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SOCIEDADE

CRIME

LAURA PASSOS Mais de 100 mil euros gastos em medidas de segurança para proteger o seu negócio

Os assaltos a armazenistas e distribuidores têm aumentado em número e em violência POR PATRÍCIA FONSECA E PEDRO SANTOS

S

e pensa que as principais vítimas dos cigarros são apenas os fumadores, engana-se. Os roubos em armazéns, de máquinas de venda e carrinhas de transporte não param de crescer e tornam-se cada vez mais perigosos para os profissionais deste ramo: os sequestros estão a banalizar-se, no dia-a-dia destes funcionários, conforme confirma à VISÃO o tenente-general Leonel de Carvalho, 64 anos, responsável pelo Gabinete Coordenador de Segurança. Os números concretos encontram-se diluídos nas estatísticas de assaltos à mão armada mas os grossistas contactados mencionam «largas dezenas» de ocorrências, só no último ano. João Passos, 44 anos, presidente da Associação de Grossistas de Tabaco do Sul (AGTSUL), diz que existem redes criminosas e fala no carácter «poderoso, organizado e extremamente violento» destas organizações. «O modus operandi é, regra geral, o mesmo. Os criminosos seguem a carrinha de transporte, fazem-na parar e, com a ameaça de uma arma, obrigam o condutor a sair. Depois sequestram-no e levam a carrinha para um local ermo, descarregando o tabaco para os seus carros, que, muitas vezes, são roubados propositadamente para realizar esses assaltos», explica Leonel de Carvalho. 112

v 24 DE ABRIL DE 2008

Reinaldo Abreu, 67 anos, distribuidor na zona de Setúbal há quase um ano, foi vítima de tentativa de assalto, em Março. Duas vezes, no mesmo dia, no mesmo café. Uma semana depois, seguiram-no de carro e tentaram de novo. «Tenho medo. Há uma pressão muito grande e estou sempre a pensar nisto», diz Reinaldo, que substituiu, na empresa, um colega assaltado e sequestrado, no Verão de 2007, e que, até hoje, se encontra de baixa psiquiátrica. Também Manuela Gomes, 45 anos, ainda treme quando se recorda do dia, em 2000, em que dois homens encapuzados entraram no armazém onde trabalhava e a

A última técnica Uma nova «arma» tem sido utilizada, este ano, nos roubos de máquinas de tabaco situadas dentro de cafés: os extintores. Com eles, os assaltantes lançam uma nuvem de pó para gerarem a confusão e evitarem ser reconhecidos – e captados por eventuais câmaras de vigilância. Nalguns casos, o acto é precedido pelo abalroamento com um veículo (geralmente roubado) das vitrinas dos estabelecimentos.

PREJUÍZO DE MILHÕES Ricardo Manroc, 36 anos, grossista de tabaco no distrito de Setúbal, uma das regiões mais fustigadas pelos assaltantes, já perdeu 178 mil euros em quatro roubos às suas carrinhas e a três dezenas de máquinas de venda de tabaco. Desde 2000, os grossistas do Sul já contaram mais de um milhão de euros em prejuízos. O empresário acusa as autoridades de terem medo e de «não estarem preparadas para esta onda de violência». Laura Passos, 68 anos, já chegou a estar sequestrada dentro do seu próprio armazém. «Até hoje, não tive qualquer resposta das autoridades», lamenta. Talvez por esse motivo, a sua empresa pareça hoje uma prisão – grades em todas as janelas e barras de ferro nas portas. Em 2007, gastou mais de 100 mil euros em medidas de segurança. Esta é uma situação que preocupa o Gabinete Coordenador de Segurança. «Criámos um programa para combater o problema, em conjunto com as associações e empresas do sector, designado Transporte Seguro de Tabaco», adianta Leonel de Carvalho. Esta é, diz, «uma investigação prioritária das forças de segurança».

FOTO: MARCOS BORGA

Tabaco (quase) mata

algemaram, levando todo o carregamento do dia. «Ando sempre a olhar para a sombra…», confessa. «Há muita gente que não quer voltar a sair para a rua», confirma Jorge Duarte, 58 anos, presidente da Associação Nacional de Grossistas de Tabaco (ANGT). «Agora é também mais difícil contratar pessoal para este serviço.» O comércio de tabaco envolve grandes somas de dinheiro. «Só a AGTSUL contribui com 80 milhões de euros em impostos», diz João Passos, acreditando que, «cada vez que o tabaco aumenta, aumenta também a criminalidade». E o valor das mercadorias roubadas «é de tal ordem que já nos recusam seguros», adianta o presidente da ANGT.

tabaco quase mata  

SOCIEDADE PREJUÍZO DE MILHÕES Uma nova «arma» tem sido utilizada, este ano, nos roubos de máquinas de tabaco si- tuadas dentro de cafés: os...