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100 naughty abstractions

PEDRO PROENÇA edições asa d’Icarus


100 Naughty Abstractions © Pedro Proença 2017 © edições Asa D’Icarus


100 naughty abstractions PEDRO PROENÇA MAIO/JUNHO 2017 uma exposição & um blog


why naughty?

Abstracções marotas. Sim! Não sendo o «maroto» forçosamente sexual, ou erótico, é-o porque nada escapa a este domínio. A marotice sublinha a elipse, mostrando claramente, através da alusão, alguma indecente ausência. Por isso se o maroto mostra claramente o sexual é porque quer através deste espremer outros sumos. Mesmo a burocracia e a contabilidade são por vezes marotas - o que é difícil. No fundo, e retomando algumas ideias do BABSTRACT, não considero que a prática de uma arte dita abstracta, com ar geométrico, tenha que ser necessáriamente iconoclasta. Se pinto uma grelha de quadrados negros não tenho que desprezar outras possibilidades de produção artistica que partam de pressupostos e de uma ética que não aquela que contribuiu para as minhas abstractices.


A minha singularidade e as generalizações opinativas ou canónicas que dela saiam não são uma negação das necessidades, pulsões, motivações e convicções alheias.

A arte abstracta tradicional geométrica (a do século XX), regra geral, encetou um namoro com o Absoluto, ou pelo menos acenou com este termo. O absoluto é o que absolve. Por isso a minha perspectiva «absolutista» é a de desculpabilização. Quem se exercita na perpectiva do absoluto, mesmo com um manto maroto para os voyeuristas se excitarem um pouco (ou muito), não pode entrar numa onda de anátemas e outro género de condenações.


Por isso, ao contrário de Mondrian, que falava da arte como um processo de desnaturalização, penso que a arte é o suco que nos abre para a intensificação das nossas naturalidades, assim como para o fervilhar, sempre malandreco, dos fluxos da natureza, seja ela uma suposta mãe, uma atarefada madrasta, ou a natureza das nossas naturezas.


o anarquismo suprematista

Antes de empreender estas pinturas caí num texto, algo naif de Rodchenko - citações de Stirner e Whitman - vitalismo nihilista. Mas é bom ver estes dois compinchas juntos.

«Na base do meu empreendimento coloquei o nada» (Stirner)


«Sempre o músculo, sempre a audácia.

O que a vida reforça, reforça-o a morte.» (Whitman)

«O assassinato serve de autojustificação para o assassino. Ele esforça-se em provar que o nada existe.» (Weininger)

«Eu devoro-o logo no momento em que exponho uma situação, e sou «eu» quando o devoro. O facto de que me devoro apenas mostra que existo.» (Stirner)


É divertido ver Stirner como uma possível ponte entre o budismo de Nagarjuna e as teorias de auto-reconhecimento de Abhinavagupta. É òbvio que Abhinavagupta, e a tradição que o precede, se constroi contra o edificio dialético de um budismo descendente de Nagarjuna.


Mas a frase de Weininger também nos abre (sem o saber)a essência do budismo não só como um assassinato, mas como um autoassassinato (suicidio?). A legitimação é quase sempre assassina - é um esforço para provar, e não uma prova. A legitimação das ideias religiosas ou politicas provocou incontáveis milhões de assassinatos. Mesmo entre os budistas as querelas ideológicas são mortais. A vantagem de Nagarjuna é que o seu sistema de refutação é tão radical que nada fica de pé. Mas ao mesmo tempo ficamos com a sensação de que aquilo foi um esforço inútil. A refutação lógica não anula as mais elementares experiências que temos, passada a excitação refutativa e a embriaguês que ela provoca.


E pela mesma razão Stirner em vez de falar em «provar» (nestas citações) fala antes em «devorar». Solipsismo? Talvez. Stirner, Whitman e Weininger transpiram a confuso orientalismo post-hegueliano — o anarquismo suprematista faz colagens com eles, para que a nossa compreensão dos quadrados negros seja mais acutilante.


Pelo mesmo motivo não pude deixar de associar a já longiqua herança suprematista ao tantrismo e as figuras diagramáticas que tanto bududistas quando hinduistas tantricos cultivaram. É uma confusão parecida com a dos suprematistas. Foi da fusão de imagens tantricas e suprematistas que me apareceram estas pinturas. Evohé!


iti, iti? neti neti? naughty, naughty!

O hinduismo antigo (o dos Upanishades) controi os seus discursos e práticas através de analogias: Tat svam asi, So ham, Iti Iti.

O budismo, como um eco dialético, virou-se para as anti-analogias - nada cola com nada, o mundo é deslaçado, descomposto, asamskrita neti, neti.


Mas a zona onde nos encontramos ĂŠ mais impura, conspurcada quer pelo absoluto, quer pelo vazio, mas hĂ­bridamente obliqua a ambos naughty, naughty!


Górgias, o atipico Pedro Portugal dizia-me que os seus alunos nunca sabiam quando estaria a falar a sério. Esta atribulada incerteza estratégica foi inventada por Górgias, alguém que tornou a comunicação defenitivamente «marota» e emancipadora, sendo percursor das técnicas de tirar o tapete das convicções sem caír no cepticismo, adoptadas muito mais tarde por Nagarjuna e os mestres Zen.


Exemplo: «Tem que se destruir a seriedade dos adversários (e discipulos, acrescento)com o humor e vice-versa.»

Górgias era um brincalhão e viveu 108 anos na maior - foi rico, feliz, etc. É um exemplo de sabedoria em carne e ossos. O seu estilo era sobreabundante, abusando de palavras exageradas, semelhanças e justaposição de contrários. Foi discipulo do filósofo-mago que se atirou para dentro do vulcão (Empédocles), que por sua vez foi discipulo de Parménides, um tipo obcecado com a esfera do ser - mas também deveria ter qualquer coisa de mago, nas correleções que faz entre o Serr e a Doxa. Temos que sentir em Górgias estes eflúvios, assim como o dos vizinhos pitagóricos, que eram supersticiosos e cabisbaixos.


Górgias tem uma frase «duvidosa» citada por Proclos (um tipo muito sério)com um ar refutativo: «O que dizia Górgias não é inteiramente verdadeiro - o ser é invisível se não for retomado no parecer, e o parecer inconsistente se ele não agarrar o ser.» Citação literal? Glosa? Parafráse? O que nos parece dizer Górgias é da intensidade do Ser e do Parecer, com as quais está preocupado. Para Górgias Doxa= Ser=«Não-Ser» (a versão linguisticamente negada (reafirmante-refutante) do Ser, o seu eco «negativo»). Górgias considera a imaginação como parte desta lógica - as figuras fantásticas, que não existem, os sonhos, etc, são ecos do que é, re-cozinhando as aparências e reforçando a «esfera» do que é. Por isso o outro pilar do método gorgiano era o de considerar justa e sábia a capacidade de criar ilusão e de nos deixarmos involver por ela - a sabedoria do persuasor-artista e do espectador é a de deixar-se possuir pela magia do mundo e pelo encantamento. Este encantamento, que é um suplemento, ou um ornamento, é bem mais importante do que todas as análises que desencantam, é o tal ser que é fecundo no aparecer, e que desaparece quando desconsideramos as aparências.


Finalmente uma referência a kairós, o momento oportuno, sobre o qual Górgias foi o primeiro a escrever - Dionísio de Halicarnasso critica-lhe a insuficiencia no defenição, não sei se com justiça, pois não sabemos o que é que Górgias disse sobre o assunto.


Platão fala da prática de Górgias como de uma gymnásia - uma prática constante, uma capacidade que se adensa nas teias da improvisação. Provávelmente o grande kairós acontece suscitando algo mais do que as katharsis do vseu mestre Empédocles.


Vamos ter que esperar muitos séculos para ver as ideias de Górgias retomadas por Abhinavagupta e outros. Elas esclarecem Górgias, tal como Alberto Caeiro clarifica parcialmente Antifonte.


os meigos quadrados suprematistas

Durante o modernismo a quase totalidade das práticas da arte dita «abstrata» foi feita contra a ideia de «representação». O clichê habitual para tal atitude é a justificação de que a fotografia, sendo uma fiel representadora do visível libertou a arte dessa tarefa servil a que as tradições da pintura e escultura pareciam condenadas. Na prática da abstração «moderna» confluiram quer as (bem antigas!) razões iconoclastas das religiões monoteístas (na versão mais severa e puritana), quer o paradigma, forjado por Platão, da representação como degradante pasto de simulacros. Por volta de meados dos anos 80 esteve a certa altura em moda algo chamado neo-geo, a prática da abstracção irónica, seja na versão cínica (com molho foucaultiano e lambidelas baudrillardianas), seja na acomodação Pop/ conceptual às comodidades burguesas ou ao alterne dos chavões neo-marxistas & frustrados.


Na altura consubstanciei em algumas pinturas a possibilidade de uma abstracção não-iconoclasta, iconófila até (mas nada de pedófilias), que pudesse ser «marota» sem caír no anedótico das intencionalidades de algibeira de que os artistas se socorrem como uma boia para agarrar a arte a algum pretenso sentido – o velho neolítico acenava-me, assim como os lívidos (e tão criticáveis) pitagóricos, ou os diagramas chineses antes da burocracia celeste dos imperadores os utilizar como colete de forças social. Queria uma abstração que bulisse, que fosse sussurante e estremecente. Pensava em Empédocles atirando-se para o vulcão, e nos diagramas que um pouco pelo mundo antigo se desenharam na areia para explicar as mais diversas teorias e manipular os quiçá agentes do invisível.


A abstracção (cá para mim!), sobretudo a geométrica, apela ao homem teatral e procura leis festivas, mesmo nesta era de alta defenição post-post-industrial – há um bas-fond musical/numérico, por vezes muito puro, mas frequentemente uma chinfrineira que nos/lhes é environment . Os suprematistas, descendentes de iconófilos, procuram forjar imagens simples carregadas de energia, embora meigas como quadrados pouco rigorosos. Magos, monges e ascetas usaram imagens abstractas como ferramentas de poder, mais do que de emancipação das coisas que nos tramam na vida.


Daí estes quadrinhos que traduzem todo um conjunto de reflexões/ebulições sobre o que é e foi a abstracção, e a capacidade de esta «tradição» ainda permitir deliciosas intrigas – marotas? A chafurdarem em efusões tântricas? Ou no regresso impossível aos ditos antigos gregos que se tornam equivocamente contemporaneos sempre que os repensamos? O re-conhecimento é difícil e as anamnéses são diferendos, o que possibilita as dramaturgias, graças à eastranhesa e aos equívocos. No entanto as pinturas dizem, uma de cada vez, o que somos (ou o que se calhar sou?) inteiramente, na disponibilidade para o instante em que aconteceram, e para lá de espectativas efeverescentes que ilimitadamente lhe sobram.


a eternidade vaca (replay)

Quiçå a eternidade vaca regresse a si mesma desenvacalhando-se.


VERY OBSCURE SUTRAS (found in a museum store) 1. Counsciousness is the briefing. 2. Knoweldge is random linking. 3. Ideas are delayed (or deleted) beauty. 4. Time is the living target, surrounded by incarnated axioms. 5. Sex is the hot seat of knoweldge. 6. Emergence is extasy.


7. Art makes you tremble secretly forever. 8. Universe is a set of footnotes to some obscure painting. 9. Art enjoys different kind of softwares. 10. Waking art looks conceptual (or abstract). 11. Dreaming art atempts to represent something (stupid!). 12. Unconscious art is merely formal or informal.


13. Art changes – the rule is: why not? 14. Art without atonishment or bliss is bluff. 15. The power of will is the ornement of the next absence. 16. Body is intoxication – everything is toxic. Everything is the body. 17. Living is the colective form of art. 18. Emptiness generates museums. Quite empty museums with crowded stores.


19. Sets of structures generate artistic axioms. 20. Awareness energizes – energy is sexy. Beware! 21. Gods are drugs adicteds – that’s the cause of our existence. 22. What art brings to a place, the rest of nature displaces. 23. Space-tipe is a sexual lake – art explains it better. 24. Mind is a monkey.


25. Mind is a monkey business. 26. Effort leads to sweating. 27. Words don’t have secrets or substance. 28. The emergence of novelty is the womb of history. 29. If you really have seen it, therefore you´r the god of art. 30. Guru is the guy that explains explainisms. 31. Arrows do consciousness better, 32. Art is mind’s body playing oblation.


33. The art market feeds artists stomachs. 34. The extinction of art is good for the museums. 35. The monkey is the self. 36. The self makes sense. 37. The senses make selves. 38. Knowing is branding.


39. Artists are brands. 40. Art is sensing knoweldge. 41. Time changes illusions and delusions into ilusions and delusions. 42. In the end the body is endless transformation. So is art. 43. Dissolution in reproduction smels like victory. 44. Politics of power are the hope to fit in a museum forever.


45. The spontaneity of the viewer arises more and where art works are. 46. Autorship is the perfect role for the lonely self. 47. The stage of art doesn’t recognize the players. 48. Spectators are post-poned authors. 49. Inteligence gives us extra-powers and makes purity irrelevant. 50. Creativity is art at last.


51. Here or there, my dear, is better than somewhere. 52. Different positions do it better. 53. Pay attention to simple forms. 54. Be friend of complex processes. 55. The world is the last fashion of nature. 56. The deadline is wrong because artists are lazy.


57. Good breathing gives better critics. 58. We become more and more like ourselves. 59. Conversation is the comerce of powerless mantras. 60. We stay and go. Things are passing by. 61. Our universe is the freedom of having great rules. Our role is of being incarnated wit. 62. Pain and pleasure are puns.


63. Play fictions. Become free. Share your creativity. 64. Every link is an extra bonus. 65. Again and again, art – lost in awareness.


abstracção e teatro

A arte que se «reclama» abstracta é recente. É certo que tem fugido com o rabo à seringa a qualquer etiqueta que a relacione com o teatro, se bem que um crítico americano, aquando do surgimento do minimalismo, os acusava, em nome de uma abstracção mais pura, de teatralizar. No entanto a história da «abstracção» e dos conceitos é indossoluvel do teatro, e é o que a torna excitante.


Foi a teatralidade dos gregos que tornou determinadas palavras mais acutilantes. Górgias, como já referimos, tem uma concepção teatral da sabedoria e do pensamento. Platão parodia o teatro escrevendo diálogos - teatraliza a arte de refutar de uma forma mais convincente. Na verdade desenvolve a noção de personagem de uma forma contundente (e particularmente mimética), e dá-lhe uma liberdade conceptual e um poder de divagação fabulosos.


Podemos discutir se os «conteúdos» dos seus diálogos são identicos àos conteúdos da suas formas, mas de nada adiantará aqui esgrimirmos argumentações.Aristótelas também escreveu diálogos que não nos chegaram. Pode ser um brilhante adversário da ambiguidade, mas de livro ,para livro as suas opiniões resvalam ligeiramente. Aristóteles defendeu a teatralidade na sua poética sem hesitações. Nos filósofos helenistas e romanos a teatralidade está muito mais ausente, se exceptuarmos a tradição menipeica e em particular o muito tardio Luciano.


A India e a China também vão conhecer o teatro, mas bem mais tarde. Há um famoso tratado teatral, o Natyashastra que é contemporâneo do dramaturgo antigo mais conhecido, Bhásha, no século primeiro. Provavelmente a popularidade teatral, assim como da dança, fazem com que uma divindade, Shiva incarne essa dimensão. Só depois do declinio budista, na idade de ouro das artes, é que o pensamento hinduista, em oposição aos anti-teatrais budistas, introduz a teatralidade no coração do próprio «absoluto».


Os Shiva Sutras, de Utpaladeva, falam da consciência, e do Absoluto como um actor. A sua linhagem, que inclui Abhinavagupta e Kshemarája, preocupar-se-á com questões «teatrais» e divulgam a curiosa ideia de que as diversas filosofias são como diferentes versões teatrais de uma mesma peça. Quanto aos chineses (e por arrastão os japoneses) desconheço as sequelas na arte do pensamento, mas se escarafunchar talvez encontre alguma coisa, mesmo nos tradicionalmente iconoclastas meandros budistas.


Nietzsche foi o filรณsofo mais emblemรกtico da teatralidade, mas esta desponta no Ocidente com o renascimento, expandindo-se no mundo barroco com Shakespeare, Giordano Bruno e Cyrano de Bergerac, entre outros. Durante muito tempo namorarรก com a filosofia (vejase Fontanelle, Diderot, Sade, Holderlin).


Como a arte abstracta é a expressão de um prazer «intelectual» e conceptual vindo do mundo filosófico, e como este consegue conciliar, pelo menos nos autores referidos, a dimensão metafórica e a teatral, sinto que é útil reunir estas àguas que militantemente se tentaram separar (os militantes do «conceito puro» e os militantes do regresso à pureza metafórica da linguagem)e reivindicar, mais uma vez uma abstacção teatral, operática, carnavalesca. Libertá-la dos espartilhos que fazem dos sucessores de Mondrian uns tipos com um ar burocrático. Há um fundo animalesco e emocional mesmo nos mais rigorosos enunciados. Evohé


pronunciamentos Alguns artistas, antes de dizerem o que quer que seja sobre si, põe-se a pedir desculpas, quer pelo que fizeram, quer pelo que não fizeram, quer pelo que poderiam ter feito; outros, seguindo o (mau, a meu vêr) exemplo de Almada Negreiros, não se pronunciam (master dixit) sobre os outros.


Há, nesta terra, uma dificuldade em falar quer sobre si quer sobre os outros — são os artistas que o cultivam sentando-se nesse embaraço e desleixando as esmolas verbais que a consciência pode dar para manter vivo, com floridos criticismos, um meio. Há uma censura que é um medo de parecer mal ou de arranjar problemas (que realmente se arranjam), um silêncio que não é de agora, nem sequer só do Salazar (sendo este uma boa hipótese de atribuir «culpa», não nos desgracemos com invocá-la) e que já vem muito de antes.


Procura-se a invulnerabilidade? Prefiro os equívocos e as vulnerabilidades. Pode parecer mais uma desculpa porque vou falar de mim e dos outros a propósito de uma exposição «marota» - mais outra? Pois! Pois!


balancé Vindo de uma exposição, em Janeiro, de tecnologias fotográficas e palavras a nadar nelas, e de uma exposição onde surgiam esculturas/instalações, caí nos dias seguintes num catálogo da Ana Jotta onde um cão se ajoelhava perante uma pintura que reconheci como minha, uma linha vertical que no fim se desvia (marotamente) para diagonal ascendente. O quadro chama-se «Proença-a-velha». A minha pintura, parodiada, achincalhada, ou irónicamente venerada já começa a ser velha, ou pelo menos atingiu a maioridade dos 21 anos.


Não sei onde pára, mas está reproduzida num catálogo, daqueles catálogos igualmente velhos a que ninguém, exceptuando os especialistas nessa época (existem?) ligam. Constatei, ao recolher imagens dispersas e «antigas» que estão dispersas em galerias ou amontoadas no meu atelier, um filão de imagens mais-oumenos abstractas onde fedem as influências de Malevich, Soll Lewitt, Picabia, Frank Stella, para começar em alguns nomes do poletão da história de arte do sec. XX, assim como sombras «regionais», «tugas» ou «provincianas» como o Lapa e o Ângelo.


Sou muitas vezes influênciado por obras minhas que reencontro, como se quizesse recuperar um filão que se quebrou abruptamente, ou como se o tema da conversa dessas pinturas só se tornasse evidente muitos anos depois. Há coisas que temos que esperar muitos anos para dizer, ou para continuar a dizer, depois de termos tagarelado outras coisas, bem diversas, ou de termos escutado o que muitas outras obras de arte der outros parecem ter para dizer (neste caso, o que julgo que elas dizem) neste intermezzo sem intermezzos que é a dita arte ao longo dos tempos.


Daí saírem estas pinturas, umas 100 e algumas outras anexas, que saíram de rajada, como uma necessidade impensada, se calhar fora do tempo, não sei se em contra-ciclo a esta época que acabará também como época passada, quiçá bem passada, quiçá mal passada. Foi esta centena precedida por uns desenhos vorticistastântricos, em homenagem quer aos vorticistas (e em particular a um desenho de Malevich que traduzi a «côres» e em «grande» no ano da graça de 1982), quer aos bem/mal afamados diagramas dos tântricos. Meandros (suspeitos?) tântricos onde recentemente encontrei um autor que me parece tratar de alguns temas artisticos (da dita cuja estética) de uma maneira que me é especialmente simpática: refiro-me a Abhinavagupta. Exuberância, encantamento, apologia do ficcional, etc.


fragmentos de conferência Ao contrário do que é normal, quer na versão «modernista» da abstracção, quer na versão paródica/crítica dos neo-abstractos dos anos 80, penso que é possivel cultivar uma abstracção iconófila, teatral, carnavalesca, que em lugar de se opor ao mundo das imagens que suspeitamente representam alguma coisa, as complementa e as incentiva, não como manhosa metalinguagem (uma linguagem que as «supere», as «arrume» ou as «controle»), mas como uma prática que reforce o papel da consciência e que assuma sem perconceitos ou justificações o facto de se poder desfrutar de um papel emancipado relativamente a uma tradição que tinha de usar unhas e dentes e interditos para não ser demasiado suspeita aos olhos dos diversos públicos. Habituamo-nos, e o nosso quatidiano é herdeiro da lógica abstraccionista gone mad.


Deste modo julgo que se pode olhar para esta prática de uma abstracção geométrica sem a desconfiança de mais um disparatado «revival», e sem a sensação de apenas estar a continuar algo que já foi superado há muito tempo pelas diversas modas que apressadamente os historiadores da contemporaneadade acabaram por legitimar e os museus arquivar nas suas bem cheias caves.


Se bem que o termo «absoluto» seja incontornável dentro da história da arte abstracta, e sob ele caia uma suspeita de marginália hegeliana (que se calhar até é – ou não – pois a arte no seu permanente suposto fim só se pode enunciar como repetido avatar do absoluto – ou nada disso), a minha pobre posição de quem manda escanzeladas bocas filosóficas, muitas vezes contraditórias, é a de que «quanto mais imanente mais absoluto!».


Esta pintura abstracta é assim o «alter ego» da afirmação de uma imanência radical, e de que a aragem do absoluto (mas não da totalidade e seus tentáculos) anda por lá. E o que é da ordem do absoluto é da desculpabilização (da absolvição), da livre fruição e do usufruto, esperemos que cada vez mais agudo, da consciência. Para os que chafurdam com chavões da ética, direi que ser ético é ser livre consigo e com os outros.


A questão não está em averiguar, como num tribunal, se os resultados são verdadeiros ou falsos, se são ilusórios ou autênticos, se são puros ou impuros, mas em radicalizar a experiência de uma consciência, o que só é possivel através de uma prática (pictórica neste caso), seja através de encenadas anamnéses, seja fruto de uma amnésia que é uma imersão adictiva no presente.


ciladas burlescas

Recordo mais uma vez um dos maravilhosos fragmentos de Górgias, o sofista, que miraculosamente chegou até nós, e onde este declara que iludir e ser iludido é mais justo do que distanciar-se das ilusões, e que deixarse iludir é mais sábio do que lhe resistir suspeitamente.


As linguagens são afrodisíacas, e a arte abstracta não lhe escapa. A estética indiana bem pode falar dos 8 rasas (ou emoções estéticas básicas) e da sua tendência (segundo Abhinavagupta que o introduziu mais tarde, por volta do sec. X) para um nono rasa (o da tranquilidade), mas entre os rasas é quase sempre o «erótico» que predomina, não sei se como preludio da tranquilidade, se como o melhor interprete desse estremecimento de tudo, que não só atravessa todos os detalhes do mundo, quanto o absoluto que o absolve, a que também Abhinavagupta e seus percursores chamam spanda.


Irei ainda mais longe na suposição de que todas as linguagens potênciam os seus dramas e comédias, e que, não sei porquê, há uma trabalheira em tentar disfarçar o que é encantamento, artificio e teatralidade na exploração das linguagens. Por baixo de cada prática sussurra algo shakespeareano, mas esses demónios só emergem raramente como sobreabundância. E na sobrabundância o humor é inevitável (outro dos rasas, meus amigos!). Humor é, pois claro, marotice.


A sobreabundância é por si já um problema politico e ético, porque em nada facilita as coisas, e porque torna as questões menos òbvias, mais ambiguas, e faz com que cada momento das linguagens seja mais uma cilada, que nos pode mandar quer para a tal tranquilidade (burguesa ou ascética), quer para o profundo dos infernos da vida


against myself

Não posso deixar de referir, contra mim mesmo, o lado intuitivo com que as imagens surgiram, com menos rigor do que este tipo de abstracção pede, algo «badalhocas» sem serem mesmo badalhocas. Mas isso corresponde a um prazer de execução que não consigo hipotecar por outro género, menos generoso de qualidades. Esse prazer não o troco por razões ou legitimações, por grandiloquências ou carreiras, por máximos efeitos ou assistentes que me livrem da trabalheira. É um cliché da minha geração de que não me quero livrar.


Por isso esta é uma exposição que agradece e pisca os olhos aos meus contemporâneos e conterrâneos que sabem ser marotos em vida e obra e que não se cansam de dizer (ou escrever) publicamente o que opinativamente (seja sobre vidas, obras e teorias) lhes vai nas cabecinhas.


Selvagem & Civilizado

Os Shiva Sutras são o epicentro a partir do qual podemos fazer uma série de links e compreender-mos que a teatralidade absoluta da consciência é um «dado». Teremos sempre que pôr reservas. Por isso aproveito para citar este texto do Ernesto de Sousa, nãso muito distante do tema do texto de Utpaladeva:


toda a obra de arte é, mais ou menos conceptual toda a obra de arte é, mais ou menos consciente o conceptualismo consistiu na necessidade, mais social do que estética, de pôr os respectivos mecanismos objectivamente à mostra (objecto estético/processo estético) (processo: obra aberta) teoria da arquiescrita e do traço em Derrida Kristeva: todo o espaço faz rir


duas leituras do to be or not to be: no vontexto shakespeareano, a importância da dúvida, da diferença num contexto vulgar, a indiferença tanto faz (teologia negativa) os objectos objectam


o histĂłrico (ou jĂĄ acontecido) e o apenas concebido (ou apenas sonhado) os movimentos artisticos que escolheram o respectivo nome (futurismo, construtivismo, conceptualismo) os movimentos artĂ­sticos de nome imposto (impressionismo, cubismo..., e atĂŠ, maneirismo, barroco, etc.) os movimentos artisticos cujo nome quer ser simplesmente descritivo (art povera, land art, body art, ecological art, eat art...)


pragmatismo, paradoxologia (...)


mais ou menos

o que é surpreendente no texto do ernesto é o «mais ou menos» toda a obra de arte é - mais ou menos? há obras de arte que são mais e outras que são menos - conscientes há obras de arte que são simultaneamente muito conscientes e muito não-conceptuais


o que me pareceu estranho neste jogo de consciência é que não podemos explorar efectivamente a consciência sem a nossa imanência - não há uma experiência antes e depois - tudo é continuo

o «mais ou menos» são as flutuações e as descontinuidades dentro do continuo


sei que o ernesto militava numa arte «imanentemente» conceptual mas o importante, e que aparece aqui como algo desgarrado, é a dupla insistência em Eco e Kristeva ( e Derrida também) o processo - obra aberta, e o espaço que faz rir - é neste triplo jogo enunciado pelo ernesto que me revejo: riso processo consciencia


notas para nos acompanharem nos fins dos fins Outro texto do ernesto, util para «me» explicar é da mesma altura (84)

NOTAS PARA ACOMPANHAR O FIM DO MUNDO

Interdisciplinariedade e paradoxologia Diferença e in-diferença Indiferença e desprezo Comunicação e incomunicação (ou transcomunicação)


Comunicação e incomunicação (ou transcomunicação) Estrutura e conjuntura (ou a tradição como aventura) Desejo e prazer (o teu corpo é o meu corpo é o teu corpo) Terror e o paradoxo do terror (a cruz e a chama) paraíso prometido (ou esta é a minha terra) Não vou por aí Agora e aqui


É este programa que é desenvolvido por mim e pelos homeostéticos — que pintavam bárbaramente. Não me arrependo. Faz parte de uma caminhada «mais ou menos conceptual».


mantra in progress

os shiva sutras dizem que:

a mente é consciência a mente é mantra o conhecimento é os bhandas (lingações activas) etc.


a homeostética falava desde o ínicio de um mantra in progress e que O RISO (sem adjectivos) é uma grande máquina de conhecimento. no fundo o riso é o grande bhanda, o grande link, o grande gesto ou como dizem os adeptos do dzogchen, o mahamudra


não podemos dissassociar a consciência (de Si) do Riso o que é absoluto absolve e ri por isso não é o espaço que faz rir, o espaço é uma contração do riso


«o paradigma assinto»

Escreveu M. Vieira (é bom citá-lo):

«A moda na Holanda e nos países baixos davame a impressão que perdia o meu tempo. Mas será perder o tempo apanhar sol na cara e terra nos pés? »


«Os budas não servem para Nada. A revolução social e a moda na Holanda não serão a mesma coisa?»

«Ah! O campo!»


conceito com e sem conceito

ÂŤlink (or yoga) is consciousness/vib-ratio/retaining awareness/fluxus/abstractionÂť

or


concepts are with-out concept concepts exist because there are connections of words counsciousness is the identification that something is linking the links


is it us? is it a player? are we played?

abstraction is a reduction, a contraction, what is retained

abstraction is about retaining the maximum meaning in the most powerfull reductive version/fashion


there are no abstractions without ÂŤthe role of abstractionÂť

different styles are ways of performing different roles

consciousness is something in space and time playing the role of transcending space and time - there is no consciousness or things outside space and time


painting raises the consciousness of forms, colours, structures and concepts philosophy is the mental space where we love to play ÂŤabstractlyÂť with more or less abstract words allegoric abstraction is the double game that connects painting and philosophy


o jogo de si com si (by el frique!)

a abstração geométrica carnavalando é a consciencia que conscientemente se performa teatralmente

carnavalar é sobrar-se, sossobrar-se, desdobrar-se para um dentro-fora


quando o pensamento é sobreabundante num mundo que já é excesso, então a consciencia encena-se como:

a) luto b) curte a festa c) algo que anda entre o luto e a festa


o que é que diziam os nominalistas- as coisas são só coisas: as abstrações são interpretações simplistas do que é estrutural ou essencial nas coisas

o que dizem os platónicos/realistas - as abstrações são o real: as coisas são versões degradadas de arquétipos (ou de conceitos puros). Em suma, as coisas são complicadas, impuras e não-essenciais.


Nas tradições paradoxologicas (tantricasmaneiristas), o Ser e a Doxa, o Braman e Maya, o Nirvana e o Samsara, são «como que» idênticos - as coisas são coisas assim como as suas reduções e estruturas


É a consciencia que «liberta» (o trabalho, pelo contrário & hitlerianamente, escraviza)

Efectivamente é a consciência, os seus fluxos e a abstracção que libertam (citta/vritti/nirodha)

A liberdade é a possibilidade, não de suprimir a consciência, mas de assumir diversos papeis.


A pluralidade de papeis não é um mal, porque todos os papeis libertam

a liberdade é «prazer» - o gozo. Divertindo-se na dança da consciencia

(isto é tão frique!)


Vib-ratio sentences

because we believe in the
immanence of the absolute
we are born to the immediate
in all its shaking forms


1. 

art is the magnet of superabundance and of emerging strength – if you open your eyes art becomes, if you close your eyes you become a multiple oneness with art 2. 
vib-ratio is the string where creation comes and goes – the sound returns to the moving «silence» - silence is sound inside the sound returning to the sound – form/ formless is elasticity of waves mothering things


3. 
there is no quiet source, but all sources are somewhere – plurality is interconnection, movement of connections immerging, illusion pretending to mask illusion, but unmasking itself in the process itself 4. 
egos and authorships are plays – masks don’t mask but reveal the potentiality of the plots – our nature dwells in it’s movements – being enjoys variations


5. 
body consciousness is mimesis – body is consciousness – spaces appeal to games – nature, or the absolute, is the great performer – empathy, or mimicry, is the best adequation to the plots 6. 
freedom is the capacity to form and un-form, or to stop forming – forms may look informal, but they remain forms


7. 
matter is consciousness – it can be light or heavy, it can be reluctant to transformation and at the same the velocity of transformation itself – freedom is, at last, richness in translation 8. 
vib-ratio is the string that plays all sounds – is sound bringing up all the senses, forms, thoughts


9. egos are like jokes – egos may look like disconnections – desire is the agent of reconnections – illusion is like a meantime – time is the sum of the multiple meantime’s of each 10. 
then everybody realizes that innate nature is merely the genetic code – the genetic code brings with it the desire of being more than genetic restrains – art expands this desire – immersion in the world, going on in the big party of forms – inventing «other» worlds for a while


if artists are reluctant to society rules, why do they wish to be participants in the cynically omnivorous art world and search most of all for recognition 12. 
if complexity could be contemplated where should we start to play the strings of conscience?


13. 
the non-absence of the world gives us the illusion that there is only playful illusion and absence – art is the proof of non-vacuity, because illusions says something, and that something reveals the truthfulness and the friendliness of formations and destructions 14. 
actors and acting are mixed – action dissolves into other actions – there are no act fruits – causality is just the faking idea that language or some formula can appropriate events


15. ego is the pleasure of considering ourselves as the main causality


vib-ratio 2 art is the pleasure of linking the circular causalities of our ego to stochastic processes – ego only plays the role of consciousness driving through metamorphic games vib-ratio is the awareness of awareness and non-awareness – art is trembling through enthusiasm, paradox, and the coincidence of opposites, shake the knowledge - omnivorous consciousness, malicious art


the whole palette of styles acts as virtual liberations – style is a special case of vibratio, at the same time reducing and opening potentialities with chords of causality – styles are particular tremblings – through the tremor of the style become the great earthquake that trembles everything if you create styles, styles don’t limit you – creation frees, fashion is an hybrid adjustment to strange dominant powers become what shakes in styles or cultures – don’t fight against particularities because they are changing – don’t be afraid of generalities, they are the best way to concentrate great power in small things – even super-abstractions are being transformed become one with the multitude of shakings – become many with the great shake-shake – while inactive you surf in vib-ratio waves – there is no real quietness in the world radical emotions reveal how deep we are trembled – art shows and propagates waves of emotional radicalism


there is an alchemy of energy and sound that flows in the bodies – art intensifies energy, linking what was fighting, dissociating harmony lucidity is the state we can enjoy when we are drunk of consciousness theory is masked mantra – it dissimulates power actions inside the theatrical economy of abstraction Non-totalitarian concentration – endless und fulfilling desire — the identification of our autos with world autos is radical empathy, and the basis of autonomy – art is the in-between – ornament, patterning our own theatrical behaviour (the play of ourselves playing our self) makes no difference with the Absolute liberation is the libidinal hybridisation of Being — meditation is the concentration camp of vibrations not ec-stasy nor even en-stasy, but an ecology of aesthetic-ecstatic-enstasic states
wash the wishes
eat the heart of the art
art disappears in the comfort of the sameness – you cannot forget world vibrato


everything is tuning everything – disharmony is thunderous tuning nature and the absolute need disharmony in order to revel harmony better retain vib-ratio every moment – so life becomes much more than art to be tuned with the vib-ratio is to feel all the harmonics of the main sound courage is openness – openness begins in the chest… or in the art the autos is revealed in extreme desire – desire is the experimental path senses un-slave – intense sensibility is Samadhi – the ego vanishes in the laughter


vib-ratio 3 1. 
words return to sound – silence is the alter ego of vib-ratio – what is important is not the meaning, but awareness – theory fears sound? 2. 
become the Samadhi samba inside the mobilis in mobile 3. 
be the music player playing it, not the written music waiting to become 4. 
representations aren’t things – they can create theatrical sets that give us space to put things, even if there are no «real» things – feel the transitions, but forget the hypothetic permanence of whatever 5. 
language is not being, and logic doesn’t give us direct access to the absolute – words aren’t worlds – the sound of words through the body change the world


6. 
vib-ratio frees the dancer and excites the viewer – art without experimentation disembodies – you become a mind slave 7. 
you are not a concept, nor an archetype – forget what you think you are – get rid of intentions – intention fakes – pretentiousness starts in the wanting to say very important things – just bloom 8. 
the absolute is a kind of abduction using the lute 9. 
progress in returning, become through beauty – wishing is washing 10. 
the spontaneity, at last, after «forced spontaneity»


estes textos foram escritos no blog Naughty Abstractions entre 13 de Maio e 14 de Junho de 2007 para a exposição que foi realizada de seguida na galeria Porta 33 no Funchal — este livro é o testemunho desse entusiasmo


Naughty abstractions1  

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