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CONTATO: PENABUNDA@IG.COM.BR

PARA LER BATUCANDO NA CAIXA DE FÓSFOROS

PE NA BUNDA

NÚMERO 11

ANO I

NOVEMBRO 2012

DISTRIBUIÇÃO GRATUITA

A Última Batalha do Naval Depois de quase fechar suas portas, bar centenário do centro de Porto Alegre reabre com uma nova proposta

O

“João Fernandes manteve os pratos que conquistaram os clientes do Naval e ajudou a criar a aura que o bar sustentou até a época da reforma.”

NA PRÓXIMA EDIÇÃO: Traremos um ensaio artísticonu-bagaceiro-sem roupa de Celestino Rufião.

senhor de 50 anos entra no bar e caminha até a sua mesa preferida, perto da saída para a Avenida Borges de Medeiros, onde mantém cadeira cativa. Enquanto aguarda a hora do almoço, recebe amigos, rabisca letras de um samba em folhas de papel e bebe um aperitivo. Frequentador assíduo do estabelecimento, ele conversa com outros clientes sobre assuntos comezinhos, como a nova moda da minissaia e a posse do prefeito Célio Marques Fernandes. Lá fora, os bondes circulam com passageiros vindos dos bairros em direção ao terminal da Praça XV. Foi uma greve de bondes, em 1953, que serviu de inspiração para ele compor parte da letra do hino do seu time de futebol, o Grêmio Foot-ball Porto Alegrense. "Até a pé nos iremos, para o que der e vier, mas o certo é que nós estaremos, com o Grêmio onde o Grêmio estiver". Talvez o leitor já tenha adivinhado de quem se trata. O personagem em questão é o compositor Lupicínio Rodrigues e o cenário é o Bar Chopp Naval, que completou 105 anos em maio. Lugar frequentado por anônimos e figuras ilustres como Túlio Piva, Leonel Brizola, Elis Regina e Glênio Peres, o Naval sobreviveu à enchente de 1941, ao período militar e a diversos planos econômicos, mas não resistiu às necessidades de modernização. Depois de um período de reformas, o bar

PÉ NA BUNDA: o Oliver Anquier da boemia!

reabriu as suas portas com um novo ambiente e apostando em uma proposta gastronômica que lembra o clima dos bistrôs e restaurantes europeus. Ponto de encontro de jornalistas, boêmios, intelectuais e políticos, o Bar Naval foi inaugurado em 11 de maio de 1907 e já esteve na mão de muitos donos. O mais conhecido deles é João da Costa Fernandes, atual proprietário, que chegou a Porto Alegre em 1958 e comprou o Naval de um conterrâneo de Portugal, em 1961. “Ele chegou ao Brasil e foi trabalhar no restaurante de um irmão na Avenida Cristóvão Colombo. Um ano depois já estava no Café Soberano, no Mercado Público”, conta o jornalista Fabrício Scalco, responsável pelo Jornal do Mercado. João Fernandes manteve os pratos que conquistaram os clientes do Naval - o bolinho de bacalhau, o violento mocotó, a terrível feijoada, os peixes e

frutos do mar inspirados na cozinha luso-brasileira – e ajudou a criar a aura que o bar sustentou até a época da reforma. Para quem olha de fora, o centenário estabelecimento localizado no Largo Glênio Peres, no Centro Histórico de Porto Alegre, parece manter-se fiel aos traços arquitetônicos que c a r a c te r iz a m o v e lh o Mercado Público. Porém, ao entrar na loja 91 é possível perceber que o local passou por uma grande reforma. E não foram apenas as mesas e cadeiras que foram trocadas. O processo de restauração dos afrescos e da arte do teto deixou o ambiente mais moderno. “A gente buscou repaginar o Naval, mas sem perder a questão histórica, a coisa da boemia”, avalia o novo responsável pelo bar, Jader Hack Gomes, de 25 anos. Formado em Direito e filho de uma família que administra outros restaurantes na capital,


TIRAGEM: 600 DECIBÉIS

EXPEDIENTE: DIAGRAMAÇÃO: GAMBRINUS ARTE: TREVISO

A última batalha do Naval (continuação)

“O Naval era um bar com fantasmas, alguns embriagados.”

INDICADORES: QUEIJO COLONIAL R$18,00 / kg SARNA PARA SE COÇAR - R$ 5,00 SABUGO DE MILHO R$ 2,50 / unidade BEIJO DE PRIMA - grátis CUCA - R$ 4,00

Gomes está no comando do local. “Nos últimos 10 anos o seu João teve problemas de saúde e não pode acompanhar o restaurante como gostaria. Isso acabou gerando alguns problemas financeiros que fizeram com que ele não tivesse mais condições de gerenciar o bar”, explica. A solução foi oferecer o Naval para a família de Jader. “Mas quando pode, ele ainda visita o restaurante”, completa. A n ova decoração, executada ao longo de nove meses, destaca os arcos originais, mostrando e valorizando os antigos tijolos, os espelhos com facetes e o piso preto e branco. “Procuramos manter a parte histórica do bar e reformamos outras porque não tínhamos mais como levar adiante, inclusive por causa do processo de modernização pelo qual está p assan do o Mercado Público”, justifica Jader. O lugar agora conta com b an h eiro p róp rio, ambiente climatizado e lembra um pouco o vizinho Gambrinus. As mudanças não ficaram apenas na parte física. Os pratos do novo cardápio foram elaborados com a consultoria do chef e professor do curso superior em Gastronomia da Unisinos, Alexandre Baggio, e valorizam a cozinha portuguesa e espanhola. O bolinho de bacalhau, por exemplo, preserva a receita utilizada há 40 anos, mas chega à mesa em formato de p alit o, p are cen do u m charuto. “A quantidade de bacalhau é a mesma e os temperos são os mesmos, só mudamos o formato”, explica Baggio. O resultado da modificação pode ser percebido nos almoços de

MANTENHA O BOTECO LIMPO

PÉ NA BUNDA: sua companhia de copo!

sábado, quando as 11 mesas da área interna e as sete da externa ficam lotadas. Ali é possível ver famílias reunidas para apreciar um risoto de camarão, uma tainha recheada ou um filé a parmegiana. Trata-se de um público que geralmente não vai ao centro da cidade durante a semana e aproveita o sábado para comprar as especiarias que só o Mercado Público oferece. “O novo Naval está sendo bem aceito e os antigos clientes estão voltando”, comemora o garçom Marco Aurélio, de 39 anos. Ele faz parte do time de oito fu ncion ários que trabalham na casa.

Enquanto esteve fechado para reforma, o Bar Naval deixou a sua clientela desamparada. Muitos passavam pelo local sem imaginar qual seria a proposta apresentada pela nova administração. “O Naval era um bar com alma e fantasmas, alguns embriagados. Sua freguesia ia desde os marinheiros brigões de décadas passadas aos pacatos cidadãos de hoje”, relemb r a o jorn ali sta Fernando Albrecht. Para os saudosistas, foram preservadas placas, recortes de reportagens nas paredes e algumas fotos – entre elas, uma autografada por Vicente Celestino, em 1947. “Já frequentei o Naval antigo,

mas ainda não fui depois da reforma. O bar é um dos pontos tradicionais da cidade, importante para a memória da população”, destaca o escritor e jornalista David Coimbra. Os frequentadores do velho Naval certamente não deixarão de fazer comparações, mas a verdade é que o novo lugar irá se beneficiar da aura histórica do antigo bar. Além disso, o local seguiu a tendência dos estabelecimentos que buscaram se adaptar aos novos tempos. Se a cidade se moderniza, porque os seus espaços permaneceriam imutáveis? ”Tudo foi fruto de muita pesquisa, trabalho e sugestões de clientes”, defendese Jader. “Sem eles o Naval não é nada, por isso repaginamos sem perder a essência. Não é mais um restaurante, mais um bar, é o Naval”. E para aqueles que acham que o bar não será mais o mes m o, é b om lembrar que a cadeira em que Lupicínio Rodrigues costumava sentar todos os dias permanece lá, em destaque, no alto de uma viga. Uma singela homenagem a um dos muitos clientes que ajudou a transformar o Naval em símbolo de Porto Alegre.


Pé na Bunda nº 11 - NOV 2012