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O VAQUEIRO E O JORNALISTA

ENTREVISTA Luiz Biajoni fala sobre seu novo romance: Quatro velhos

Romance histórico de José Huguenin presta homenagem a Euclides da Cunha e Os Sertões

PROSA&VERSO Conto de Patrícia Porto Poema de Fiori Esaú Ferrari

RESENHAS

VITRINE

Krishnamurti Góes dos Anjos comenta o romance A grande morte do conselheiro estérházy, de Alberto Lins Caldas

Romances, contos, crônicas e poesias. Conheça os últimos lançamentos da Penalux.

Alexandra Vieira de Almeida revela os vários tons no romance A noite em que o amor morreu, de Taís Morais

FOTOGÊNICOS Leitores da Penalux compartilham fotos dos livros da editora

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revista penalux

março 2019


REVISTA PENALUX

MARÇO 2019

expediente EDIÇÃO Wilson Gorj | Tonho França CONTEÚDO VISUAL, CONCEPÇÃO E ORGANIZAÇÃO Equipe Penalux: Yanara de Oliveira | Rayane Paz | Dáblio Jotta | Carlos Saldanha Mancur REVISÃO Daniel Zanella PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO Rafael Voigt CAPA Modelo: Yanara Karoline de Oliveira Tenório | Foto: Rayane Paz Pereira COLABORADORES DESTA EDIÇÃO Krishnamurti Góes dos Anjos Alexandra Vieira de Almeida

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Rua Marechal Floriano, 39 - Centro Guaratinguetá, SP | CEP: 125000-260 penalux@editorapenalux.com.br www.editorapenalux.com.br

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editorial

PROPAGANDO NOSSA CHAMA Pelo menos uma vez na semana realizamos uma reunião na sede da editora a fim de pautar ações e definir estratégias para melhorar nossa atuação como editores e gestores da Penalux. Nessas ocasiões, a divulgação, ou seja, a promoção de conteúdo relacionado aos nossos livros, encontra sempre atenção especial. Como resposta a essa demanda, temos ampliado nossas parcerias e participação nas redes sociais. Tanto que nossa página no Facebook atualmente já se aproxima das 350 mil curtidas, e nosso Instagram, por sua vez, também tem crescido em número de seguidores. Mas, como todos sabem, o conteúdo postado nas redes sociais padece com a dinâmica desses espaços, cujo mecanismo de atualização tende a jogar para trás – e, portanto, para um ponto de possível esquecimento – postagens de relevância para leitores e autores. Pensando nisso, nos ocorreu a ideia de criar um espaço que ofereça uma permanência maior de consulta e releituras. Dessa preocupação nasceu a Revista Penalux, que agora se concretiza em seu primeiro número. Digital e gratuita, a nossa revista, ao menos por enquanto, terá uma periodicidade bimestral, podendo muito em breve ser publicada uma vez por mês. Essa é uma das muitas iniciativas articuladas por nossa equipe, com o intuito de oferecer ao nosso público possibilidades mais amplas de encontros e trocas de experiências. A Penalux é uma editora nova (temos apenas sete anos de atividades) e, mesmo pequena, vem cativando o apreço e a admiração de um número cada vez maior de leitores, autores e parceiros. Acreditamos que a nossa força esteja justamente neste ponto: o investimento nessa rede crescente, colaborativa. Que a luz emanente dos livros continue nos mantendo conectados e fortalecidos neste propósito de espalhar mais literatura, cultura, conhecimento, reflexão, beleza. Nosso slogan não nos deixa esquecer que livros iluminam. Sejamos, então, iluminados por nossas leituras. Lux para todos. Os editores

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entrevista

luiz biajoni Conta detalhes de Quatro velhos, seu mais novo romance

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Eu vinha lendo narrativas reais, jornalismo literĂĄrio, Fama e Anonimato, do Gay Talese, e, especialmente os livros da Janet Malcolm. Foi o que orientou minha narrativa nesse livro.

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De onde surgiu a ideia para a narrativa de Qua-

dentro do romance desconstrói certos estigmas criados em torno da velhice? Todas as fases são cheias de estigmas. Mas acho que a velhice pode ser um momento de certa libertação de paradigmas. Tentei menos desconstruir qualquer coisa e mais contar uma bela história do melhor jeito, honrando esses personagens.

tro velhos? O motivo exposto no prólogo, que aparentemente deu origem ao romance, é do narrador ou do autor do livro? Acho que há uma graça nessa confusão de não saber se o autor é, de fato, o narrador. Sobre isso, posso dizer que a motivação foi muito vagamente o boato sobre o velho italiano ser filho bastardo de Mussolini. Mesmo porque, isso não é absoluta- Sua narrativa tem uma clareza e uma aparenmente importante no romance. te simplicidade que favorece o fluxo da narração. Torna a leitura prazerosa e Embora o chamariz da narrademonstra uma habilidade sua tiva seja o suposto filho basde construir enredos completardo de Mussolini, o persoxos por trás dessa simplicidade. nagem Orlando, a história se Como desenvolveu esse traço em centra mais em dois casais de sua obra? Há outros autores que idosos, que passam a conviver você admira com essa mesma cano final de suas vidas: Lando racterística? (Orlando)-Ciça e Ronnie-NeSempre persegui a clareza. Acrediver. É nessa relação que está a to que todo escritor, quando pensa força do romance, não? em ser escritor, quer revolucionar a Sim. Muitas vezes por trás de literatura, a estrutura narrativa... eu uma história aparentemente também pensava assim, meus hebanal existem grandes persoróis eram Joyce e Beckett, os poetas nagens. Lembro da história concretistas, etc, queria escrever de Emmanuel Carrère, que uma grande história com uma forconhece um poeta meio mama inovadora, mas aí, felizmente, luco em Paris, nos anos 1980, a gente envelhece e aprende que a e depois levanta a assombrosa história pede a forma; o maior devida dele e escreve Limonov. safio do escritor, no meu entender, Recentemente, o jornalista é atender e alcançar a forma que a Chico Felitti levantou a históhistória pede. Cada um de meus liria do folclórico Fofão da Auvros pediu uma forma, embora, é gusta e escreveu uma grande reportagem, que claro, eu veja uma unidade e um estilo meu ali – e é agora virou livro, Ricardo e Vânia. Quando parei um estilo que busca a clareza, mas com ritmo, corpara pensar naqueles quatro velhos que se conhe- tes, mudança de vozes e até algumas experimentaceram e desenvolveram uma amizade intensa nos ções, dependendo do que pede a história. poucos últimos meses e anos da vida, vi que tinha uma história com ótimos personagens. Eu vinha Como você posiciona Quatro velhos dentro de lendo narrativas reais, jornalismo literário, Fama sua produção literária? e Anonimato, do Gay Talese, e, especialmente os Como a continuidade do que pretendo. Depois livros da Janet Malcolm. Foi o que orientou mi- de três novelas policiais sacanas, reunidas em A nha narrativa nesse livro. Comédia Mundana, quis escrever três livros que tratem sobre a amizade e a passagem do tempo, A velhice se apresenta em Quatro velhos não com alguns elementos de jazz: o primeiro foi A como algo limitador, mas às vezes até como Viagem de James Amaro, o segundo é esse Quatro uma fase de transgressão. Como essa discussão Velhos e já comecei o terceiro, Algum Amor.

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vitrine Marcos Gontijo. Vagamundos e Girassóis

gênero: poesia | formato: 14x21 | ano: 2018 | 104 p. | pólen soft 90 gr

No contorno de cada imagem gerada, na luz de cada revelação conseguida pela interpretação do atento leitor e na singeleza de uma poesia que mais parece um manifesto ao mundo de tantas turbulências e de todos os possíveis desmandos, desandos e desavisos, um livro, que tem o Marcos D. Gontijo como autor, não é obra para figurar em prateleira e acumular poeira até amarelar, mas uma relíquia a trazer no peito e ser aberta a cada momento para um deleite permanente. Por Roque Aloisio Weschenfelder www.editorapenalux.com.br/loja/vagamundos-e-girassois

Alex Sens. Corações ruidosos em queda livre

gênero: contos | formato: 14x21 | ano: 2018 | 132 p. | pólen bold 90 gr

Corações ruidosos. Em queda. Livre. Três contos costurados por uma linha cortante, unindo de maneira decisiva as histórias narradas aqui. A primeira, uma viagem de ônibus em que as vozes de doze personagens se confundem e se chocam. A segunda, uma galeria de arte cuja principal exibição não é propriamente a arte. E a terceira, uma série de cartas ácidas e sombrias escritas por uma escritora amargurada. Três contos que se encontram e se completam. Três contos caindo ruidosos onde as coisas fazem silêncio. www.editorapenalux.com.br/loja/coracoes-ruidosos-em-queda-livre

Marcos Torres. Cores de Indochina

gênero: romance | formato: 14x21 | ano: 2018 | 226 p. | pólen soft 90 gr

A literatura tem asas, mas não tem fronteiras. [....] A uma cultura tão pouco familiar ao Ocidente, nós leitores conseguimos nos transportar ao universo do protagonista Thoth Zehuti, um filósofo e professor deslocado no mundo, um andarilho errante dotado de certa misantropia, que vagueia como um moribundo, na esperança de encontrar uma melhor disposição para enxergar a vida, ou um lugar para chamar de pátria e sobreviver com o mínimo necessário.... Assim, ele se dirige para o Vietnã, Camboja e Tailândia, atraído pelos contrastes dessa cultura milenar: uma natureza tão exuberante, com seu povo historicamente reprimido e sofrido. [...] A narrativa entrelaçada com micro-histórias e micronarrativas, em meio a um enredo costurado com dores e perdas, memória e esperança, nos descortina o cenário de uma cultura ímpar, além de nos causar inquietação e nos fazer refletir sobre o destino da humanidade em vários aspectos: político, religioso, ideológico, cultural. Uma leitura envolvente, que, com sua narrativa não linear, nos faz perceber que “a vida nem sempre é uma sequência cronológica de eventos e acontecimentos, tal como queremos”, como sinaliza Thoth. Boa viagem! www.editorapenalux.com.br/loja/cores-de-indochina revista penalux

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prosa&verso

Ícaro

morreu aos sete meses dentro da minha barriga. Fiquei anos me odiando pela escolha desastrosa do nome. Achava que havia lançado através dele uma profecia trágica. A culpa, óbvia, minha. Culpa de mãe de viagens malsucedidas pelo mundo. Meu marido consolava. Era um nome bonito, dizia. Um nome de sonhador, de alguém que persistia até o fim. Eu só escutava a palavra “fim”. Comecei então a ler Freud. Péssima ideia. Tudo parecia ter sido escrito sobre minhas maldades. Sim, foi o meu desejo. Eu desejei ter um filho que voasse até o sol e que de lá caísse para a morte. Ícaro com suas asas de cera, o menino que não iria crescer, que não enfrentaria o mundo dos homens ruins. A culpa só poderia ser realmente minha. Eu trabalhava muito. Eu estudava muito. Eu lia muito. Eu era muito e tão pouco. Lembro que a primeira sensação que tive da presença de sua vida foi um bater delicado de asas. Eu tão inquieta, pessimista, tão cansada de tudo e de todos antes dos trinta... Sentir as asinhas daquele pássaro me encheu de uma sensação muito nova, comendo a fruta no pé, me banhando no rio num caldo grosso, submersa, protegida. Ícaro veio espontaneamente na cabeça. Asas. Liberdade. Amplidão. Risco. Vontade. Desejo! Vida! Horizontes. Mas por que não pensei na morte? Por que não fui adiante na história? Só o clarão chegou às minhas vistas. Uma luz absoluta tão confortável e tão intensa que era impossível abandoná-la. Eu a amei imediatamente e fui consumida por ela. Mas um dia houve que nada se moveu. Nem dores. Nem flexões do corpo. Nem asas. A descida foi imensa e brusca. Das mais doídas. Lá caímos juntos. Pois era eu a mãe. Hoje a queda completou vinte e quatro anos.

Conto do livro A memória é um peixe fora d’água, de Patrícia Porto (Penalux, 2018)

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a liberdade Quando o avô morreu era uma tempestade. A cruz no alto da igreja tinha desaparecido, a igreja toda desaparecida, manto tanto de água, véu da torre, o sino só como o coração do avô. Quando o pai morreu era uma chuva fina. Pequenas estrelas esqueciam de acabar, no vão das nuvens espiavam e faziam a madrugada durar pra sempre. A renda branca caía sobre o túmulo e a igreja do Rosário enchia dos negros que a construíram.

Poema do livro Variações do Exílio, de Fiori Esaú Ferrari (Penalux, 2018)

Quando o filho morreu já não tinha chuva.

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vitrine Rosana Vinguembah. Sopa de pedras

gênero: romance | formato: 14x21 | ano: 2018 | 144 p. | pólen soft 90 gr

Sopa de Pedras narra o cotidiano da família do Sr. Leôncio, dono de uma pequena propriedade rural às margens do Rio Triunfo, em Minas Gerais, onde a atividade garimpeira em decadência ainda é a principal fonte de sustento dos moradores da região. Em um cenário em que as vidas são traçadas pelo trabalho árduo e pelas dificuldades enfrentadas na rotina diária, vários personagens contracenam com a realidade do cotidiano rural do interior do Brasil. Dentre os personagens que compõem o enredo, estão Valentin, filho mais novo do Sr. Leôncio que, na sua infância, já se depara com a necessidade de ajudar a família no trabalho diário. D. Candinha é a matriarca dessa história que demonstra a sua força e dignidade, seja no provimento da família ou no cuidado com os garimpeiros que trabalham nas terras de seu marido. O Sr. Manolo Roriz, um argentino que possui um pequeno comércio no acampamento dos garimpeiros e abastece as famílias que residem na localidade. Tito, um andarilho querido e conhecido por todos que, a cada período, é acolhido por uma família da região. Esses são alguns dos sujeitos que tecem a vida do garimpo no Rio Triunfo e nas suas imediações, onde a realidade palpável se mistura com a ficção para ilustrar a existência de milhares de personagens reais que estão embrenhados pelo interior do país. www.editorapenalux.com.br/loja/sopa-de-pedras

Rodrigo Ornellas. Janelário

gênero: contos (selo lampejos) | formato: 14x21 | ano: 2018 | 132 p. | pólen soft 90 gr

Rodrigo Ornelas, por meio de uma linguagem saborosa, fluída, apresenta o seu cotidiano, o qual não é um lugar “comum”, pelo contrário, é um ambiente cheio de movimento do qual se capta sons, gritos vindos das ruas, das casas, dos becos e, isto aliado a experimentos ora estéticos, ora temáticos, se une para formar um cotidiano não meramente mecânico, mas pensado e imaginado; criado. Para a professora Cássia Lopes, os contos de Ornelas são catedrais de emoções, instantes fugazes diante do espanto da paisagem, das veredas sociais e da face agônica de um transeunte, o que é, em partes, propiciado e facilitado pelo impulso de uma narrativa tão fluída, capaz de construir uma fusão entre percepções, entre situações, banais ou não; entre emoções. O autor diz que o que se abre em seu Janelário são imagens rápidas que, na ânsia do imediatismo, captam toda uma avalanche de possibilidades, o que é construído também com o auxílio da linguagem e sua criatividade, empenhadas em construir contos inovadores do ponto de vista, estético, autobiográfico e principalmente temático. O cotidiano é satirizado com uma leve pitada para o imaginário, como na árvore e na amizade expostos no conto “Um presente para Nani”, o vegetal, representado na árvore, se une ao simbólico, metaforizado na emotividade do envolvimento afetivo entre os personagens, um verdadeiro experimentar, mas muito bem-sucedido. www.editorapenalux.com.br/loja/janelario 9

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livros são fotogênicos cliques de leitores

livro: Versos no camarin, poesia, Regina Celi (2019). foto: Rayane Paz

livro: Para que serve a poesia?, Clarice Sabino (2018) foto: Anna Clemente Prats

livro: O berro do bode, contos, Verena Cavalcante (2018) foto: Raimundo Neto

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romance

O VAQUEIRO E O JORNALISTA: UMA RELEITURA DA GUERRA DE CANUDOS Romance histórico se antecipa à FLIP e homenageia Os Sertões, de Euclides da Cunha

400 jagunços prisioneiros, fotografia de Flávio Barros (Acervo Museu da República).

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que leva uma família a seguir as ideias de Antônio Conselheiro? Que tipo de esperança buscam? O que leva um republicano convicto a questionar a República? Que verdade os olhos revelam ao se depararem com um movimento alarmado como monarquista e antirrepublicano? Como seria o encontro destas duas visões de mundo? Com questionamentos como esses, o professor universitário José Huguenin cria neste seu primeiro romance uma história que tem por eixo o encontro dramático de um certo vaqueiro com um jornalista no árido sertão durante a Guerra de Canudos. O vaqueiro vai para Canudos com a família guiado pelas profecias de Antônio Conselheiro, e também como fuga às injustiças do coronelato. Já o outro personagem-chave desta trama, o jornalista republicano, vai para Canudos para observar a guerra em curso, acreditando se tratar de um levante monarquista. A narrativa tem como ambiente um dos momentos históricos mais dramáticos do país. O positivismo republicano na figura do jornalista depara-se com a força e sabedoria desassombrada do sertanejo, na figura do vaqueiro. O jornalista encarna as vivências de Euclides da Cunha durante a guerra, personificando-as, através de referências indiretas e diretas às constatações de Os sertões. “Minha história revisita o tema de Canudos e, em certa medida, dialoga com o clássico de Euclides da Cunha”, diz Huguenim em referência ao livro Os Sertões. “Vale lembrar que em 2019 completam 110 anos da morte de Euclides. O autor será o homenageado da próxima edição da FLIP”, destaca o escritor. Neste romance histórico, que sai pela Editora Penalux, o autor dramatiza eventos narrados em Os Sertões, buscando dar vida e identidade ao sofrimento e abandono denunciado na obra euclidiana. A narrativa lança mais luz sobre o outro lado do confronto, tendo em vista que, na obra de Euclides da Cunha, o ponto de vista é mais externo a Canudos, dando mais detalhes aos preparativos do exército. Pelo enredo criado por Huguenin, o leitor acompanha a saga de uma família sertaneja na Guerra de Canudos ao passo em que se depara com os embates do jornalista destinado à cobertura do evento, em constante crise com sua própria consciência ante à guerra apresentada. Nas palavras da escritora Paola Mariz, que assina a orelha, o autor José Huguenin “faz das forças que duelam em Canudos o tema de seu primeiro romance. Corajoso, não se intimidou com Os Sertões, de

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Euclides da Cunha, mas se inspirou na obra-prima do conterrâneo para fazer, com isso, uma homenagem ao grande autor do livro vingador. O vaqueiro e o jornalista dói e emociona: o desfecho não pode ser diferente, mas torcemos o tempo todo por outro fim, talvez aquele em que todos ganhassem...”.

SOBRE O AUTOR Natural de Santa Rita da Floresta, Cantagalo (RJ), José Huguenin é doutor em Física e professor universitário em Volta Redonda (RJ), onde mora. Euclidianista de nascença, participou como estudante de várias edições da Semana Euclidiana, em São José do Rio Pardo (SP), berço de estudos sobre vida e obra de Euclides da Cunha. Laureado em vários prêmios literários, tem publicado livros de poesias (Vintém e Experimentos poéticos), crônicas (De manga a jiló provei...) e contos (A parede & outros contos). Este é seu primeiro romance. É membro da Academia Volta-redondense de Letras. SERVIÇO título: O Vaqueiro e o Jornalista (romance) autor: José Huguenim publicação: 2018 tamanho: 14x21 páginas: 172 p (pólen soft 80 gr.) preço: R$ 38 disponível em: www.editorapenalux.com.br/loja

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vitrine Edmilson Borret. Entre cão e lobo

gênero: poesia | formato: 14x21 | ano: 2018 | 100 p. | pólen soft 90 gr

Nós, leitores, queremos é boa poesia e isso é o que não falta em Entre cão e lobo, livro de estreia de Edmilson Borret. Sem negar influências dos nossos grandes poetas (especialmente Drummond e João Cabral de Melo Neto), o autor resolve-se nessa gramática própria, que serve ao lirismo, jamais à pieguice. O autor extrai sua poesia, quase suja, sem sentimentalismos, como quem espreme um limão verde a fim de colher esmeraldas prontas para serem lapidadas pelo verbo e, depois, nos espetarem o olhar, e o cenho, e a boca, e o queixo. Permita que a poesia de Edmilson Borret liberte a poesia que você tem dentro de si e que, muitas vezes, só não diz “presente” porque não foi convocada. www.editorapenalux.com.br/loja/entre-cao-e-lobo

Samuel Marinho. Poemas in outdoors

gênero: poesia | formato: 14x21 | ano: 2018 | 80 p. | pólen soft 90 gr

A modernidade é pauta do novo livro de Samuel Marinho, Poemas In Outdoors. Como lidar com os dilemas eternos – amor, morte, tristeza – em tempos em que não há mais tempo para dilemas? E como ser poético e maldito e ainda viver no século 21? Samuel Marinho tenta encontrar as respostas, mergulhando em poesia os objetos triviais da contemporaneidade e trazendo aquilo que é poesia para palavras robóticas cibernéticas. Os poemas também seguem o fluxo de seus contemporâneos: curtos, rápidos, desafiando a forma da maneira mais drástica possível. Entretanto, Marinho ainda faz questão de trazer narrativas antigas – sobretudo românticas – para suas liras atuais. O autor, não obstante, relembra que a modernidade, além de não se esquecer de dilemas passados – apesar de tentar colocá-los para dentro do tapete –, criou novos questionamentos existenciais. Desta forma, versos também se perguntam sobre o capitalismo, a solidão dos tempos líquidos, dentre outros milhares de problemas. Assim, com a junção de todas questões, imagens e técnicas literárias, a linha do tempo é quebrada em Poemas In Outdoors, e tudo é fruto da grande interação de todas as épocas da humanidade. www.editorapenalux.com.br/loja/poemas-in-out-doors

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resenha Servidão humana ou o enfrentamento do horror (?) Por Krishnamurti Góes dos Anjos (*)

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iscours de la servitude volontaire ou Discurso da servidão voluntária é texto provavelmente datado de 1547 e publicado em 1563, ano da morte de seu autor, o humanista e filósofo francês Étienne de La Boétie (1530-1563). La Boétie perguntava-se como um único tirano poderia manter sob o seu jugo milhares de homens e dezenas de cidades. Dentre as inúmeras conclusões a que chegou há uma fundamental: “É o próprio povo que se escraviza e se suicida quando, podendo escolher entre ser submisso ou ser livre, renuncia à liberdade e aceita o jugo; quando consente com seu sofrimento, ou melhor, o procura.” À época isso se dava, segundo observação do próprio autor, porque um pequeno número de súditos obtém a confiança do tirano e dele se aproxima, compartilhando de seus desmandos e recebendo seus favores. Esse pequeno número de homens dispõe de seus próprios súditos, que também compartilham de seus desmandos e recebem seus favores. Mantêm uma série de subordinados, os quais possuem também seus próprios subordinados. Formam-se, dessa forma, relações de favorecimento e obediência em múltiplos níveis ou instâncias. Todas essas instâncias controlam a malta ignorante pela força e, principalmente, pela enganação das políticas de “pão e circo” e dos discursos religiosos e supersticiosos que envolvem o tirano em um manto de devoção. Tece-se assim uma rede de favores e concessões, em que um homem deve obediência a outro, em uma teia cuja ponta leva, em última instância, ao tirano. De qualquer forma, o que levava a isto era o fato de que os homens, por hábito, ignorância e fraqueza moral, voluntariamente se submetem à tirania. Depois de Étienne de La Boétie, certamente muitos fizeram questionamentos semelhantes, e por certo chegaram a conclusões de acordo com as mudanças operadas nos regimes, nas sociedades e todas e tantas mutações que os tempos impuseram. Hoje já não há sentido falarmos em tiranias absolutistas encarnadas em um único homem. O buraco se aprofundou. E como! Tudo isso nos faz lembrar também de uma revista penalux

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célebre frase (bem mais recente), de George Orwell (1903-1950): “A massa mantém a marca, a marca mantém a mídia e a mídia controla a massa.” Mas o buraco continuou a afundar-se mais ainda nos estreitos limites de nossa situação pós-moderna. Outro que anda pensando nessas ‘sensaborias’ é o filósofo alemão de origem sul-coreana Byung-Chul Han. No opúsculo de Sociedade do Cansaço, ele discute a ascensão de um novo paradigma social, em que a sociedade disciplinar de Foucault (mais um que entrou no samba do crioulo doido) é substituída pela sociedade do desempenho. Esse novo modelo social é movido por um imperativo de maximizar a produção do Sistema. “Nós, sujeitos de desempenho, somos constante e sistematicamente pressionados a aperfeiçoar nossa 'performance' e aumentar a produção”. E por isso produzimos. Produzimos até a exaustão. E, mesmo cansados, continuamos produzindo. Uma meta é sempre substituída por outra. A tarefa nunca acaba. É frustrante e esgotante. E, ao lado disso, como nunca na história da humanidade, cristalizouse positivamente a Normose, que é um conceito de filosofia para se referir a normas, crenças e valores sociais que causam angústia e podem ser fatais. Em outras palavras, "comportamentos ditos normais de uma sociedade que causam sofrimento e morte". Dessa forma, os indivíduos que estão em perfeito acordo com a normalidade e fazem aquilo que é socialmente esperado, "o que todo mundo faz", acabam sofrendo, ficando doentes ou morrendo por conta das normoses. O resultado é uma sociedade que gera fracassados e depressivos, a quem só resta recorrer a medicamentos para continuar produzindo mais eficientemente. Exaustos e correndo é a condição humana de nossa época. O corpo humano não aguenta, lógico, e o tal do corpo virou um empecilho, um apêndice incômodo, um não-dá-conta que adoece, fica ansioso, se deprime, entra em pânico. E assim dopamos esse corpo falho que se contorce ao ser submetido a uma velocidade não humana. Viramos exaustos-ecorrendo-e-dopados. Está devidamente instaurada a violência psíquica que tem outros ingredientes, como 14


a propagação do medo em todas as latitudes e nos mínimos detalhes. Viramos os tiranos de nós mesmos quando instalamos nas cabecinhas vazias da maioria esmagadora dois conceitos fundamentais: o de que o indivíduo deve se explorar livremente em benefício do sistema e, ainda por cima, é capaz de jurar “de pé junto” que isto o realiza. O paradoxo se sofisticou. A coerção foi plantada de dentro para fora. Nada de parar a correria, nada de contemplações, nada de pensar ou criar. Muito bem: todo esse prelúdio tem o propósito de apresentar a obra A grande morte do conselheiro esterházy, que é o título do romance de Alberto Lins Caldas, recentemente publicado pela Editora Penalux. Antes de seguirmos adiante, vale a pena um parêntesis sobre o autor e sua obra. Alberto Lins Caldas vem se notabilizando por construir uma literatura que não faz concessão à facilidade e à mesmice. Seus temas, quer na prosa, quer na poesia, são densos, inquietantes, focando os conflitos e dilemas do ser perante a vida aqui e agora. Sempre a surpreender em construções formais inovadoras, a provocar incômodo com o propósito de sair do lugar comum. E o faz com veemência, ardor, revolta, empenho e notável capacidade de tecer enredos e situações com uma imensa variedade de informações e situações que ele entrelaça de forma a construir uma literatura instigante que envolve o leitor inapelavelmente, fazendo-o refletir profundamente. Um guerrilheiro da literatura que não hesita. Em um de seus textos, escreve ele: “meus livros sempre foram o que denomino enfrentamento do horror.” Aí temos o criador febril. Voltemos ao livro, ou romance, que nesse caso é um enquadramento genérico a bem dizer. O que à primeira vista parece um monólogo interior, configura-se, à medida que a narrativa avança, em um solilóquio. Ou seja, um longo discurso pronunciado de maneira bem mais estruturada e articulada que o monólogo interior. A obra se inaugura com um depoimento aberto, franco: “só falta falar. mesmo sabendo q as palavras não são nada só falta falar. é isso q minha pessoa tem pensado a vida inteira. mas minha pessoa nunca fez isso nem consigo mesma. se deixar levar pelo dizer. mergulhar no q sempre foi tudo e é sempre a última palavra. retornar pro essencial. não de quaisquer vidas mas da vida de minha pessoa com o conselheiro esterházy a vida de minha pessoa depois do conselheiro esterházy a vida de minha pessoa durante a longa dolorosa estranha morte de duzentos e setenta e dois dias do conselheiro esterházy”.

A grande morte do conselheiro esterházy, romance de Alberto Lins Caldas. Penalux: Guaratinguetá/SP, 2018, 206 p.

Pronto. É aí, e de cara, que o leitor, se questiona se não houve revisão gramatical, ou o autor está a contrapelo de normas e convenções? De fato, a supressão intencional da pontuação e palavras, ao lado de uma linguagem coloquial e ainda bastante simplificada, faz parte de uma estratégia que busca, por certo, a fidelidade ao fluxo do pensamento que corre sem peias. Avancemos um pouco mais no enredo fornecendo ao leitor, para maior esclarecimento da trama, algumas informações: a começar pela identidade do tal conselheiro. Esterházy é (ou foi) uma família nobre húngara com origens na Idade Média. Desde o século 17, eles estavam entre os grandes magnatas latifundiários do Reino da Hungria durante o tempo em que fazia parte do Império dos Habsburgos e depois da Áustria-Hungria (esta informação não está no livro). Muito bem; a voz que nos fala é a do novo mordomo do tal conselheiro que refere-se a si mesmo apenas como “a minha pessoa”. Essa pessoa assiste a morte do tal conselheiro que demorou exatos duzentos e setenta e dois dias para se consumar, ou seja, o tempo de uma gravidez humana. Portanto, a narrativa já se inaugura no ritmo forte da metáfora. O cenário em que tudo acontece é o interior de um castelo, mais precisamente no quarto 15

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do conselheiro, espécie de catacumba escura com “seu inescapável fedor sulfúrico e velho de charutos negros e mortos.” O mordomo ali vive em companhia do conselheiro “desde q o papai e a mamãe de minha pessoa entregaram minha pessoa pro conselheiro esterházy”. Para servir o conselheiro, claro. A narrativa gira em torno das angústias temores e descobertas que a convivência provoca no jovem mordomo, sobretudo quando houve do conselheiro: estou morrendo. Esse é o conflito básico. Estará mesmo o conselheiro à beira da morte? Como isso se dará? Que relações serão estabelecidas entre servo e senhor? O que afinal é ter uma grande morte ou uma “minúscula e esquecível morte”? Temos por certo como metáfora gigantesca e inaugural o embate entre a juventude e a decrepitude. O novo desejando frutificar e o decadente a se perpetuar? Tantas e tantas ramificações filosóficas podem advir de uma situação assim, e de fato é o que sucede. A começar pela imensa inércia do mordomo que, mesmo naquela condição de completa estupidez existencial, busca o reconhecimento do senhor, dos desejos do senhor, e por isso trabalha, por isso é capaz de quase tudo. É um personagem que chafurda na lama da servidão de nosso tempo de extrema complexidade. Uma complexidade que positivamente nem George Orwell com sua profunda consciência das injustiças sociais daria conta de imaginar, menos ainda Étienne de La Boétie. Viram como o buraco a que nos referimos anteriormente se aprofundou? Muito mesmo. Mas do que estamos, afinal, a falar? Por dentro do livro, o autor vai tecendo sua história com o que vai se passando (e transformando) no interior do mordomo, dentro de uma condição em que seus atributos humanas vão aos poucos descendo degraus que praticamente inviabilizam a existência. Uma condição de quase objeto. Não entremos em detalhes que tirariam do leitor o prazer da própria descoberta. Frisemos, todavia, um e outro ponto. Vale observar no segundo capítulo o painel incisivo da condição humana quanto à solidão essencial que nos caracteriza: “...e toda terra é somente solidão nos distinguimos um do outro somente pela consciência dessa solidão pois tamo sozinhos em todas as circunstâncias.” Outro ponto de destaque: a perspectiva do jovem mordomo é francamente de um niilismo existencial no qual a existência não tem qualquer sentido ou finalidade e, por isso, o homem não procura um sentido e um propósito para a sua existência. Para ele, a existência se resume “tão somente à ilusão dolorosa do horror de viver”. Fica a revista penalux

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pergunta: ele é mesmo assim por natureza ou fruto da condição em que nasceu e é obrigado a viver? Por outro lado, é sujeito de apurado senso ético que identificamos no terceiro capítulo, boa parte dele a analisar a banalização do mal entre os homens, e isto nos leva a pensar se não é exatamente assim, nessa levada (para usar um termo mais ameno), que vamos incutindo nas gerações seguintes o conceito do mal: “minha pessoa não pode recusar o mal não aprendeu a recusar o mal. a única escolha q foi possível foi o mal e no malestar o malviver o malsonhar jamais escolher o bem o bem-viver nem mesmo o bemmorrer. o mal e malestar. nem mesmo o grande mal ou o grande malestar do conselheiro esterházy. tão somente o pequeno mal engolido pelo grande mal sentindo na carne por dentro da carne esgotada somente o pequeno malestar sem saber porquê. porq o mal não se separa das cousas não se separa dos sonhos da carne do desejo da memória do riso. porisso ele não é traiçoeiro não é covarde não é mesquinho. ta sempre aqui. quem não vê quem não toca quem não percebe vive no mal e o mal vive nele. porq não é violento não é força não é espalhafato nem convencimento. é cousa mansa cousa pacífica cousa q cochila cousa q roça q atravessa cousa que ri cousa q chora cousa tenra q nasce cousa que vive cousa que morre cousa q fala cousa q se cala cousa no espelho cousa no olho cousa na língua cousa de esquecimento”. Vejamos uma das conclusões que esse espectro humano chega, e já quase ao final de sua saga de “duzentos e setenta e dois dias” acompanhando o desencarne – desencarne não, que é palavra exagerada para o contexto, o expirar do conselheiro (expirar verbo intransitivo: deixar de existir; morrer): “nada substitui a vida enquanto viver substitui violentamente segundo a segundo o próprio viver. a vida é constantemente substituída por outra vida. todas as vidas anteriores mergulham no mais atroz esquecimento porq é do esquecimento q essa vida essa forma de vida servil [grifo nosso] se alimenta. nem a força nem o poder nem a loucura nem a palavra nem a arte nem o nascer dos filhotes consegue diminuir o impacto desse esquecimento. é deformando tudo ao seu redor deformando antes deformando durante deformando depois q a vida continua a vida gera mais vida mesmo naqueles iguais a mim q nada geraram e porisso torraram a vida. quaisquer esperanças de sobrevivência é somente o tempo onde todas as cousas se deformam pra serem esquecidas.” Parafraseando o mordomo narrador: “só falta 16


ainda suposição. O fato inconteste é que há também, como sempre houve, aqueles(s) de nós que o miram de volta e o enxergam em toda a sua profundidade, ou melhor, que percebem que o mal nada mais é do que o rebento de nossa própria ignorância. Esse o horror a enfrentar. Compreender tal realidade é a única forma de eliminá-lo definitivamente.

falar. mesmo sabendo q as palavras não são nada só falta falar” e perguntar: quem ao fim e ao cabo estará morto em toda essa trama? Quem viverá? “A grande morte do conselheiro esterházy” é um mergulho fundo num mundo onde as certezas sobre o que somos e como vemos as coisas são apenas borrões. Um mundo em que, paralelamente aos valores que desaparecem, nada resta a não ser um tremendo vazio existencial, que, via de regra, deságua na violência sem limites, num limiar entre a animalidade e o aquém da animalidade, uma zona que sequer conseguimos nomear. Entretanto, não há nada definido, mesmo que no percurso de se encontrar no mundo sejamos jogados no mais puro abismo onde o mal olha-nos ameaçadoramente nos olhos. Não é consolo, menos

(*) Krishnamurti Góes dos Anjos é escritor, pesquisador e crítico literário. É colaborador de vários sites, revistas e suplementos literários.

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livros são fotogênicos cliques de leitores

livro: Internamente eternamente, poesia, Gustavo da Cruz (2017) foto: Brenno dos Anjos

livro: Não temos Wi-fi, coletânea de pequenas ensaios, reflexões e crônicas dos autores Cyelle Carmem, Lau Siqueira, Letícia Palmeira e Linaldo Guedes foto: @aventura_entrelinhas

livro: Traço-oco, poesia, Paulo Nunes (2018) foto: Rui Martins Jr. revista penalux

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resenha Os vários tons no romance A noite em que o amor morreu Por Alexandra Vieira de Almeida (*)

O

romance A noite em que o amor morreu (Penalux, 2018), de Taís Morais (escritora que já foi premiada em 2006 com o prêmio Jabuti de melhor livroreportagem), é extenso, dando ensejo para uma trama bem construída, com todas as peças encaixadas perfeitamente. Como num quebra-cabeças, somos conduzidos a encarar um livro realmente revelador, em que o tom funesto e sombrio do prólogo abre o caminho para que o sol da escrita ilumine os espaços coerentes de uma narrativa longa que engloba capítulos que se estruturam com grande beleza e novidade a cada nova página. O romance, entre o documental e o ficcional, mostra com realismo e exatidão os diferentes tons das cores sombrias e claras. O tema da obra é a ditadura militar e seu sistema de opressão e desumanização, contrastando com a liquidez humana de personagens complexos, feitos de várias camadas e tons inesperados. O romance, escrito em terceira pessoa, com um narrador onisciente, dá voz aos militantes de esquerda que a partir da pluralidade de vozes nos mostra as camadas profundas dos seres, numa tomada psicológica do livro. Angelina, a personagem principal, que se filia ao PCdoB, aparece logo no prólogo presa juntamente com uma militante das matas do famoso Araguaia, Maria, que foi palco da luta armada contra a ditadura incoerente e cruel. Mostrando as torturas iniciais destas duas personagens, Angelina e Maria, somos levados a cenas impactantes e fortes, revelando a grande maestria da escritora Taís Morais, que nos apresenta um quadro real do que acontecia na época. Conhecedora da história deste tempo sombrio, o livro começa pela metáfora do obscuro, do desfigurado, já que os militares apresentam os rostos nublados pela penumbra do local. Sofrendo torturas, as personagens nítidas e claras, como o clarão do amanhecer, revelam a fragilidade do humano frente à lei do mais forte. Os militares tratam as duas personagens com palavras chulas e vulgares, utilizando-se para isto da zombaria, do deboche e do cinismo com relação a elas. O

livro, que se compõe deste prólogo na prisão, onde a narrativa quebra a linearidade do tempo cronológico, depois segue uma linha com início, meio e fim, nos 21 capítulos seguintes. O livro tem um tom de mistério desde o início, onde somos conduzidos pela autora a um romance envolvente e que prende nossa atenção, numa leitura ágil e plural, apesar das 344 páginas. No meio da violência e da agressão dos militares, temos o espaço para a compreensão e amizade que se forma entre as duas. O narrador onisciente é uma estratégia narrativa para este tema político, pois a impessoalidade funciona como um tom de verdade e isenção frente a um olhar reduzido a particularidade de uma pessoa. O narrador heterodiegético vai explicando os vazios, preenchendo o que não foi explicado antes. Com uma incógnita inicial, o narrador ilumina a narrativa. Utilizando a linguagem própria da época, temos o vocabulário específico da ditadura, com relação às torturas, como a “cadeira do dragão”. Entre as duas se forma uma parceria nos dias difíceis, apresentando a compaixão uma pela outra. E o que nos define é a nossa humanidade, de sermos feitos de pele e ossos, mas também de ideais, como a tentativa da politização das massas e a busca pela liberdade de opiniões e pela democracia. No meio deste caos cruel da ditadura, eis que surge uma espécie de anjo misterioso que dá comida às duas e leva o recado de Angelina para fora da prisão no intuito de conseguir a liberdade e se comunicar com os pais. Na verdade, o livro excepcional de Taís tem todo um tom misterioso e enigmático que vai sendo clareado pelo narrador, que dá pistas ao longo do livro sobre como será o desfecho da obra, num tom surpreendente no último capítulo do romance, que se chama “Revelações”. No romance por ora aqui apresentado temos a violência descomunal frente à fragilidade do ser humano. Nos capítulos seguintes somos levados ao tom cotidiano e corriqueiro da vida familiar, onde somos apresentados aos seus pais Paulo e Marisa. Paulo, advogado, trabalhava no Tribunal de Justiça do Rio de 19

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A noite em que o amor morreu, romance de Taís Morais. Penalux: Guaratinguetá/SP, 2018, 344 p.

Janeiro. Depois se muda com a família para Brasília, obtendo um novo emprego. No primeiro capítulo, temos um quadro fotográfico de Angelina e seus pais, com a descrição minuciosa das características físicas e psicológicas deles. São verdadeiros retratos familiares que se utilizam da precisão linguística. O retrato iluminador do primeiro capítulo contrasta com o tom sombrio e violento do prólogo, revelando grande força e impacto narrativo da escritora Taís Morais. O tom aqui é amenizador, mostrando o entrelugar entre a tensão e o prazer na vida de Angelina. Temos aqui um tom ameno na narrativa, quebrando a expectativa do dramático e impactante. Angelina se torna estudante da UnB, após se mudar para Brasília e, por lá, a partir do movimento estudantil, passa a assistir às reuniões dos militantes de esquerda. No primeiro capítulo, temos o tom de celebração da vida, enquanto o prólogo é o quadro aterrador da morte e da crueldade. As origens de Angelina na luta contra a opressão estavam desde o início na faculdade de Pedagogia, com sonhos de educar os alunos para a liberdade de expressão. Nas reuniões, Angelina conhece Renato, um lindo militante por quem fica interessada e logo tem um relacionamento com ele, que é quebrado pela procura dele por “amor livre”. Angelina queria compromisso. Ele não. Ela logo muda de área na faculdade para revista penalux

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acompanhá-lo e entra para o jornalismo, com a mesma visão utópica de um mundo melhor de um curso para outro. No início, ela percebe a igualdade entre homens e mulheres no movimento socialista: “No vestuário, a calça jeans tornava-se um símbolo. Mulheres e homens podiam vestir a mesma peça de roupa.” Angelina passa a ficar cada vez mais engajada no movimento revolucionário, tendo um afastamento da vida familiar e, futuramente, ao longo do romance, este é todo o conflito pelo qual a personagem passa – viver no seio da família ou da luta armada revolucionária. No meio desta revolução, Angelina perde amigos para a tortura e para mortes no choque entre militantes e militares, sendo ela mesma presa duas vezes pelos opressores ao longo do livro. Na narrativa, temos outro tom que desconcerta a força bruta da ditadura, a beleza do amor entre duas amigas desde a infância, Angelina e Lílian, que é diagnosticada com câncer. Quanto sentimento fraterno entre as duas e quanta dor no coração de Angelina pela amiga. Angelina gostaria de estar no seu lugar. Por isto, apesar da mãe de Angelina, Marisa, acreditar em Deus, a personagem principal revela sua descrença. Lílian não participava do movimento estudantil. Temos um ponto alto no livro em que nós somos apresentados aos tons contrastantes entre as 20


duas amigas no aspecto da psicologia, apresentandonos a densidade psicológica das duas. Os pais de Angelina são contrários à posição da filha, assim como Lílian. A doença em meio à luta mostra o quanto de força há no seu livro, nos mostrando os diferentes matizes de sua narrativa, beirando entre o sofrimento, a fragilidade, a violência e o tom erótico quando Angelina conhece Arthur, seu grande amor, após a decepção com Renato. Entre a tensão e o tesão, somos conduzidos a vários níveis na sua narrativa, que é feita de muitas camadas a encorparem a força expressiva de um romance rico e multifacetado. Apesar do tom também documental, temos a movência do ficcional de sua narrativa. Paulo, pai de Angelina, pede ao coronel para soltar os amigos comunistas de Angelina que se envolveram num assalto. Ele inventa, mente sobre a história verídica, fazendo uma torção no real. Além disso, Angelina tem sonhos em meio à luta armada e à prisão, ou seja, o espaço da delicadeza adentra e fere o espaço da violência. A leveza e o peso convivem, de forma plural e impactante, na sua narrativa plena de significados e expressões. Além da fragilidade da doença, temos os tons corriqueiros, com os divertimentos, festas e cenas picantes de sexo entre Angelina e o misterioso namorado e futuro marido Arthur, que ela conhece no bar. A sensualidade predomina toda vez que os dois se encontram, eufemizando as cenas de tortura e violência, que percorrem o livro. Chateada com as constantes viagens e sumiços de Arthur, Angelina continua atuante no movimento de esquerda, algo que Arthur não aprova, achando que é uma sandice dela. Temos, assim, os amores em meio às guerras, as doses de humor e erotismo em meio à frieza das situações. Além disso, temos os tons amenos das conversas triviais entre as personagens. Também temos os fios da

narrativa bem datada e detalhada, como se o narrador onisciente quisesse dar veracidade a uma história que mistura personagens ficcionais com a descrição de figuras reais. Os militares utilizam xingamentos e violência contra Angelina para descobrirem informações valiosas para o sistema de opressão: “Os repressores gostavam de fazer os esquerdistas sentirem dor”. O extremo sadismo do opressor quer calar as minorias. Temos até a linguagem figurada na carta de Isaura para Angelina, mostrando como eles se comunicavam em códigos nesta época de terror. Como os militares desarticularam a luta urbana, os militantes se embrenham nas selvas de nosso país, como na guerrilha de Araguaia. Portanto, neste belo e envolvente livro de Taís Morais, temos os vários tons da narrativa que faz de seu romance algo múltiplo e dinâmico, onde assuntos político-sociais são mesclados às cenas familiares de uma história muito bem contada. Temos as brincadeiras e troças entre as personagens com seus risos ecoando no meio da escuridão da luta armada e nos dias de chumbo da ditadura. Temos também a força de condensação de sua narrativa num mesmo capítulo que apresenta assuntos variados. Apesar das 344 páginas do livro, somos conduzidos por uma narrativa ágil e plural que não nos enfada. Ao contrário, sua narrativa nos envolve nos vários tons que ela percorre. Temos os espaços contrastantes da prisão e do lar. A luta entre o amor e o ódio. O sofrimento e o gozo erótico, fazendo de seu livro um rico mosaico em que várias camadas contrastantes são reveladas e animadas pelo dom de sua admirável escrita. (*) Alexandra Vieira de Almeida é escritora e doutora em Literatura Comparada (UERJ)

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vitrine Eumara Maciel. O sem fim da infância

gênero: crônicas | formato: 14x21 | ano: 2018 | 78 p. | pólen soft 90 gr

Essas são crônicas das cartografias de uma infância repleta de fatos memoráveis do cotidiano de uma comunidade no interior da Bahia, que têm dimensões humanas e ultrapassam qualquer geografia ou particularidades, quando tratam de temas universais, tais como: o nascimento, a infância, a velhice, a morte, a chuva, o ato de comer, as enfermidades, a escola, entre outras abordagens que, de maneira leve, local e global ao mesmo tempo, traçam mapas das gentes, das imagens e das emoções como um modo particular de voltar até aquele lugar. De rever as pessoas. De reviver, através desta escrita, o que não é mais tangível. www.editorapenalux.com.br/loja/o-sem-fim-da-infancia

Sabrina Dalbelo. Lente de aumento para coisas grandes gênero: poesia (selo castiçal) | formato: 14x21 | ano: 2018 | 118 p. | pólen soft 90 gr

Lente de aumento para coisas grandes coloca uma lupa sobre o leitor e seu mundo. Nosso mundo. Quem somos nós dentro de um contexto ou outro? Quem? Somos desertos, multidões, solidariedade, solidão. Somos aquilo que pensamos ser ou o que achamos que o mundo espera de nós? A autora certamente não responderá a estas questões, ninguém jamais irá, mas nos convidará à reflexão a partir de um olhar de íntima proximidade. Um olhar de estranhamento, de admiração diante do cotidiano, do familiar. Visto assim, de pertinho, tudo pode ser diferente, tudo pode se (re)significar. E Sabrina Dalbelo nos desafia: “experimente / olhar sinceramente / sem rotular / liberta / faz gente” “experimente / principalmente / para um indigente / para um menos gente”. Por Paula Giannini www.editorapenalux.com.br/loja/lente-de-aumento-para-coisas-grandes

Gilvair Messias. A fábrica de desfeituras

gênero: poesia | formato: 14x21 | ano: 2018 | 150 p. | pólen soft 90 gr

Rico em referências, o poeta Gilvair Messias mostra que bebeu de muitas fontes para construir seu próprio estilo, que é rico daqueles elementos próprios ao texto poético, como a polissemia, as aliterações, o ritmo. Mas, além da forma, há um ser perplexo diante do mundo, quando se pergunta “O que direi do que não senti? Não sou dado ao raciocínio exato” (Ignorância); e totalmente absorvido pela recriação desse mesmo mundo incompreensível, através da arte poética que, na minha apreciação, tem seu ponto alto nos versos “Havia um grão de menino no meio da praia/ E dentro do menino havia a praia/ E na praia, o vazio do mundo/ E, no mundo, a miudeza de um menino" (em O mundo num grão de areia). [...] Gilvair Messias é teólogo e o sagrado se lhe revela em tudo a volta. [...] Livro de estreia, sim, mas que nasce maduro. Ou seria melhor dizer, que nasce pronto a se desfazer, a ser refeito por outros olhares poéticos. Por Marco Túlio Costa www.editorapenalux.com.br/loja/_ revista penalux

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Revista Penalux, nº 1 | Março de 2019  

Revista digital com conteúdo relacionado aos livros e autores da Editora Penalux.

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