Issuu on Google+

SOCIEDADE

JUVENTUDE

Adolescentes, música, emoção e estilo – eis os ingredientes de uma tribo urbana muito cutxiii

O

POR PEDRO MIGUEL SANTOS

gados, em grande parte, em redes sociais como o MySpace, Hi5, Orkut ou MSN. Na Web, há centenas de grupos e fóruns sobre o movimento emo e as sua bandas favoritas – para existirem, têm de estar na rede, permitindo até que se descarreguem gratuitamente as suas músicas. «São canais com um papel cada vez mais importante, porque permitem que se estabeleçam relações independentemente dos constrangimentos territoriais», observa o sociólogo da Universidade Nova. A maioria dos amigos emos de Inês Pedro estão na Net, assim como os de José Fraústo, 16 anos. Há um ano que deixou de ouvir rap – agora, arrastado por uma amiga, considera-se emo e aderiu aos ritmos desta tribo. Além de estar apaixonado pela amiga está apaixonado pela música. «Faz sentir-me muito bem», diz o jovem que gostava de ser médico legista. O que este género tem de diferente são as letras e as melodias, românticas e sentimentais. Bruno Vasconcelos Lima, na sua tese Sangue e lágrimas: o emocore como estilo de vida, apresentada para obtenção do grau de Bacharel em Comunicação Social, pela Universidade Federal do Ceará, no Brasil, diz que «o emocore parece ser a síntese perfeita para um público eufórico, que tem energia e vitalidade em excesso, e portanto deseja um som mais vibrante e agitado, mas que está a passar pelas primeiras experiências amorosas, sem saber lidar de forma adequada com elas. Esses jovens encontram na música um refúgio, uma identificação directa com as histórias que são abordadas nas letras, sendo esse apontado como um dos principais motivos para começarem a ouvir este tipo de música». Em Portugal, não existe qualquer tipo de estudo sobre esta temática, apesar de a tribo juvenil ter cada vez mais adeptos.

uvem música aos berros mas são auto-identificação», comenta José Alberto muito sensíveis. Chamam-lhes Simões, 38 anos, professor do departamenpunks ou góticos mas não os to de Sociologia da Faculdade de Ciências move a contestação ao poder po- Sociais e Humanas da Universidade Nova lítico ou a denúncia de injustiças sociais. de Lisboa. Vestem roupa justa, sobretudo preta, em contraste com outras de cores berrantes, @MIGOS E MÚSIC@ e a franja lisa a tapar um olho é obrigatória. Se a forma de vestir define o que são, o que E são raros os que não usam eyeliner (con- ouvem fá-los ainda melhor. O emocore e o torno de olhos). Ah, é verdade, têm entre 12 scremo (subestilo do primeiro, mais agrese 20 anos e as emoções são a sua bandeira. sivo e intenso) unem milhares de rapazes e raparigas por todo o mundo e são divulEis os emos. O nome tem raízes num estilo musical nascido nos anos 80, na capital dos Estados Unidos da América, Washington DC, derivado do hardcore – uma modalidade de punk com batidas mais aceleradas – e foi designado emotional hardcore. Daí às abreviaturas emocore ou simplesmente emo, foi um passo. Como definir, então, os jovens deste movimento? «Não é só um estilo de vestir ou de música. É um estilo de vida, de um modo geral sentimental», defende Inês Pedro, 16 anos, que se assume, há dois anos, como ema [assim se autodesignam as raparigas]. Apesar do seu ar tímido e sensível, a adolescente de Corroios (Seixal) sabe bem o que quer – é a única emo da sua escola e não tem problemas de entrar na sala de aula de ténis vermelhos, calças azuis-escuras, T-shirt amarela e unhas pintadas de verde. Ou toda de preto, com acessórios rosa-choque da Hello Kitty. Porque se veste deste modo? «Porque gosto», diz, enquanto afasta da cara a franja que lhe tapa um dos olhos. «Já desisti de tentar alterar a maneira de ela se vestir», resigna-se a mãe, Maria Carla, 49 anos. INÊS PEDRO «Os estilos juvenis são muiApesar do ar tímido e sensível, a adolescente de Corroios enfenta todos os dias os colegas da escola com uma indumentária irreverente to visuais e uma forma de 106

v 20 DE NOVEMBRO DE 2008

‘EMOSSEXUAIS’

As dores de coração não são as únicas que afligem os emos. O preconceito e a discriminação revelam-se uma constante na vida de quem

FOTO: NUNO FOX

Sou emo, e depois?


V820_Emo1