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CONVIVÊNCIA revista

Ano IV | Número 4 | Rio de janeiro | 2014 | Brasil (Segunda Fase)

ESPECIAL: ESCRITORES PERSEGUIDOS SERÃO ACOLHIDOS NO BRASIL ADEUS A JOÃO UBALDO RIBEIRO O ESTADO DELINQUENTE A GUERRA DOS PELADOS


Capa: PEN Clube (Detalhe Vitral) Foto: Luciano Delbons

REVISTA DO PEN CLUBE DO BRASIL EXPEDIENTE EDITORA—RESPONSÁVEL: Luiza Lobo CONSELHO EDITORIAL: Alcmeno Bastos, Ana Arruda Callado, Antonio Carlos Secchin, Cláudio Aguiar, Délio Mattos, Geraldo Holanda Cavalcanti, Godofredo de Oliveira Neto, Helena Ferreira, Ivan Junqueira (in memoriam), Mary del Priore, Reynaldo Valinho Alvarez, Ronaldo Mourão (in memoriam) e Tânia Zagury PROJETO GRÁFICO/DIREÇÃO DE ARTE: Roberto Portella CORRESPONDENTES: Ceará: Roberto Pontes; Paraíba: Elizabeth Marinheiro Pernambuco: Lucila Nogueira; Bahia: Aleilton Fonseca; Minas Gerais: Ronaldo Werneck Brasília: Fabio de Souza Coutinho; São Paulo: Raquel Naveira Santa Catarina: Péricles Prades; Paraná: Miguel Sánchez Neto COLABORADORES: Cláudio Aguiar é romancista, dramaturgo e ensaista. Membro titular do PEN Clube do Brasil; Cyro de Mattos é contista, novelista, romancista, poeta, cronista. Membro titular do PEN Clube do Brasil; Ives Gandra da Silva Martins é jurista, poeta e escritor. Membro titular do PEN Clube do Brasil; José Arthur Rios, sociólogo, poeta, vice-presidente do IHGB e membro titular do PEN Clube do Brasil; Mohsen Emadi, poeta iraniano refugiado no México como escritor acolhido pelo ICORN; Rogério Faria Tavares, escritor e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais; Ronaldo Werneck é poeta e escritor. Membro titular do PEN Clube do Brasil; Silvio Castro é professor universitário radicado em Roma. Poeta e ensaista; Sylvio Back é cineasta, poeta, roteirista e escritor. Membro titular do PEN Clube do Brasil. PEDE—SE PERMUTA. We ask for exchange. Pide-se canje. On demande l´échange. Man bittet um Austausch. Chiesto di scambio. Os textos assinados são de inteira responsabilidade de seus autores. ISSN 1518—9996


FOTO: LUCIANO DELBONS / CG: ROBERTO PORTELLA

PEN CLUBE DO BRASIL Fundado a 2 de abril de 1936. Filiado ao PEN Internacional de Londres DIRETORIA (Triênio 2014/2017) Presidente: Cláudio Aguiar Vice-Presidentes: Alcmeno Bastos, Ana Arruda Callado e Clair de Mattos Conselho de Curadores: Antonio Carlos Secchin, Délio Mattos, Godofredo de Oliveira Neto, Ivan Junqueira (in memoriam), Reynaldo Valinho Álvarez e Victorino Chermont de Miranda Conselho Fiscal: Dorée Camargo, Helena Ferreira e Francisco de Paula Souza Brasil SEDE SOCIAL PRÓPRIA: Praia do Flamengo, 172 — 11º Andar —Flamengo — Rio de Janeiro / RJ CEP 22.210-030 — Brasil —Telefax: (21) 2556 0461 www.penclubedobrasil.org.br | pen@penclubedobrasil.org.br


SÚMARIO

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� SUMÁRIO

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� EDITORIAL TRIBUNAS DA LIBERDADE

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� CADERNO ESPECIAL ESCRITORES PERSEGUIDOS PODERÃO SER ACOLHIDOS NO BRASIL RELATÓRIO MAPEIA VIOLAÇÕES À LIBERDADE DE EXPRESSÃO NO BRASIL

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� ENTREVISTA MOHSEN EMADI: “O que me ajuda a sobreviver é a poesia de cada país por onde tenho passado”

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� ESTUDOS CONSTRUÇÃO E (DES)CONSTRUÇÃO DO BRASIL  por Sílvio Castro O ESTADO DELINQUENTE  por Ives Gandra da Silva Martins

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� ENCONTRO COM O ESCRITOR: APRESENTAÇÃO DO POETA POR ELE MESMO

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� MEMÓRIA DESPEDIDA DE JOÃO UBALDO RIBEIRO  por Cyro de Mattos HÁ CONTROVÉRSIAS  por Ronaldo Werneck

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� OPINIÃO PEN CLUBE COMPLETA 78 ANOS  por Rogério Faria Tavares

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� POESIA: revista CONVIVÊNCIA

SONETOS DO RIO  por Cyro de Mattos

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� CINEMA GUERRA DOS PELADOS (1971)  por Sylvio Back

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EDITORIAL

Tribunas da LIBERDADE

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ão se pode ignorar os fatos dos recentes ataques à revista de humor Charlie Hebdo, de Paris, onde a violência motivada por questões religiosas, com fortes conotações de natureza política, deixou toda a Europa em estado de completo pesadelo e a dignidade humana ferida, sobretudo no que lhe é mais caro: o direito à liberdade de expressão.

2014 e princípio de 2015, em pleno clima de esperanças que se armam com a chegada das festividades de Natal e de Ano Novo, quando dois jornalistas foram mortos e seus corpos continuam desaparecidos. São eles: o diretor de jornal, José Moisés Sánchez Cerezo, do estado de Veracruz; e o jornalista e repórter de televisão, Mario Alberto Crespo Ayón, do estado de Sinaloa.

No entanto, esse estado desalentador, que, em verdade, fere de maneira violenta a liberdade de pensamento, justamente pelo viés mais trágico e desconcertante — a morte — não leva apenas a Europa a esse absurdo estado de insegurança. Na América (e aqui entenda-se as regiões: Norte, Centro, Caribe e Sul), infelizmente, também, grassa o mesmo clima de violência, assumindo, no caso de México e de Honduras, proporções alarmantes. Ninguém pode mais dormir tranquilo e dizer que seu habitat está livre de ameaça. Nem no Brasil, onde nos últimos três anos quase uma centena de atos violentos contra a liberdade de expressão foram perpetrados, inclusive com lamentáveis perdas de vida, conforme dados registrados pela idônea organização não governamental londrina “Artigo 19”, que mantém escritório em São Paulo.

Por isso, o PEN Internacional convocou todos os Centros PEN das Américas (Norte, Centro, Sul e Caribe) para uma reunião de emergência a realizar-se nos dias 20 a 25 de fevereiro próximo, na cidade do México, com o objetivo de solicitar das autoridades mexicanas a adoção de efetivas medidas tendentes a garantir o livre direito do exercício da profissão de jornalista, bem como o de todos os demais cultores da palavra, a exemplo dos escritores de qualquer gênero literário.

Apesar disso, agora, a prática de assassinar jornalistas e escritores com voz na imprensa (falada, escrita, digital ou televisiva) voltou a acontecer, tudo fazendo crer que em obediência aos mesmos ditames anteriores de execução de crimes que visam, antes de mais nada, a provocar o terror e o medo entre jornalistas, escritores e, ainda, com o evidente propósito de intimidar a população. O recente assassinato de 43 jovens estudantes, de uma vez, incinerados cruelmente numa cidade mexicana, foi uma espécie de macabro aviso dos mafiosos no sentido de que eles estão dispostos a prosseguir com essa escalada de crimes praticados, sempre, de maneira seletiva.

quase monográfico sobre o tema da liberdade de expressão, traz um Caderno Especial focalizando aspectos do problema e apontando algumas iniciativas que o Centro brasileiro está tomando, principalmente quanto à criação de casas de refúgio no Brasil para acolher escritores perseguidos em qualquer parte do mundo. 

Assim, com o encontro do México, inclusive com a presença do PEN Clube do Brasil, representado por seu presidente, espera-se que a ação do PEN Internacional e dos Centros PEN americanos possa sensibilizar as autoridades mexicanas a promulgarem leis mais efetivas e duras contra os criminosos. Só com essas medidas será possível No México, porém, no momento, talvez se concentre prevenir e intervir ativamente contra a impunidade de a maior incidência de atos violentos perpetrados contra assassinatos, levando os responsáveis à justiça. Finalmente, a liberdade de pensamento. Os grupos interessados em lançamos um urgente chamado aos escritores de América calar a voz dos que se levantam contra essas ações cri- para que participem, de alguma maneira, em seus lugares minosas, ali, atuam há vários anos. O PEN Internacional de origem, fortalecendo as ações de entidades que lutam e vários Centros PEN, em 2012, diante desse quadro, se pela promoção da literatura e pela defesa da liberdade mobilizaram e realizaram o movimento “PEN Protesta”, de expressão, a exemplo da comunidade PEN, a fim de exigindo das autoriades mexicanas a aprovação de leis que atos de violência não mais venham a enlutar famílias mais efetivas e duras contra esse persistente estado de e ferir a dignidade humana. clara infrigência aos direitos humanos. Por todos esses motivos, este número de Convivência,

Foi justamente o que aconteceu, agora, no final de

Cláudio Aguiar Cláudio Aguiar PRESIDENTE DO PEN CLUB DO BRASIL

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FOTO: DIVULGAÇÃO


CADERNO ESPECIAL

ESCRITORES PERSEGUIDOS PODERÃO SER ACOLHIDOS NO BRASIL Antecedentes Há um quarto de século, no mesmo ano da derrubada do muro de Berlim, o escritor Salman Rushdie foi condenado à morte e buscado pelo mundo inteiro por esbirros da polícia secreta iraniana. Se, por um lado, ele escapou da morte, por outro, infelizmente, muitos de seus leitores, tradutores, editores e livreiros foram perseguidos e alguns até assassinados por terem divulgado ou lido os Os versos satânicos. Diante desses fatos e de assassinatos de escritores, o próprio Rushdie, juntamente com mais de 350 escritores do mundo, em 1993, em Estrasburgo (França), tiveram a ideia de criar o Parlamento Internacional de Escritores, entidade que, anos mais tarde, na cidade de Stavanger (Noruega), seria reestruturado e daria origem a uma organização internacional integrada por sócios independentes, denominada International Cities of Refuge Network (ICORN). A nova entidade oferecia seguros refúgios para acolher escritores que podiam, então, continuar a se expressar de maneira livre, longe dos países onde foram agredidos ou ameaçados de morte. Dessa forma, os escritores estavam em segurança, mas não em silêncio. Com o aumento do número de escritores perseguidos (em 2014, segundo dados do PEN Internacional, chegavam já a cerca de 800), foi preciso abrir novos espaços para acolher romancistas, ensaístas, dramaturgos, poetas, blogueiros, editores, tradutores, redatores, jornalistas e caricaturistas ameaçados de morte.

de acolher escritoares ameaçados. Nesse sentido, o PEN Clube do Brasil tomou a iniciativa de organizar um Grupo de Trabalho destinado a divulgar as iniciativas levadas a cabo pelo ICORN neste país, terra de longa tradição de imigração e de integração cultural com os demais povos. A defesa da liberdade de expressão, o respeito aos direitos humanos, o exercício da democracia, a tradição de hospitalidade, tudo isso são valores essenciais que permitem ao Brasil abraçar plenamente essa causa. A função principal do ICORN (veja box anexo) é possibilitar a integração de cidades membros e seus escritores hospedados numa rede global de solidariedade, criatividade e interação mútua. As cidades brasileiras ou entidades públicas e privadas que se filiarem a essa atividade serão altamente b­ eneficiadas, porque as modernas formas de comunicações da atualidade permitem aos escritores do ICORN atingir as mídias e numerosas audiências em seus países de origem, como também suas vozes poderão ser o­ uvidas por novos públicos nas cidades que os a­ colhem e além-mar. Portanto, o PEN Clube do Brasil, as Casas Brasileiras de Refúgio (CABRA), o ICORN e o PEN Internacional, decidiram, no decorrer de 2014, estabelecer uma agenda de trabalho destinada a criar condições concretas para a fundação de casas de refúgio no Brasil. Assim, os representantes dessas entidades visitaram as cidades de Ouro Preto, Belo Horizonte, São Paulo, Porto Alegre, Rio de Janeiro e Petrópolis durante o período de 29 de outubro a 6 de Ampliação pela América Latina novembro de 2014, com o objetivo de divulgar essa Por essa razão, foi lançado entre nós o projeto relevante iniciativa em defesa da liberdade de expresCABRA (Casas Brasileiras de Refúgio, como o pri- são e de apoio a escritores perseguidos em qualquer meiro passo destinado a aumentar a possibilidade parte do mundo. 

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AÇÕES DO INTERNATIONAL CITIES OF REFUGE NETWORK (ICORN) E DO PEN INTERNACIONAL Proteger — Promover — Participar Os escritores, muitas vezes, são os primeiros alvos de ameaças e perseguição. Através de seus textos, eles dão voz a pensamentos, ideias, debates e críticas e as divulgam para um amplo público. Só o fato de exercitarem seus direitos à liberdade de expressão ou pensamento faz com que eles sejam particularmente vulneráveis à censura, ao assédio, ao silêncio, à prisão e até mesmo à morte. ICORN é uma rede de cidades e regiões, oferecendo apoios seguros para escritores perseguidos. Dar hospedagem a um escritor, não só o ajuda, mas, também, manda um sinal forte para outros escritores, para autoridades repressoras e perseguidoras, dizendo-lhes que existem alternativas ao silêncio. Através do ICORN os escritores podem seguir expressando-se de maneira livre. Permanecem em segurança, mas não em silêncio. Fundado em 2006 na Europa, até o momento já existem mais de 40 cidades e regiões atuando em conjunto com o ICORN, oferecendo abrigo para mais de 100 escritores. A rede está crescendo e ao mesmo tempo dando as boas-vindas aos novos membros de todo o mundo. Estimulando a cooperação com redes irmãs, o objetivo é fazer uma verdadeira diferença na luta global atual pela liberdade de expressão.

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Uma cidade membro do ICORN Quando se firma um acordo com o ICORN, a Cidade Refúgio concorda em: ƒƒ organizar a viagem e a recepção do escritor convidado; ƒƒ fornecer ao escritor e sua família alojamento apropriado; ƒƒ fornecer uma bolsa para manutenção durante a estada; ƒƒ ajudar o escritor a se integrar na comunidade, tanto na vida social como na artística; ƒƒ nomear um coordenador da Cidade Refúgio para dar apoio legal e prático ao escritor.

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Um escritor hospedado pelo ICORN Os candidatos ao ICORN são escritores. O termo escritor inclui outros significados, tais como as atividades ligadas ao uso da palavra: romancista, ensaísta, dramaturgo, poeta, blogger, editor, tradutor, redator, jornalista e caricaturista. O escritor candidato pode estar: ƒƒ ameaçado, em consequência direta de seus escritos, ou em perigo de ser morto, sequestrado, fisicamente atacado ou ser considerado desaparecido; ƒƒ condenado (ou sob o risco de ser condenado) à prisão pelas autoridades do seu país, como consequência direta de seus escritos; ƒƒ incapaz de expressar-se livremente através de sua escrita, sob pena de ser de perseguido pelas ações governamentais ou não governamentais do país onde resida. O candidato terá de preencher um formulário (download: www.icorn.org) e enviá-lo


ao centro administrativo do ICORN. Todas as solicitações são analisadas pela equipe do Comitê de Escritores na Prisão do PEN Internacional.

Seguros, mas não silenciosos ICORN é uma organização dinâmica, flexível e participativa, que interliga suas cidades membros e seus escritores hospedados numa rede global de solidariedade, criatividade e de interação mútua. Os escritores hóspedes do ICORN podem dar seguimento aos seus trabalhos intelectuais nas cidades onde se encontrarem refugiados. Através das modernas tecnologias, os escritores do ICORN podem atingir as mídias e audiências no seu país de origem, o que não poderia ser feito antes. Localmente e através da rede do ICORN, suas vozes podem ser ouvidas por novos públicos na cidade hospedeira e além-mar. ICORN e as cidades membros da rede promovem de maneira ativa os escritores hóspedes e seus escritos. Cuidam de publicações dos escritores do ICORN em livros, jornais e mídia online. Participam em eventos públicos tanto nas cidades refúgios do ICORN como em suas imediações, promovendo os escritores hóspedes e seus trabalhos.

Icorn Mapa

A organização do ICORN ICORN é uma organização internacional de sócios independentes, cuja sede administrativa está localizada na cidade de Stavanger (Noruega). O corpo diretivo do ICORN é a sua Assembleia Geral , que se reúne a cada dois anos. A última ­assembleia ocorreu na primavera de 2014. O ICORN é administrado por uma diretoria executiva, eleita pelas delegados das cidades membros por meio de assembleia geral. A primeira tarefa do centro administrativo do ICORN consiste em estabelecer ­conexões entre escritores perseguidos e cidades refúgio potenciais, coordenar as cidades e apoiar as cidades membros no mundo. Além disso, o centro administrativo do ICORN tem como tarefas: ƒƒ organizar atividades de captação de recursos (“fund raising”) e trabalhar de maneira ativa para recrutar novas cidades refúgio; ƒƒ facilitar eventos literários, seminários e outras atividades que promovam os escritores hóspedes do ICORN e seu trabalho; ƒƒ cooperar com cidades irmãs da rede ou qualquer outra organização ligada aos direitos humanos; ƒƒ organizar a assembleia geral do ICORN em coordenação com a cidade membro do ICORN; ƒƒ manter a página web do ICORN.

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PERSEGUIÇÕES E MORTES NO BRASIL

RELATÓRIO MAPEIA VIOLAÇÕES À LIBERDADE DE EXPRESSÃO ESTUDO DA ONG INTERNACIONAL “ARTICLE 19” EXPÕE EM DETALHES OS ATAQUES A JORNALISTAS E DEFENSORES DE DIREITOS HUMANOS

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Este estudo foi publicado pela REVISTA FÓRUM. Mantém na Internet a página revistaforum.com.br que traz, além de sua versão eletrônica, notícias e conteúdos diários, com análises e informações sobre eventos políticos, econômicos e sociais. Inspirada no Fórum Social Mundial, foi lançada com a cobertura do primeiro evento, realizado em janeiro de 2001 em Porto Alegre. Não é sua publicação oficial. O número zero foi lançado em abril daquele ano e, devido ao sucesso junto aos ­movimentos sociais brasileiros, tornou-se periódica ainda em setembro. Com tiragem de 20 mil exemplares, seus leitores são professores, intelectuais, sindicalistas, economistas, jornalistas, sociólogos, advogados, cientistas sociais e estudantes universitários. Fórum conta com um Conselho Editorial formado por representantes de diferentes segmentos da sociedade civil brasileira. (Fonte: Revista Fórum — 14/03/2013).


Relatório inédito, produzido pela ONG internacional Article 19, revela que 52 jornalistas e defensores de Direitos Humanos sofreram graves violações à liberdade de expressão no ano passado no Brasil, e 207, no México. O relatório foi lançado simultaneamente no Brasil e no México nesta quinta-feira (14). A íntegra do relatório no Brasil está disponível no site nacional da ONG Article 19 (www.artigo19. org) e no site internacional ­­(www.article19.­org). No Brasil, o levantamento identificou casos de homicídio (30%); tentativas de homicídio (15%); ameaças de morte (51%); e sequestros ou desaparecimento (4%). As vítimas sofreram retaliações por denunciarem publicamente atos de violência praticados por policiais; conflitos agrários; crimes ambientais ou práticas de corrupção. O relatório também apresenta um panorama comparativo das violações à liberdade de expressão no mundo. No Brasil, as regiões Centro-Oeste e Sudeste foram as que apresentaram o maior número de ocorrências. São Paulo, Mato Grosso do Sul e Maranhão são os estados­­ mais violentos. “Embora não haja uma intenção da institucionalização da censura no Brasil, em boa parte dos casos percebemos que os processos de intimidação e violência ocorrem por meio da atuação de representantes do Estado, seja através da polícia, de políticos ou agentes públicos”, afirma Paula Martins, diretora da Article 19 na América do Sul. “São ações não coordenadas e difusas, especialmente nos municípios. O Estado não apenas tem se omitido como acaba sendo protagonista de certas ações”, acrescenta. O relatório “Graves violações à liberdade de expressão de jornalistas e defensores de Direitos Humanos” relata os casos acompanhados pela equipe da Article 19 e as medidas adotadas pelo Poder Público. De forma complementar, o documento também apresenta outros tipos de intimidação: agressões físicas; prisões; detenções arbitrárias; sanções civis desproporcionais e processos civis e criminais, sob a alegação de calúnia, injúria ou difamação. Após o lançamento oficial, a Article 19 encaminhará o documento às autoridades nacionais, ONGs e veículos de imprensa no Brasil e no mundo; além dos órgãos de Direitos Humanos da ONU, OEA e União Europeia.

Dezesseis jornalistas e defensores de direitos humanos foram assassinados por se manifestarem no ano de 2012. Sete destes eram jornalistas e nove defensores de direitos humanos. Foram investigados 82 casos em que profissionais da mídia ou defensores de direitos humanos foram vítimas de violência. Em praticamente 64% dos casos, as vítimas sofreram algum tipo de ataque por terem feito alguma denúncia, oral ou escrita.

Quem sofreu a violência? O dobro de jornalistas (30, comparado com 17 defensores de direitos humanos) foram vítimas da maioria dos sérios ataques à liberdade de expressão (classificados como homicídios ou tentativa de homicídio). As vítimas dos casos mais sérios de violência contra jornalistas são contra aqueles que escrevem em blogs com bom público.

Geografia da violência Houve mais violência contra a liberdade de expressão nas zonais rurais do que nas grandes cidades. Quase 50% dos casos de violência ocorreram em cidades com população menor do que 100 mil habitantes. Incluindo-se as cidades com população em cerca de 500 mil pessoas, essa taxa sobe para 68%. Menos de 1/3 dos crimes contra a liberdade de expressão ocorreram nas grandes cidades (32%).

Motivação para a violência Em praticamente 74% dos casos, a violência foi motivada por alguma declaração específica feita contra um agente Brasil em números público, funcionário público ou empresa privada. Outros Um jornalista ou defensor de direitos humanos é assas- fatores de motivação incluem a manifestação de uma opinião sinado a cada quatro semanas no Brasil por algo que tenha crítica (17%), o compartilhamento de uma informação (4%) afirmado ou publicado. Para cada assassinato, há mais de e a participação em passeatas (2%). três situações em que o jornalista ou defensor de direitos Pelo menos um agente do Estado está envolvido em 18% humanos já tenha sofrido um sério atentado contra sua vida. dos casos de violência contra a liberdade de expressão. 

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ENTREVISTA

MOHSEN EMADI “O que me ajuda a sobreviver é a poesia de cada país por onde tenho passado”

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poeta e tradutor iraniano Mohsen Emadi, entrevistado por Cláudio Aguiar, veio ao Brasil para participar de eventos em Curitiba, Rio de Janeiro e Ouro Preto. A sua vinda, patrocinada pela ONG International Cities of Refuge Network (ICORN), entidade sediada na Noruega e apoiada pelo PEN Internacional, contou também com os auspícios e do PEN Clube do Brasil. Além disso, Emadi atuou nas démarches que culminaram na criação da Casa Brasileira de Refúgio (CABRA), a primeira ONG do gênero a ser fundada na América do Sul, com sede no Rio de Janeiro. Mohsen Emadi (Irã, 1976), publicou, entre outros, os livros de poesia A flor das linhas (Lola Editorial, 2003), As leis da gravidade (Oliphant, 2011) e O visível ar, legível como a morte (Oliphant, 2012), todos editados na Espanha. Em 2007 foi publicado no Irã o livro de poesia Não falar de seus olhos (Ghoo Publishing). Publicou, ainda, traduções de obras de Vladimir Holan, Nichita Stanescu, Jiri Orten, Antonio Gamoneda, Pizarnik, Juan Gelman, Cezar Vallejo, João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade etc. Em 2007, organizou a Antologia mundial de poesia persa, da qual figura como editor responsável. Deixou o Irã em 2009 e passou a viver em vários países europeus. Atualmente está vivendo na cidade do México (DF), onde trabalha na elaboração de dois livros de poesia e em documentário poético sobre o exílio de Luis Cernuda. Em 2010 recebeu a bolsa de estudos Finnish Literature Exchange, Fili para sua antologia de poesia finlandesa. No mesmo ano ganhou o Prêmio Internacional de Poesia Medo (Espanha). Em 2011 conquistou a Bolsa Internacional Antonio Machado, da Espanha.


Cláudio Aguiar: Para começar, quem é Mohsen Emadi? Mohsen Emadi: Saber quem eu sou é muito dificil. Descobrir-me é como encontrar a morte. Se, por um lado, a todo momento estou construindo eu mesmo, por outro, com toda minha experiência, apenas construo quem eu sou. Esse é um processo de contaminação enfermiça… O que sou e faço, respondendo diretamente à sua indagação, é encarar o essencial da vida. Isso pode ser feito por meio da experiência da minha infância, ou por intermédio de meus textos, isto é, o visível e o invisível, o que vemos e o que nunca falaremos. Tudo isso se enraiza em meu corpo e, por certo, eu não sou mais do que meu próprio espírito. Nesse sentido, eu sou um ser enfermiço e também eterno. CA: Seu nascimento e formação inicial se deram numa cidade grande ou numa vila do interior, de costumes rurais? ME: Eu nasci no norte de Irã, numa vila a apenas 15 km do mar Cáspio, praticamente dentro de um bosque. A minha formação se deu ao lado da família, constituída por camponeses cultivadores de arroz e de outros produtos agrícolas e também caçadores. Parte de meus familiares também era integrada por viajantes do comércio com outras vilas próximas. CA: Como e quando surgiu seu interesse pela poesia ou, noutras palavras, a manifestação da sensibilidade pelo artístico? ME: Penso que para responder a essa pergunta, o melhor seria falar sobre minha avó, uma mulher ativa, sempre a lutar na vila por causas nobres, a exemplo do direito das mulheres. Ela bailava, cantava e vestia roupas encantadoras. Era uma das poucas mulheres do lugar que escrevia poesia e, ademais, trabalhava no campo. Sua existência e suas canções folclóricas tiveram forte influência na minha formação. Por causa dela, desde os seis anos comecei a esvrever poesia. Era tempo de guerra e, naquela época, poesia era uma forma de viver e não só de expressar e de sentir. Daí que a única maneira de senti-la era por meio do canto, da música. O Irã tem longa tradição poética. Todas as pessoas, de todos os niveis sociais, mantêm forte contato com a poesia. Agora, o que estou a chamar de poesia não é, evidentemente, o que eles praticam como poesia. Eles têm uma maneira especial de expressar a literatura, a literatura persa.

Assim, a forma poética que eu adoto, como escritor, é outra forma de expressão, que me custou muitos anos de aprendizado. CA: Você disse que no Irã se respira e se transpira poesia. Isso é muito curioso. Creio que, talvez por esse caráter tão marcante da vida iraniana, a poesia está presente inclusive na celebração das estações do ano, como a Primavera, chamada de “noruz”, quando se comemora o primeiro dia do ano, acontecimento que anuncia a chegada das flores, do que há de mais belo na natureza. ME: Quase todos os aspectos de nossas tradições culturais têm algo que ver com a poesia. Noruz para nós significa renascimento de toda a natureza. Isso ocorre não apenas no Irã, mas em outros países vizinhos, como a Albânia, Turquia, Afeganistão etc, onde a primavera tem esse significado. Na noite em que começa noruz, quer dizer, a primavera, toda a gente se reúne para dizer ou ler poesia, principalmente as obras de Hafiz... CA: Em que época viveu Hafiz, poeta símbolo dessa tradição? ME: Na época medieval. Sua poesia existe em toda casa iraniana. Temos uma palavra para dizer o que isso significa, a qual pode ser traduzida como sendo “linguagem da ausência”, expressão que também deve ser traduzida como “decifrar nosso futuro”. CA: O sentido dessa expressão talvez possa lembrar o nosso termo “saudade”, aquilo que os espanhóis, numa tentative de aproximação, chamam de “nostalgia”. ME: Eu penso que saudade e nostalgia são termos diferentes, porque, como dizia meu amigo Eduardo Milán, saudade é saudade de si mesmo, enquanto que nostalgia é saudade do outro ou d­ e algo. CA: Bem, depois de atingir os 30 anos de idade, você começou a publicar e a difundir uma obra poética, inclusive, fora do Irã. Terá sido esse labor poético a causa fundamental de seu exílio forçado, a partir de 2009? ME: É bastante difícil responder a essa pergunta. Nós temos sempre a possibilidade de eleger o caminho a seguir, de acordo com a força interior que nos anima. Chega um determinado ponto em que não se pode mais aceitar essa imposição, essa hegemonia de poder, essa opressão ditatorial. Então, decidimos ser impossível suportar ou negociar com a ditadura. É certo que desde a

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minha adolescência e juventude, quando comecei a escrever e a publicar, sempre tive problemas com autoridades do governo, sobretudo por causa das mudanças introduzidas em minha poesia. Recordo que no momento em que abandonei a maneira tradicional de escrever poesia e adotei outras formas mais modernas, todos os festivais regionais de meu país recusavam minha participação. Muitos sequer queriam falar ou conviver regularmente comigo. Poesia moderna, em termos do que entendiam as autoridades iranianas, especialmente no que diz respeito à república islâmica, significava estar de acordo ou subordinado ao pensamento atual do sistema governamental do Irã. Isso, porém, não tem nada a ver com certa tradição religiosa. A rigor, eu sofri esse tipo de reproche desde minha adolescência. A partir de então eu comecei a ver e a conviver com proibições. Uma dessas proibições, por exemplo, foi o culto ou apoio à poesia mundial, ou seja, a poesia produzida fora de Irã. A verdade é que lá se vive submetido a duas cadeias: uma, de definição de si mesmo e, outra, de definição por parte da ditadura. Esta impõe uma opressão de fora para dentro, enquanto aquela se transforma num cárcere interior. CA: A expressão “cárcere interior” lembra Santa Teresa de Jesus, mas, no seu caso, é algo bem diferente. ME: Exatamente. Esse cárcere interior vivido pelos iranianos, eu vivi e suportei enquanto era mais jovem. É pensar em algo que começa e acaba no Irã. É uma forma horrível de nacionalismo que afeta a livre produção poética. Isso significa que temos de começar a lutar dentro de nós mesmos e tentar mudar o sentimento e as ideias dos nossos leitores. Significa uma luta diferente, séria, travada numa perspectiva de ação exercida por um soldado cultural. Assim, conciliar e negociar com a ditadura é algo impossível. Quando passei dois meses lutando nas ruas, depois do golpe de Aberdjanezat, senti, por um lado, que não podia publicar o que escrevia; por outro, do ponto de vista pessoal, eu passei a corer risco de vida. Ademais, se eu permanecesse no Irã, atuando como soldado cultural, terminaria sendo preso e recolhido a um cárcere. Ou, então, teria que me calar e voltar à minha vila e passar a viver como os camponeses dali. Isso seria muito bonito, porém significaria aceitar a morte do

escritor que sou. Por tudo isso, decidi deixar o Irã e sobreviver como escritor. Disse a amigos que se eles ficassem ali, dentro de seis meses estariam presos. Muitos decidiram ficar, outros resolveram abandonar o país. Resultado: uma geração de escritores deixou o Irã. Não somente escritores, mas, também, engenheiros, trabalhadores e outros profissionais liberais de diferentes especialidades. Agora mesmo vivem cerca de seis milhões de iranianos no exílio. São mais de 8% da população. Por que essa gente abandona sua terra, um país rico, com bastante cultura, e prefere viver no estrangeiro uma vida difícil? Está claro que é porque não têm a menor possibilidade de viver sob o império de uma ditadura. CA: Nesse elevado percentual, é possível incluir também aqueles que abandonam o Irã motivados por questões por questões de natureza econômica, caracterizando, portanto, um processo normal de emigração? ME: Eu digo que inclusive a expatriação motivada por questão econômica, tem muito a ver com problemas políticos. Há casos (e eu conheço vários) de pessoas que viviam bem situadas em termos de emprego: professores universitários, executivos e profissionais liberais: que preferiram abandonar o Irã e seus empregos a ter de viver ali submetidos às opressões do regime ditatorial. Isso ocorre apesar do horrível nacionalismo iraniano. Para mim, nos dias atuais, todo aquele que deixa o Irã sempre age motivado por alguma dimensão política. CA: Como avalia a sua vida de escritor exilado e até que ponto viver em diferentes países europeus, antes de fixar-se no México, na Casa de Refúgio, concorreu para moldá-lo como um expatriado? ME: Significou uma experiência extremamente difícil e, ao mesmo tempo, também triste. Com o tempo aprendemos que não é possível permanecer somente em um lugar a chorar, mas, também, precisamos chorar e reagir... Não podemos ficar entregues ao abandono. O que aconteceu comigo foi que ao deixar o Irã fui para a Finlândia… CA: Um país bastante exótico, gelado, bem dife­ rente do Irã… ME: Claro. Ali se vive nove meses de excessivo frio com -40°, algo impossível de imaginar. Depois, os finlandeses são diferentes, têm outra percepção sobre a arte, sobre a literatura e a cultura em geral. Uma vez ali, a gente se sente assim como um


Quando passei a traduzir poesia à minha lingua nativa, comecei a ouvir persa na Finlândia, em Praga, na Espanha, no México e até aqui, no Brasil. Estou lendo e traduzindo poesias em idiomas que não são a minha língua materna, porém trabalho duro em persa ao traduzi-las. Uma motivação para fazer esse trabalho foi aproximar-me de minha terra e também levar até ela algo concreto, como se fosse um presente. Pode ser a poesia de João Cabral de Melo Neto ou de Carlos Drummond de Andrade, que já traduzi ao persa, além de outros poetas estrangeiros. Essa experiência, vivida desde a Finlândia me deixou a convicção de que não é possível ficar o resto da vida chorando, morrendo de saudade de meu país. Prefiro ser sempre um lutador, e assim luto contra mim mesmo, contra

meio da tradução da poesia finlandesa ao persa. Comecei a traduzir poetas e ganhei o “Finnish Literature Exchange, Fili”, em 2010, prêmio que me proporcionou a tradução ao persa de 65 poetas finlandeses. Eu trabalhava de manhã à noite. Para tanto, contei com a ajuda de amigos, a exemplo de um que é proprietário de uma ilha particular, lugar tão aprazivel que tinha sauna ao lado de um lago gelado! Essa natureza tão forte que passei a contemplar, de certa maneira, começou a influir em minha poesia. Mudança não só em relação à saudade de meu país, mas, também, à necessidade de manifestar solidariedade a muitos exilados que vivem numa situação de eterna saudade, rendidos ao sofrimento e à dor. Esse sentimento vive com nosso povo e viaja conosco para todos os lugares. Fazia muito tempo que eu não escutava persa.

minha tristeza. O que me ajuda a sobreviver é a poesia de cada país por onde tenho passado. CA: Que papel desempenhou em sua vida o ICORN, a rede interenacional de cidades de refúgio, na qual são acolhidos escritores perseguidos de diferentes países sob a chancela do PEN Internacional, a exemplo de seu caso que, no momento, se encontra refugiado em México, na Casa Citlatelpet. Como e por que você recorreu a esse tipo de ajuda? ME: Há um poema, traduzido e publicado na Espanha, em que eu falo em viver em cinco cidades em um ano. Apesar disso, sempre me vinha uma imagem de minha casa, de meu país. Ser exilado significa perder a imagem da casa, do lugar de origem. Quando eu vivia no Irã, certa vez, como já lhe disse, viajei e dormi em todas as cidades

FOTO: JORNAL O GLOBO

peixe fora d’água. No começo eu vivi ali num claro vazio. Apesar disso, comecei a construir o meu exílio de diferentes maneiras. Foi uma experiência tão extrema que, depois de certo tempo, conclui que, se eu conseguira sobreviver na Finlândia, conseguiria sobreviver em qualquer parte do mundo. No entanto, apesar da dura ausência dos que me eram mais caros no Irã: minha avó, minha mãe, meu pai e demais parentes: tive a sorte de conhecer amigos e poetas de valor. Após três meses já tinha encontrado o que fazer. Apesar disso, estando desconectado de minhas fronteiras e, por outro lado, sob o império de uma estranha natureza, cresceu em mim uma solidão enorme. Uma das saídas foi ter enfrentado o desafio de conhecer de perto a cultura finlandesa. A porta se abriu por

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México tem influenciado a sua poesia, inclusive no domínio da tradução? ME: Essa maneira dual de entender o fenômeno da criação poética sempre existiu em minha vida. O exemplo mais patente foi a presença do folclore na cultura persa, que se manifesta totalmente diferente da tradição literária dali. Isso se nota bem na produção dos grandes poetas iranianos de todos os tempos. A poesia persa é algo bastante fechado, enquanto que o folclore se apresenta de forma aberta, ou seja, como mescla de diferentes culturas do mundo. Em minha região, por exemplo, vivem pessoas que cultuam as tradições turcas, com suas canções, lendas, danças, literatura, etc. Por outro lado, pelo fato de eu ter vivido em vários países, a minha produção poética está mudando. Exemplo: ao viver em Granada, próximo de Gomoneda, conheci bem a obra de Federico García Lorca. Assim, estou sempre recebendo influências e a devolvê-las com traduções e novas criações poéticas. Esse tipo de experiência me oferece a possibilidade de me transformar e de combater radicalmente a solidão ou a melancolia. A melancolia passa a ser ato poético. Por isso, sempre estamos predispostos a mudanças, sobretudo na construção do poema. O trato ou o preenchimento dos espaços vazios, os silêncios que existem em nós, afetando-nos naquilo que dizemos ou pretendemos dizer. Essa forma de enfrentar a realidade é, fundamentalmente, um aprendizado, uma convivência com a melancolia ou a solidão. Daí, penso que, por onde fui passando e vivendo, de certa forma absorvi diferentes paisagens, que se transformaram em minhas exclusivas paisagens interiores, naturalmente opostas a paisagens exteriores que eu também visito, porém, fora de mim. Por isso, agora, estou escrevendo um livro no qual cada poema tem o nome de um país latino-americano. Ainda que sejam diferentes os países, em verdade, todos se unificam num símbolo de mulher amada, a minha amada. CA: A mulher amada é uma curiosa recorrência dos poetas. Por falar nesse tema, eu verifico que  FOTOS: DIVULGAÇÃO

iranianas. Isso, porém, era algo diferente, porque eu sempre poderia voltar, a qualquer momento, para minha casa. Quando deixei o Irã, passei um ano vivendo em sete cidades de três países diferentes. Essas mudanças, sem a possibilidade de ter uma casa para regressar, um lugar familiar, foi algo muito difícil. Eu levava comigo a permanente imagem de minha casa. O ICORN, portanto, me ajudou muito, porque, apesar de ter amigos no PEN da Suécia, da Finlândia, da Espanha, etc., verifiquei que poderia utilizar mais esse recurso ou apoio. Tive que optar entre ficar com minha nacionlidade iraniana ou de pedir asilo politico em algum país. Então, decidi pelo segundo caminho. Após solicitar ajuda ao ICORN, surgiu a acolhida na cidade de México, precisamente na Casa Citlatelpetl. Isso para mim foi maravilhoso, porque, o primeiro país que publicou minha poesia em formato de livro físico, foi a Espanha. Por isso, logo comecei a aprender o castelhano. CA: Espanha foi, portanto, para você,uma espécie de “madre editorial”… ME: Perfeito. Isso me estimulou a aprender o castelhano a partir de 2010, na Espanha. Foi por essa época que encontrei, em Granada, Antonio Gomoneda, um poeta extraoradinário. Então disse para mim mesmo: por que não falar seu idioma? Foi com ele e por causa dele que comecei a aprender espanhol. Por essa época descobri que ali, na Espanha, se ignorava a poesia latino-americana, ou seja, ela não era conhecida como deveria ser. Inclusive a poesia brasileira. Isso, creio, nascia de uma certa exacerbação nacionalista. Os espanhóis são, na sua grande maioria, localistas, regionalistas, nacionalistas. Eu lutei e luto contra isso no Irã e ali, na Espanha, continuei a combater esse sentimento nocivo ao conhecimento pleno da poesia de todos os lugares do mundo. Daí que quando me surgiu a possibilidade de asilo no México, proporcionada pelo ICORN, decidi vir para a América, decidido a conhecer sua literatura também. CA: E como foi a acolhida? ME: Uma vez no México, comecei a traduzir poesia. Esse trabalho se constituiu numa espécie de troca e de aprendizado. Graças à tradução, me foi possível viver a experiência de vida noutro idioma e noutra cultura. É, de certo modo, viver com as duas experiências: o meu passado como iraniano e a nova vivência mexicana. CA: Assim, até que ponto a atual estada no


Na casa do poeta espanhol Federico Garcia Lorca.

a mulher, ainda hoje, é tratada sob forte discriminação, não somente no Irã, mas em outros países asiáticos. Sei que há precedentes históricos, como as que justificam as abstrusas castas indianas, porém, de qualquer sorte, tudo resulta numa odiosa atitude de desigualdade da mulher em relação ao homem. Qual seu pensamento sobre esse tema tão polêmico? ME: Eu recordo, desde criança, as lágrimas de minha mãe. Era um tempo de guerra: meu pai, apesar de ser um homem religioso, batia em minha mãe. Eu recordo a voz de minha mãe a lamentar-se e a dizer que iria suicidar-se. Guardo comigo a lembrança do suicídio de muitas mulheres que viviam em minha vila a mesma situação naqueles tempos de guerra. Há uma cidade no Irã em que as mulheres se suicidavam tocando fogo no próprio corpo, morrendo queimadas... CA: Imoladas sob a ação do fogo. ME: Sim. Essa é a situação das mulheres iranianas. No entanto, no que respeita à discriminação e à desigualdade, a situação é universal. A intensidade pode ser diferente neste ou naquele país, porém, lamentavelmente, a regra é universal. Esse estado de coisas decorre, a meu ver, do próprio desequilíbrio da mente, da razão masculina. E não só do homem, mas, também, de seus equivalentes. Capitalismo é masculino. É um fenômeno masculino. Em meu país todos os fundamentalismos são masculinos. No entanto, cresce o movimento contra esses tipos de discriminação e o governo está muito assustado. CA: Nesse movimento, os ativistas defendem a igualdade da mulher em todos os setores da vida social? ME: Sim. No entanto, eu, como poeta iraniano exilado, tenho que lutar contra a propaganda mundial contra o Irã. Essa propaganda difunde uma coisa nociva contra os iranianos: diz ser o Irã um deserto, onde todas as mulheres andam com o rosto coberto, são “coisas” e não seres humanos; porém, felizmente, não é verdade. Historicamente, o Irã teve formação diferente. Por exemplo, é bastante diferente de Arábia Saudita. A questão fundamental é outra. Temos no Irã uma cultura

diversa, mas aberta, e essa abertura nunca permitiu que os políticos fundamentalistas impusessem suas regras fechadas e radicais de maneira livre, sem resistência. Muitas mulheres iranianas defenderam e sofreram violências por causa dessa luta contra a discriminação. E nós, poetas, estamos sempre ao lado das mulheres, porque a poesia é feminina. CA: Para terminar, como você, além de poeta e tradutor, também é um homem que domina a Informática, em todos os níveis, com interesse forte sobre a chamada tecnologia da informação, que acha da veiculação da poesia sob o formato online em lugar do suporte físico do papel? ME: Primeiro, eu preciso dizer que o corpus do pensamento não é o papel. O pensamento depende de nosso corpo, de nossa mente, de nossa razão. Assim, o pensamento pode vir pelo ar, das montanhas, do céu ou do computador. Não importa. O mais importante é que o pensamento deriva de nossa mente e chegue à mente do leitor. Por outro lado, eu venho de uma cultura antiga, na qual a a poesia sobreviveu em milênios aneriores sem o uso do papel. A poesia de Hafiz se difundiu por séculos sem a necessidade de uso do papel. A máquina de Gutemberg foi um acontecimento industrial e, ademais, teve e tem algo que ver com o capitalismo. Não passa de uma espécie de mecanização do pensamento. Comparar a cultura digital com a cultura difundida por meio do papel, a meu ver, é apenas uma questão de escolha. O papel pode, até, ter um significado nostálgico, mas eu prefiro o suporte digital, porque é mais democrático. Dentro do Irã, por exemplo, eu tenho publicado toda minha obra em formato digital. Assim, eu escrevo para todos, e não só para aqueles que podem comprar livros físicos, em papel. Em contrapartida, pode-se dizer que os editores objetivam ganhar dinheiro. O poeta não deve escrever para enriquecer. Eu não escrevo para ganhar dinheiro. Quem não tem dinheiro, via de regra, nem sempre pode publicar um livro de poesia. Sua existência como autor corresponde mais à necessidade do mercado editorial. João Cabral de Melo Neto, um grande poeta, não poderia viver do dinheiro ganho com sua poesia. Eu mesmo vivi anos trabalhando como programador de computadores. Assim, entendo que a poesia não é uma mercadoria. Poesia não existe para ser vendida, mas para ser vivida. 

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ESTUDOS

CONSTRUÇÃO E (DES) CONSTRUÇÃO DO BRASIL TEXTO Sílvio Castro

Mas, ainda que eu chegue a essa metodologia, não perderei, nem mesmo assim, a consciência da relatividade de todas as conclusões que apresento como definitivas. Justamente da dúvida partirão sempre os meus raciocínios e conceitos. Não uma dúvida tomada pela radicalidade negativista, mas aquela que procura esclarecer sempre o aparente conhecimento das coisas apenas assumido por mim no meu pensar quotidiano.

Introdução Ao começar o presente ensaio, relativamente curto nas suas dimensões, mas de amplas ambições nas relações que intercorrem entre mim e esta minha terra, um tema central logo se impõe: qual metodologia devo empregar para a melhor realização do mesmo? Tal metodologia deve antes de tudo ser aderente ao tema, sendo, assim, um bom início quanto a uma possível equação do argumento.

Parte I. Tradição e construção A história dos países jovens, em particular daqueles do continente americano, oferece um processo de afirmação que se baseia em diversos elementos retóricos, em particular na distinção entre passado e tradição. Naturalmente são valores que levam muito tempo para afirmar-se e, mais ainda, para distinguir-se. A construção do passado, de qualquer tipo de passado, pressupõe o desenrolar do tempo. ­E sabemos todos quão lentos são aqueles valores das realidades físicas e dos países delas derivadas. Enquanto passam as gerações de homens e mulheres, essa realidade física se deixa ver modificada muito relativamente. Porém, depois de um tempo, lentamente se passa a comprovar as diferenças de um presente, vivido e sentido, e algo de aparentemente distante, mas próximo, que é o passado propriamente dito. Naturalmente pode-se concluir que os elementos que permitem tais percepções são determinados por novas tomadas de consciência da realidade física em clara autodefinição. A partir de então, os homens começam a distinguir nessa reveladora história gradações de tempos passados. Aqueles mais marcantes passam a receber o título de tradição. A tradição não deve ser jamais lida como algo melhor 

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ou pior na história de uma comunidade civil, mas sim como momentos especiais que passam a configurar tal história e tal comunidade. No memorável momento em que o homem do passado se empossessa de tal distinção, começa a construção racional de um país. Considerando tais premissas, a construção do Brasil colonial começou muito cedo, pois já em figuras como aquela do primeiro donatário de Pernambuco, Duarte Coelho, encontramos testemunhos de uma tal tomada de consciência. O luso-brasileiro Duarte Coelho, apenas instalado na sua capitania, a mesma que conhecerá muitos progressos e que saberá transformar continuamente os dados passados em elementos de tradição, ele logo sabe valorizar a nova terra. Suas famosas “Cartas” ao rei de Portugal, convidando o Soberano a não transladar toda a riqueza recolhida na colônia para Lisboa, mas deixar parte dela na terra de origem, a fim de permitir assim que mais riquezas possam ser conquistadas, formam um quadro construtivo de uma terra na qual, pela primeira vez, vê-se com clareza a projeção de um luso-tropicalismo utópico que poderia ter dado mais resultados concretos de quantos não se verificaram realmente. Começa assim a parte melhor da construção de um Brasil colonial. Aparecem pela primeira vez elementos que mais tarde, nos séculos de maior progresso, o país saberá viver para muito lentamente elaborar uma realidade estável e autônoma. Mas essa será uma história construtiva que teima em fazer-se obscura e de difícil colocação. Muitos são os episódios que a marcam: o encontro de tantos habitantes da terra nas lutas contra os holandeses no Nordeste, fenômeno de grande importância para a definição dos tipos que formarão uma das riquezas da futura nação brasileira; a miscigenação dos diversos tipos étnicos que já a compõem; uma lenta, mas sutil modernização do modo de viver da gente, que quase não é mais europeia, mas muito americana. Assim, europeus, índios, africanos se individualizam e passam a permitir a Gilberto Freyre a lenta elaboração de suas grandiosas teorias socioculturais. De igual importância é o movimento da Conjuração mineira, de triste epílogo, mas que trouxe para o Brasil as maiores riquezas culturais que o Iluminismo poderia conceder, bem como

as melhores lições derivadas da Revolução que levou os Estados Unidos da América do Norte à sua declaração de independência. A partir dela, os brasileiros também se preparam para a independência nacional que se aproxima. Depois do importante episódio histórico da chegada, em 1808, da Corte portuguesa no Rio de Janeiro, o grito de independência de 1822 já se encontra na garganta dos patriotas brasileiros.

Parte II. Tradição e modernização Com a independência política começa toda uma nova fase de desenvolvimento do país. A herança colonial continuará a pesar por longo e quase indefinido tempo, porém o tempo inédito sabe, em meio às difíceis peripécias da nova realidade da comunidade civil do Brasil, avançar na direção da afirmação dos melhores valores recolhidos da tradição. Uma tal afirmação que parece (e em verdade é assim por não ter fim) denomina-se “modernização“, ação que a partir de seu início continuará a perseguir sempre novas linhas.


A modernização é uma derivação direta da tradição. Mas, igualmente, sabe confrontar-se com aquele outro valor, o do tempo passado, para melhor atingir suas metas, isto porque a dimensão do passado pode conter resíduos de grande importância histórico-antropológicos para o continuado ­afirmar-se da modernização. Porém, será sempre da tradição que a modernização saberá abrir fronteiras sem fins. Isto

principalmente porque a tradição oferece em particular duas dimensões amplas de continuado progresso para a comunidade civil: “constantes” e “recorrências“. As constantes são aquelas manifestações vindas de madura tradição que se repetem, porém, com aspectos diferentes nos tempos novos, chegando mesmo a dar-lhes as linhas mais gerais; as recorrências são aqueles elementos tradicionais que, sem chegar a ser substanciais para o tempo da modernização, conseguem insuflar-lhe valores altamente positivos. A partir de 1822 os novos tempos brasileiros

afirmam todos esses elementos. Ainda que o façam numa forma pouco coerente, pouco lógica, mas até mesmo parodoxal em tantas circunstâncias. A Monarquia, regime a que os patriotas brasileiros tiveram de aderir para a afirmação da ­independência, desde a sua inauguração até a sua conclusão, em 1889, não soube estabelecer na nova realidade social aqueles valores indispensáveis à melhor forma de modernização: estabelecimento de clara estrutura social, com as categorias correspondentes expressas claramente, pois passa todos esses longos sessenta e sete anos de regime dominante ignorando condições de modificações das condições sociais da maioria de brasileiros que vivia diante de uma minoria aristocrática, servida por uma pequena parte de intelectuais e empregados civis; uma indefinida camada de negociantes, que administram as poucas rendas que tocam ao setor privado; uma infinita camada de indivíduos sem clara posição sociopolítica na sociedade sempre crescente, isto como um quase paradoxo. A economia é dirigida e supercontrolada pela aristocracia e pouco incide num desejado e sempre esperado desenvolvimento da comunidade civil, quase sempre muito pobre. A cultura, esta é mais ainda aristocrática e direito de poucos. O segundo Imperador a galardoa em maneira constante, mas sem chegar a propor jamais uma verdadeira revolução cultural. O pouco de cultura que a comunidade apresenta é o heróico resultado do esforço dos indivíduos cultos, singulares agentes de um processo que em verdade requer estruturas mais compactas. A vida social se exprime sempre apoiada em valores de claros conflitos com a mesma comunidade com a qual comparticipa. O mais deprimente destes valores se refere à escravidão dos negros africanos. O Brasil deverá levar até 1888 a pecha de último país independente do ocidente a manter ativa a escravidão, isto apesar das batalhas de tantos patriotas no decorrer de todo o século XIX. Lentamente, porém, aparecem movimentos isolados em relação ao poder monárquico, movimentos que agitam de forma bastante substancial a vida do país. O Positivismo é um desses movimentos. Com ele o Brasil atinge melhores formas de modernização e se lança naquele 

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programa mais radical direto à modernização que é o regime republicano. Finalmente este será alcançado em 1889. No decurso de todas essas peripécias sobressaem indivíduos que, pela própria ação pessoal, apressam a conquista de um melhor ritmo de modernização no país. São verdadeiros e isolados heróis que dão uma nova figura à realidade brasileira, ainda que muitas vezes limitados pelo extrapoder do regime antiprogressista. Para nossa melhor orientação, entre os tantos possíveis exemplos dessa heroicidade e como modelo dessa substancial ação individual, elegemos a figura de Machado de Assis, pois nele, brasileiro mestiço, filho de mulato e uma lavadeira oriunda dos Açores, autodidata, genial criador literário e modelo de cultura a que uma individualidade pode chegar mesmo num ambiente de subdesenvolvimento, nele vemos a síntese do herói que melhor conduz o Brasil a uma constante modernização. Na abertura de meu livro, Machado de Assis e a Modernidade brasileira (ed. Academia Brasileira de Letras-Edições Galo Branco, RJ, 2009, p. 7), escrevi: “Machado de Assis realiza uma obra que, revelando-se como insólito sistema literário, se afirma como referência privilegiada para o melhor conhecimento dos diversos tempos da literatura brasileira. O seu realismo não é aquele histórico, confinado à ortodoxia da Escola, mas uma atitude diante da realidade expressa por uma concepção

não comum da natureza. Ele é, ao mesmo tempo, inauguração de uma literatura e testemunho da tradição solidamente conquistada pela história desta mesma literatura. Nele, através das invenções de uma linguagem capaz de constante criação, o poético mais moderno toma a posição principal no sistema literário revelador não só da dimensão individual, mas igualmente daquela de uma realidade nacional.” Por tais e outras razões, elegemos o ano de 1908, aquele da morte de Machado de Assis, como momento inicial da passagem do constante e assumido processo de modernização do Brasil para aquele outro de sua pré-Modernidade.

Parte III. Modernização e modernidade O conceito de pré-modernidade, bem como aquele formado por diversos prefixos da mesma intensidade deste pré-, sofre do fato de pouco traduzir de realmente concreto no melhor sentido retórico. O chamado Pré-modernismo, de 1908 a 1922, mostra todos esses problemas. Continuado sem interrupção o conceito de modernização do Brasil por todo o século XIX, com a afirmação do novo regime republicano, o fenômeno continua na sua lógica histórica. Mas, em verdade, a República cedo demonstra que pouco modificou a realidade da comunidade nacional brasileira. De fato, é indispensável remarcar, uma realidade de grande importância se 


verifica, aquela referente às classes sociais. Ao contrário de quanto acontecera no oitocentos, o século XX republicano propõe modificações no setor que levam a comunidade brasileira a assumir uma nova fisionomia. A melhor razão dessa conquista se encontra, sem dúvida, no fim da aristocracia monárquica e numa maior afirmação da classe média. Tal afirmação traz para a vida ativa da comunidade nacional um maior número de protagonistas, e o progresso tende a acentuar-se. São esses os fatores principais que se encontram nas raízes do Movimento Modernista de 1922, que inaugura finalmente um orgânico conceito de modernidade. Desde então, ao lado da perseverante ação de modernização, o país se vê movido por um outro fator, a modernidade. Modernização e modernidade se completam e se influenciam reciprocamente. Daí em diante, o Brasil sabe encontrar algumas novas formas revolucionárias de progresso, ainda que a crise da I República tenha necessidade, em 1930, de uma verdadeira revolução para que sejam restabelecidos certos valores, principalmente aqueles socioeconômicos estáveis a que o país não sabe chegar completamente, em consequência da sempre presença do estado de subdesenvolvimento de origem colonial. Subdesenvolvimento que leva a genialidade do economista Celso Furtado a elaborar a forma de atuação e de relativo crescimento da economia do Brasil como um fenômeno de crescimento, ainda que dentro do conceito de subdesenvolvimento. A modernidade do período, por isso mesmo, é ainda predominantemente cultural. O Modernismo literário tem o grande mérito de encaminhar o país a uma modernidade praticamente inédita que perdura longamente.

Parte IV. Modernidade, (des)construção, reconstrução Essa modernidade percorre praticamente todo o século XX e tende a renovar-se a cada momento, mesmo quando aparentemente se confronta com períodos de quase conclusão, enquanto ciclo. Nos momentos em que se apresentam mais fortemente tais predisposições, a modernidade sabe confrontrar-se consigo mesma e realizar uma ação retórica de (des)construção. O conceito, quase em sentido próprio dos neologismos, não é jamais radical. Significa mais propriamente construir

novamente segundo as linhas principais da fase anterior. Seguindo coerentemente tal predisposição, a (des)construção retorna a ser construção.

Parte V. O possível modelo brasileiro Já em 2007, e como suplemento ao seu número 3, a Revista italiana de geopolítica, liMes, com grande número de colaborações internacionais, dedicou um dos seus cadernos especiais ao Brasil, sob o título Brasile la Stella del Sud — Nascita di una potenza (Brasil a Estrela do Sul ­­— Nascimento de uma potência). Era a consequência do grande progresso vivido pela comunidade civil brasileira, inicialmente e muito timidamente com Fernando Henrique Cardoso, depois em plenitude com os dois governos Lula, de 2002 a 2010, e aquele da primeira mulher brasileira eleita presidente da República, Dilma Rousseff, de 2010 a 2014. Em 2005 vinha cunhada a sigla BRIC — Brasil, Rússia, Índia e China — corrrespondente às quatro potências emergentes do mundo moderno. Mais adiante, a sigla se alarga, BRICS, com a anexação da África do Sul, de Nelson Mandela. Desde então o Brasil passa a liderar a realidade do hemisfério sul da América e a participar intensamente nas competições internacionais, entrando de direito no Grupo dos 20 que modernizou a presença do quase superado tradicional Grupo dos 8. O Brasil, a partir daí, leva adiante a experiência de governos ­socialistas-trabalhistas, com constante progresso social. Surge assim para o país e com perspectivas amplas que miram em particular as comemorações previstas para o II Centenário da Independência, em 2022, uma definida natureza de potência internacional, a 5ª, na classificação mundial dos países mais industrializados — depois de superada pela primeira vez a Grã-Bretanha — e em continuado progresso socioeconômico. Surge a Estrela do Sul. Desde então, a opinião pública internacional passa a ver no Brasil um possível modelo de vida. A ponto de surgir em muitas partes o slogan interrogativo “Somos todos brasileiros?” Analistas e teóricos de conceitos semelhantes são estudiosos europeus como o italiano Giuliano da Empoli, autor do estudo Tra edonismo e paura: il nostro futuro brasiliano (Entre hedonismo e medo: o nosso futuro brasileiro), logo traduzido para o francês e em outros idiomas. 

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revista CONVIVÊNCIA FOTOS: DIVULGAÇÃO


O ESTADO DELINQUENTE TEXTO Ives Gandra da Silva Martins

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odo criminoso deve ser punido. Cabe ao Poder Judiciário condená-lo, após o devido processo legal e respeitada a ampla defesa. É o que determina a Lei Suprema (artigo 5º, incisos LIV e LV). Nas democracias, o processo penal objetiva defender o acusado e não a sociedade, que, do contrário, faria a justiça com as próprias mãos. O condenado deve cumprir sua pena nos estabelecimentos penais instituídos pelo Estado, em que o respeito à dignidade humana necessita ser assegurado. Quando isso não ocorre, o Estado nivela-se ao criminoso. Age como tal, equiparando-se ao delinquente, da mesma forma que este agiu contra sua vítima. A função dos estabelecimentos penais é a reeducação do condenado para que, tendo pago sua pena perante a comunidade, retorne à sociedade preparado para ser-lhe útil. Os cárceres privados constituem crime. Quem encarcera pessoas, tirando-lhes a liberdade, deve ser punido e sofrer pena que o levará a sofrer o mesmo mal que impôs a outrem. E o cárcere público? Quando um criminoso já cumpriu o prazo de sua pena e tem direito à liberdade, mas o Estado o mantém encarcerado, torna-se o ente estatal um delinquente como qualquer facínora. Todo condenado deve cumprir sua pena, mas nunca além daquela para a qual foi condenado. Se o Estado o mantém no cárcere além do prazo, torna-se responsável e deve ser punido por seu ato. Como não se pode encarcerar o Estado, deve, pelo menos, pagar indenizações à vítima pelos danos morais causados. A tese vale também para aqueles que forem condenados a regimes abertos ou semiabertos e acabarem por cumprir a pena em regimes fechados, por falta de estrutura estatal, pois estarão pagando à sociedade algo que lhes não foi exigido, com violência a seu direito de não permanecerem atrás das

grades. Nestes casos, devem também receber indenização por danos morais. A tese de que todos são iguais e não deve haver privilégio seria correta, se o Estado mantivesse estabelecimentos que permitissem um tratamento pelo menos com um mínimo de respeito à dignidade humana. Como isso não ocorre, a tese de que todos devem ser iguais e, portanto, devem “gozar” das péssimas condições que o Estado oferece, é simplesmente aética, para não dizer algo pior. Em vez de o Estado dar exemplo de reeducação dos detentos, a tese da igualdade passa a ser garantir a todos tratamento com “igual indignidade”. Enquanto a Anistia Internacional esteve no Brasil, ­pertenci à entidade. Lutávamos, então, não só contra tortura, mas contra todo o tratamento indigno aos encarcerados, pois não cabe à sociedade nivelar-se a eles, mas dar-lhes o exemplo e tentar recuperá-los. Por isto, ocorreu-me uma ideia que sugiro aos advogados penalistas e civilistas — não atuo em nenhuma das duas áreas — qual seja, a criação de uma Associação, semelhante àquela que Marilena Lazarini criou em defesa dos consumidores, para apresentar ações de indenização por danos morais em nome das pessoas que: a) cumpram penas superiores àquelas para as quais foram condenadas; b) cumpram penas em regimes fechados, quando deveriam cumpri-las em regime aberto ou semiaberto; c) cumpram penas em condições inadequadas. Talvez assim o Estado aprendesse a não nivelar-se aos delinquentes. Sofrendo o impacto de tais ações, quem sabe poderia esforçar-se por melhorar as condições dos estabelecimentos penais, respeitar prazos e ofertar dignidade no cumprimento das penas. Todo criminoso deve cumprir sua pena, mas nos estritos limites da condenação e em condições que não se assemelhem àquelas dos campos de concentração do nacional-socialismo. 

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ENCONTRO COM O ESCRITOR

APRESENTAÇÃO DO POETA POR ELE MESMO TEXTO José Arthur Rios

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“O texto que se lerá a seguir, foi um depoimento prestado pelo escritor José Arthur Rios, no dia 21 de maio de 2014, quando compareceu ao programa “Encontro com o Escritor”, mantido pelo PEN Clube do Brasil e realizado em nossa sede social".

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Da esquerda para direita: Fernando Whitaker da Cunha, José Arthur Rios, Cláudio Aguiar e Acadêmico Geraldo Holanda Cavalcanti, Presidente da ABL.

esconfortado, curvo-me ao convite-intimação do nosso Presidente para este “Encontro com o Escritor”. Aprendiz me considero do nobre ofício, já não digo trabalhador das letras, para fugir ao modismo populista. Corro o risco de incidir no memorialismo, menos mal, ou em autocomplacência — horrível. O ego do escritor, como diria Bloy — é detestável, haïssable. Peço simplesmente que considerem o que vou dizer apenas como a exposição de um caso entre muitos, de alguém que contraiu o gosto, quase vício, de ler e escrever. Nasci de um casal de classe média, na Tijuca,

numa vila que ainda resiste à picareta e à sanha imobiliária. Levo sangue português por minha avó materna, camponesa, analfabeta, que sobreviveu à viuvez pobre, lavando roupa “para fora” como se dizia, viu morrerem-lhe os filhos, sobrante minha mãe. Contava-me histórias da aldeia portuguesa. Ouvia-me ler, com dobrada atenção e saborosos comentários, as Novelas do Minho, de Camilo Castelo Branco, que lhe traziam à lembrança duros invernos, nevascas e uivos de lobo. Meu pai completava essa iniciação literária, dando-me a copiar escritores portugueses, Oliveira Martins, Eça — como exercício, não como castigo. Guardava boa lembrança da mocidade, do 


Rio da belle époque, dos amigos — Mario Pederneiras, o poeta outonal, carioca por excelência, de Gonzaga Duque, autorizado crítico de arte. Em casa, cultivava-se a conversa, falava-se português, não o dialeto luso-afro-anglo de hoje. Lia-se Eça de Queiroz, Fialho de Almeida, Antero e o elegíaco Antônio Nobre. E também Alencar, Machado. Minha mãe me ensinou a rezar, o que ainda faço mal. Aos cinco anos, agora no Andaraí, em casa de quintal e jardim, pulei muros, corri atrás de balões. Fugi, desapareci. Foram me encontrar, muito compenetrado, nos bancos de uma escola próxima, diante da professora, aflita e perplexa. Primeira fuga, primeira manifestação de uma inclinação perversa que me levaria a muitas salas de aula, muita mão suja de giz, professor irrecuperável. Conto-lhes essas infâncias por que no homem o importante é a criança, o adolescente é irritante, e o adulto — o adulto só merece paciência. O escritor vai se formando primeiro por encontros — não contatos como hoje se diz na linguagem comercial, mas encontros, com pessoas, seja uma babá ou com maître à penser. E também se faz por imagens que se acumulam até desfechar em palavras, traçados, figurações, memórias, construtos, bonecos. Os Românticos falavam muito em inspiração, sopro mágico. Acendia uma lâmpada no bestunto do autor, às vezes, lamparina, atiçada com boa dosagem de álcool e drogas diversas. O problema é que a chama logo se apaga, mais cedo ou mais tarde, quando não alimentada em duras vigílias, muito papel rasgado e muita tinta desperdiçada. Acredito que a poesia, essa, nasça, antes de tudo, de uma visão das coisas, mirada intensa sobre o entorno, trazendo a sensação avassalante de um mundo paralelo ou sobreposto ao cotidiano. Nem melhor, nem pior, diferente. Essa visão clara não se confunde, nada tem a ver, com a visão mística, ao contrário do que tantos pensaram e escreveram — mesmo nos místicos poetas ou nos poetas místicos — em William Blake, São João da Cruz, ou no autor do Cântico dos Cânticos. Seria antes o que nosso Manuel Bandeira chamou de alumbramento. Lembram-se? “Quando criança vi a moça nuinha no banho” e ela riu pra ele. De minha parte, na casa do Andaraí, eu trepava numa janela para ver as empregadas tomando banho de cuia e bacia. E não pude evitar essa imagem quando vi, num museu de Florença, o quadro de Botticelli, a Primavera, ou seria Vênus, nua, no entanto casta, brotando de sua concha, nascendo do mar como flor despertada. A visão de que falo é a súbita descoberta do estranho no mundo, a nota dissonante na toada monótona do dia a dia. Ainda menino, fui levado por uma parenta, compadecida da minha magreza (a tuberculose ainda era a grande

assombração das famílias) a um grupo que recebia espíritos. “Quem sabe, uns passes?” Lembro-me do ar um tanto espectral da dona da casa, vestida de negro, desfiando um colar de pérolas, senhores graves que certamente buscavam no além a certeza do emprego cobiçado ou da eleição ganha; e damas suspirosas que esperavam da mesma fonte uma confirmação da fidelidade dos maridos; ou promissória, de bom aval, do retorno de algum amor perdido. Os passes não me trouxeram maior enxundia, continuei magrelo. Mas recebi a sensação forte de pisar os umbrais de outro mundo, onde o estranho, o ajeno — era o natural. Alumbramento mesmo foi o encontro com o mar na praia de Icaraí, realidade enorme para o menino, interiorano da Tijuca, meio confinado entre quintal e rua, o mar azulão, desatado em ondas na ressaca inesperada. Foi toque de clarim acordando emoções recrutas, sentimentos ainda confusos de liberdade e superação. Nada disso encontrava impressão na contida poesia das antologias daquele tempo. Por então, a fermentação dos anos 30 não achava acolhida nos livros escolares onde só mereciam direito a entrada clássicos de boa ortodoxia, quando não muito frios parnasianos e algum etéreo simbolista; enquanto uma nova sensibilidade explodia com a força do modernismo, fora desses estreitos, sufocantes espaços, em que o máximo da audácia poética era a obscena “Frineia” de Olavo Bilac. Verso livre, nem pensar! Nas revistas de moda, nos salões grassava o soneto de rima rigorosa, o verso alexandrino. Mas o livro de Bandeira não se chamava Libertinagem? Era dinamite. Sua proclamação não dava margem a dúvidas: “Estou farto do lirismo comedido / Do lirismo bem comportado”. Pensava, talvez, nos declamadores de banquete, na confusão da poesia com a retórica, nos mármores do Parnaso que, afinal, eram de gesso. “No caminho tinha uma pedra”, escrevia Drummond. Os bem pensantes não se comoviam. Era a libertação e não sabiam. Heresia! Houvesse fogueira! Queimavam-se livro e autor! Longe de tudo isso, eu completava minha formação, num ginásio em Niterói. O professor de português, lendo meu esforçado exercício que se chamava composição, acusou-me de plágio. Pôs-me à parte, deu-me outro tema. Lembro-me: “Descreva um incêndio”. De raiva, ateei fogo em tudo, nos livros, nos cadernos, no ginásio. Leu, deu-me dez, pediu-me desculpas. Aconselhou-me a continuar escrevendo. Seria escritor, quem sabe? Mal de mim, segui o conselho. Aqui estou. Do colégio guardei a amizade de um jovem mais adiantado. Cantava em francês, imitava Maurice Chevalier. Era Marcos Almir Madeira, bom orador, amigo da vida inteira, a quem 

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devo estar aqui lhes falando. Ismael de Lima Coutinho, mestre da língua, que encarecia o valor dos clássicos, levou-me a folhear preciosos volumes de sua biblioteca, Bernardes, Vieira. Fui assim provinciano da velha província fluminense, antes da Ponte. Outro amigo, jornalista já formado, falou-me de literatura inglesa, abriu-me as páginas misteriosas do Ulisses, de Joyce. Era Antônio Calado. A formação religiosa se limitava à missa anual, com direito à confissão e comunhão. E mais nada. De Cristo mesmo pouco se ouvia. O ensino era leigo, na melhor tradição republicana. Poupo-lhes incidentes, esboços de opções, destinos que não vieram a termo. Assisti ao triunfalismo das ditaduras de esquerda e direita, vi sua queda, após muito sangue, suor e lágrimas. Convocado, livrei-me da ordem unida, traduzindo manuais antitanques. Vinham em francês. Modesta contribuição ao esforço de guerra, rastejei abjetamente em lamaçais, sob o fogo nutrido de inocentes balas de festim na companhia solidária de dois futuros diplomatas, mais tarde embaixadores e amigos, Roberto Assunção e Vasco Mariz, este aqui presente. Não fui à Itália. Mas vi o caos do após-guerra, as ruínas de Londres, Hamburgo e Berlim, vivi o choque de ideologias anti-humanas, o fim do colonialismo e o Holocausto, em filme, imagem televisionada, o universo concentracionário, os campos de morte, não em remotos rincões da África, mas no coração do mundo civilizado. Lembro-me do espanto, da incredulidade do público ante as primeiras fotografias de Auschwitz ou Treblinka, não me recordo bem, quando tomados pelas forças americanas. Seria verdade? Parece coisa de americano. Cadáveres amontoados, lançados à vala comum, sem nome ou origem, poetas, escritores, pensadores — até santos, como Edith Stein e tantos exilados, Stefan Zweig suicidando-se em Petrópolis. Walter Benjamin se matando quando fugia da França ocupada. Enquanto isso, entre nós, uma ditadura medíocre, mas tenaz, apoiada nas colunas mestras da Propaganda e da Polícia corrupta, opressiva, perseguindo opositores, intelectuais, estudantes, censurando livros e jornais, esterilizando a inteligência, castrando uma geração a benefício de uma oligarquia serviçal, presa às benesses e ao beija-mão do Ditador. Hoje, estatuado benfeitor do país — pai da Pátria. E a poesia, onde estava? Em meio à crise existencial e ao desencanto do mundo, fui encontrá-la no bondinho de Santa Tereza, a musa, logo identificada. Levou-me pela mão aos concertos dominicais do maestro Szenkar, e aos celestiais, do órgão no mosteiro de São Bento. E a um casarão da Praça XV onde funcionava uma espécie de clube, o Centro Dom Vital, fundado por seu pai, Jackson de Figueiredo, em 1922, ano das revoluções, no ano da fundação do Partido

Comunista. Aí, no cair da tarde, ouvia Alceu Amoroso Lima falando de literatura, Georges Bernanos, leonino, clamando contra a covardia das elites francesas, Murilo Mendes e Augusto Frederico Schmidt lendo poemas, Fernando Carneiro insistindo na necessidade de trazer imigrantes para o Brasil. Nessa pequena universidade, Antônio Carlos Vilaça discutia, em boa prosa, angústias e dúvidas. Não tive outro jeito. Casei-me com a musa, virou mãe dos meus filhos, fiel guardiã do meu juízo. E assim, por ela e pela mão de um poeta, monge beneditino, D. Marcos Barbosa, entrei para essa grande Companhia fundada por um santo judeu, sacrificado entre ladrões pelo Poder e pela força. Mas não me considero um poeta católico, mas um católico que faz poesia. Num apartamento da Lagoa, janelão aberto para a tarde e a regata, pontificava um gaúcho de boa cepa, lenço vermelho no pescoço, recordação de tempos revolucionários nas coxilhas. Discutia filosofia, explicava Kant, Hegel, destrinchava alemão, grego e latim. Para um pequeno grupo de conversantes, Eurialo Canabrava, Paulo Franco, Mozart Janot, às vezes René Poirier, da Sorbonne, exilado pela guerra e até Raul Bopp, o autor de Cobra Norato. Era assim o Rio dos anos 1950, efervescente, dispersivo e dissipado, triunfalista — depois dos feitos da FEB — ingênuo e confiante, começando a falar inglês com sotaque nordestino, mascando chiclete e bebendo uísque contrabandeado, dizendo okay, ainda falando e ouvindo muito francês na Faculdade de Filosofia, na livraria Leonardo da Vinci, de Dona Vana, nos cursos dos mestres franceses trazidos pelo Ministro Gustavo Capanema para ensinar a arte de pensar aos nativos, na Faculdade de Filosofia, no prédio meio desmantelado do Largo do Machado. Nas mesas do Vermelhinho e do Amarelinho, chegavam as primeiras brisas do existencialismo — em francês, sopradas por Camus, por Malraux, apresentados pelo trotskista Mário Pedrosa. Também na boate Vogue em Copacabana, onde a musa do Existencialismo, Juliette Gréco, cantava com voz apropriadamente rouca, canções desesperadas. Importada a musa, após fundas negociações em que participavam diplomatas e o poeta exportador Augusto Frederico Schmidt. Os filmes italianos ou franceses eram elemento importante em nossas vidas. Lembro-me do frêmito que passava na plateia, quando a Alida Valli, numa baforada de cigarro, suspirava: “podarsi”. Tudo isso passava na crônica viva de Rubem Braga, na poesia de Bandeira, Drummond, Schmidt, Murilo Mendes, Jorge de Lima —, nos suplementos literários do Diário de Notícias e do Correio da Manhã, como líamos avidamente. Certo dia, levado por um amigo, fui a um consultório 


na Cinelândia. Um médico moreno, no seu hábito branco, circulava entre objetos estranhos, troncos de árvore, máscaras africanas, murmurava coisas vagas, parecia oficiante de um rito misterioso. Era Jorge de Lima. Depois de tudo isso, a poesia me perseguia, renitente. Fui reencontrá-la de forma inesperada, numa feijoada em Los Angeles, onde se reuniam promiscuamente atrizes de Hollywood, vedetes nacionais, como as Irmãs Pagãs, de boa fama, pugilistas e estudantes brasileiros. Sentou-se a meu lado um sujeito que, entre dois goles de uísque, entoava modinhas no violão bem afinado. Disseram-me: é o Cônsul do Brasil em Los Angeles, Vinícius de Morais. O uísque dispensava apresentações. A conversa correu solta. Dia seguinte Vinícius me confiava, a mim que mal conhecia, o precioso manuscrito de um livro de poemas. No Rio só pude acompanhar de longe seus sucessos de cançonetista e ave noturna. Nossos roteiros eram incompatíveis. Devolvi o manuscrito, mas guardei a linguagem do poema, língua clássica de tão pura modernidade. Deu-me, sem que jamais soubesse, balizado, um caminho poético. Tratei de percorrê-lo, manquitolando. Em 1955, o editor Pongetti publicava meu primeiro livro de poemas, Guarda noturno. O título causou estranheza. Seria um manual de instruções destinado a esses policiais da noite, já em via de extinção? Na cabeça do autor, era apenas o primo-irmão de certo “Acendedor de lampiões” de Jorge de Lima, do Pierrô de Manuel Bandeira “vestido de uma túnica inconsútil / feita de sonho e de desgraça”, figurações do poeta vigilante, insone. Sergio Milliet teve palavras amáveis para o nascituro. Na realidade, esse “guarda noturno”, para empregar certo termo da física, seria mais um condutor — por onde fluía força poética, um símbolo. Da mesma espécie, “O Elevador” seria a busca na máquina da figura humana, a marca de sua mão, seus destinos “Em subterrâneos verticais / Na angustiosa espera / Caronte nos conduz / Manipulando botões” e “pontos luminosos / Verdes vermelhos / Ao destino próprio / e sem remédio”. Uma editora, Márcia Pereira viu nesse poema a marca da poesia moderna. Para o autor ecoa apenas a revolta de uma geração contra a mecanização mortal da vida, o tédio, a repetição. Fernando Whitaker classificou o poeta generosamente na Geração de 45. Notou nessa poesia a recuperação do cotidiano. Talvez, acrescento a presença, a busca de uma transcendência no cotidiano. A realidade é inesgotável, o poeta de joelhos é o pobre minerador desses tesouros escondidos. Tente descobrir esses condutores de magia poética,

aparentemente, ao alcance de todo mundo, escondidos, numa rua de Nova Orleans, ou numa igreja velha de Roma. Pode ser o carteiro ou o lambe-lambe, nos nossos jardins públicos. Quem sabe, esvoaçantes aeromoças, ou no velho relógio do cuco, ou no cuco do relógio, ave um pouco sinistra que me lembrou, com o devido respeito, “a ave estranha, escura do poema de Poe”. E também o mundo misterioso dos objetos, os sapatos, retratos e o livro, a Câmara Escura onde a poesia se revela, o mesmo mundo de Chirico, dos surrealistas, o Teto Zero dos aviadores visto pelo poeta inglês Auden de A época da angústia, “quando o céu se torna obscuro” — tudo títulos de livros meus. Para todos nós, humanos, o céu pode se tornar obscuro, medos inexplicáveis nos dominam, e só nos resta seguir o conselho do poeta: “Afasto meus temores até que os ensine a cantar”. Esse canto que é liberatório pode ser também obscuro. Quem saberá dizer o que está contido no verso de Gérard de Nerval: “Le Prince d’Aquitaine à la tour abolie”, quem seria esse príncipe negro, assombração e enigma dos Românticos, que torre é essa e quem a teria derrubado? De repente nos acode que o Príncipe pode ser o poeta, um de nós, caído herói em luta com as palavras, prisioneiros da torre do silêncio, da incomunicabilidade, esperando a vinda do anjo, o toque de sua asa para recuperar o paraíso perdido. Foi o título de um livro de ensaios que me levou a essas preocupações: Objetos não são coisas. Os objetos da afeição, da mania, até do chamego que nos cercam, nos escravizam. “Cadê meu copo de prata? Aquele que foi da minha bisavó?” “Minha bengala sumiu, você viu quem levou?” A vida encarna nos objetos. A sombra dos antepassados se projeta, ressuscita no anel de noivado, no medalhão, na cadeira de espaldar. Povoam em testamentos, provocam melancolias, acedem disputas, brigas de famílias. Esse tempo dos relógios, como no quadro de Dalí corre mole, vai nos levando. Que pretendo fazer agora? Preparo Coisas do corpo, mistura de antropologia, história social e folclore. O corpo desprezado pelos historiadores, pelos filósofos, como se fôssemos feitos de seres desencarnados. E quem sabe uns poemas cariocas, evocações da infância e do Rio, tempo de estudante, do malandro, da gafieira, da Lapa e do Catete. Por ai, um levado pela mão de Deus, a mão direita do verso de Antero de Quental que Jackson gostava de recitar. “Na mão de Deus, na sua mão direita”... Muito obrigado. 

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FOTO: DIVULGAÇÃO

MEMÓRIA

DESPEDIDA DE JOÃO UBALDO RIBEIRO

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TEXTO Cyro de Mattos

ascido em 23 de janeiro de 1943, na Ilha de Itaparica, o escritor João Ubaldo Ribeiro faleceu na última sexta-feira (18), no seu apartamento, do bairro Leblon, Rio de Janeiro, vítima de embolia pulmonar. Jornalista, contista, romancista, cronista, tradutor e roteirista de cinema. Laureado com o Prêmio Jabuti duas vezes, Golfinho de Ouro (Rio), Prêmio Camões, para autores brasileiros e portugueses. Esse baiano de Itaparica deixa uma obra de altíssimo nível no corpo das letras brasileiras. Destacam-se, na sua vasta produção, os livros Sargento Getúlio (1971), Viva o povo brasileiro, (1984), O sorriso do lagarto (1989), romances, e Livro de histórias (1981). Formado pela Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia, na turma de 1962, nunca exerceu a advocacia. Começou a escrever muito cedo, publicando os primeiros contos nas coletâneas Panorama do conto baiano (1959), Reunião (1961) e Histórias da Bahia (1963). O romance Sargento Getúlio, que virou filme e, há pouco tempo, foi adaptado ao teatro, colocou João Ubaldo Ribeiro como um valor excepcional na moderna literatura brasileira. O livro

foi traduzido por ele mesmo para o inglês e publicado nos Estados Unidos. Foi editado também na França. Com Livro de histórias (1981), o modo debochado de narrar do autor baiano mais uma vez retorna, com incursões nas venturas e desventuras do povo de Itaparica e do sertão da Bahia. Com Viva o povo brasileiro (1984), magnífico romance, com seu prodígio técnico, conhecimento incomum de linguagem e fala brasileira, vasto cabedal de informações sobre a vida e cultura do povo, João Ubaldo Ribeiro passa a ser reconhecido como um dos escritores mais significativos da América latina, ao lado de Jorge Amado, Gabriel Garcia Márquez, Mario Vargas Llosa, Carlos Fuentes e outros. É triste, muito triste, essa despedida física de João Ubaldo Ribeiro. Ele foi meu amigo, companheiro de geração em Salvador e colega na Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia, no período compreendido entre 1958 e 1962. Quando estudante universitário, uma das coisas que eu gostava era de ir à Rua Chile. Quase todos os dias, visitava a Livraria Civilização como uma necessidade que o tempo me impunha, semelhante àquela quando se tem sede 


ILUSTRAÇÃO: WAL ALVES

ou fome. Era lá que eu me encontrava com os companheiros de geração, à qual alguns deles pertenciam por afinidades eletivas, enquanto outros em razão da idade. Ildásio Tavares, Alberto Silva, Ricardo Cruz, Marcos Santarrita, Orlando Sena, Olnei São Paulo, Adelmo Oliveira, Carlos Nelson Coutinho e, presença indispensável, João Ubaldo Ribeiro. Lá estava o jovem de voz gutural, contador de casos como o primeiro sem segundo, sorriso largo e franco, olhos por trás de óculos com lente forte e armação grossa. De bom humor com tudo que viesse de graça e da graça da boa terra baiana. E não é que, neste instante, pregando mais uma de suas travessuras e saindo da memória de repente, eis que risonho vejo diante de mim o colega que deu as mãos à criação literária como meio de leitura crítica da vida? João Ubaldo Ribeiro, com o seu jeito brincalhão de circular naquela querida Faculdade de Direito. Ele era encontrado na cantina, às vezes namorando com Belô, a moça mais bonita da faculdade. Comentava-se que feio como ele só mesmo sua inteligência rara poderia levá-lo à conquista do coração daquela moça,

que, quando passava, arrancava suspiros dos estudantes universitários, de tão bela. Lá mesmo na cantina contava alguma história de sua gente de Itaparica aos colegas Davi Sales e Ildásio Tavares, o primeiro mostrando que sua vocação era para crítico literário e o segundo para a poesia, e não para a profissão de advogado. Uma vez fez uma prova de Direito do Trabalho em versos e ganhou do professor Elson Gottschalk a nota máxima. Outra vez, quando soube que havia passado de ano, subiu numa cadeira da cantina e, em transe, como se algum espírito de luz tivesse se apossado dele, começou a recitar Shakespeare em inglês clássico. Com aquela cabeça grande de baiano em que formigavam histórias, gozações repentinas, que pegavam os colegas sem defesa, só podia João Ubaldo Ribeiro dar no que deu. Em vez de advogado militante, dotado de vasto saber jurídico, fôlego de sete gatos para enfrentar os litígios forenses, tornou-se em pouco tempo o romancista consagrado de Sargento Getúlio e Viva o povo brasileiro, entre outros livros soberbos. Era membro da Academia Brasileira de Letras. Seus livros foram traduzidos para oito idiomas.

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HÁ CONTROVÉRSIAS TEXTO Ronaldo Werneck

PROSA—ELEGIA PRO CHICO CABRAL Escrevemos porque sabemos que vamos morrer. Escrevemos porque não sabemos por quê.

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erdemos nosso amigo. Cabruxa partiu há meia hora”. Vindo do Rio, o telefonema da última quarta-feira, 20 de agosto, era da poeta Lina Tâmega Peixoto, e a notícia — embora esperada, mas não tão cedo — me deixou a nocaute. Cabruxa era como Lina denominava o seu, o nosso grande amigo, o poeta Francisco Marcelo Cabral, que eu aprendi desde a juventude a chamar de Chico-Chiquinho Cabral. Eu estivera no Rio até a véspera, gravando uma entrevista para TV e, naquele momento, já me encontrava em Cataguases, envolvido com um projeto que precisava enviar para Belo Horizonte até sexta-feira. Parei tudo. Minha mulher, a Patrícia, encontrava-se em uma audiência no Fórum. Esperei que ela voltasse, ainda meio sem saber o que fazer. Já era final de tarde, eu ainda meio a nocaute. Patrícia sugeriu que seguíssemos logo para o Rio.

Noite alta — e, por ironia, “céu risonho”—, fomos estrada afora, eu me lembrando de meu amigo maior. E veio o fragmento de um de seus primeiros poemas: É hora de sol / lá fora / e noite, no coração. / Milhares de estrelas, / borrões/ que as nuvens carregarão. E outro, de seu mais que admirável livro Inexílio: Amar menos / é morrer / como o rio sendo freado pela areia / como tirar os óculos, desligar o telefone, / guardar a máquina de escrever e sair de casa / para nada. E logo outro, vindo lá de 1949, de seu primeiro livro, O Centauro, editado em Cataguases: Me matei de sombra / Me pintei de roxo / Fiz um metro, um canto // Para o meu amor. / Que lucrei? / Um verso. / Que fazer? cantar. / Mas se há dor? que importa! / A dor é só instrumento.

Livros de Francisco Marcelo Cabral

Cidade Interior O carro corria na noite e me lembrei de um bilhete que mandei pro Chiquinho, quando ele lançou Cidade Interior (Rio, 2007): “O seu despojamento, essa sua


RW, Lina Tâmega Peixoto e Francisco Marcelo Cabral. Livraria ­­ da Travessa-Ipa­nema. Rio, 2011.

dicção absolutamente particular — que não consigo identificar em nenhum dos poetas que conheço — esses seus “poemeus” de antitergi/ versar que me comovem, que me locomovem a cada vez que os releio, meu caro Chico Marcelo, e que pro seu universo (re)torno — mesmo “que” com todos esses “quês” —, para essa sua Cidade Interior. E confesso ser cada vez mais tomado pela alta tensão de sua “escritura” (merci bien et voilà, M´sieu Derrida), esses poemas que tanto me tocavam a cada releitura, e que hoje guardo e guardarei sempre: é onde às noites os medos / .../ cortam as luzes das ruas / .../ as pisadas no tambor dos pesadelos / .../ (e onde os mortos rumorejam pelas grotas) / .../ uma cidade para sempre estacionada/ no poema/ — falsa e inesquecivel”. Esses poemas — escrevia eu naquela ocasião — sobre os quais não sei ainda o que dizer agora, numa primeira e rápida e mais que prazerosa leitura. A não ser o óbvio, aquilo que sempre digo: além de tudo, do grande poeta, você é também “il miglior fabbro da Dr. Sobral” (a rua de Cataguases onde nascemos). E aquele poema, então, aquele insight, coisa de poeta maior:

Todo poema é celebração mesmo não lido. Todo poema é de amor mesmo perdido. Todo poema fica por aí mesmo esquecido. Não, não ficam. Não os desta Cidade Interior, não se poemas como aqui, nesta em si clari/cidade: antes que o sol mergulhe e se apague no mar”. Daqui, poema nenhum, nenhum sol será apagado.

Campo Marcado Em abril de 2008, abri a apresentação que escrevi para seu livro Campo marcado (Rio, 2010) com um pequeno poema que Manuel Bandeira lhe dedicou. Ao poeta de Cataguases, Autor do belo Centauro, O Poeta Manuel Bandeira Envia um ramo de lauro, Saudando-o desta maneira Ás futuro entre outros ases!

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“O poemeto erótico”, de Bandeira, é de 1949, ano da publicação de O Centauro, o livro de estreia do jovem poeta Francisco Marcelo Cabral, então com 19 anos. São na verdade “antenados” os poetas, mesmo aqueles que se dizem “menores”, enquanto grafam na maior, e com maiúscula, o seu epíteto. Ás futuro entre outros ases! — saúda um muito do exclamante Bandeira, antecipando a rica trajetória de FMC nas próximas seis décadas. Poucos livros publicou o poeta desde então, mas todos definitivos. E eles o colocaram ombro a ombro com os melhores poetas desta e de outras praças e, claro, no pódio dos ases de Cataguases, aqueles rapazes que fizeram a revista Verde e marcaram a história da cidade. O “ramo de lauro” de Bandeira foi devidamente assentado na cabeça de Francisco Marcelo Cabral, que o ostenta com toda a dignidade do poeta singular, poeta maior que é. Poucas vezes — nenhuma! — vi gente tão culta, de tão grande sensibilidade e inteligência como Francisco Marcelo Cabral. Brinco de chamar o poeta de brilhante, mas brilhante é pouco quando se trata dele. Brinco também de chamá-lo de “meu guru” (e não é?) desde que — lá se vão quantos anos? — ele me levou, no Rio, à casa de Alexandre Eulálio, então leitor oficial da Biblioteca de Veneza, para que eu conhecesse “uma das pessoas mais cultas do Brasil”. Pois é, Alexandre e eu ficamos arrebatados por aquela noite inteira a ouvir o poeta que sabia de tudo um muito mais que tudo. Francisco Marcelo Cabral é um poeta-perguntador e por isso mesmo capaz de articular respostas essenciais, de nos propor descobertas: as palavras são portas de saída mas não de entrada. A emoção ou conceito, presentes num texto, são de quem o lê e não mais apenas de quem o escreveu. Que o diga agora este Campo marcado. Melhor, que nele possamos (re)ler e (re)assumir a emoção que ressurge a cada poema: A luz e o silêncio em mim sabem a vida e quando respiro tudo o que não entendo faz sentido. Com seus metapoemas mais que luminosos, com sua grande intensidade, Chico Cabral faz de

Campo marcado pedra de grande quilate, que há de rolar sempre entre seus (muitos) fiéis leitores. Escrevo a língua do meu avô / sem permissão. Ora, por quem sois, meu poeta! Vosmicê tem mais que toda permissão!”. No Rio de meados da década de 1960, Chiquinho Cabral e eu éramos redatores de um escritório de planejamento econômico, Leone e Associados (um dos associados era o próprio poeta, sem controvérsias o “cérebro” do escritório). Um dia, chegou um projeto de cemitério vertical e ele, como numa premonição, foi seu maior defensor. No Rio, na manhã da última quarta-feira, o corpo do poeta foi colocado — ao lado de seus irmãos, Edvar e Pedrinho — numa das gavetas do Memorial do Carmo, aquele mesmo cemitério cuja verticalidade tanto defendia o redator Francisco Marcelo Cabral. Estava lá Chiquinho Cabral, com a fisionomia tranquila, como se voasse após meses de sofrimento. Alguém leu um poema de seu Livro dos poemas (Rio, 2003), um de seu cantos para o Maharaji: Meu mestre dança como os pássaros. / E canta com os claros tímpanos da aurora. / Ele caminha como a brisa sobre as rosas. / E eu sou a almofada sob seus pés quando repousa. A seguir, o ritual fúnebre, mesmo não sendo católico o poeta. Foi quando mais uma vez, como em todos os muitos velórios a que já fui, voltei 


O leitor se assenta. O poeta puxa a cadeira a poesia é o tombo. O leitor se enleva o poeta o empurra no abismo a poesia é o voo.

Voando, me vou Logo depois da cerimônia, eu e Patrícia voltamos para Cataguases. Um dia belíssimo, de sol e céu azul, que me fez lembrar um mês de maio de não sei quando em que eu e Chiquinho Cabral viajávamos por essa mesma estrada. Estava contente e alegre como sempre o meu poeta, que dizia preferir, entre todas, as manhãs de maio e céu azul. Tinha razão: mesmo de sol e céu azul, costumam ser traiçoeiras as manhãs de agosto. Quando essa respiração vem com renovada força de vida não perguntes nada simplesmente a recebe e aceita e gratidão seja a música de tua alegria. Já em Cataguases, debrucei-me sobre o famigerado projeto, que consegui enviar a tempo para Belo Horizonte. Mas, por todo o tempo em que escrevia, a presença de Chiquinho Cabral permanecia em mim — e os poemas de Francisco Marcelo Cabral assomavam, saltavam de meu ser, como se voassem: Temo jamais ter merecido as asas dos meus versos. Às vezes eu as desprendo — é noite, é Minas — E como quem espreguiça num largo espasmo alço-as e me vou, ou sou levado voando, me vou.

FOTO: VICTOR GIUDICE

FOTO: ADRIANA MONTHEIRO

a ­assustar-me — talvez por “ler” errado — com aquele trecho da ave-maria: “E agora e na hora de nossa morte, amém”. A poesia vem do susto, do espanto:

Ronaldo Werneck Domingo, 24 de agosto de 2014. 

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OPINIÃO

PEN CLUBE COMPLETA 78 ANOS

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TEXTO Rogério Faria Tavares (*)

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oucas são as instituições em nosso país que superam o desafio do tempo e permanecem, animadas por sua missão, sua visão e seus valores. A seção brasileira do PEN Clube é uma delas. Inspirado no PEN Clube Internacional, surgido em Londres, por iniciativa da escritora Catherine Amy Dawson, em 1921, o PEN Clube do Brasil, foi fundado no dia 2 de abril de 1936 pelo escritor Cláudio de Souza, membro da Academia Brasileira de Letras. Em quase 80 anos de atividade, já foi presidido por Barbosa Lima Sobrinho, Celso Kelly, Elmamo Cardim, Marcos Almir Madeira, Geraldo Holanda Cavalcanti, hoje presidente da ABL, e por Cláudio Murilo Leal.

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Atualmente é presidido pelo escritor Cláudio Aguiar, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) e da Academia Pernambucana de Letras. Cearense que passou grande parte da vida entre Recife e Salamanca, Espanha, onde se doutorou em Direito Internacional, é autor de vasta e qualificada obra literária que inclui ensaios, romances e obras de teatro. As informações contidas neste artigo foram colhidas em uma entrevista

com Cláudio na bela sede do PEN Clube do Brasil, na Praia do Flamengo, no Rio de Janeiro. Sobre o que anima a entidade, Cláudio Aguiar responde que é a convivência entre pares, a promoção da literatura, da liberdade de pensamento e de expressão. Na história do PEN Internacional, ele sublinha os anos iniciais de sua fundação, no período subsequente à Primeira Guerra Mundial, quando o horror à violência agregou os intelectuais daquele período em torno de bandeiras como a paz e os direitos humanos. Essa mobilização tornou a ocorrer na década de quarenta, após o fim do segundo grande conflito do século XX. Durante a Guerra Fria, que dominou as relações geopolíticas, entre 1945 a 1989, o PEN Clube se destacou por defender e abrigar escritores perseguidos por sua ideologia, ameaçados de prisão e de morte, criando, inclusive, um fundo internacional obrigado a garantir a integridade física e a sobrevivência material desses intelectuais. Outra causa que motiva as ações do PEN Clube é a dos direitos linguísticos. Consciente da


Fundado em 2 de abril de 1936, no Rio de Janeiro, por iniciativa do escritor Cláudio de Sousa.

fragilidade de diversos povos e etnias, incapazes de responder a ataques de ordem militar e política a entidade começou a organizar uma série de atividades para preservar as línguas em extinção, sobretudo as indígenas na intenção de garantir a perenidade de suas tradições e de seu acervo cultural. Tal trabalho foi realizado de modo intenso principalmente no Canadá e nos EUA. Mais um pilar da atuação da entidade é a defesa da condição da mulher escritora que, por muitos anos, não teve o reconhecimento e o respeito merecidos, sendo vítima de discriminação e preconceito. A constatação de tal realidade levou o PEN Clube a criar o Comitê da Mulher Escritora. No Brasil, a situação do PEN Clube está alinhada ao que ocorre nos Centros ao redor do mundo. Cláudio Aguiar ressalta, por exemplo, as denúncias da entidade relativas aos casos de violência contra jornalistas brasileiros, que não são poucos. Quanto aos temas ligados à literatura, Cláudio Aguiar seleciona aqueles que têm merecido as atenções prioritárias: as normas sobre direito autorais, as qualidades dos contratos entre escritores e

editoras (muitas vezes considerados “contratos de adesão”) e os programas de difusão da leitura e do livro. Sobre esse assunto o presidente se declara otimista citando projeto em curso no âmbito dos ministérios da Educação e da Cultura, desenhados com o propósito de ­formar leitores. Ele salienta que entre suas principais tarefas estão a de firmar o PEN Clube como uma entidade realmente nacional e no plano externo a de promover a sua aproximação dos Centros do PEN Internacional, espalhados por mais de uma centena de países. Perguntado sobre o que o impulsiona atuar à frente do PEN Clube, Cláudio Aguiar alude ao imenso respeito que nutre pelas associações culturais, “porque é em seu âmbito que o escritor pode realmente demonstrar mais que o seu fazer literário”. Instado a definir o papel do escritor na sociedade, conclui: “O escritor é fundamental. Ele leva ás pessoas a refletir, a pensar e a encontrar o seu lugar no mundo”.  (*) ROGÉRIO FARIA TAVARES é escritor e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais.

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FOTOS: DIVULGAÇÃO

POESIA


SONETOS DO RIO

SONETO DO RIO VIRADO BICHO Cyro de Mattos

Sei que era um bicho grande, muito grande, Dava medo a menino e gente grande, Espumava de raiva, derrubava, Levava bicho morto, o que encontrava Pela frente, a cada lado que fosse, Era o mar para outro lugar mudado, Era um bicho que chegou do outro mundo. Era rápido, sem que veloz cessasse. Era o mesmo detrás como adiante. Não havia promessa, procissão Que o fizesse voltar para o que era antes, Que o fizesse descer na mansidão. Só parava de crescer mais da conta Quando afogava uns três. A lenda conta.

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SONETO DA MÚSICA LÍQUIDA DOS SENTIDOS Cyro de Mattos

Dentro de tuas águas houve um mundo, Fontes puríssimas satisfazendo Minha fome e sede por descobertas, Aventuras ao largo onde fui sonho. Ventos e canções pelas ondas certas Encontrei na alegria do verão, Os dias sem cansaço, assim suponho Era a razão do sol no coração. Enquanto isso, sujeiras na mudança Entulharam as águas venturosas, Tuas maneiras fartas de beleza. Desfizeram o amor. E na trapaça De piratas com faces pavorosas Teus sons calam agora de tristeza.


SONETO DA AMIZADE PARTIDA Cyro de Mattos

Amigo é quem nunca esquece a sede e a fome De muitos no rio efêmero da vida. Põe no prato o peixe, na talha a água pura E nunca espera nada de volta. Tudo Dá de graça: a areia para a argamassa Das casas, a corredeira para a roupa Ser lavada, o peixe para o homem vender, O sol admirando-se nos mil espelhos Que espalhou perto de clarear o dia, A lua no areal derramando prata, O balé de borboletas nos barrancos. Não é quem passa ligeiro, não querendo Saber desse esgoto onde me jogaram Sem remorso para eu morrer aos poucos.


SONETO DO INVERNO Cyro de Mattos

No inverno a neblina ocupava o leito, Passava em vagaroso movimento. Desfilavam seres esvoaçantes, Rostos como se fossem transparentes. Não ficava insatisfeito nem triste, Inverno duro ocultava a luz do dia. Rolava a bola. Esbanjava alegria No campinho da beira-rio. Neste O melhor para afastar a frieza Eram lances em que entrava a destreza De uns poucos e de muitos a fereza. Um sol chega pra me aquecer agora. Não é capaz. Sinto outro frio nessa hora.. Traz sombras. Não se assemelha ao de outrora.


SONETO DO RIO E A ROSA Cyro de Mattos

Nado e mergulho, do barranco salto. Volto só para casa, satisfeito. O mundo é todo de água. Como estranho Embarco fora dele. Nada ganho Se no seco encontro-me entre os que estão Sem saber que navego numa rosa Translúcida, fusiforme, formosa. Gosta de surpreender meu coração. Adormeço. Desço do barco na ilha. De estilingue, sob a lua que brilha, Vou derrotar o terrível pirata Guardador de um baú contendo ouro e prata. Quando acordo, descubro no outro dia, Fui da rosa (a)ventura e fantasia.


FOTO S: JAIRO FERREIRA

CINEMA

A GUERRA DOS PELADOS (1971) revista CONVIVÊNCIA

TEXTO SYLVIO BACK

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MEMÓRIA A Estória dos que não estão na História


H

I

á quase oitenta anos, com a prisão de seu líder, Adeodato terminava a ainda tão desconhecida “Campanha do Contes­tado” (1912-16), após in­cendiar o meio oeste de Santa Cata­rina (então território reivindicado pelo Paraná, daí a expres­são “contestado”: os latifundiários e governos de am­bos os Estados, na época, “províncias”, investiam no aumento de seus respectivos horizontes e riquezas). O Contestado foi o primeiro movimento armado pela posse da terra neste século. Mais de um terço do exército nacional e as polícias militares locais adubaram com sangue e selvageria inaudita o chão onde antes viviam pa­cificamente milhares de famílias. No lu­gar cruzeiros fantasmas de cabo­clos insepultos continuam clamando por justiça. O pivô de tudo foi a concessão de terras úberes e forradas de pi­nheiros à multinacional “Brazil Railway Company” que, para construir uma estrada de ferro, a “São Paulo-Rio Grande”, ganhou da República quinze quilômetros de cada lado do tra­çado. Uma autêntica dádiva: para tanto, decidida a otimizar seus lucros, criou a “Southern Brazil Lumber and Colonization Company” — uma gigantesca serraria que rapidamente trans­ formou-se na maior da América do Sul. A expulsão dos posseiros fazia parte do negócio, como depois re­assentá-los em troca de suas terras, plantações e pinhei­rais... Para tanto a Lumber tinha até uma milícia particular, com homens paramentados, tal qual se veria nos filmes do “justiceiro” Tom Mix, populares a partir dos anos 1920, quando a serraria — esgotados homens e mananciais — encerrou as ativi­dades.

II O cinema brasileiro não ficou alheio ao Contestado. Da descri­ção das imagens hoje inexistentes, sabe-se, no entanto, que ele se manteve rigoro­samente dentro do mesmo diapasão ideológico da imprensa diária e das revistas. Preferiu ficar do lado do campeão, excetuando uma ou outra charge ridiculari­zando o poder (nas revistas Careta e O Malho).

Os jornais, como álibi ou não, reproduziam os acontecimentos além-Atlântico, a preparação política e bélica, e a própria I Guerra Mun­dial (da qual o Brasil só participaria simbolica­mente). Os similares regio­nais do Sul (como de resto de todo o país), pertencentes a oligarcas li­gados ou envolvidos no Contestado, reservavam espaço para heróicas narrativas ou então anódinas pílulas e acrósticos laudatórios ao conflito e a seus personagens oficiais. Na Capital Federal o eco só cresceu nos es­tertores da campanha quando a vitória militar era lí­quida e certa. Conhecem-se três títulos que remetem ao Contestado, dois patroci­nados pelas forças repressoras e/ou pela cooptação de seus cinegrafistas, contemporâneos aos fatos e dos quais subsiste apenas rala iconografia: Os Funerais do Coronel João Gualberto (1912), de Aníbal Requião, o “pai” do ci­nema paranaense — um hino ao comandante das tropas do Pa­raná, morto juntamente com o “monge” João Maria, o pri­meiro líder da rebelião camponesa do Contestado; e Os Fa­náticos de Taquarussu (ant.) (1914), de Emílio Guimarães, documentário de “cinco longas partes”, es­treado em Porto Alegre (RS), segundo o pesquisador Antônio Jesus Pfeil, e sob os títulos Na região dos fanáticos ou As forças expedi­cioná­rias do Sul, também exibido no mesmo ano em São Paulo, que o jornal O Estado de São Paulo anunciava como “filme patriótico” (cf. le­vantamento do crítico JeanClaude Bernadet). Do primeiro, encontrada solitária cópia em meados de 1950, junto a familiares de Requião, em Curitiba, sumiu no grande incêndio que des­ truiu boa parte da Cinemateca Brasileira (1957), de São Paulo. Do se­gundo, é mais uma peça-símbolo da “cinemateca imaginária” na antoló­gica definição de Paulo Emilio Salles Gomes, pioneiro na salvaguarda da nossa memória em movimento — de que se constitui o passado do cinema brasileiro. A surpresa fica reservada para um terceiro rebento. Duplamente por ser o único feixe de fotogramas a salvo e por “denunciar” (numa lei­tura atualizada) a predação da floresta do Contestado, Companhia Lum­ber, de A. Botelho — documentário institucional filmado por volta de 1920 — é exemplar ao

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dimensionar a voracidade do complexo madeireiro norte-americano-canadense. Centenas de operários, poderosas serras elétricas, esteiras mecâni­cas, uma miniestrada de ferro cujos trilhos iam avançando, à medida que as árvores escasseavam, para o fundo do matagal de centenários pinheiros e imbuias. Diante das decrépitas mas ainda imponentes construções (antigas sede da empresa e hospital, casas da vila-dormitório, etc.), da malha fer­roviária e do porto fluvial em decadência, que conheci em 1969 (nas pes­ quisas de campo e à procura de locações para um futuro filme) no muni­cípio Norte catarinense de Três Barras, dá para entender a origem da ex­trema violência dos embates, como a corrupção política que sancionou e avalizou as atividades açambarcadoras da Lumber. Modernamente apenas meu longa-metragem, A guerra dos pela­dos (“pelado”, no sentido de não possuir nada e também porque os sol­da­dos (a maioria) do “Exército Encantado” de João Maria rapavam a ca­beça para não serem confundidos com o inimigo, fardado ou não, que usava vastas cabeleiras conhecidas como melenas), de 1971, retomou o episódio e com as ferramentas da poesia, ainda que lastreado em repertó­rio literário e factual. A guerra dos pelados é uma adaptação livre do instigante romance Geração do deserto (1964), de Guido Wilmar Sassi. Um ano antes, o paranaense Noel Nascimento publicara Casa verde, a primeira aborda­gem romanceada do Contestado. No entanto, ao contrário de Sassi, cata­rinense da área conflagrada (Lages), que prioriza a ficção, chegando a armar uma estrutura quase hollywoodiana (que procurei desmanchar no roteiro...), Nascimento fixa-se nas referências documentais antes de dar asas à ima­ginação, vertente, aliás, que influenciou fortemente a minha versão cine­ matográfica (escrita em parceria com o jornalista Oscar Milton Volpini).

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III

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Esta é a estória dos que não estão na história. Desprezado durante e após seu lançamento nacional tanto pelo pú­blico como por quase toda a crítica, inconformados com o roteiro e a lin­guagem que privilegiava a massa revol­tosa como protagonista, o que co­brava uma nova postura do espectador para assenhorear-se de sua narrativa. A guerra dos pelados — no fundo — merecia tudo isso, ponderadas as reações, hoje (1989), quase duas décadas após.

Apesar do enfoque romântico e até um certo maniqueísmo, era(é) um filme incômodo que vinha na contramão, carregado de premonição, de sombras sórdidas, pois, intimorato, batia direto no fulcro do nosso preté­rito sob escombros onde se vislumbram as origens da miséria nacional, crônica e viciosa. Sob a capa de uma religiosidade alternativa, com tônus ex­trema­mente original — cimento que aliás mantinha unos mi­lhares de despossuí­dos —, a velha e “surrada” questão da terra não se escamoteava. Bem ao contrário. Arreganhava-se como o sexo explícito dos filmecos da Boca do Lixo nos anos 1970: mostrava tudo canhestramente e como agir, correta­mente. E pela terra-máter se sacrificaram mulheres, crianças e ho­mens de todas as idades, latitudes, categorias sociais e et­nias. Quem planta e tra­balha a gleba (“A terra é como a mãe, depois que se perde, o valor apa­ rece”), dela é magicamente seu titular. Uma sabedoria bebida junto aos índios, que sem­pre vivenciaram o que é ter seu horizonte surrupiado e o azi­mute de seus mortos espalhado aos sete ventos.

IV A guerra dos pelados, mesmo para quem jamais tenha lido o romance que lhe inspirou o roteiro, denuncia em suas ima­gens a influência que a realidade sobrevivente legou. Ao in­corporar o visual e o testemunho da região contestada ses­senta anos depois, o filme acaba extrapolando a trama do li­vro e “inventa” uma nova “guerra camponesa”. Começando por adiantar uns e atrasar outros acontecimentos, situa a ação em 1913 no “reduto” (um misto de burgo favelizado e improvisada fortaleza dos pe­lados) de Taquaruçu. Sem nenhuma coincidência, a produção do filme localizou-se em alguns dos sítios históricos do Contestado, como os exis­tentes no atual município de Caçador (SC). Portanto, em cima de antigos e reformados latifúndios e espaços de grilagem, herdeiros de um passado ainda crepi­tante. Procurando passar ao largo de situações anedóticas ditadas pela obra de Sassi e atendo-se mais ao “clima” e ao “memo­rial resistente”, o filme sublinha a força motriz subterrânea do movimento insurrecional, a da luta pelo direito à terra. Era o que os pelados propunham, ora de forma política clara e ine­lutável, ora como ficava subentendido no próprio mis­ticismo que es­corava a reação de quatro anos enfrentando canhões Krupp com espadas de madeira. E não foi à-toa que a censura da ditadura


Médici soube com argú­cia ferir exatamente os diálogos e a cena em que aparece a palavra-chave “terra” como sinônimo de liberdade e espe­rança.

V O filme pernoitou em Brasília por mais de seis meses: os cen­sores se di­vidiam entre proibi-lo pura e simplesmente ou li­berá-lo sem cortes (afinal uma andorinha — leia-se, filme — não faz verão (leia-se, agitação...). Inermes ficamos — os produtores (Antonio Polo Galante e Al­fredo Palácios) e eu, em São Paulo — com “nostalgia” de quando a censura era exercida pela polícia e alguns “bons” cruzeiros resolviam impasses de or­dem política e moral... Agora todo cuidado era pouco. A partir da década de setenta a censura passou (como, aliás, conti­nua, inclusive fortalecida, basta ver os atentados contra o filme Je vous salue, Marie, de Jean-Luc Godard e a mú­sica “Merda”, de Caetano Ve­loso) às mãos de “gente le­trada”, intelectuais ou ditos, leigos e religiosos, supostos es­pecialistas em Marx, Lênin, Mao, Fidel, “Teologia da Liberta­ção”, mass media, isto é, em teorias, modelos e técnicas de “evangeliza­ção” das chamadas “ditaduras de esquerda”. O ideário fascista do almi­rante Penna Boto e do papa Pio XII ainda nem havia desencarnado e já mudara de lado... Depois de um silêncio insuportável, só quebrado por esparsas notí­cias sempre oficiosas e as mais lúgubres, fomos ansiosos ler o verso do ansiado certificado de censura. Eram três cor­tes cirúrgicos na imagem e no som: o primeiro mandando ex­tirpar cena em que um “coronel” (fazen­deiro) surra na bunda desnuda dois jagunços com vara de marmelo (en­quadração que, por sua aura esteticamente simbólica, acabou impondo o mote visual do cartaz do filme). O segundo e terceiro, aí sim, flagra-se uma leitura político-ideoló­gica direto na jugular das intenções e atenções de A guerra dos pela­dos. Impõem-se a ablação de cenas com o ator Zózimo Bulbul, um dos “fanáticos” do comandante Adeo­dato, chefe dos revoltosos, que invadem uma serraria da “Southern Lumber and Colonization”: em meio à destrui­ção do escritório, e enquanto os demais pelados procuram, Vito­rino (Bulbul) acha documentos que podem ser títulos de pro­priedade ou con­tratos de compra e venda de madeira, e co­meça a gritar (rasgando-os um a um): “Chega de pobreza! Chega de pobreza!

Fora co’s gringo! A terra é nossa! A terra é nossa! Vingança!” Sem comentários.

VI (A propósito, quatro anos às voltas com uma ­centena de li­vros e pesqui­sas de campo sobre a Guerra do Paraguai, arca­bouço do “docudrama”, Guerra do Brasil (1987), fuçando a visão de ambos os lados da trin­cheira, me dei conta de XXX que tam­bém o vencido mente, distorce e até heroifica algozes e c­ ri­mes contra a Humanidade, em nome de uma sempre discutí­vel “causa justa”. Razões de Estado, de ontem e de todos os tempos, em es­pecial as contemporâneas , que acintosamente atro­pelam a verdade — vítima-alvo dos que reescrevem a história com a lupa da ideologia e com a pres­teza “moral” de quem muda de canal no televisor.)

VII Quando em 1969/70 resolvi, com A guerra dos pelados, re­constituir “desdramaticamente” a esquecida tragédia do Con­testado, logo deparei com uma nuvem de equívocos e com­promissos, que apenas serviu para excitar ainda mais o meu engenho, ampliando o quadro das imagens então apenas in­tuídas. De uma sedição de extrato camponês (no entanto, extensiva aos nascentes centros urbanos dentro do perímetro do fogo) que envolveu, agrediu, mutilou e matou mais de cinquenta mil pessoas (só os “pelados” eram uns 20 mil), o que resta da memória popular já é predominantemente uma versão edul­corada da própria legenda que o repressor construiu a partir de si e sobre seus adversários. Nem por isso ou (quem sabe) até por causa disso, a literatura oral circulante é bastante reveladora sobre os restos mortais da utopia cabocla do Contestado. Como um “morto” indigesto, o caquético “pelado” — es­condido nos cafundós do mato — con­tinua respirando saudades dos tempos em que a luta pela terra se misturava à luta pela vida.

VIII Contrastando com o memorial afetivo e o inconsciente cole­tivo, ainda vi­vos, a historiografia sobre o Contestado é marca­damente balizada por te­ses sociológicas lapidares, arroubos separatistas e conclusões ancoradas numa discutível simili­tude com Canudos, e rasa em aproximações desi­deologizadas que contemplem com a mesma densidade o âmago

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místico, político e econômico e a complexidade ética e etnoantropoló­gica da re­gionalidade do movimento. Nos últimos vinte e poucos anos, desde a publicação do cicló­pico Messianismo e conflito social” (1966), de Mauricio Vi­nhas de Queiroz, que veio na esteira da ficção Geração do deserto, e fechando com meu filme, em 1971, o tema ameaçou entrar em voga, sintomaticamente entre o rescaldo do golpe de 1964 e as primeiras ações clandestinas (no campo) contra a autoridade militar da metade da década em diante. E nem com o bastante comentado (na imprensa alternativa de es­querda) Errantes do novo século, de Douglas Teixeira Monteiro, em 1974, que reinterpreta o caráter “milenarista” do levante caboclo, aparen­ tando-se com Vinhas de Queiroz, que privilegia o empírico e o documental (e as teorizações de fundo psicanalítico e marxista), o Contestado passou a “exis­tir”. Desde a cúspide dos 1980 que o interesse reacendeu e ama­dureceu, com a edição de quase uma dezena de livros e textos que um pouco mais um pouco menos não escondem a influ­ência dos citados e acabam por homenagear os dois estudos que modernamente resgataram o Contestado com o necessá­rio rigor acadêmico, cada um à sua maneira: “La Guerre Sa­inte au Brésil” e “Mouvement messianique du “Contestado”, de Maria Isaura Pereira de Queiroz, de 1957, que alude a ou­tros movimentos mes­siânicos para explicar o surto catari­nense; e João Maria, Interpretação da Campanha do Con­testado (1960), de Oswaldo Cabral (com pretensões estilísti­ cas a um Os Sertões, de Euclides da Cunha sulino) — uma inves­tigação telúrica e apaixonada. Autores como Marli Auras ou Jean-Claude Bernadet (que pro­duziu uma colagem como se fora um filme “para ser lido”...), Ruy Wachowicz, Antonio Pedro Tota, Paulo Ramos Deren­goski, Beneval de Oliveira ou Nilson Thomé, uns por serem tendenciosos e/ou superficiais, outros pelo paroquialismo de suas edições ou pela ausência de originalidade e aporte de elementos novos — todos, infelizmente, não tiveram a força de ampliar a importância do Contestado nos livros didáticos, nem inoculá-lo na cor­rente sanguínea das discussões sobre as re­voltas populares que tumultua­ram a neo-República. Meu filme, que secretamente alimentava a pretensão de no mínimo tornar-se desfrutável entre estudantes, intelectuais, estudiosos da história do Brasil, contabilizou um contundente fracasso de público, o que me for­çou a uma dieta cinemato­ gráfica só rompida em 1975 com Aleluia, Gret­chen.

Mas, menos de vinte anos depois, A guerra dos pelados as­siste a um revival com a sua transcrição para o vídeo. Coinci­dindo com as acir­radas discussões na Assembleia Nacional Constituinte da “questão da terra”, o filme readquiriu uma surpreendente presencialidade, arregimen­tando uma vasta e impensada plateia doméstica. Dos meus filmes em VHS, A guerra dos pelados é um dos mais vendidos e locados.

IX Desde a sua eclosão, a “guerra santa” do “monge” João Maria já vinha enfrentando um sistemático processo junto à opinião pública de achata­mento, exclusão e deboche. Para a alegria dos governos e fazendeiros, pequenos proprietários, comerci­antes e especuladores, que tanto financia­vam como lucravam com a mortandade numa área do tamanho do Estado de Ala­goas. O noticiário em torno da I Guerra Mundial ofuscava regional e na­cionalmente o cotidiano do Contestado, o que, no entanto, não arrefecia sua ­gravidade junto ao estamento militar, aos latifundiários e ao presi­dente Hermes da Fonseca. Por essas e outras é que pouca gente conhece o Contestado, que per­siste como um acontecimento-zumbi da história republicana. Talvez até porque tenha faltado um Euclides da Cunha para reportá-lo e legar seu testemu­nho humanista aos nossos dias. Ou, quem sabe, a negra dor de consciên­cia dos fautores da repressão (e seus herdeiros econômicos e intelectuais) repre­senta a ineludível nódoa moral de que jamais toda uma gera­ção de paranaenses e catarinenses consegue se livrar. Assim, melhor não ouvir, não falar e não ver.

X O Contestado, a par do messianismo militante — no qual o ja­guncedo (de “jagunço”, expressão originada entre os segui­dores de Antonio Con­se­lheiro, e sem o sentido, digamos “pe­jorativo”, de “capanga”, “assecla”) se reconhecia um corpo, como também no igualitarismo do dia-a-dia e da escancarada “luta de classes” — distancia-se de Canudos menos pela sua matriz “milenarista” comum do que pelo caráter abrangente de sua explo­são e intensidade política. Ou seja, ali no Con­testado havia uma primitiva e nebulosa revolta anti-imperia­lista em função da expulsão da terra por empresas estrangei­ras, além da fricção nas fronteiras estaduais pelo ex­pansio­nismo dos lati­ fundiários. Tudo isso amalgamado a um cristia­nismo


rústico e salvacionista, ao mito sertanejo de Carlos Magno (culto à irman­dade), e à reativação de idéias separa­tistas de inspiração monárquica. Um caldeirão antes de tudo com estonteantes cores nacionalistas e único no gênero a dei­xar rastros imorredouros: os “pelados”, que não pararam de ansiar por paz e sustento, hoje estão migrando para o Para­guai e a Amazônia, na eterna busca da terra prometida. Canudos e Contestado, porém, se assemelham em sua maca­bra destruição física: a chacina dos sertões de Santa Catarina deveria (como de fato o foi) ser intensa e extensiva, nem as crianças e os animais de es­timação vivos, uma assepsia que homenageasse Canudos (1896-1897), e metaforicamente acabou antecipando-se ao trágico episódio de My Lai, no Vi­etnã, em meio século.

XI Passados vinte anos das investigações e da feitura do roteiro de A guerra dos pelados, período em que minha cabeça e vida se reciclaram, política e ideologicamente, agora vejo com nitidez que o filme poderia ter assumido uma postura mais crítica em relação aos pelados e sua estru­tura interna de po­der e luta. E não ficar passivo e cúmplice, idealizando figu­ras como o líder Adeodato (e outros chefetes subalternos) que, não só nos meses do desfecho da resistência, habitualmente praticava e esti­mulou violências as mais bárbaras. O filme de certa forma vira as costas para as contradições que ha­bitavam o mundo da revolução cabocla, preferindo identificar coesão e heroísmo onde havia dissensões e crimes contra recalcitrantes, popula­ções civis e contra os próprios pelados oposicionistas por convicções re­ligiosas, dentro dos “redutos”. Essa me parece a fissura maior da obra que à época optou por uma linha político-ideológica sectária e ingênua (quase missionária em sua crença cega), como se o Contestado fosse uma simples briga entre o bem e o mal. Não o era: a fúria messiânica que se apoderou dos seguidores do “monge” João Maria (que, depois de morto no Irani, em 1912, foi substi­ tu­ído por um, igualmente “monge” chamado José Maria, e que se dizia aquele, ressurgido) quando o cerco militar se aden­sou, transformou ideais de justiça e fraternidade numa in­controlável loucura: fiéis em criminosos, figuras “santas” em tiranos, cristãos em pretorianos. Um retrato volunta­rista do vencido que acabou maculando o filme.

A guerra dos pelados foi meu último longa-metragem com cer­teza monolíticas e dúvidas zeradas.

XII Atrás das câmaras, antes e durante as filmagens de dois me­ses, em pleno inverno de 1970, vingou tamanha bateria de incidentes que a meio cami­nho do fim eu estava decidido a parar e desembarcar de um sonho de muitos anos. Nem sei mais como resisti, contornei ou enfrentei a tudo e a todos, dentro e fora do filme. Ainda na fase de pré-produção, isto é, enquanto se armavam a in­fraestrutura e as condições materiais que iriam sustentar a visibilidade das cenas imaginadas, fui intempestivamente intimado a submeter o ro­teiro à censura do Exército (5ª Re­gião Militar, sediada em Curitiba) que na hora creditou um ni­hil obstat à Policia Militar do Estado, então diri­gida por um oficial das Forças Armadas. A evidente manobra era para eximir o Exército de um even­tual ve­xame, caso o constrangimento ilegal viesse a público (constitucionalmente um filme só é submetido à censura de­pois de pronto, mas ditadura é dita­dura...). Na Polícia Federal fui “mimoseado” com perguntas e insinuações as mais esdrú­xulas (havia até uma “certa” pertinência: a dois meses do AI-5 (1968) — beneficiado por um habeas corpus —, eu fora ex­cluído de Inquérito Policial Militar que apurava “delito de opi­nião” entre uma trin­tena de jornalistas paranaenses dedura­ dos por seus colegas de redação...); e, em especial, que in­confessáveis motivos me haviam levado a “mexer neste ves­peiro, que é o Contestado, logo agora” (...). Era o ágio pelo auxílio logístico (imprescindível) que eu havia in­vocado e que só poderia ser obtido em guarnição militar, como a munição de festim e o armamento (fuzis e canhões da época ainda funcionando) e a cobertura profissional de sar­gentos-armeiros para prover a manutenção e guarda de todo um razoável arsenal de campanha. A princípio houve sinal verde (sem trocadilho...), paga por ter-me curvado ante a estúpida sanção prévia (sem maiores sequelas — porque o ofi­cial-censor admitiu sua inca­pacidade para “ler” o roteiro, dei­xando-o tal qual).

XIII Quando já me encontrava com uma equipe paulista e um elenco nacional em Caçador, no vale do rio do Peixe, centro-oeste de Santa Catarina, a mais de 300 quilômetros da Ca­pital paranaense (700, de São Paulo), pronto para o primeiro tour de manivelle,

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veio uma comunicação seca e peremptória de que tudo o que fora apalavrado era letra morta. Atitude idêntica tomou a Polícia Militar de SC, que iria colocar à nossa disposi­ção parte de contingente local para o “papel” das tro­pas do Governo. Ainda, numa caravana suicida, dirigimo-nos todos, atores e técni­cos, para Curitiba, na doce ilusão de conseguir demover o general-comandante de sua inesperada decisão, ele que, pessoalmente, autorizara a cessão do equipamento bélico so­licitado. Nem fomos recebidos, que dirá alvo de justificativas ou explicações. Mas logo viemos a saber que a negação albergava duas ver­tentes plausíveis que acabaram confluindo: 1) o Exército te­mia pelos rumos que o roteiro, apesar de “censurado” (teori­camente), poderia tomar quando as cenas fossem materiali­zadas em celulóide; e 2) o país entrara em estado de pronti­dão porque as Forças Armadas haviam detectado a guerrilha do capitão Lamarca na região de Registro, à beira da rodovia BR-116 (que liga São Paulo a Curitiba e ao Sul) . E nós que queríamos apenas fazer um filme... Um filme com tiros e morteiros que, de uma hora para outra, ficara belica­mente órfão, não tí­nhamos uma arma sequer, muito menos canhões (tão-somente uma me­tralhadora de museu, autên­tica, de 1910, “inadvertidamente” emprestada pela PM do Pa­raná, muito cinematográfica, por sinal...).

revista CONVIVÊNCIA

XIV

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Foi uma operação inacreditável, essa de tocar o projeto a qualquer custo e sacrifício, o mesmo entusiasmo que congre­gara a todos na idéia de filmar um espetacular levante popu­lar em plena castração ditatorial. Tema-tabu, seu mito estava acima de nós. E, aos poucos, com um civil emprestando duas Winchester, a cabo­clada desovando dezenas de enrustidas carabinas e es­pingardas, revólve­res, armas brancas e munição, a produção de A guerra dos pelados pôde organizar seu “exército” re­gular (já tínhamos as fardas da época que o roteiro exigia, trazidas de São Paulo — espólio autêntico, pertencente a um colecionador). Os pelados, mais fácil: eram os próprios serta­nejos in­terpretando a si mesmos, vestindo a roupa rota dos antepassados, que se confundia à roupa rota do presente. Atavismo óbvio que as circunstâncias trouxeram à tona e re­velaram rostos antológicos e atuações memoráveis. Portanto, nem tudo estava perdido.

Ponto de honra: faltavam apenas os canhões. Carpinteiros contrata­dos em uma semana fabricaram quatro exemplares de madeira (com ro­dado de carroça) — cópias fieis de congê­neres utilizados em combate conforme iconografia de 1914 à mão. Para fazê-los “funcionar”, atulhava-se sua boca de bosta de gado ou cavalo, adicionava-se talco industrial e pólvora, e, através da faísca de uma espoleta, provocava-se formidável explosão, que lançava excremento (e seu respectivo “per­fume”...) e imita­ção de fumaça pelos ares (na fase de sonori­zação do filme, acoplamos o som de canhões da Guerra de Secessão...). Mais perfeito do que se os ca­nhões fossem os próprios, originais, do Contestado.

XV Quando pensamos que exibindo defronte às câmaras o nosso “Exército de Brancaleone” “catarina” (alcunha inventada para o natural de Santa Catarina pelos vizinhos paranaenses e gaú­chos), as agruras diminuiriam — o clima das filmagens foi gra­ vado quase diariamente por denúncias oficiosas de militares à paisana infiltrando-se entre as centenas de anônimos figu­rantes — à procura de informações. A delegacia de polícia de Caçador ameaçava fichar todos os extras, atores e nossa equipe, como “comunista”, logo após um jornal local — em tom de “falsa” brincadeira (na verdade, fora uma alcagueta­gem cifrada) — ter anunciado em manchete (reproduzida pela rádio da cidade) que produtores de cinema, sob o pretexto de esta­rem filmando, acobertavam treino de guerra de guerrilha. Dentre as de­ze­nas de explosões imitando queda de balas de canhão, uma — ocorrida na passagem de riacho —, ferindo dois atores, alimentou as suspeitas. No mesmo diapasão de baixo astral, e pela total ausência de milita­res especialistas, a improvisação de emboscadas, entre­veros e esca­ra­mu­ças, usuais numa campanha de repressão que caracterizou o Contes­tado, sempre deixava enorme res­caldo de involuntários feridos e ofendi­dos. E todos acabavam baixando no hospital de emergência para as dores do nosso infortúnio... A “guerra” (afinal, “vencida”, com o filme filmado) fora do al­cance da objetiva competia com a encenada. Assim foram vi­vidos os cem dias de preparação e rodagem de A guerra dos pelados, cuja travessia só foi possível pela magia do cinema e pela bênção que é amá-lo, perdida­mente (1989).


FOTO S: JAIRO FERREIRA

A GUERRA DOS PELADOS (1971)


A GUERRA DOS PELADOS (1971)

FICHA TÉCNICA (35mm, cor, 98 min.)

SINOPSE Outono de 1913, interior de Santa Catarina, Campanha do Contestado. A concessão de terras a uma companhia da estrada de ferro estrangeira para explorar suas riquezas através de uma serraria subsidiária, e a ameaça de redutos messiânicos de posseiros expropriados, geram um sangrento conflito na região. Por exigência dos “coronéis”, forças militares regionais e o Exército nacional intervêm. Mas, os “pelados” (assim chamados por rasparem a cabeça) se revoltam, protagonizando uma feroz e fanática resistência. ELENCO

Roteiro e diálogos: SYLVIO BACK Adaptação e pesquisas: OSCAR MILTON VOLPINI e SYLVIO BACK Baseado no romance “Geração do Deserto”, de GUIDO WILMAR SASSI Fotografia e câmara: OSWALDO DE OLIVEIRA Figurinos e cenografia: ISABEL PANCADA Música: SÉRGIO RICARDO E THÉO DE BARROS Montagem e edição: MARIA GUADALUPE Direção de produção: SÉRGIO RICCI

Átila Lório, Jofre Soares, Stênio Garcia, Dorothée Marie Bouvier, Emanuel Cavalcanti, Maurício Távora, Otávio Augusto, Zózimo Bulbul, Lala Schneider, Jorge Karam, Edson D’Ávila, Sale Wolokita, Walter Cunha, Jairo Ferreira e o povo da cidade de Caçador (SC).

A.P. Galante e ALFREDO PALÁCIOS

PREMIAÇÃO

CRÍTICA

PRÊMIO DE QUALIDADE

Uma das raras e bem-sucedidas tentativas brasileiras no cinema épico. — “Vídeo 93”, São Paulo, 1993.

(Instituto Nacional do Cinema – INC/1971) “Melhor filme brasileiro” (“Folha de S. Paulo”/1971) Prêmio “Governador de São Paulo”/1971 Três prêmios para o elenco (I Festival de Cinema de Guarujá – SP/1971)

MENÇÃO ESPECIAL (II Semana Internacional do Filme de Autor, em Málaga (Espanha)/1971

SELEÇÃO OFICIAL XX Festival de Cinema de Berlim (Alemanha Ocidental)/1972

Produção: SYLVIO BACK, Direção: SYLVIO BACK

Mesmo sem forçar comparações bombásticas, pode-se reconhecer em "A Guerra dos Pelados" um equivalente sulino do glauberiano "Deus e o Diabo na Terra do Sol". Recriando livremente episódios da Guerra do Contestado (Santa Catarina, anos 10), o filme engendra um cruzamento semelhante de motivações políticas e impulsos irracionais, apontando para uma antropologia da luta popular. —Carlos Alberto de Mattos em "Sylvio Back - Filmes Noutra Margem",PR/1992). Não resta a menor dúvida de que "A Guerra dos Pelados" é um filme elaborado com cuidados excepcionais de produção e de inventividade fílmica. — José Tavares de Barros (João Pessoa-PB/1977).


BIOBLIOFILMOGRAFIA Sylvio Back, cineasta, poeta, roteirista e escritor. Filho de imigrantes húngaro e alemã, nascido em Blumenau (SC). Ex-jornalista e crítico de cinema, autodidata, inicia-se na direção c­ inematográfica em 1962, tendo realizado e produzido até hoje trinta e oito filmes — curtas, médias e doze ­longas-metragens: "Lance Maior" (1968), "A Guerra dos Pelados" (1971), "Aleluia, Gretchen" (1976), "Revolução de 30" (1980), "República Guarani" (1982), "Guerra do Brasil" (1987), "Rádio Auriverde" (1991), "Yndio do Brasil" (1995), "Cruz e Sousa — O Poeta do Desterro" (1999); "Lost Zweig" (2003); "O Contestado — Restos Mortais" (2010); e "O Universo Graciliano" (2013). Publicou vinte e dois livros (poesia, contos, ensaios) e os argumentos/roteiros dos filmes: "Lance Maior" (Fundação Cultural de Curitiba (PR), 1975; Imago, Rio de Janeiro, 2008); "Aleluia, Gretchen" (Fundação Cultural de Curitiba, 1976; Movimento, Porto Alegre (RS), 1978; Imago, RJ, 2005); "República Guarani" (Paz e Terra, Rio de Janeiro/São Paulo, 1982), "Sete Quedas" (Casa Romário Martins, Curitiba (PR), 1980); "Vida e Sangue de Polaco" e "O Auto-Retrato de Bakun" (Umuarama/Bameriundus, Curitiba (PR), 1982/1985); "Guerra do Brasil" por Sylvio Back (Cadernos Cineamericanidad/Fundação Cultural de Curitiba (PR), 1992); "Rádio Auriverde" (Secretaria de Cultura do Paraná, 1991), "Yndio do Brasil" (Nonada, Ouro Preto (MG), 1995); "It’s All Brasil" (Fundação Memorial da América Latina, São Paulo (SP), 1995); "Zweig: A Morte em Cena" (Instituto Goethe do Rio de Janeiro, 1995); "Cruz e Sousa — O Poeta do Desterro" (tetralíngue; 7Letras, Rio de Janeiro, 2000), "Lost Zweig" (bilíngue; Imago, RJ, 2007) e "A Guerra dos Pelados" (Annablume, São Paulo, 2008). Obra poética: "O Caderno Erótico de Sylvio Back" (Tipografia do Fundo de Ouro Preto, MG, 1986); "Moedas de Luz" (Max Limonad, SP, 1988); "A Vinha do Desejo" (Geração Editorial, SP, 1994); "Yndio do Brasil" (Poemas de Filme) (Nonada, MG, 1995), "boudoir" (7Letras, RJ, 1999), "Eurus" (7Letras, RJ, 2004), "Traduzir é poetar às avessas" (Langston Hughes traduzido) (Memorial da América Latina, SP, 2005), "Eurus" bilíngue (português-inglês) (Ibis Libris, RJ, 2006); "kinopoems" (@-book) (Cronópios Pocket Books, SP, 2006); "As mulheres gozam pelo ouvido" (Demônio Negro, SP, 2007); e “Quermesse” — obra erótica reunida (Topbooks, RJ, 2013). Com 76 láureas nacionais e internacionais, Sylvio Back é um dos mais premiados cineastas do Brasil. 2007: Medalha do Mérito Cultural Cruz e Sousa pelo Governo de Santa Catarina; 2011: Insígnia de Oficial da Ordem do Rio Branco do Ministério das Relações Exteriores pelo conjunto da obra cinematográfica e de roteirista; 2012: Eleito para o PEN Clube, tornando-se o primeiro cineasta brasileiro a integrar o prestigioso organismo internacional; 2013: Comenda de Cavaleiro da Ordem do Mérito Palmares do Governo de Alagoas pelos "relevantes serviços prestados à sociedade brasileira no campo cultural".

FOTO : FREDERICO MENDES

SYLVIO BACK:


ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS Discurso de Machado de Assis 20 de julho de 1897

Senhores, Investindo–me no cargo de presidente, quisestes começar a Academia Brasileira de Letras pela consagração da idade. Se não sou o mais velho dos nossos colegas, estou entre os mais velhos. É simbólico da parte de uma instituição que conta viver, confiar da idade funções que mais de um espírito eminente exerceria melhor. Agora que vos agradeço a escolha, digo–vos que buscarei na medida do possível corresponder à vossa confiança. Não é preciso definir esta instituição, iniciada por um moço, aceita e completada por moços, a Academia nasce com a alma nova, naturalmente ambiciosa. O vosso desejo é conservar, no meio da federação política, a unidade literária. Tal obra exige, não só a compreensão pública, mas ainda e principalmente a vossa constância. A Academia Francesa, pela qual esta se modelou, sobrevive aos acontecimentos de toda casta, às escolas literárias e às transformações civis. A vossa há de querer ter as mesmas feições de estabilidade e progresso. Já o batismo das suas cadeiras com os nomes preclaros e saudosos da ficção, da lírica, da crítica e da eloquência nacionais é indício de que a tradição é o seu primeiro voto. Cabe–vos fazer com que ele perdure. Passai aos vossos ­sucessores o pensamento e a vontade iniciais, para que eles o transmitam aos seus, e a vossa obra seja contada entre as sólidas e brilhantes páginas da nossa vida brasileira. Está aberta a sessão.

Apoio:


O PEN Clube do Brasil, fundado a 2 de abril de 1936 pelo escritor e Acadêmico Cláudio de Souza, filiado ao PEN Internacional, com sede em Londres, faz parte de uma rede com mais de 100 Centros pelo resto do mundo. Tem como princípios básicos que a literatura não conhece fronteiras e deve permanecer patrimônio comum dos povos a despeito dos conflitos políticos e que o respeito ao legado cultural da humanidade deve ser preservado, em todas as circunstâncias, do efeito das paixões nacionais ou políticas.


Revista Convivência n. 4/2014  

Revista do PEN Clube do Brasil destinada à divulgação de ideias e pesquisa literária

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