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S. P. P. Visto de frente, imagino que poderia ser considerado um belo edifício comparável ao palácio de Lavradio ou ao palácio Foz, isto se existisse um largo ou uma ampla rua diante dele que melhor permitisse apreciar a fachada. Mas calha localizar-se numa rua estreita, que se torna atarracada nalguns pontos por causa de construções de menores dimensões e de épocas mais recuadas, de tal modo que a nossa percepção da sua beleza deriva dum frouxo ângulo longitudinal e da intuição do resto. Ainda assim, para adivinhar beleza, ali, seria necessário ser condescendente para com a plêiade de vidros estilhaçados, nas múltiplas janelas mutiladas e fechadas, onde as portadas em madeira mal tratada se encontram bambas; seria preciso uma bagagem de desdém para com as ervas secas nos parapeitos, onde a caliça se acumulou ao longo de décadas de esquecimento; e não digo que não fosse também necessário ser tolerante quanto às paredes já sem cor definida, onde se tornou evidente a implacável agressão do tempo no rigor das cantarias. Mas, em última análise, uma mente voluntariosa não deixaria de reconstruir a ideia geral do edifício a partir das pistas insinuadas por trás daquela máscara de abandono. Entre duas grossas colunas embebidas na parede, está a porta principal, não ao centro do edifício mas descaída num dos seus extremos, por sinal a parte mais próxima das grandes avenidas. Sobre ela encontra-se a nota de barroco mais


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excessiva de todo o conjunto: um impressionante escudo, comparável, pelas dimensões e exuberância, ao famoso escudo nacional sobre o portal de entrada da Biblioteca Joanina. A sua concepção resulta tão volumosa que deixa nos transeuntes a impressão de agressão potencial, o que se reflecte no comportamento destes, já que desenvolveram a tendência inconsciente de se afastarem da casa naquele ponto. Por falta de ângulo, vêem-se com dificuldade as letras góticas “S”, e duplamente “P”, no dito escudo, mas vê-se claramente a data 1740 num rótulo que pertence ao aparato heráldico, sem timbre, a não ser que para isso se aceitem os dois balões, que mais parecem retortas, amparando o escudo de um lado e de outro e a fazer jogo com as folhagens violentas que irrompem de nenhures. Enquanto procurei a campainha para anunciar a minha presença, pude apreciar a robustez da porta feita em espessas traves de madeira de teca. Mas não encontrei qualquer dispositivo eléctrico para esse fim e tive que recorrer ao que me era oferecido, a saber, um poderoso batente em ferro forjado, imitando um sapato de salto alto segundo a moda do século XVIII. Bati com força. E esperei. O indivíduo que me abriu a porta parecia saído de um almanaque ilustrado de finais do século XIX; envergava um traje típico de ambientes coloniais, como aqueles que podemos encontrar nos antigos livros de viagens ao oriente e a África. Recebeu-me educadamente mas com sóbria parcimónia de palavras que me ofereceu tão-só a oportunidade de me apresentar como o jornalista de quem deveriam estar à espera. Deixou-me entrar num átrio interior quase completamente despido e, pedindo-me para aguardar, rapidamente desapareceu por uma das duas portas que eu ainda não cruzara. 46


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Ultrapassada a larga porta fronteira, as minhas impressões alteraram-se. Da comoção trágica por reconhecer uma pequena jóia arquitectónica perdida entre mijo de gato e a sombra insalubre das vielas, passei à perplexidade do mofo e das teias de aranha, estranhamente aliada ao odor da cera e do óleo de cedro recentemente derramados. Encontrei-me rodeado de quatro paredes brancas não muito afastadas umas das outras, onde se precipitavam as portas e duas janelas que nada deixavam ver, pois recebiam vitrais coloridos nada apelativos – o motivo mais evidente era a repetição das retortas, desta vez conjugadas com figuras de querubins – e que deviam dar para um jardim interior. O único móvel existente no átrio era uma peça francesa raríssima, um petit casier muito bonito, sem qualquer peça decorativa adicional. Ali, até o silêncio tinha a austeridade do mofo. Subitamente tive a impressão que aquele edifício era uma espécie de armadura intemporal que fechava o mundo numa bolha de tempo. Entretanto, mostrando apenas a cabeça, reapareceu atrás de uma porta o mesmo indivíduo que me recebera, «Faça o favor!», disse, o que interrompeu de súbito a minha vã deriva mental. E só depois de ter cruzado a porta que me abria percebi que já se encontrava vestido de um modo inteiramente diferente. Agora parecia um mordomo inglês rigorosamente vestido. Foi mais forte que eu e olhei-o de cima a baixo, impressionado com a mudança. Estranhamente, o indivíduo pareceu contente com o impacto que causara em mim. Virou-se e eu segui-o ao longo de um corredor despido de móveis, onde se podia apreciar, na parede da direita, um renque de retratos de personalidades ilustres a corpo inteiro. O indivíduo parou ao fundo do corredor, num amplo átrio onde se encontrava a magnífica escadaria em madeira de carvalho que levava aos pisos superiores. Uma vez que me atrasara na observação dos retratos, esperou que me 47


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aproximasse. Embora não sendo para mim figuras reconhe­ cíveis, os retratos eram expressivos e continham na moldura uma inscrição com os nomes dos titulares, que li, um por um, e pareceu-me reconhecer vagamente um desses primeiros nomes: os meus olhos devem ter passado pelo nome Francisco Xavier de Oliveira em algum livro. Achei sobretudo curiosos certos sinais dos retratados, endereçados a quem os fitasse, que por certo constituíam mensagens decifráveis para certos iniciados, mas que para mim apenas revelavam a existência de um intrigante mundo desconhecido. Alguns senhores tinham a mão direita sobre o peito; outros destacavam para baixo três dedos de uma mão; outros levavam a mão direita ao ombro esquerdo. No topo das escadas encontrei outro átrio com as mesmas dimensões do precedente. Os meus olhos ocuparam-se com outros retratos de figuras importantes, em número de três, sendo um deles mais fácil de reconhecer que os restantes, pois tinha uma legenda pintada na própria tela identificando o rei D. José. Os outros dois apresentavam nomes que me eram inteiramente desconhecidos, mas era fácil perceber que um seria eclesiástico, e o outro, um letrado da aristocracia ou da alta burguesia. Depois entrámos num corredor tomando o sentido inverso ao que havíamos feito no corredor do rés-do-chão, até que entrámos numa sala confortável, que, apesar de repleta de objectos, tinha um ambiente conveniente ao descanso. Tomei-a por antecâmara que permitia o acesso a salas ou gabinetes mais importantes. E, efectivamente, o indivíduo pediu-me que esperasse um pouco e voltou a desaparecer. As belas poltronas em cabedal macio despertaram em mim o desejo de lá depositar o peso do corpo, e ficar quieto, à espera das virtudes do espírito. Mas o apelo da quinquilharia exótica foi mais forte. Havia uma diversidade imensa de pequenos objectos raros e insólitos dispostos em armários-vitrine, como 48


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se num museu oitocentista, mas, se bem que antigos, pareceu-me que teriam valor artístico duvidoso. Eram mais objectos raros do que propriamente valiosos, mais insólitos que belos. Aliás, insólitos precisamente porque haviam sido esquecidos pela história. Nunca vira tanta abundância daquele tipo de ninharias. Entre os dois armários-vitrine estava uma cartonnière fantástica e, na parede simetricamente oposta, uma ottomane que comprovei ainda ser almofadada a palha. Também havia curiosos diplomas pendurados na parede, em molduras mo­ des­tas, que atestavam as ligações internacionais da S.P.P. com outras organizações. Uma delas pareceu-me levemente familiar: um diploma, datado de Dezembro de 1904, declarava a S.P.P. como membro de um certo Congresso do Mundo, com sede na Argentina. Em toda a sala só se encontravam duas fotografias, também em molduras, datadas da década de 30 do século XX, nas quais se testemunhavam, imagino, encontros com figuras importantes do regime, uma das quais, era capaz de jurar, parecia ser o António Ferro. Tudo o que havia visto até então remetia para o passado. A cada passo via confirmada a minha impressão inicial que aquele edifício funcionava como uma armadura intemporal que deixava o próprio tempo de fora. Estava eu a contemplar uma colecção de sinetes usados em antigas administrações da S.P.P. quando se abriu a porta de um dos gabinetes. Senti o ranger dos gonzos e o clique do engenho metálico que funciona como fechadura e maçaneta, mas resisti, como uma criança, a apartar-me daquele prazer inominável de perseguir os insólitos objectos. Olhei, num movimento rápido, para a dita porta a verificar se alguém me esperava; estava entreaberta, de facto, mas sem ninguém à espera, por isso continuei a alimentar os olhos. Dos sinetes saltei para os pequenos “chapéus” apagadores de velas, graciosamente esculpidos com flores-de-lis, trevos de quatro 49


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folhas, losangos, etc., e ainda os estranhos isqueiros primitivos, depois as canetas de aparo, mas depois, «Senhor jornalista?», ouvi chamar de dentro do gabinete. Foi a obrigação profissional que me fez entrar no gabinete. E uma vez lá dentro não consegui evitar o efeito hipnótico de tanta arte. Ainda tentei iludir a minha falta de educação por não me dirigir e apresentar a quem me esperava, mas quando o fiz deparei-me com mais uma surpresa. A pessoa que estava atrás da secretária não era mais que aquele que me abrira a porta do edifício e me conduzira ali, apresentando-se, mais uma vez, vestido de um modo inteiramente diferente: algo parecido com uma toga académica. Só o poder artístico da decoração do gabinete pôde sufocar o efeito desta surpresa. «Faça o favor de se sentar!», disse-me o indivíduo que se encontrava em pé atrás da secretária. As paredes do gabinete eram divididas longitudinalmente por um friso de madeira em talha dourada. Abaixo do friso, corria nas paredes um painel de azulejos historiados apenas nas cores azul e branco; e, acima do friso, a parede era toda forrada a seda vermelha. Dois colossais armários barrocos em talha dourada à esquerda de quem entra. Um contador indoportuguês do século XVI entre as duas janelas diante de quem entra e, no fundo, à direita, mesmo por trás da exuberante secretária, um enorme Mapa-múndi no qual tinham fácil realce as antigas colónias portuguesas, pois todos esses territórios se encontravam pintados com cor viva e uniforme, contrastando por isso com o restante território. Detectei imediatamente um erro no mapa. O tecto em madeira de carvalho fora concebido em grandes caixotões decorados com baixos-relevos de moti­ vos florais e vegetais. «Vejo que o senhor aprecia as antiguidades e a história, não é assim?», continuou ele, como quem comenta o meu olhar demorado. 50


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«Sim…. Confesso que sim…», balbuciei eu, enquanto me sentava diante da secretária numa cadeira que qualquer museu nacional gostaria de conservar no seu espólio. A secretária em madeira de nogueira exibia no frontão três belos painéis de baixos-relevos, corrigindo, o painel central era mais um alto-relevo que um baixo-relevo, devido à Fénix a renascer das cinzas que parecia mesmo brotar da madeira. O sujeito amparava-se na mesa apenas com os dois dedos maiores de cada mão; manteve-se em pé depois de eu me sentar e olhou-me fixamente. Depois desenhou um gesto estranho: ergueu os braços como fazem os padres na eucaristia, e, logo de seguida, juntou paralelamente os antebraços diante do peito. Repetiu duas vezes o gesto. «Não percebe?» «Perdão?» Eu já estava na dúvida entre tomar o indivíduo por um louco ou por um provocador. «Bem, não faz mal… Era só para dissipar dúvidas…», e finalmente sentou-se com cuidado para não engelhar a toga. «Seja bem-vindo. Permita-me que me apresente. Chamo-me Simão Bacamarte e presido actualmente a esta histórica Sociedade. E o senhor?» «Raul. O meu jornal foi contactado por esta instituição para uma eventual reportagem.» «É verdade. Fui eu mesmo que tomei essa providência.» «Bom, devo começar por esclarecer que não está assegu­ rada a publicação da reportagem. Vamos ver como corre. Se existirem motivos de interesse que cativem o leitor-tipo da nossa revista, então a redacção decidirá se publica ou não, compreende?» «Compreendo perfeitamente. Garanto-lhe que esta Socie­ dade conserva um património riquíssimo. Pena é que tenha caído no esquecimento. Acreditamos que está na altura de 51


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o divulgar. Creio que se vai surpreender, porque aquilo que tenho para lhe mostrar é único no mundo.» «Óptimo! Então comece por explicar-me o que é a S.P.P.» Simão Bacamarte esboçou um esgar que indicava a complexidade da questão, «Bom, é difícil dar uma resposta directa a essa pergunta sem o risco de ser mal interpretada. Sabe, a S.P.P. é uma instituição muito antiga e muito suis generis. É única no mundo. Além disso, é a segunda sociedade científica mais antiga de Portugal. A Academia Real de História foi fundada em 1720, e logo a 1740 aparece a S.P.P. E só muito mais tarde aparece a mais famosa das sociedades científicas portuguesas, a Academia Real das Ciências, em 1779. Só este facto é impressionante, não acha?» «Sim, sem dúvida, mas porque razão nunca ouvi antes falar da S.P.P.? Por alguma razão em especial? Não me recordo, de facto, de alguma vez ter lido algo sobre ela.» «Bem, digamos que os intelectuais que se congregaram em torno da S.P.P. não tinham a mesma influência social que tinham aqueles que se juntaram para criar a primeira das sociedades que mencionei. Além disso, a S.P.P. tinha um objectivo muito específico que só pode ser compreendido no espírito do seu tempo, o Iluminismo.» «Fale-me mais desses objectivos.» «A missão desta Sociedade era, e é, preservar. Somos conservadores por excelência!», disse-o sorrindo, «Tal como as bibliotecas de todo o mundo, que conservam nos livros o pensamento, a cultura dos grandes homens, nós na S.P.P. conservamos em balões os químicos imortais dos grandes homens.» «Como?» «Sim, é surpreendente, não é? Todos os grandes homens da cultura ocidental estão aqui representados, garanto52


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lhe. Bem, o que eu disse é válido apenas desde que a S.P.P. foi fundada. Claro! Desde a ciência à arte, à política estão cá todos!» «Está-me a falar de amostras de ADN?» «Não…», contestou debilmente, com um esgar de desânimo, continuando depois de uma pausa, «Pode calhar que estes químicos aqui armazenados possam dar algum contributo à ciência genética… Ou talvez não… Talvez não…» «Então esclareça-me, que não estou a compreender.» «Todos os homens são um combinado complexo de química. Nós temos o registo químico único e irrepetível de todos os grandes homens que contribuíram de alguma forma para o desenvolvimento da Humanidade.» «Todos?» «Os principais. Tem alguma preferência? Vamos a um dos grandes… Que tal Newton? Ou prefere Einstein? E nas artes… quer um Pessoa ou um T.S.Eliot? Picasso talvez? Escolha lá.» «Por exemplo, Freud?» «Está cá.» «Joyce?» «Está cá.» «Napoleão?» «Está cá.» «Sara Bernard?» «As senhoras não estão representadas.» «E Eça de Queirós?» «Está cá.» «Impressionante…», suspirei eu, já antevendo uma repor­ tagem de grande impacto mediático, «mas como é feito esse registo?» «Com amostras de gás.» 53


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«Amostras de gás?» «Sim. O grande acervo desta Sociedade são as amostras de gás de todas as figuras históricas, algo incomparável no mundo, o que quer dizer, note bem, que foi necessário reconhecer o génio ou a fama desses homens ainda vivos. É uma colecção que tem um valor incalculável.» «Creio que não compreendo bem, confesso, o que quer dizer.» «Eu sei que não é fácil compreender, pois é uma empresa muito inusual… Talvez se vir com os seus próprios olhos se aperceba da dimensão de tal projecto. Acompanha-me às caves?» «Claro.» De facto, a parte mais interessante da visita foi a descida às caves do edifício, a verdadeira alma da Sociedade. Descemos ao piso inferior pelo percurso já conhecido até chegarmos ao átrio no fundo das escadas. Nesse ponto virámos à direita e entrámos numa área do edifício por onde ainda não passara. Simão Bacamarte parou diante de uma porta que exibia uma placa de metal onde estava escrito em português antigo Laboratório Chímico. Olhou-me, sorriu e abriu a porta. E cedeu-me a passagem para a sala imensa. «Estes são os nossos laboratórios, imprescindíveis para a nossa actividade», declarou em tom triunfal. Não consegui falar. Pasmei diante daquele panorama de numerosas bancadas de mármore impecavelmente limpas, onde se encontravam muitos instrumentos que, aos meus olhos, eram muito antigos e obsoletos, e, no entanto, brilhantes e limpos como se fossem novos. Mas mais impressionante que os instrumentos em metal eram as peças de vidro, desde amplos balões, pipetas, tubos em espiral, outros direitos, retortas, provetas, formando um conjunto complexo que nos deixava arredados da compreensão simples. 54


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«Estes laboratórios foram concebidos e equipados pouco depois do Marquês de Pombal mandar fazer o Laboratório Chímico na Universidade de Coimbra e com a intervenção do mesmo arquitecto inglês!», voltou a exultar, verdadeiramente contente consigo mesmo, «Não sei se sabe, mas aquele foi o primeiro edifício no mundo a ser construído de raiz para funcionar como laboratório químico. É impressionante! Nem em Paris! Nem Oxford! Infelizmente o nosso é apenas uma sala que foi adaptada para essas funções, aliás como aconteceu em numerosas outras instituições…» «Ainda é o original?», inquiri curioso. «Não! Com a revolução de Lavoisier, que veio a constituir a química como disciplina científica, foi necessário fazer algumas adaptações.» Atravessámos a totalidade do laboratório até que chegá­ mos junto de uma porta de ferro pequena e robusta que contrastava com o branco e as transparências do laboratório. Simão Bacamarte retirou do bolso uma argola grande demais onde se prendiam três chaves. Escolheu a chave de maiores dimensões e enfiou-a na fechadura da porta. Rodou com estrépito e completou sete voltas inteiras. Depois enfiou uma segunda chave mais pequena noutra ranhura, que também foi rodada sete vezes. E, finalmente, enfiou a última chave, a mais pequena de todas, e também essa completou sete voltas. Depois desse ritual, Simão Bacamarte olhou-me e sorriu, «Pronto. Já podemos entrar!» Fez rodar o manípulo e puxou, com esforço, a porta. Lá dentro esperava-nos o escuro. Deixei-o penetrar nele e, ao fazê-lo, começou a falar sozinho, como quem se guia pelas memórias à procura de qualquer coisa, até que a encontrou; e acendeu-se uma luz ténue que só se fazia notar até ao fundo das escadas. De seguida fez-se ouvir o eco dos sapatos dele nos 55


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degraus de ferro forjado de uma escada em espiral, ressoando no escuro com o mistério de que me recordava dos filmes. No fundo das escadas vi-o tentar acender uma vela num castiçal cheio de teias de aranha e estalactites de cera velha, «Sabe, nestes espaços não é aconselhável ter muita luz. É quase como o vinho, que também não pode ser armazenado onde haja muita luz. Senão estraga-se. Por isso só temos electrificação até ao fundo das escadas.» Enquanto ele se esforçava por recuperar o pavio da vela, eu procurei habituar os olhos à escuridão que marcava afincadamente o seu território para lá das escadas metálicas. O ambiente nas catacumbas de Roma no tempo dos primeiros cristãos não deveria ser muito diferente do que eu estava ali a experimentar. Confesso que me senti entusiasmado, pois estava a viver um momento especial, uma verdadeira aventura de significados como eu nunca conhecera; e de uma experiência destas, pensei eu, só podia resultar uma boa reportagem. «Siga-me!», disse ele quando a chamazita começou a baloiçar na ponta da vela. O que eu podia ver era uma sucessão de corredores estrei­ tos entre robustas estantes de madeira, cada uma com várias prateleiras onde se alojavam retortas seladas. Cada retorta encontrava-se depositada numa caixa em ripas de madeira, preenchida com palha no seu interior, onde encaixava com a segurança de um ovo no choco. «Venha por aqui. Quero mostrar-lhe um dos exemplares mais antigos e, ao mesmo tempo, um dos mais impor­tantes.» Segui-o ao longo dos corredores labirínticos, por vezes sentindo o desconforto de ficar enleado numa teia de aranha velha e empoada. Ao fim de umas quantas curvas para a direita e outras tantas para a esquerda já não sabia orientar-me de modo a sair dali sozinho. 56


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Num desses inúmeros corredores indistintos, Simão Baca­ marte parou e, aproximando o castiçal, analisou atenta­mente a etiqueta de uma das retortas; o som ecoante dos nossos passos cessou e com ele desvaneceu-se a fantasia hollywoodesca. Depois virou-se para mim sorrindo e procurou iluminar-me o rosto com a luz da vela, talvez para ter a certeza que eu o ouviria com atenção, passou com a língua pelos lábios, trémulo, e disse quase a titubear, «Se o senhor Raul for a Londres e entrar na catedral de Westminster vai lá encontrar o túmulo de Issac Newton. Terá a opor­tunidade de apreciar uma exuberante estrutura, em már­ mores, que alberga a arca tumular, também ela em mármores, onde se guardam os seus restos mortais. Vai encon­trar uma está­tua do próprio Newton e outras estátuas alegó­ricas que evocam os seus trabalhos na área da matemática e da astronomia.» Simão Bacamarte fez uma pausa. Dir-se-ia que o entusias­ mo o deixava cansado, «Conhece esse túmulo?» «Não.» «É uma peça interessante, vale a pena apreciá-la. Mas o ponto onde quero chegar é o seguinte: a excitação que, por certo, sentirá, deriva da noção que dentro daquela arca estão os restos mortais dum homem genial cuja visão influenciou tantos outros homens. Mas aqui, a excitação é diferente, mais intensa na minha opinião, porque estamos diante do testemunho químico da sua existência, algo produzido pela sua corporeidade. Não é um vestígio de morte; é um vestígio de vida. Através do gás, que não se decompôs, guardámos a essência química do homem!» Simão Bacamarte apontava para o balão de vidro que sob a luz incerta da vela parecia vazio. «Então, o que está aqui dentro é um… é um…» «O traque de um génio.» 57


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«Um peido?» «Conservado. Autêntico.» Olhei pasmado todas aquelas retortas alinhadas em milhares de prateleiras apercebendo-me que estava rodeado de milhares de peidos com casca de vidro. «Issac Newton foi um dos homens mais importantes de todos os tempos e a mais directa e viva prova da sua existência visceral está aqui. Compreende?» Não lhe respondi porque, na verdade, esse reparo não se coadunava com a ideia da grande reportagem com que até à segundos atrás me estava a entusiasmar. E como não lhe respondia, Simão Bacamarte esforçava-se por me esclarecer a importância daquela retorta coberta de pó e teias de aranha cheia de um gás pouco apreciável, «Veja, sem Newton, não há Kant, e sem Kant não há Iluminismo. E sem este, a atitude crítica não se teria desen­ volvido na nossa civilização. Aliás, a conflituosidade comum nos dias de hoje entre ocidentais e o mundo islâmico explica-se precisamente pela inexistência neles, por um lado, da secula­­ rização que o nosso Maquiavel nos trouxe, e, por outro, este criticismo kantiano. Digamos que aos árabes faltou um Newton e um Kant no devido tempo. A cultura deles ainda encerra toda a confusão entre o pensar e o conhecer, que, como Kant mostrou, não é a mesma coisa. Tal como em tempo certo tiveram um Avicena, um Averróis ou um Ibn Batuta, deveriam ter tido mais tarde um Kant…» Mas, se bem que compreendesse o que me dizia, não me proporcionava qualquer reacção, «Compreende? Foi Newton que fez Kant pensar de modo crítico.» Não me saía da cabeça a ideia doida de estar a receber uma prelecção de filosofia no fundo de um poço cheio de peidos com casca. 58


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«Ande daí! Tenho que lhe mostrar o outro.» E eu segui-o até ao local onde se guardava o gás do prussiano e lá continuou o discurso filosófico. Abanei-lhe com a cabeça durante bastante tempo, mas já não o ouvia. Estava preocupado em descobrir como havia de transformar tudo aquilo numa reportagem interessante, limpa de chacota e ridículo. Até que Simão Bacamarte se virou para mim e disse, «E agora analisemos outra colheita… Dou-lhe a liberdade de escolher uma personalidade histórica a seu gosto. O senhor Raul tem alguma preferência especial?» Dispus-me a pensar. «Sim, talvez… Uma admiração de juventude: Sartre.» «Ah! Esse está noutra ala. Temos que voltar atrás.» «Então existe um exemplar dele?» «Sim. Naturalmente. Porque pergunta?» «Confesso que fico ligeiramente surpreendido. Diria mes­ mo, desiludido. Pensei que Sartre fosse um dos que recusasse este tipo de imortalidade, uma vez que… uma vez que…» «Estou a ouvi-lo…» «Bom, foi o único escritor a recusar conscienciosamente o prémio Nobel de Literatura, mas guardou aqui o seu produto gasoso! Mal posso acreditar!» «Meu caro amigo, não se deixe levar pelas aparências. O senhor Sartre sabia que ganhava mais imortalidade recusan­ do o Nobel que recebendo-o. Olhe que toda a gente sabe o nome daquele que recusou um prémio Nobel, ao passo que poucos sabem os nomes de um punhado de escritores contemplados com o Nobel!» E riu-se. Alteou o castiçal e lá estava uma retorta com o nome Jean-Paul Sartre, número de código 1367 AT. Percebi que tinha ali um argumento para tornar a reportagem interes­ sante. 59


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«Lá está ele… Ah! Um homem que tentou compreender a existência dos outros para romper com a náusea da própria existência.» Ficámos em silêncio, uns segundos apenas, «E agora, se não se importa, voltamos para cima, porque esta humidade toda faz-me mal aos ossos.» Depois da delicada operação de ultrapassar os degraus metálicos da escada de caracol reentrámos no laboratório. Simão fechou cerimoniosamente a porta de ferro e eu aproveitei para continuar o meu trabalho, «Houve algumas entradas recentes?» «Bem, não foram muitas. Nos últimos cinco anos só recebemos o legado químico de Stanley Kubrik, Pierre Boulez, Chillida e António Damásio.» «Hum!… São nomes sonantes!» «São, de facto, senão não estariam aqui. Mas actualmente temos muita dificuldade em conseguir estes legados e por isso são tão poucos os mais recentes. São inúmeras as adversidades.» «Como por exemplo?» «Ultimamente não tem sido fácil porque os meios cultos não estão devidamente informados sobre a importância desta Sociedade. Além disso, as pessoas públicas estão de tal modo expostas aos media que têm receio de cair no ridículo. Quando abordadas pelos nossos técnicos, pensam que é uma intrujice, algo insignificante. Por isso o mandámos chamar!» «Fez bem, é esse o nosso papel de jornalistas: dar a conhecer.» «Também não deixa de ser grave a falta de meios e as restrições financeiras que esta Sociedade vive. Às vezes chega a ser um desespero.» Assenti, acenando a cabeça. «Além disso há outro tipo de problema. Hoje em dia há certas personalidades do contra que preferem não alinhar com 60


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as grandes práticas do passado. Gente teimosa. Por exem­ plo, o primeiro Nobel da Literatura português seria uma das figuras impares para estar aqui representado. Mas, quando o abordámos, não quis doar o seu gás. Não tinha sequer conhecimento da existência desta Sociedade. Esta falta de reconhe­cimento está a lesar profundamente a nossa activi­ dade.» Fiquei a pensar naquilo enquanto prosseguimos a visita por outros espaços importantes da Sociedade, especialmente a Sala Nobre, onde se reuniam os associados, os gabinetes de estudo, a biblioteca e os arquivos. Quando Simão Bacamarte deu por terminada a visita estávamos no átrio, ao fundo das escadas, por onde já havia passado três vezes. Fazia tenção de regressar à redacção, mas não queria partir sem esclarecer um ponto que me parecia particularmente importante, «Voltando à questão do prémio Nobel português, deixe-me perguntar-lhe, só por curiosidade, se solicitaram o legado químico ao autor antes ou depois de ele receber o Nobel?» «Bem… na verdade…», engoliu em seco, «neste caso foi só depois de receber o prémio.» «Ah!», terminei eu, triunfante, abanando o dedito peda­ gógico. A segunda vez que lá voltei era portador de novidades, pensei eu, extremamente positivas. Ia comunicar a Simão Bacamarte que a redacção ficara muito interessada na matéria, mas que procurava uma perspectiva favorável para lhe pegar, de modo a conseguir agarrar o mais vasto leque de público. Mesmo que o património insólito fosse por si só atractivo, era mais prudente considerar outros aspectos mais mundanos em que o leitor médio se pudesse rever. E era esse o meu objectivo na segunda visita. 61


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«Sim, percebo», anuiu Simão Bacamarte com a calma que o caracterizava. «Bom, então é necessário explorar outros ângulos para melhorar a perspectiva sobre a Sociedade. Era importante, por exemplo, uma foto de família com todos os membros desta sociedade, entrevistas com alguns deles, talvez até sejam pessoas influentes na comunidade. Também era importante explorar as ligações desta sociedade com outras organizações, falar dos projectos em que se envolveu, que conquistas alcançou. Coisas assim… Está a perceber o panorama que lhe estou a traçar? Talvez assim a matéria ganhe densidade para ser, verdadeiramente, uma reportagem de sucesso.» Simão Bacamarte ficou lívido, «Bom, lamento desapontá-lo, mas neste momento…» Olhou para mim hesitante, constrangido, vexado. «Neste momento eu sou o único membro activo desta sociedade científica. Todos os outros…» Fiquei sem palavras. «Sabe que idade tenho?», prosseguiu Simão Bacamarte. «Não.» «Pois faço 82 anos no próximo mês.» «Não parece.» «Muitos me têm dito o mesmo. Agradeço-lhe a amabili­ dade também a si. Mas isso não altera o facto que estou a ficar velho para dirigir esta sociedade centenária. E deixa-me muito preocupado que não apareça ninguém interessado em continuar o trabalho que aqui se tem feito. Estou a tentar dizer-lhe que esta reportagem é vital para a sobrevivência da Sociedade, já que poderá ser a única maneira de angariar novos associados.» Eu compreendia muito bem o objectivo dele mas, «Mas… Mas assim não dá… não dá», repliquei profundamente desiludido, «fotos só de… de… de… frascos cheios de… de… não dá.» 62


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«Não dá! Não dá! Este património é ímpar! Só em Portugal existe. Ora não dá! Em nenhum outro país houve alguém a lembrar-se de tal empresa.» «Compreenda a nossa posição. Há muitas outras empresas insólitas que também não são motivo de reportagens na revis­ ta… Tem que haver massa crítica bastante para não cairmos num fait-divers…» Simão Bacamarte deu sinais de irritação, «Esta instituição tem relevância universal! Não é um mero fait-divers!» «Talvez noutras revistas…» «Como poderá por certo compreender, não estamos interessados em revistas sensacionalistas dirigidas por sujeitos com cultura de arruaceiros, mesmo tratando-se de ditos ‘gestores de ponta’», rematou ele cortante e seco. Não se levantou uma só vez, apesar de se agitar na cadeira. Depois do remate enérgico levou a mão à boca, como se a sentisse seca, de um bolso colheu uma caixinha prateada da qual retirou um comprimido que tomou. Bebeu um copo de água que tinha sobre uma bandeja em cima da magnífica secretária. E depois fechou os olhos. Eu olhava aquele homem pálido e idoso encostado na magnífica cadeira de espaldar, num gabinete principesco como eu nunca conhecera, e mais uma vez tive a sensação de estar num sonho, pois tudo aquilo pertencia a um mundo que já não fazia parte da realidade. Agora que me detinha a olhá-lo bem, via como era mesmo velho, algo que a vitalidade do seu olhar havia dissimulado. «Lutei com todas as minhas forças para manter esta colecção unida em solo pátrio. Mas agora estou velho de mais… Não sei quanto mais tempo posso aguentar…», murmurou ele, em suspiro, e de olhos fechados. «O que está a tentar dizer?» 63


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«Se a mais prestigiada revista de cultura em Portugal não quer fazer uma reportagem sobre o património desta Sociedade, irei procurar revistas estrangeiras de igual idoneidade. Se os ame­ricanos descobrem a existência de um património des­ tes…» «Considera a possibilidade de vender a colecção?» Abriu os olhos e olhou para mim sem a simpatia de outros momentos, «Acho uma opção preferível se assim se prevenir a sua destruição, não acha?» Fiquei alarmado. Tudo aquilo era, afinal, património português, havia que preservá-lo, salvá-lo da voracidade americana. Subitamente tinha encontrado o tom dramático que transformava aquele património em excelente matéria de reportagem, levantei-me num pulo e em gestos entusiasmados expliquei-lhe, «Posso pegar na história sob o ângulo do perigo americano e com essa força emotiva cativar irremediavelmente a atenção do leitor. Ainda para mais um homem solitário contra o colosso americano! Assim é vendável! Esta história tem uma força incrível! Pode até ser notícia de primeira página!» Simão Bacamarte levantou-se por sua vez e, com as mãos atrás das costas, deslocou-se até à janela mais próxima; e só então disse, quase entre dentes, em tom sarcástico, «Essa perspectiva servirá sobretudo para mostrar o quanto os protagonistas, e os responsáveis em geral na cultura portu­ guesa, são ineptos e incapazes de reconhecer a grandeza dos grandes projectos…» «Ora, senhor Simão, está a exagerar!», disse eu sem grande determinação ao perceber que ele não partilhava o meu entusiasmo. Qualquer um dos meus colegas lá da redacção perceberia o valor da perspectiva que eu queria dar ao texto, mas Simão Bacamarte não. Na verdade senti-me 64


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também atingido por aquele comentário. Admito que fiquei envergonhado e o embaraço mostrou-se nos meus olhos, que ficaram intranquilos e imprecisos. E a conversa esmoreceu. No caminho que fizemos lentamente, e a par e par, até à porta de entrada, abandonámos aquele assunto e ficámos pelas miudezas da actualidade. Quando a enorme porta de teca já estava aberta para eu sair, lembro-me que Simão Bacamarte teceu alguns comentários polémicos que ninguém que eu conheça jamais ousaria fazer em público, «Sr. Raul, eu sou um homem de oitenta e tal anos e não um rapazola com juvenis pruridos de opinião. Já vivi muita coisa. Li muito. Tive tempo suficiente para reflectir desinteressadamente sobre o que se passou, distanciando-me o suficiente para me despojar das emoções e preconceitos mais virulentos. Quase dá para me distanciar do próprio corpo. Por isso arrisco-me a dizer que sei do que falo. Este é um país que realizou revoluções não para crescer mas para mudar a encenação da letargia. A revolução republicana, menos que depor a monarquia decrépita que apodrecia o país, foi uma mudança de actores e de cenário para o país continuar com a mesmíssima mentalidade de fundo. Também a revolução de Abril, menos que o depor governantes provincianos e anacrónicos, foi uma substituição por governantes ligeiros, ao gosto das modas ideológicas. Creio que hoje se emprega a palavra light, governantes light, os mesmos que atiram pela televisão palavras banais que não mobilizam ninguém. Absolutamente ninguém. Duas revoluções em favor das liberdades, que não contesto, nem por sombras, mas nenhuma revolução em favor dos deveres… os grandes deveres… os deveres das grandes nações. Tais revoluções não atingiram a arquitectura da mentalidade portuguesa, por isso, no fundo continua tudo na mesma. A história deste país é a história de um naufrágio teimoso, meu caro.» 65


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E lá voltei eu a exclamar, «Ora, senhor Simão, está a exagerar!», sentindo-me bastante incomodado com aquele pessimismo musculado e desagradado por não ter esclarecimento bastante para replicar, a não ser os lugares comuns do discurso mediático. Ele limitou-se a asseverar, «Não estou não.» Depois despedi-me um tanto apressadamente, mas não deixei de lhe assegurar que iria trabalhar a peça e que iria batalhar pela sua publicação. Acabei-a de facto. E depois de muito contratempo e de muitas redefinições, decidiu-se lançá-la junto com outros temas insólitos da cultura portuguesa. Mas, inesperadamente, os americanos arranjaram mais uma guerra e os interesses editoriais mudaram completamente. O projecto foi adiado. Na terceira vez que me dirigi à S.P.P. ninguém me abriu a porta. A reportagem ainda não havia sido publicada, por várias razões, mas sobretudo porque a guerra dos americanos nunca mais acabava. Usei repetidas vezes o batente de ferro forjado da velha porta e não obtive qualquer resposta. Esperei bastante tempo e ninguém veio abrir. Se já levava algum peso na consciência, com mais remorsos fiquei depois daquela falta de encontro com Simão Bacamarte. Apesar de ninguém abrir, aguardei. Sentei-me no degrau da porta monumental e revi mentalmente os corredores que agora me estavam vedados. Restava-me também a recordação de algumas das opiniões inusuais que Simão Bacamarte sustentara ao longo das nossas conversas. Ocorreu-me, por exemplo, o que ele disse quando eu tentei, inabilmente, sacudir o embaraço que o sarcasmo dele me provocou, desviando eu 66


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o rumo da conversa para o enorme Mapa-múndi disposto na parede nas costas dele. «Aquele mapa tem um erro», disse eu, «Angola e Moçambique nunca estiveram ligados». «Engana-se.» «Engano-me? Alguma vez Angola e Moçambique foram uma só colónia?» «Bastou um só barquito contra uma nação inteira para apagar esse facto.» «Um barquito?» «Chamava-se Blisterter e estava no estuário do Tejo. Um só barquito evocando todo o poder da armada inglesa.» «Ah!… Está-se a referir, então, ao projecto do Mapa Cor-de-rosa…» «O inadequado do que diz deve-se ao facto de tomar por projecto algo que era um facto. Aconteceu algo que a história não teve tempo de registar. Os exploradores Capelo e Ivens já haviam percorrido toda aquela região, fazendo o reconhecimento geográfico e cartográfico, já se tinha feito a definição de fronteiras a sul de Angola com os Alemães e já tínhamos tropas estabelecidas nesse território entre Angola e Moçambique, correspondendo com as exigência da Conferência de Berlim que obrigava à ocupação efectiva dos territórios. Eram poucos, mas já havia portugueses bastantes a ocupar o território selvagem para ser um facto. Curiosamente este mapa sofreu um restauro nesse momento febril em que, nos meios intelectuais, já se dava isso por adquirido.» «Compreendo… Mas os nossos aliados ingleses tinham outras ideias!» «Aliados? Nunca tome os Ingleses por aliados! Usar tal palavra é maltratar a memória.» Aquelas opiniões cortantes deixavam-me simultaneamente desagradado e irritado. Sentia curiosidade em perceber onde 67


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queria ele chegar e, ao mesmo tempo, um certo receio de me enredar numa discussão chata para a qual nada tinha para contribuir, por isso limitei-me a comentar, «Mas olhe que foram eles e o seu Ultimatum que deram origem ao Hino Nacional que todos nós conhecemos…» «A força da nação mede-se nas cantorias?» O tom que usara era severo e reprovador. Nessa altura senti-me sob fogo denso. E depois continuou, «E a prova de que Portugal não evoluiu estruturalmente é a certeza que hoje cumpriria o mesmo tipo de cobardia de 1890 se algum confronto semelhante acontecesse! O Sr. Raul consegue olhar-se no espelho e sentir que o seu país não voltará a fazer o que fez em 1890? Asseguro-lhe que não. Nenhum português o sente.» Enquanto me detinha na espera que alguém abrisse a porta, passou na ruela um casal de turistas, que supus ser inglês, uns branquelas manchados a vermelhões infligidos pelo sol português. E dei comigo a pensar, «Estes nem imaginam a importância daquilo que está guardado dentro deste edifício!». E depois percebi que o mesmo se passava com todos os outros portugueses. Senti-me parcialmente culpado e voltei a sentir remorsos. Depois pressenti, com amargura, que nunca mais voltaria a entrar naquele edifício. Ter-me-ia realmente esforçado ou teria deixado as coisas acontecer com aquela negligência típica dos portugueses que deixa para depois, muito depois, o juízo dos efeitos e eficácia das acções ou inacções? Devia ter passado perto de uma hora quando desisti de esperar. Afastava-me, descendo a rua estreita em direcção às avenidas, e, naquele ponto em que voltei a parar para contemplar o Palácio uma última vez, já só conseguia ver uma parte da fachada do edifício. Via o portal barroco com o enorme escudo a dominar o enquadramento superior. 68


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Naquela perspectiva em que me colocava, o gigantismo do escudo parecia intimidar a própria ruela. Tinha sido ali, junto à porta, que na última vez que falei com Simão Bacamarte soube o significado das iniciais que se podiam ver no escudo, «Esclareça-me uma última dúvida!» «Faça o favor», disse ele educadamente. «O que significam, a final, as iniciais S.P.P.?» «Querem significar, obviamente, Sociedade Portuguesa de Peidologia».

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S.P.P.