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ERRO COMUM PODE DITAR FRACASSO NO ANO Quais corridas servem de preparação para o objetivo principal da temporada?

12 SEGREDOS Como correr bem durante 365 dias

Janeiro 2018 Diretor: Pedro Justino Alves Mensal www.corredoresanonimos.pt

NÓS SABEMOS ONDE QUERES CORRER EM...


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PREPARAÇÃO

QUANTAS PROVAS POSSO CORRER COMO PREPARAÇÃO PARA O MEU PRINCIPAL OBJETIVO DA TEMPORADA? O “boom” das corridas em todo mundo fez com que o número de competições aumentasse exponencialmente. Hoje há uma variedade enorme de provas com as mais diferentes opções de distâncias e trajetos, seja no asfalto ou na “terra”. Apesar do variado cardápio de opções, é fundamental o corredor saber escolher o que tem à sua disposição. Texto: Belino Coelho

Apesar da enorme variedade de corridas no mercado, a grande maioria dos corredores não sabe selecionar as provas que melhor se ajustam ao seu principal objetivo, principalmente de acordo com a fase de treino em que se encontra. Ou seja, as eleições das corridas geralmente ocorrem sem qualquer tipo de planeamento. Na maioria das vezes, essas opções são influenciadas, por exemplo, pela empolgação, devido a uma novidade ou por algum amigo que vai correr uma prova. Evidente que as consequências dessas escolhas não serão positivas.

Aqui deixo alguns dos problemas que acarretam uma má escolha de corridas por parte dos atletas tendo em vista o(s) objetivo(s) principal da temporada: • Interrupção da sequência de treino, prejudicando a evolução da perfomance na globalidade do plano • Aumento do risco de lesão a médio e longo prazo • Aumento do risco de entrar em overtraining • Aumento do risco de frustração e desmotivação por não se ter alcançado o resultado em determinada prova • Comprometimento do resultado final em relação ao objetivo escolhido.


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PREPARAÇÃO

"O IDEAL É PLANEAR E SELECIONAR CRITERIOSAMENTE AS COMPETIÇÕES AS QUAIS O ATLETA PRETENDE PARTICIPAR, LEVANDO EM CONSIDERAÇÃO O PERÍODO DE TREINO EM QUE SE ENCONTRA E AS CARACTERÍSTICAS DA SUA CORRIDA ALVO, EVITANDO SEMPRE OS EXAGEROS" É importante no entanto referir que a participação em competições durante a fase de treino é de fundamental importância se o atleta realmente almeja alcançar um excelente resultado na competição principal. O ideal é planear e selecionar criteriosamente as competições as quais o atleta pretende participar, levando em consideração o período de treino em que se encontra e as características da sua corrida alvo, evitando sempre os exageros, tais como excesso de provas ou correr uma distância acima da capacidade de treino para o momento, o que acarreterá um maior tempo de recuperação. Os benefícios para os atletas em participar de competições durante a preparação para a corrida principal são os seguintes: • Melhoria da condição psicológica e física, o que tornará o corredor mentalmente mais forte para a competição alvo • Avaliação do plano de treino que está a ser conduzido, se o mesmo está a gerar o resultado esperado • Possibilidade de treinar estratégias que poderão ser utilizadas na competição principal, corrigindo deste modo eventuais erros, ou suprir alguma outra necessidade, até então desconhecida • Faz com que o atleta esteja na prova principal com ritmo de competição e no auge da sua forma física.

Claro que a escolha das competições que farão parte do treino para uma pessoa leiga, sem conhecimento técnico, é bastante difícil. O ideal é sempre procurar a orientação de um treinador com experiência e com conhecimento técnico da modalidade.


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Deixo no entanto alguns conselhos para os corredores que não têm a possibilidade de serem orientados por profissionais. O principal cuidado a ter em conta é o momento da preparação do corredor para a corrida principal: • Ter em consideração o período do treino em que se encontra. Por exemplo: se estiver no período de base (quando o corredor trabalha um maior volume de treino, dando importância ao trabalho de ganho de força e de resistência de força, com treinos intervalados em subidas e “rodagens” curtas ou “longões” com subidas e descidas), é preferível escolher as corridas com um percurso com algumas subidas e descidas, que estará coerente com a fase de treino. Não se deve escolher uma prova com um trajeto plano (exceto se o objetivo a ser avaliado seja a condição física em terreno plano), já que, provavelmente, o rendimento ficará aquém do desejado e não se obterá um resultado expressivo, o que poderá provocar frustração.

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• No máximo, escolha duas provas por mês, levando em consideração o menor tempo de recuperação pós- prova. Se a corrida exigir mais do que uma semana de recuperação, o ideal é fazer apenas uma (as provas que exigem um maior tempo de recuperação são as mais longas, a partir dos 15 km, dependendo do nível e histórico do atleta) • Escolha provas com distância coerentes com a competição principal. Por exemplo: >> 5 km e 10 km: provas até 10 km >> Meia-maratona: provas entre 5 e 15 km (ou mesmo 21 km, dependendo do histórico do atleta) >> Maratona: provas entre 15 e 30 km (dependendo do histórico do atleta e da sequência de treinos)

A escolha correta das competições preparatórias, dentro do plano de treino, aumenta consideravelmente as possibilidades de SUCESSO do atleta. Ou seja, e em resumo, o corredor • Deve-se também ter em consideração as anónimo deve escolher com consciência quais características da competição principal: se é uma provas deve fazer como preparação para o seu prova plana, é uma prova rápida, onde a velocidade principal objetivo da época. é primordial importância. Ou seja, as corridas rápidas deverão fazer parte do calendário aquando do período específico (nessa fase em concreto, o volume de treino é menor e orientamos o nosso foco ao trabalho de velocidade e resistência de velocidade, com treinos intervalados curtos e longos); se a corrida apresenta um trajeto com subidas e descidas, é uma corrida mais lenta, no qual a força será a variável mais importante, o que exigirá, no período específico, uma maior participação em provas com essas características e em menor escala a participação em provas planas.


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AQUECIMENTO

12 CONSELHOS PARA SERES MELHOR NAS PROVAS DE 10 KM Uma das corridas mais procuradas pelo corredor popular são os 10 km. Por isso, para 2018, damos 12 conselhos para melhorares o tempo pessoal na distância. Um segundo aqui, outro ali, mais um acolá…


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Uma força superior

Sapatilhas de competição

Mais dois minutos

O poder da mente é uma força espantosa. Mentaliza-te daquilo que vais fazer, qual o melhor caminho, quais os principais adversários... A mente preparará o corpo para o grande evento.

Sapatos de corrida mais leves para distâncias mais curtas e um peso normal são fatores que poderão retirar alguns segundos ao resultado final. Para não falar da imensa vantagem psicológica de sentir os pés mais leves.

São poucos os corredores que fazem um aquecimento correto. Em distâncias como os 10 km é necessário um bom aquecimento para poder render bem desde o início. Alguns fazem apenas alguns trotes suaves e sprints. Junta dois ou três minutos de corrida intensa, cerca de 10 minutos antes da partida.


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AQUECIMENTO

Faz a revisão

Alonga menos

Controle-se de início

Se for possível, faz o aquecimento no percurso da corrida ou percorre a distância uns dias antes. Conhecer o trajeto da prova só traz vantagens: saberás exatamente onde relaxar e onde atacar, aumentando a confiança.

Pode parecer uma contradição, mas poupa nos alongamentos. Faz alguns, mas não com muita amplitude. Se alongares muito, estarás a induzir um efeito relaxante. Guarda os alongamentos de grande amplitude para o final da prova e faz regularmente trabalho de flexibilidade.

Excetuando se estiveres em grande forma física, deixa os outros corredores partirem mais rápido. Rapidamente pagarão o preço desse erro. Ao correr muito intensamente de início, poderás, inclusive, estar a arriscar uma desistência da prova.


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Segue pelas laterais De uma forma geral, os corredores deslocam-se em massa pelo meio da estrada, congestionando-a. Principalmente em corridas de maior afluência, procura circular pelas zonas laterais, onde poderás movimentar de uma forma mais fluída.

Quem se mete em atalhos... poupa metros! Corta caminho na corrida. Faz as curvas por dentro, mas tem cuidado em te deslocares no meio de grande massa de corredores (por haver uma grande densidade de pessoas poderás ser forçado a percorrer mais metros).

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Por cima do ombro Quando perseguires outro corredor, mantém o contacto visual nos seus ombros e não nos pés. Para além de ganhar uma melhor postura, o facto de olhar para os ombros fornece-te mais informação sobre o estado do outro atleta do que olhar para os pés. .


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Sempre com boa cara

Água? Guarda para o fim

Ter um ar de esforço é transmitir aos outros que estás a sofrer. Isto poderá dar alguma vantagem psicológica. Além disso, manter contraídos os músculos da cara é um desperdício de energia.

Quando chegar a uma zona d e a b a s t e c i m e n to , f a z um esforço extra e passa diretamente para as últimas mesas. A maior parte dos corredores abastece logo nas primeiras mesas, criando uma grande confusão, que poderá originar choques e/ ou lesões.

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Estabelece um calendário e objetivo É mais fácil quando sabemos por onde queremos ir. A maioria das provas já tem datas para 2018, pelo que podes fazer o teu próprio calendário, sempre desafiante e realista. Podes ir um bocadinho mais longe e estabeleceres marcas para cada corrida. Mesmo que não cumpras totalmente, vais ver que a motivação vai estar em alta!


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CORRIDA

ANO NOVO, CORPO NOVO! Quantas vezes já disse a si mesmo(a) que agora é que é? Em 2018, é hora de, finalmente, mudar! Nós ajudamos com este treino rápido e eficaz sugerido por Carmen Consiglieri, personal trainer do Fitness Hut Oeiras. Texto: Carmen Consiglieri Fotos: Liete Couto Quintal (LCQ Photography)

O treino concebido por Carmen Consiglieri é um treino em circuito que combina exercícios aeróbios, de intensidade alta, e exercícios de força, com intensidade leve a moderada. Devido aos picos de intensidade que este tipo de treino promove, quando aliado a uma alimentação equilibrada, este treino irá reduzir a massa gorda de forma rápida. O objetivo do treino é realizar cada exercício durante 30 segundos, repetindo o circuito de 3 a 5 vezes, conforme a condição física do leitor.


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1 - Mover Cordas

De pé, com os pés afastados e os joelhos semi fletidos, faça com que a corda forme movimentos ondulatórios rápidos e fortes. É fundamental manter a cintura e os ombros estáticos enquanto realiza os movimentos de braços, ativando sempre o seu core.

2 - Agachamentos

Imagine que se vai sentar numa cadeira. Deixe o peso corporal nos calcanhares de forma a que os joelhos nunca passem as pontas dos pés quando agacha

3 - Salto com agachamento para a caixa

Pode começar por fazer este exercício num step e, posteriormente, progredir para a caixa. Com os dois pés em simultâneo, dê uma impulsão com os joelhos para saltar para cima da caixa. Os seus joelhos só voltam a esticar depois da receção em agachamento em cima da caixa. Desça sem saltar.

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4 - Subir e descer caixa

Subir com uma perna de cada vez e descer. Vá alternando a perna que inicia o movimento.

5 - Burpee

De pé, comece por realizar um agachamento. Coloque as mãos no chão e, rapidamente, estique as duas pernas em simultâneo, passando para a posição de prancha. Volte a fletir os joelhos em direção aos braços e salte na vertical.

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6 - Prancha

Deitada de barriga para baixo, com os antebraços no chão, alinhe os cotovelos com os ombros e estique as pernas. Mantenha a posição estática.

7 - Mountain climbers

Na posição de prancha, de braços esticados, mantenha o tronco estático e puxe os joelhos alternadamente em direção aos braços, de forma rápida e saltada.

8 - Push ups

Na posição de prancha, com os joelhos no chão, afaste as mãos de forma a alinhar os seus polegares com as axilas. Dobre os cotovelos, aproximando o peito do chão e volte a esticar.


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ALONGAMENTO

TER EM CONTA NO PRESENTE ANO O ano começou e, para progredirmos com os nossos objetivos, é obrigatório termos alguns cuidados. Para os 12 meses de 2018, deixamos aqui 12 conselhos para ter em conta no próximo ano.

1. Ateste o depósito Se não gostas de comer de manhã e ingere muitos alimentos antes de ir dormir, então poderás não ter a energia necessária. Os teus níveis energéticos estarão elevados à noite, justamente quando menos precisas. Inverte os papéis: começa o dia com um bom pequeno-almoço e termina com uma pequena ceia. A tua energia nos treinos irá crescer. Com o tempo, o corpo terá a necessidade de se alimentar bem ao pequeno-almoço


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2.Começa devagar A maior parte dos investigadores defende que uma corrida deve iniciar-se lentamente e aumentar progressivamente a intensidade até ao fim. Deixa as “lebres” fugir e mantém um ritmo confortável para si. Vais perceber que gradualmente irás alcançar os primeiros lugares. Se for necessário, começa a correr a andar rápido. Escolhe a tua intensidadese alimentar bem ao pequeno-almoço

3.Entre dois pontos, a reta é o caminho mais curto Não há caminho mais curto que uma reta. Se somares todos os pedacinhos de corrida que fazes a mais, no final da prova vais ver que percorreste mais distância do que devias. Aumenta a tua velocidade. Faz treinos de retas curtas de 50 ou 100 metros para melhorar a técnica. Experimente diferentes passadas, posições de braços, postura do tronco...

4. A descontração é essencial Há corredores que desperdiçam muita energia na corrida. Ou porque fecham as mãos, ou porque colocam tensão no maxilar, ou mesmo porque contraem muito os ombros. Descontrai e evita tensões parasitas que te impedem de melhorar. Começa a observar-te a ti próprio noutros momentos, lembra-te de reparar várias vezes ao dia onde acumulas mais tensão e tenta corrigi-la. Se considerares necessário, e, principalmente, se der resultado, faz uma automassagem com as mãos na zona dos maxilares (articulação temporomandibular) e na zona dos ombros, os locais habitualmente responsáveis pela acumulação de tensões


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ALONGAMENTO

5.Escolhe o grau Não falamos de álcool! Escolhe o grau de inclinação para os treinos na passadeira. Como correr no mesmo local é diferente de correr em outdoor, aumenta um grau à passadeira para simular o atrito. Para aumentar a intensidade da corrida ou para treinar as subidas, coloca o grau de inclinação. A passadeira é excelente para treinar, sobretudo no Inverno, mas lembra-te que os dias das competições têm sempre outras condições atmosféricas, de atrito, etc.

6.Sempre para a frente! Cada vez que cruzares os braços à frente ou fizeres movimento laterais na corrida, estarás a desperdiçar energia. Procura agir num plano antero-posterior, procurando eliminar todas as oscilações laterais que possas ter no teu padrão de corrida. Concentra-te neste ponto se quiseres chegar longe

7.“Au naturel” As sapatilhas protegem-te de lesões contra impactos no solo. Contudo, de vez em quando, faz bem deixar que os pés corram “como vieram ao mundo”. Procura um relvado limpo e liso, tira as sapatilhas e sente o que é correr como os nossos antepassados. Para além disso, irás ganhar força, estabilidade e melhorará a impulsão da passada. Vais perceber que, de vez em quando, sabe bem sentir a libertação dos sapatos, afinal estamos quase todo o tempo dentro deles!


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10.Só mais uns metros Nas séries, se ainda conseguires, faz mais uns metros. Estarás a “esticar” as tuas potencialidades ao máximo. Muito cuidado com esta técnica. Se fizeres um esforço máximo nas primeiras séries, podes não ser capaz de cumprir o plano de treino.

11. Vai até aos 180! Não te assuste, pois não falamos da frequência cardíaca, mas da cadência da passada. Uma falha comum é ter uma passada muito longa, o que diminui a cadência (número de ciclos de pernas por minuto). Ao fazer isso, as pernas cansar-se-ão mais rapidamente. Experimenta encontrar a sua passada, de modo a fazer 180 ciclos por minuto. Isto quer dizer que darás 30 passos a cada 10 segundos. Se conseguires manter esta frequência, então poderás tentar aumentar um pouco a amplitude da passada. Cada pessoa tem a sua, é só uma questão de descobri-la!

12.A andar! Muitos corredores baixam drasticamente a intensidade da corrida para recuperar. Para quebrar a monotonia da corrida, experimenta reduzir a intensidade para marcha atlética e depois para o padrão da caminhada. A recuperação será mais progressiva e menos brusca. Lembra-te que todos os passos devem ser dados de forma suave para obteres melhores resultados.

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HÁ VIDA PARA ALÉM DA CORRIDA

OS ESTADOS UNIDOS DE ISABEL LUCAS A literatura tem, muitas vezes, o dom de definir um povo. A literatura norteamericana é uma prova disso, talvez o melhor exemplo dessa afirmação. É precisamente com ela que Isabel Lucas percorreu os Estados Unidos, em mais um período de mudança radical do país: tudo começou com Barack Obama; tudo acabou com a eleição de Barack Obama. Pelo meio, clássicos de sempre do mundo literário. «Viagem ao Sonho Americano», editado pela Companhia das Letras, foi um dos livros do ano que agora terminou. Texto: Pedro Justino Alves Não é de espantar que «Viagem ao Sonho Americano» comece com uma série de fotografias. Nelas podemos ver a incrível diversidade que forma a riqueza (mas não só…) dos Estados Unidos, com a individualidade de cada estado a criar esse sentimento coletivo muito próprio dos norteamericanos. Em cada foto podemos facilmente verificar a multiplicidade de um país que ainda hoje mantém o seu misticismo um pouco por todo o Mundo.

merecem o olhar atento do leitor, uma prova de que definir “um” Estados Unidos é algo ilusório e irresponsável. De «Moby Dick» a «A Piada Infinita», de «Pastoral Americana» a «A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao», por exemplo, Isabel Lucas é a nossa guia, pelo país e pela literatura, numa obra de uma originalidade exemplar, unindo dois polos que, apesar de intimamente ligados, raramente estão interligados de forma tão clara e objetiva.

É verdade que o cinema foi, ao longo das décadas, o grande impulsionador dessa imagem ímpar dos Estados Unidos a nível mundial, mas Isabel Lucas prova com este livro editado pela Companhia das Letras que a literatura também teve e tem esse “poder”. No total, a jornalista do jornal Público apresenta 12 capítulos, que têm uma obra central como motor da viagem. No entanto, e em cada capítulo, a própria Isabel Lucas abre o leque para outras leituras que

Cada texto dos 12 capítulos que definem um pouco do que é os Estados Unidos (ou será muito?) é também uma ode a própria literatura de viagem, já que Isabel Lucas apresenta textos de como o género deve ser “explorado” a nível informativo (e há aqui inúmeras informações provavelmente desconhecidas por muitos, algumas bastante curiosas…), mas também a nível estrutural e estilístico, oferecendo ao leitor um retrato

imprescindível do país. Em cada capítulo, Isabel Lucas oferece o seu peculiar olhar, sem jamais demonstrar algum tipo de temor do que vê e analisa, descrevendo cada cenário vivido de forma cativante e apaixonante. «Viagem ao Sonho Americano» é assim um livro que acaba por definir (pelo menos procura…) os Estados Unidos no século XXI, mesmo recorrendo a livros do século passado. Uma definição intimamente ligada com a eleição de Donald Trump, já que as eleições norte-americanas imiscuem-se em todos os 12 capítulos, datando deste modo, infelizmente, o livro. Apenas um “pormenor” (não podemos ignorar que todos os textos foram publicados no jornal Público entre 1 de maio de 2016 e 2 de abril de 2017 e que agora foram reunidos) de uma enorme obra, justamente colocada na lista dos melhores livros do ano passado.


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A «SAGA» DE «JESSICA JONES» CHEGA AO FIM Uma que termina (mas que terá novas aventuras em breve…), outra que prossegue. Ambas editadas pela G. Floy no final do ano passado, «Jessica Jones: Alias» e «Saga» são dois títulos imprescindíveis da Banda Desenhada atual no mercado nacional. Texto: Pedro Justino Alves Ponto final! Para tristeza de muitos, o primeiro arco de “Jessica Jones:

Alias”, de Brian Michael Bendis e Michael Gaydos , chega ao

fim. No entanto, o abatimento será passageiro, já que a G. Floy revelou que a investigadora privada regressará em 2018 com a série “The Pulse”. Após conhecermos, aqui e ali, alguns dos dramas pessoais de Jessica Jones nos três volumes anteriores, é hora de descobrirmos a origem de tudo, de como a investigadora privada ganhou os seus poderes, de compreendermos os fantasmas que assolam o seu ser, de conhecermos o seu trágico passado, de entendermos as suas posições nem sempre justificáveis. Bendis e Gaydos fecham assim com chave de ouro um arco realmente marcante na história da banda desenhada, tanto em termos argumentativos como a nível da ilustração. Estamos perante um final perfeito de uma série, construída desde o início com o mágico toque de Bendis, que apresenta uma história inteligente e preenchida de revelações bombásticas, fruto das múltiplas dimensões de Jones, que mais uma vez conecta facilmente com o leitor,


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impulsionado com os singulares traços de Gaydos, tanto a nível de arte como em termos estruturais. Na realidade, é de louvar como foi construída esta série gráfica, o cuidado que os seus autores tiveram em todos os seus minúsculos detalhes. Neste quar to volume temos conhecimento do que está por trás da decisão de Jones de não se juntar aos Vingadores, ao mesmo tempo que compreendemos o seu comportamento autodestrutivo, muito devido ao passado comum com Killgrave, o Homem-Púrpura, um retrato fiel do mal puro, um personagem muito próximo do pior dos sociopatas da nossa realidade. Bendis revela assim com enorme desenvoltura o passado da protagonista, que, no liceu, teve uma paixão por… Peter Parker, por exemplo. Nada é deixado ao acaso, todos os pormenores contam para revelar a história de Jones em sucessivos flashbacks, com Gaydos a recorrer, quando tal acontece, ao desenho clássico e abrilhantado dos clássicos da Marvel do passado, em contraste com o tom mais escuro e intenso do presente de Jones, com Bendis a recorrer inclusive a metaficção aquando do diálogo da personagem com Killgrave, numa solução narrativa bastante curiosa e feliz. Em resumo, o arco “Jessica Jones: Alias” é no fundo um romance gráfico, muito mais do que uma série de bandas desenhadas que formam um conjunto. Bendis e Gaydos entregam ao Mundo da BD uma personagem realmente singular no Universo dos Super-Heróis. Agora é esperar por 2018, pois a G. Floy vai editar entre nós mais um arco de Jessica Jones, concretamente «The Pulse». Uma leitura absolutamente obrigatória!

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A ENORME «SAGA» DE BRIAN K. VAUGHN E FIONA STAPLES Uma das séries mais premiadas dos últimos anos na Banda Desenhada (os prémios surgem de ano para ano), o sétimo capítulo de «Saga», de Brian K. Vaughn e Fiona Staples, foi também recentemente editado pela G. Floy. Como nos anteriores volumes, acompanhamos mais uma vez a complicada viagem cósmica de uma família em busca de um local tranquilo para (sobre)viver. «Saga» é considerado por muitos uma espécie de «Romeu e Julieta» do espaço, embora com filho (no caso, uma filha). No entanto, o amor é apenas uma das palavras presentes na história, mas não a única. Ao longo dos seis volumes, e deste sétimo, Brian K. Vaughan tem o dom de abordar vários temas centrais que assolam as sociedades dos dias de hoje, oferecendo ao leitor uma verdadeira… saga multifacetada e dinâmica, com várias leituras possíveis, fruto da invulgar mente criativa do seu autor. Diversidade, família, violência, Deus, respeito pelo próximo e pela diferença e convivência são apenas outras das palavras que podemos encontrar ao longo dos sete volumes, por exemplo (mas há mais, muito mais…). O principal mérito de Vaughan ao longo dos sete volumes foi jamais ter “estacionado” no êxito. Em cada capítulo publicado deu sempre um passo adiante, rompendo com o volume anterior, embora sem jamais ignorar o tronco central da história, concretamente a vida familiar de


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Marko e Alana e a dificuldade de ambos em educar a filha Hazel. Ao leitor é apenas pedido que acompanhe a complexidade dessa vivência, que existe por os dois protagonistas pertencerem a povos distintos e em guerra entre eles. A arte de Brian K. Vaughan em contar a história é algo realmente único na Banda Desenhada atual devido a complexidade da sua aventura, principalmente por acompanhar o crescimento de Hazel, que mais uma vez dá um passo na sua evolução pessoal, deixando de vez a infância (e como é triste e melancólico deixarmos a infância da jovem personagem…). Brian K. Vaughan constrói deste modo uma história de uma diversidade e xe m p l a r, c o m u m a s é r i e d e protagonistas de uma complexidade única, de uma riqueza ímpar em termos de personalidade. É impossível não nos revermos neste ou naquele protagonista, seja ele principal ou secundário. Há por isso uma enorme humanidade em «Saga», algo fundamental para o seu indubitável êxito, tanto em termos populares como de crítica. Evidentemente que não podemos ignorar o edificante trabalho de Fiona Staples, tudo devido a componente estética criada pela ilustradora, absolutamente marcante, fruto da riqueza da sua ilustração, oferecendo ao leitor um rico universo de personagens, de uma frescura empolgante no Mundo da Banda Desenhada.


100% corrida janeiro 2017  
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