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Tempo de Borboleta [ou A vida íntima de um pensamento em construção]

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Tempo de Borboleta [ou A vida íntima de um pensamento em construção]

por Monteiro Júnior

Teresina-Pi, 2007-2012

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Ao amor que estĂĄ por aĂ­, desencontrado de mim.

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Primeira memória

ME CHAME DE MENTIROSO ou de farsante, mas me lembro perfeitamente do dia em que nasci; não era dos dias mais belos nem chovia de forma romântica, acredito que estava um calor infernal naquela tarde mal desenhada, as emoções não brotavam como flores na primavera e eu praticamente fui expulso e privado da escuridão reconfortante para encarar a olhos arregalados de pavor a existência; sim, porque a primeira vez que você existe é como não conseguir entender que a verdade nunca é absoluta, existir pela primeira vez é ser um pensamento sem apoios, sem começo nem fim, são sinapses articulando coisas que não fazem sentido, pois você não sabe o que é lógica ou as ramificações indeléveis do abstrato, enfim, existir pela primeira vez é terrivelmente assustador. Olhos bem abertos, apavorados, o fedor em um líquido gosmento me abraçando, me envolvendo como um manto infernal e consciente, e eu olhando para a caverna de onde me arrancaram sem perguntar se era mesmo isso o que eu queria, ter consciência da minha própria consciência, de mim mesmo como um ser existente, e à medida que a caverna se afastava, ou me afastavam dela, aquele buraco que representava paz foi se transformando numa angústia, num vazio, numa solidão que começava a nascer dentro de mim ao mesmo passo em que eu nascia no mundo, na existência, na consciência; consciência... um belo punhal incrustado na nossa espinha dorsal que sentimos sair pela nuca quanto mais a gravidade

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e o passar dos anos conspiram para nos fazer curvar e encarar o fim dos nossos dias olhando para pés enrugados e unhas apodrecendo. Enquanto faziam experiências endócrinas comigo, minha cabeça agindo sem vontade virou para o lado esquerdo só um pouquinho, uma bobagem de nada, talvez não tenham sido nem 45 graus completos, um reflexo sem paixão, e pela primeira vez no primeiro dia de minha estranha existência, aliás, no primeiro minuto de minha estranha existência, nas minhas primeiras observações empíricas do que é existir, eu vi o amor e ele me viu, eu acho, e nesse momento peculiar as coisas pararam de andar e os objetos caíam para cima lentamente, um nada sutil truque da gravidade para que eu nunca esquecesse esse momento; vi o amor pela primeira vez em uma tarde quente na primeira metade do século XX, o século dos malditos, no primeiro minuto do primeiro dia da minha existência. Alguma enfermeira certamente sem sensibilidade virou minha cabeça de volta para a linha do umbigo, mas eu lutei bravamente e tornei a olhar para o lado na direção do amor, ofegando de êxtase pela primeira vez, por isso mesmo o êxtase mais puro da minha vida, e, pasme, ele não estava mais lá, em nenhum lugar, em nenhuma linha que o desespero dos meus olhos percorresse, e de repente tudo voltara a ser estranho e sem sentido como sempre foi, eu voltei a ter consciência de mim como ser existente dentro de uma camada grossa e consistente de melancolia, nada parecia se encaixar em coisa nenhuma, o amor tinha ido embora, sumido, evaporado, um eclipse sem presságio, um relance de plenitude que não passou de míseros trinta segundos sem gravidade; meus olhos se fecharam abraçando o desespero, e o vazio doeu, doeu muito, tanto que chorei pela vez na existência, um berro respeitoso de um pensamento maculado, desamparado, enquanto todos sorriam e aplaudiam como se estivessem felizes com a minha tristeza, risadas e aplausos, aplausos e gargalhadas tolas, hipócritas, sem noção do que estava realmente acontecendo; no segundo minuto do meu existir mal escrito, eu entendi que havia perdido o amor, por não ter tido coragem de assumi-lo e lutado por ele, e em vista

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disso resolvi voltar a morrer, sem qualquer esforço de vida no meu corpo recém-nascido. Foram exatamente sete paradas cardíacas até que eu me convencesse de que realmente me queriam vivo, não sei por qual motivo, e exatamente sete dias depois minha mãe achou que tudo estava bem e me levou para casa, para o berço dos meus primeiros anos, cheio de coisas estranhas flutuando sobre minha cabeça e minhas primeiras fantasias começaram a se formar; a essa altura eu já havia me conformado e aceitado a incumbência de um existir triste e incompleto, em busca de algo que ironicamente não era nem abstrato e nem concreto, mas um volume de sentimentos e sensações que eu não conseguia encontrar em mim mesmo, pois a lembrança de ter visto o amor instantes após meu despejo da caverna onde a escuridão não cobrava nada de mim se confundiu às minhas ansiedades de um melancólico prematuro e me vi obrigado a interpretar um papel específico de ser humano, bem específico.

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Segunda memória

NÃO PRECISO DIZER

que fui uma criança sem aquela

empolgação infantil que a maior parte das crianças tem, creio, sempre deslocado, insociável, com questionamentos tolos azucrinando os adultos que se aproximavam de mim com uma pena constrangedora nos olhos, olhos que claramente perguntavam “o que tem essa criança?”, “por que ela é triste?” e “de quem é a culpa?”, coisas assim, cujas respostas nunca eram ouvidas, pelo menos não fora de quatro paredes; não preciso dizer que ia ao médico a cada dois meses e que o doutor sempre me dava o pirulito azul dentre dez cores diferentes, demorei a entender isso como sendo um sinal da minha própria personalidade, e que a luz que entrava no meu quarto era difusa, dispersa, sem muita vontade de iluminar coisa alguma, brinquedos sem vida, roupas sempre limpas e engomadas vestindo fantasmas que não sabiam fazer outra coisa a não ser chorar e pedir para serem logo esquecidos, assim poderiam retornar ao início do ciclo de onde nunca deveriam ter saído; não preciso dizer que entrei na escola com três anos de atraso, que nunca conseguia me enturmar nem me interessar pelas coisas que me ensinavam, nada era muito distante da teoria de topar-cairlevantar-entender a topada, nada preenchia a angústia, a ansiedade e o sentimento de solidão que acabou se tornando um vício muito antes que eu viesse a me interessar em entender isso; milhares de coisas sem qualquer importância ou interesse aconteceram comigo durante essa fase

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da minha vida e todo esse tempo jogando tempo fora apenas uma dúvida real ziguezagueava feito cobra rastejando na minha cabeça: “quando é que eu finalmente poderei dizer como me sinto?” Entrei na puberdade com uma terrível dor de cabeça e a primeira vez que ejaculei foi devido a um escorregão no banheiro, gostei da sensação e de certa forma achei que aquilo reproduzia bem o que eu havia sentido ao ver o amor no primeiro minuto da minha existência, e inventei de escorregar no banheiro toda vez que meu pênis estivesse a 90 graus do meu umbigo, um pouco maior do que ele é na maior parte do tempo; não demorou muito a eu constatar que o prazer vem da dor e grandes hematomas se formarem no meu corpo, mas foi somente depois de eu quebrar um dente da frente que meu pai veio ter uma conversa comigo e me ensinou as delícias do sabonete e outras coisas do tipo “todo menino tem que saber antes de inventar escorregar no banheiro”; aos doze anos minha cara era um continente terceiro mundista cheio de vulcões em erupção, nada muito atraente, porém politicamente coerente com o que acontecia no mundo nessa questão, talvez por isso tenha começado a tirar boas notas em Estudos Sociais, meu rosto me ensinava tudo o que eu deveria aprender. Não fui beat, hippie, punk, não escutei Beatles, não absorvi a Tropicália, muito menos dancei a Jovem Guarda, eu era um rapaz muito velho e consciente de minha própria existência para me importar com a existência alheia, a minha tristeza e solidão criavam uma redoma que me protegia de influências externas e às vezes eu utilizava o sarcasmo achando que era absolutamente normal e inofensivo; andava sempre cabisbaixo como se carregasse um anjo negro nas costas, mas não porque eu quisesse carregar um anjo negro nas costas, que isso, e sim porque eu queria ver até onde meus pés me levariam e antever nem que fosse pelos mesmos míseros segundos em que vi o amor o abismo terrível que me comeria vivo, acreditava que assim eu teria algum controle sobre a minha vida, por mais que isso fosse um pensamento ridículo; nessa brincadeira de interpretar a

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amargura e a desilusão não me vi passar bem ao lado do amor, que ainda olhou para mim como um animal atraído pelo instinto, eu continuei andando na contemplação de minha própria melancolia, o amor suspirou e reconheceu pesaroso que o momento já havia passado, deu os ombros e seguiu seu caminho dobrando a esquina, na mais absoluta acepção do clichê quando eu dei por algo levemente diferente no ar e olhei para trás o amor já havia sumido novamente e eu voltei a carregar meu anjo negro nas costas, ou melhor, a seguir meus pés como se no mundo só houvesse chão e nada além disso. Quando bateu o desespero, não imaginava que seria como sete punhaladas no seu fígado, pois geralmente quando o desespero aparece e lhe cumprimenta como que de passagem, mas que como um forasteiro inconveniente termina ficando e ainda por cima trazendo o caos a tiracolo, você só vem a compreendê-lo realmente depois que ele vai embora ou se disfarça de um leve incômodo na barriga; quando o desespero bateu a realidade se tornou pesada demais, eu me via perseguindo pessoas com os olhos e me apaixonando por qualquer uma que conseguisse a façanha de dizer meu nome sorrindo, e olha que meu nome é de certa forma engraçado, uma mistura de globalização das mais óbvias com religião de cabaré e a velha perspectiva de que o terceiro mundo só existe porque o quarto já seria o inferno, ou o céu, dependendo de como você encara as coisas. E lá estava eu fantasiando todo dia o pacote completo: encontro, pizza, beijo, namoro, sexo, briga, noivado, casamento, sexo cinco vezes ao dia por pelo menos cinco anos, o número caindo gradualmente até o inevitável ground zero ou as infalíveis datas comemorativas, filhos lindos e loiros, bilhões de contas a pagar, sonhos indefinidamente adiados e um cachorro chamado Totó, sim porque é preciso ter mais de um cachorro nessa história; bastava eu bater o olho que o filmezinho começava a rodar, e eu naquela de “que diabos está acontecendo?” ou “cadê, cadê?”, o retrato trágico e emoldurado de um adolescente na maior carência de

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amor da história da humanidade ocidental batizada pelas lágrimas da culpa por Jesus Cristo ter morrido há dois mil anos; nas horas vagas ficava imaginando se quando eu morresse alguém iria ficar se culpando por tanto tempo assim. Numa dessas acabei transando com a minha vizinha, quando se atira pedra para todo lado não tem como você não acertar alguma coisa, e como era minha primeira vez sentia meu coração batendo na garganta, quase obstruindo o fluxo de ar que já não era lá essas coisas; nossa, o contato pele com pele é a sensação mais absurda do mundo, surreal e real ao mesmo tempo, como se você ouvisse uma música fugindo das notas gigantescas, aquele corpo feminino intelectualmente desnudado pelo empirismo ia contra tudo o que eu havia aprendido na escola e eu pensei que o sexo devesse ser matéria importante com aula prática desde a alfabetização, uma vez que fazer sexo é se alfabetizar nas leis da natureza; e que natureza, aprendi quase a tabuada inteira com a minha vizinha, e se não cheguei ao z foi pelo compreensível fato de que a letra o é das mais complicadas de se averiguar com a devida profundidade; de qualquer maneira mais tarde em minha cama imaginando o pacote completo entendi que é fácil tapar o buraco da existência e a vizinha seria justamente a rolha, ou algo do gênero, e no dia seguinte ao procurá-la com um poema caprichado que ela ouviu com a expressão mais absoluta de horror seus lábios foram a personificação máxima da crueldade humana: “cai fora, garoto, só te fiz um favor”. Nos meses seguintes fui abatido por uma depressão e uma tosse muito intensa e achava que iria morrer do mal do século, o problema era que eu estava no século errado, portanto nada que um bom remédio não resolvesse; trancado no meu quarto enquanto a vitrola cantava Marlene Dietrich, que eu ouvia por ouvir, durante trinta dias jejuei a passagem da minha adolescência para a fase adulta, pelo menos eu achava, escrevendo um manifesto muito particular chamado “fodam-se os pensamentos, preciso dar um jeito de sair da minha cabeça”, no qual fazia uma lista de

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coisas que faziam e não faziam sentido para mim, claro que a segunda lista era infinitamente maior e mais, digamos, engraçada que a primeira, a qual se resumia a um acontecimento aparentemente fantasioso, ou uma falsa lembrança, sendo mais técnico, que se deu no primeiro dia de minha existência; ao fim havia datilografado na máquina velha e empoeirada de minha mãe cerca de 250 páginas, o que achei absurdo e uma leitura desinteressante e toquei fogo em tudo assim que senti o primeiro sinal do que eu chamaria de uma fome contundente e comovente.

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Terceira memória

O LADO BOM DESSA EXPERIÊNCIA

foi que

finalmente aos vinte e tantos anos de idade descobri uma desculpa para a minha vida e passei os anos seguintes escrevendo, escrevendo, escrevendo, trancado no meu quarto mal iluminado com Marlene Dietrich cantando sempre as mesmas canções, os dias eram noites e as noites nunca acabavam, como se as estrelas mortas fossem renascendo a cada ciclo de dez horas e tudo continuasse exatamente do mesmo jeito; e eu escrevia, escrevia, escrevia, sobre qualquer coisa que fosse, sobre tudo e sobre nada, sobre a filosofia da tristeza e odes à melancolia, sobre a melhor maneira de se masturbar e, sei lá, sobre a morte da bezerra, coisas assim, textos de 20 ou 50 páginas e até alguns romances também, e todos eu queimava após constatar que não era bem o que eu queria, a sintaxe não era valiosa, pois eu queria ser um escritor e precisava ser exigente com o meu trabalho, caso o contrário não valeria a pena todo esse tempo trancado no meu quarto sem o mínimo de contato com o mundo exterior, contato que eu honestamente nunca tivera, então achava não estar perdendo muita coisa, além de algumas guerras e assassinatos importantes, nada realmente essencial à vida; o que eu queria de verdade era fazer um obra literária perfeita, que fosse estimulante e fundamental, e aqui me permita rir da minha ingenuidade, já que eu nunca havia lido nada até a metade e queria escrever algo que me parecesse substancial.

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Pois bem, muitos anos se passaram e eu não consegui criar a obra perfeita, não havia chegado nem longe de um parágrafo perfeito, a não ser por uma ou duas frases de efeito que mais pareciam saídas de uma novela mexicana de quinta do que de um romance colombiano, adeus Nobel ou qualquer outro prêmio que o valha, desisti de minha carreira de escritor e resolvi voltar ao personagem da minha vida, pois infelizmente a vida continuava e eu estava condenado aos cem anos de solidão sem poder pular nenhum minuto, vivendo na lembrança de ter encontrado meu amor cedo demais, o que eu particularmente achava uma tremenda sacanagem de Deus, mas enfim, a vida tem dessas coisas mesmo; tomei um belo banho, ajeitei a barba, queimei meu último romance-teste-frustrado e saí do quarto como quem sai de uma cena final de um clássico dos anos 50, cheio de pose, e apesar de ter convivido com a família nesses anos de reclusão, embora pouco, somente quem entrava no quarto uma vez ou outra para confirmar que eu ainda não havia morrido e minha mãe que era quem limpava tudo e levava minha comida, estranhei todos quando os vi na mesa de jantar, e tenho certeza de que me estranharam também; sentei à mesa desconfiado, os olhares todos voltados para mim de maneira diferente, alguma coisa estavam escondendo, mas foi somente quando eu dava a segunda bebericada no café quente que minha mãe depositou sua mão velha e trêmula no meu braço e sussurrou como que com medo de uma repreensão: “meu filho, você já é famoso”. Foi só o dia desabrochar que descobri a desgraça: tudo o que eu escrevera nos anos reclusos no meu quarto havia sido publicado, tudo, tudo, tudo; o que aconteceu foi que minha adorada mãe aproveitava os momentos em que eu dormia para fazer cópias do que eu escrevia, a princípio à mão, depois comprando outra máquina de escrever e contratando uma datilógrafa para agilizar o trabalho; resultado: um editor qualquer de esquina inventou de lançar um livro meu, deu certo e aparentemente ele fez fortuna lançando tudo o que eu escrevia, dentre contos, textos e romances, o que dava em média cinco livros por ano, e que

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minha mãe copiava e repassava para ele, cobrando os direitos, é claro, pois ninguém é besta muito menos minha mãe; o mais estranho era que os livros eram lançados sem as últimas páginas, pois eu sempre lia o que escrevia logo após concluir e queimava logo em seguida, então não tinha como minha mãe ou qualquer pessoa ter acesso às conclusões do que eu escrevia, e o mais estranho ainda é que parece que foi exatamente isso, o fato dos meus livros não terem final, que chamou a atenção tanto do público quanto da crítica, e, pasme, eu havia virado um fenômeno literário e realmente havia ganhado alguns prêmios importantes, menos o Nobel, esse não. De todo modo, felizmente não virei celebridade pois ninguém me conhecia pessoalmente, então pude voltar à minha vida desinteressante de sempre, a não ser pelo fato do editor que me conhecia ter passado a me pressionar a continuar escrevendo sob a chantagem dele revelar para todo mundo quem eu era, e assim eu não teria sossego; mandei-o lamber o cú da avó dele e me deixar em paz, que eu podia muito bem processá-lo por ganhar em cima do meu trabalho sem que eu nunca soubesse disso, mas os argumentos dele eram todos num tom mais alto que os meus e o desgraçado ficou no meu pé até eu aceitar assinar um contrato de mais cinco livros com a editora dele; voltei para o meu quarto e só saí quando os cinco livros estavam escritos e por conta disso entrei numa depressão profunda, perversa, esperta, e cheguei mesmo a tentar me matar, no que falhei miseravelmente pois na hora h faltou energia em casa e tive que ver se mamãe estava bem; a minha infelicidade era tão grande que eu acreditava que nem para morrer eu prestava, então saí à toa numa noite fria e sem estrelas, o céu estava absurdamente desolador, não havia poesia ali, nada, nenhum milagre e nenhuma esperança, apenas um imenso vazio sobre minha cabeça, como se eu estivesse andando dentro de mim mesmo vendo meu próprio vazio existencial; de repente tropecei em alguma coisa e caí violentamente no chão, como há muito tempo não acontecia ejaculei dentro da roupa e isso me fez lembrar do amor que havia deixado escapar

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mais de trinta anos antes e como eu era um ser assumidamente triste por causa disso; olhei para trás e vi que tropeçara numa garrafa de cerveja, eu estava diante de um bar, então aquilo só podia ser um sinal, tinha que ser. Sem que eu menos percebesse, eu havia encontrado um jeito, outra desculpa, para minha vida e vi que beber podia ser a solução para todos os problemas do mundo, todos os males e todas as tragédias e tristezas, pois tudo perde foco quando se está bebendo e ao mesmo tempo tudo vem à tona com intensidade e você pode encontrar conforto no ombro de outro bêbado; durante muito tempo eu não voltei à minha casa, aquele barzinho lindamente vagabundo era minha casa agora e durante muito tempo não houve um dia, uma hora ou um minuto em que eu não estivesse bêbado, em que eu não estivesse em um êxtase que embora não seja puro desconstrói você a ponto de proporcionar uma nova construção individual dentro da bebida que você está tomando, ou seja, você vira o que o seu copo quer que você vire, isto é, o seu copo quer que você vire ele, e rápido para não esquentar; enfim, fiquei muito amigo do pai do dono do bar, outro bêbado inveterado, e dei todas as coisas para ele, dinheiro, cartões, senhas, tudo o que estava comigo, e assim pude passar os anos seguintes da maneira mais visceral e viscerante de todas: enchendo a cara vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, sem comerciais. Nada muito recomendável, eu sei, mas era isso ou me deixar tragar de uma vez por todas pela depressão, as duas coisas matam mas a depressão é uma morte menos, digamos assim, alcoólica, nesse caso havia escolhido tapar meu buraco com álcool ao invés de veneno de rato ou cianureto de potássio, para ser mais teatral, e se a bebida mata o corpo a depressão mata a alma – e o que diabos é um corpo sem alma? –, assim confesso que não foi das escolhas mais difíceis que tive na vida; eu só tinha que fazer quatro coisas, basicamente: beber, me alimentar, fazer as velhas necessidades número 1 e número 2, que comprovam que os seres humanos são de fato podres organicamente por dentro, e entreter o pai do dono do bar que estava clinicamente fadado a morrer de cirrose e já se conformara

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com tal destino, por isso decidira abraçar o Cão e morrer feliz, isto é, bêbado, e minha preocupação era fazer o velho permanecer vivo o máximo que eu pudesse, caso o contrário corria o risco de perder minha função de bobo da corte de vossa majestade embriagada, então vez por outra me lembrava de fazê-lo beber água, principalmente após vomitar sangue e outras coisas que, juro, não conseguia identificar como sendo humanas; seu filho, o dono da espelunca dos melancólicos, assistia àquele espetáculo de lenta degradação de forma passiva, com olheiras e expressão moribunda, em um silêncio comovente, que eu nem me importava por estar bêbado demais para isso, ainda assim chegou a mim e falou: “cuide do meu pai, faça as vontades dele, mas que quando chegar a hora ele morra em seus braços, não nos meus”.

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Quarta memória

COMO FUI FELIZ VIVENDO AQUELA INFELICIDADE, comendo, mijando, cagando e bebendo, e contando piadas, nossa, eu nem sabia que tinha talento para contar piadas até arriscar contar a primeira, e foi fácil, mesmo, foi só começar a falar de mim que todo mundo ria, gargalhava, e eu achando estar falando sério; todo mundo, todo mundo, pela primeira vez na vida tinha amigos, embora se me perguntassem os nomes deles eu provavelmente não saberia dizer, como ainda hoje não sei, mas éramos um grupo unido, coeso, efusivo de certa forma, os párias da vida, os abortados pelo destino, os que não se encaixavam em nenhum lugar, sombras de gente, o fundo nojento de uma panela não lavada, a gente conversava, ria, entendia um ao outro até quando os idiomas se tornavam saladas de coisa nenhuma, pios de bêbados em noites sem céu, só espaço, só o negro querendo engolir nossas cabeças, e chorávamos, e nos abraçávamos, e nos beijávamos, e vomitávamos, tudo em conjunto para mostrar o quanto éramos amigos de verdade e pela primeira vez também compreendi como funcionava a política do país, pois eles, os de ternos, pareciam agir de acordo com a gente: bebendo, contando piadas que se levavam a sério, vomitando e enterrando o vômito e bebendo de novo. Passados alguns anos muitas pessoas vinham ao bar ver se ainda estávamos bebendo, firmes, sem parar, nossa reputação correu o mundo,

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os cavaleiros do fim do universo supostamente iriam revelar qual o sentido da vida quando o último deles desse o último gole e bebesse o último suspiro e isso seria a grande revolução da espécie humana: finalmente descobrir por que ela existe; quanto a nós, só queríamos continuar a conversa e nunca chegar a um final, os assuntos só morrem quando realmente queremos partir para outra, sair de onde estamos, e nós estávamos muito bem ali, obrigado, sem qualquer pressão social ou coisa parecida, a não ser uma vez em que o presidente em carne e osso, mais carne do que osso, veio nos visitar e indagou laconizando o que poderia ter sido um belo discurso: “por que vocês bebem?” e nossa resposta foi clara vomitando na cara dele; aborrecido, obviamente, o presidente tentou nos prender mas isso iria causar uma grande revolta da opinião pública que apoiava a gente, o que não seria tão interessante para seus propósitos de reeleição num país onde a cachaça e o futebol imperam, principalmente após o próprio dono do bar afirmar em rede nacional não ter nenhuma queixa contra a gente, pelo contrário, nossa desventura havia evidenciado o bar dele, que deixara de ser a “espelunca dos melancólicos” para se chamar Bar e Restaurante Melancolia, apenas uma mudança de sintaxe: “eles não fazem confusão, não são agressivos nem nada, somente gostam de beber, não tenho nada contra isso, nada mesmo”. Por falar no dono do bar, um ano e meio antes da insólita visita presidencial a miserável profecia autorrealizadora que nos persegue desde o dia em que nascemos, ou melhor, desde o dia em que somos expulsos do paraíso da não existência se cumpriu e o velho alcoólatra cirrótico deu seu último gole e morreu sorrindo nos meus braços, aliás, ele morreu gargalhando, completamente embriagado, falando coisas sem nexo, sem saber mesmo que estava morrendo, creio eu, mas se foi como quis ir; pobre desgraçado, nunca saberei o que ele tanto tentou me ensinar no seu último momento, se é que ele queria mesmo me ensinar alguma coisa ou se estava apenas zombando da minha cara de leso dizendo: “consegui morrer primeiro que você, seu bundão”; enterramos o velho na parte detrás do bar

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e tomamos um grande porre em sua homenagem, cada um discursando asneiras enquanto o resto não se aguentava e ria, ria, ria, talvez não querendo crer que o fim de fato tinha chegado para o velho beberrão que tanto nos inspirou ou quem sabe porque bêbado discursando em enterro é idiossincraticamente hilário; o certo é que foi a partir daí que começou nossa fama e por causa disso pude continuar morando no bar, agora com outra função, a de mascote, enquanto na lápide improvisada atrás do bar os dizeres: “bebi até o fim da grande garrafa da vida”, ideia de algum desocupado sem muita criatividade. Certa vez alguém com intelecto provavelmente superior ao meu disse haver lido a seguinte frase: “somente as borboletas são felizes, pois seu ciclo de vida é tão rápido que não chegam a vivenciar a miséria do tempo”, e fiquei com isso na cabeça achando que a frase fazia sentido do nosso ponto de vista, mas talvez não do ponto de vista da borboleta, visto que a noção de tempo varia de espécie para espécie e eu não poderia afirmar nada verdadeiro sobre a vivência da borboleta ou de qualquer outro ser vivo que não fosse eu; quem sabe a borboleta complete seu ciclo rápido, do nosso ponto de vista, obviamente, pelo simples fato dela saber o quanto é bobagem perder tempo pensando no que se vai fazer, aliás, deve ser essa a grande diferença de nós para as borboletas ou qualquer outra espécie: nós criamos neuroses em cada prosaico movimento do nosso corpo, enquanto os animais se entregam à vida com paixão e aceitam seu destino, as delícias e as amarguras que sempre acompanham a embalagem, por isso não fazem carnaval toda vez que precisam fazer uma escolha, porque na verdade eles não fazem escolha alguma; ou então, do ponto de vista da borboleta, se a cada batida de asas que ela dá centenas de pessoas morrem num terremoto ou num acidente bizarro que desafia a [nossa] lógica, ela acredita que se viver por mais tempo o mundo vai se acabar mais rápido e não vai haver lugar para a próxima largatinha nascer; evidentemente não tenho como provar nada disso pois nunca tive a oportunidade de conversar a sério com uma borboleta.

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Esse pensamento me ocorreu porque no exato momento em que eu vomitava sangue em cima de uma borboleta, o dono do bar chegou a mim com uma notícia trágica, mas no fundo engraçada: eu não podia mais ficar ali pois meu dinheiro havia acabado, todinho, não havia mais nenhum centavo nas minhas contas; o que aconteceu, e essa é a parte engraçada, foi que eu não era mais um escritor anônimo de sucesso, parece que os livros que escrevi depois para o editor, aqueles cinco, se tornaram o maior fiasco da história da literatura ocidental, levando a editora do meu editor à falência, à quebra total das palavras douradas e dos sons verdinhos, e tudo em virtude dos livros terem final, terem as últimas páginas, o que os outros não tinham; deixa eu ver se consigo explicar direito tal fato, meus livros não eram mais interessantes e nem mais aclamados por público e crítica porque tinham finais, uma vez que o charme da minha obra consistia justamente em oportunizar o leitor a criar seu próprio final, concluir a lógica do livro com a sua própria lógica e não com a lógica de um escritor que ninguém conhece a cara, e não é aconselhável se confiar em alguém que não mostra a cara, feia ou bonita, preta ou branca, com dentes próprios ou dentadura: “e o bar? sou eu quem atrai essas pessoas pra cá, sou o mascote da Melancolia”, “a Melancolia já se tornou paixão nacional, não preciso mais de você”, e assim o dono do bar resumiu numa só construção sintática toda a história do Universo junto com os meus trinta e poucos anos.

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Quinta memória

OS IDIOTAS SÃO SEMPRE IDIOTAS porque têm uma miserável tendência a almejarem uma identificação de si mesmos, a se definirem – ou desejarem se definir – através do que fazem e do que pensam, ficando presos numa teia de perguntas casuais tolas e existencialistas que apenas geram mais e mais perguntas, mais indagações sobre algum sentido para vida, o quê, o por quê, o se, elementos que regem a vida de idiotas como eu, caminhando do bar de volta para casa curando a ressaca mais violenta que um homem pós-moderno já sentiu, a ressaca do coito interrompido, do se sentir vazio sem saber por quê, o quê, o se; casa, família, jantares silenciosos e por isso mesmo opressores, e eu comendo como um robô com meu estômago ardendo como o inferno, as chamas da culpa que nos perseguem desde o batismo, e eu pensando no se, na grande lei que rege os melancólicos compulsivos, os inconformados, a “lei do se”, e “se” tivéssemos feito aquilo, e “se” não tivéssemos feito aquilo, e “se” fôssemos mais bonitos, e “se” o mundo fosse mais justo, e “se” fôssemos outra pessoa, e “se” não pensássemos demais, e “se” Hitler ou Pinochet tivessem morrido criança num acidente banal qualquer, e “se” dobrássemos a outra esquina, e “se” nunca tivéssemos nascido, e “se” e “se” e “se” o amor tivesse sido feito pra mim, e “se” eu não tivesse tanto medo de viver, e “se” meu corpo fosse absurdamente perfeito, e “se” todos conseguissem ver o meu eu interior; o “se” é úlcera, câncer, aids, solidão,

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loucura, é a coroa de espinhos dos descontentes, a música dos surdos, as pernas dos aleijados, o grito oco dos mudos, “se”... “se”... “se”... e eu janto absorto em mim mesmo como um idiota, pensando em como seria minha vida “se” não tivesse deixado o amor ir embora naquela fatídica tarde em que nasci. Por dias a fio separei cada fio de cabelo da minha cabeça com a dedicação comovente de um artesão de mãos tortas e a cada um desses fios dei um nome de tristeza, e nomes de tristeza geralmente são dados a seres predestinados a vagarem sem qualquer bússola ou constelação, seres errantes, contempladores de si mesmos refletidos no chão, não buscam o Norte e nem o Sul, desconhecem a rosa dos ventos e estão perdidos por entre os pontos cardeais, ou vai ver estão livres das convenções do contemporâneo e já nasceram pós-modernos de uma maneira muito particular, um par de sapatos velhos, uma roupa que aguenta o tranco, uma mochila surrada nas costas e pronto, o mundo é seu e nada vai tirá-lo de você, nada vai fazer você se enquadrar em regrinhas tolas justificadas por um mal necessário, você abre as portas do seu próprio espírito e deixa entrar e sair tudo o que você quiser, todo o lixo que alimenta as pessoas felizes e toda a substância que contagia os melancólicos, todos os músculos que fabricam os pensamentos, as fantasias de algo que nunca vai acontecer; nomes de tristeza: lágrima, solidão, vazio, confusão, insensibilidade, socorro, eco, fundo, escuro, mofo, saudade, superficial, travesseiro, dor, dor, dor, dor, coração, não deveríamos ter um coração, é nossa morte primária, já que vivemos pelo coração, tempo, cemitério, doença, azia, ressaca, velhice, preconceito, acidente, desencontro, fotografia, lembrança, memória, sinapse, cérebro, nascimento, vida, pulsação, existência, amor... minha crise de abstinência após anos bebendo sem intervalos comerciais foi querendo me livrar de todos os malditos nomes que sempre vêm acompanhados por um sentimento, uma sensação, um friozinho na barriga, as pequenas torturas de Deus pela morte de Seu filho ou mesmo pelo fato de que nós podemos existir, carne,

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sangue, ossos, enquanto Ele sobrevive no paraíso apenas pela idealização que temos de um ser perfeito, mas que não existe na carne, no cheiro, no sangue, no sexo; Deus nos tortura com nomes de tristeza porque sente inveja de nós e nós sofremos essa tortura da existência porque sentimos inveja de Deus, da não existência Dele, da perfeição além dos pensamentos e horizontes, está aí o motivo pelo qual todo círculo é vicioso, porque as pontas nunca se encontram e nunca se entendem pois já nasceram grudadas em encaixes assimétricos, uma querendo a condição da outra e ao mesmo tempo achando estar em busca do seu próprio eu; o que fiz quando todos os meus fios de cabelo ganharam cada um um nome de tristeza foi arrancá-los, arrancá-los com raiva e regozijo e risos e gargalhadas, a busca maculada da plenitude, do gozo, da libertação, adeus nomes e seus sentimentos genéricos, adeus Norte, adeus Sul, sapatos velhos me sigam, adeus homens de falsa boa vontade, adeus todo filho da puta que diz que é amigo de alguém, não preciso de toques de complacência nem de copos embriagados pelo silêncio de uma garrafa muda, adeus crianças que sem saber marcham para a morte, adeus morte eu sou eterno, adeus vida já lhe conheço demais, adeus Deus agora sou careca e pertenço ao nada, todos os nomes foram arrancados, não há mais nada a se sentir, nada a se cheirar, nada a se ver, apenas ir, ir, ir, e isso não me incomoda mais, nenhum pouco.

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Sexta memória

IDADE: 45 ANOS. Estado civil: punheteiro. Escolaridade: escroto alfabetizado. Profissão: desenganado pelos médicos. Antecedentes criminais: todo tipo de orgia mental que você conseguir imaginar. E a lista prossegue e prossegue e prossegue e as cifras e os números da identidade, cpf, carteira de motorista, conta de banco, comprovante de residência... somos números apenas, xérox de nosso próprio eu, estamos lá diante da pessoa respirando o mesmo ar sem cheiro da urbanização, do concreto, mas precisamos mostrar os documentos para provar que estamos vivos de verdade, porque se o computador não identificar os seus números e as suas cifras você não é nada, não é ninguém, não está ali respirando o mesmo ar abafado, não pensa, não come, não caga, não existe, não existe, não existe, e isso me pareceu uma boa ideia: queimei todos os meus números e minhas cifras, eu não queria mais ser ninguém, eu não precisava ser ninguém [por que precisamos ser alguém, afinal de contas?], não era obrigado a existir; vagueava debaixo das fases da lua pichando muros com frases que lia em algum lugar e achava bonitas, quase como pistas nada sutis de que o mundo estaria acabando rapidamente e o Universo desapareceria no vácuo antes de acharmos o sentido da vida, e eu

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pichava ditos de meus saudosos companheiros de cachaça: “se banhem de merda, seus filhos da puta” ou alguma coisa erudita como “eu não faço mímica, eu fodo mesmo”, e por alguma razão as pessoas gostavam daquilo e eram comum camisas com os dizeres de minhas pichações insones andarem nas ruas em busca de um corpo acéfalo para ocupar espaço e aquilo me deixava confuso e me agradava ao mesmo tempo pois eu ria da cara dos meus irmãos otários pós-Freud – e consegui ler alguns livros nessa época, como O mal estar da civilização e outras equivocações literárias –, sim eu também fui uma pessoa culta de uma maneira inculta, seja lá como você interprete isso; certa vez vi um enorme muro branco, como era lindo aquele muro, imaculado, perfeito, invisível, e me pus a tracejá-lo simetricamente de cima para baixo, depois na horizontal, sem exageros ou surtos megalomaníacos, até deixá-lo com o aspecto lúdico de uma grade de cela de prisão, esse enorme muro que cobria todo o lado de um quarteirão, ficou lindo, me senti orgulhoso por ser algo relativamente simples e sem pretensão de arte e no dia seguinte era manchete de jornal por aquele muro pertencer ao governador ou a qualquer um de seus testículos. Numa dessas noites de prata, quando tudo é anacrônico e cada passo é uma respiração forte de medo e insegurança, desenhei uma mulher na calçada justamente onde a luz vinda da janela de um apartamento no primeiro andar de um prédio velho incidia meio tosca, meio sem querer ser luz numa madrugada fria e desoladora, e havia uma música também, uma música francesa, triste, distante, não recomendável para suicidas; e comecei a desenhar essa mulher com um spray preto tendendo para o cinza e era como se eu soubesse o que estava fazendo, quem eu estava desenhando, traços, curvas, o formato delicado do rosto e os lábios carnudos, eram flashes incondicionais, lembranças de algo que nunca havia vivido, de alguém que eu nunca havia encontrado, mas que era muito claro em minha mente, eu poderia até dizer a personalidade desse alguém preso nas entranhas de minha melancolia (tudo bem, esta frase força mesmo a

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barra), eu poderia narrar histórias sobre ela com uma riqueza absurda de detalhes; nisso passou por mim um velho mendigo e parou, ele simplesmente parou e ficou me olhando, eu debaixo da luz fraca, provavelmente uma luz em plena crise existencial – ou elétrica, você escolhe –, desenhando uma mulher na calçada, e os olhos do mendigo maltrapilho eram tristes, sem entusiasmo, olhos de quem de tudo já vira um pouco e acha que nada mais pode surpreendê-lo, ele ficou me olhando e posso jurar que sentiu pena do que estava presenciando e isso de certa forma o irritou profundamente, pois via naquele momento que ele não era o único sofredor existente, que outros seres sofriam também, quem sabe mais do que ele, com a diferença de que uns tinham casa, comida e roupa lavada e outros não; o velho mendigo saiu esbravejando frases filosóficas de café incompreensíveis ao passo que eu terminava o desenho mais belo já pichado numa calçada numa madrugada fria e morta, depois contemplei aquilo, aquela figura, e senti minhas tripas revirarem e quis vomitar, portanto saí correndo como um porco foge da morte certa num feriado qualquer ou avista uma enorme e suculenta piscina de lama e lixo, nem dei trela para os passos apressados que ouvi atrás de mim e corri, corri, corri, com medo e desespero, sem ligar para músculos ou tendões, apenas o asfalto sob meus velhos pés e o infinito lúgubre da noite à minha frente; ou estamos correndo da vida ou a vida corre atrás de nós, mas em algum instante, seja qual for, precisamos tropeçar e cair para que a vida nos encontre e a angústia de existir termine ou de uma vez por todas ou até começarmos a correr novamente, feito criança que não reconhece que por dentro da fantasia de Pluto ou Cebolinha é apenas uma pessoa como qualquer outra, mas a criança só vê a fantasia, não a pessoa vestindo-a, e isso a assusta de uma maneira tão forte e real que os adultos riem, enquanto a criança vivencia uma sensação e grava um momento que nunca mais será esquecido enquanto ela viver; eu não caí, não havia pedra para eu tropeçar, não seria dessa vez que a vida me encontraria e eu ainda continuava vendo só a fantasia.

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Sétima memória

É ENGRAÇADO QUANDO VOCÊ CHEGA À CASA DOS CINQUENTA anos e se olha no espelho, não é a crise que aos vinte você prevê que vai acontecer trinta anos mais tarde nem essas bobagens que jovens artistas projetam em relação ao futuro, é apenas uma contemplação de si mesmo aos cinquenta anos, mas você não se acha com cinquenta anos e sim com vinte ou trinta, porque a sensação de tempo presente é a mesma, não importa quantos anos passem, tudo o que você teve, tem e terá até o suspiro do leito derradeiro são as sensações de viver, a interação – boa ou ruim – com a existência; só temos duas factuais coisas na vida: o presente e as memórias – tudo o que estiver fora desse limite é pura especulação neurótica, sendo assim posso dizer que tendo consciência de que certamente a maior parte da minha vida já havia passado eu era uma pessoa mais tranquila, sozinha mas tranquila; escrevia para o jornal como freelance criticando livros [não que eu tenha sido lá esses críticos literários, nem formado em alguma coisa eu era, porém por alguma razão as pessoas liam o que eu escrevia], a maioria romances ou ensaios sobre a imbecilidade humana, participava de um grupo chamado MCA, melancólicos compulsivos anônimos, ou merda de coração azedo, na verdade fundado por mim, e à noite geralmente bebia e fumava até morrer e ressuscitava pela manhã nos braços de alguma prostituta barata, mas barata mesmo, como disse eu era free; todos os meus irmãos eram casados

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e também infelizes, e alguns já tinham filhos casados, e em casa só restavam eu, mamãe e um bando de móveis velhos e empoeirados que só serviam mesmo para colocar fotografias dos membros falecidos ou divorciados da família, como meu pai [não morto mas divorciado da mamãe], aquilo era mais um mausoléu do que um lar aconchegante, por isso eu passava tanto tempo fora, da casa e de mim, ouvindo os desajustados da sociedade recitarem poesia de banheiro e as mulheres da vida filosofarem a mesma coisa que Schopenhauer já dizia em séculos passados: “Viver é sofrer, vamos todos é fuder”, nada muito animador, logicamente, mas pessimismo por pessimismo, preferia gozar numa vagina deprimida toda noite a ter que encarar minhas lágrimas de alguém que se lembra constantemente de que aquilo o que não se encontra até a metade do caminho é bem provável que esteja perdido para sempre. Nessa brincadeira observei apático meus cabelos ficarem brancos e as rugas em meu rosto mais e mais expressivas, como se rapidamente eu estivesse me transformando numa pintura vazia de algum pintor expressionista já morto, enterrado e esquecido, como logo eu mesmo serei, pois é esse o castigo da morte, ser um ponto a menos nas escalas demográficas, até ser resumido a um retrato amarelo numa estante cheia de teias de aranha e as pessoas do futuro passando em frente e comentando “quem foi esse aqui?”, “não sei o nome, um dos filhos da vovó, dizem que nasceu triste e que foi assim até seu último dia de vida”, “está cada vez mais constante pessoas que já nascem mortas”, “acho que ele nunca encontrou o amor”, “existem pessoas que simplesmente não sabem viver, e isso não tem nada a ver com amor”; durante muito tempo, ou seja, minha vida inteira, pensei em como seria minha morte, onde estaria, com quem estaria [ou não], se seria dia ou noite, se eu morreria velho de alguma doença casual ou se seria uma morte banal, tipo escorregar no banheiro e quebrar a testa na privada ou se assustar com a própria sombra e ter um ataque cardíaco fulminante, essas coisas bobas que fazem todos se questionarem sobre o sentido da vida ou soltarem

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frases tragicômicas de enterro do nível “a morte só espera uma desculpa” ou “a vida não vale mesmo porra nenhuma, né, rapaz? basta estar vivo para morrer, e dificilmente morremos satisfeitos, pelo amor de Deus”, e Deus sempre é o centro dos questionamentos nessas horas, como se Ele tivesse a obrigação de explicar por que alguém morre assim ou assado, e vai ver tenha mesmo, mas o que faz de Deus ser Deus é o silêncio, assim evita abrir a boca para falar besteira; chegou um tempo em que todo santo dia eu achava que seria meu último dia de vida, de hoje não passa, meu corpo todo doía, minha respiração era assustadoramente pesada e o vazio existencial no meu estômago já era mais do que um companheiro de quarto silencioso, vez por outra discutíamos saudavelmente e chegávamos toda vez à conclusão de que o conformismo é o único caminho que não precisamos ter medo de seguir, basta ir em frente aceitando a embalagem e o conteúdo que nos é oferecido no instante de existir; sem perceber eu havia me tornado um mero personagem sem trama nenhuma, um ser apagado que vivia de subjugar os intelectuais da bosta presa, que eu carinhosamente chamava de IBP’s, beber, fumar, morrer fazendo sexo geriátrico e na manhã seguinte ser como aquele conto de Augusto Monterroso: “Quando despertou, o dinossauro ainda estava lá”, uma frase, não precisava mais do que isso. Minha última noite de sexo antes de ter a contagem regressiva de minha obtusa existência oficialmente acionada não foi lá grande coisa, eu por baixo com a mão no coração e dois litros de uísque na cabeça, ofegando que nem criança asmática enquanto Madame se contorcia por cima de mim na tentativa comovente de manter meu pau ereto, firme e latejante, coisa que ultimamente só acontecia em surtos de juventude cada vez mais raros, quando trepava na cabeça, na memória, e aquilo de alguma forma reverberava no corpo; quando isso acontecia era preciso muito fé em si mesmo para não desabar em torrentes de lágrimas nostálgicas, relembrando o tempo em que fazer sexo era mais do se desprender de seu próprio corpo e se perder no corpo do outro, era ser egoísta e altruísta ao

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mesmo tempo, pois você quer gozar mas quer que a outra pessoa goze junto com você, no mesmo instante, na mesma sensação de descarrego libidinal, de catarse divina, o vazio sendo preenchido pelo gozo, seja por míseros trinta segundos [novamente os trinta segundos mais caros de uma vida sem plenitude, em que todas as alegrias não duram mais do que isso], para depois sentir o cansaço, a culpa, a satisfação, qualquer das mil sensações pós-gozo; levei muitas mulheres à loucura depois da maioridade, muito depois, e olha que nunca pude me gabar de ter um pau grande, muito pelo contrário, sempre foi mediano, comum, o que me leva a dizer que não existe pau pequeno ou fino e sim homens não suficientemente excitados ou mulheres não suficientemente capazes de fazer mais sangue correr pelos paus de seus amantes; e Madame sabia disso e também sabia como transformar a cenoura em pepino sem grande arrojos criativos, embora em certos casos se fizessem necessários, e se posso dizer que tive uma namorada nesta encarnação torta essa foi Madame, prostituta respeitada por quem entende do riscado, mulher da vida poeta e estudiosa dos mais íntimos e ínfimos desejos humanos, sabia acolher os carentes com verbos adocicados [que podiam ter mais açúcar dependendo do pagamento] e fazer os machos fluírem seus lados femininos sem traumas ou afetações; a mim nunca cobrou nada, nem um tostão amassado, dizia ter me conhecido em outras vidas e que em todas sua função era me trazer alento, acalmar meu espírito entorpecido pela melancolia inerente aos que ainda não sabem se é melhor estar vivo ou morto, passem as encarnações que passarem, venham as vidas que vierem, sempre vão se desencontrar de si mesmos e suportar a existência buscando a fantasia ao invés da realidade, tolos como eu que assumem um personagem e depois não sabem se desapegar a ele, e o desapego talvez seja o segredo da felicidade que o ocidente nunca vai descobrir, assim me dizia Madame, com seus lábios de gueixa enlouquecendo meu pau e fazendo minha mente navegar por entre os números da proporção divina

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até dar de cara com o próprio criador de minha tristeza e lhe dizer: “muito obrigado!”

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Oitava memória

DECLINAÇÃO... DECLINAÇÃO... palavrinha estranha descontextualizada mas muito significativa quando você sai do médico e caminha cabisbaixo, já descrente dos sinais que talvez nunca existiram realmente, refletindo, meditando, repassando toda a lista de doenças fatais acumuladas ao longo dos anos e fazendo uns cálculos matemáticos a fim de descobrir quanto tempo ainda lhe resta, e de repente tempo se torna uma palavra ambivalente; a essa altura você já não sabe se fica triste e se desespera ou se dá um sorrisinho irônico como quem dissesse “finalmente esse trem vai parar na última estação”, o fim da linha está chegando, meu amigo, e logo você vai voltar para o buraco de onde era melhor nunca ter saído, todas as sensações vão se anular e a profecia maliciosa da não existência por fim será uma realidade aconchegante, madura e benvinda, devemos encarar a morte como mais uma fase de transição, como o primeiro dente de leite ou a primeira grande trepada ou a última grande trepada, e me assustei por estar calmo, calmo demais, por sinal, iria voltar ao início, ao útero lindo da pré-existência, à falta de sensações angustiantes, de desejos impossíveis, e quem sabe nessa volta pudesse ver o amor novamente de relance e morrer sem neuras ou me sentindo incompleto; declinação... declinação... passei a admirar essa palavra pois se a subida demora um pouco a descida é rápida como um foguete, logo tudo estaria acabado, meu personagem sairia de cena de vez

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e o filme sem espectador terminaria, sem créditos finais ou música de fundo, um desfecho melancólico para fazer jus ao início, o filme de um pensamento que nunca parou de falar, de um ser que se abortou e optou por não existir plenamente, que não tropeçou quando deveria ter caído e se desencontrou de si mesmo permanentemente – ganhamos o que perdemos ou perdemos o que ganhamos? – na encruzilhada sem concessões da vida, porque se fazemos uma escolha e tomamos um caminho não teremos uma segunda chance para voltar e escolher novamente, não senhor, e essa é a grande lição que escola alguma nos ensina, é impossível ter consciência plena a vida toda e o erro sempre vai ser achar que estamos apenas fazendo o que é melhor para nós mesmos, quando isso é a tolice mais genérica da breve história da humanidade, e se Shakespeare estava certo acerca das escolhas, nenhuma me fez pois eu não fiz nenhuma, ou se fiz, o que é mais provável, foram escolhas “autossabotadoras” e preciso conviver com elas da melhor maneira possível, se eu não for sereno a morte para mim será além de carnal mental, neurótica, torturante, e definitivamente não deve ser bom morrer na loucura; declinação... declinação... ergo minha cabeça e pela primeira vez em mais de seis décadas de existência caminho vendo as coisas, as pessoas, as sensações mais amenas, aquelas que nos fazem bem, vejo a luz da tarde e sinto o movimento da dinamicidade da vida, crianças correndo, casais se beijando, executivos presos ao seu próprio tempo claustrofóbico, as coisas banais do cotidiano, os detalhes ínfimos de todos aqueles que têm uma vida inteira pela frente, sensações de passado, presente e futuro, e me sinto bem, leve, gracioso, quase posso voar, ou finalmente levar uma topada e cair, pela primeira vez tenho inveja dos vivos, deixo rolar uma lágrima, uma última lágrima de melancolia, e completo os cálculos, descubro o dia de minha morte e tudo o que preciso fazer até lá. Seria basicamente responder um questionamento simples: “como retratar uma vida inteira em que nada de fato foi feito, nenhum valor substancial foi alcançado, nenhum sentido, por mais simplório que fosse,

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encontrado?”, tudo bem, não é um questionamento tão simples assim, e eu poderia muito bem fazer uma lista inacabável de ações benevolentes e altruístas não querendo salvar o mundo mas consertar o meu próprio, ou melhor, reinventá-lo a partir da desconstrução do meu antigo eu, despir a roupa do personagem, o figurino démodé que vesti a existência toda, e desfazer o cenário, tocar fogo em tudo e sair das chamas como um novo homem, seria fácil; porém, a resposta que encontrei para fazer as pazes comigo mesmo às vésperas de minha morte anunciada foi de uma simplicidade comovente, pelo menos para mim: sentar em um banco da pracinha perto de casa e tomar um sorvete enquanto observava as crianças brincando no playground, algo que nunca fizera antes, nem sentar no banco da pracinha, nem tomar sorvete e muito menos observar crianças sendo crianças, antes elas eram pequenos pré-cadáveres em pleno treinamento neurótico, agora que eu era o pré-cadáver quase cadáver a infância se tornara uma lembrança que certamente eu gostaria de ter tido; de repente relembrei os poemas de Manoel de Barros, alguns deles, e se antes tinha pena por ele ter optado ser a sombra da própria infância, viver preso à nostalgia de um tempo há muito inexistente, agora minha inveja por ele ter pelos menos isso para relembrar, enquanto eu não tinha sequer uma fagulha do que se poderiam chamar de boas lembranças, era tão imensa que a única reação que tive foi levantar-me do banquinho e ir até o playground brincar em cada um dos brinquedos como se fosse a primeira vez [e realmente era!], para o choque de todas as crianças e todos os adultos que lá se encontravam; eu era Manoel de Barros fazendo poesia com os brinquedos, poesia real, sem lápis ou papel, era tudo na sensação, no toque, no vento que coçava minhas rugas amargas que agora tentavam sorrir, e eu ria, e ria, e ria, um riso estranho para mim, um riso alegre, espontâneo, eu não conseguia não rir e isso era bom, era... era... era bom [o que posso dizer?], meus cabelos esvoaçando e meus dentes podres sendo arejados pelo hálito adocicado daquela tarde incomum... parei por

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um momento e olhei em volta, tirando eu não haviam velhos ali, engraçado.

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Nona memória

PERCEPÇÕES DE UM IDOSO em pleno exercício de suas faculdades mentais: o travesseiro é o confidente ideal e constante com o qual as lágrimas rolam sem culpa e os sorrisos acontecem sem esforço, as fotografias são seres que não estão mais por perto, alguns são conhecidos, outros sentimos saudade por nunca tê-los encontrados, neuroses são para jovens inseguros, mas é como se as lembranças mais antigas fossem na verdade as mais vívidas na memória e tudo tivesse uma história a contar, a nos contar e a nos fazer acreditar que o tempo passou, enfim, mas que aquilo aconteceu realmente, seja com você, seja com outro, e é difícil não se perguntar “onde estão as pessoas que eu poderia ter tido?”, e a resposta geralmente vem na forma de sussurro que não se sabe de onde veio: “estão todas perdidas no tempo que você não teve”, e você percebe a mensagem e entende que é tarde demais para se arrepender ou aceitar o destino, que noventa e oito por cento do seu caminho já virou poeira e tudo o que resta agora é aguardar sem remorsos a cortina final ser baixada; e você anda pela casa sorrateiramente com medo de despertar os fantasmas [os seus próprios ou os da casa?], dando um passo por vez e sentindo todo o parco equilíbrio do seu corpo querer ir embora sem ao menos dizer adeus ou um singelo até logo corpo desabitado de emoções verdadeiras; somos frutos do que plantamos, reflexos do que sempre quisemos ser, as amarguras que alimentamos e as alegrias que rejeitamos

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por medo de nos tornarmos plenos e abraçarmos a vida como ela é, com todas as suas deficiências morais e físicas, isso faz parte do jogo e quem quiser jogar bem é preciso entender que concessões são feitas e sonhos interrompidos quando se busca uma felicidade sincera, daquelas que duram mais de dois dias e uma manhã. Você pode até soltar um risinho sarcástico me lendo falando em busca de felicidade, logo eu que nunca movi uma palha com o intuito de alcançar essa felicidade, sempre fui infeliz e abracei esse carma com uma convicção surpreendente, como se as leis que me regessem fossem aquelas da fileira da desolação onde todos os personagens trágicos do ocidente aguardam o fim de suas angústias; poucas pessoas merecem a própria miséria, pouquíssimos seres vivos conseguem encontrar suas respostas na tristeza que lhes acomete, muitos deixam de crescer e evoluir por não saber se voltar para o seu íntimo, estão ocupados demais sendo externos e conscientes que se esquecem que ser triste é uma virtude que leva à iluminação, e não estou aqui querendo justificar minha semivida ou otimizar o fundo do poço, não, que isso, dou somente um testemunho de alguém que soube desde os primeiros segundos de existência que esta encarnação não era para ter sido minha, porém aceitei minha condição errante e errada e deixei que o vento sussurrasse seus palavrões e se não dei a volta ao mundo ou não me escondi numa caverna nas montanhas foi porque sabia que fugir de mim mesmo não resolveria um terço dos meus problemas, mesmo nunca deixando de correr sem sair do lugar. Quando se sabe que vai morrer, tudo parece se tornar uma despedida, desde o acordar ao adormecer, você inconsciente ou conscientemente dá tchau para as coisas e as coisas dão tchau para você, existe uma verdadeira sinfonia calada e passiva do adeus, uma troca de energia em que a cada passo dado algo se perde, fica para trás, aceita sua condição de nada, de resto de vida, e o cheiro inconfundível da morte impregna suas narinas, sua pele, suas percepções, não importa o quanto você tome banho e esfregue com força o sabonete pelo corpo: o cheiro da

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morte não vai lhe deixar nunca mais; a bem da verdade, eu estava com medo, esse papo de não ter medo de morrer é pura conversa fiada, temos todos medo de nascer, de viver e de morrer, por diferentes razões, alguns podem lidar melhor com isso do que outros, mas ninguém nunca deixa de sentir um friozinho na barriga ao ouvir essas três palavrinhas infinitivas; felizmente eu estava sereno, não chegava a bater o desespero, pelo contrário, eu estava ansioso e um tanto excitado com a minha morte, é o dia em que tudo se converge, em que todas as coisas finalmente fazem sentido e, numa fração de segundos, você vislumbra toda a eternidade e entende afinal que não havia outro caminho a seguir, que naquele momento você fecha o ciclo e se torna completo, como se você entendesse que tudo sempre fez sentido e só agora enxerga isso... não? Minha rotina se manteve inquebrável nos meus últimos meses de existência: acordava de madrugada sentindo todos os tipos de dor que você puder imaginar, cambaleava pela casa à procura de água e remédio, assistia ao sol nascer do quintal sentado numa velha “princesinha”, tomava meu primeiro banho, fazia o café com um pé de meia [coisa mais retrógrada, eu sei, mas era o jeito] e o tomava sem pressa e ignorando o gosto amargo, tenho toda uma teoria sobre café e sopa mas deixa pra lá, depois ia ler alguma coisa que tivesse a letra grande pois eu nunca fui de usar óculos e isso me impediu de conhecer muita coisa [depois pensei: para que tanto conhecimento se vou morrer sem usar 1% dele?], não almoçava, a comida passou a me dar vontade de vomitar, não conseguia segurar no estômago pedaços sólidos de outros seres, mas não me importava não comer, tomava meu segundo banho após horas lutando contra a prisão de ventre, literalmente o ser humano preso a si mesmo, e com o cú doído saía de casa assim que o sol esfriasse e a tarde se tornasse uma pintura calma e serena da própria tarde, e eu caminhava, e caminhava, e caminhava, às vezes sabendo o caminho que estava tomando, outras sem ter a mínima noção de aonde estava indo, apenas indo e pensando, pensando e indo, como se eu estivesse no piloto automático ou algo do gênero, mas sempre

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vendo tudo, sempre atento à vida – e precisava disso pois em pouco tempo eu não estaria mais ali –, geralmente parava no mesmo lugar: o cemitério onde minha mãe fizera sua morada anos antes, causa natural, morreu dormindo, coisa linda, porém não entrava, ficava na porta por um pedaço de tempo e seguia meu caminho provável ao acaso, passava por todas as minhas pichações, algumas delas já apagadas, e ria da ingenuidade delas, não podiam ser consideradas reacionárias e não levavam a lugar algum, nenhum lugar perto ou distante do sol, “coisas da idade”, diriam os espertinhos, “quem se importa agora?”, diria eu, terminando meu passeio diário no banco da pracinha tomando sorvete e observando as crianças no playground, o segredo da felicidade, relaxar e dar importância épica aos pequenos detalhes, o segredo que nunca foi segredo, felizmente ninguém nunca me confundiu com um velho pedófilo, se alguém o fez eu nunca soube, ia para casa e tomava sopa, hum... café e sopa, que irônico, tomava então meu terceiro banho, o mais lento e contemplativo, pouco tempo mais tarde me entupia de pílulas e tardava a adormecer, entretanto conseguia, não sonhava com nada, a essa altura não haviam mais sonhos a serem sonhados, nunca houve mesmo, e pela madrugada tudo recomeçava enquanto o cronômetro ia, hora a hora, dia a dia, chegando cada vez mais perto do imatável e imorrível número z e r o... Zero... Zero... Zero...

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Décima memória

ESTOU ESCREVENDO ISTO, este, digamos, testemunho rápido de uma vida longa e desperdiçada demais há pouco mais de duas horas e meia, talvez nem isso, escrevo rápido, não gosto de pensar nas palavras e sim despejá-las como se fossem pensamentos espontâneos, ejaculação precoce antes mesmo de tirar a roupa, reflexos sem susto, portanto perdoe toda a minha indulgência sintática, este é um vômito literário de um moribundo, a vida íntima de um pensamento destoante, que se constrói e se destrói quase que ao mesmo tempo, esse tempo que nos persegue sem cansaço até o dia em que abrimos os olhos e pensamos: “é hoje o dia em que morrerei”; estou em um quarto de hotel barato e rabisco estas linhas tortas com a certeza de que não chegarei a relê-las, não sei nem se conseguirei terminar este texto, se é que trata-se de um texto puro e simples, palavras próprias de um autor, seria a definição de texto – mas pode-se considerar autor alguém que não viveu sua própria história? –, enquanto o final da tarde acontece do lado de fora da janela e promete marcar também o final de minha existência desprovida de viver, não de existir, “existir é rodopiar nas frestas de luz, o que não é a mesma coisa que viver, viver é questão de sol e sombra”, já dizia o poeta sabedor de sua própria condição, não tive sol nem sombra, apenas rodopiei nas frestas de luz ou no vácuo da escuridão; eu já sabia o que aconteceria comigo desde o exato segundo em que me tiraram da caverna aconchegante da pré-

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existência, todos os desencontros de mim mesmo, mas isso só se tornou claro hoje de madrugada, quando, segundo meus cálculos, seria o dia inevitável do encontro, abri meus olhos fundos e sussurrei para o meu próprio ouvido: “é hoje o dia em que morrerei”. E como não é todo dia que se morre, resolvi passar o meu último dia de vida em grande estilo: comecei assistindo ao sol nascer completamente nu, sempre tive vontade de fazer isso, e sentir o vento nos testículos é sem dúvida uma experiência única e refrescante, em vez de café amargo tomei vinho, e dos bons, degustei cada gole como se a vida tivesse sido feita somente para se degustar vinho, deitei na rede e fiquei curtindo minha leve embriaguez, cheguei até a escrever um poema que está na escrivaninha da sala, com versos alexandrinos e tudo, não foi tão difícil assim, tomei banho sentado no chão após ter ingerido laxante que, com a ajuda do vinho, limpou meu intestino de tudo o que era bosta acumulada [a última coisa que eu queria era morrer com vontade de cagar], fiquei lá um bom tempo sentindo a água deslizar por mim e cantando canções que nem eu conseguia definir direito quais eram, vesti minha melhor roupa, esporte, nada de terno, fiz a barba, penteei minhas sobras de cabelo e saí de casa para dessa vez não voltar nunca mais. Não voltar nunca mais, esse nunca mais ficou rodopiando na minha cabeça enquanto dava meu passeio derradeiro pela vida e olhava as coisas com um discreto aperto no coração, mas com a certeza de que logo logo o terrível desconforto corporal e espiritual que sentia daria lugar a um relaxamento profundo e que depois da transição esta desencarnação estaria finalizada e eu poderia desvendar os infinitos mistérios do pós-vida, abraçar o nada ou o tudo e encarar a verdade sobre o que realmente acontece aqui, se é que existe tal verdade; eu tinha tanta certeza que era meu último dia existindo que para não me enganar tomei toda uma caixa de pílulas que em algumas horas fariam meu coração ter um treco daqueles ele querendo ou não, e meus passos já pareciam pesados e minha boca seca como o inferno; caminhei... caminhei... caminhei... quando dei por

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mim estava lá, justamente lá, na entrada do cemitério onde minha mãe estava enterrada, e entendi que seria ali que a profecia do fechamento do ciclo aconteceria, afinal de contas, por isso dei de ombros, soltei um risinho sacana e entrei naquele labirinto de almas lembradas, onde o cheiro constrange, o solo afunda e as árvores são robustas com todas as folhas irradiando verde; encontrei o túmulo de minha mãe com certa dificuldade e a primeira coisa que notei foram as flores apodrecidas depositadas sobre ele, sinal de que não apenas eu fora esquecido pelos vivos [não que pudesse reclamar, mamãe tinha mais direito do que eu], e então joguei-as fora e limpei ao redor do túmulo, me imaginei fazendo isso por muitos anos e percebi o quanto as pessoas se apegam mesmo umas às outras, pois ainda que mortas continuam sendo visitadas e causando tristeza aos que infelizmente permanecem vivos; tudo no fundo é isso, se resume a um dia perder as coisas que nos fazem felizes, e olha que quem fala é uma pessoa que não perdeu muita coisa, pois não chegou a ter muito nesta vida... estranho, nunca pensei que teria saudade de tudo aquilo o que não vivi, pensando nisso deitei ao lado do túmulo e, tal qual Quasímodo fez ao ver o corpo de Esmeralda, fechei os olhos e desisti de todas as sensações de existência, meu corpo não ousaria lutar contra o certo, e o certo era que eu só precisava esperar um pouco mais para sentir o começo de não sentir mais nada. ...

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Décima primeira memória

NÃO SEI O QUE HOUVE,

sinceramente não sei o que

houve, não sei, de repente levantei num sobressalto e parecia que eu havia despertado de um pesadelo ou então entrado em um, sei lá, só sei que eu estava suado como nunca antes estivera e meu corpo ardia e a angústia em meu estômago era forte demais para ser ignorada, mesmo na iminência da morte; tudo era muito confuso e a vontade de chorar e gritar era intensa demais, fiquei então em pé e não consegui ter outra reação a não ser sair correndo e deixar mamãe sozinha no meio daquele labirinto de pequenos paraísos de concreto; e corri desesperado forçando as últimas forças do meu corpo, era um último sopro de vida que tinha que ser aproveitado, tinha que ser conquistado, e eu corri no meio das ruas como se estivesse contra o tempo [e de fato estava!], mas, pasme, eu não estava fugindo com medo de algo, não, pelo contrário, eu estava à procura de uma sensação, ou mesmo de um vislumbre de uma sensação, a mesma que senti nos primeiros segundos de minha existência, quando sem querer virei minha cabeça para o lado e vi a coisa mais linda do mundo, a prova irrefutável de que existe o outro lado da moeda para tudo na vida, e definitivamente não morreria sem sentir aquilo mais uma vez, nem que fosse pelos míseros trinta segundos em que daria meus últimos suspiros, eu não me entregaria de bandeja sem um alento, sem pelo menos uma esperança de que nem tudo foi em vão, eu não morreria sem ver o amor pela última vez.

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Essa era a única certeza que eu tinha, o resto era... o resto era... o resto era confiar novamente nos sinais e ver o que acontecia, uma latinha de cerveja rolando para a direita e a gente dobra para a direita, um velho mendigo aleijado gargalhando debaixo do sol escaldante não podia ser outra coisa a não ser um indicativo de que aquele era o caminho certo, siga em frente, então, um sinal verde abrindo e lhe permitindo prosseguir você vai, pois a essa altura se os clichês não forem verdadeiros de nada adianta a arte ou a comunicação universal entre as pessoas, nada realmente faz sentido e tudo é uma grande bola de merda sendo jogada com o vento; mas eu não estava mais disposto a crer nesse tipo de niilismo, não no meu último dia de vida, e continuei deixando meu cérebro fazer as mais loucas associações livres e a seguir as mais pífias pistas que se derivavam disso, até cachorro esquizóide eu persegui, para você ter uma ideia, tudo que pudesse me levar para o encontro de mim mesmo na forma de outra pessoa, e eu não acreditava em rejeição ou que ela já estivesse morta, uma vez que isso seria o ultimato de Deus contra a humanidade que Ele próprio criou, além disso a cada passo que eu dava a angústia ia diminuindo, o buraco em meu estômago ia se tornando cada vez menor, dando lugar a uma pequena excitação, um friozinho bom na barriga, o que me mostrava que, mesmo já no epílogo, ainda dava tempo mudar de personagem e reinventar toda a história. Minha “dor de veado” já estava no auge do insuportável quando ao dobrar numa esquina adentrei uma rua morta, e ruas mortas a gente reconhece de longe: são meio que escondidas em lugar nenhum, folhas secas se arrastam pelo chão com um vento deprimido, não há sinal de vida, muito menos de morte, o clima é de completo abandono, as casas e os prédios são velhos com as fachadas há muito desgastadas, seriam como ruas vencidas que o tempo se esqueceu de apagar ou dar uma atualizada; entretanto, havia uma estranha sensação de déjà vu à medida que chegava o coração da rua, eu já estivera ali tempos atrás ou então sonhara com aquele momento ou então era apenas meu cérebro processando um

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pouquinho mais rápido que o normal, seja qual fosse a resposta eu não teria tempo suficiente para descobri-la; ao avistar algo surpreendentemente familiar e entender para onde os sinais tinham me levado, tentei apressar o passo e no desespero simplesmente tropecei no nada e caí de maduro, chocando meu rosto contra o chão e fazendo meu nariz sangrar; me levantei e segui cambaleante até o desenho de uma mulher pichado na calçada, há tempos perseguia esse desenho mas não tinha ideia de onde encontrá-lo, e de repente ali estava ele do mesmo jeitinho que eu havia deixado, era incrível, eu não sabia o que pensar, me ajoelhei e me pus a tracejar com o dedo as formas daquela mulher idealizada que nunca chegara a conhecer realmente, porém sabia que era ela, tinha que ser. Era isso, tudo se resumia a um desenho na calçada, uma pichaçãodelírio de um artista sem talento, o meu encontro antecipado com Deus, ou seja qual for a entidade que me receberá do outro lado; o fim enfim havia chegado, não havia sobrado esperança alguma e o sentido de existir se perdera em alguma vírgula mal colocada da minha triste história; suspirei resignado e fiquei em pé, olhei pela última vez para o desenho e dei as costas, comecei a caminhar me afastando de tudo o que me levara até ali, eu estava preparado para morrer sem saber muita coisa, mas afinal de contas a vida é assim mesmo e quem nasce triste morre triste entendendo que a solidão é um dom que poucos sabem usufruir, não importa o quanto você se engane no caminho, viemos ao mundo sozinhos e partiremos dele também apenas com nós mesmos, as sensações sempre serão só nossas, e é duro ter que morrer consciente da própria morte, do próprio desfecho, ainda mais se sentindo incompleto, algumas pessoas não têm tanta sorte quanto outras e é preciso resignação para não surtar justo na hora do suspiro término. De nada adiantou meu devaneio conformista e no exato instante em que abri meus braços para gritar contra os céus uma voz doce e engasgada chegou ao meu ouvido: “não faça isso!”; congelei no ar por um bom tempo

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enquanto meu coração começava a bater mais forte, eu queria olhar para trás logo, juro, mas algo me impedia; “não precisa fazer isso, eu estou aqui”, e eu que não podia acreditar naquilo aos poucos fui me virando devagar e ofegando fortemente, me virava para a esquerda, engraçado, a esquerda novamente, e ainda não sei direito descrever o que senti quando o vi: era o amor que estava ali na minha frente, podia reconhecer seus olhos, ah sim, eu podia, nunca os havia esquecido; “você sabe quem sou eu?”, indaguei absolutamente nervoso, “não... sim... você fez esse desenho?”, assenti em silêncio, “sou eu, você me desenhou, não como eu sou agora, obviamente, mas como eu era anos atrás, na mocidade”, “é você?”, ela sorriu: “sim!”, e eu sorri também, sorrisos marotos de dois velhos que mais pareciam duas crianças tímidas; embora hesitantes a princípio conseguimos nos aproximar um do outro, eu a olhei de perto cheio de dedos e simplesmente não pude acreditar: “é você!”, e começamos a rir sem controle ou neurose e por um momento me assustei por não estar mais angustiado, o vazio em meu estômago havia se fechado por completo, eu não sabia que essas coisas aconteciam na vida real; de repente, me lembro da ironia do destino e fico sério: “estou morrendo”, ela começa a chorar e me beija com paixão e tristeza, e foi assim, poucas horas antes da minha morte, que dei meu primeiro beijo de verdade.

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Décima segunda memória

A VIDA DEVE TER ESSAS COISAS

que ninguém

explica, essas linhas tortas que só uma mentalidade superior possui a capacidade de entender e de conceber sentidos, ainda que aparentemente avulsos, eu mesmo acharia esta história absurda se ela não tivesse acontecido comigo, e já tenho dito: pode me chamar de mentiroso, mas tudo ocorreu da forma como estou contando, sem tirar nem pôr; ela chorou por um bom tempo até aceitar a situação, enxuguei suas lágrimas como se tivesse feito isso a vida inteira e lhe pedi para passar o resto do dia comigo, no que ela nem pestanejou ao dizer sim, mesmo já velha tinha sua beleza e força de juventude intactas, uma senhora plena e graciosa com o olhar mais penetrante de todos os que já penetraram em mim; voltou até seu prédio e me pediu para esperar, então olhei para a varanda do apartamento dela no primeiro andar daquele prédio velho e inesperadamente me lembrei de uma música francesa triste, distante, e sorri comigo mesmo, tarde demais para se lamentar de tudo o que poderia ter acontecido e não aconteceu, apenas sorri e a esperei voltar com um lenço para limpar o sangue em meu nariz e um sorriso apaixonante de uma orelha a outra, demos as mãos e por um instante foi como se tudo nunca tivesse sido outra coisa além daquilo: mãos dadas e um sentimento imensurável de felicidade.

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Caminhamos à toa, como dois recém-apaixonados, ela falando e falando e falando e eu só escutando já com os avisos da morte me rodeando como mosquitos famintos por sangue fresco, mas não me importava com isso e achava lindo o modo como ela falava, com uma intelectualidade comovente, não aquela intelectualidade dos IBPs, e uma força de expressão segura, o oposto total do que eu sou; com receio de interrompê-la [ela parecia ter tanto a me contar] pedi educadamente que fôssemos para um lugar reservado pois eu não estava me sentindo muito bem, ela viu em meus olhos que eu não duraria mais muito tempo e prometeu com biquinho que ficaria comigo até a hora que eu fosse embora; então fomos para um hotelzinho ali perto e alugamos um quarto, para o susto constrangedor do recepcionista, e quando a porta do quarto 42 se fechou atrás de mim eu sabia que meu destino estava selado e que não sairia daqui com vida. Se a vida humana durasse menos que a vida das borboletas, as horas passadas neste quarto vagabundo de um hotel caindo aos pedaços valeriam mais que toda a eternidade desperdiçada com pensamentos tolos e os poucos beijos que demos seriam mais intensos e sinceros que ter tido contato com mil bocas diferentes; aproveitamos cada momento, cada segundo como se fossem meses, cada minuto como se fossem anos e cada hora como se fossem décadas, escutei toda a história de sua vida como se tivéssemos vivido juntos, às vezes disfarçando um ou outro ataque de pânico por cair em mim e ver que o amor realmente estava ali, ao meu lado, tocando em mim e conversando comigo, não era fantasia, ele realmente estava ali, e vez por outra deixava escapar uma cara atônita de quem não acreditava no que estava acontecendo realmente. Depois que nos desencontramos na tarde em que nascemos, ela cresceu em outra cidade e só retornou aos doze anos; era uma menina inteligente e sapeca, dada demais, mas vez por outra se pegava traída por um sentimento de melancolia que não sabia dizer o que era; gostava de brincar de casinha e desde pequena sonhava em se casar e ter uma filha;

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aos quinze anos se apaixonou pela primeira vez, um carinha da escola, um típico namoro adolescente mas que representou sua primeira decepção amorosa [expectativas demais cedo demais, um dos pecados da puberdade], ficou um bom tempo triste e desiludida da vida, mas como o tempo come tudo acabou superando e esquecendo a primeira paixão; aos dezessete pensou ter encontrado o amor novamente, porém não passou de alguns bons amassos; entrou no curso de Filosofia e indubitavelmente conheceu muita gente interessante, foi lá que conheceu seu primeiro caso sério e consistente, um intelectual neurótico que era mais um psilósofo do que outra coisa, ficaram anos juntos e foram felizes juntos, entretanto o cara resolveu assumir a bissexualidade e ela não aguentou a barra – já bastava sentir ciúme de outras mulheres, agora sentir de outros homens era forçar demais a amizade; ela se formou e foi ser acadêmica, atolandose em trabalhos, artigos científicos, projetos de pesquisa e jurando de pé junto nunca mais cair na besteira de se apaixonar; por ironia do destino, encantou-se com um professor colega dela e dois anos mais tarde trocaram juras de amor e fidelidade eterna aos pés do padre, que segundo Nietzsche deveria ir para a cadeia por caluniar a verdade – talvez isso explique o divórcio não amigável dez anos e três filhos mais tarde; a essa altura já tinha doutorado e renunciou ao pós em virtude dos filhos, mas nunca deixou de publicar artigos e ser reconhecida entre os profissionais do meio em que habitava, é que às vezes concessões são feitas e isso não depende inteiramente de nós; casou pela segunda vez com um coroa viúvo escritor de livros de análises de sistemas caóticos da sociedade pósmoderna e o esperou morrer quase vinte anos depois para dar a volta ao mundo, sozinha; todos os filhos são casados, um casado duas vezes, e parecem dispostos a perpetuar o círculo vicioso de infelicidade amorosa iniciado com a mãe ou alguns dos antepassados dela, ao melhor estilo de Garcia Márquez e sua linhagem secular de “solidões”. “Como nunca nos encontramos antes?”, ela pergunta.

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“Acho que eu estava preso demais em mim mesmo e você presa demais fora de si mesma”, respondo de maneira vaga. Antes que uma daquelas conversas profundas começasse, calei-a a boca e a beijei com um vigor que nunca havia experimentado, e descobri que o sexo pode ser também algo além da carne, pode ser mental, delicado, poético, puro, simples, e não necessariamente preso às genitais, mas baseado no toque sutil, no olhar, nas palavras doces, o que proporciona um gozo interno tão ou mais intenso que o orgasmo em si, que aliena os amantes e os fazem confundir o sentimento de amor verdadeiro com sensações físicas que não duram muito tempo; não fizemos sexo, então, fizemos amor, e compreender o que realmente quer dizer essa expressão, mais do que expressão, esse gesto, foi um dos maiores vislumbres de consciência em toda esta existência distorcida; fizemos amor, sim, e choramos juntos ao alcançar a plenitude, sem dor, culpa ou qualquer outro sentimento negativo além do fato que nosso tempo, que mal havia começado, já estava terminando. “Você não faz sentido para mim”. “Talvez por isso faça tanto sentido”.

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Décima terceira memória

AGORA VOCÊ ESTÁ DORMINDO

como um bebê

depois de se esbaldar no peito da mãe e estou aqui já contemplando a morte à minha frente enquanto a muito custo escrevo estas linhas para que você perceba o quanto esteve presente em minha vida desde o começo, desde o primeiro minuto em que vim ao mundo, era você que eu vi pelos trinta segundos em que tudo se encaixou perfeitamente, tenho certeza, assim como foi de você que me desencontrei durante toda a minha vida [e isso bate com os seus relatos, o que torna a probabilidade de erro muito baixa], o que me levou a vaguear por caminhos tortos, para só então no meu último dia existindo nos encontrarmos e eu passar a ter uma nova perspectiva das coisas; era você na multidão o tempo todo, esperando eu erguer a cabeça e esquecer o chão, como fui tolo e lhe deixei escapar por mais de uma vez; só nos meus últimos resquícios de vida entendo o quanto você foi importante para mim e como não vivi em vão: escrevi coisas que até onde soube significaram algo para muitas pessoas, só que ignorei isso, chamei a atenção da massa para o quanto estamos nos afundando em álcool e lama e joguei alfinetes em tudo o quanto era paradigma que precisava ser questionado; não vivi à toa, como antes pensava, dificilmente lembrarão meu nome, nem eu mesmo lembro meu nome, mas as coisinhas que fiz ficarão espalhadas anonimamente, seja em camisas, muros, livros

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ou mesas de bar, e ecoarão por muito tempo até que alguém as interprete com o olhar correto, o olhar que eu próprio não tive. No entanto, não gastei esta encarnação com você, não vivi o tempo que queria com você, agora percebo o quanto tudo foi rápido, rápido demais, que vivi o “tempo de borboleta”, o breve bater de asas antes do terremoto acontecer e os sonhos nem chegarem a serem realmente sonhos; e tudo se resume mesmo ao que não aconteceu – não namoramos, não tivemos um filho, ou filha, não tivemos acessos de ciúme um com o outro, que quando não estragam só apimentam a relação, não brigamos feio, não vivenciamos juntos todo o pacote completo do amor e isso me leva a crer que por mais feliz e calmo que esteja morrerei um pouco desapontado comigo mesmo, por ter-me permitido ir à busca do amor somente quando a sentença final já estava proferida, somente no meu último dia de vida me senti pronto para conhecer você e isso me dói um pouco, não vou mentir, porque não foi tão difícil encontrá-la e eu poderia ter feito isso cinquenta anos antes, talvez mais, porém não fiz, não fiz, simplesmente não fiz. Morro tendo estado com você por poucas horas, adorei cada milésimo de segundo; você dorme feito um anjo, um anjo lindo sem asas, que, se não salvou minha vida, salvou minha morte; vou terminar isto aqui [assim como eu, o rolo de papel higiênico está chegando ao fim] e lhe acordarei para morrer em seus braços, prometo não dar trabalho, apenas ficarei lhe olhando enquanto me esvaio, para que você seja minha última imagem deste mundo que nem sempre é justo com as pessoas; espero que ao ler isto você não se sinta triste, pois não me arrependo de nada, poderíamos sim ter-nos encontrado antes e vivido em plenitude, ou quem sabe não; cruzamos a jornada que deveríamos cruzar para estarmos preparados um para o outro, e se você me perguntar se eu faria tudo de novo, do mesmo jeito, só para passar meus últimos instantes de vida ao seu lado, eu diria sim, sim, acho que sim, claro que sim, eu morreria de amor todos os dias do meu fim.

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Janeiro de 2007 25 de dezembro de 2009 16h18 3 de junho de 2012 11h27

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Sobre o autor

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Quem diabos é Monteiro Júnior

Francisco Monteiro Júnior nasceu em Teresina-PI, em 17 de maio de 1983. Aos quinze anos, publicou “As Sete Vidas do Gato” [1998], pela Lei A. Tito Filho, de incentivo à cultura, seguido de “A Obscuridade Humana” [1999], pela EDUFPI, a editora da Universidade Federal do Piauí – UFPI, e “O Confidente” [2003], premiado pela FUNDEC, Fundação Estadual de Cultura e do Desporto do Piauí, na categoria Romance – Prêmio Fontes Ibiapina, no ano de 2001. Amante de cinema, escreve críticas para jornais impressos e para internet desde 1999, já tendo mais de 300 artigos publicados. Lançou alguns filmes, como o média-metragem “No Meio do Caminho” [2004] e “Insone” [2005], curta-metragem premiado como Melhor Vídeo Piauiense no Festival de Vídeo de Teresina, promovido pela Prefeitura Municipal através da Fundação Monsenhor Chaves. Também realizou o documentário “Dona Maria” [2010], em parceria com a Associação Brasileira de Documentaristas – seção Piauí sobre solidão e abandono na velhice, e recentemente finalizou o drama “Qualquer Hora Dessas”. Formado em Psicologia, pós-graduado em Psicologia da Educação, atualmente é professor de cinema do Curso Pela Lente da Fundação

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Cultural Monsenhor Chaves, faz Comunicação Social – Jornalismo na Universidade Federal do Piauí [trancado até segunda ordem] e segue curtindo o caos, seja lá o que isso queira dizer.

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Tempo de Borboleta