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ECONOMIA

REPORTAGEM

TERESA CORREIA Desempregada, conta com a ajuda do Centro Paroquial do Castelo, em Sesimbra, para alimentar a família

A situação é dramática para cadsa vez mais famílias. Histórias de pessoas que a crise empurrou para a miséria POR TERESA CAMPOS*

esita um pouco antes de responder. Aperta as mãos, respira fundo e depois deixa sair a confissão: «Como é que faço? Olhe, se não houver carne ou peixe, bebo leite ou, então, como um pedacinho de pão», diz Teresa. À porta do Centro Paroquial do Castelo de Sesimbra, no meio da azáfama da distribuição mensal de comida na freguesia, Teresa Correia, 47 anos, explica assim como está a sentir na pele os efeitos da crise. Sem trabalho desde o fim do Verão, aquela ex-empregada de restauração ainda tentou esticar o subsídio de desemprego, parcos 400 euros, durante dois meses. Em Janeiro, não lhe sobrou alternativa senão candidatar-se àquele cabaz de arroz, massa e feijão, para ter o que pôr na mesa, lá em casa. Sozinha, com uma menina de 7 anos ao seu cuidado, segue um lema mais que compreensível: «À pequenina

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é que não há-de faltar.» No início, aparecia ali um bocadinho acanhada. Agora, já não. «Pedir não faz mal nenhum, não é? Se as pessoas dão, é de boa vontade.» Num morro sobranceiro à vila de Sesimbra, a freguesia do Castelo é a maior do concelho. Actualmente, socorrem-se daquela ajuda perto de 80 agregados familiares, num total de 200 pessoas. Só no último ano surgiram 50 novos pedidos de apoio. A situação agravou-se de tal maneira que o padre, Francisco Mendes, 33 anos, viu-se obrigado a dizê-lo com todas as letras. «A fome está de regresso ao distrito de Setúbal.» Mas não é preciso vasculhar num dos distritos mais pobres do País para encontrar famílias em dificuldades. O quadro repete-se, na paróquia da Póvoa de Santo Adrião, concelho de Loures, onde chegam todos os meses mais de cem pedidos de ajuda. E a história da fa-

GRITOS DE ALERTA Um primeiro aviso soou pela voz da presidente do Banco Alimentar Contra a Fome (BACF), em Outubro de 2007. Isabel Jonet, 48 anos, veio a público avisar que a situação estava a ficar insustentável para milhares de portugueses que, mesmo com emprego e sa-

FOTO: NUNO FOX

O país da fome

mília de Adriano comprova que a fome pode chegar aos estractos mais qualificados da população. De origem cabo-verdiana, na casa dos 40 anos, Adriano nunca conseguiu um emprego condizente com os seus estudos – e o mestrado que tirou nos Estados Unidos não lhe mete comida na mesa. Agarrou o possível, desde uma empresa de viveiros a uma loja de electrodomésticos. Sempre acima da linha de sobrevivência. Mas quando ficou desempregado, a frágil estabilidade financeira de que a família gozava ruiu. O custo dos tratamentos de uma filha deficiente e a renda da casa esgotaram o orçamento da família. O passo seguinte foi recorrer ao Fundo de Apoio às Famílias Necessitadas da freguesia. Os casos multiplicam-se por todo o País e o aumento do custo de vida estão a criar uma classe de novos pobres, oriundos da classe média e que já não ganham o suficiente para levar comida para casa.


lário, não conseguiam assegurar as necessidades básicas. Segundo as contas do BACF, no ano passado, a ajuda chegou a mais de 200 mil pessoas – e há mais, em lista de espera. «A estatística não oficial é muito maior, porque inclui pessoas que passam por dificuldades mas têm vergonha de o mostrar», justifica a persistente activista contra a pobreza. Há um mês, após a última campanha de recolha de alimentos, deixou escapar o desabafo de que pessoas que ajudavam aparecem agora a pedir ajuda. «Depois de uma campanha, recebemos uma média de 70 e-mails por dia, a dar conta de dificuldades.» E toda esta gente está a encher os locais onde se oferecem refeições. Atente-se no número 47 de Avenida Almirante Reis, em Lisboa: podia ser um restaurante como outro qualquer. Mas a agitação e a fila de pessoas à porta denunciam a diferença. O Refeitório dos Anjos, ou a «sopa dos pobres» como é conhecido, está aberto todo o ano e serve uma média de 568 refeições gratuitas diárias à população carenciada de Lisboa. «Ninguém sai daqui com fome», é a certeza dada por António Rosa Antunes, 47 anos, director do Centro de Apoio Social, no qual se integra o refeitório. No primeiro trimestre deste ano, apareceram ali 105 novos utentes. Luísa Carvalho da Silva, 43 anos, há já um ano que entra e sai do refeitório, querendo passar despercebida, tarefa dificultada pelo cabelo ruivo e os olhos azuis. Era empregada de escritório, mas ficou desempregada. Agora, a opção é almoçar e jantar ali, todos os dias. Há quatro meses, muitas pessoas em dificuldades começaram também a aparecer na Pizzaria Il Panzone, nas Galerias Via Veneto. Diz Cândida Craveiro, 52 anos, a dona do espaço, que não consegue negar uma refeição «a quem tem fome». O passa-palavra levou as pessoas ao seu restaurante. «E olhe que não aparecem apenas sem-abrigo...»

POBREZA ENVERGONHADA Esta é apenas parte de uma realidade para a qual também alertou, recentemente, o 1.º Relatório do Observatório de Luta Contra a Pobreza na Cidade de Lisboa. «Há um grupo

Em 12 anos de trabalho, nunca vi tantos alunos a precisarem de refeições grátis na escola’ Adriana Campos, psicóloga da Escola Básica 2,3, de Leça da Palmeira 12 DE JUNHO DE 2008 v

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Radiografia da fome 232 mil pessoas apoiadas pelo Banco Alimentar Contra a Fome

51 646 refeições servidas na «sopa dos pobres», no primeiro trimestre de 2008

30 mil beneficiários do Rendimento Social

ERMELINDA CARVALHO

de Inserção (RSI) voltaram ao apoio social

104 980 beneficiários do RSI só no distrito do Porto. É o dobro dos valores registados em Lisboa (42 763) e Setúbal (19 615)

1 976 pedidos de ajuda à Deco, em 2007, contra os 905 do ano anterior. Nos primeiros três meses de 2008 foram 761 60% dos que recorrem à AMI procuram ajuda alimentar

50% de aumento da procura em casas de penhores, em Lisboa e Porto, face a 2007 9% dos portugueses vive com menos de 10 euros por dia, contra 5% na Europa

4 em cada dez desempregados, segundo a CGTP, não têm subsídio CARLA SILVA

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GISELA RODRIGUES, SANTARÉM MANUEL FURTADO

das em empréstimos, conta-nos que estas pessoas, com idades entre os 35 e os 45 anos, instrução secundária ou mesmo superior, conhecem agora o sentido mais penoso da expressão «apertar o cinto».

SEM NADA NO ESTÔMAGO As dificuldades que as famílias sentem não passam, obviamente, despercebidas, a quem lhes acompanha os filhos todos os dias. Manuel Lemos, 59 anos, presidente do Secretariado Nacional da União das Misericórdias, assegura que há creches e jardins de infância onde se reforçam as refeições às segundas e às sextas-feiras – para colmatar as falhas do fim-de-semana. Gabriela Silva, 56 anos, coordenadora do Projecto de Educação para a Saúde na Secundária D. Pedro V, em Lisboa, tem a mesma experiência: há alunos que lhe confessam que estão em jejum «porque não

havia nada em casa», depois de, na véspera, terem jantado «arroz cozido». Agora, no bar da escola, há, todos os dias, um jarro de leite disponível. E Gabriela não se deu por satisfeita: está já a tentar que, para o ano, haja também uma sopa e uma peça de fruta «para quem precisar». É uma preocupação partilhada por Adriana Campos, 35 anos, psicóloga da Escola Básica 2,3, de Leça da Palmeira, no concelho de Matosinhos. «Em 12 anos de trabalho, nunca vi tantos alunos a precisarem de refeições grátis na escola.» Em Baião, o município mais pobre do distrito do Porto, houve entretanto uma melhoria substancial no apoio nutricional infantil – desde que a Câmara passou a garantir o almoço aos miúdos do primeiro ciclo. Mas as inquietações, na região, não desapareceram. «Há imensos idosos a viver sozinhos, em condições muito degradadas», observa

FOTOS: GONÇALO ROSA DA SILVA, LUÍS BARRA E JOSÉ CARIA

crescente de gente a precisar de ajuda», assegura Sérgio Aires, 39 anos, o director da instituição. Será a remar contra essa corrente que cresceram as hortas urbanas de subsistência. Entalado entre o Bairro do Zambujal e o da Boavista – dois bairros degradados do concelho da Amadora –, Manuel Furtado, 64 anos, ressuscita a máxima: «A terra a quem a trabalha.» O cabo-verdiano é um dos agricultores que ocuparam uma parcela de terreno, num aglomerado de hortas com vista para o nó rodoviário da CRIL. As cebolas, feijão, batatas, ervilha e tomate seriam um luxo se comprados no supermercado, para quem tem uma reforma de 260 euros. De enxada na mão, Manuel pondera o futuro, no caso de a autarquia o despejar: «Vou morrer de fome. Não dá para me safar.» Ao seu lado, Maximiano Teixeira, 72 anos, um dos pioneiros da «CRILcultura», testemunha o aumento do número de hortas nos últimos três anos. Começa por dizer que o faz para passar os tempos livres mas, a dada altura da conversa, a máscara cai: «Tenho de ser sincero. Passamos muitas dificuldades. Nem sempre temos um prato de carne.» A tentar enganar a crise, outros deixaram-se seduzir pelo crédito fácil. Agora fazem fila no gabinete de Natália Nunes, 39 anos, advogada da Deco – Associação de Defesa do Consumidor. Responsável pelas consultas de aconselhamento a famílias enterra-

JORGE, PATRÍCIA E OS TRIGÉMEOS


SOPA DOS POBRES, LISBOA

MAXIMIANO TEIXEIRA

a médica Helena Oliveira, 44 anos. «Aparecem aqui em situação de extrema magreza.»

URGÊNCIA DE ALIMENTOS Fome: necessidade ou grande apetite de comer; urgência de tomar alimento; miséria, indigência extrema. A definição é do Dicionário Universal da Texto Editores. Se perguntarmos a Sofia Guiomar, 38 anos, nutricionista do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge e docente da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, a descrição é mais crua: «É a manifestação mais severa de falta de alimentos, que provoca uma sensação dolorosa, com consequências físicas e psíquicas.» Nas crianças, as consequências podem reflectir-se em notas escolares mais baixas. Já os adultos podem ver o rendimento do trabalho diminuir. Mas nada disso importa, quando é preciso fazer contas. Numa tese que elaborou sobre a fome em Portugal, em 2002, a nutricionista percebeu que carne e peixe já eram produtos «luxuosos» para uma boa parte da 12 DE JUNHO DE 2008 v

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população. «Não me esqueço de um grupo de alentejanos que só queria um fio de azeite para dar sabor às sopas de pão escaldadas.» No interior alentejano, a fome não é um fenómeno novo. Na década de 90, a cidade de Moura (Beja) sofreu uma seca que deixou em pele e osso a margem esquerda do rio Guadiana. Hoje, a situação alastrou à margem direita do rio. Forçando um sorriso nos lábios, Sónia Santos, 30 anos, explica como são ultrapassados esses momentos em que o dinheiro não dá para todas as refeições. Já teve de pedir, de porta em porta. Noutras alturas, esmolou comida num lar de idosos e num infantário, para alimentar o marido e os três filhos. Desde Fevereiro recebe ajuda da Associação Moura Salúquia, que distribui comida do Banco Alimentar Contra a Fome.

DIEUDONNE SILVA

ANGÉLICA MARQUES

PRESSÃO CRESCENTE

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MANUELA SILVA, MOURA

construção civil, ela é empregada têxtil. Sem pré-aviso, o agregado familiar sofreu uma inflação de 150%, com a chegada de trigémeos, em 2003. A vida daquela família do Bairro da Previdência, em Ramalde, no Porto, ganhou claramente em animação mas passou a ser planeada em fracções. Sempre que há uma despesa extraordinária, como aconteceu quando o filho Ricardo teve bronquiolite, a coisa aperta… Patrícia confirma: «Não dá para ninguém ficar doente, porque já não temos mais onde cortar. Só se deixarmos de comer…» Vale-lhes a Porta Amiga, que os ajuda a abastecer a despensa.

VIDAS INTERROMPIDAS Fala-se em 2 milhões de pobres, em Portugal, e 200 mil a passar fome, números do Instituto Nacional de Estatística, divulgados em Outubro. O mais recente relatório da Comissão Europeia traça, também, o mais negro dos quadros sobre a situação social e económica portuguesa. Segundo esse documento, o nível de desigualdade de rendimentos é o maior da Europa. A crer nos últimos dados disponíveis, em Portugal há 9% da população que vive com menos de 10 euros por dia. Na Europa, a média é de 5 por cento. É com pouco mais do que isso que se arranja Carla Silva, licenciada em Português-Inglês, 29 anos, uma mãe solteira que zela por Eva, com 6 meses. Em Setembro, para-

ram as aulas num centro de estudos e explicações e os quase 800 euros mensais, que complementava com os 400 da reforma da mãe. Três meses depois, a mãe não resistiu a um cancro. A assistente social do hospital encaminhou-a para a ajuda alimentar. O importante é não baixar os braços, assegura Angélica Marques, 27 anos, que cresceu na Cova da Moura e há dois anos conseguiu alugar uma casa em Idanha, no concelho de Sintra. «Lá era mais fácil, não pagava renda…» diz, a tentar disfarçar o sufoco. Efectiva na peixaria, num hipermercado, em Lisboa, só para a casa vão metade dos seus 550 euros de salário. O resto é para criar os três filhos. Com quatro meses de renda em atraso, corre o risco de despejo. Mas não desiste. Para quem, como elas, tenta ganhar esta guerra, vale tudo. «A nossa política de vida é mostrar que não somos pobres», assume Dieudonne Silva, 38 anos, licenciado em Gestão. Apesar de nunca ter trabalhado nesta área, não faz outra coisa. «Tudo o que fazemos é contado ao cêntimo.» Desde que deixou a Carris, em 2006, viu-se obrigado a pedir ajuda. A Câmara de Lisboa deu-lhes um tecto, num bairro de habitação social, e a Misericórdia fornece-lhes um cabaz de bens alimentares. «De vez em quando, o padre também nos dá umas senhas do McDonald's. Para animar as crianças.» *COM INÊS FARO, JOÃO LUZ, MÁRIO CAMPOS E PEDRO SANTOS

FOTOS: LUÍS BARRA

Duzentos quilómetros a norte, o panorama não é melhor. A denúncia é do cónego José da Graça, 65 anos, presidente do Banco Alimentar Contra a Fome, em Abrantes. «Nunca tive tanta gente a bater-me à porta. A Segurança Social manda as pessoas para aqui para as ajudarmos.» E dali saem todas as 40 toneladas de comida angariadas por campanha. Mas podiam sair mais. «Há um ano, as pessoas pediam dinheiro para comprarem o que lhes faltava; hoje, só querem comida.» São famílias que sobrevivem graças a muita ajuda e imaginação. É assim na casa de Ermelinda Carvalho, 63 anos, reformada por invalidez, e que vive com os cinco filhos, em Santarém. Demasiadas vezes, a solução é ir à Misericórdia buscar comida. Há também aquele truque da multiplicação dos géneros: «Quando temos um frango, cozinhamos metade e misturamos com arroz ou massa.» Mais 200 e tal quilómetros a norte, até ao Porto. Ali a crise fez-se sentir no número crescente de utentes do Centro Porta Amiga, da Assistência Médica Internacional (AMI): de 2006 para 2007, os pedidos de ajuda duplicaram. A instituição presta vários tipos de serviços – roupa, médico… – mas, confirma o seu presidente, Fernando Nobre, 50 anos, «60% das pessoas que recorrem a nós vêm à procura de ajuda alimentar». Este médico sem fronteiras sabe que «fome» é uma palavra explosiva mas assegura que de nada vale fazer a política de avestruz. «É obvio que não é igual à do Mali ou à do Bangladesh. São graduações diferentes. Mas que há gente a passar fome, há…» Ou, então, que precisa de fazer uma grande ginástica orçamental. Como Jorge e Patrícia Soares, 32 e 34 anos, a quem sobra muito mês, no fim do salário – ele trabalha numa empresa de


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