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SOCIEDADE

PATRIMÓNIO

O submundo do azulejo

tivo, foram vendidos por 8 mil euros, um, e por 21 mil, o outro.»

Fazem-se pequenas fortunas com o tráfico de peças raras portuguesas

DE MALAS AVIADAS

POR PEDRO SANTOS

eros objectos decorativos? Nem por sombras. Os azulejos podem valer pequenas fortunas no mercado negro. Por todo o País, painéis incompletos e fachadas esburacadas dão conta de uma autêntica pilhagem – para a qual uma iniciativa designada SOS Azulejo (www.sosazulejo.com), encabeçada pelo Museu da Polícia Judiciária, chama agora a atenção. Dados da PJ, relativos ao período entre 2002 e 2006, apontam para cerca de 10 mil azulejos antigos roubados, só na área de Lisboa – e o cálculo baseia-se apenas nas queixas apresentadas. Leonor Sá, 50 anos, directora do Museu da PJ, destaca a «falta de valorização deste tipo de furto», que atinge peças «insubstituíveis». E o seu destino mais certo é o es-

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trangeiro. Quanto às verbas envolvidas no tráfico, Manuel Leitão, 57 anos, presidente da Associação Portuguesa de Antiquários, dá o exemplo de uma venda legal, para que se façam as devidas extrapolações. «Num leilão, dois painéis do século XVII, com as mesmas dimensões, mas diferentes no mo-

No tráfico está envolvida gente especializada, que sabe o que faz e rouba por encomenda’ Leonor Sá, directora do Museu da PJ

Tanto Leonor Sá como Loubet Simões, 38 anos, e Isabel Colher, 39, estes proprietários de uma oficina de conservação e restauro de azulejos, não têm dúvidas de que o tráfico serve, sobretudo, «para alimentar o mercado exterior». O director do Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico, Elísio Summavielle, 51 anos, já o testemunhou: «Vi em Roma um pequeno painel de azulejos, tipicamente português, à venda por 5 mil euros.» A azulejaria é uma arte introduzida em Portugal pelos árabes, mas que se desenvolveu por cá como em nenhum outro país. Peças nacionais dos séculos XVII e XVIII atingem, no estrangeiro, generosas somas de milhares de euros. O principal mercado receptador de azulejos portugueses é o norte-americano, sendo os Estados Unidos da América «um país sempre ávido de bens históricos e artísticos», nota Leonor Sá. Mas o antiquário Manuel Leitão refere, também, a Espanha, a França e a Alemanha. A directora do Museu da PJ alerta: no tráfico está envolvida «gente especializada, que sabe o que faz e rouba por encomenda».

Perguntas & respostas TEM AZULEJOS? PROTEJA-OS Fotografe o seu património de azulejos para que, em caso de furto, seja mais fácil a identificação nos circuitos clandestinos

QUANTO PODEM VALER?

PARA ONDE VÃO? Os principais mercados receptadores de peças nacionais são os EUA, a Espanha, a França e a Alemanha

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v 21 DE SETEMBRO DE 2008

FOTOS: JOSÉ CARLOS CARVALHO

Um painel de azulejos portugueses do século XVII pode ascender a 21 mil euros (ao lado, peças recuperadas pela PJ)


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