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Poemas: Fernando Pessoa Ilustrações: Pedro Coutinho


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Foi no dia 13 de Junho de 1888 que nasceu um dos expoentes máximos da literatura portuguesa, Fernando António Nogueira Pessoa. Passou a sua juventude em Lisboa. Porém, a morte do seu pai e do seu irmão, junto ao facto de a mãe ter casado com um cônsul de África do Sul, foram motivos para o poeta viajar para o país referido. Aí, de 1896 a 1905, além de adquirir um perfeito domínio da língua inglesa, conviveu com grandes autores do país e assim foi influenciado a nível cultural e intelectual. Regressa a Portugal, com 17 anos, e depois de uma tentativa falhada no curso de Letras, frequentando-o apenas poucos meses, dedicou-se a assuntos de correspondência comercial em alguns escritórios de Lisboa. Destacando-se como poeta modernista, Fernando Pessoa tanto se expressou através do seu próprio nome como fazendo-se usar dos vários heterónimos, dos quais se destacam: Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis. Tanto em prosa como em verso, o poeta participou em várias publicações tais como Athena, Presença, Orpheu, Portugal Futurista e A Águia. Ao longo da sua obra procurou sempre algo de divino que nunca chegou a encontrar, e por isso concluiu que navegar no mundo das ideias seria a única opção. Já nos seus últimos anos de vida a angústia apoderou-se do poeta, visto que não conseguiu obter resultados concretos dos seus projectos, o que o conduziu a um profundo desespero. Fernando Pessoa morre a 30 de Novembro de 1935 com uma grave crise hepática, fruto do consumo de álcool ao longo dos anos. Em 1988, aquando o centenário do seu nascimento, o seu corpo foi transladado para o mosteiro dos Jerónimos. Durante a sua vida apenas publicou um livro: Mensagem, um poema épico.


Horizonte O mar anterior a nós, teus medos Tinham coral e praias e arvoredos. Desvendadas a noite e a cerração, As tormentas passadas e o mistério, Abria em flor o Longe, e o Sul sidério 'Splendia sobre sobre as naus da iniciação.

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Linha severa da longínqua costa Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta Em árvores onde o Longe nada tinha; Mais perto, abre-se a terra em sons e cores: E, no desembarcar, há aves, flores, Onde era só, de longe a abstracta linha. O sonho é ver as formas invisíveis Da distância imprecisa, e, com sensíveis Movimentos da esp'rança e da vontade, Buscar na linha fria do horizonte A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte Os beijos merecidos da Verdade.


Liberdade Ai que prazer Não cumprir um dever, Ter um livro para ler E não o fazer! Ler é maçada, Estudar é nada. O sol doira Sem literatura. O rio corre, bem ou mal, Sem edição original. E a brisa, essa, De tão naturalmente matinal, Como tem tempo não tem pressa... 5|6

Livros são papéis pintados com tinta. Estudar é uma coisa em que está indistinta A distinção entre nada e coisa nenhuma. Quanto é melhor, quando há bruma, Esperar por D. Sebastião, Quer venha ou não! Grande é a poesia, a bondade e as danças... Mas o melhor do mundo são as crianças, Flores, música, o luar, e o sol, que peca Só quando, em vez de criar, seca. O mais do que isto É Jesus Cristo, Que não sabia nada de finanças Nem consta que tivesse biblioteca...


Se penso mais que um momento Se penso mais que um momento Na vida que eis a passar, Sou para o meu pensamento Um cadáver a esperar. Dentro em breve (poucos anos É quanto vive quem vive), Eu, anseios e enganos, Eu, quanto tive ou não tive, 7|8

Deixarei de ser visível Na terra onde dá o Sol, E, ou desfeito e insensível, Ou ébrio de outro arrebol, Terei perdido, suponho, O contacto quente e humano Com a terra, com o sonho, Com mês a mês e ano a ano. Por mais que o Sol doire a face Dos dias, o espaço mudo Lambra-nos que isso é disfarce E que é a noite que é tudo.


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Meu coração tardou Meu coração tardou. Meu coração Talvez se houvesse amor nunca tardasse; Mas, visto que, se o houve, houve em vão, Tanto faz que o amor houvesse ou não. Tardou. Antes, de inútil, acabasse.

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Meu coração postiço e contrafeito Finge-se meu. Se o amor o houvesse tido, Talvez, num rasgo natural de eleito, Seu próprio ser do nada houvesse feito, E a sua própria essência conseguido. Mas não. Nunca nem eu nem coração Fomos mais que um vestígio de passagem Entre um anseio vão e um sonho vão. Parceiros em prestidigitação, Caímos ambos pelo alçapão. Foi esta a nossa vida e a nossa viagem.


Nas grandes horas em que a insónia avulta Nas grandes horas em que a insónia avulta Como um novo universo doloroso, E a mente é clara com um ser que insulta O uso confuso com que o dia é ocioso,

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Cismo, embebido em sombras de repouso Onde habitam fantasmas e a alma é oculta, Em quanto errei e quanto ou dor ou gozo Me farão nada, como frase estulta. Cismo, cheio de nada, e a noite é tudo. Meu coração, que fala estando mudo, Repete seu monótono torpor Na sombra, no delírio da clareza, E não há Deus, nem ser, nem Natureza E a própria mágoa melhor fora dor.


Olhando o mar, sonho sem ter de quê Olhando o mar, sonho sem ter de quê. Nada no mar, salvo o ser mar, se vê. Mas de se nada ver quanto a alma sonha! De que me servem a verdade e a fé? Ver claro! Quantos, que fatais erramos, Em ruas ou em estradas ou sob ramos, Temos esta certeza e sempre e em tudo Sonhamos e sonhamos e sonhamos. 13|14

As árvores longínquas da floresta Parecem, por longínquas, 'star em festa. Quanto acontece porque se não vê! Mas do que há pouco ou não há o mesmo resta. Se tive amores? Já não sei se os tive. Quem ontem fui já hoje em mim não vive. Bebe, que tudo é líquido e embriaga, E a vida morre enquanto o ser revive. Colhes rosas? Que colhes, se hão-de ser Motivos coloridos de morrer? Mas colhe rosas. Porque não colhê-las Se te agrada e tudo é deixar de o haver?


560 Pedro Coutinho 17 12D


Poemas de Fernando Pessoa