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VOID#061 EDITORIAL/ ENTREVISTA C/ ALICE MARTINS LEITURA NÃO RECOMENDADA PARA MENORES DE 18 ANOS.

E VOA

ANO 06 / 2010 DISTRIBUIÇÃO GRATUITA

#061

NÓIS QU


INSHALLAH FOTOGRAFIA ALICE MARTINS ENTREVISTA POR PEDRO DAMASIO

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ALICE MARTINS GOSTA DE VIAJAR PELO MUNDO TIRANDO FOTOS. ATÉ AÍ TUDO BEM, QUEM NÃO GOSTARIA? SÓ QUE ELA TAMBÉM CURTE SE METER EM ALGUNS LUGARES UM POUCO MAIS INÓSPITOS DO QUE O NORMAL, COMO AS SAVANAS DA NAMÍBIA E, EM BREVE, A FAIXA DE GAZA. DÁ PRA ENTENDER ISSO? DÁ. Quem é você, de onde vem e do que se alimenta? Quem eu sou e do que eu me alimento são perguntas que eu faço todos os dias, e sempre encontro respostas diferentes! De onde venho? Ainda tenho minhas dúvidas. Quando escolhemos as fotos dessa matéria, você falou que precisava de um tempo pra digitalizar elas. Quer dizer que é tudo na película mesmo? Por quê? Sim. Eu sempre preferi usar filme. A textura é diferente. A atitude na hora de fotografar é diferente também. Eu vejo que, quando as pessoas fazem fotos digitais, acabam fazendo a foto antes e pensando depois. Pra mim isso não faz sentido. Gosto de ver a foto antes de clicar. Não é uma questão de tempo... claro que, quando se faz fotografia documental, é preciso ser ágil, ou o momento se perde. Mas eu preciso ver a foto na minha cabeça antes de clicar, mesmo que seja por um instante. Eu já percebi que as melhores fotos que eu fiz de uma pessoa ou lugar são aquelas que são únicas, e não parte de uma série. Pra mim uma boa foto vem de uma visão clara e de uma conexão real que eu faço com o personagem que eu fotografo, mesmo que seja por um instante. Não é uma foto em uma série de tentativas. Mas e aquele suspense de não saber se a foto ficou boa, especialmente se foi tirada em um lugar onde você não vai voltar tão cedo? Não rola nem uma cybershotzinha no bolso pra garantir? Confessa! 51


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Não, não rola uma cybershotzinha no bolso (pode revistar!). Eu curto essa expectativa, de não saber como a foto ficou. Também adoro esquecer as fotos que eu fiz, e daí, depois de ter os filmes revelados, viver aquela experiência de novo como se fosse inédita. Também acho que, assim como a luz ambiente e os movimentos que o personagem fotografado faz, as minhas escolhas na hora de selecionar o diafragma e a velocidade fazem parte da experiência. Eu sou bem desencanada com relação à técnica. Acho que vale experimentar. Lembro que, depois de um ano inteiro morando na África, eu ainda não tinha visto nenhuma foto que eu fiz lá. Não era fácil nem encontrar filme pra comprar, menos ainda encontrar um laboratório pra revelar, então decidi guardar tudo na geladeira (um eletrodoméstico de luxo, com certeza) e revelar as fotos só quando voltei pra Califórnia. O que eu mais curti foi ver uma foto que pra mim era a única que eu lembrava ter feito, a única que ficou na minha memória (fraca, diga-se de passagem) tão nítida quanto no momento em que eu cliquei... e quando eu revelei o filme lá estava ela, exatamente como eu lembrava. É uma foto em preto e branco de um casal que eu visitei na Namíbia. Até hoje uma das minhas preferidas. Falando nisso, deu pra perceber que você viaja bastante pra fotografar. Essa é a pilha principal, fotografar lugares e culturas diferentes? Sim. Eu sempre fui muito curiosa. Sempre quis saber como viviam as pessoas do outro lado do oceano. Quando eu tinha 9 anos, meu pai me deu uma câmera Kodak Instamatic que eu comecei a usar pra fotografar cachorros de rua... depois, com o tempo, minha atenção se voltou a pessoas que vivem uma realidade diferente da minha. Hoje eu quero usar a fotografia como uma ferramenta pra ajudar o mundo a conhecer melhor a si mesmo, e eu acho que isso começa quando a gente consegue se relacionar com pessoas e culturas diferentes das nossas. O maior barato pra mim é quando uma pessoa vê uma foto que eu fiz do outro lado do mundo, e olhando nos olhos da pessoa fotografada, sente como se estivesse lá. E de repente aquele estranho na foto não é mais assim tão estranho... Você também costuma fotografar o surf e o lifestyle de beira de praia. De onde veio isso? Eu sempre vivi perto do mar, mas não tinha entendido a importância dele na minha vida até me afastar dele, quando morei em Londres, e depois no meio das savanas na Namíbia.

Logo depois disso, eu voltei a morar perto do mar e comecei a surfar. Daí ficou claro pra mim que esse mundo é mais do que uma parte de quem eu sou, é minha essência. A paz e a sensação de conexão com a natureza que o surf traz pra mim são coisas preciosas demais pra serem experimentadas por uma minoria. Eu quero dividir isso com o mundo, seja através de fotos, ou através de projetos que ensinam crianças menos privilegiadas a surfar. Sempre que eu visito meu irmão no Rio de Janeiro e a gente passa pelo Complexo de Favelas do Alemão, na chamada Faixa de Gaza, me dá um gelo na espinha. Você tá indo pro lugar que deu origem a esse apelido. O que diabos você vai fazer por lá? Um grande amigo meu, o Matt Olsen, criou uma organização não governamental brilhante – a Explore Corps. O primeiro projeto dele foi o Gaza Surf Club – uma escolinha de surf feita pros jovens que vivem na Faixa de Gaza, que começou há uns 3 anos. O Matt sempre gostou das minhas fotos, e sempre disse que eu seria a pessoa perfeita pra visitar o projeto e fotografar. Então, sem pensar duas vezes, eu topei, e agora sou oficialmente a fotógrafa da Explore Corps. Agora finalmente tá chegando a hora de eu ir até Gaza visitar o projeto e conhecer o pessoal que participa, curtir umas ondas com eles e com certeza também visitar suas casas, conhecer as famílias, e quem sabe voltar de lá com algumas fotos que vão ajudar o mundo a conhecer melhor a realidade de quem vive na Faixa de Gaza e quer ser tão livre quanto a gente. Confesso que não entendo porra nenhuma sobre os conflitos entre israelenses e palestinos, por isso não vou forçar a barra com uma pergunta sócio-geopolítica-cultural-religiosa-yasser-arafat. A questão é: Se a bala começar a comer por lá, você sabe pra que lado correr? Boa pergunta...

E o que a sua mãe tá achando de tudo disso? Eu decidi contar por partes... “mãe, eu tô indo pra Israel.” Daí, quando eu vi que ela tava pronta pra ter um ataque histérico, eu resolvi usar a mesma tática que eu usei quando tive malária na África. Depois que eu voltar de lá ilesa, eu conto pra ela que fui.

Na edição passada, publicamos uma nota sobre o projeto de foto e vídeo Skateistan, que retrata o skate no Afeganistão. Vi num dos sites que você me passou que eles são parceiros do pessoal que está por trás desse projeto em Gaza. Que resultados esse tipo de iniciativa pode alcançar? A ideia é criar uma realidade dentro de outra. Seria inútil, como um pequeno grupo de pessoas bem intencionadas, tentar influenciar o governo ou mudar as crenças religiosas das pessoas, que tantas vezes causam conflito por lá. O que me faz acreditar e querer apoiar esses projetos é que a intenção (e o resultado que já pode ser visto) é ajudar as pessoas que vivem naquela realidade hostil a ter uma perspectiva diferente do mundo, e experimentar momentos de paz e liberdade em meio ao caos. Não tenho dúvida de que muitas crianças que estariam hoje segurando armas e treinando pra lutar agora estão ocupadas demais treinando uma manobra nova no skate ou nas ondas, e quando voltam pra casa dividem essa nova vibe com a família. Quanto tempo você vai ficar em Gaza e que tipo de souvenir você espera trazer pros seus amigos? O plano é ficar uns 2 meses por lá. O melhor souvenir que eu espero trazer é conscientização – pra agradecer todos os dias pela liberdade que temos, e pra lembrar que quem vive lá não pertence a outro mundo e nem mesmo a outra espécie... são como nós e também querem curtir a vida com paz e liberdade. Alguma chance de a gente publicar umas fotos aqui quando você voltar? Com certeza! Bom, só nos resta dizer boa sorte, boa viagem, boas fotos e que Alá (?), Maomé (?), Jesus (?), Tutancâmon (?), Mestre dos Magos (?), Yoda (?) e todos eles estejam com você! Obrigada, Mahalo, Inshallah! _ Info: www.alicemartins.com www.explorecorps.org www.gazasurfclub.com 53


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