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a compulsão da carne DOS ANIMAIS BOVINOS EDIÇÃO 1 | DEZEMBRO 2011

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a compulsão da carne

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a compulsão da carne

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paixão ou obsessão?

toda mania precisa ter limite


a compulsão da carne

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homens e o sexo frágil

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O VAI E VEM DO HUMOR

nonononononon nononononono

a cura por meio da fé

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o mundo paralelo dos esquizofrênicos

nonononononon nononononono

três décadas dedicadas à história

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fusca mania

nonononononon nononononono

renascer da intolerância

nonononononon nononononono

fanatismo político

nonononononon nononononono


mp

editorial a segunda edição da última pauta é fruto do esfor-

estrutura o padrão gráfico de uma revista que pretende

ço conjunto da turma de linguagem jornalística dos

ter vida longa, servindo como laboratório para os alu-

Meios Gráficos II. Produzida a muitas mãos, esta revista

nos de Jornalismo da Univates.

reflete as potencialidades de alunos e alunas que escolheram profissão na qual textos, fotos e legendas são

A produção textual da revista também contou com

utilizados como ferramentas para compreender o mun-

a participação de estudantes da disciplina de Técnica de

do e interpretar dados concretos da realidade.

Reportagem, ministrada pelo professor Leonel de Oliveira.

Como temática norteadora das pautas da revista, a turma optou por desenvolver matérias em torno daqui-

Boa leitura!

lo que é convencionado como MANIA E TRANSTORNO COMPORTAMENTAL. Neste amplo universo, assuntos

micael Vier behs

como fanatismo, esquizofrenia, tietagem, nosocome-

editor

fobia, neonazismo e bipolaridade ganharam a atenção desses futuros jornalistas. Eles apontam como determinados comportamentos podem afetar a vida cotidiana a ponto de serem tachados como doença. Também mostram como se redige um bom texto, se registra uma bela imagem e se

expediente Última Pauta é uma revista produzida pelos estudantes da disciplina de Linguagem Jornalística dos Meios Gráficos II do Curso de Jornalismo da Univates. Rua Avelino Tallini, 171, Bairro Universitário, CEP 95900000, Lajeado, RS, Brasil. Telefone + 55 51 3714 - 7000. COORDENADOR DO CURSO Leonel José de Oliveira PROFESSOR RESPONSÁVEL Micael Vier Behs

PROJETO GRÁFICO, DIAGRAMAÇÃO E CONTEÚDO Bruna Araújo, Camila Dal Pian, Carlos Vogt, Clarissa Jaeger, Daiane Meazza, Daniela Mallmann, Daiane Steffens, Ederson da Rocha, Éderson Käfer, Fernanda Galvão, Gabriel Raimundi, Giovane Weber, Iasmine Schwingel, Joyce Alves, Josiane Martini, Maica Ruppenthal, Marcelo Petter, Marcio Steiner, Melquisedec Junqueira, Morgana Schuh, Rafael Simonis, Renata Borba, Ritieli Krindges, Roberta Ruffatto, Silvana Giovanella, Tatiane Maldaner. IMPRESSÃO: Gráfica Lajeadense / 500 exemplares

Revista Última Pauta - Setembro/2011 5


a

sexo

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compulsão

da

carne

O vício em sexo pode destruir relacionamentos e colocar pessoas no limite da dor. O lajeadense Tadeu se rendeu aos males da compulsão sexo

carlos vogt e fernanda galvão

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“P

ego mulher bêbada saindo de festa ou aquelas que parecem mais sacanas mesmo. Já dei descaradamente em cima até de ‘brigadiana’, só não sei como não fui preso. Já transei no mato, em construção, no carro, no elevador, em estacionamento público, em banheiro de festa, no meio da pista de dança e em terreno baldio”. Se esse depoimento fosse do personagem Mark Sloan, de Grey’s Anatomy, ou de Jason Stackhouse, de True Blood, ou ainda de Hank Moody, de Californication, não seria de se espantar. No entanto, essas palavras não fazem parte do roteiro de nenhum desses seriados. Parece coisa de novela, mas não é. Essa realidade faz parte da vida do lajeadense Tadeu, 25, que convive com o vício desde a sua primeira re-

lação sexual, aos 15 anos. O que antes dava prazer agora o atrapalha. “Estou sempre na adrenalina, daí acumula serviço, trabalhos da pós-graduação. Acabo deixando a família e amigos na mão, porque marco as coisas, mas largo tudo para poder ‘curtir’”, desabafa. A escravidão sexual que afeta o rapaz foi o principal motivo para o fim de um relacionamento, no qual a namorada tomou a iniciativa de romper. Segundo a psicóloga de Lajeado, Susana Feldens, a compulsão por sexo pode ser comparada à dependência por cigarro, drogas, comida ou jogos. Estimar a frequência considerada patológica é impossível, pois a atividade sexual de cada pessoa é singular. “Só podemos afirmar que as atividades sexuais de uma pessoa que sofre deste distúrbio são consideradas acima do nível saudável,


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O macho perfeito

não admitir a necessidade de ajuda, qualquer tentativa de tratamento apresentará resultados inexpressivos”, considera. No geral, os viciados tendem a buscar ajuda no momento mais crítico da doença, quando já perderam o emprego e afetaram a família, alerta. Depois de aceitar o vício por sexo como um problema a ser tratado, o paciente precisará da ajuda da família e de terapia para vencer a compulsão. “É necessário um tratamento que dê noções de educação sexual e aconselhamento individual”, exemplifica a psicóloga, afirmando que em casos graves o uso de medicamentos pode ser a única saída para uma melhora efetiva do dependente.

a dupla identidade do sexo

Para a psicóloga Inácia Kasper, que atende em Arroio do Meio, há uma série de comportamentos que podem indicar o aparecimento do problema, como comportamento sexual promíscuo com inúmeros parceiros, consumo compulsivo de pornografia, prática de sexo inseguro, prostituição e exibicionismo.

CARLOS VOGT

pois tomam conta de sua vida como atividade principal”, garante. Quando isso acontece, explica, o sexo passa a impor barreiras à vida cotidiana do viciado, perturbando os relacionamentos familiares e no trabalho. Nesse estágio, porém, o sexo pelo sexo pode não proporcionar mais o prazer e o conforto buscados no ápice do ato. Na mente compulsiva esses “sintomas” de felicidade tornam-se cada vez mais escassos e incapazes de satisfazer o vício, obrigando as pessoas a transformarem o sexo em uma perigosa jornada em busca de prazer. “O que está em voga é apenas a realização e a busca pela satisfação de uma necessidade para aplacar uma angústia terrível e interna do sujeito”, constata Susana. Na revista TPM de maio de 2011, a neurocientista, Suzana Herculano, afirma que o problema do vício é acabar com a variedade dos prazeres. “Essa necessidade acaba virando uma bola de neve: você precisa cada vez mais de drogas para conseguir um efeito cada vez menor”, explica. Inúmeras consequências e complicações podem afetar quem sofre do problema. Doenças sexualmente transmissíveis, lesões físicas e nas áreas genitais estão no topo de uma lista indesejável, mas comum. Nas mulheres, a listagem segue com o risco de gravidez não planejada e aborto. “Sem falar nos prejuízos aos relacionamentos e aos parceiros temporários ou permanentes”, lembra a psicóloga.

Entre a população masculina o distúrbio é aceito como algo saudável e avaliado positivamente, explica Suzana. A patologia passa a ser a marca do homem considerado uma “máquina sexual” e incansável de prazer, o macho perfeito. “Isso dificulta a busca por ajuda, principalmente entre os mais jovens”, lamenta a profissional. Geralmente, a necessidade de uma intervenção médica desponta à medida que o jovem amadurece e percebe o sofrimento por trás de toda a gana por sexo. “Os parceiros podem ajudar quando auxiliam os compulsivos sexuais a ver estes atos como um problema e uma doença”, afirma Susana Feldens.

tratamento Os viciados em sexo sofrem graves distorções da realidade e justificam o problema em busca de desculpas para as suas ações. Ao mesmo tempo, retrata a psicóloga Inácia Kasper, os compulsivos por sexo têm grande resistência às abordagens terapêuticas. “Enquanto o doente

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duas formas de fanatismo político Pelo partido ou pelo candidato? Como cada cidadão admira e defende os ideais de seus representantes

partidário

Ederson da Rocha e Iasmine Sch�ingel

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or volta da década de 1970 prometi que, caso o meu candidato perdesse a eleição, usaria bigode por dez anos como forma de protesto pela derrota”. Este fato inusitado oferece uma noção do tamanho da paixão do agricultor Enio José de Souza, 69 anos, pelo Partido Progressista (PP), que ao longo de uma década usou bigode como penitência pelo fracasso da legenda no pleito eleitoral da época. Vereador de Paverama por cinco mandatos consecutivos - 1988 a 2008 -, o morador da comunidade de Posses, interior do município, afirma que é fã de política desde criança. “Com onze anos eu já ficava escondido atrás das paredes escutando meu pai, meu avô e meus tios falando sobre a política de Taquari, do Estado e do Brasil”, lembra o ex-vereador, completando que jamais esquece o orgulho que sentiu quando votou pela primeira vez, em meados de 1962. Após a ditadura, o partido que defendia, a Aliança Renovadora Nacional (Arena), transformou-se em Partido Social Democrata (PSD) e, mais tarde, em Partido Pro-

gressista (PP). Mesmo assim, Enio manteve sua posição filosófica cada vez mais forte. A principal justificativa é a linha de diretrizes defendida pelo partido e as propostas dos candidatos. “Os políticos antigos do meu partido sempre cumpriam com seus projetos, mantendo firmes os propósitos previstos no estatuto da sigla”, explica. O ex-parlamentar mostra com orgulho os santinhos com os quais concorreu nas eleições municipais, além do certificado de vereador. Enio destaca que seu amor pelo PP contagiou também seus três filhos e os três netos, que também priorizam a sigla. “Eles sempre me acompanharam e seguiram minhas orientações. Acredito que um homem de prestígio precisa se posicionar na sociedade e ter pensamento político formado”, afirma.

Enio de Souza é apaixonado pelo partido progressista

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A influência da figura política Fanático pela figura política do ex-presidente Lula, o eleitor João Cláudio Brandão, de Fazenda Vilanova, não mediu esforços para auxiliar o ídolo a angariar votos em todas as eleições disputadas pelo então candidato petista. “Eu comecei a admirar o Lula quando vi que as suas propostas poderiam melhorar o Brasil”, comenta. Ele afirma que ficava impressionado com o modo como o sindicalista se expressava. “O Lula falava o que eu sentia e, por isso, me emocionava ao ver que aquele homem também havia sido pobre”, salienta. Brandão iniciou sua trajetória política concorrendo a vereador pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) em Fazenda Vilanova, no ano de 2004, mas não obteve êxito. A partir daí, passou a avaliar as ideias dos candidatos e a lutar para que conseguissem a vitória. Nas derrotas do Lula ficava triste, mas não deixava se abater. “Na eleição seguinte eu pensava: vamos de novo!”. Quando o metalúrgico venceu o pleito para o seu primeiro mandato, o eleitor ficou extremamente feliz. “Foi como se eu mesmo tivesse ganhado”, destaca. Ele conta ainda que quando o assistia na televisão, ou ouvia o candidato no rádio, se arrepiava com os discursos empolgantes do petista. “Se Lula me pedisse R$ 1 mil para a campanha, eu daria para ajudar a ganhar a eleição. Eu sempre me engajo nas campanhas do Lula , pois sei que cada voto que eu conquistar pode fazer a diferença”, acrescenta Brandão, que chama o ex-presidente de “padrinho”, diante de tamanha admiração pelo político. Apesar de gostar do Partido dos Trabalhadores (PT), o morador vilanovense admira mesmo é o político Luiz Inácio Lula da Silva. Isso se confirma na cidade onde

EDERSON DA ROCHA

João Brandão é fanático pelo presidente Lula

mora, pois Brandão não é militante do PT, mas apoia incondicionalmente o atual prefeito, José Luiz Cenci, filiado ao Partido Progressista (PP). “Desde que conheci o trabalho do Cenci vi que era bom administrador e, por isso, resolvi fazer campanha para ele”. Sobre Lula, nunca o encontrou pessoalmente, mas se isso acontecer ele já sabe o que vai fazer. “Se um dia encontrar com o Lula eu choro”, completa.

o fanatismo é irracional

Para a psicóloga especialista em análise de comportamento, Enedir da Rocha, o fanatismo leva o homem a agir como um ser irracional. Enedir acredita que o fanático é incentivado a perder o bom senso e a noção da realidade. “Este sentimento retira por completo o poder de discernimento e dá uma visão totalmente distorcida do mundo, levando a pessoa a usar frequentemente o argumento da calúnia, difamação, mentira, inversão de fatos, apenas para atingir seus mesquinhos objetos de adoração”, explica. Segundo ela, o fanático político não percebe que impõe suas opiniões aos outros. “Ele acredita somente naquilo que acha que é verdade”, observa. “Conversar com um fanático é difícil. Não existe diálogo, pois ele sempre tem razão e a última palavra é a dele”, acrescenta a psicóloga, que considera o fanatismo doença. “Muitas vezes o fanático acaba sendo usado e, ao mesmo tempo, se condiciona a este tipo de comportamento, acreditando que esta situação seja normal”, conclui.

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o renascer da

intolerância

A admiração pelos ideais de Hitler ainda atrai jovens

Marcelo Petter e Silvana Giovanella

Sexta-feira, 9 de Outubro de 1942

neonaZismo

Querida Kitty! Hoje só te posso dar notícias tristes e deprimentes. Os nossos amigos e conhecidos judaicos são deportados em massa. A Gestapo trata-os sem a menor consideração. Em vagões de gado leva-os para Westerbork, o campo para judeus. Conta-se que as pessoas dormem em barracas, homens, mulheres e crianças, todos misturados. Não podem fugir: quase todos se podem identificar pelas cabeças raspadas ou então pelo seu tipo judaico. Se já na Holanda as coisas se passam deste modo, como há de ser então nos sítios longínquos para onde levam essa gente? A emissora inglesa fala de câmaras de gás. De qualquer forma talvez seja a câmara de gás a maneira mais rápida de se morrer... Amenizar a morte (O Diário de Anne Frank)

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sse não é um pensamento típico de uma menina de 13 anos, mas era o que se passava na cabeça da adolescente Anne Frank, conforme registrado em seu conhecido diário. Fiel companheiro nos dois anos em que permaneceu escondida com a família em cômodos secretos de um prédio em Amsterdan, o diário relata os horrores perpetrados pelos nazistas na parte final da 2ª Guerra Mundial. Isso até a morte de Anne Frank por tifo, no campo de Bregen-Belsen, semanas antes da libertação pelas tropas britânicas. Sob o domínio da doutrina racista do III Reich, pelo menos 7,5 milhões de pessoas perderam a vida e a dignidade nos campos de concentração. Destes, cerca de 6 milhões eram judeus. O que não impediu que fossem massacrados também ciganos, negros, homossexuais, comunistas e doentes mentais, uma vez que a política anti-semita impunha que aqueles que não possuíssem o mais “puro” sangue ariano não deveriam ser tratados como humanos.

Ao término do Holocausto, jamais se imaginou que alguém pudesse reacender ou ainda idolatrar os métodos adotados por Hitler e seus seguidores. Havia a certeza, sim, de que era impossível mudar os rumos da história e de que o legado nazista serviria como lição para que doutrinas como essa não mais ganhassem projeção no futuro. Ledo engano. Sob a efígie da velha suástica e à sombra da ilegalidade, o número de simpatizantes e ativistas da política comandada pelo Führer cresce de forma preocupante. Segundo a professora e historiadora Maribel Girelli, o “novo nazismo” se dispersou pelo mundo. Partindo da Alemanha chegou à França, Inglaterra, EUA e Brasil. Reconhecidos por suas práticas racistas, nos Estados Unidos e Europa os neonazistas acrescentaram à sua lista de perseguidos os imigrantes estrangeiros, considerados responsáveis pela disseminação de problemas sociais, a exemplo do desemprego, ralata a historiadora.

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a herança da sombra do mal Morador de Palhoça, SC, J.F.W., 17 anos, estuda, tem emprego, vem de uma família de classe média e tem acesso a maioria das fontes de informação. Admirador de Hitler e integrante de “gangues neonazistas”, ilustra em suas páginas nas redes sociais fotos e vídeos idolatrando o III Reich e o seu comandante. Apesar da pouca idade, o rapaz diz que a admiração pelo nazismo é antiga e inspirada na história do avô, que lutou na 2ª Guerra ao lado das forças germânicas e de quem herdou fotos e objetos. Como a maioria dos casos que envolvem transtornos comportamentais, ele e seus confrades acreditam piamente nos preceitos herdados e se julgam bastiões da moralidade e de raça superior. O jovem exemplifica que atualmente, no Brasil, a lista de alvos se resume a judeus e homossexuais. “A primeira coisa é acabar com esses homossexuais. Imagina você passeando e vê dois caras se beijando! É nojento”, afirmou o jovem neonazista que teve sua identidade preservada em conversa on-line via Messenger. Segundo o menor, existem gangues neonazistas em todas as partes. No entanto, elas pouco aparecem já que os seus membros se protegem e mantêm a identidade na obscuridade. Não existe uma convocação por parte do movimento, mas o próprio interessado é que procura uma forma de ser aceito na organização. Todo “neo” deve ter o seu próprio exemplar de “Mein Kampf” (Minha Luta), considerado a “bíblia” de Hitler. O material de divulgação do movimento, ao contrário do que se pensa, é produzido em gráficas legalizadas. “Mediante marcelo petter

Jovem possui vários livros sobre o nazismo e a história de Hitler

pagamento, as gráficas imprimem o que você quiser”, argumenta J.F.W, não sem antes afirmar que existem pessoas de todas as classes e idades envolvidas, inclusive políticos com mandatos estaduais e federais. Para a psicóloga Maria Helena De-Nardin, estamos vivendo um momento histórico perigoso e complicado do ponto de vista das novas formas de existir na contemporaneidade. Há genocídios em toda a parte e, sobretudo, eles estão se naturalizando. “Acho que precisamos colocar algumas questões a respeito do sujeito deste mundo, onde o sofrimento ganha contornos de desalento”, afirma. O que se gera desse fenômeno é uma intolerância exacerbada às diferenças, cada qual se autointitulando o portador da verdade absoluta. Na avaliação de De-Nardin, a forma fundamental para sermos incluídos na sociedade é através do reconhecimento dos nossos talentos e da capacidade de trabalho, o que faz com que o jovem de hoje seja assombrado pela falta de perspectivas. Resta saber até que ponto essa falta de perspectivas tem o poder de manter acesa a chama de conceitos e doutrinas comprovadamente nocivos a uma sociedade sobrecarregada de informação e carente de bons líderes.

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TATIANE MALDANER

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Fusca Mania

Você pensa que o fusca é um carro ultrapassado, sem estilo, dos tempos da sua avó? Para muitos jovens e adultos o fusquinha merece as mordomias de um carrão importado

paixÃo de Época

Tatiane Maldaner e Daiane Meazza

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ano era 2000. Na cidade de Estrela, interior do Rio Grande do Sul, o jovem Paulo Sehn, na época com 17 anos, teve um caso de amor à primeira vista com o fusca adquirido pelo pai Ernani. O fusca era antigo – 1971 – motor 1500, azul diamante, ainda original de fábrica. A paixão pelo carro do pai era tão intensa que ao fazer a carteira de habilitação, Paulo decidiu comprar sua própria relíquia.

uma paixão que virou hobby Em 2005, Paulo encontrou um fusca ano 1965 em uma estrebaria em Boa Esperança, interior de Cruzeiro do Sul. A informação de que o veículo estava no local foi repassada por um amigo conhecedor de sua paixão. Paulo, porém, não sabia em que estado de conservação estava o veículo. Ao chegar na estrebaria descobriu que o fusca, na verdade, servia como poleiro de galinhas e depósito para pastos e bovinos. O carro estava parado há três anos desde o faleci-

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mento do antigo proprietário. Após levantamento prévio, Paulo se preparou para buscá-lo levando consigo ferramentas, gasolina, bateria, óleo e peças de reposição. “As rodas estavam enterradas no chão e, com todo cuidado, o colocamos para fora da estrebaria”, relata. O fusquinha, que Paulo chamou de “Meia5”, custou R$ 1,1 mil. Mas a brincadeira só estava começando. Iniciava naquele momento uma busca incansável por peças originais do ano dessa categoria. algumas delas paulo comprou em lojas e desmanches, porém a maioria foi adquirida via internet proveniente de vários lugares do país. Essa foi a parte mais complicada da rest a u r a ç ã o , pois as peças originais da época custam muito se comparadas às paralelas que estão disponíveis nas lojas do segmento. Enquanto uma sinaleira trasei-


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ra comum custa R$6,00, a original passa de R$100,00. “Isso se conseguir encontrar exatamente o modelo da época”, comenta. O carro pode estar ultrapassado, mas a história preservada é única. “Eu parei de somar o gasto com o “Meia5”, quando estava em R$16 mil. Decidi que, por ser meu hobby, este não poderia ter preço”, explica. Hoje Paulo é proprietário dos fuscas Meia5, Sete1, de uma Kombi Luxo 1972 chamada de MaryJuana e de um fusca – 1986 – número 229 dos 850 da série especial, o xodó da coleção. Estima-se que ainda restam menos de 70 unidades no mundo. Outro idêntico a este está no museu de Wolfsburg, na Alemanha. por serem de uma edição limitada que representou o fim da produção do fusca no Brasil, poucos foram comercializados e a maioria foi oferecida como presente pela Volkswagen do Brasil aos proprietários das revendedoras. Hoje, muitos estão guardados em lojas da Volkswagen como recordação da história do Fusca. O antigo proprietário da revenda de Estrela, Pingo Hessing, expõe o seu exemplar ainda zero quilômetro na vitrine da antiga concessionária.

“Gastei mais de R$ 16 mil no fusca Meia5”

Um fusca pra lá de meigo Todo exibido ele circula pelo centro de Putinga. Os comentários vão desde “que bonitinho” até “eu jamais entraria nesse carro”. Mais do que um fusca, ele é um fusca cor de rosa. Do dia para a noite a comerciante Mari Rebelatto decidiu que queria ter um fusca. Com a aprovação do marido, saiu em busca do carro que havia passado a fazer parte dos seus sonhos. Não demorou para que encontrasse um fusca 1972. Complicado foi a reforma do veículo e a adaptação das cores. Como se não bastasse querer um fusca todo em rosa, Mari ainda queria dois tons. “Eu queria uma mistura de rosa pink e rosa bebê e foi difícil conseguir a aprovação para regularizar a documentação”, Em 2008, com o documento do veículo em dia e as chaves em mãos, Mari virou a mais nova atração da região. “Por onde eu passo, as pessoas me abordam para ver o fusca e fazer perguntas sobre ele”, comenta. Hoje o fusca é o xodó da garotada da cidade e da região. “Sempre tem alguém aqui pedindo o fusca emprestado para dar uma volta”, fala.

DAIANE MEAZZA

O fusca adaptado em rosa é o sonho realizado de Mari Rebelatto.

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ROBERTA RUFFATTO

Baú de lemBranÇas

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três décadas dedicadas à História Funcionário preserva o passado por meio de acervo com mais de mil peças Roberta Ruffatto e Joyce Alves

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iquidificador de 1963, peças de cerâmica indígenas e documentos oficiais. O ambiente que facilmente poderia ser confundido com um museu é a casa de Navarro Zonta, mestre na arte de colecionar antiguidades. A paixão nasceu na infância. “Cresci cercado de casarões e objetos antigos que eram preservados pela minha família. Isso fez com que eu quisesse me aprofundar na história”, lembra. Navarro conta que o pai, Clóvis, foi um grande incentivador de seu hobby. O acervo começou aos poucos. “Com seis anos ganhei o primeiro objeto, um telégrafo. Um banco da cidade estava se desfazendo de objetos antigos e o telégrafo iria para o lixo, então meu pai o resgatou”, diz. O colecionador classifica seu hábito como uma paixão pela história, e não uma mania. “Posso dizer que é um vício, mas tenho controle sobre ele, não sou escravo, apesar de já ter me sentido assim no passado”, relata. Muitos de seus amigos discordam. Para Uilian Ghelen, o colecionador exagera em determinados momentos. “Também tenho interesse por peças antigas, mas ele se interessa por qualquer coisa e, às vezes, chega a ser demais”. Ricardo Marchese compartilha a opinião. “Acho que é uma mania, mas algo bom. O trabalho


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dele é uma forma de preservar a história”, afirma. Já para Sirlei Mignoni, Zonta adquiriu um costume que foi incentivado pela família. “Não acho que chega a ser uma mania, apenas uma forma de reviver o passado”, aponta. O sonho de Navarro é ter um local especial para guardar suas relíquias. “A minha ideia é espalhar tudo pela casa, como objetos de decoração. O velho misturado ao moderno, isso me encanta”, comenta.

uma paixão sobre rodas Zonta conta com um vasto acervo sobre veículos, que começou com cópias de livros e documentos. “Comprava e lia manuais dos mecânicos de concessionárias que estavam fechando e isso me deu conhecimento”. Uma de suas grandes paixões é o Landau 79. “Ele tem direção hidráulica, vidros verdes e câmbio automático. Foi adquirido em 1998 e não o vendo por nada”, conta.

Vencendo o preconceito O fascínio pelo antigo já rendeu incômodos a Zonta, principalmente quando era criança. “Nas excursões da escola, quando o ônibus parava e a turma saia para lanchar, eu corria e comprava latas de óleo. Quando a professora questionava onde eu estava, sempre tinha um colega que dizia: o Navarro está comprando porcaria”, recorda. Aos poucos o pensamento das pessoas foi mudando e hoje o funcionário público recebe reconhecimento pela bagagem histórica e cultural acumulada ao longo destes 30 anos. “As pessoas precisam aprender a dar valor, saber que gostar do antigo e da história não significa que eu viva como no passado, e sim que preservo e busco levar adiante a história”, desabafa.

o acervo O acervo já ultrapassa mil peças. Objetos que pertenciam à sua família são a maioria. Zonta foi presenteado com uma bíblia de 1856, escrita em italiano. “Uma senhora, que morava perto da casa de minha avó, faleceu e na partilha dos bens sobrou a bíblia e uma de suas netas que conhecia meu interesse por objetos antigos resolveu me presentear”, lembra. Outro objeto que chama a atenção é uma enciclopédia de 18 volumes, escrita a punho por um alemão. Os livros acompanham certificado de autenticidade. “Encontrei as obras por acaso em um antiquário de Porto Alegre. Ao folhear um dos livros encontrei o certificado e, para a minha surpresa, o documento mostrava que a enciclopédia era destinada ao ex-presidente Getúlio Vargas”, conta. Mas o seu “xodó” é um Rádio Eletrolaplayer, herança da avó. O toca disco encanta pela sofisticação e por ainda funcionar perfeitamente. “Com ele podemos ouvir a programação de emissoras de vários países, inclusive do Vaticano”, explica entusiasmado. Todo o acervo está em perfeito funcionamento, inclusive o liquidificador fabricado em 1963. “Gosto de ter tudo funcionando originalmente e se precisar de uma peça mando buscar fora, pois quero os meus objetos preservados e em boas condições”, enfatiza. JOYCE ALVES

Toca discos é o xodó de Zonta

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o mUndo paralelo dos

esquizofrênicos O estigma da loucura é o que se quer superar

saúde mental

Clarissa Jaeger e Ritieli Krindges

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das à academia, ao mercado, à missa e a outros tantos lugares tornam a doença de Eduardo quase que imperceptível aos olhos de quem cruza pelo caminho do jovem de 24 anos. Sua suposta antipatia, muitas vezes momentânea, talvez possa causar desconfiança, mas apenas parentes e amigos sabem da superação que é inserir-se na sociedade como alguém considerado normal. Eduardo da Silva (pseudônimo utilizado por solicitação familiar) sofre de esquizofrenia desde os 16 anos. Morador da pequena cidade de Estrela, localizada a 120 quilômetros da capital gaúcha, Porto Alegre, encontrou na culinária e na companhia do cachorro Totó motivos para superar os surtos psicóticos. A família não sabe ao certo quando tudo começou, mas as investigações acerca das mudanças comportamentais iniciaram-se com uma porta quebrada. “Ele andava muito violento, mas pensávamos que estava estressado. Até que um dia chegamos em casa e encontramos uma das portas quebradas e muitos objetos espalhados”, relembra a mãe, Helena. Já tendo criado dois filhos, desconfiou do desenvolvimento do caçula durante a infância e adolescência, pela sua dificuldade em acompanhar os colegas nos conteúdos escolares e no humor que passou a oscilar. Atualmente, o Centro de Atenção Psicossocial (Caps), localizado no município desde 2002, é o local onde Eduardo recebe acompanhamento para sua inserção na sociedade, visto que o isolamento é um dos principais sintomas apresentados por esquizofrênicos. Foi lá que o diagnóstico para a doença foi descoberto.

indicações na infância Coordenadora do Caps local, a enfermeira Débora Martins explica que a esquizofrenia costuma apresentar determinados sintomas desde a infância. “Quando atendemos um jovem no surto e vamos investigar sua história, descobre-se que desde pequeno esse paciente apresentava sinais de tristeza e isolamento”, afirma. Déficit de atenção ou hiperatividade são outros sintomas comuns presentes nas crianças que vão desencadear a esquizofrenia. No caso de Eduardo, os primeiros sintomas começaram na infância, mas ainda não diagnosticados. A idade em que a doença se manifesta varia muito. De acordo com a enfermeira, geralmente a primeira crise ocorre no início da idade adulta. “Não tem como determinar quando isso vai acontecer. Aqui no Caps temos um paciente de 17 anos, mas também pacientes que beiram a casa dos 60 e que precisam de acompanhamento”, conta Débora.

Incertezas no diagnóstico Não há um exame que diagnostique precisamente a esquizofrenia. Ele é feito a parir do conjunto de sintomas que o paciente apresenta, levando em consideração sua história e evolução. “Normalmente, depois de meio ano apresentando características psicóticas é possível diagnosticar o paciente como esquizofrênico. Até então, a pessoa é tratada de acordo com os sintomas”, explica Débora. A família de Eduardo investiu em remédios e médicos a procura de um diagnóstico que não aparecia. As


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mitações, mas o diagnóstico de esquizofrenia pegou todos de surpresa. “Não sabia se sentia raiva ou pena, não sabia nem o que fazer. Eu rezava muito”, fala a mãe, que é católica e muito participativa nas atividades da igreja. É comum que os familiares neguem a doença, partindo em busca de outros diagnósticos. Conforme a assistente social que acompanha a família, Lori Maria Braun, nesse meio tempo o quadro muitas vezes se agrava. “É o tempo que retarda o início do tratamento”, lamenta. Segundo o psiquiatra Jose Alfredo Bergesh, a família do portador de esquizofrenia deve participar do tratamento, através da chamada psicoeducação, conhecendo a doença, seus sintomas e características, bem como o medicamento receitado, auxiliando no atendimento ao paciente.

lágrimas já não são mais contidas ao relembrar o sofrimento que toda a família passou com as incertezas que surgiam. “O Dudu piorava a cada dia. Eu já não conseguia segurá-lo e meus filhos mais velhos tinham que ajudar antes que alguém pudesse se machucar”, conta Helena. Foi um parapsicólogo portoalegrense que desconfiou da doença, mas somente após frequentar o consultório de cinco médicos passou a ir ao Caps, quando então descobriu o paradeiro das mudanças comportamentais.

Negação é comum Tanto os pais e irmãos quanto os demais parentes e pessoas que convivem com Eduardo sabiam de suas li-

Dificuldades vivenciadas

esperanças com o tratamento Frequentando o Caps, Eduardo participa de oficinas, conta com o acompanhamento de uma equipe multidisciplinar e ganha do centro a medicação necessária para controlar os surtos. Todo esquizofrênico toma diariamente medicação antipsicótica. “É possível reconhecer um esquizofrênico pelo andar. É meio retraído, duro, como se as articulações tivessem travadas. Esse é um dos efeitos da medicação”, coloca Lori. Para Bergesh, o portador de esquizofrenia pode levar uma vida normal, com poucas limitações, desde que siga corretamente o tratamento indicado pelo médico. “O maior problema é o estigma que a doença traz. O estigma da loucura está sempre presente”, afirma o psiquiatra.

Clarissa Jaeger

Facas, cordas e materiais cortantes estão longe do alcance do jovem. “Ele já tentou me acertar com uma faca, já aconteceu de os vizinhos chamarem a polícia e, uma vez, até deixamos ele trancado em casa até que a crise passasse”, relembra o pai. A doença pode estar controlada, mas o futuro de Eduardo é algo que inquieta os pais. Segundo Bergesch, a esquizofrenia é como diabetes: precisa ser tratada para sempre. No Brasil, a doença atinge 1,8 milhão de pessoas. Para o pai do jovem esquizofrênico, a negação só atrapalha. “Meu filho não é o único a ter essa doença. A aceitação e o conhecimento de todos é o primeiro passo para essas pessoas terem uma vida o mais normal possível”, desabafa Adeli.

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a cura por meio

da fé

BenZedeiros

Eles garantem tirar a dor ou o mau-olhado com um simples toque ou gesto

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c

ultuados pela crendice popular, os benzedeiros ainda representam a salvação para quem confia nos seus poderes. Mas como uma simples oração ou gesto pode ajudar a curar? Na explicação dos próprios curandeiros, a razão da eficácia está na fé. Deles e de quem os procura. As rezas e benzeduras ocupam lugar de destaque na cultura popular por serem praticadas a fim de se curar males do corpo e da alma. Não são praticadas por médicos e o local clássico dos consultórios, nesses casos, é substituído pela própria casa do benzedeiro. Os instrumentos de trabalho são basicamente três: objetos como facas, tesouras, ramos e terços manuseados com movimentos sobre o doente; a voz que sussurra as rezas; e o mais importante: a fé que move montanhas. É assim que essa crença popular persevera e ultrapassa o tempo. Forquetinha e Lajeado são cidades que mantêm viva essa cultura. Os dois municípios possuem benzedeiros que, até hoje, se valem dessa misteriosa arte de curar. Lorena Nicolai, de Bauereck, interior de Forquetinha, atende em casa e diz ter aprendido a arte de benzer com o pai há 30 anos. De acordo com a benzedeira, uma das curiosidades é que aos domingos não se deve benzer, pois é um dia neutro. Ela revela que seu pai a ensinou que essa tradição só pode ser passada de homem para mulher ou vice-versa. Contra o mau-olhado, a benzedeira conta uma de suas orações: “Quebrante e mau-olhado com dois te pusestes. Com três eu tiro. Com o poder de Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo. São as três pessoas da Santíssima Trindade que é Pai, Filho e Espírito Santo.” Lorena se entristece ao ver essa tradição acabando aos poucos. “Vai de mal a pior.”

Giovane Weber e Rafael Simonis

um homem que acredita no poder de deus Paulo Darci Nunes Muniz, 55 anos, mora no bairro Bom Pastor, em Lajeado, e utiliza objetos curiosos para a prática da benzedura. Ele se vale das meias da própria pessoa que está sendo benta para tirar espinho da garganta e brasa de carvão para benzer contra o mau-olhado. “Coloco um copo de água e três brasas. Rezo com as brasas. Se as três afundarem é porque a pessoa está com muito mau-olhado”, esclarece o benzedeiro. Muniz aprendeu as rezas com sua avó, que atuava como curandeira. “Eu era muito curioso e minha avó sempre rezava alto. Comecei a benzer com nove anos.” Além dos males citados, Muniz menciona que benze, inclusive, para impedir que aconteçam chuvas fortes. “Eu ponho a mão e a chuva não vem”, diz o benzedeiro, que revela uma de suas rezas que, para fazer efeito, precisa ser dita três vezes seguidas: “Deus vos salve lua nova. Três coisas vou lhe pedir. Me livre de dor de dente, fogos ardentes e língua de mal gente.” Entre os fatores que fazem perseverar essa tradição ao longo do tempo destacam-se os testemunhos de pessoas que foram curadas. É o caso do agricultor Natalício Noll, 42 anos, de Chapadão, interior de Santa Clara do Sul. Ele assegura que foi curado de uma coceira depois de ter sido bento. “Consultei nove médicos e não obtive resultado. Após duas sessões de benzedura, estava curado”.


GIOVANE WEBER

mp

cuidado! o médico cardiologista andré antunes, formado na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista pelo Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), destaca que a medicina tem, há milênios, conhecimento do efeito da mente sobre doenças do corpo. “Antigamente os que trabalhavam com cura eram chamados de ‘sacerdotes ou sacerdotisas’, e usavam práticas que se assemelham à hipnose.” As doenças simples, de fundo emocional, poderiam melhorar ou curar em alguns casos, e isso vale até hoje. Entretanto, Antunes não acredita que as rezas e benzeduras possam ser um aliado na cura de certas doenças e alerta que a obsessão pela cura por meio da Aos nove anos, Muniz aprendia o ofício com a sua avó, o qual se tornou uma de suas principais fontes de lucro

fé pode ser fatal. o cardiologista reconhece a importância da fé, mas afirma que todo paciente precisa procurar orientação médica e não depender apenas da medicina popular para buscar a cura de seus males. Segundo Antunes, se

saiba mais - Nunca benzer no domingo, pois é um dia neutro. - Para mau-olhado, deve-se benzer a pessoa ou a roupa em frente à porta aberta para levar o mauolhado embora. - Sempre benzer antes do pôr-do-sol. - Nunca agradeça ao benzedeiro(a) pela prece. Agradeça a Deus. - O correto é benzer três dias seguidos. Se o problema não for curado, faz-se a benzedura seis vezes. Se precisar mais uma tentativa, faz-se nove dias seguidos. - As orações só são passadas adiante para pessoas escolhidas pelos próprios benzedeiros.

for um problema de fundo puramente emocional, o tratamento psicoterápico com médico ou psicó-logo poderá surtir uma cura mais definitiva, sem recaídas e riscos. O psicólogo e professor da Universidade Federal de Santa Maria, Alberto Quintana, estuda crendices populares. Para ele, no momento em que se atribui a causa de um problema ao mauolhado, a fé surge como alternativa de solução. “É uma questão emocional que, bem trabalhada, pode ajudar a pessoa a dar um novo sentido a sua vida. E isso reflete na cura de certas doenças.”

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o Vai e Vem do Humor Melquisedec Junqueira e Gabriel Raimundi

Bipolaridade

“...E por você eu largo tudo. Carreira, dinheiro, canudo Até nas coisas mais banais Prá mim é tudo ou nunca mais...”

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o

exagerado, Cazuza personifica o chamado comportamento bipolar. O quadro da bipolaridade tem como característica uma reação de modo incompatível ou exagerado a uma determinada situação. O transtorno ou distúrbio bipolar é uma doença emocional caracterizada por variações extremas de humor. O bipolar tem momentos de melancolia e outros de euforia excessiva. Durante as crises, pode sofrer de depressão profunda, com tristeza acentuada, desânimo, pensamento lento, ideias exageradamente pessimistas e, em casos mais graves, tendências suicidas. Já na fase de euforia extrema, apresenta humor exaltado, desinibição social, aceleração do pensamento, manifestações de impulsividade e pode abusar de álcool, drogas e jogos, além de passar a gastar dinheiro de forma excessiva. O que se percebe ao lançar um olhar crítico sobre o tema é que os médicos e demais profissionais da área estão ainda se adaptando a uma nova maneira de encarar a bipolaridade. Este novo olhar mexeu com um conceito médico já consagrado: a depressão e os antidepressivos.


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antidepressivos Largamente receitado nos dias de hoje, os antidepressivos podem não ser a melhor indicação quando a depressão está associada a um quadro de bipolaridade. Este é o caso da estudante Aline (nome fictício) do curso de Comunicações Social da Univates. Ela conta que conviveu com o distúrbio bipolar durante a adolescência e que as mutações do humor criaram um obstáculo para as relações sociais. “Sabia que era bipolar, por isso me afastava das pessoas com medo de ser chamada de maluca”. Ela iniciou o tratamentocom antidepressivos e, atualmente, faz apenas acompanhamento psicológico. “Aprendi a conviver com isso, mas continuo com o tratamento porque sei que é uma doença ainda sem cura”. O diagnóstico de bipolaridade, em geral, é de difícil percepção e leva bastante tempo até ser encontrada a medicação, se for o caso. Dife-rente da depressão comum, conhecida como distúrbio unipolar, a bipolaridade deve ser tra-tada com fármacos chamados de reguladores de humor. Este diagnóstico e a prescrição de remédios devem ser feitos por um médico psiquiatra. Para a psicóloga Cynara Balbinot Arenahrt, a medicação é importante para superar os momentos de crise, mas defende que a psicoterapia é fundamental. “Não vejo como tratar distúrbios como a bipolaridade sem o devido acompanhamento psicoterápico”. Para a psicóloga, cuidar as emoções é mais do que corrigir possíveis desequilíbrios químicos. “A mente é muito mais”. Ao contrário de outras enfermidades em que a medicação pode ser usada de forma direta e objetiva (visão organicista), nos cometimentos psicológicos lidamos com as peculiaridades do ser. Cynara frisa que entre os profissionais de psicologia existe uma convicção de que o tratamento pela palavra é insubstituível.

casos famosos Linda Hamilton, a Sarah Connor, da série de filmes “O exterminador do futuro” é bipolar e passou anos sem o tratamento adequado. Em entrevista à revista Veja de dezembro de 2005, a atriz conta como passou mais de dez anos sendo tratada apenas para a depressão. “A dificuldade da detecção da doença se dá pelo fato de ninguém ir ao psiquiatra por estar se sentindo extremamente bem. O paciente só busca auxílio nas fases depressivas, desconsiderando os momentos de euforia”, relata a atriz. Matéria veiculada no site G1 de 16 de abril traz a notícia que a atriz Catherine Zeta-Jones, de 41 anos, buscou tratamento para transtorno bipolar após lidar com a batalha do marido michael douglas contra um câncer. “Depois de lidar com o estresse do ano passado, Catherine tomou a decisão de dar entrada numa clínica de saúde mental para uma breve estadia para tratar um transtorno bipolar II”, informou Cece Yorke, empresário da atriz. A bipolaridade é coisa séria, uma doença e, por isso, deve ser tratada como tal. O tratamento é variável, e a aceitação da doença pelo paciente e pela família tem que ser o primeiro passo. Juntamente com o acompanhamento psiquiátrico e psicológico correto, o bipolar pode ter uma vida tranquila e semelhante à de qualquer pessoa.

Há registros de outros famosos sabidamente portadores deste transtorno de humor. Alguns nomes citados como exemplos através de análise de suas obras e personalidade são: Agatha Christie, Virginia Woolf, Ernest Hemingway, Fernando Pessoa, Axl Rose (vocalista do Guns n’ Roses), Kurt Cobain (exvocalista do Nirvana), Elvis Presley, Janis Joplin e Jimmy Hendrix, Tchaikosvky, Mozart, Maria Callas, Robin Williams, Jim Carrey, Marilyn Monroe, Elizabeth Taylor, Vincent van Gogh (revelados inclusive pela intensidade das cores de seus quadros), Platão, Isaac Newton, Winston Churchill, Abraham Lincoln e Ulysses Guimarães.

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tpm

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Homens e o

sexo frágil

Eles têm maior dificuldade em lidar com a TPM Bruna Araújo e Daiane Steffens

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e

la chega de repente, afeta o humor feminino,

desde a prática de esportes até hábitos alimentares,

causa irritabilidade e até ataques de choro. Com

como a redução da ingestão de sal, açúcar refinado,

apenas três letras é um problema para muitas

gordura animal e cafeína. “Podemos usar analgési-

mulheres, principalmente para quem convive com elas.

cos, anti-inflamatórios, medicações específicas para

A famosa TPM não tem idade, cor, raça nem sobrenome,

sintomas mamários e diuréticos”. Ana esclarece ain-

mas também não é um bicho de “sete cabeças”. A tensão

da que há necessidade de pesquisas nesta área para

pré-menstrual é considerada um distúrbio crônico, refe-

possibilitar mais conhecimento e oferecer melhor

rente a um conjunto de manifestações físicas, psicológi-

tratamento e controle da síndrome pré-menstrual.

cas e comportamentais que interferem negativamente

Discutir, ou partir para a briga, não é muito favo-

na vida feminina. Para alívio das mulheres, estes sinto-

rável neste célebre período em que elas estão “no ver-

mas cessam assim que o período menstrual termina.

melho”. Com os hormônios a flor da pele, evite reparar

Os homens têm mais dificuldade em lidar com aTPM,

em detalhes como roupa, acessórios e a quantidade

pois não sabem o que fazer para amenizar o estresse

de comida no prato da amada. Não fale de assuntos

feminino. Algumas mulheres não apresentam sintomas

que a deixe irritada, isso pode levar a brigas e discus-

consideráveis, como o caso da contabilista Gisele Bus-

sões desnecessárias e sem fundamento. Flores e cho-

ch Duarte, 27, casada há sete anos. Ela conta que neste

colates são uma boa pedida, pois agradam sempre.

período nada de anormal acontece a não ser o inchaço durante a semana. “Fico impressionada com mulheres que passam muito mal e, às vezes, inclusive faltam ao trabalho para ficar em casa e repousar”, conta. “Minha esposa não demonstra qualquer irritação nestes dias, por isso me considero um cara de sorte, pois não saberia lidar com a perigosa TPM”, revela o marido de Gisele. Há homens que já viram a TPM transformar sua parceira em uma pessoa estressada, mal humorada

fica a dica

Insista sempre para que a sua companheira procur orientação médica especializada. Além de cuidar da alimentação, ofereça a ela alimentos, calmantes como chás de maracujá e erva-doce, vitaminas, frango, atum e soja que ajudam a diminuir a irritabilidade e aliviar dores de cabeça, principais sintomas da tensão pré-menstrual.

e grosseira, como é o caso do técnico em informática Carlos Eduardo, 29, casado com Gabriela, 23, há dois anos. Ele conta que em um dos períodos menstruais, ela chegou a ser levada para o hospital com tonturas e falta de ar. “Fiquei assustado, pois não acreditei que somente a TPM poderia ter causado este transtorno todo. Sei que ela é sensível a dores e, quando ocorrem as cólicas menstruais, realmente passa mal”, revela. a

ginecologis-

ta ana paula motta indica medidas gerais para amenizar

o

descon-

forto que incluem

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obra

Equiame est iur, si si unti omnimagnates non nonestr untiam volenec eprovidusam eos asperatiis ullabo. Parum verspero dolorporunt, coresci doluptiorum que volut evellacim velitatium quibus, sit el maximus, consequo to magnatat eum dolorit, sed quae nos molum sequidi veris abor simolore eosam latem evero delesequia simi, alitat aut min por solum enihit voluptaquo cus et eniatus, is eicit, sa pore iligentis dolorem ex etum est, nonsed mi, nimaxim poreped ma delesti umendendam, sedis rem rehenis ium aces noneste cerchic ilignis dolest.

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um lugar que

nosocomefoBia

atormenta O pavor sem explicação de quem tem fobia a hospitais e deixa de visitar familiares ou até de buscar tratamento quando adoece Maica Ruppenthal e Renata Borba

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edo, inquietação, angústia e pavor são alguns dos sentimentos que tomam conta de Karin Franz, 27, toda vez que pensa em entrar em um hospital. Ela sofre de nosocomefobia, palavra que apesar de estranha, resume o medo a um lugar bastante comum. Para Karin, a experiência de estar em um hospital é traumatizante. Aos 13 anos ela passou noites em claro, cuidando do avô enfermo. Na época os outros familiares não podiam estar presentes e Karin cuidou do avô sem sentir medo. Um ano mais tarde, ela passou mal pela primeira vez em um ambiente hospitalar. “Fui visitar minha prima que se recuperava de uma cirurgia para a retirada de um tumor no cérebro. Infelizmente ela acabou falecendo e sofri muito com a perda”, relata.


MP Pouco depois, quando nasceu sua sobrinha e afilhada, ocorreu um novo episódio de nosocomefobia. Karin entrou no hospital, mas ao chegar no quarto onde estavam sua irmã e a bebê, novamente passou mal. Para Leila Franz, irmã de Karin, o que era para ser um momento de alegria, tornou-se uma experiência frustrante. “Ela ficou alguns minutos no quarto e começou a suar, ficar tonta e saiu correndo. Quando chegou na rua, desmaiou”, lembra Leila. Recentemente, Karin precisou de atendimento no pronto-socorro do hospital de Arroio do Meio e permaneceu por algumas horas em observação. “Saí de lá pior do que entrei. Minha pressão caiu, fiquei pálida e tonta, não via a hora de sair daquele lugar”, desabafa. Apesar de reconhecer os males causados pelo transtorno em seu cotidiano, Karin nunca procurou ajuda profissional para descobrir o motivo da fobia. Ela prefere evitar o ambiente e não ver amigos e parentes hospitalizados. No ano passado, deixou de visitar a própria mãe que estava internada para uma cirurgia.

A fobia geralmente é despertada por experiências vividas pela própria pessoa ou por alguém próximo. “Normalmente é um acontecimento do passado que ficou mal resolvido e que tende a retornar quando a pessoa é exposta a uma situação que a faça relembrar”, completa. As diferentes formas de fobia podem causar crises nervosas ou até síndrome do pânico. A doença pode levar a pessoa ao extremo de não querer sair de casa, com medo de que algo ruim aconteça. Segundo Greice, esse medo pode ser tratado com acompanhamento profissional de psicólogos e psiquiatras. “A cura depende da aderência do paciente ao tratamento e da gravidade do caso. Estes dois fatores são determinantes para a evolução e o tempo que o paciente levará para se curar”, conclui. A nosocomefobia, assim como outros tipos de fobia, é real e deve ser encarada com seriedade. Se não for tratada, tende e trazer graves consequências à rotina e à saúde mental.

A enfermeira Carla Chapur trabalha em hospitais há cinco anos e relata que a nosocomefobia é mais comum do que muitos imaginam. “Nós, da área da saúde, enfrentamos o medo, a fobia e a desconfiança das pessoas todos os dias. É difícil conquistar a confiança dos pacientes, principalmente porque eles estão vulneráveis”, comenta. Em seu trabalho diário, Carla já atendeu pessoas que desmaiaram ou sofreram crises de pânico ao entrar no ambiente hospitalar. Para ela, o fato de o próprio sistema de saúde não funcionar como deveria, deixa a comunidade ainda mais receosa em procurar atendimento. “Recebemos muita informação, através dos meios de comunicação, de situações irregulares como falta de médicos, erros da equipe em geral e despreparo dos profissionais que trabalham nessa área. Isso acaba sendo muito prejudicial para a imagem da maioria dos profissionais e casas de saúde”, enfatiza a enfermeira.

MAICA RUPPENTHAL

uma realidade comum

Origem do trauma Para a psicóloga Greice Vendramin, é comum a associação entre ambiente hospitalar e sofrimento, dor, tristeza e morte. “Ninguém gosta de estar lá, e muitos podem até criar uma resistência quando precisam frequentar o ambiente por algum motivo”, destaca.

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não TE CONHEÇO, mas

te amo

Apenas uma fase ou um amor para toda a vida?

DIVULGAÇÃO

fà clUBe

Tatuagem demostra o amor pela banda

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DIVULGAÇÃO

p

ara muitos, ser fã é apenas um comportamento adolescente que pode parecer até mesmo inofensivo e sadio. Como tudo em excesso é prejudicial, ser fã em demasia também pode se tornar um modo de fanatismo perigoso para a saúde mental. Para tentar entender melhor o que desencadeia esse comportamento, nossa equipe de reportagem foi em busca de jovens com diversos graus de fanatismo. Eles nos contaram como funciona esse sentimento e o que os move na busca por um encontro com os seus ídolos. No ano de 2004 surgiu no México um grupo de seis jovens que cantavam em uma banda originária da telenovela Rebelde. A RBD rodou o mundo com êxito eminente e, em apenas quatro anos, realizou apresentações em mais de 185 cidades de 50 países, vendendo 50 milhões de álbuns. Em 15 de agosto de 2008, os cantores mexicanos anunciaram oficialmente o término do grupo, dando início à turnê de despedida. Durante esses quatro anos, o grupo conquistou milhares de fãs em todo o mundo. Hoje, após três anos do término, a comunidade do RBD no Brasil ainda mantém cerca de 300 mil seguidores no Orkut. Julia Schneider, 20, é fanática pela banda e foi nos quatro shows realizados pela RBD em Porto Alegre. Ju Her, assim conhecida entre os fãs, já fez verdadeiras loucuras pelos seis mexicanos.

Daniela Cristina Mallmann e Morgana Beatriz Schuh

Julia com a cantora da banda RBD, Anahí

Ela acampou em frente aos locais dos shows, perseguiu de táxi os integrantes da banda e passou noites em aeroportos aguardando a chegada de seus ídolos. Julia chegou a desembolsar R$ 1 mil para um almoço com Anahí, a integrante do RBD que mais se destacava e alvoroçava o público com suas performances e letras sentimentais. Na avaliação da psicóloga Raquel Rokenbach, vários motivos levam alguém a se tornar um fã incondicional. Frustrações, inseguranças e carência afetiva são alguns dos problemas mais recorrentes. “A pessoa, ao sentir falta de algo, se apega ao que deseja lá no seu inconsciente e, assim, busca ser igual ou viver em torno da pessoa que admira”, comenta. Priscila Lazzari, hoje com 23 anos e fã de RBD há sete, conta como foi que a paixão começou e o que de bom e de ruim isso trouxe para sua vida. Ela passou a admirar o trabalho dos rebeldes por acidente. Após um pedido de sua prima para que gravasse um episódio da telenovela, gostou da história e foi atrás de informações na internet. Depois de mais alguns dias assistindo à telenovela, já estava envolvida com a trama.


MP MORGANA BEATRIZ SCHUH

Assim como Ju Her, Priscila também ficou encantada por Anahí, passando a admirá-la e a buscar informações precisas sobre tudo o que se passava em sua vida. “Não sei explicar, acho que ela me inspira. Alguém que está ali para mim e por mim. Alguém que eu queria muito ter como melhor amiga, irmã, confidente”, declarou. A adolescente enfrenta problemas em conciliar a vida pessoal com a dedicação por seu ídolo. “Este fanatismo prejudicou os meus estudos. Perdia muitas aulas em busca de novas fotos, baixando músicas, lendo notícias. Ia dormir tarde, o que prejudicava o meu rendimento escolar e, consequentemente, as minhas notas”, comenta. Priscila afirma ainda que os pais não concordavam com o seu comportamento, o que gerava discussões em casa. “Nunca abri mão de meu ídolo em função disso”, explica. Toda pessoa precisa de algo para se inspirar, alguns escolhem o Roberto Carlos, outros admiram santos, alguns procuram por determinada religião, outros se inspiram em negócios e dinheiro. “Tudo é fanatismo do mesmo jeito”, declara. Mas o que faz alguém abrir mão de certas prioridades para se dedicar a uma pessoa que nem mesmo conhece e convive? Priscila simplesmente responde. “Para mim, Anahí é a prioridade!”. Nesse caso, se percebe que a intensidade do fanatismo é alta. Quando uma pessoa deixa de realizar atividades que geralmente praticava como ler, passear e conversar com os amigos para se dedicar a tarefas voltadas para uma única pessoa, o grau de fanatismo deixa de ser inofensivo e sadio. Nestes casos, emerge um distúrbio comportamental que ocasiona mudanças nos hábitos e nas formas de pensar e agir do fã. Laís Vitória, 17, é mais uma menina que alimenta uma paixão incondicional pela banda mexicana. Ela pas-

sou dois meses na fila do show para conseguir o melhor lugar em frente ao palco. No entanto, essa não foi a maior loucura que fez para expressar o amor que sente. Ela foi capaz de tatuar o nome da banda e de mais dois integrantes em suas costas. “Acredito que tatuar o nome do grupo é uma prova de amor”, explica.

limite para o amor Ouvindo os relatos chegamos a pensar, é amor, e amor só pode ser bom, mas há limites que devem ser respeitados. “Amor é um sentimento que temos por pessoas que queremos bem e que nos fazem bem. Aquelas que possuem um modo de agir e de pensar que nos agradam e que geralmente compartilham momentos conosco”, constata a psicóloga Rokenbach. Porém, o amor de fã é algo diferente, afinal o ídolo não o conhece intimamente. “O fã pode até saber detalhes de sua vida pessoal, mas como é o caráter dessa pessoa, por vídeo e música, é difícil de saber”, explica. Mas e o que o ídolo pensa de tudo isso? Muitas vezes não seria uma invasão de privacidade? Não se sentiria incomodado com tanto assédio? Priscila novamente se posiciona. “Penso que não há como não gostar de alguém que comete loucuras, faz coisas absurdas por ti e, teoricamente, te vê como a melhor pessoa do mundo. Deve ser surreal saber que existem ‘zilhões’ de pessoas dispostas a te dar um abraço quando necessário, um carinho quando exigido, um afago apertado. Não existe como não amar isso e nós amamos poder demonstrar isso.” E o limite para o fanatismo? “Como tudo na vida, o limite é o bom senso!”, conclui Priscila.

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mp

paixão oU

Vício?

Quando o cinema ultrapassa o patamar de lazer e assistir filmes torna-se a tarefa número um na vida de uma pessoa.

cinefilia

Josiane Martini e Camila Dal Pian

série por trocar as aulas pelo cinema. Os filmes também já foram motivo de briga com a esposa. Em diversas situações os momentos de lazer com a família foram deixados de lado. “Deixei de ir à praia para assistir filmes, e não foi uma vez só”. As renúncias à família e ao lazer eram recompensadas por Carlos através de gestos simples. “As pessoas me procuram para pedir dicas, querem saber o que assistir e tenho prazer em ajudar”. Carlão incentiva o filho a seguir os seus passos. este ano o menino comemorou seu aniversário em meio a cartazes de filmes, escolhidos pelo pai para decorar a festa. Aos 12 anos, o garoto contabiliza em seu computador 500 giga bites de desenhos armazenados.

CAMILA DAL PIAN

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a

paixão de Carlos Muskopf pelo cinema começou cedo. Por volta dos sete anos teve seu primeiro contato com a grande tela. “Quando entrei no Cinema Alvorada perguntei para mim mesmo como é que eles limpavam aquela televisão tão grande”, relembra com saudosismo no olhar. Daquele dia em diante seguiram-se muitas tardes de domingo, em que a tia Nair o levava à matiné. Morador do Bairro Santo André, em Lajeado, o famoso “cara dos filmes” contabiliza 13.7 mil unidades adquiridas ao longo de quase 40 anos de paixão pela sétima arte, que virou sua profissão. “Na minha locadora tenho cerca de dez mil filmes, todos originais, em DVD e VHS”, relata. Durante os 17 anos de trabalho reuniu algumas relíquias como Ben-Hur – o seu preferido -, King Kong e Psicose. “Esses filmes não estão disponíveis para locação, pois tenho medo que as minhas preciosidades sejam extraviadas”, comenta. Além de empresário, Muskopf é projetista em uma sala de cinema. Quando jovem todos os amigos de Carlão se reuniam para assistir televisão na casa de um vizinho. Lá passavam as tardes assistindo programas de auditório e novelas, que eram novidade na época. “Só não podia ser em dia de chuva porque não cabiam todos dentro da casa e os que ficavam na área se molhavam”, relata. Na adolescência Carlão chegou a repetir a oitava

Carlos já assistiu mais de 13 mil filmes


Cinefilia virtual Da paixão à

compulsão

“Compulsão é quando um ou mais hábitos são repetidos inúmeras vezes e trazem desejo incontrolável de executar determinada tarefa. Após a realização daquele comportamento, a pessoa sente gratificação imediata”, explica a psicóloga especialista em terapia cognitivo comportamental, Viviane Rodrigues. De acordo com ela, a compulsão faz com que a pessoa sofra, tenha angústia e ansiedade se não realiza determinada ação. Segundo ela, os tratamentos variam conforme a necessidade do paciente. “Em alguns casos, atendo o paciente individualmente e em outros em terapia de família, para orientar como lidar com as situações e compreender o sofrimento do paciente”, exemplifica Viviane, informando ainda que o principal objetivo do tratamento da compulsão é ajudar o paciente a dar conta dos pensamentos distorcidos. “As técnicas comportamentais incluem manejo de situações difíceis, modificação de hábitos e técnicas de automonitoramento e autocontrole”, afirma a psicóloga. O tratamento à compulsão é indicado quando a obsessão traz algum prejuízo para a pessoa ou à família. “Se em função disso ela tem prejuízos financeiros, profissionais ou pessoais, como deixar de se relacionar e ainda brigar ou discutir no relacionamento, precisa de tratamento”, finaliza Viviane.

DIVULGAÇÃOO

Fascinado desde criança por filmes, o catarinense Jorge Soares Júnior herdou do pai o gosto pela atração. Foi com ele que assistiu ao seu primeiro filme, um clássico de Steven Spielberg, diga-se de passagem: “E.T.- O Extraterrestre”. “Um dia meu pai chegou em casa com um vídeo cassete, e este foi o primeiro filme que assistimos juntos”, relembra Júnior. Pouco tempo depois, acompanhado dos amigos, ele foi até um dos cinemas de Florianópolis assistir outro campeão de bilheterias: “Ghost - Do Outro Lado Da Vida”. Ao contrário de Carlão, que compra os filmes originais, Júnior baixa os arquivos da internet e contabiliza mais de dois mil títulos. “Antigamente era viciado em música e hoje busco filmes e jogos. Já perdi muitas noites lendo sobre esse assunto, e ainda assim não entendo nada”. Além de pesquisar curiosidades sobre a sétima arte, o rapaz procura as melhores versões de gravação e também as legendas que melhor se encaixam. “Às vezes o filme nem chegou direito aos cinemas, e na rede já tem gravação rolando. Claro que a qualidade é péssima, e também não existe legenda”, revela Júnior. A namorada Marluce Fernandes diz que o amor de Júnior pelos filmes não atrapalha o relacionamento do casal. “Apesar de eu muitas vezes pegar no sono, não me incomodo com o gosto dele”, diz ela. “Algumas noites até convidamos alguns amigos e fazemos sessão de filmes. É também um momento de descontração”, completa Marluce. Mas, apesar de tanta parceria com o namorado, a garota diz que nem tudo são flores. Às vezes fica difícil acertarmos o gosto no filme, por que eu prefiro suspense e o Júnior, drama”, revela.

DIVULGAÇÃOO

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Júnior faz downloads de filmes pela Internet

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gre-nal de paixões

Ao final do apito, vencedores comemoram mais um êxito enquanto que do outro lado, derrotados vão cabisbaixos rumo ao vestiário. Enquanto isso, nas arquibancadas, torcedores afloram sentimentos distintos. Este é o mundo do futebol, esporte mais popular do mundo

torcedores

Éderson Mois�s K�fer e Marcio Steiner

m

ais do que paixão, uma opção de vida. Assim poderia se resumir o amor que Charles Müller, 32 anos, tem pelo Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. Morador de Cruzeiro do Sul, ele tem o quarto decorado do forro de cama às persianas da janela com as cores do tricolor gaúcho. Logo ao avistar Müller andando pelas ruas da cidade fica evidente a paixão que sente pelo clube. Sempre vestindo roupas que remetem ao Grêmio, ele admite que dificilmente as pessoas o verão com outra vestimenta. Torcedor fanático, relata que não sabe identificar em qual MARCIO STEINER

Müller coleciona

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mais de cem camisetas

momento de sua vida a paixão pelo Grêmio aflorou, mas imagina que foi na época do Ensino Fundamental. O homem que, coincidentemente, tem o mesmo nome do personagem que apresentou o futebol aos brasileiros procura ir a todos os jogos do Grêmio disputados no Estádio Olímpico. Em 2007, esteve presente a todas as partidas disputadas em casa e, em 2008, só faltou a um jogo por motivos de saúde. O torcedor também já assistiu a inúmeros jogos longe de Porto Alegre. Esteve nas arquibancadas do Palestra Itália, em 2008, contra o Palmeiras e o Liverpool, e em Montevidéu, no inicio deste ano, em jogo pela pré-libertadores. Segundo Müller, o fato de ser tão apaixonado e andar sempre caracterizado com a vestimenta tricolor se tornou algo rotineiro. “Isso já faz parte da minha vida”, define. Além da paixão pelo futebol tricolor, o gremista também faz disso fonte de renda. Ele comercializa a marca através de uma coleção de camisetas antigas e originais. Atualmente possui mais de 100 camisetas, entre elas a utilizada pelo atleta Tarciso, em 1977, quando a equipe foi campeã gaúcha, avaliada em R$ 1,5 mil. Para angariar essas raridades, ele garimpa na internet, pesquisa junto a torcedores e faz amizade nos jogos. “O mais importante é que esteja em bom estado e que seja original”, argumenta. O fanático ressalta que já


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ÉDERSON KAFER

fez loucuras pelo Grêmio, em especial por uma camiseta. Certa vez foi atrás de uma mulher desconhecida e que tinha uma camiseta rara, sendo que a mesma residia em um dos bairros mais violentos da capital. Outra vez, em dia de Grenal, passou em frente à concentração do Inter em porto alegre e acabou colidindo o carro no caminhão que carregava objetos da torcida adversária. “O detalhe é que eu estava fardado com as cores do tricolor e achei que iriam me matar, mas no fim deu tudo certo”, completa.

Vermelho e branco Graças à sua paixão pelo Sport Club Internacional, ele se tornou um símbolo. No Estádio Beira Rio, tem acesso a todos os setores. A sua casa no Bairro Languiru, em Teutônia, é toda pintada em vermelho e branco. Inclusive o muro e a grade que a cerca. Três outdoors em alusão às conquistas da Libertadores e do Mundial, como também sobre o centenário do clube, surgem imponentes no gramado. Nem a piscina escapou. No fundo, o escudo do Internacional se destaca. Este é o mundo alvi rubro de Ilvo Hensing, onde o azul não tem vez. O motorista de 62 anos possui três taxis. Tente adivinhar as cores dos veículos? Se pensou em vermelho e branco, acertou. Colorado desde pequeno, revela que começou a acompanhar os jogos do clube na adolescência, nos anos 1960. Quando ficava sabendo que haveria jogo do Inter, procurava logo sintonizar uma estação de rádio que transmitisse a partida. “Ouvia os lances de craques como Tesourinha, Elton Fensterseifer e Velgara”, relembra. Na mesma época, assistiu ao seu primeiro jogo do Internacional, ainda no antigo Estádio dos Eucaliptos. a sua ligação com o internacional se fortaleceu no início da década de 1970, quando foi erguido o Beira Rio. Ilvo doou 1 mil tijolos para ajudar na construção do estádio. “Os tempos eram outros. Se pudesse, teria contribuído com mais. Na época, eu não tinha muitos recursos”, confessa. Em 1997, foi consultado para ser cônsul do Internacional em Teutônia, cargo que ocupa até hoje. O marido de dona Beatriz L. Z. Hensing transformou a casa do casal num verdadeiro memorial colorado. Não há como não se impressionar com o rico acervo, montado e preservado com esmero pelo pai de dois filhos e avô de quatro netos. Pôsteres de ídolos e equipes que marcaram época no Internacional estão por todos os lados. Flâmulas e peças sobre o clube enfeitam os móveis. Pintado na lareira, um escudo do Inter retrata o tamanho da paixão de Ilvo. O cônsul preserva raridades que exibe como troféus

Ilvo possui réplicas de troféus do inter

na sala. Desde um “pedacinho” da estrutura do antigo Estádio dos Eucaliptos, até medalhas originais da primeira Libertadores e do Mundial, títulos conquistados em 2006. Ilvo acumulou um acervo de mais de 30 camisas históricas de jogo, alusivas a aniversários e conquistas. Três, em particular, se destacam. “Tenho réplicas que nunca usei. São da primeira camisa do clube de 1909, uma dos anos 1970 e a dos 100 anos”, destaca. Orgulhosamente ele relata que a sala de sua casa é a única propriedade particular do Brasil onde entraram os maiores troféus conquistados pelo Internacional. Diz não saber o quanto investiu em objetos relacionados ao clube. Ilvo já desfilou no gramado do Beira Rio junto a dirigentes e fez muitos amigos nas arquibancadas do estádio. Segundo o cônsul, o futebol lhe abriu “portas”. A sua casa também já foi visitada por ídolos do passado. Da mesma forma, conheceram o local jogadores mais recentes como Iarley e Lauro. A paixão de Ilvo já foi tema de matérias de várias tevês, rádios e jornais. Até em uma televisão japonesa o colorado já apareceu. Segundo Ilvo, o jogo mais dramático que esteve presente no Beira Rio foi em 2006. “Aquele jogo de volta da final contra o São Paulo (2 x 2) foi difícil”, lembra. Já a partida mais importante, para ele, foi a final do Mundial, disputada no Japão. Sobre a rivalidade da Dupla Grenal Ilvo entende que, acima de tudo, é preciso aprender a respeitar a escolha do outro, tornando o futebol um esporte democrático capaz de reunir torcedores em torno de uma paixão.

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MP

nas

asas passarinHo do

imaginaÇÃo

DAPHNE BECKER

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Abandonado aos três anos pela mãe, Marcos Rogério dos Santos transita pelas ruas de Taquari dirigindo um ônibus imaginário. Parada a parada ele embarca passageiros, mas não se preocupa em cobrar passagem: “Essa tarefa é do cobrador”

É

comum à comunidade Taquariense avisar ao motorista de ônibus que ele está com a porta aberta quando passa. Às vezes, ele buzina e agradece; outras, indignado, responde: “Não viu que hoje estou de trator?” Passarinho sofre de transtornos psíquicos e acredita estar dirigindo um ônibus. Com crachá e uniforme, transita pelas ruas da cidade fazendo as linhas do urbano, parada a parada, não apenas num mero disfarce divertido, mas com os reais movimentos necessários para dirigir tal veículo, inclusive cuidando os espelhos e reproduzindo os sons das marchas, freios e portas abrindo. Desde o dia em que foi encontrado em um pneu de ônibus -aos 3 anos de idade- rodando na Avenida Assis Brasil em Porto alegre, Marcos Rogério dos Santos viveu em abrigos, pois foi abandonado pela mãe. Dona Maria Lúcia Araújo Pinto conta que Passarinho sofre deste transtorno psíquico desde que nasceu e lembra que aos 17 anos ele chegou a ser atropelado por um ônibus, justamente por estar transitando no meio da rua acreditando dirigir. Dona Lúcia é professora e presta assistência social como voluntária, foi ela quem conseguiu a aposentadoria do Passarinho aos 21 anos, garantindo que ele tenha o seu sustento. O delírio de Passarinho poderia ser qualquer ou-


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tro, mas este certamente tem algo a ver com sua história e sua singularidade. “Não há cura para estes casos, mas há tratamento para a diminuição do sofrimento com as alucinações, delírios e angústias”, explica a psicóloga e psicanalista Denise Dutra Pontes. Adolescentes bem humorados muitas vezes esperam na parada e chegam a entrar no ônibus. Passarinho não se preocupa com a cobrança das passagens, afinal, este é o serviço do cobrador. Poucos passageiros o acompanham por muito tempo, já que a caminhada é longa e cansativa. Segundo o site SOS Dependente, os delírios são ideias e crenças persistentes, sem conexão com a realidade e sem possibilidade de que sejam desfeitas através da argumentação lógica. O portador não consegue compreender a irrealidade e irracionalidade dos conteúdos delirantes. As alucinações, como a de Passarinho, que crê dirigir um ônibus, são percepções sensoriais do que, na realidade, não existem. Muito conhecido pela população taquariense, Passarinho já produziu histórias que estão na boca do povo. Como uma vez em que foi encontrado no chão, atirado na rodovia de acesso a cidade. Ao ser acudido, Passarinho, profissional preocupado, alerta: “Atenda primeiro os passageiros, eu estou bem”.

Aos 39 anos, Marcos Rogério, o Passarinho, não demonstra cansaço no trabalho, com uma “mãe” que ele mesmo escolheu, garante seu pouso e comida para os intervalos da sua longa jornada diária. De acordo com a psicóloga Denise, normalmente as pessoas que sofrem deste tipo de transtorno percebem a inadequação de algumas condutas comparadas as outras pessoas da sociedade, alguns pacientes chegam a ficar revoltados porque não entendem sequer a necessidade de estarem em tratamento. Segundo a Brigada Militar de Taquari, não há qualquer registro de incômodo ou transtorno à cidade que Passarinho tenha causado, nem ao menos registro de multas de transito que tenha sofrido.

novo transporte De uns anos para cá, Passarinho começou a pilotar seu equipado carrinho de mão, com espelhos, placa de veículo e acessórios necessários a sua jornada de trabalho, onde percorre muitos quilômetros ao longo do dia. Não no seu primeiro emprego, pois Passarinho já dirigiu com diversos crachás diferentes, agora necessita se dedicar mais a segurança do seu veículo, que é muito mais atrativo e visível aos olhos alheios.

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jogatina

MP

Jogo,não nego, e ganho

dinheiro Eduardo Eggers

jogatina

Jovensfaturam faturam atéaté R$ 2R$ mil 2 reais partidas departidas pôquer disputas online. Jovens milemreias em de pôquer Mas cuidado, se a fase não for boa é preciso saber a hora de parar disputas online. Mas cuidado, se a fase não for boa é preciso saber a hora de parar ocês dois frente a frente. A casa vazia. Uma maioria dos iniciantes prefere em um primeiro

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V

jogada pode mudar tudo, afinal milhares de pessoas estão na mesma situação que você e ninguém está para brincadeira. A grana rola, e não é pouca. De repente, um movimento. A cartada virtual. O dinheiro já está na sua conta. E olha que nem foi preciso batalhar muito, pois você é habilidoso e gosta do que está fazendo. O montante de pessoas de diversas partes do mundo agora é seu. Feliz? Sim. Mas não satisfeito. Mais jogadas vão acontecer, e tudo o que se quer é continuar ganhando. Pode parecer utópico, mas para quem é craque em pôquer em rede essa possibilidade é bem menos complicada. São dois os principais sites do jogo online: FullTilt (www.fulltiltpoker.net) e PokerStars (www.pokerstars.net). “Só o que muda é o proprietário da página, o resto entre ambos é igual”, ensina Alan Poletto (26), morador de Lajeado e jogador há três anos. A tentação pelo jogo e a qualidade nas cartas virtuais foram tamanhas que ele optou por deixar de lado a planilha de vendedor e os livros de direito para se dedicar somente ao pôquer via internet. “No começo da minha carreira passei a estudar o jogo em livros e sites. Ficava pelo menos três horas ao dia aprendendo para depois fazer desta atividade a minha forma de sustentação”, relata. Tudo começa com um cadastro. Basta preencher um formulário com os dados pessoais, abrir uma conta e começar a jogar. As apostas podem ser feitas através de dinheiro virtual ou real. A

momento apenas analisar como funciona o pôquer em rede. Por isso, apostam somente os valores virtuais, quando não é necessário colocar a mão no bolso. Porém, segundo Poletto, com o tempo é inevitável começar a apostar grana de verdade. “Para quem tem habilidade, é questão de meses o início das apostas. Eu sou o exemplo: comecei jogando dinheiro virtual e depois de dois meses depositei meus primeiros 50 dólares”, revela, acrescentando que já chegou a ficar em frente ao computador seis horas por dia. Entre as possibilidades para jogar estão vender dólares ou tran sferir o montante ganho para cartão de crédito.

Risco de uma jogada

Toda essa obsessão pelo pôquer em rede não teria nexo se não fosse um fato: a brincadeirinha dá dinheiro. Para mostrar a dimensão de quanto um jogador pode ganhar, Alan cita o santa-cruzense João Matias, escolhido o quarto maior jogador online do mundo no site FullTilt em 2010. “Esse cara já obteve R$ 1 milhão em prêmios”. Não fosse toda a grana, Alan Poletto não teria desistido da profissão e dos estudos. “Quando percebi que tinha cacife para disputar com grandes figuras do pôquer, larguei tudo. Hoje ganho uma média de R$ 3,5 mil por mês, mas quero chegar a R$ 10 mil mensais daqui a um ano”, sonha. Ele ainda afirma que, ao entrar em uma partida em rede, qualquer um que tenha talento é candidato a ficar


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rico em uma só jogada. Só no PokerStars são 14 milhões de cadastrados no o mundo. Durante todo o dia são 30 mil mesas com 100 mil jogadores online. “Você pode jogar com até 20 mil pessoas simultaneamente. Cada um aposta quanto quiser. Não conheço ninguém que tenha perdido muito dinheiro, mas sei de várias pessoas que ficaram ricas em questão de minutos”, enaltece. O também lajeadense Felipe Bald, 29, corrobora com o companheiro de pôquer quando o assunto é grana. Segundo ele, quando o jogador é qualificado e está em um dia de sorte, o prêmio pode ser muito maior do que se imagina. “Sei de amigos de Porto Alegre que ganharam R$ 65 mil em uma partida”, afirma, acrescentando que seu lucro mensal gira em torno de R$ 2 mil. Os dois jogadores são prudentes em um aspecto: se a fase não é boa, não adianta insistir. “Pôquer é um jogo em que 75% corresponde a habilidade, mas se os 25% restantes de sorte estiverem do outro lado é melhor parar por algumas semanas ”, ressalta Felipe.

Vida dedicada ao jogo

O pôquer realmente é a sina de Alan Poletto. Recentemente, com mais dois sócios, ele abriu um estabelecimento no centro de Lajeado, o “Amazonas Texas Hold’em”. Somente na inauguração compareceram cerca de 50 jogadores. O objetivo é atrair cada vez mais clientes para o local. “No Amazonas os clientes disputam o Texas Hold’em, que é um estilo de pôquer”, explica. Toda essa dedicação acaba tendo um preço.

Ele relata que diversas vezes deixou de sair de casa e ir a baladas com amigos para poder jogar e ganhar “o pão de cada dia”. lha que nem foi na adolescência que ele começou a disputar partidas em rede. “Aos 22 anos tive a primeira experiência. De lá para cá acabei fazendo dessa atividade minha profissão. Até agora não me arrependi de nada”. Porém, logo depois ele volta atrás e recorda que terminou um namoro em função da escolha. “Era para escolher entre ela e o pôquer. Adivinha qual foi a minha opção?”, brinca.

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internet reconfigura Hábitos de consumo no Vale do taquari

felipe schmitt fernanda galvÃo

mercado virtUal

Sites de compras vendem desde jantares a viagens ao exterior com descontos que variam entre 50% e 90%

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d

epois de um dia intenso de trabalho eles voltam pra casa e, de repente, a fome bate. Ricardo procura alguma coisa para comer na geladeira enquanto Mariana aproveita para enviar um trabalho de aula. Ela acessa sua conta de e-mail, envia o material, volta para a caixa de entrada e encontra uma mensagem diferente: está no ar a primeira oferta do Seu Site de Compras Coletivas em Lajeado e Região: acesse www.descontoativo.com.br e cadastre-se para receber as ofertas no seu e-mail. Ela não havia cadastrado o seu endereço eletrônico e sequer sabia da existência do site. Porém, naquele momento, o que estava lendo tinha inestimável valor: 50% OFF no Xis Picanha: 3 lanches + 1 refrigerante 2L de R$ 29,00 por R$ 14,50. Clicanco em “comprar” foi direcionada ao site de pagamento online. Cinco minutos depois recebeu por e-mail o seu comprovante e pronto. Problema solucionado em 15 minutos e fome saciada por um preço inacreditável. A história de Ricardo e Mariana não é mera ficção para ilustrar a novidade que virou febre entre os moradores do Vale do Taquari. Desde dezembro o site Desconto Ativo oferece ofertas de 50% a 90% nos melhores estabelecimentos de Lajeado e região. A ideia de trazer um site de compra coletiva para o interior do Estado surgiu dos empreendedores Davi e Simone Labres, ela formada em Relações Públicas pela Univates. Durante alguns meses, o casal acompanhou os sites que estavam em alta no e-commerce e acreditaram que poderia dar certo. “Através de pesquisas constatamos que muitos lajeadenses estavam cadastrados nesses sites de maior visibilidade no Brasil, então resolvemos aliar esse ‘boom’ a potencialidade do mercado existente no Vale”, relatou Simone.


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O Desconto Ativo surgiu com o mesmo objetivo dos outros sites de compras coletivas, tentanto aproximar e fidelizar a comunidade ao comércio local. Parece que deu certo. A jornalista Tamara Bischoff, 30 anos, acompanha as ofertas diariamente, e já economizou R$ 500,00 desde a sua primeira compra eletrônica. Entre as 13 aquisições efetuadas constam refeições em restaurantes, massagens, manicure e limpeza de pele. “Juntamos o útil ao agradável por um preço mínimo”, afirmou.

“Acabei usufruindo de ofertas que jamais havia pensado em comprar caso não ganhasse um desconto tão grande” Tamara revela ainda que o site de compras coletivas a incentivou ao consumo. “Acabei usufruindo de ofertas que jamais havia pensado em comprar caso não ganhasse um desconto tão grande”. Exemplo disso foi a oferta de 66% de desconto em duas sessões de Reflexologia Podal oferecida por um centro de saúde. Além de economizar cerca de R$ 100, ela teve a oportunidade de experimentar um novo tratamento que consiste na arte de curar através de massagens nos pés, seguindo o princípio de que todos os órgãos do corpo estão conectados através de canais de energia ativados em pontos nos pés. Maria Helene Bischoff, 59, foi na onda da filha e também acabou comprando pelo site. “Fui a um salão de beleza que nunca havia ido, aproveitei a promoção do site para conhecer o lugar, gostei e pretendo voltar outras vezes com ou sem desconto”, conta realizada. O fato das clientes ficarem satisfeitas com as compras feitas através do site não anula a possibilidade de desagrados por parte de outros clientes. Simone relata que alguns consumidores acabaram questionando a qualidade dos produtos e serviços adquiridos através dos sites de compras na internet. “Nos preocupamos em oferecer o melhor sempre, ligando para a empresa

Revista Última Pauta - Dezembro/2011

e tentando solucionar os problemas da melhor forma possível”. Todo esse cuidado precisa ser tomado para que o novo instrumento de marketing oferecido pelo sistema não gere um efeito reverso. Atualmente, o descontoativo.com.br conta com mais três colaboradores encarregados pela negociação das ofertas na região e pelo auxílio aos clientes no processo de compra, uma vez que os donos da empresa residem em São Paulo e prezam por um atendimento eficaz. Dos 63 produtos oferecidos, a alimentação lidera o ranking de vendas. Praticamente todas as promoções desse segmento terminam antes do prazo previsto, estrapolando o limite de vouchers oferecido pelas empresas. Serviços de beleza estão logo atrás na preferência do consumidor virtual.

foto compra on line

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MP

página do intercamBista

artistas “dementes” impactan la escena artística actual Lo Grotesco es un termino que se deriva del italiano

tido en un reconocido artista por su particular visión

grottesco, haciendo referencia a algo que viene desde

de la vida y las artes en general; “- me gusta recordar

las grietas, originalmente utilizado para representar un

las cosas a mi manera: ¿cómo las recuerdo?, no nece-

estilo extravagante del arte decorativo romano descu-

sariamente como acontecieron en realidad.-” Asegura

bierto desde el siglo XV. Es constantemente relaciona-

en su espacio virtual; Al echar una oleada a su traba-

do con lo obsceno, lo feo, lo extravagante, lo ridículo,

jo, nos damos cuenta que Dragan juega con visiones

lo vulgar, lo absurdo, lo opuesto al buen gusto y con-

de retratos anacrónicos (fuera de contexto), poli cro-

denado a las mazmorras de la subversión del disgusto

máticos, y sombrios de una manera muy acida y de-

donde se reflejan en un espejo los espiritos desgracia-

masiado peculiar. Como es el caso de la obra “tribu-

dos de aquellos que hacen pompa de sus frustraciones.

te to Alexander Mcqueen, Cat without smile, 2008”.

Aún así, este rasgo estético está presente en nues-

David Lachapelle es otro artista plástico y fotógra-

tra vida cotidiana; tal y como lo vemos en los di-

fo que decidió optar por una postura bizarra de ver

bujos animados, en las propagandas de muchos

el mundo, el panorama se vuelve mas interesante

productos, en las programas de tv y hasta en la

al ser este artista el que muchos otros artistas es-

manera en la que hablamos con nuestros amigos,

cogen para la dirección de imagen de sus álbumes,

lo subversivo se hace necesario para llevar a cabo

entre los mas destacados podemos ver a Michael

la rutina sin terminar

en un hospital psiquiátrico.

Jackson, Elton Jonh, No Doubt y Marilyn Manson.

El factor “grotesco” no es nada mas que el elemen-

En la línea de ejemplos, está presente un pintor y es-

to que le

hace catarsis a la amargura de la vida

cultor colombiano muy concido en latinoamerica por

misma, todos nosotros necesitamos al menos un

su peculiar forma de plasmar la belleza: se trata de el

poco de malicia, sarcasmo, perversión y humor ne-

maestro Fernando Botero, quien ve en las circunferen-

gro para reírnos de lo que generalmente nos hace

cias y las formas esféricas el mas alto grado de perfec-

daño, realmente una terapia para la mente. La esce-

cion y simetría, así sus obras se cararcterizan por ser

na artística es consciente de esto, es por eso que lo

expandidas, gordas, retratando desde los libos hasta

grotesco a veces se confunde con manifestaciones

la imagen del cuerpo humano, deesmitifica la belleza

fantasiosas de la imaginación que casi siempre nos ha-

delgada y alta y pone en un lienzo la poesía de la obe-

cen reir, y en efecto, ha estado presente en el tiempo y

sa cultura de Colombia y de latinoamerica en general.

el arte (tanto occidental como oriental y/o indígena). De esta manera la espontaneidad popular se traduMas recientemente la polémica que diversos trabajos

ce en una categoría estética moderna, lo grotesco, es

han despertado en la comunidad artística, ha pues-

decir, un campo de estudios, apreciación y mercado

to en tela de juicio una vez mas la preferencia por lo

(desgraciadamente) de un sinfín de obras que dia-

bello (al menos dentro de lo que esta pintado en un

riamente deleitan al publico con sus exageraciones.

cuadro). Este es el caso de Andzerj Dragan, un físico, fotógrafo y artista plástico polaco que, se ha conver-

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fUlano garZon BOGOTá - COLôMBIA


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aecom

Revista Ăšltima Pauta - Dezembro/2011

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Revista do curso de comunicação da univates  

turma de jornalismo

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