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Electrónica Primeiro, Andrónico começou por perder o sono. Depois, não havia azar que não lhe batesse à porta. O curso desfavorável da vida de Andrónico tornou-se evidente no dia em que foi assaltado na rua por um gang de adolescentes instantes depois de perder as chaves do carro no momento em que mais precisava dele para atravessar a cidade de regresso a casa ao fim de um complicado e extenuante dia de trabalho; de um momento para o outro ficou sem carro, sem dinheiro, sem documentos e com o humor prestes a explodir. Andrónico ainda telefonou à mais recente namorada a pedir ajuda, mas ela não lhe pôde valer devido a uma terribilíssima dor de cabeça que a impedia de sair à rua; por isso restou-lhe deslocar-se a pé. Quando finalmente chegou a casa, estava tão cansado que não conseguiu trabalhar no relatório que o patrão lhe pedira. Mas como também não conseguia dormir mais de trinta minutos seguidos, pois acordava sempre com o mesmo pesadelo, resignou-se a tomar soporíferos de modo a entregar-se a um revigorante sono oceânico. Nunca mais se lembrou do relatório. Na manhã seguinte saiu de casa já atrasado e só chegado à rua se apercebeu que não dispunha de automóvel. Chegou ao escritório com uma hora de atraso e sem o relatório que na véspera se comprometera acabar; e do qual já não tinha a mais leve lembrança. Foi muito desagradável o ralhete português do patrão. Sentiu que poderia ser despedido, mas


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estava demasiado esgotado para se incomodar. Nessa manhã adormeceu na secretária. Andrónico achou que era azar a mais, pelo que aquilo que lhe estava a acontecer não podia ser coisa natural. O funda­ mento para tal rol de episódios desfavoráveis só podia ser de origem sobrenatural. Assim, só lhe restava consultar um especialista para aclarar os fluidos. E aproveitou para o efeito as férias que tinha sido obrigado a tirar. Numa casa absolutamente normal, vista da rua, residia a especialista que lhe fora recomendada pelas pessoas de quem menos poderia supor conhecimentos e contactos com o mundo místico do sobrenatural. Fora um tortuoso processo de equívocos e desenganos, com conscienciosas deambulações religiosas incluídas, até conseguir a informação sobre o local de residência da dita especialista. «Então o que o trás cá?», perguntou num tom profissional que não escondia a afecção religiosa. Andrónico respondeu o mais humanamente possível, «O azar é tanto que não pode ser natural. Tudo e mais alguma coisa me acontece. Pareço uma anedota ambulante. Mas o pior é não conseguir dormir.» «Porquê?» «Pesadelos horríveis.» «Já experimentou rezar?» Andrónico torceu o nariz, contrariado, «Não me parece que seja o método apropriado para resolver os meus problemas.» A bruxa mudou imediatamente de estratégia, «Fale-me dos seus pesadelos.» «O sonho começa sempre num dia soalheiro, em espaços abertos e verdejantes, em geral um prado na montanha, mas depois sou atraído para espaços subterrâneos, grutas, cavernas ou minas. É nesses ambientes escuros que aparece um vulto 72


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que me persegue aos gritos. E é nessa altura que acordo. É sempre isto e só isto.» A mulher olhou-o friamente, «Não nota nada de peculiar no vulto que o possa identi­ ficar?» «Não me recordo de nada relevante. É um vulto escuro e indiferenciado como outro qualquer.» «Os sonhos nunca são impessoais. Pense bem.» «Não… Não me recordo de nada.» «Se quiser pode-se deitar, fechar os olhos e meditar. Relaxe-se e tome o tempo que precisar. Será mais fácil recordar-se do que vê nesses sonhos.» Accionado por um botão num comando, o encosto do cadeirão começou a reclinar-se. Andrónico encostou as costas e acompanhou o movimento descendente do cadeirão; logo a seguir, um qualquer engenho interior começou a rodar lenta­ mente, criando um magnífico efeito de massagens nas costas. Passados alguns minutos, que saboreou com o deleite de quem estivesse deitado no gabinete de Freud e protegido pela sua sábia intuição, retomou o percurso retrospectivo, «Recordo-me claramente de espaços subterrâneos. Talvez uma gruta. Quando entro na gruta o vulto já lá está à minha… E depois, seja qual for o caminho escolhido, ele segue-me. O vulto tem as mãos abertas…» «Continue.» «À medida que caminha atrás de mim perde partes do corpo… é estar a perder-se aos pedaços… perde os pés, as pernas, os braços. Mas a sua presença atrás de mim perma­ nece aos gritos e eu não consigo afastar-me ou calá-lo…» «E consegue perceber o que ele diz?» «São gritos quase ensurdecedores, terríveis, não acho que tenham sentido.» «Não discerniu qualquer palavra nesses gritos?» 73


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«Não me recordo…» «Vá, concentre-se, procure mais fundo…» A bruxa deu sinais de impaciência. Andrónico tentou ir mais fundo, mas a vibração do cadeirão deixava-o perto do sono. «Eu fico com a impressão que ele está a chamar por mim… mas só me causa terror…» «Morreu recentemente alguma pessoa sua conhecida?» «Não.» «Note que não me estou a referir apenas à última semana ou ao último mês. Refiro-me a alguém que tenha morrido antes de lhe aparecerem os pesadelos.» «Ah! Bom, nesse caso… quando eu era pequeno morreu a minha avó. Lembro-me bem do episódio. Também morreu o meu avô, mas não me lembro de nada. Quando estava na escola morreu uma colega de turma. De hepatite. Há cerca de dois anos morreu um grande amigo meu.» «Então é esse.» «Como sabe?» A bruxa montou uma expressão de enfado catastrófico e ignorou a pergunta, «O vulto de sombras que o persegue parece-lhe feminino ou masculino?» «Bem, pela brutalidade com que se manifesta talvez seja possível dizer que é masculino. É possível.» «O melhor mesmo é comunicar com o espírito para saber­ mos quem é e a que vem, concorda?» «Concordo.» «Mas, devo lembrá-lo, o preço da consulta passa a ser outro.» «’Tá bem.» A massagem parou. O encosto do cadeirão subiu. A bruxa largou o comando e encostou-se compenetrada para trás na sua 74


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cadeira. A distância entre os dois aumentou pouco, mas foi o suficiente para fazer chegar o silêncio. Andrónico viu-a evocar uns santos entre fumos de incenso e a certa altura a cabeça da bruxa tombou para a frente, como marioneta onde faltam os fios de suporte. Depois apareceu na boca dela uma voz que não era dela. Ele ficou estupefacto. Era uma cena absolutamente idiota, típica de telenovela brasileira, e teve repugnância em misturar-se com aquilo. A boca da bruxa falava como quem lê um guião mal escrito, debitando sentenças ininteligíveis, num ritual agitado que presumia reconhecer dos filmes americanos. De súbito a bruxa desmaiou por esvaziamento, outra vez como as marionetas. O corpo tombou sobre si mesmo sem qualquer tónus. Depois estremeceu. Para Andrónico, esse foi o aspecto mais arrepiante de toda a sessão. Como que insuflado de ar, o corpo dela voltou a ganhar envergadura e segundos depois abriu os olhos. Levou, teatral­ mente, já se vê, a mão direita à testa como se marcada por uma dor finíssima e incómoda. Depois fixou-o e, sem sorrir, perguntou-lhe, «Então o que lhe disse?» «Quem?» «O espírito, quem havia de ser?» «Que eu tivesse percebido, nada.» «Então não lhe perguntou o que queria e quem era?» Andrónico, embaraçado, não queria deixar transparecer que assistira a tudo, mais como espectador que parte interes­ sada, por isso procurou palavras neutras, «Não propriamente…» Ao ouvir esta resposta o rosto da bruxa enrugou-se de importância mais feminina que comercial, levantou-se num movimento intimador e, com ambas as mãos em cima da mesa, parecia querer arrancar-lhe as entranhas, «Mas é preciso dizer-lhe tudo?» 75


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Ele ficou ofendido. «Olhe que não vou voltar a entrar online agora», adiantou ela, «Tenho mais clientes à espera!», e afastou-se rispida­ mente. Mal-humorado, Andrónico saiu daquela casa com pressa de desprezar o negócio da bruxa. Reflectindo sobre as conquistas do dia, pareceu-lhe que voltara a entrar em défice. Na verdade, aquela história da bruxa havia-lhe saído cara e sem resultados expressivos, porque nada clarificara; naquele derrame intenso da voz da bruxa, os únicos sons aos quais podia atribuir algum significado, sem garantia que não fosse fruto da sua imaginação, eram algo semelhante a, «Liberta-me, liberta-me!». Ora, libertar o quê de quê? Nessa noite voltou a não dormir as horas necessárias, uma vez que o mesmo pesadelo intrometia-se na intimidade das suas células. Acordava todo transpirado pouco mais de trinta minutos depois de adormecer, quando o pesadelo o colocava prestes a ser apanhado por um vulto mais ou menos grotesco que berrava qualquer coisa de alarmante; e depois perdia horas engelhadas para conseguir voltar a adormecer. Mas reconheceu uma diferença neste último pesadelo e naqueles que se seguiram. O vulto escuro já não o assaltava em espaços subterrâneos: era em plena rua, embora fosse noite. Na semana que se seguiu não se pode dizer que as coisas tenham melhorado. A má sorte tenaz acompanhou-o a cada instante. Por isso não é de espantar que os seus desaires o tenham conduzido por três vezes ao hospital, e em circuns­ tâncias bizarras, que ganharam o espanto e simpatia de médi­ cos e enfermeiros. Andrónico foi acumulando uma série de episódios de azar irritantemente vulgares, mas suficientemente graves para degradarem ainda mais a sua condição física e psíquica. A certa altura viu-se obrigado a usar uma espécie de máscara, um volumoso penso de gaze que lhe cobria o 76


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nariz e o espaço entre os olhos, por causa de um dos últimos desastres, em que o nariz ficou muito maltratado, e que parecia funcionar como uma alarme de perigo para todos aqueles com quem se cruzava, pois olhavam-no com suspeita e cautela. Absolutamente incomensurável foi aquele episódio em que, num W.C. público, Andrónico ficou com o coiso preso no fecho das calças, algo que não lhe acontecia desde o início da adolescência. Os gritos de dor foram tão eloquentes que atraíram uma chusma de gente aparentemente preocupada, concentrando-se em poucos minutos uma multidão junto do cubículo em que a desgraça o atingira, o que em nada contribuía para restituir à plenitude as suas partes íntimas. Escusado será dizer, por conseguinte, que, apesar das férias impostas, o cansaço e a indisposição não deixaram de se acumular. A sua aparência continuava a desfigurar-se sob o drama da fadiga provocada pela falta de sono dormido e pelo desgosto de tanto azar. Em alguns momentos, só o simples facto de estar acordado já era insuportável. Mais uma semana passou e o panorama sem melhorar. O desespero obrigava-o a agir, por isso, após muita pesquisa nos jornais locais, nos anúncios televisivos, e até na Internet, resolveu voltar a experimentar os favores de um especialista no azar. Pôs de lado o dr. Karamba, o dr. Sambu e o dr. Safi porque, pelos anúncios altivos, teve receio de se meter numa embrulhada de magia negra da qual não conseguisse sair. Nestas questões do oculto, reflectiu, é melhor uma certa dose de incompetência para serem menos sérios os efeitos secundários. Matumba, a “santinha da Baía”, como sublinhava o letrei­ ro improvisado sobre a porta do quarto da pensão, era uma mulher mulata de espírito jovial. O problema é que falava o português brasileiro que torna a realidade um folhetim sem credibilidade. Andrónico pensou, com acuidade, «deve 77


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ser trintona». E, depois de um curto instante de hesitação, respondeu pacientemente a todas essas perguntas monótonas que a “santinha” lhe fazia para situar o problema, olhando de soslaio as estatuetas e a quinquilharia espalhada pelo quarto. A bandeira do Brasil como pano retabular no altar onde esta­vam todas as estatuetas e os incensos a arder pareceu-lhe despropositado, mas… Matumba falava pelos cotovelos. Quis ver-lhe a palma das mãos, quis analisar-lhe a pupila dos olhos, deitou as cartas Tarot e os búzios, e, depois de várias considerações angulares, concluiu, «Você é um homem de azar.» Andrónico podia ter explodido de raiva se não estivesse meio hipnotizado pelos dois sonares redondos que ela guardava por trás da transparência de uma camisa branca. Aliviava-o vê-los pneumáticos com os gestos, a mover as cartas, a recolher os búzios, a pegar-lhe nas mãos. Pareciam mundos com propriedade, perfeitamente autónomos daquele sotaque. Matumba deve ter notado nele algum sinal de desagrado e esforçou-se por parecer mais profissional. Desapertou mais um botão da camisa e serenou a voz, o que lhe permitia entrar numa instância psíquica mais forte. Voltou aos búzios, que eram a sua especialidade, e indagou pelo futuro. Ele teve vontade de lhe lembrar que estava mais interessado no pre­ sente, mas estava hipnotizado. Na terceira vez que Matumba lançava os búzios, suspirou, «Vejo!», mas ela tinha os olhos fechados. Explicou que encontrara relações entre o dizer dos búzios e das cartas, que se podiam confirmar pelo circuito das linhas da palma da mão direita. E depois de um emaranhado incoerente de frases concluiu, «Você precisa libertar-se!» 78


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Andrónico sentiu um laivo de curiosidade, pois essa questão da libertação também havia sido levantada pela outra bruxa. Numa amálgama de falas incertas, telegramáticas, ligadas por dois ou três conceitos básicos do esoterismo popu­ lar, Matumba apimentava o diagnóstico por uma apologia da libertação, frisando, por vezes com os olhos ternamente fechados, que devia procurar ajuda em alguém para se libertar dos pesos materiais; só que então ouviu-se o despejo de um autoclismo no piso de cima e o efeito dramático desva­neceu-se. Algumas noites mais tarde, descobriu uma nova diferença no enredo dos pesadelos: o vulto vociferante passara a aparecer em pleno dia. Não nos espaços interiores, nem à noite. Andrónico não sabia se era significativo, mas era diferente. Rendido à impotência, dado que a sucessão de azares continuava, decidiu voltar a recorrer aos serviços da primeira das bruxas que já consultara, aquela que, apesar de tudo, lhe pareceu ser a mais profissional e, hipoteticamente, autêntica. «Ah! É você!», exclamou ela no típico tom feminino de desagrado, ao vê-lo entrar na salinha. «Sim», queria desculpar-se, mas não sabia como sem se tornar ridículo, «Creio que desta vez vamos fazer as coisas como deve ser». «Ai vamos?», devolveu trocista. Andrónico preferiu não contestar. «Olhe lá», volveu ela em tom conciliador, «que lhe aconte­ ceu à cara?» «Não queira saber…», e involuntariamente levou a mão a verificar o protuberante penso que lhe cobria o nariz. «Continua com os mesmos pesadelos?» «São basicamente os mesmos.» «Mas nota diferenças, não é?» «Sim. Como sabe?» 79


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«É normal nestas situações. Então que mudanças notou nos seus pesadelos?» «Lembra-se que inicialmente o vulto me aparecia quando eu entrava em espaços escuros, interiores, subterrâneos?» «Sim, lembro-me bem.» «Bom, a certa altura o vulto começou a perseguir-me em espaços exteriores, durante a noite, e agora aborda-me em pleno dia.» «Nos sonhos.» «Sim, nos sonhos.» «Ainda não lhe apareceu estando acordado?» «Não. Claro que não.» «Não tenha tanta certeza.» «Ora…» «Em resumo, primeiro em espaços fechados, depois em espaços abertos mas nocturnos e agora em espaços abertos e diurnos.» «Exactamente.» «Bom, eu diria que há aqui uma sequência nítida. Diria que o espírito está cada vez mais próximo.» «Quê?» «Talvez haja cada vez mais urgência no contacto. Tem que descobrir o quanto antes o que é que aflige esse espírito. Normalmente estas manifestações têm lugar porque alguma coisa não resolvida prende o espírito junto dos vivos e, no fundo, ele só se quer libertar. Digamos que alguma coisa neste mundo não o deixa partir, está-me a perceber?» «Sim, e então?» «Não terá feito nada que tenha irritado o espírito desse amigo falecido?» «Creio que não.» «Veja lá bem…» «Pois não sei o que possa ter feito que o tenha irritado!» 80


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«Se alguma coisa estiver a fazer efeito de âncora não conseguem partir. Ora, como os espíritos se manifestam normalmente junto daqueles que consideram responsáveis pelas ditas âncoras, parece-me que aquilo que prende este espírito lhe diz directamente respeito. Por isso temos que descobrir o que é que está a fazer esse efeito. Percebe?» «Creio que está claro.» «Vamos online?» «Vamos.» «Devo lembrá-lo que o preço da consulta passa a ser outro.» «’Tá bem.» Lá se desenrolou o protocolo conhecido e chegado o momento decisivo fez como a bruxa o instruíra. Ou seja, perguntou ao espírito quem era e o que queria. E veio a saber que o vulto no pesadelo representava mesmo o espírito do seu amigo falecido. Aparentemente estava inquieto porque ele, Andrónico, não o deixava “atravessar a última fronteira”. Mas durante aquela sessão, não explicara com clareza o que era isso de “atravessar a última fronteira”, nem tornara claro o que é que o impedia. Quando a bruxa voltou a recuperar o seu corpo, procurou clarificar com ela o significado das palavras do espírito. «Ele não disse o que quer?», começou ela descrente, «Não. Nada de objectivo», na defensiva, «garanto-lhe.» A bruxa deitou-lhe uns olhos inquisitivos de mestre-escola que o examinaram até ao tutano, mas depois serenou e encolheu os ombros, «Então é daqueles que não definem… Há certos espíritos que são assim. Mostram. Reclamam. Mas não identificam o problema. Obrigam o alvo a fazer um doloroso trabalho de consciencialização.» «’Tou tramado, não ’tou?» 81


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O ar desolado de Andrónico metia dó. A bruxa deve ter medido a genuinidade do desespero do coitado, porque se apressou a evidenciar os aspectos positivos, num tom de voz que ainda não se lhe ouvira, «Não é bem assim. Veja que agora já sabe quem é que o assombra. Já sabe que ele reclama a alteração de uma deter­ minada situação. Portanto, há algo que o senhor tem, faz ou fez, e que prende o espírito. E enquanto esse vínculo existir, o espírito não se consegue libertar. Pode até ser uma coisa muito simples.» «Pois bem», volveu lacónico Andrónico, «e se demorar mais um mês a descobrir o que seja? Acho que não aguento.» «Vá para casa e pense. Tente recordar-se de tudo o que aconteceu no convívio com o seu amigo nos últimos meses de vida. Aproveite e verifique se tem por lá algum objecto que lhe pertencesse.» Foi para casa levemente esperançado. Se fosse meramente um objecto específico o móbil da fúria do espírito talvez aquele martírio acabasse rápido. Bastaria procurar com cuidado e talvez encontrasse algo esquecido que pudesse ter pertencido ao amigo. Ora, acontece que Andrónico encontrou mesmo algo que estava conforme estes requisitos. Depois de revolver gavetas e caixas de arquivo sem nada encontrar, passou para as prateleiras e, quando analisava cada livro, deparou com um que havia pertencido ao seu amigo. Recordou-se que estava em sua posse por empréstimo quando falecera. Na segunda página lá estava a assinatura dele e a data da compra. Era um livro algo estranho de Peter Handke chamado A História do Lápis e com o subtítulo materiais sobre o presente, uma versão espanhola das Ediciones Península em razoável estado de conservação. Leu:

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«Por qué sólo en la desdicha suele existir un lenguaje própio?» Folheou umas quantas folhas arbitrárias como o próprio livro ditava e leu: «El arte no prescribe, no da órdenes, sólo da ejemplos, pero rigurosos.» No dia seguinte foi devolvê-lo aos familiares do seu amigo na esperança de ser essa a causa da assombração dos seus sonhos. Foi um acto libertador. Logo de manhã, passavam dois minutos das nove quando tocou à campainha de casa da família dele. Meia hora depois estava de regresso à rua. Pressentiu no ar que agora o cosmos estava em ordem. Pela primeira vez em muitos dias sentiu-se animado. Por isso decidiu ir deleitar-se com o dia límpido numa esplanada, mas, dois passos à frente, ao atravessar a rua, uma motoreta de entrega de pizzas levou-o, inopinadamente, de rojo. Durante a semana em que ficou internado no hospital os pesadelos não o abandonaram. A meio da semana verifi­ cou que um novo detalhe perturbador se acrescentara na sequência dos sonhos. Sonhava-se a caminhar em espaços abertos, acompanhando o relevo na crista das montanhas, quando pressentia, sem aviso, a presença do vulto; ao sentir-se ameaçado começava a correr e conseguia dar saltos enormes como cangurus em velocidade de corrida, mas o vulto fazia o mesmo; quando chegava a casa trancava a porta e sentia-se seguro, pois sabia que o vulto só atacava em espaços estranhos para ele; mas… mas mesmo assim, o vulto perseguia-o; 83


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mal fechava a porta atrás de si o vulto começava a bater nos frágeis vidros das janelas, o que criava um barulho neurótico; as janelas, todas, tremiam e os vidros pareciam prestes a quebrar-se quando acordava, todo suado. No dia em que lhe foi permitido sair do hospital decidiu que estava farto: não suportaria mais pesadelos, nem mais ressaibo de azar. Decidiu voltar às instalações da bruxa profissional de modo a confrontar definitivamente o espírito que o assombrava. Queria acabar de uma vez por todas com aquela perseguição. Mas não conseguiu lá chegar sem que o taxista, ao abrir-lhe despreocupadamente a porta do automóvel, o atingisse com uma pancada no pé engessado, e que, numa travagem brusca, o fizesse bater com a cabeça no separador em acrílico. O momento decisivo desta triste história de Andrónico teve lugar ao sair do táxi. Tentava equilibrar-se nas canadianas, ainda antes de fechar a porta do automóvel e despedir-se do taxista, quando o telemóvel começou a tocar. Não prestou atenção ao aparelho enquanto não se equilibrou o bastante e o táxi se foi embora. Teve tempo de se deslocar até à porta de casa da bruxa, em cuja ombreira se encostou, sem que cessasse o sinal de chamada. Então procurou o telemóvel no bolso das calças para o atender. Mas, ao ver o número que o ecrã indicava, desequilibrou-se, quase gritou de horror, e estatelou-se no chão. Impossível, pensou. A princípio as palavras saíam-lhe disparadas boca fora com uma violência desprovida de raciocínio, de modo que a bruxa teve dificuldade em perceber qual era a sua aflição. Andrónico pensava, “Ele não me pode telefonar!”, e não encontrava palavras para fazer abortar a perplexidade alojada no cerebelo. Tremia de cima a baixo e nunca se sentira tão vulnerável. Só com um chá quente e uma massagem no cadeirão 84


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especial Andrónico se acalmou. Pôde, então, comunicar-lhe, sem alarido e sem extravagância, o que tinha acontecido; e depois calou-se, deixando à bruxa o encargo profissional de meditar em sossego. Até que, a dado momento, ela esboçou um sorriso, «Não se preocupe. Acho que já descobri o que está a fazer efeito de âncora», disse a bruxa cheia de sapiência. «Descobriu?» «Ainda não percebeu?» «Não.» «Olhe o seu telemóvel. Tem aí registado o número do seu amigo, não tem?» «Tenho.» «Porquê?» Cada vez que utilizava o telemóvel e tinha de fazer “correr” a lista de contactos para achar certo número de uso menos diário, lá passava por aquele nome e número. Ainda não o apagara. Não o podia apagar. Às vezes, parava a sequência e detinha-se um pouco a reabsorver o significado daquele número, ainda que na maioria das ocasiões a exigência de rapidez lhe impedisse a pausa. Talvez por isso o número tivesse perdido algum do deu brilho, mas, de qualquer modo, não podia apagá-lo, retirá-lo, varrê-lo, como se nunca lá estivesse estado. Seria negar tudo o demais; e isso era impossível. Um amigo é um amigo, é quase carne da tua carne, por isso não podes aniquilá-lo na tua lista de referências mesmo que a realidade já o tenha aniquilado. Só te podes aliar contra a mesma realidade que te quer aniquilar também a ti. Por tudo isto, aquele número ainda permanecia na lista de contactos do telemóvel. Aquela presença discreta foi resvalando para a comodidade do hábito à medida que os meses iam passando. A certa altura trocou de telemóvel e criara-se aí a oportunidade de se desvincular do número, 85


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afinal desprovido de funcionalidade, mas preocupou-se teimo­ samente em transferi-lo, juntamente com os demais números, para o novo cartão de memória. «Apague-o», declarou a bruxa. «Apagar o número? Porquê?» «Não vê porquê? É isso que prende o espírito do seu amigo ao mundo dos vivos, porque você também ainda não se libertou dele. Ainda anda com o número de um morto na sua lista de contactos.» «Não pode ser isto! Uma coisa tão insignificante!» «Mais significativa do que pensa.» Subitamente deu em pensar nos milhões de telemóveis, agendas electrónicas e computadores que por todo o mundo guardam números de pessoas já falecidas. Até que ponto não estaria a electrónica a interferir no sucesso dos mortos? «Apague-o», voltou a insistir a bruxa. Andrónico obedeceu. Mas não sem sentir uma perturbação, uma agitação, uma angústia indizível que replicava a sensação de perda no dia da morte do amigo.

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