. Ali se concentravam as investigações, com um notável toque e torque de crônica policial, ficção, história das mentalidades da Europa entre guerras, filosofia, especulação anedótica e, acima de tudo, uma

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incontida paixão pelo trágico autor de “Brasil, País do Futuro”. Para mim, naquele momento (e do qual jamais me recuperei), houve um amplo feixe de fatos e atos confluentes. Era como se o redivivo escritor judeu austríaco almejasse encontro com o desejo de exorcismo memorial do cineasta, filho de judeu húngaro, na insondável ânsia de pai e Zweig se anteciparem ao trágico destino. “Lost Zweig”, lost Back! Stefan Zweig, curiosa e estranhamente, comecei a amá-lo nos anos 1950/60 antes pelo cinema baseado na sua obra. Filmes fundadores que viraram cults e que continuam sendo exibidos na TV e disponíveis em DVD: “Carta de uma Desconhecida” (“Letter from an Unknown Woman”) (1948), do mestre franco-alemão, Max Ophuls, um canto à sensibilidade feminina, e “Até o Último Obstáculo” (“Schachnovelle”) (1960), de Gerd Oswald, realizador americano de origem germânica, este inspirado no livro homônimo (literalmente, “novela do xadrez”, em alemão) – brilhante metáfora do totalitarismo que Zweig terminou horas antes de se suicidar em Petrópolis no dia 23 de fevereiro, na semana seguinte ao Carnaval de 1942. Só mais tarde pus-me a ler assimetricamente a sua multifacética estante de mais de cinquenta títulos. Nessa época ignorava tanto o avatar paterno, como a própria dupla tragédia zweigueana (Zweig, 60, se mata com a segunda esposa, Lotte, de apenas 33 anos), cuja sobrevida como autor levei anos creditando ao gesto terminal. Como de resto, por oposição, muitos de seus fiéis leitores ainda hoje lhe desconhecem a automorte. Stefan Zweig permanece graças à sua prosa límpida, encantatória e psicologizante, à sua própria saga convertida em ficção, pelas biografias poéticas em torno de figuras históricas polêmicas, quando menos, perdedores de natureza. Mas, especialmente, pelo seu pacifismo militante, vocação antimilitarista e humanista com uma modernidade a toda prova. Cinema é visibilidade; literatura – invisibilidade. De posse dos direitos de “Morte no Paraíso”, em dois anos (1987/88) criei um argumento visceralmente ficcional e escrevi solitário um primeiro tratamento do roteiro de “Lost Zweig” – já dentro dos padrões e jargão técnicos, com personagens definidos, enunciação das cenas e respectivos diálogos. Alberto Dines, ao recapturar literariamente a saga dos Zweig, envereda por um manancial de dados, noticiário de imprensa e

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informações colhidas na própria obra do biografado, além do testemunho de sobreviventes, sempre procurando ater-se a fatos que, quando menos, poderiam ser comprovados.

O roteiro que deu no filme incursiona por outras paragens do real e do imaginário. É quase um poema em prosa, uma reinvenção que propositadamente se descola do registro cotidiano e, especulando, adensa o que teria ocorrido na última semana de vida do casal Stefan-Lotte, tanto em Petrópolis quanto no Rio de Janeiro. Quase como se “Lost Zweig” estivesse sendo conjugado o tempo todo no futuro do pretérito, algo assim como se lê no genial romance “Angústia”, de Graciliano Ramos. De qualquer forma, estou convicto de que quanto maior a traição ao livro que inspira um filme – melhor para ambos, escritor e cineasta. “Ambos se mantêm de pé sozinhos” – como ouvi do escritor catarinense, Guido Wilmar Sassi (19222003), após assistir ao meu filme, “A Guerra dos Pelados”, em 1971, adaptação cinematográfica do seu original romance, “Geração do Deserto” (1964), que tematiza a Guerra do Contestado. Ouso dizer que, após a projeção de “Lost Zweig” no Festival de Brasília, era como se Alberto Dines alguma tivesse ouvido a frase lapidar de Sassi. Desde o início conjecturei “Lost Zweig” falado numa língua estrangeira, que é como se comunicava o casal Zweig com os exilados europeus e com os brasileiros que os

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frequentava. A babel do cotidiano ia desde o iídiche ao francês, passando, claro, pelo alemão (Zweig, judeu austríaco; Lotte, judia polaca que sabia alemão) e, por fim, o inglês, que a partir da II Guerra Mundial substituiu o francês como a língua da diáspora e dos perseguidos pelo nazi-ifascismo. Num primeiro momento, o alemão veio à tona, mas seria pouco provável encontrar no Brasil atores com a suficiente amperagem dramática para defender os personagens que compõem a trama do filme. Com um inesperado agravante: o alemão falado na Áustria difere em sotaque do alemão da Alemanha; quase como o que diferencia o nosso “brasileiro” do português, de Portugal. Nessa, o inglês acabou se impondo diante da existência de inúmeros atores e atrizes brasileiros que dominam o idioma. Com um tratamento acabado em mãos, início dos anos 1990, pedi a um tradutor nascido na Inglaterra que o vertesse ao inglês. Estava crente que, escrito na língua hegemônica, as possibilidades de produção tanto nos Estados Unidos como na Europa seriam incomensuráveis. Ledo engano. As rejeições, incompreensões e negativas de possíveis investidores de ambos os lados do Atlântico foram se acumulando, seja pelo mote do suicídio (principalmente, ainda um tabu), seja por um antissemitismo disfarçado, e ainda, por se tratar de uma produção brasileira. Produtores privados, que se declaravam fissurados por Stefan Zweig, e os organismos de financiamento estatal da Alemanha, França, Áustria, não escondiam um ódio congênito aos Estados Unidos, além do fato de preservarem o idioma nacional como uma loba cuida dos seus. Por que, então, investir num roteiro com tema maldito, depois, escrito e falado em inglês, e ainda por cima, a ser rodado no Brasil? Sim, esse aparecia como o maior obstáculo que se antepunha à filmagem do roteiro. Mas havia outro, embutido nele: o inglês a que fora convertido. Isto não é inglês, nem da Inglaterra, nem dos Estados Unidos – me disse, sem meias palavras, o roteirista irlandês, Nicholas O’Neill, que conheci casualmente no Rio de Janeiro em 1995 –, horas depois de tê-lo lido. Ao descobrir que o personagem também o interessava, incorporei o engenho dele e, juntos, reescrevemos o roteiro diretamente para o inglês. Até então, o inglês do roteiro derrotara o roteiro em inglês. E, no mesmo tom de franqueza, nas vezes que trabalhamos juntos em Dublin e aqui no Rio de Janeiro, pedi a O’Neill que ficasse no inglês britânico e não no

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inglês do país, inimigo histórico da Albion, a Irlanda. Só me convenci quando produtores americanos elogiaram os diálogos, cuja expressividade idiomática e o acento sempre balança, segundo eles, com sucesso, entre os Estados Unidos e a GrãBretanha. Até chegarmos a esse ponto, perdemos a contagem de reescrituras que o roteiro exigiu para que estivesse em condições de ser a bússola das filmagens. No vácuo entre o processo de elaboração do roteiro, um feliz acaso (que, afinal, sempre preside a criação!) como o que me levou ao talento do irlandês, Nicholas O’Neill. Em 1992, nas comemorações dos cinquenta anos de morte de Stefan Zweig, o Instituto Goethe, do Rio de Janeiro, realizou um simpósio sobre a atualidade moral e literária do escritor. Desse debate nasceu em 1995 o não-premeditado filme de média-metragem, “Zweig: A Morte em Cena” (43 min.), para a TV alemã, 3sat, que o transmitiu, simultaneamente, à Alemanha, Áustria e Suíça, durante a Feira do Livro de Frankfurt. Um pequeno filme que acabou se transformando numa espécie de ensaio geral do futuro longa-metragem, realizado nove anos depois. Entrevistando os macróbios amigos contemporâneos de Stefan Zweig (entre eles, o editor, Abraão Koogan; o advogado, Samuel Mallamud e sua esposa, Anita; o tradutor, Elias Davidovich, o colecionador de arte, Gerhard Metsch) – consegui me livrar da tentação de encenar uma mera biografia factual do escritor. Afinal, toda biografia é quase sempre uma fraude anunciada, quando não hagiografia pura e simples, aliás, uma praga que atualmente corrói moral e ideologicamente tanto o cinema de ficção como o documentário brasileiros. E assim surgiu no papel e no celuloide um Stefan Zweig (e uma Elizabeth Charlotte Altmann) inteiramente reinventado do que até então se escreveu e se fabulou sobre ele. Ou seja, um perfil que muitas vezes não encontra eco, exatamente, nas biografias europeias e até em “Morte no Paraíso”, nem coincide com a imagem asséptica que a própria Áustria “oficial” construiu dele. E até desmonta mitologia que se grudou no autor de “Brasil, País do Futuro”, de que o seu suicídio foi um ato de covardia, antes que um protesto político-existencial. Entre outros insights, junto às minhas próprias pesquisas e da decodificação desses depoimentos gravados em Petrópolis e no Rio de Janeiro, um inusitado “sótão de segredos” – eu definiria, se abriu desvelando um belo tesouro escamoteado em

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torno e sobre o dia-a-dia (e da morte) do escritor e de sua mulher. Desde o nebuloso visto de permanência concedido pela ditadura Vargas, de nítido corte antissemita e a tentativa de salvar seus compatriotas perseguidos pelo nazismo, à tensão entre as recordações da “dourada era da segurança” europeia pré-Hitler e a nostálgica ilusão de reencontrá-la no Brasil, do drama conjugal (as ligações afetiva e intelectual com a ex-mulher) às aventuras eróticas e à sua bissexualidade (muitas vezes confundida com homossexualismo), sempre omitida ou não intuída pelos seus biógrafos. Aliás, chave e clave para a compreensão de inúmeros de seus personagens, e para isso, basta ler alguns de seus romances, como “Confusão de Sentimentos”, e biografias, como a do dramaturgo suicida, Heinrich von Kleist, por exemplo. Alguém já escreveu que a grande diferença entre ficção e realidade é que a ficção tem que fazer sentido. Por incrível que possa soar, Stefan Zweig e Orson Welles têm uma trajetória brasileira quase comum. Quando nos anos de 1970 começaram a ser reveladas as primeiras imagens do mitológico e inconcluso documentário, “It’s All True” (“É Tudo Verdade”), de Welles, me deu um estalo. O diretor de “Cidadão Kane” (por coincidência, o cinema de Petrópolis exibia o filme no dia do enterro dos Zweig), que chegara ao Brasil em fevereiro de 1942 sem um roteiro do que iria filmar, se inspirara em “Brazil, Land of the Future”, lançado no ano anterior com grande sucesso nos Estados Unidos. Da desconfiança cheguei à certeza quando o famoso ator, Grande Otelo que, aliás, estreou no cinema em “It’s All True”, me confidenciou que Welles andava com o livro de Zweig debaixo do braço durante as filmagens. O que por si só explica a bombástica declaração de Welles, quando chegou ao Rio, de que precisava conhecer Stefan Zweig, um “escritor sublime” – textualmente. Anos depois, vendo as cenas restauradas de “It’s All True”, as suspeitas apenas se confirmaram. Welles transmuta, imageticamente, Zweig do seu profético “Brasil, País do Futuro”, cujo título virou epíteto que há setenta anos persegue a pátria como um irrecorrível labéu, onde o futuro parece mesmo que nunca chega, como diz personagem de “Lost Zweig”. Em vida ambos jamais se encontraram. No filme promovo um inusitado encontro entre esses dois gringos perdidamente apaixonados pelo Brasil.

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Depois de assumir o livro, “Morte no Paraíso”, como, digamos, plataforma de lançamento”, o roteiro de “Lost Zweig” entrega-se a uma liberdade autoral e poética extremas, exatamente, na tentativa de preencher, sintetizando, os inúmeros “buracos negros” que foram sendo deixados sem resposta ao longo dos meses que o casal Zweig passou no Brasil. Através deles, o filme traduz a famosa “ronda dos suicidas”, que efetivamente ocorreu, daí a trama circular do roteiro, mesclando passado, presente e a virtualidade do que poderia acontecer ou acabou acontecendo. Em outras palavras, “Lost Zweig” procura reimaginar o que teriam sido os derradeiros dias e horas de Zweig e de Lotte antes da decisão fatal. E toda essa dramática “viagem” é contada pelo próprio “espírito” de Stefan Zweig, protagonista e presentificação de um gesto que até hoje desperta incógnitas e assombro pela sua premeditação e caráter emblemático. Ainda que desça ao inferno existencial de Stefan Zweig e de Lotte, o filme evita ir ao encalço de explicações ou justificativas, também não condena o suicídio. Como o do meu próprio pai, que se matou na Lapa, bairro do Rio de Janeiro, em 1950, com a mesma idade de Zweig! Apenas lhe dá a dimensão ontológica e ética que a própria decisão em si guarda. Porque o suicídio, enfim, por mais planejado ou tresloucado que seja, é sempre a irrupção de um desejo quase erótico instalado no íntimo da pessoa como se um vírus fora.

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CONFERÊNCIA Geraldo Holanda Cavalcanti

TRADUÇÃO E GLOBALIZAÇÃO Geraldo Holanda Cavalcanti reação imediata de quem aborda a questão da globalização é imaginá-la como um fenômeno de homogeneização. No Aentanto, se nos detivermos a analisar o que está ocorrendo no mundo, sob o manto da palavra “globalização”, é precisamente o oposto. O que logo percebemos é a extrema variedade de situações, conceitos, modos de vida, produtos, tudo o que nos cerca ou nos exige a atenção, nos afeta em nossas decisões, nos proporciona perplexidade, nos enriquece em conhecimento e se nos oferece como problema. A instantaneidade da informação e a ilimitada possibilidade de imediata reação, pelos métodos cada vez mais sofisticados de comunicação, nos defronta não com um panorama sempre mais integrado, ao alcance de nossa compreensão, mas, bem ao contrário, com um gigantesco quebra-cabeças diante do qual nossa liberdade de ação se

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diversifica ao ponto de travar-se ante a multiplicidade de escolhas oferecidas. A padronização da oferta, sobretudo no domínio dos bens de consumo, não conduz, necessariamente, à uniformização das reações individuais no seu uso em povos de distintas tradições culturais. Isso ocorre, também, no que respeita à apropriação por esses mesmos povos, dos bens imateriais da cultura. Obviamente o fenômeno representa um enriquecimento generalizado de conhecimentos que podem ser aplicados de forma construtiva pelas populações atingidas. Mas nem tudo são ganhos. Assistimos, em tempo real, aos choques culturais provocados pela exposição a modelos de comportamento social que o consumismo inerente aos sistemas econômicos prevalecentes impõe em escala mundial. Da mesma forma, assistimos, e até dele participamos, ao choque do embate entre as civilizações. Nosso propósito não é falar da globalização, seus méritos e deméritos, mas da tradução no contexto da globalização e, portanto, vamos direto ao assunto. A tradução sempre existiu, porque sempre foi necessária. Pelo menos desde a intervenção divina registrada no livro do Gênesis quando Iahweh, vendo a rapidez dos progressos realizados pelo homem, e achando que isso poderia conduzi-los a rivalizar com os poderes celestiais, decidiu dificultá-los introduzindo, por um fiat, a multiplicidade dos idiomas. A partir daí sempre esteve presente a tradução para os mais diversos fins utilitários no convívio humano. Hoje vivemos da tradução, sem darmo-nos conta disso. Tudo só é possível porque existe a tradução. Nada se pode construir, pessoal ou socialmente, sem sua intervenção. Desde as necessidades mais elementares de higiene pessoal (da pasta de dentes aos cosméticos), de saúde (da aspirina aos antibióticos, do esparadrapo ao marca-passo), de vestimenta (da bermuda ao sapato tênis), de conforto doméstico (a famosa linha branca), de locomoção (da bicicleta ao avião), de comunicação (do telefone ao skype), de divertimento (do brinquedo no parque, ao cinema, à televisão), de instrução (individual ou coletiva), de informação (previsão do tempo, notícias da família distante), às mais exigentes e

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complexas necessidades de formação intelectual, aperfeiçoamento moral, confirmação religiosa, tudo, absolutamente tudo, passou ou passa, em algum momento, de alguma forma, pela tradução. Para que tudo isso funcione, necessitamos de um trabalho incessante e cumulativamente atualizado de traduções unívocas. Não há lugar para ambivalências, ou o remédio mata, o cosmético se desmancha, o avião cai, o telefone explode, ou você perde a lista de seus 700 amigos no facebook. Na atualidade, a tradução expandiu seu campo de atuação aos domínios mais sensíveis para a própria sobrevivência da civilização. Não fosse a tradução, não haveria alternativa para a guerra entre as nações. Meros exemplos: a ONU, a União europeia, todos os organismos internacionais que colaboram para o entendimento entre os povos e as nações, sejam eles governamentais ou não governamentais, a incessante multiplicação dos eventos de toda natureza, científicos, políticos, culturais, religiosos, esportivos, que só se tornam possíveis porque, para sua mediação, se dispõe da tradução. Um exemplo eloquente é o da União Europeia, até mais do que o da própria Nações Unidas, porque na Europa, que milenarmente viveu se autodestruindo por guerras fratricidas, foi a criação das Comunidades precursoras da União Europeia que possibilitou, já meio século fax, a construção de uma sociedade continental esperançosa de harmonia e progresso coletivo. E qual a maior despesa que teve e tem que enfrentar a União Europeia ao longo de sua história? Aquela com seu numerosíssimo corpo de tradutores e intérpretes tradutores para que não haja documento ou fala nos seus órgãos superiores que não tenham que ser traduzidos em todos os idiomas dos estados que a compõem. E isso representa hoje 22 línguas faladas pelos seus 27 membros: alemão, búlgaro, castelhano, checo, dinamarquês, eslovaco, esloveno, estoniano, finlandês, francês, grego, holandês, húngaro, inglês, irlandês, italiano, letão, lituano, maltês, polaco, português, romeno e sueco. Essa é uma experiência muito especial, que tem inspirado outras semelhantes em diversas partes do mundo, e que representa, no momento atual, o ponto mais avançado da aplicação da tradução para o progresso da humanidade. Falar da União Europeia neste momento pode até parecer fora de propósito dada a crise que ela

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atualmente enfrenta, por razões mais econômicas do que políticas ou culturais. Mas é ainda a tradução o único meio de se entenderem as nações dentro da União para enfrentar e tentar resolver as dificuldades em que se encontram. A menção ao que ocorre na União Europeia leva-nos a evocar o insistente desejo da diplomacia brasileira de ter o idioma português reconhecido como língua oficial nas Nações Unidas. A ONU hoje tem 193 membros. Pode-se imaginar a babel de línguas que a ensurdeceria se todas tivessem que estar representadas em suas reuniões. O que ocorre na União Europeia, e já é um problema considerável, é irreproduzível numa instituição daquela dimensão. A redução a seis idiomas oficiais, árabe, chinês, espanhol, francês, inglês e russo, é arbitrária e se originou na obrigatória inclusão daqueles falados originalmente pelos membros permanentes do Conselho de Segurança, aos quais vieram acrescentar-se o espanhol e o árabe. É isso arbitrário e prepotente? É. Mas que outra solução seria possível? Não é estranha à questão da ampliação do Conselho a da admissão de idiomas oficiais adicionais, pelo elevado custo que daí poderá resultar a ONU. O PEN Clube internacional tem dado uma consideração especial ao problema do reconhecimento dos direitos fundamentais das comunidades linguísticas de se expressarem. Faço, aqui, um elogio enfático à orientação que vem sendo dada pelo nosso atual Presidente, Cláudio Aguiar, no sentido de dar prioridade, nesse primeiro ciclo de palestras da sua administração, ao exame dos quatro pilares da Carta do PEN Internacional, que é o motivo da existência dos PEN clubes nacionais e a obrigação dos seus membros defender e promover. No que me cabe nesta palestra, não poderia fazer melhor do que evocar a Declaração Universal dos Direitos Linguísticos, elaborada pelo PEN Internacional e aprovada em Barcelona, em junho de 1996, com o apoio da UNESCO. A Declaração refere-se, expressamente, ao que hoje chamamos globalização, que os signatários da Declaração, seguindo o modelo francês, chamam de “mundialização”. Diz a Declaração: O processo de mundialização da economia e, consequentemente, do mercado da informação, da comunicação e da cultura, afeta as esferas de relação e as formas de interação que garantem a coesão interna de cada comunidade linguística. E segue explorando, minuciosamente, todas as formas e

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possibilidades de garantir as expressões linguísticas de todo tipo de minorias étnicas e sociais. Embora o objetivo central da Declaração seja de natureza política, nos direitos por ela reclamados incluem-se alguns que têm a ver diretamente com a questão da tradução, como aquele que reconhece o direito das comunidades linguísticas a serem atendidas na sua língua nos organismos oficiais e nas relações socio-econômicas. O Artigo 11 da referida Declaração é claro, a esse respeito. Estatui ser direito de todas as comunidades linguísticas beneficiarem-se dos meios de tradução nos dois sentidos que garantam a realização dos objetivos da Declaração. Entende-se a motivação política desse artigo que, de alguma maneira, exprime uma aspiração utópica como, aliás, se poderia dizer dos demais objetivos constantes da Carta de Princípios do PEN. São utópicos os direitos estabelecidos no Art. 40: “Todas as comunidades linguísticas têm direito a dispor, no campo da informática, de equipamentos adaptados ao seu sistema linguístico e de utensílios e produtos na sua língua, a fim de aproveitarem ao máximo as potencialidades oferecidas por estas tecnologias no que respeita à auto-expressão, à educação, à comunicação, à edição, à tradução e, em geral, ao tratamento da informação e à difusão cultural.” O mesmo podemos dizer do que figura no Art. 44: “Todas as comunidades linguísticas têm direito ao acesso às programações interculturais, mediante a difusão de uma informação suficiente, e ao apoio às atividades de ensino da língua a estrangeiros, ou de tradução, de dublagem, pós-sincronização e legendagem.” Evidentemente, muitas dessas aspirações não têm como serem transformadas em medidas operacionais. Isso não lhes diminui o valor como metas ou aspirações. Nenhum dos objetivos da Carta das Nações Unidas foi atingido integralmente, o que não retira da Carta a importância de sua extraordinária contribuição para uma progressiva conscientização no plano universal do respeito aos direitos fundamentais da pessoa humana e da responsabilidade dos estados de se esforçarem para torná-los realidade. Mas, baixemos um pouco o tom destas palavras para examinar o nível de necessidade e utilização da tradução no cotidiano de nossas vidas. Da tradução utilitária, não vamos nos ocupar em detalhe. Basta que se diga, citando apenas o caso do Brasil, no qual o

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mercado para a tradução utilitária cresceu, só nos últimos três anos, entre 2009 e 2012, 57%, como resultado da expansão econômica brasileira e sua maior presença no cenário internacional. Para tornar mais claro em que consiste esse mercado, citemos apenas os de maior significação que são o de tradução de manuais técnicos, em todas as disciplinas científicas, as traduções ligadas ao desenvolvimento da informática (sites e softwares), especialmente à Internet, os setores de legendas de filmes para o cinema e a televisão, e a publicidade de bens de consumo e serviços. Um caso especial de tradução utilitária que necessita ser ressaltado é o da interpretação, ou seja, o da tradução oral, simultânea. Sua utilização é abundantemente realizada e reconhecida nos organismos internacionais, mas talvez seu emprego mais corrente, essencial à boa conduta das relações internacionais, está nos encontros de natureza comercial, econômica, política, científica, cultural ou esportiva, que envolvem a presença de agentes operacionais de múltiplos países, nesses campos de atividade, oriundos de diferentes países de distintas expressões linguísticas, sejam eles profissionais, autoridades, atores, consultores ou simplesmente o público interessado. É cada vez maior, e mais sofisticado, o mercado para esse tipo de tradução. As facilidades oferecidas pelas técnicas modernas de comunicação ampliam-no ainda mais. Refiro-me, por exemplo, às videoconferências, cada vez mais utilizadas e hoje, até, as conferências por celulares, com intermediação de intérpretes. No Brasil, espera-se uma expansão considerável da demanda por interpretação nos próximos anos, em razão da Copa Mundial de 2014 e das Olimpíadas de 2016. A globalização não afeta, porém, somente o mundo das coisas concretas ou das comunicações meramente utilitárias. Ela afeta, também, tudo o que significa o pensamento, as formas de comportamento, a instrumentação e a fruição da inteligência e do sentimento. Ou seja, o mercado da tradução literária, no seu mais lato senso. Aqui entramos num mundo diferente do meramente utilitário. Entramos no mundo do subjetivo, do que diz respeito ao modo do indivíduo compreender, sentir e julgar seu próprio eu no tempo e lugar em que está condenado a passar a sua existência. Entramos no território onde se situa a filosofia e a

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arte. Ambas dependem da palavra para passarem de uma cultura a outra. Em ambas a palavra perde sua univocidade. Não tenho dados recentes sobre sua dimensão no Brasil, mas, segundo os divulgados pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros não faz muito tempo, nas duas últimas décadas vem ele crescendo a taxas expressivas, graças à demanda gerada pela expansão das redes de livrarias por todo o país, à oferta de livros online e aos sites de compra. Uma informação curiosa: aproximadamente 80% dos livros publicados no Brasil são traduções e destas uma porcentagem de cerca de 65% é de livros em inglês. Uma pesquisa recentemente realizada indica que nas listas de best-sellers em qualquer jornal ou revista nacional, pode-se perceber que os 7 ou 8 primeiros colocados, em qualquer que seja a categoria (ficção, não ficção, autoajuda) são traduções. Isso dá uma ideia, ainda que pálida e disfarçada, de como nossa cultura é influenciada por fatores estranhos à nossa própria realidade. Não vamos tratar aqui da tradução das obras do pensamento, a filosofia e suas congêneres, na qual ainda se aspira aproximar-se de precisões conceituais que poderiam ser superpostas com plena coincidência ao passar de uma língua a outra. Nem são elas a maior parte do que aqui se encontra traduzido, embora seja a que mais forma o pensamento crítico nacional. Trataremos da segunda, basicamente da literatura de ficção e da poesia, onde essa univocidade é impossível, e o mais que se pode alcançar é um grau maior ou menor de equivalência, não sendo rara sua completa impossibilidade. Também aqui a globalização se faz sentir plenamente. Quem se recorda do que expunham os balcões das livrarias um quarto de século atrás, terá a lembrança de que não mais do que a literatura de meia dúzia de línguas ou nações neles eram encontrados. Era impensável querer encontrar traduções, sobretudo diretas, de obras das literaturas holandesa, irlandesa, dinamarquesa, russa, sueca, húngara, polonesa, árabe, ou de países como a África do Sul, o Egito, a China, o Japão, Trinidad y Tobago, Irã, Afeganistão, hoje disponíveis e até disputadas. Atualmente vemos jovens comprando nas livrarias os romances Neve, do turco Orhan Pamuk, O caçador de pipa, do afegão Khaled Housseini, ou O último suspiro do mouro, do indiano Salman Rushdie, como se fosse a coisa mais natural.

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Não é só o romance, que se difunde e espraia, nessa onda de globalização. Também a poesia e de maneira mais ampla do que jamais se pensou alcançar. O prêmio Nobel de Literatura é, certamente, propulsor de um maior interesse internacional pela poesia. No último quarto de século, nada menos do que oito poetas dos mais variados horizontes foram por ele galardoados: o checo Jaroslav Seifert, o russo Joseph Brodsky, o mexicano Octavio Paz, o santa-luciense Derek Wolcott, o irlandês Seamus Heaney, a polonesa Wislava Szimborska, a romena Herta Muller e o sueco Tomas Tranströmer. Um belo trabalho de divulgação da poesia universal vem sendo feito entre nós pela revista Poesia Sempre, da Biblioteca Nacional, graças à orientação recebida de seu editor, nos últimos seis anos, o poeta e tradutor Marco Lucchesi, que tem procurado privilegiar a publicação de poetas de línguas pouco conhecidas no Brasil, em edições monotemáticas, a ele se devendo as que foram feitas nos anos recentes da poesia de Angola, China, Hungria, Índia, Irã, Islândia, Moçambique, Peru, Polônia, Portugal, Romênia, Suécia, e dos países de língua árabe. Ressaltar o papel de tradução de poesia aqui tem um propósito definido: de todo trabalho de tradução, da utilitária à literária lato sensu, é a poesia a mais debatida por críticos e consumidores. Desbordaria de muito, e de muito se afastaria do que penso esperar o nosso Presidente deste ciclo, falar dos problemas teóricos e práticos da tradução de poesia. Mas, tratarmos da tradução de poesia num mundo globalizado não é inoportuno se nos referirmos a um aspecto muito particular da discussão teórica que é a questão da intraduzibilidade da poesia. Não é desatinado observar que, se já é difícil a tradução de poesia entre idiomas da mesma família, ou de longo convívio civilizacional, suas dificuldades se multiplicarão quando se tratar da tradução entre línguas sem qualquer parentesco, ao ponto de poderem ser chamadas de exóticas, como ocorre agora, um dos efeitos colaterais da globalização. Por uma questão de método, distingo dois casos independentes de intraduzibilidade da poesia: um resulta de intervenções arbitrárias e artificiais do poeta original na estrutura do poema; outro das dificuldades específicas derivadas de incompatibilidades semânticas e prosódicas irremediáveis entre as línguas de partida e de chegada.

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Dizendo isso já me sinto autorizado a abordar o assunto sem a consciência pesada, pois, como verão adiante, embora, por deformação vocacional, pareça estar desviando esta exposição para um tema específico aparentemente desligado do ponto central da minha exposição, não é de todo descabido determo-nos, por instantes, sobre questões ligadas à dificuldade, ou à impossibilidade, da tradução literária. E se o fazemos é porque, como já tentamos mostrar, a globalização proporciona, inevitavelmente, uma maior exposição a diferentes culturas, expressas em distintos idiomas, tornando imprescindível o recurso à tradução. A tradução literária é sempre uma tarefa difícil e arriscada. Alguns autores jacobinos chegam a dizê-la impossível. São problemas que não cabe aqui discutir. Mas, para efeitos do que queremos demonstrar, permitam-me dizer duas palavras, e estas, apenas, sobre a intraduzibilidade de textos literários, particularmente da poesia. Isso pode ocorrer, mas serão sempre exceções muito particulares, se estivermos nos referindo a textos de culturas afins, como as de raízes latinas, ou as de um mesmo contexto civilizacional, as que nos vêm do mundo ocidental europeu, por exemplo. Nesses casos, as dificuldades serão maiores ou menores, mais em razão das diferenças culturais do que das linguísticas, propriamente ditas, porque a tradução não é feita a partir de palavras, mas de contextos, contextos que, se levam em si as idiossincrasias de um autor particular, dele fazem, queira ou não, também, ser porta-voz de uma cultura nacional e de uma experiência pessoal inseridas num lugar e num tempo. A impossibilidade da tradução pode resultar da arbitrariedade do autor no uso da língua original, ou de circunstâncias alheias à sua vontade, derivadas de diferenças estruturais entre os idiomas de partida e chegada, que não são de sua responsabilidade. No primeiro caso – não vou dar exemples para não me alongar – podemos citar as invenções futuristas, dadaístas, letristas, concretistas, e tantas outras que introduziram, voluntariamente, distorções linguísticas e formais intransponíveis de uma língua para outra. Há mesmo o caso em que a língua desapareceu, como no letrismo de Isidore Isou, nos poemas compostos de palavras inventadas, como o “Elefantenkarawane”, de Hugo Bali, ou apenas de parênteses e

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barras, como na “Canção noturna do peixe”, de Christian Morgenstern, ou de simples fotografias de olhos humanos, como no piramidal pop-creto de Augusto de Campos “Olho por olho”. No segundo caso, temos as dificuldades involuntárias, não arbitrárias, mas resultado da incompatibilidade semântica, prosódica ou até semiótica, entre as línguas de partida e chegada, desde o caso mais simples de palavras que só expressam sentido em suas línguas originas e só podem ser traduzidas por construções analíticas, como, por exemplo, a alemã Schadenfreude, a francesa dépaysement, a espanhola duende, e a portuguesa saudade, até os casos mais complexos como a questão de diferença de gênero para a mesma palavra em idiomas distintos, e não me privo de citar o caso paradigmático da tradução para as línguas latinas do poema alemão de Mathias Claudius Der Tod und das Mädchen (A Morte e a Donzela). A tradução pode até ser feita, pois cada palavra do texto encontra correspondência vocabular na língua de chegada, mas o poema resultante não será mais o mesmo. A morte (Der Tod), em alemão, é palavra masculina. No poema, é o cavaleiro viril, o sedutor da donzela, condição essencial da mensagem poética. Traduzida a palavra para o português desaparece o sentido erótico da mensagem. Como diz um comentador francês a respeito da tradução para sua língua, na qual a morte é, também, palavra feminina, o poema adquire uma conotação que quase se poderia chamar de pervertida. O outro caso ao qual quero me referir, e esse, sim, relacionado diretamente à questão da globalização no plano cultural, é o da absoluta incompatibilidade estrutural entre as línguas de partida e a de chegada, e detenho-me apenas no exemplo das traduções que envolvam o idioma chinês. Dissemos, no princípio, que globalização não significa padronização, e sim a expansão ilimitada do acesso à informação e da possibilidade de comunicação intercultural e, em seguida, procuramos demonstrar que isso se aplica não apenas à assimilação de diferentes formas de consumismo material, mas também de influências culturais, e demos destaque ao que ocorre no ilimitado acesso a novas literaturas. Vimos isso ocorrer, no espaço de menos de um século, quando passamos de nossa vassalagem com relação à cultura francesa à da cultura norte-americana, o inglês substituindo o francês como língua franca das elites intelectuais. Vimos, depois, por um brevíssimo

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período, um boom de presença literária de autores japoneses, quando o Japão parecia surgir como uma grande potência comercial e industrial. Certos nomes, hoje ausentes, eram frequentes nos balcões das livrarias como os de Yasunari Kawabata, Junichiro Tanizaki, Kobo Abe, Kenzaburo Oe, Yokiu Mishima, Natsume Soseki, e outros mais. A relativa menor importância econômica do Japão nas décadas recentes fez esvanecer-se essa presença. A pergunta agora é: o que ocorrerá se, verdadeiramente, os BRICS vierem a ser o que se prometem ser, economias emergentes capazes de rivalizar com os grandes centros de poder econômico? Não virá com eles um maior intercâmbio igualmente cultural, e passaremos a ler mais livros russos, indianos, chineses ou da África do Sul? Virão, seguramente, prenunciando ou a reboque do cinema, o divulgador por excelência das formas de cultura do cotidiano. Mas que idioma, ou idiomas, desse grupo de países tem maior possibilidade de destacar-se como rival, ou disputante, da atual hegemonia inglesa? Se for a China, como não se pode excluir? Por enquanto, a globalização, no caso da China, tem significado o fenômeno inverso ao que atribuímos ao conceito entre nós: sua ocidentalização. Mas a China é dona de uma riquíssima tradição que em algum momento começará a irradiarse em consequência de sua forte presença econômica e política no cenário internacional. E virão seus clássicos e seus contemporâneos, sua ficção e sua poesia, a ocupar, também, nossas telas, nossos palcos, nossos balcões de livrarias. E quando isso ocorrer, os debates sobre a possibilidade ou impossibilidade da tradução literária se exacerbarão, pois, mais que qualquer outra, a poesia chinesa é essencialmente irredutível a uma interpretação unívoca. Mesmo entre os chineses, não há dois leitores da mesma poesia escrita em ideogramas que a interpretem da mesma maneira. Pode-se imaginar, então, quão mais complexa será a tarefa do tradutor para línguas analíticas como o nosso português! Completamos, assim, o círculo de nossas considerações que, partindo da simples ideia de que globalização é multiplicação de influências e não homogeneização, e do reconhecimento de que a abertura a múltiplas influências econômicas e políticas acarreta, inexoravelmente, a influência cultural dos países que se encontrem em posição de ponta, teremos que estar sensíveis ao que nos poderá ocorrer quando, o

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que não parece impossível, a economia e a cultura de países estranhos à nossa tradição nos disputem como mercado, não apenas de bens e serviços, mas também de ideias, modos de sentir e viver, filosofia e poesia, o que parece ser uma consequência natural da globalização. ___ Conferência proferida no dia 20 de agosto de 2012 dentro do Ciclo de Conferências do PEN Clube.

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HOMENAGEM

Saudação de Mary del Priore a Vasco Mariz, PEN Clube do Brasil, Encontro com o Escritor de 23 de julho de 2012.

MEU TIPO INESQUECÍVEL Mary del Priore Para todos nós que começamos a nos tornar ávidos leitores entre os anos 1940 e 50 houve uma revista que, como desejavam seus editores, - uma conhecida fundação americana - aprisionou “corações e mentes”. Refiro-me à Seleções de Reader’s Digest – todos a conhecem. Nela, além de encontrarmos a proeza de romances “condensados”, ou seja, clássicos de 200 a 300 páginas, milagrosamente transformados em textos de 20 ou 30, trazia também uma coluna que ninguém deixava de percorrer. A coluna se intitulava “Meu tipo inesquecível”. Tratava de personagens com características sempre muito particulares e da forma indelével com que marcavam sua passagem na comunidade. Empresto, pois, o título para falar de Vasco Mariz, que para muitos de nós é e será sempre “um tipo inesquecível”. Nascido no Rio de Janeiro, a 22 de janeiro de 1921, na Casa de Saúde São José, Vasco passou a infância na Rua General Dionísio em Botafogo, onde seu pai, empresário bem sucedido, possuía inúmeros imóveis. Botafogo era então, não uma passagem como querem hoje alguns cronistas, mas o

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remanso dos herdeiros de aristocratas portugueses e diplomatas estrangeiros vindos com a família real em 1808. Casarios e sobrados remanescentes lembram ainda os quintais arborizados onde Vasco passou os verdes anos e onde o perfume dos abricóde-macaco talvez lhe evoque uma de suas primeiras “Madeleines”. A formação intelectual foi entre os jesuítas. No Colégio Santo Inácio, abrigo da elite carioca, Vasco diz ter sido aluno normal. Modéstia, tanto que no centenário da escola foi escolhido para ser um dos oradores nas comemorações que tiveram lugar no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Esportista, traço que conserva no físico até hoje, jogou futebol, vôlei e velejou nas águas de uma baía onde outrora golfinhos pulavam com alegria triunfante. Devorava com avidez os livros de Karl May, Júlio Verne e Emílio Sálgari. É muito provável que o mundo que então se abria para o jovem leitor com suas descrições geográficas sobre itinerários e cidades estrangeiras Paris, Londres, Budapeste, Genebra, - enfim, lugares que contextualizaram heróis e tramas, tenham pesado na decisão de ingressar na Marinha brasileira e conhecer o mundo. O projeto não foi adiante. Vasco é míope. Mas de onde essa vontade de viajar, de conhecer, de desbravar, de unir o sonho à realidade – como queria Julio Verne de cujas viagens extraordinárias foi leitor? Essa possibilidade de descobrir cenários com emoção, quem lhe trouxe foi sua mãe: Ana Vasco, a inesquecível “aquarelista do Leme”. Artista capaz de traduzir a delicadeza das ondas se espreguiçando na areia, o cristal da espuma, o canto dos granitos do Corcovado e Pão de Açúcar, a força vital das plantas tropicais nas Paineiras, as sombras do arvoredo da Lagoa. A figura desta mãe proustiana que lhe trazia o beijo à noite, Vasco perdeu aos 16 anos. Mas a paixão que ela lhe transmitiu pelas paisagens e pela música ficou. O aprendizado sobre a ausência materna foi preenchido pela figura de uma madrasta, que ao contrário das dos contos de fadas, o encorajou e amou como filho: Dona Acácia, segunda mãe que não lhe deu leite, mas lhe deu mel. Num ambiente familiar privilegiado, Vasco fez a escola de Direito e passou com brilho no concurso direto do DASP para entrar no Itamaraty. Se o Barão fosse vivo, certamente iria aprovar o jovem desempenado e guapo que entrava com elegância na diplomacia brasileira. Doravante, como Ulisses ou

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Jasão, ele enfrentaria os perigos dos caminhos, as armadilhas da profissão, as dificuldades do distanciamento, os movimentos da alma de viajantes-diplomatas que resultaram numa trajetória rica e em muitas obras publicadas. O desejo de escrever, registrar e interpretar o mundo que o cercava já se manifestou no início da carreira. Vizinho e amigo querido da Condessa Pereira Carneiro e de sua filha Leda, “Vasquinho” como era, então, chamado, foi convidado a escrever para o Jornal do Brasil. quando, em 1962, serviu nas Nações Unidas, momento em que se preparava a Détente e a nova política econômica Internacional. Sua coluna, intitulada “De um observador em Washington”, e criada nos anos em que ele lá trabalhou, fez grande sucesso. Colaborou, também, com inúmeros editoriais, pois trazia, então, informações consistentes, pontos de vista assumidos, apreciações inventivas e lúcidas. Sem jamais se curvar aos ditames ou códigos das redações, Vasco mais do que transcrever, cruzava informações e opinava com personalidade. Vasco Mariz foi ator, expectador e cronista de mudanças substantivas no Itamaraty. Das que levaram ao abandono do chamado Paradigma Rio Branco, em que o país mantinha relações de subalternidade com a potência hegemônica mundial, os EUA, e substituída, nos governos Quadros e Goulart por um modelo de independência. Nessa época servindo em Washington e braço direito do embaixador Roberto Campos, Vasco foi o mediador entre a embaixada e os maiores jornalistas americanos, explicando-lhes as mudanças na nossa política exterior: era o início do fim do que então se chamava “o quintal norteamericano”. Tarefa espinhosa, pois.... Acompanhou de perto à ampliação do quadro de relacionamento externo e de mudanças econômicas, também durante o Regime Militar, transformação denominada pelo governo do presidente Geisel de “pragmatismo responsável”. Assistiu e participou da integração do Brasil ao continente sul-americano, e teve o mérito de levar à Petrobrás para o Equador, o que lhe valeu a gratidão e a amizade do presidente Geisel. Viu o Brasil tornar-se – pelo menos na teoria – um “global trader” e participou de instituições que respondem por siglas nas quais tropeçamos diariamente na imprensa escrita: GATT, FAO, UNESCO, UNCTAD, etc. E em sua atividade diplomática, sempre dedicou um grande espaço, porque não ternura, a dar visibilidade às manifestações culturais brasileiras.

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O que torna um diplomata escritor? Certamente o amor da língua quando só falamos idiomas estrangeiros ou a inspiração nascida por países ou postos. Que o digam seus congêneres, Pablo Neruda, Saint-John Perse, Romain Gary, Paul Claudel ou até o sulfuroso Roger Peyreffite para ficar nos mais conhecidos. E, vale lembrar, tradição de escritores-diplomatas que começou com Chateaubriand quando este foi nomeado embaixador em Roma, em 1803, por Napoleão. Um exemplo do diplomata-escritor é o seu Temas de Política Internacional. Ai Vasco percorre com empatia a história do tempo presente e descreve, com detalhes e humor, gente importante da política internacional cujo papel como atores históricos, percebe na sua riqueza e complexidade. Cada página do livro é uma passarela entre disciplinas: história, geopolítica, sociologia, filosofia. E tudo dito com naturalidade, compartilhando os grandes gestos ou mesmo as trapalhadas dos contemporâneos. As histórias contadas por Vasco viajam entre o heroísmo e a disposição de espírito, lembrando as contadas por Winston Churchill em suas memórias. Atento aos detalhes, ele recupera personagens na sua humanidade, para além daquilo que representam como chefes religiosos ou políticos. Tudo tão bem contado que o evento passado, de alguma forma, termina por se infiltrar na vida presente. Vasco conviveu e escreveu sobre figuras históricas de imenso relevo como Kennedy, Johnson, Nixon, Krushov, Golda Meir, Shimon Perez, Mário Soares e Itzak Rabin de quem foi amigo pessoal, e que em Jaffa fechava o mais importante restaurante do bairro para almoçarem em tête-à-tête, entre muitos outros políticos de destaque em momentos incandescentes da história mundial. Em Washington, frequentava diariamente a Casa Branca e era saudado por Kennedy com um afável: “Hi, Vasco!”. Suas filhas Stela e Ana Tereza, convidadas de Jacqueline nas festinhas infantis. No Brasil, de Getúlio a Lula, conviveu com todos os presidentes, tendo sempre gozado da sua intimidade e amizade, especialmente as de João Batista Figueiredo e José Sarney. Como diplomata foi um seguidor de Rio Branco, no profundo conhecimento sobre História e Geografia, no estilo de atuação preciso e incansável, na escolha e dedicação ao trabalho planejado, na atenção às dinâmicas internacionais. Contradição entre o trabalho do escritor e do diplomata? Nenhuma. Alguém

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já definiu os primeiros como incapazes de fazer concessões à realidade e mestres em modelar o ferro do tempo e dos fatos como o ferreiro o faz com os metais. Já o diplomata espera mudar o mundo com cuidados. Com diplomacia. Pois Vasco preenche as duas funções.. Imobilidade? Nunca. Vasco se renova sem cessar. Cada novo projeto é um desafio formal e intelectual. Em “Depois da Glória”, seu último livro, Vasco explora perfis e situações de nossa história apresentando-nos a personagens variados ou esquecidos. É com a grande experiência de homem do mundo, de diplomata avisado e de alguém que faz parte da história, que nos conta a sua versão dos indivíduos, dos fatos e das coisas passadas. Por meio de um texto elegante e bem humorado, ele torna vivos os encontros e recria instantâneos de atores históricos que costumam desaparecer no esquecimento dos livros escolares, oferecendo-nos um amplo painel que vai de Colombo a Nabuco, de Caxias a Estácio de Sá, de Lord Cochrane a Vieira, de Calabar a Gastão de Orléans, entre outros. Nesse livro, vemo-nos diante da “arte do retrato”. E em cada capítulo, encontramos personagens iluminados pela luz da história e dos dramas do tempo. Trata-se de biografias verticais que nos convidam a conhecer o cômico e o trágico de suas vidas, além de visita a momentos candentes como a emancipação, as invasões francesas, a presença flamenga, a guerra do Paraguai, entre outros tantos episódios complexos e controvertidos. A música é outra paixão, herança de Ana Vasco que arrancava do piano os sons que pintava na natureza. Afinal, o império do mar que inspirou suas telas, anima tudo o que é rítmico: acordes, cadências, melodias. Ele é o canto primordial da vida que se embala ao longo dos tempos. Pois para Vasco não foi suficiente contar histórias, escrever sobre diplomacia. Ele lê e interpreta as partituras com a mesma paixão que decodifica arquivos e bibliotecas. O fluxo do seu pensamento talvez seja aquele da música de Mozart, Wagner e Villa-Lobos, compositores mais queridos. Música que fala à intimidade e aos sentimentos. Música cuja harmonia que deve ser a mesma da língua ou do desenvolvimento da razão. Música que preenche a distância entre o sensível e o inteligível. Música na qual encontra a alegria que é aquela da alma, como diria LéviStrauss. E cuja paixão o levou a apadrinhar inúmeros jovens

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compositores e músicos e o elegeu presidente da Academia Brasileira de Música. Alegria que, em Tel Aviv, o fez soltar a voz de barítono para cantar acompanhado ao piano por ninguém menos do que o depois famoso maestro Daniel Baremboim. Vasco ainda tem assento na diretoria da Academia Brasileira de Música e continua tão ágil quanto a abertura de Cosi fan tutti de Mozart! Competência na diplomacia, curiosidade insaciável na história, alegria na música e em tudo, alegria. Alegria ao lado das filhas, Stela e Ana Teresa, bem como dos netos e bisnetos. E alegria nos braços de Regina, sobre quem ele poderia ter escrito como o fez o poeta René Char: “Je ris merveilleusement avec toi et voilá la chance unique”. Trinta e cinco anos de muitas alegrias e risos. Mas nosso tipo inesquecível tem uma característica rara, nos dias de hoje. É sua capacidade de ser amigo dos amigos. Como queria o Readers Digest, Vasco tem a capacidade de aprisionar “corações e mentes”. De encarnar a amizade como o Parsifal de Wagner, amizade em que compaixão e moralidade se encarnam em sons. Confiança, cumplicidade e parceria: é difícil descrever, sem banalizar, a rica relação que une Vasco aos amigos que o cercam. Amizade privilegiada e desinteressada que, para além de sua gratuidade, implica a disponibilidade de tempo, a partilha do sal da vida, a comunhão de gostos, pensamentos e atividades. Amizade que é estima recíproca, capaz de se sustentar nas provas da vida e na defesa das mesmas causas. Relação que nada tem a ver com benevolência, mas com o compromisso de buscar a alegria e evitar o sofrimento dos amigos que se amam. Amizade que se expressa numa linguagem própria feita de hospitalidade e fidelidade. Amizade que é merecido retrato daquilo que, segundo Aristóteles e santo Agostinho, é tão necessário quanto belo e raro: a sabedoria e a virtude, que nos incentivam a ser melhores do que somos. Afinal, se a amizade é entre os homens a relação mais forte, mais humana e mais poderosa, ela é também o exercício incansável do conhecimento de si e dos outros. Amizade, Vasco, que Você sabe tão bem construir, e que aprisiona “corações e mentes”. Por essa amizade, caríssimo amigo, todos que aqui nos encontramos, hoje, só podemos lhe dizer, muito obrigado.

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DEPOIMENTO DO EMBAIXADOR VASCO MARIZ

(Encontro com o Escritor, PEN Clube, 23.07.2012)

Sr. Presidente, senhores sócios, senhoras e senhores: Não tenho palavras para agradecer a gentileza deste convite. Fiquei sensibilizado pelo que disse o nosso presidente, com quem tenho uma cordial amizade de muitos anos. Sou gratíssimo também à minha amiga Mary del Priore por suas palavras tão generosas recordando aspectos da minha vida e das minhas obras. Já decorreram mais de 40 anos desde que ingressei no PEN Clube pelas mãos de Marcos Madeira, nosso saudoso presidente. Em 1970, convidou-me a apresentar a candidatura a sócio, porque, dizia ele, faltava aqui um bom historiador da música e nessa época eu servia em Brasília, como chefe do Departamento Cultural do Itamaraty e tive oportunidade de ser útil ao nosso clube. Pouco depois fui nomeado embaixador no Equador e trabalhei longo tempo no exterior: em Israel, em Chipre, no Peru e na Alemanha, meu último posto diplomático

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como embaixador do Brasil. Ao regressar ao Rio de Janeiro já aposentado em 1987, passei a frequentar regularmente o PEN Clube e o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, onde também tinha muitos amigos e me sentia bem. Marcos Madeira continuava na presidência do PEN Clube 17 anos depois e era queridíssimo por todos. Fez-me nomear vice-presidente internacional e depois tesoureiro do clube. Nesse cargo tivemos alguns aborrecimentos porque as finanças do nosso PEN sempre foram tortuosas. Não foi fácil ser tesoureiro do PEN com Marcos Madeira, porque ele não se preocupava muito com o saldo que tínhamos no banco. Tive de ir mais de uma vez conversar com o nosso gerente bancário, pois o Marcos havia exorbitado em algum cheque. O gerente já o conhecia bem, simpatizava com ele e riamos muito das pequenas trapalhadas financeiras do nosso saudoso e mui querido Marcos Madeira. Na realidade, eu não achava muita graça nesse tipo de gestão diplomática e ao terminar meu mandato, não quis continuar no cargo de tesoureiro. As cadeiras onde os senhores e as senhoras estão sentados, e que aliás não são muito confortáveis, foram compradas por mim dentro dos modestos limites do nosso orçamento. Hoje em dia, graças à eficiência de Cláudio Aguiar nossa entidade finalmente conseguiu a estabilidade financeira e sempre é oportuno felicitá-lo uma vez mais. Ainda no meu tempo de tesoureiro do PEN, em um dos momentos de sufoco financeiro, a sede inglesa e internacional ameaçou cortar nosso direito de voto se não saldássemos imediatamente a nossa dívida com o clube. O saldo negativo não era tão grande assim, pouco mais de três mil dólares, e a única solução que encontrei foi pedir aos meus amigos Antônio Houaiss e Abrahão Kogan, também sócios do PEN Clube, que contribuíssemos cada um com mil dólares e assim o vexame foi evitado. Marcos estava tão preocupado com aquela ameaça que quando enviamos o cheque ao PEN de Londres, emocionado ele me abraçou efusivamente e me deu um beijo na bochecha. Pouco depois ele teve a gentileza de conceder-me o título de sócio benemérito. Talvez seja o momento de fazer-lhes agora uma rápida autocrítica da minha atuação no terreno da literatura, uma vez que eu chegava ao PEN Clube já com uma considerável

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bagagem literária como musicólogo, ou historiador da música, com vários livros publicados no Brasil e no exterior e recebido diversos prêmios. Sou formado apenas em direito pela antiga Universidade do Brasil em 1943. É verdade que a minha principal carreira, a de diplomata, requer bons conhecimentos de literatura, de história geral e do Brasil, temas que sempre me interessaram e, com o tempo, foram me atraindo cada vez mais. Fui amigo pessoal de alguns grandes nomes da literatura brasileira e escrevi bastante sobre eles em jornais do Rio de Janeiro e de São Paulo. Clarice Lispector foi minha companheira de carteira no 1º ano da Faculdade de Direito e tivemos até um pequeno flirt, mas confesso que tive medo de sua forte personalidade. O grande poeta e acadêmico Rui Ribeiro Couto foi meu chefe quando servi como diplomata em Belgrado, na antiga Iugoslávia, e com ele conversava frequentemente sobre seus colegas e amigos escritores. Através dele conheci a Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade de quem depois fiquei amigo, e escrevi longos artigos de página inteira no suplemento Cultura em “O Estado de São Paulo” sobre o aproveitamento de seus poemas pelos grandes compositores brasileiros. Estes dois estudos foram republicados em antologias desses grandes poetas, o que, de certo modo, me associa a eles. Cecília Meireles foi minha incomparável companheira de uma longa viagem de automóvel pelos Estados Unidos da América nos anos 60, eu ao volante e também na companhia de Paulo Carneiro. Mais tarde, também Cecília tornou-se uma querida amiga e motivo de estudo sobre seus poemas postos em música, comentários depois publicados em “O Globo” no seu centenário. Guimarães Rosa foi meu vizinho de sala no Itamaraty e me dava para ler antecipadamente capítulos de seus livros para pedir a minha opinião. Fomos colegas na comissão de promoções no Itamaraty e ele me pedia a lista dos meus candidatos e votava sempre em todos eles sem discutir. Isso me transformou em o “grande eleitor” da comissão de promoções do Itamaraty e eu era assediado pelos candidatos. Justificou-se Guimarães Rosa: “Não quero ter a responsabilidade de votar ou não votar em alguém que amanhã, por não ter sido promovido em consequência da falta do meu voto, venha a se suicidar ou a esposa o abandone...”

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No entanto, quem marcou a minha mocidade foi mesmo Ribeiro Couto, causeur admirável e chefe competente, e por isso há anos tenho feito um esforço por reviver a sua obra de poeta, contista e romancista. Na administração de Arnaldo Niskier na presidência da Academia Brasileira de Letras, fui encarregado de organizar dois livros sobre ele: “Ribeiro Couto no seu centenário”, uma espécie de antologia de obras com comentários meus, e um outro com seleção de contos de sua autoria analisados por mim. Aliás a minha última palestra aqui no PEN Clube, dois anos atrás, durante a presidência de Cláudio Murilo, foi uma homenagem a Ribeiro Couto, na qual Afonso Arinos de Melo Franco falou sobre a sua poesia e eu sobre os contos e romances. Aqui no PEN Clube tenho vivido bons momentos que têm enriquecido a minha velhice e têm ajudado a manter minha mente em bom funcionamento. Aqui tenho feito bons amigos que me estimularam e ensinaram muito, proporcionando-me uma convivência agradável e instrutiva. Aqui tenho pronunciado várias palestras, resultado de minhas pesquisas históricas, ou de especulações intelectuais. E agora vocês me perguntarão: que planos tem para os próximos anos ? Ora, um homem de mais de 90 anos, mesmo com saúde razoável, não deve fazer planos ambiciosos. Direi apenas que em 2012 deverão vir à luz dois livros meus: um pela editora Civilização Brasileira, livro intitulado “Depois da glória”. São 18 ensaios e palestras sobre personagens ou episódios controvertidos da história do Brasil e que acredito vão agradar aos leitores. Além desse livro original, será publicado pela Nova Fronteira, nas próximas semanas, a 8ª edição da minha “Historia da Música no Brasil”. Há também a possibilidade, ainda não confirmada, de uma próxima 8ª edição da “História da Música Popular Brasileira”, livro que Gilberto Gil, em 2004, quando ministro da Cultura, gostou tanto que mandou comprar 400 exemplares para distribuir pelas bibliotecas públicas. Teve esse gesto talvez porque o capítulo a ele dedicado lhe é muito favorável... Por falar em livros, devo recordar Ribeiro Couto, que me dizia “Publique, publique, pois é o que vai ficar de você depois que morrer”. Não estou bem certo disso , mas creio que já publiquei cerca de 67 livros em seis línguas diferentes: português, espanhol, francês, inglês, italiano e até mesmo em

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russo. É claro que não são 67 unidades, pois vários desses livros tiveram numerosas edições: a minha biografia de Villa-Lobos já teve 12 edições, das quais seis no Brasil, duas nos EUA, uma na França, uma na Itália, outra no México e uma edição pirata em russo, tradução da edição francesa, publicada sem me consultarem. Como já disse acima, a história da musica clássica brasileira está na 8ª edição, e a da música popular, na 7ª edição. O dicionário biográfico de música teve 3 edições, a biografia de Villegagnon está na 4ª edição, sendo uma na França; o livro sobre os franceses no Maranhão está na 3ª edição também, sendo que uma na França. Por isso, o total de 67 livros que mencionei acima é tão elevado. Confesso que, nos últimos 20 anos, tenho me dedicado muito mais à história do Brasil do que à música ou à literatura. Fiz numerosas pesquisas que resultaram em palestras sobre personagens controvertidos de nossa história, os quais resultaram nos livros Estudos Históricos (2002), As relações históricas França / Brasil no período colonial (2006), nos mencionados livros sobre Villegagnon e La Ravardière e agora no Depois da glória, que acaba de vir à luz. Voltei novamente à música em 2008 por encomenda da Prefeitura do Rio de Janeiro ao publicar A música no Rio de Janeiro no tempo de D.João VI, por ocasião do bicentenário da chegada da corte portuguesa a esta capital e por gentil encomenda de Alberto da Costa e Silva, presidente da comissão organizadora. . Desde que me aposentei em 1987, Deus tem sido generoso comigo e me tem dado saúde para continuar a frequentar e participar ativamente das atividades do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, onde também já fiz parte da diretoria e onde organizei os seminários da França-Brasil em 2009 e o seminário Brasil-Itália no ano corrente. Também tenho atuado com frequência desde 1992 no ilustre Conselho Técnico da Confederação Nacional do Comercio. No setor da música, sou sócio titular da Academia Brasileira de Música, que cheguei a presidir em 1993/94. e até hoje sou membro da diretoria e escrevo em sua revista “Brasiliana”. Tenho recebido numerosos prêmios e homenagens. Lembro alguns que me parecem mais importantes. Em 1999, a Comissão Nacional para os festejos do V Centenário do Descobrimento do Brasil incluiu meu livro Historia da Musica no Brasil na “Biblioteca dos 500 anos”, que reuniria as cem

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melhores obras já editadas no Brasil. Em dezembro de 2000, a Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) me concedeu o “Grande Prêmio da Crítica” pelo conjunto da minha obra musicológica. Em 2007, recebi o Prêmio CLIO, da Academia Paulista de História pelo livro Vida Musical III. Em 2009 . o PEN Clube do Brasil me concedeu a insígnia Antônio Carlos Villaça. Recentemente, por ocasião dos meus 90 anos, recebi homenagens da Academia Brasileira de Música, do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e de um grupo de colegas diplomáticos. Em maio último, já aos 91 anos de idade, tive a honra de ser o primeiro orador do grande seminário do “Barão do Rio Branco – 100 anos”, organizado pelo Ministério das Relações Exteriores e pelo IHGB. Finalmente, o que me parece bastante expressivo é que nada menos de 26 dicionários e enciclopédias literárias e musicais, nacionais e estrangeiros, contêm verbetes, maiores ou menores, sobre a minha obra. Estive também bastante atuante como lexicógrafo, além de meu Dicionário Biográfico Musical, que teve três edições. Contribuí com numerosos verbetes para importantes dicionários e enciclopédias nacionais e estrangeiras. Minha biografia de Villa-Lobos foi adaptada para um CD-Rom pela LN Comunicações e Informática, do Rio de Janeiro, em 1998. Meu Villegagnon foi gravado por empresa especializada em CDs para cegos. Sou também correspondente da Real Academia da Espanha, do Instituto de Coimbra, das Academias portuguesa e argentina. Como diplomata, eu fui o embaixador mais jovem da carreira quando fui nomeado para Quito, Equador. Fui 5 vezes embaixador do Brasil, o que não era frequente no meu tempo de Itamaraty: Equador, Israel, Chipre, Peru e Alemanha. Em suma, tive uma vida cheia e posso me considerar um homem realizado. Agradeço a Deus pelas benesses que recebi e pelo prazer de estar aqui esta tarde. Aproveito a ocasião para agradecer a eficiente colaboração das dedicadas funcionárias do PEN Clube, e, em particular, aos colegas sócios desta entidade, que têm sido sempre tão amáveis comigo, indagando sobre meus trabalhos e me incentivando. E também foi uma especial alegria contar nesta sessão com a prestigiosa presença da minha querida amiga e ilustre escritora Mary del Priore, que me honrou com a sua brilhante apresentação. Renovo meus agradecimentos ao presidente Cláudio Aguiar por haver tomado a iniciativa de

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organizar esta sessão. E, mais uma vez, muito obrigado a todos pela sua presença nesta tarde inesquecível, que será um incentivo para eu continuar a trabalhar pelo PEN Clube e pela literatura do Brasil. Finalmente, trouxe alguns livros meus, que estão sobre a mesa, para distribuição gratuita aos eventuais interessados.

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MEMÓRIA

CLÁUDIO DE SOUZA COMPLETA 136 ANOS DE NASCIMENTO or volta da metade da década de 1930, o Pdramaturgo Cláudio de Souza reuniu suas peças de um ato ou entreatos num volume intitulado Teatro Ligeiro. Os temas, de um modo geral, tratavam de aspectos e tipos sociais ou políticos, sempre retratados com impressionante realismo, sem faltar explícitas referências críticas, situações que ultrapassaram o tempo e, ainda hoje, revelam-se coerentes e atuais, principalmente quando se nota a lamentável falta de civismo de alguns políticos que recorrem à prática de corrupção que envergonha o País de maneira tão escandalosa. O texto ligeiro Anauê, no qual o dramaturgo pinta, com cores fortes, um dos mais emblemáticos momentos da vida política brasileira, representa um quadro pleno de atualidade para quem queira entender o ânimo e a visão crítica do autor.

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REGISTROS

CICLO DE CONFERÊNCIAS NO PEN CLUBE DO BRASIL EM 2012 láudio guiar Para mostrar o alcance de filiação do PEN Clube do Brasil ao PEN Internacional, talvez seja importante ler o que dispõe nosso Estatuto a propósito. Diz: “O PEN Clube integra o sistema do PEN Internacional, sediado em Londres, aderindo aos seus objetivos e princípios”.Vejam bem: “... aderindo aos seus objetivos e princípios”. Ainda que o Centro brasileiro, no mesmo instituto, declare-se aut nomo em seus procedimentos administrativos, programas culturais e iniciativas institucionais, a verdade é que, a prática, ao longo da história, demonstrou a imperiosa necessidade de estreitar a aproximação e buscar a cooperação com todo sistema de rede PEN. Que tem feito e faz atualmente o PEN Internacional neste mister? Desde 1921, o PEN Internacional tem desempenhado papel ativo na promoção da liberdade de expressão e no mundo da literatura. Em 1933, o presidente do PEN, escritor H. G. Wells, liderou a campanha contra a queima de livros na Alemanha num momento em que eram escassas as críticas da comunidade internacional sobre as ações do Partido Nazista, de Hitler. Na década de 1960, os escritores do PEN se uniram para condenar a invasão soviética da Checoslováquia e exigir melhor tratamento e liberdade para escritores da Nigéria perseguidos e presos, especialmente em relação à prisão de Wole Soyinka. O PEN Internacional desempenhou papel proeminente durante as décadas de 1980 e 1990, pedindo a anulação da pena

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de morte decretada pelo aiatolá Khomeini contra o escritor Salman Rushdie e seus editores. Em 2006 e 2007, após o assassinato da jornalista russa Anna Politkovskaya e do jornalista turco naturalizado norteamericano, Hrant Dink, o PEN Internacional, de maneira incansável, desencadeou campanhas exigindo respostas das autoridades da Rússia e da Turquia em relação àquelas ações violentas e criminosas, somando-se aos apelos de familiares das vitimas que exigiam justiça. Com a criação, em 2008, do festival da “Palavra Livre!”, agora tido como celebração da literatura mundial contemporânea, foram realizados eventos em Áustria, Galiza, Jamaica, México, Turquia e Emirados Árabes Unidos, bem como em New York e Londres. Este ano o festival será realizado no Haiti. A partir de 2009, o PEN Internacional também levou a cabo ações importantes voltadas para a Educação em países carentes. Quase 20.000 crianças participaram de projetos educacionais organizados por Centros PEN em África. O Centro PEN de Uganda, por exemplo, desenvolveu projeto de treinamento intensivo a mais de 50 professores. O Centro PEN da Zâmbia, através de parcerias com os governos locais, executou projeto de implantação de bibliotecas nas comunidades. Ações semelhantes, junto a bibliotecas de comunidades rurais, foram levadas a cabo pelo Centro PEN da Guiné, em cerca de 40 escolas, atingindo a mais de 10.000 famílias, dando- lhes acesso gratuito a livros didáticos. Essas realizações ecoaram pelo mundo e terminaram provocando iniciativas semelhantes nos Centros PEN de Afeganistão, Col mbia, Paquistão e Filipinas. O PEN Internacional, hoje, continua a campanha em defesa de escritores do mundo inteiro processados, perseguidos ou atacados pelo fato de escrever ou, simplesmente, porque são escritores. Ademais, o PEN Internacional cria e desenvolve programas e eventos que promovem efetivos e justificados vínculos entre literatura e liberdade de expressão, considerando que uma não pode existir sem a outra. Por que realizar este Ciclo de Conferências com os temas Mulheres Escritoras, Paz Mundial, Tradução e Liberdade de Expressão?

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Em primeiro lugar, é preciso dizer que a escolha desses temas não se deu por acaso ou de maneira aleatória. Eles constituem a razão de ser do PEN Clube não só no Brasil, mas no mundo. Em segundo, porque esses aspectos ou temas representam o conjunto de ações ou atividades exercidas pelos Centros PEN e do próprio PEN Internacional. São atividades exercidas por pessoas que integram a estrutura de um órgão coletivo, chamado Comite. Cada PEN, atualmente, tem em sua estrutura quatro Comitês: Comitê de Mulheres Escritoras, Comitêde Escritores pela Paz, Comitê de Tradução e Direitos Linguísticos e Comitêde Escritores na Prisão. Em verdade, nem todos os Centros PEN mantêm essa estrutura, como é o caso do PEN Clube do Brasil. Nossas atuações, ao longo de décadas, privilegiaram a realização de atividades literárias e culturais, atos que, naturalmente, devem ser feitos, mas que não constituem os fins precípuos da entidade. Em resumo, a estrutura organizacional da Rede PEN no mundo, em relação a suas atividades fins, é a seguinte: cada Centro de País deve atuar nas quatro dimensões apontadas – mulheres escritoras, paz mundial, tradução e direitos linguísticos e escritores na prisão. Essas áreas de atividades, na medida do possível, devem estar em consonância com as diretrizes definidas pelo PEN Internacional. Essa consonância, a rigor, não significa subordinação, mas a necessidade de preservar o sentimento de que a força da solidariedade, principalmente diante de questões que requeiram imediatas e eficazes iniciativas amparadas pela legislação de direito internacional. Além disso, de um modo geral, quando as iniciativas ganham a dimensão internacional, na prática, decorre de um chamamento de toda rede PEN que cria uma corrente de solidariedade aliada a medidas práticas em favor da liberdade de expressão, das mulheres escritoras, da paz, ou dos direitos linguísticos. No momento, vivemos alguns casos de ações promovidas pelo PEN Internacional. Elas provocaram resultados importantes. Citemos apenas três: o caso Liu Xiaobo, poeta chinês, presidente do PEN da China, preso por ter defendido a liberdade de expressão. Encontra-se encarcerado há quase 10 anos. Em virtude da campanha mundial promovida pelo PEN Internacional, Xiaobo recebeu, em 2010, o Prêmio Nobel da

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Paz. O PEN Internacional continua com a campanha em favor da total libertação de Liu Xiaobo. Este ano, no México, o PEN Internacional organizou um amplo encontro de Centros PEN americanos para protestar contra os atos de violência e assassinatos de escritores e jornalistas por parte de grupos mafiosos que não aceitam a veiculação de denúncias contra seus atos criminosos. Recentemente, o PEN Internacional, juntamente com Centros PEN americanos (inclusive o PEN Clube do Brasil, que também assinou a declaração de protesto), manifestaram-se a respeito da Lei de Mordaça aplicada contra órgãos de comunicação do Equador. Diante da posição assumida pela rede PEN mundial o Presidente Rafael Correa recuou e adotou medidas mais condizentes com as resoluções sobre imprensa livre aprovadas pela Convenção Inter-americana de Direitos Humanos, da Organização dos Estados Americanos (OEA). Hoje, aqui, o tema é Mulheres. Mulheres escritoras brasileiras. Tema a ser abordado neste Ciclo em três ocasiões. Dentro de poucos instantes ouviremos nossa associada, arqueóloga e escritora Maria Beltrão e, nas sessões sucessivas, as escritoras Ana Arruda Callado e Helena Parente Cunha. Quais as principais atribuições do Comitê de Mulheres Escritoras? Este Comitê, criado em 1991, no âmbito da estrutura organizacional do PEN Internacional, tem a finalidade de abordar certas questões enfrentadas pelas mulheres escritoras de todo o mundo. Essas questões vão desde os desafios na órbita familiar e pública, tais como a necessidade de educação equitativa e igual para todos, ao acesso a recursos e combate a toda restrição ao direito de escrever e de expressão das mulheres como autoras e cidadãs. O Comite inclui tanto escritoras filiadas aos Centros PEN como as pertencentes a outras organizações ou redes sociais que trabalhem com mulheres ou escritoras submetidas a ameaças, violências ou qualquer outra ação restritiva da liberdade de expressão. Os representantes do Comitê do PEN Internacional participam das reuniões da Comissão das Nações Unidas destinada à Defesa da Mulher. O Comitêde Mulheres Escritoras do PEN Internacional realizou conferências em países como o Nepal, Quirguistão e

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Senegal. Periodicamente publica boletins especiais sobre os temas de sua atuação. Este Ciclo de Conferências tem um significado especial para os membros integrantes do corpo social e demais pessoas interessadas, porque, eles propiciarão a oportunidade para que toados tomem conhecimento das reais atribuições do PEN Clube do Brasil e dos demais Centros espalhados pelo mundo. Depois, alimentamos a esperança de que, com essas conferências, teremos maiores chances de convencer nossos associados a atuarem nos Comitês que pretendemos criar em nosso Clube Literário. O PEN Clube do Brasil não pode mais continuar indiferente a esses grandes desafios de nosso tempo. É chegado o momento de vivermos, na prática, os pontos estabelecidos em Carta de Princípios subscrita por todos Centros PEN do mundo, que agora resumo: 1) a Literatura não conhece fronteiras e deve permanecer patrim nio comum dos povos; 2) o respeito ao patrim nio cultural da humanidade deve ser preservado, em todas circunstâncias, do efeito das paixões nacionais ou políticas; 3) a comunidade PEN deve lutar pelo bom entendimento e o mútuo respeito entre os povos e, assim, erradicar ódios advindos de diferença de raça, classe, religião ou nacionalidade e propagar o ideal de uma humanidade unida e vivendo sob o signo da paz; 4) a defesa da livre circulação de ideias, mas também combater os abusos, porque a liberdade implica limites; e, 5) seja facultada a participação de todos os escritores, editores e tradutores que subscrevam estes princípios, sem restrições de nacionalidade, língua, raça, cor ou religião.

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Esq p/dir: Aristรณteles Drummond (conferencista), Clรกudio Aguiar e Ricardo Cravo Albin

Esq. p/ dir.: Candido Mendes (conferencista), Clรกudio Aguiar e Ricardo Cravo Albin

Esq. p/dir.: Nelson Melo e Souza, Helena Parente Cunha (conferencista), Clรกudio Aguiar, Luiza Lobo e Geraldo Holanda Cavalcanti

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Conferencista Galeno Amorim, Presidente da Biblioteca Nacional

Conferencista AcadĂŞmico Geraldo Holanda Cavalcanti

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Conferencista AcadĂŞmico Ivan Junqueira

Conferencista Nelson Melo e Souza

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PRÊMIO LITERÁRIO NACIONAL PEN CLUBE DO BRASIL 2012 Neste ano, ao completar 76 anos de fundação, o PEN Clube do Brasil deu continuidade ao seu tradicional Prêmio Literário, um dos mais antigos e prestigiosos certames brasileiros, criado em 1938. Agora, em sua nova fase, será oferecido anualmente a escritores que tenham publicado obra nas categorias Poesia, Ensaio ou Narrativa. As editoras também poderão inscrever livros de seus autores. Os escritores inscritos concorrerão à primeira colocação em cada categoria e receberão troféu denominado “PEN”, especialmente concebido e executado pelo escultor Cavani Rosas, além de valor em dinheiro e certificado. Eis alguns escritores que, ao longo das décadas passadas, conquistaram o Prêmio do PEN Clube do Brasil: Gastão Cruls ■ Gilberto Amado ■ Brito Broca ■ Antonio Callado ■ Jorge Amado ■ Antonio Candido ■ Dalcídio Jurandir ■ Miécio Tati ■ João Guimarães Rosa ■ Carlos Drummond de Andrade ■ José Condé ■ Fernando Sabino ■ Marques Rebelo ■ Álvaro Lins ■ Cyro dos Anjos ■ José Paulo Moreira da Fonseca ■ Cassiano Ricardo ■ Augusto Meyer ■ José Cândido de Carvalho ■ Dalton Trevisan ■ Josué Montello ■ Nelson Werneck Sodré ■ Rubem Fonseca ■ Homero Homem ■ Octávio de Faria ■ Otto Maria Carpeaux João Cabral de Melo Neto ■ Herberto Salles ■ Eugênio Gomes ■ Adonias Filho ■ Nilo Aparecido Pinto ■ Raymundo Magalhães Jr ■ Emílio Moura ■ Macedo Miranda ■

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Autran Dourado ■ Waldemar Lopes ■ Fausto Cunha ■ Alceu Amoroso Lima ■ Érico Veríssimo ■ Odylo Costa Filho ■ Orígenes Lessa ■ Pedro Nava ■ Ledo Ivo ■ Afonso Arinos de Mello Franco ■ Permínio Asfora ■ Alphonsus de Guimaraens Filho ■ Stella Leonardos ■ Antonio Carlos Vilaça ■ Murilo Rubião ■ Pedro Calmon ■ Guilherme Figueiredo ■ Mauro Mota ■ J. J. Veiga ■ Wilson Martins ■ Mário Quintana ■ Carlos Nejar ■ Dinah Silveira de Queiroz ■ Lygia Fagundes Telles ■ Alberto da Costa e Silva ■ Alexandre Eulálio ■ Maria José de Queiroz ■ Dante Milano ■ Josué Guimarães ■ Gilberto Freyre ■ Marcus Accioly ■ Raquel Jardim ■ José Guilherme Merquior ■ Afonso Félix de Souza ■ Barbosa Lima Sobrinho ■ Mário Pontes ■ Moacir Scliar ■ Ivan Junqueira ■ Denise Emmer ■ Antonio Torres e outros... PRAZO DE INSCRIÇÕES: 20 DE JUNHO A 31 DE OUTUBRO DE 2012 Informações: PEN Clube do Brasil – Praia do Flamengo, 172, 11º Andar – Rio de Janeiro RJ – CEP-22210-030 – Tel. (21) 2556-0461 –

pen@penclubedobrasil.org.br Leia Regulamento e imprima Ficha de Inscrição no portal do PEN Clube:

►http://www.penclubedobrasil.org.br

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TRIBUTO A AUTRAN DOURADO

aleceu no último domingo de setembro (30.09.2012), no Rio de Janeiro, nosso associado Autran Dourado, um dos mais Fimportantes romancistas brasileiros da atualidade. O PEN Clube do Brasil, no ano passado, abriu suas atividades culturais para realizar merecido tributo ao escritor mineiro, ocasião em que promoveu em sua sede social concorrido encontro do autor de A Barca dos Homens com seus associados e amigos. BIOGRAFIA - Filho de um juiz, Autran Dourado nasceu na cidade de Patos, em Minas Gerais, mas viveu sua infância em Monte Santo e São Sebastião do Paraíso, ambas cidades mineiras. Aos 17 anos foi para Belo Horizonte, onde cursou Direito, enquanto trabalhava como taquígrafo e jornalista. Formou-se em 1949. Por essa época, descobriu a literatura ao ler Eurico, o Presbítero, do escritor português Alexandre Herculano.

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Com a segunda obra publicada, Sombra e exílio, de 1950, ganhou o Prêmio Mário Sette do Jornal de Letras. Em 1954, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde vive até hoje. Foi secretário de imprensa da Presidência da República de 1955 a 1960, durante o governo de Juscelino Kubitschek. Quase todas suas narrativas se passam na cidade imaginária de Duas Pontes, a maioria narrada pelo personagem João da Fonseca Ribeiro, as quais formam um conjunto em que as gerações da família Honório Cota se sucedem, transitando entre os séculos do apogeu da mineração do ouro até os dias de hoje. Outras ocorrem em cidades reais de Minas Gerais atual e de outras épocas, com exceção de A barca dos homens, ambientada numa ilha do sul do Brasil. Também publicou ensaios sobre teoria literária, nos quais expõe seu processo pessoal de produção, traço praticamente único entre os grandes escritores. Autran Dourado já publicou um livro de memórias, Gaiola aberta, abordando sua experiência como funcionário da Presidência da República durante o governo JK. Conquistou várias distinções literárias, entre aos quais se destacam: Prêmio Camões, em 2000. Seu romance mais célebre, Ópera dos Mortos, faz parte da seleção de obras representativas da literatura universal feita pela UNESCO. Sua obra predileta é a novela Uma vida em segredo, adaptada para o cinema. Em suas obras, Dourado focaliza a vida no interior de Minas Gerais e utiliza amplamente expressões locais, mas, ao mesmo tempo, toca em aspectos psicológicos da vida humana, tais como a morte, a solidão, a incompreensão do outro, a loucura, o crime. Esses traços revelam a origem mineira do autor e também certas influências, a exemplo de James Joyce, Stendhal e Goethe. Além disso, frequentemente se revela influenciado pelo Barroco mineiro e espanhol, razão pela qual sua linguagem apresenta-se obsessivamente trabalhada, fazendo com que seus personagens sejam conduzidos por forças superiores rumo à destruição. A propósito, Autran Dourado, declarou certa vez: “Meus personagens se parecem muito comigo. Eu os conheço muito bem e sofro a angústia que eles sofrem. Não tenho nenhum prazer em escrever. Depois de pronta a obra, aí me dá uma certa satisfação. A mesma que dá quando se descarrega dos ombros

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um fardo pesado. [...] (Escrever é) também uma fatalidade. Você é destinado à literatura, e não a literatura a você.” Segundo Autran Dourado, em Breve manual de estilo e romance, o escritor deve trabalhar como um artesão, buscar a simplicidade de forma que a leitura seja fácil e fluida, sem preocupar-se com a crítica ou com a vendagem de seus livros, além de ler, pelo menos, uma vez ao ano, algum dos clássicos de Machado de Assis e antes de escrever qualquer coisa, deve ler um poema. Em O meu mestre imaginário e em Um artista aprendiz, destacam-se os ensinamentos de Flaubert: a flexibilidade da regra gramatical, a importância de estruturar o romance antes de começá-lo e a necessidade da presença do autor na obra, mas invisível como se fosse Deus. OBRAS Teia (1947) Sombra e exílio (1950) - Prêmio Mário Sette Tempo de Amar (1952) - Prêmio Cidade de Belo Horizonte Três histórias na praia (1955) Nove histórias em grupos de três (1957) - Prêmio Artur Azevedo A glória do oficio. Nove histórias em grupo de três (1957) A Barca dos Homens (1961) - Prêmio Fernando Chinaglia da União Brasileira de Escritores / RJ. Uma Vida em Segredo (1964) Ópera dos Mortos (1967) O risco do bordado (1970) - Prêmio PEN Clube do Brasil Uma poética de romance (1973) Os sinos da agonia (1974) - Prêmio Paula Britto Uma poética de romance: matéria de carpintaria (1976) Novelário de Donga Novaes (1976) Armas & corações (1978) Solidão solitude (1978, reedição das novelas de Três histórias na praia e Nove histórias em grupos de três) Novelas de aprendizado (1980, reedição das novelas Teia e Sombra e exílio) As imaginações pecaminosas (1981) - Prêmio Goethe de Literatura e Prêmio Jabuti categoria Contos/crônicas/novelas

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O meu mestre imaginário (1982) A Serviço Del-Rei (1984) Lucas Procópio (1985) Violetas e caracóis (1987) Um cavalheiro de antigamente (1992) Opera dos Fantoches (1994) Confissões de Narciso (1997) Gaiola aberta (2000) Um artista aprendiz (2000) Monte da alegria (2003) Breve manual de estilo e romance (2003) Melhores contos (2001) O senhor das horas (2006) PRINCIPAIS PRÊMIOS LITERÁRIOS Prêmio PEN Clube do Brasil de 1970 Prêmio Goethe de Literatura - 1981 Prêmio Jabuti - 1982 (categoria Contos/crônicas/novelas) Prêmio Camões - 2000 Prêmio Machado de Assis da ABL – 2008 UMA VISÃO CRÍTICA “Data de 1964 a novela Uma vida em segredo. Estive entre os que saudaram seu aparecimento como uma das melhores realizações literárias de Autran Dourado e, naturalmente, da ficção brasileira, pois ele, desde Nove histórias em grupo de três (1957), é um dos nossos ficcionistas mais expressivos. Em resenha crítica no Diário Carioca, de 23-12-64, eu destacava a “composição perfeita”, referia-me à “serena beleza” do relato e fazia esta observação que hoje, tanto tempo decorrido, ainda assino sem vacilar: “Da prima Biela, a (personagem) mais exaustivamente estudada, tem-se um conhecimento completo, ao vivo; Biela está tão viva, tão bem lançada no papel, que o leitor não raro chega a antecipar suas reações, suas frases. Biela, do princípio ao fim, uma extraordinária coerência psicológica”. [...] “A barca dos homens (1961) é sinfonia, Ópera dos mortos é poema sinfônico, O risco do bordado é fuga. Que será, então, em termos de composição musical, Uma vida em

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segredo! Creio que uma sonata que mantenha, do adágio ao fim, o mesmo tom, o mesmo desdobramento temático, mas percorrida de veladas emoções que intentam subir à superfície da pauta, impor a estridência das notas ou o veludoso cicio dos estados contemplativos. Neste último caso, a música de Mazília que falava a Biela “de uma cidade chamada céu”. As notas rebeldes exprimem em Biela aquela sua capacidade de odiar e contestar, para alcançar o sossego de uma simplicidade prestativa. Os diálogos embutidos na narração, participando de seu fluxo e emprestando-lhe força de correnteza serena mas irrefreável, fazem de Uma vida em segredo composição única e una, indivisível, linear e subliminar ao mesmo tempo. E não há dúvida que, com esta novela de tanto sucesso junto à crítica e aos leitores, o mineiro Autran Dourado mostra-se na melhor regência de seus poderes de expressão, ambiguidade e discernimento. O que se vai ler agora é uma, por sua extensão, pequena obra-prima de novelística brasileira de extração psicológica.” ___ (*) Trechos de prefácio de Hélio Pólvora ao livro Uma vida em segredo.

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COLABORADORES Arnaldo Niskier é membro da Academia Brasileira de Letras, Presidente do CIEE/RJ e ex-Secretário de Estado de Ciência e Tecnologia (68-71). Astrid Cabral nasceu eu Manaus (AM) em 1936. Ali fez seus estudos iniciais e integrou o movimento renovador Clube da Madrugada. Vindo morar no Rio, ainda adolescente, diplomouse em Letras Neolatinas na UFRJ, lecionou língua e literatura no ensino médio e na UNB. Em 1968, por concurso público, ingressou no Itamaraty, servindo como Oficial de Chancelaria em Brasília, Beirute, Cio e Chicago. Com Alameda (ficção), em 1963, iniciou sua carreira literária, publicando, a seguir, os livros de poesia Ponto de cruz, 1979; Torna-viagem, 1981; Lição de Alíce, 1986; Visgo da terra, 1986; Rês desgarrada, 1994; De déu em déu (reunião de 5 livros), 1998; Intramuros, 1998; Rasos d´água, 2003 etc. Clair de Mattos nasceu no Rio de Janeiro, em 1939. Romancista e contista, publicou seu primeiro livro A volta do tempo, em 1979. A seguir, foram editados os romances O nome de Alice (1986), Grãos vermelhos no vale (1988). Paixão na casa morta (1991), Águas de escorpião (1994) e O Terrorista (2006). É atualmente Vice-Presidente do PEN Clube do Brasil. Claire Leron nasceu no Rio de Janeiro em 1963. Psicóloga e Mestre em Comportamento Humano. Como autora de vários livros (romances, contos, crônicas, infantil, poesia e ensaio) participou de Antologias e recebeu vários prêmios literários no Brasil e no exterior. Além de outros prêmios, seu livro Um Tiro no Coração participou do Salão Internacional do Livro de Paris, em 2007. Antes do Pôr do Sol, romance, ganhou o Prêmio “Livro do Ano 2011”, da Academia Brasileira de Estudos e Pesquisas Literárias/RJ, a qual é filiada. Também pertence às Academias Teresopolitana de Letras, de Letras e Artes Lusófonas – Portugal, Associação de Investigação e Cultura dos Açores – Portugal e ao PEN Clube do Brasil. Cláudio Aguiar é formado em Direito e Doutor pela Universidade de Salamanca. Tem mais de 20 livros editados,

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além de obras publicadas em francês, russo e espanhol. Recebeu diversas distinções e prêmios literários nacionais e internacionais. É membro várias entidades, entre as quais se destacam: Academia Pernambucana de Letras e Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB). Atualmente é Presidente da Fundação Miguel de Cervantes de Apoio à Pesquisa e à Leitura da Biblioteca Nacional (FMC). Eduardo Portella é Professor Emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro e diretor de pesquisa do Colégio do Brasil. Membro da Academia Brasileira de Letras e da Academia Brasileira de Educação. Ex-Diretor Geral Adjunto e DiretorGeral substituto da UNESCO (Paris). Presidente eleito da Conferência Geral da UNESCO. Dentre seus diversos livros destacam-se: Literatura e realidade nacional. Fundamento da investigação literária. Teoria da comunicação literária e Dimensões I e II, dentre outros. Geraldo Holanda Cavalcanti é diplomata, poeta, ensaísta, memorialista e tradutor. É membro da Academia Brasileira de Letras. Serviu como Embaixador em vários países. Exerceu o cargo de Secretário-Geral da União Latina, em Paris e o de Presidente do PEN Clube do Brasil. Suas traduções de poetas italianos receberam o Prêmio Internacional Eugenio Montale. Dentre seus livros publicados destacam-se: O Cântico dos Cânticos – um ensaio de interpretação através de suas interpretações e Encontro em Ouro Preto. Ives Gandra da Silva Martins, renomado jurista brasileiro com reconhecimento internacional, é professor emérito das universidades Mackenzie, Paulista e da ECEME – Escola de Comando do Estado Maior do Exército. Presidente do Conselho da Academia Internacional de Direito e Economia, é membro das Academias de Letras Jurídicas, Brasileira e Paulista, Internacional de Cultura Portuguesa (Lisboa), Brasileira de Direito Tributário, Paulista de Letras, dentre outras. Ao longo de sua trajetória, recebeu vários prêmios: Colar de Mérito Judiciário dos Tribunais de São Paulo e do Rio de Janeiro, Medalha Anchieta da Câmara Municipal de São Paulo, Medalha do Mérito Cultural Judiciário do Instituto Nacional da Magistratura e da Ordem do Mérito Militar do Exército

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Brasileiro, apenas para mencionar alguns. Já participou e organizou mais de 500 congressos e simpósios, nacionais e internacionais, sobre direito, economia e política. É autor de mais de 40 livros individualmente, 150 em co-autoria e de 800 estudos sobre direito, filosofia, história, literatura e música. Tem trabalhos traduzidos em mais de dez línguas em 17 países. Marcelo Moraes Caetano é Professor de Português e Literatura; Gramático; Crítico literário; Tradutor de Alemão, Inglês, Francês e Italiano; Estudioso de Latim, Grego e Mandarim. Escritor e poeta, com 14 livros publicados, e várias premiações (Academia Brasileira de Letras, ONU, UNESCO, Fundação Guttenberg, Sesi, Firjan). Seu livro mais recente, Gramática Reflexiva da Língua Portuguesa, foi lançado na XIV Bienal Internacional de Literatura do Rio de Janeiro, em 2009. É membro titular do PEN Clube do Brasil. Marcia Agrau, nome literário de Marcia Uébe, é poeta e contista. Pertence a diversas entidades culturais e literárias, entre as quais se destaca o Círculo de Poetas Lusófonos de Paris. Coordenou e apresentou os projetos “Versos Noturnos” e “Espalhando Poesia” juntamente com J. J. Germano. Obras: Canto nu dos meus recantos, Sob o signo da lua, A cabeceira dos anjos e o romance O cobertor azul. Atualmente é SecretáriaExecutiva do PEN Clube do Brasil. Mary del Priore nasceu no Rio de Janeiro em 1952. Formou-se em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e Doutorou-se em História Social pela Universidade de São Paulo. Em 1996, fez Pós-Doutorado na Sorbonne (Paris). Lecionou História do Brasil Colonial na Universidade de São Paulo e na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Atualmente, é Professora do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Salgado de Oliveira (UNIVERSO), em Niterói. Além disso, atua como colaboradora em periódicos nacionais e internacionais. É autora ou organizadora de mais de 40 livros. Recebeu inúmeros prêmios literários, a exemplo do “Casa-Grande & Senzala”, da Fundação Joaquim Nabuco (Recife), em duas ocasiões (1998 e 2000), respectivamente, pelos livros História das Mulheres no Brasil e História das Crianças no Brasil. Seu mais recente livro, publicado este ano -

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O sangue e a carne -, sobre a triangulação amorosa de D. Pedro I com D. Leopoldina e D. Domitila de Castro do Canto e Mello, a famosa Marquesa de Santos, fez grande sucesso de público e de crítica. É membro titular do PEN Clube do Brasil. Raquel Naveira nasceu em Campo Grande, MS. Formada em Direito e Letras pela FUCMT. Estudou Língua, Literatura e Civilização Francesas na Universidade de Nancy- França. Mestre em Comunicação e Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, de São Paulo/SP. Entre sua numerosa obra literária, destacamos os seguintes livros: Via Sacra, Fiandeira, Abadia, Pele de jambo, Casa de Tecla, O arado e a estrela etc. Recebeu dezenas de prêmios literários, inclusive seu livro Casa de Tecla foi indicado para o prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, em 1999. Sylvio Back, cineasta, poeta, roteirista e escritor, autor de 38 filmes (12 longas-metragens) e de 21 livros (roteiros, poesia e ensaios); em finalização, o documentário de longa, “O Universo Graciliano”; em preparo, a ficção, “A Angústia”, baseado no romance de Graciliano Ramos. Vasco Mariz é conhecido musicólogo, autor de mais de quarenta livros sobre o tema, seis deles editados no exterior. Diplomata de profissão, foi também presidente da Academia Brasileira de Música (1991-93) e é membro emérito do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) e do PEN Clube do Brasil.

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NORMAS PARA PUBLICAÇÃO I – Da natureza de colaboração aceita De preferência trabalhos originais e inéditos nas áreas ligadas à cultura em geral formalizados em: 1. Artigos ou ensaios resultantes de pesquisa científica ou literária dos mais diversos meios de conhecimento; 2. Discussão teórica (inclusive através de entrevista) que questione a realidade atual e ofereça subsídios à definição de hipóteses suscetíveis de aproveitamento futuro; 3. Estudos críticos (ensaios bibliográficos, resenhas etc.) sobre obras literárias em geral; 4. Abordagem de temas gerais que, direta ou indiretamente, se liguem à alguma efeméride capaz de contribuir para a sedimentação de significativos valores culturais ou literários; 5. Obra ou parte de criação literária oferecida em qualquer gênero. II - Da apreciação pelo Conselho Editorial 1. Em princípio, Convivência não se obriga a publicar colaborações não solicitadas; 2. As colaborações enviadas, em virtude de pedido, serão necessariamente examinadas pelo Conselho Editorial, que, a depender de cada situação, poderá recorrer a consultores especializados. Nessa hipótese, os autores serão avisados da aceitação ou recusa de suas colaborações através de meio verbal ou por escrito; 3. Quando se fizer imperiosa a eventual alteração de formato ou de conteúdo, o autor será previamente avisado para tal mister, havendo, nesse caso, entre o autor e a Revista, a estipulação de prazo indispensável à realização das modificações; 4. Sob nenhuma hipótese serão efetuados acréscimos ou reduções nas colaborações após o encaminhamento da Revista à gráfica responsável para fins de impressão; e, 5. A Revista não se obriga a devolver ao autor textos em papel, CD´s, outros meios físicos ou eletrônicos referentes à colaboração aceita ou recusada. III – Da forma de oferecimento das colaborações 1. As colaborações, oferecidas em português, castelhano ou outro idioma, a depender de prévio acerto com o Conselho da Revista, deverão ser enviadas em CD´s, sempre acompanhados de três (3) cópias em papel, em espaço duplo, nunca excedendo ao limite de 20 mil caracteres, gravados em Microsoft Word, na fonte Times New Roman, tamanho 12.

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2. As notas devem ser reduzidas ao mínimo indispensável e poderão constar no respectivo pé de página, de preferência, atendendo ao critério de substantividade e não necessariamente ao bibliográfico; 3. As referências bibliográficas serão, obrigatoriamente, oferecidas no final da colaboração, em ordem alfabética, pelo último sobrenome do autor, observadas as normas técnicas usuais. Recomenda-se o emprego dos critérios bibliográficos estabelecidos pela ABNT. IV – Do direito autoral Em princípio, quando não houver outra forma de pagamento de direito autoral ajustada entre o autor e a Revista, aquele concorda em receber seus direitos mediante a remessa por Correios ou entrega de exemplares físico, sendo a quantidade fixada pelo Conselho Editorial, em função da tiragem e o preço de capa, quando estabelecido. Em caso de edição digital não haverá a retribuição anteriormente referida. V – Autorização para publicação A inclusão de texto ou imagem no corpo desta Revista implica expressa autorização do autor, independentemente de qualquer outra formalização.

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REVISTA CONVIVÊNCIA Nº 2 - 2012  

Revista Convivência, órgão oficial do PEN Clube do Brasil, destina-se a divulgação de pesquisas e colaborações literárias e culturais.

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