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POSSO BEBER UMA CERVEJA APÓS O TREINO? Uma imperial, por favor...

DEZ SEGREDOS PARA MELHORAR A VELOCIDADE Desperta o Flash que há em ti

Junho 2017 Mensal www.corredoresanonimos.pt

JOÃO NETO E JOÃO BANDEIRA PORTUGUESES SOBREVIVERAM A UMA MARATONA REALIZADA A -40º


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SPEEDCROSS SERIES


SUMÁRIO POSSO BEBER UMA CERVEJA APÓS O TREINO? AS VANTAGENS DO DESAFIO BREAKING2

HÁ UM FLASH ESCONDIDO EM TODOS NÓS FICHA TÉCNICA Diretor Pedro Justino Alves

CORRER ABAIXO DE -40º E SOBREVIVER

Redação Ana Borges Design e paginação Bárbara Viana & Ian Estevens hola@elrucanonim.com

A IMPORTÂNCIA DA POSTURA NA CORRIDA

Morada Rua Ferreira Lapa, n.º 2 – 1.º andar 1150 – 157 Lisboa Número de contribuinte 199003092 Contatos (redação e publicidade) Telemóvel +351 964 245 271 Endereço eletrónico mail@corredoresanonimos.pt

A OBRA-PRIMA DE URSULA K. LE GUIN

Colaboradores fixos Carlos Soares Colaboradores da presente edição Joana Almeida Tiago Marto Perdo Asseiceira (EXS Excercice School)

N. de registo na Entidade Reguladora para a Comunicação Social: -

UM TELEMÓVEL IDEAL PARA CORREDORES

Estatuto editorial disponível online www.corredoresanonimos.pt www.facebook.com/corredoresanonimos.pt twitter.com/correranonimo


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HIDRATAÇÃO

POSSO BEBER UMA CERVEJA APÓS O TREINO? Será que a cerveja poderá proporcionar uma boa hidratação após um treino? Um estudo desenvolvido na Universidade de Granada (Espanha) demonstrou que, depois de realizar atividade física, o consumo moderado de cerveja é tão eficaz como a… água. Texto: Joana Almeida

Poderá a cerveja ser eficaz como bebida reidratante? A cerveja é produzida pelo processo de fermentação e composta por água, cevada, malte e lúpulo. Contudo, também tem poucas quilocalorias (45 Kcal/ 100ml), além de vitaminas do grupo B, fibras solúveis e minerais (magnésio, cálcio, fósforo, potássio e silício, além de conter baixo sódio). Deste modo, contém de 6 a 8% de hidratos de carbono. (1)

Como as bebidas isotónicas, a cerveja tem hidratos de carbono complexos, como a maltodextrina, que, por ter absorção lenta, fornece uma hidratação adequada ao atleta. (1) As características organoléticas da cerveja e a sua composição podem ser adequadas para substituir pelo menos os minerais que são produzidos pelos suor e

assim facilitar a recuperação do exercício físico intenso. (1) Por ter um baixo conteúdo alcoólico, a cerveja pode não ser prejudicial, mesmo quando consumida em quantidades moderadas. Aliás, pode inclusive ser benéfica e favorecer uma rápida e eficaz reidratação. Devemos recordar que conseguir uma correta hidratação após o exercício físico é de extrema importância para otimizar uma adequada


HIDRATAÇÃO

reposição de fluidos e os depósitos energéticos perdidos, melhorando assim o rendimento e recuperação do atleta. (1) Segundo este estudo, atletas que praticam exercício intenso (com 60% da capacidade aeróbica máxima) e em lugares quentes (com mais de 30ºC de temperatura) podem ter perdas hídricas de 1,5-2 litros, algo que corresponde a uma perda de 2-2,5% do peso corporal.

(1) O mesmo estudo ainda refere que pessoas acostumadas com o consumo de cerveja têm benefícios ao consumirem até 660 ml da bebida (equivalente a dois copos) até 2 horas depois de um treino. E os efeitos da bebida seriam tão eficazes quanto o da água.(1)

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Findo este estudo, conclui-se que, na desidratação moderada, a cerveja pode ser uma boa alternativa, facilitando a reidratação. (1)

(1) - B. Mónica; Departamento de Fisiología, Facultad de Medicina Universidad de Granada; Tesis doctoral – “La Cerveza como bebida rehidratante después del ejercicio”; Granada, 26 de Maio, 2011


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ENQUANTO CORRO

Tiago Marto

Fisioterapeuta e ex-atleta de Alta Competição de Atletismo

No passado dia 6 de Maio tivemos a oportunidade de assistir à tentativa de correr uma Maratona abaixo das 2 horas. Batizado de Breaking 2 e desenvolvido pela Nike, incluía os atletas Lelisa Desisa, Zersenay Tadese e Eliud Kipchoge. Para atingir o fim a que se propuseram, a Nike recorreu a várias áreas da Ciência e do Desporto, tais como a nutrição, o treino, a biomecânica, o controlo dos fatores ambientais e a tecnologia do calçado e da roupa utilizados. Como base inicial para alcançar este objetivo, recordaram o feito alcançado por Sir Roger Bannister, em 1954 (curiosamente também no dia 6 de Maio), que, ao correr a milha num tempo abaixo dos 4 minutos (3m59s4), reescreveu os limites humanos e deu a todos os atletas novas metas para alcançarem e a confiança para as atingir. No que diz respeito à perda de massa gorda, Fui acompanhando este desafio pela internet e, ao mesmo tempo, fui assistindo nas redes sociais e em algumas notícias de sites de referência do mundo da corrida comentários que referiam que não achavam correta esta tentativa porque, resumidamente, utilizava “ajudas” que tornariam mais fácil a obtenção do objetivo de baixar das 2 horas. Na minha opinião, estes momentos são necessários no Desporto. Estes momentos permitem-nos avançar, delinear novos objetivos, perceber os limites fisiológicos e psicológicos do ser humano. Os grandes avanços no Desporto dão-se quando alguém deixa de pensar no que está convencionado e pensa “fora da caixa”. E temos

imensos exemplos que nos demonstram que estas acções são necessárias para o desenvolvimento contínuo. No salto com vara utilizavam-se varas de bamboo e alumínio até que se desenvolveram varas em fibra de vidro e carbono que permitiram a evolução do recorde do mundo de 4m77 com vara de bamboo para os 6m16 com vara de fibra de vidro; no salto em altura, quando todos os atletas saltavam com o estilo rolamento ventral, Dick Fosbury introduz m 1968 o salto de costas ou “Fosbury Flop”, que rapidamente revolucionou o panorama fazendo com que, atualmente, todos os atletas utilizem a técnica de salto utilizada por ele; a evolução das sapatilhas de Trail tem permitido que os resultados nas competições melhorem


ENQUANTO CORRO

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E isso é que é importante, olhar para este e outros projetos do género com a visão de quem quer mais para o futuro. Tivemos um visionário desses em Portugal, o Professor Moniz Pereira. Nos anos 70 declarou, na então Direcção-Geral dos Desportos, que, se dessem aos atletas portugueses as mesmas condições Com isto quero dizer que, apesar de perceber dos outros países, conseguiríamos resultados perfeitamente as vantagens que este desafio de destaque. O que veio a seguir todos nós tinha, como a escolha da pista de Monza (praticamente plana), a escolha do dia e horário conhecemos. Modificámos a forma de treinar e encarar o atletismo e, durante vários anos, por questões de temperatura e humidade, a fomos os melhores do Mundo. utilização do carro relógio que bloqueava o vento, os ténis desenhados para fornecer uma vantagem biomecânica, etc., tenho a certeza que deste desafio irão surgir novos dados que vão modelar o futuro em termos de treino, PS: De referir que Eliud Kipchoge correu o desafio equipamento e perceção do que é possível ao Breaking2 com o tempo de 2h00m24 corpo humano alcançar. de ano para ano. Ou seja, por não se pensar dentro do que está estabelecido, conseguem-se atingir patamares deevolução que tornam os anteriores limites completamente ultrapassados.


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PREPARAÇÃO

DEZ SEGREDOS PARA MELHORAR A VELOCIDADE Obviamente, todos os corredores ambicionam melhorar os seus tempos pessoais. Belino Coelho, diretor técnico da Elite Assessoria Esportiva, do Brasil, responsável pelo treino e orientação de mais de 150 atletas, revela dez segredos que devem ser seguidos por todos para que tal seja possível. Não há milagres, apenas trabalho… Texto: Belino Coelho

Correr mais rápido implica dominar diversas temáticas, como o planeamento, a organização das cargas de treino, o conhecimento das variáveis e em que momento elas deverão ser trabalhadas dentro do plano de treino, de modo a beneficiar e propiciar

o aumento da velocidade em conjunto com a resistência (de nada adianta correr mais rápido se o atleta não tiver uma resistência adequada para suportar a velocidade na sua distância preferida), por exemplo.

As dez dicas ao lado pretendem ajudar precisamente a correr mais rápido, tendo como base um plano de treinos dividido em três fases antes do dia da corrida: treino de base, treino de desenvolvimento e treino de especialização.


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Deve-se procurar um treinador com bons conhecimentos e experiência

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Nas primeiras semanas do treino de base, a fase inicial do plano, é importante trabalhar a força na musculação e a força específica na corrida (por exemplo, um treino intervalado curto, com subidas e descidas para aumentar a nossa “resistência de força”). Nos demais períodos de treino do plano, deve-se trabalhar apenas com cargas de manutenção, já que o objetivo, a partir de então, é não perder força e “resistência de força” ao longo das semanas do plano

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Na fase final do treino de base, é necessário trabalhar a potência de força na musculação e a pliometria (exercícios que buscam a máxima utilização dos músculos em movimentos rápidos e de explosão)

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É importante realizar treinos intervalados curtos, para ganhar velocidade, e treinos intervalados de média e longa distância, para aumentar a resistência de velocidade, durante o período de treino de desenvolvimento do plano

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Na segunda parte do treino de desenvolvimento (período que antecede o treino de especialização), é necessário aumentar a velocidade das “rodagens” para aumentar a resistência

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É importante fazer treinos com intensidades elevadas no final do treino de desenvolvimento e início do treino de especialização

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Entre dois treinos de alta intensidade, é importante fazer um intervalo entre 48 e 72 horas

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Não se deve esquecer os denominados treinos regenerativos, que favorecem e aceleram o processo de recuperação

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Devemos valorizar a alimentação, a hidratação e o sono, três “elementos” fundamentais no processo de recuperação

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Correr mais rápido implica um maior grau de sofrimento. Portanto, as cargas de intensidade devem ser aumentadas gradativamente para não criar desânimo ou traumas. Há uma regra básica a ter em conta: quando a intensidade aumenta, o volume diminui. E vice-versa


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ENTREVISTA

DOIS PORTUGUESES CORRERAM E SOBREVIVERAM A MARATONA MAIS FRIA DO MUNDO


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João Neto e João Bandeira realizaram há pouco tempo um dos grandes desafios no Mundo da Corrida: concluíram a Maratona do Polo Norte (primeira edição ocorreu em 2002). Até ao momento, são os únicos portugueses que conseguiram o feito, escrevendo finalmente o nome de Portugal na lista do evento. Dos treinos em conjunto numa arca frigorífica até a prova propriamente dita, onde cada um seguiu a sua estratégia, ambos tiveram a felicidade de terminar a aventura juntos, após 9h05m04. Texto: Pedro Justino Alves


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Costumam correr sempre juntos? Desde quando e como começou essa parceria? Por vezes corremos juntos! Corremos juntos há cerca de quatro anos, apesar de sermos amigos há bastante mais tempo. Quais provas já vivenciaram juntos e aquela que mais recordam? Em provas oficiais, corremos juntos o “Fim da Europa” (Sintra) e as maratonas de Sevilha, Lisboa, Londres e agora a do Polo Norte. A que mais recordamos é incondicionalmente a última, pela dificuldade que vivenciamos juntos para cumprir o objetivo de hastear as bandeiras de Portugal, da Federação Portuguesa de Atletismo e da PT empresas, nossa patrocinadora. Qual a importância de terem a companhia um do outro? Em Portugal, é obviamente a amizade e o convívio. Embora ambos tenhamos experiência de corridas, em provas no estrageiro é bastante importante sabermos que, em qualquer circunstância fora do normal, contamos com o apoio do outro! Apesar de, durante as provas, cada um seguir autonomamente a sua estratégia.

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Em termos de Maratona, qual a vossa experiência na distância? João Neto: No meu caso tenho a experiência de 14 Maratonas e de duas Ultramaratonas de Trail, com cerca de 54 Km, mas com um desnível e grau de dificuldade extremo. João Bandeira: Tenho a experiência de 15 Maratonas

e uma Ultramaratona com 56 Km e um elevado nível de dificuldade. Qual foi a primeira, o tempo que alcançaram e o ano? E o melhor tempo de cada um na distância, ano e onde? João Neto: A minha primeira foi a Maratona de Lisboa, em 2013, com um tempo próximo das 4h30. No entanto, para mim, o tempo é completamente irrelevante.

A minha especialidade são os trails e a bicicleta. Só comecei a correr Maratonas na sequência de um problema de saúde, que me proibiu de pedalar durante um ano. No entanto, corro no mínimo entre quatro e cinco Maratonas oficiais por ano. João Bandeira: A minha primeira foi a Maratona do Porto, em 2010, com cerca de 3h50. O meu melhor tempo foi na Maratona de Londres, em 2015, com um tempo próximo das 3h40. O que significa para vocês correr uma Maratona? Qual é a magia da distância? João Neto: A Maratona, até ao início de 2013, era uma coisa completamente impensável para mim, não corria 400 metros. No entanto, depois de começar, efetivamente surge uma necessidade constante de ir cada vez mais longe e é essa a magia da distância! Neste momento, mais importante do que as distâncias, é o grau de dificuldade das provas. João Bandeira: Terminar uma Maratona ou uma Ultramaratona é sempre um acontecimento especial porque colocamos à prova os nossos limites físicos e psicológicos. A corrida em si é a “ponta do iceberg” de um período intenso de treinos,


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é o culminar de um ciclo, é o alcançar com sucesso de um objetivo pessoal autoimposto. Terminar uma Maratona dá-me sempre uma enorme sensação de realização e de que me venci. Como surgiu a ideia de correrem a Maratona do Pólo Norte? João Bandeira: Em 2015, quando terminei a “Antartic Ice Marathon”, fiquei logo com grande vontade de correr no Polo Norte. Foi um apelo da geografia, correr nos antípodas ou correr de Polo a Polo. João Neto: A ideia surgiu quando o João Bandeira me desafiou para correr a Maratona da Antártida, Maratona essa que eu, infelizmente, e por razões familiares com um dos meus filhos, não pude estar presente. Desde essa altura fiquei com a vontade de fazer um desafio no frio. E porquê no frio? Porque detesto o frio! E, como tal, o

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desafio é assim ainda maior! Quando o João me falou na possibilidade de ir correr o Polo Norte, aceitei de imediato! Sinceramente, com a experiência que já tenho de corridas, a minha motivação neste momento vai no sentido de fazer provas exclusivas do mais elevado nível de dificuldade no Mundo. E a Maratona do Polo Norte é a mais fria do mundo. E porque correr a Maratona do Pólo Norte? A North Pole Marathon é uma maratona diferente de todas as outras, é a única Maratona disputada num oceano (Oceano Ártico) em torno do Polo Norte geográfico. É uma prova muito exclusiva onde só participam cerca de 27 pessoas por ano, com inscrições previamente esgotadas ano após ano. Esta Maratona é considerada pela imprensa internacional como um dos eventos desportivos mais duros e espetaculares do

mundo (entre Maratonas, Ultra maratonas, Ironman, etc). Este ano foi uma exceção, contando com 55 participantes. Em relação aos treinos, como ocorreram? Quanto tempo de preparação, qual era a vossa rotina e quilómetros semanais? João Neto: Treinei constantemente! Em Outubro corri a Maratona de Chicago e, no mês seguinte, a Maratona de Atenas, onde tive uma lesão que me obrigou a parar durante um mês. No início de Janeiro, apesar de debilitado, recomecei os treinos, cerca de 4/5 vezes semana, das quais três no Centro de Alto Rendimento do Jamor, a uma altitude de 2000m. No fim de Fevereiro corri a Maratona de Tóquio e, a 09 de Abril, a Maratona do Polo Norte. Basicamente estive sempre a treinar, embora com muitas limitações físicas que foram sendo corrigidas graças ao excelente trabalho da equipa da CUF Alvalade, orientada pelo Dr. Paulo Beckert.


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João Bandeira: Eu comecei a treinar em Janeiro, após um período de paragem de cerca 4 meses por lesão. Segui o meu plano de treinos habitual: três treinos durante a semana e um treino longo ao fim de semana. No entanto, neste caso, tive que moderar a carga semanal para não estragar a recuperação da lesão. Cerca de um mês antes da prova no Polo Norte, realizei diversos treinos (50 minutos a uma

altitude de cerca 2000 metros) na sala de altitude do Centro de Alto Rendimento do Jamor. Sei que treinaram numa câmara frigorífica. Como surgiu esta ideia e como conseguiram colocar a mesma em pé? A câmara frigorífica foi essencial para avaliar a forma como o corpo reage a temperaturas tão baixas e testar as roupas que melhor se adequam às condições extremas que íamos ter de enfrentar. A ideia e a oportunidade surgiram na sequência dos treinos que o João Bandeira

tinha feito aquando da preparação para a Maratona da Antártida. Fizeram mais treinos “fora da caixa” durante a preparação? João Neto: Fiz vários treinos de estrada, subir e descer degraus e treinos na relva para adaptar os sapatos com pitons para aquele tipo de piso. João Bandeira: Treinos “fora da caixa” não sei! Eu diria

que fizemos treinos “dentro da caixa”, treinos na sala de altitude e treinos nas câmaras frigoríficas. Esta era a única maneira de se prepararem minimamente para o desafio que se propunham concluir? Sem dúvida! Com as temperaturas que existem em Portugal, e apesar de só conseguirmos estar expostos a -20 graus dentro do frigorífico, esta foi a única forma de testarmos as roupas que melhor se adequam aquelas temperaturas / condições climatéricas.

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Em relação a prova, poderiam falar em primeiro lugar da organização, da logística da mesma? Em relação à equipa organizadora, são pessoas com uma experiência incrível na realização deste tipo de eventos e não deixam nada ao acaso, tentando minimizar ao máximo os riscos que provas desta natureza acarretam. A logística é incrível, trata-se de um evento realizado

no Polo Norte, onde as temperaturas chegam naquela época do ano a provocar sensações térmicas de -50 graus, como foi o caso nas últimas três horas de prova! Naquele local não existe absolutamente nada, tudo tem de ser transportado de avião de muito longe para ser somente utilizado durante 3 semanas por ano, depois tudo é desmontado novamente! As tendas são militares, proporcionando um desconforto incrível, tendo sido os únicos abrigos durante os três dias que lá passamos, pois cá fora era impossível


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permanecer mais de 5 minutos. O acampamento “Barneo Ice Camp” está assente na calote de gelo polar que se descola cerca de 200 metros / dia sobre o leito do Oceano Ártico. Qual a estratégia utilizada? Tinham algo em concreto na partida? João Neto: Fisicamente estava bastante debilitado. Como tal, tentei correr tão rápido quanto possível, tendo chegado a cerca do km 11 sem nunca ter parado. No entanto, nessa altura, tive de optar entre abrandar ou arriscar em não chegar ao fim! Estava com bastantes dores na anca direita e nessa sequência a opção foi relativamente simples: não arrisquei para conseguir chegar ao fim. Desistir era impensável para uma pessoa com as minhas características, o objetivo era concluir! João Bandeira: O diretor da corrida informou-nos, no briefing antes da prova, que a Maratona teria 13 voltas e disse-nos que não devíamos “combater” nalgumas zonas

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do percurso porque iríamos despender muita energia que seria necessária no final da corrida. Esta estratégia confirmou o que eu tinha em mente antes de ir para o Polo Norte e foi isto que fiz: decidi correr a um ritmo mais rápido quando o gelo permitia e a um ritmo lento ou muito lento nas zonas muito difíceis do percurso. Adicionalmente, optei por parar em todas as voltas para limpar o gelo dos óculos e máscara da face. O meu objetivo foi disfrutar ao máximo o momento e a aventura, não correndo riscos desnecessários. Na Antártida e no Polo Norte os perigos do frio extremo são muitos (flebites, congelamento da córnea, etc.) e portanto é fundamental estar atento aos sinais do corpo. Combinaram correr sempre um do lado do outro? Não! Fizemos somente a primeira volta juntos (3,200m), depois cada um adotou a sua estratégia, tendo acontecido a feliz coincidência de nos termos encontrado a 1,5 km do final, o que proporcionou que tivéssemos terminado juntos. Poderiam resumir a prova? João Neto: Prova absolutamente incrível, realizada em condições completamente ao limite do suportável para um ser humano. Quando se vai à tenda mudar a roupa congelada, é extremamente difícil voltar à prova e não

desistir… É somente acessível a um grupo muito restrito de pessoas que tenham uma força de vontade fora do normal. Em suma: fascinante! João Bandeira: A North Pole Marathon é uma prova brutal e única. A corrida é disputada num cenário natural de extrema beleza em condições extremas de frio. O percurso parece um “pântano de gelo”, onde nalgumas zonas mal conseguíamos andar, muito menos correr. Estas condições obrigam-nos a ter uma enorme resiliência à adversidade e capacidade de auto motivação para nos mantermos em prova. Foi mais complicada do que imaginavam? As temperaturas chegaram até quanto? Foi muito mais complicado do que alguma vez imaginávamos. As temperaturas rondaram os 40 graus negativos, mas, com o vento que se fez sentir, a sensação térmica desceu aos -50 graus. Incrível! Qual a principal dificuldade numa prova destas caraterísticas? Tudo! O frio, as condições do terreno e o meio ambiente. São condições extremas.


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Em relação ao equipamento utilizado. O que levaram? Correm com um casaco especial? Sapatilhas, etc. Poderiam falar sobre o assunto? Ele acaba por ser tão importante como a condição física do corredor? Neste tipo de ambiente é fundamental manter o corpo seco. Utilizámos três camadas de roupa no tronco, máscara com cortavento, gorro/balaclava, dois pares de meias especiais, dois pares de calças técnicas, dois pares de luvas e sapatos de trail com pequenos pitons. Para o ano pretendem correr a… Maratona das Areias? João Neto: No meu caso tenho várias provas programadas, como o IronMan, uma Ultramaratona de Trail, uma prova no “quente”, embora ainda não saiba exatamente qual, e a conclusão do programa que me candidatei, a World Major Marathon, que, em princípio, concluo em Abril de 2018, com a Maratona de Boston, é a única que me falta para ter o pleno das seis principais Maratonas do Mundo. João Bandeira: A curto prazo gostaria de correr uma Maratona na Austrália para concluir uma Maratona em cada um dos 7 continentes (América do Norte, América do Sul, Europa, Ásia, Austrália e Antártida) e no Polo Norte, fazendo assim parte do grupo restrito de corredores da Marathon Grand Slam Club.

No mês de junho no site corredoresanononimos.pt alguns conselhos de preparação para uma prova destas caraterísticas e João Neto e João Bandeira revelam “detalhes” que devemos ter durante a prova


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Já alguma vez lhe disseram que tem uma má postura a correr? Que corre “torto”? A postura é um dos temas mais em voga no mundo do exercício. Criaram-se uma panóplia de cursos, livros e instrumentos de forma a melhorar e “corrigir” uma suposta má postura. No entanto, em primeiro lugar, importa definir o que é postura…

Pedro Asseiceira

MSc Sport Rehabilitation; Muscle Activation Specialist; Personal Trainer – Fitness HUT Santos; Prof. Fisiologia Humana – Escola Superior de Saúde Ribeiro Sanches

PASSADA TÉCNICA


PASSADA TÉCNICA

Segundo Iqbal (Mechanisms and models of postural stability and control, 2011), a postura humana refere-se à disposição estática dos membros e partes corporais, numa determinada posição que poderá ser a de sentado, em pé ou deitado. A postura estática implica um equilíbrio das forças que interagem com o corpo, que se encontra posicionado sobre a sua base de suporte (a área de superfície debaixo dos pés). A transição entre posturas requer movimento. Assim, postura é apenas uma posição, ou seja, a posição a partir da qual se irá iniciar o movimento. Quando se inicia movimento, a postura dinâmica ocorre devido ao equilíbrio de forças e movimentos (incluindo a inércia dos nossos segmentos corporais) dos membros e partes corporais em movimento. Neste contexto, o centro de massa não se encontra sob a base de suporte. Por exemplo, durante o andar, este encontra-se 80% do tempo fora da base de suporte (Iqbal, K., Mechanisms and models of postural stability and control, 2011). São vários os aspetos que condicionam a postura humana e tornam-se evidentes durante o movimento articular. Contudo, é fundamental considerar a diferença que existe na arquitetura óssea individual entre seres humanos. Em aulas ou formações de anatomia cadavérica, é possível notar que não existem ossos idênticos na sua dimensão e geometria, apesar das parecenças na forma. Será assim muito difícil conseguir encontrar duas ancas idênticas em seres humanos diferentes. Nesse sentido, o movimento articular durante a corrida será evidentemente diferente entre indivíduos diferentes.

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O reconhecimento da variabilidade na anatomia individual de que cada pessoa é assim um fator determinante para a alteração da consciência do treino para a corrida. Assim sendo, treinar indivíduos de modo a encaixarem em padrões de corrida que jamais serão apropriados para os seus corpos devido à sua arquitetura osteoarticular não será a melhor solução. A título de exemplo, um indivíduo poderá aparentemente ter pouca extensão da coxofemoral e, ao tentar que este obtenha maior excursão nessa articulação, de modo a obter a tal extensão pretendia, poderá causar acentuação na extensão da coluna lombar, provocando maior stress articular na mesma. Deste modo, é importante que o profissional de exercício tenha uma abordagem cautelosa ao não tentar forçar quaisquer movimentos para evitar violar seriamente a tolerância fisiológica das articulações envolvidas. Para terminar, a solidez articular que servirá de base para que cada pessoa expresse a sua postura natural dinâmica durante a corrida alcança-se com o treino de força (Fernandez, C., Effects of Strength Training on Running Economy in Highly Trained Runners: A Systematic Review With Meta-Analysis of Controlled Trials). Advertência O presente artigo está protegido ao abrigo do Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos. A utilização não autorizada – além do uso como breve citação em artigos e críticas – pode configurar a prática de um crime de usurpação ou contrafação (arts. 195º e 196º do CDADC) para além de incorrer em irresponsabilidade civil conducente a um pedido de indemnização.


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HÁ VIDA ALÉM DA CORRIDA

A ENORME UTOPIA DE URSULA K. LE GUIN Um dos livros de sempre da ficção-científica (e não só…), «Os Despojados», de Ursula K. Le Guin, vencedor dos principais vários prémios do género (Hugo, Nebula, World Fantasy Award, National Book Award, etc.), é novamente editado no nosso país, pela Saída de Emergência. Uma obra obrigatória na presente Feira do Livro de Lisboa, que decorre no Parque Eduardo VII entre 1 e 18 de junho. Texto: Pedro Justino Alves

Inserido no denominado Ciclo Hainish, «Os Despojados» pode ser lido de forma autónoma. Marco da ficção-científica política, a história decorre em dois planetas, Urras, muito semelhante à Terra, e Anarres, lua do primeiro. Enquanto em Urras temos um planeta pródigo em recursos naturais, em Anarres viver é complicado devido a falta de recursos; enquanto em Urras há diversos conflitos entre a sua população devido a implementação de vários regimes espalhados pelo planeta (sobressaindo o capitalismo), em Anarres há uma sintonia em termos socias, pois o intuito que rege todos é uma sociedade igualitária, baseada essencialmente no anarquismo e na partilha de bens (não podemos ignorar que os habitantes de Anarres foram expulsos no passado pelos habitantes de Urras). O conflito acontece quando o físico Shevek, habitante de Shevek, viaja até Urras, tendo como objetivo promover a comunicação entre os dois “territórios”. É o primeiro anarresti a fazer tal coisa.


HÁ VIDA ALÉM DA CORRIDA

Através de duas linhas temporais, Ursula K. Le Guin apresenta uma obra realmente apaixonante, revelando a vida dos dois planetas. A cada capítulo, a visão do leitor sobre a sociedade de ambos é aumentada, já que cada capítulo é dedicado a cada planeta. A autora centra a sua atenção nos personagens e na sociedade de cada território, evidentemente bastante distintas. É de aplaudir a fria análise de Le Guin, que faz uma voraz crítica ao capitalismo (e também ao comunismo). Mas o livro jamais é maniqueísta, pelo contrário. Através dos personagens (significativos e brilhantemente trabalhados), principalmente através do contraditório individualismo de Shevek, a autora transmite o seu singular ponto de vista, não só político, mas também sociológico e psicológico. No fundo, o que Le Guin proporciona é um choque entre duas sociedades, principalmente o confronto entre o capitalismo e o anarquismo, mostrando as deficiências e incoerências de cada uma. A autora demonstra a utopia de cada sistema (principalmente do capitalismo…), a incompreensão dos seus defensores para com os outros, não aceitando os seus valores. «Os Despojados» exorta a autocrítica e o inconformismo. Através de um relato magnificamente retratado, Le Guin oferece um panorama geral de duas civilizações, um olhar bastante crítico de dois sistemas antagónicos. Indispensável!

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No mês de junho vamos sortear, no site corredoresanonimos.pt, um exemplar de «Os Despojados», de Ursula K. Le Guin, oferta da Saída de Emergência.

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HÁ VIDA ALÉM DA CORRIDA

UM TELEMÓVEL PARA A CORRIDA DO DIA A DIA O telemóvel é hoje um dos principais “companheiros” dos corredores, que não conseguem correr mais sem a sua aplicação que regista quantos quilómetros correu, que gostam de tirar fotografias dos seus treinos, que apreciam correr com as suas músicas preferidas, por exemplo. Por isso, o Aquaris U Plus, da BQ, é uma excelente escolha, já que concentra em si todas as caraterísticas obrigatórias pela comunidade running para um smartphone, a um preço quase imbatível no mercado. Texto: Pedro Justino Alves


HÁ VIDA ALÉM DA CORRIDA

Ao longo dos anos, a BQ, de Espanha, tem construído o seu nome de forma sustentável e convincente, oferecendo produtos (não só telemóveis…) que vão ao encontro dos desejos do mercado, mas tendo uma política muito realista em termos de preços. Um exemplo real da sua “linha de conduta” é o Aquaris U Plus. Ao compararmos as suas especificações técnicas com os mesmos da sua categoria, é notório não notarmos em primeiro lugar a diferença de preço entre os aparelhos: 199/239,90 euros para o Aquaris U Plus (16/32 GB memória interna e 2/3 GB de RAM, respetivamente), largas duas centenas de euros para os restantes. Portanto, dificilmente o BQ Aquaris U Plus não irá satisfazer o seu usuário, já que temos entre nós um telemóvel que cumpre com honra todos os requisitos que achamos necessários para um aparelho da sua gama. Um dos pontos mais positivos do aparelho é a sua bateria, que prolonga-se além de um dia, algo fundamental nos dias de hoje. São poucos os smartphones que conseguem “sobreviver” a um dia intenso de uso, o

que não acontece com este modelo. Aliás, este é outro dos “pontos sagrados” da BQ (além dos preços), a duração das suas baterias. No caso em concreto, temos um smartphone com 3.080 mAh, que permite inclusive a possibilidade de estar ligado durante dois dias, se o seu uso não for muito ativo, algo impensável em muitos modelos, inclusive nos topos de gama. Com um ecrã de cinco polegadas (resolução de 720p) e espaço para dois cartões SIM, o BQ Aquaris U Plus permite ainda expandir a sua memória para 256 GB, outro fator imprescindível nos nossos dias, principalmente para quem corre, devido às músicas e fotos. Também temos de mencionar a fluidez de todo o sistema operativo (Android 7.1.1 Nougat), que cumpre com satisfação todas as nossas necessidades, seja a utilizar o BQ Aquaris U Plus para ócio ou para trabalho. Música, jogos, leitura de jornais ou livros… Tudo flui com naturalidade e com rapidez, algo que é sempre de assinalar em qualquer smartphone, assim como

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a leitura de impressão digital, que apresenta um sensor muito rápido e que facilita em muito o seu manuseamento, principalmente quando queremos desbloquear o telemóvel. Em relação à câmara fotográfica incorporada, o BQ Aquaris U Plus apresenta uma frontal com 5 MP e uma traseira com 16 MP, com a função HDR e HDR+. Para os amantes da fotografia, há também a possibilidade de recorrer ao modo manual, onde podemos ajuizar ao nosso gosto o contraste, o tempo de exposição, o ISO, o autofoco e o balanço de brancos. Portanto, BQ Aquaris U Plus é um smartphone que vai ao encontro do consumidor médio, um consumidor que não anseia ter em mãos as últimas tecnologias do mercado, mas que não abdica de ter um telemóvel que responda em pleno as suas necessidades. A bateria e a câmara frontal são dois pesos fortes de escolha deste aparelho, que cumpre em absoluto com o que propõe. Agora é sair e correr com ele…

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100% Corrida Junho 2017  

Dois portugueses correram a -40º e sobreviveram; posso beber uma cerveja após o treino?; o desafio Breaking2 é positivo para a Corrida