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Onde está o Ensino da Língua Pátria?

Por: Pedro Bastos


ONDE ESTÁ O ENSINO DA LÍNGUA PÁTRIA? -“Esse bando que vive da rapina se compõe, pelo que se sabe, de um número superior a cem crianças das mais diversas idades, indo desde oito aos dezesseis anos. Crianças que, naturalmente devido ao desprezo dado a sua educação, se entregaram no verdor dos anos a uma vida criminosa”. O trecho do livro de Jorge Amado, “Capitães da Areia”, era lido em voz alta para toda a sala por Rodrigo Souza, de treze anos, aluno da sétima série da escola Gustavo Marcondes. A escola não é muito diferente das outras muitas instituições de ensino da rede pública do país. O prédio é antigo e apresenta várias marcas de desgaste. As salas são grandes e comportam, normalmente, quase cinquenta alunos. As mesas e cadeiras, tradicionais e feitas de madeira, estão, em sua maioria, bastante depredadas. Dentro da escola, os corredores estavam vazios, mas os sons que vinham das salas de

aula eram extremamente altos. Contudo, ao entrar na aula de português para a sétima série da professora Ângela Junquer, me deparei com quase quarenta alunos em silêncio, muito concentrados. A aula havia acabado de começar e eles falavam sobre vida e obra de Jorge Amado. Segundo a professora, sempre que ela começa a trabalhar um novo livro, pede para seus alunos pesquisarem a biografia do autor para tentar inseri-los no contexto em que a obra foi escrita. O trabalho feito com a obra de Amado não era feito por iniciativa da professora, mas sim pela disponibilidade. “O lote desse livro foi o que chegou do governo esse ano”, conta Ângela. Aquilo foi realmente inesperado. Apesar de ter escutado alguns elogios prévios a essa professora, o que vi e ouvi foi realmente surpreendente. Todos estavam com o livro em mãos e falavam da fama internacional de Jorge Amado. Ângela perguntou que autores brasileiros tão famosos quanto Amado eles conheciam. A resposta: Sabino, Machado,


Guimarães Rosa, Paulo Coelho e mais alguns nomes citados. Depois de terminarem a discussão sobre a vida do autor, a professora contextualizou e explicou a obra para os alunos e partiu para a leitura. Um dos alunos pedia insistentemente para começar: ele estava sentado bem próximo da professora, mas, mesmo assim, balançava os braços e até pulava da carteira, dizendo: - “Eu, eu! Deixa eu ler, professora!” Ele foi o escolhido. A leitura muito pausada denunciava a dificuldade do aluno, mas sua vontade ficava ainda mais evidente. O aluno que estava ao meu lado mexia os lábios quase sem emitir som algum para não se perder. Todos acompanhavam em absoluto silêncio, até que outro era selecionado para continuar. Quanto mais passava o tempo, mais alunos se ofereciam e até brigavam para seguir com a leitura. Em certos momentos, a professora interrompia para explicar palavras complicadas ou resumir o que fora lido:

- “Essas cartas que vocês estão lendo foram escritas de verdade. Aquele porto sofria com os assaltos e bagunças dos pequenos ladrões e as reclamações para a polícia eram muito comuns.” Faltando dez minutos para o final da aula, Ângela perguntou para a sala se havia tempo para ler mais uma parte, e a resposta foi diferente daquela que eu imaginava: um grande “SIM!” em uníssono. Infelizmente, o panorama do ensino de língua portuguesa nas escolas brasileiras é muito diferente do que presenciei. Os resultados apresentados pelos alunos da oitava série de Ângela na Prova Brasil de 2007 mostram que o interesse a vontade deles são fatores que os diferenciam dos padrões nacionais: ficaram quase 40 pontos acima da média nacional, o que representa 12% da nota total. A gravidade do problema do ensino de português no país fica evidente nos exames indicadores de educação. Os resultados da Prova Brasil mostram que os alunos de 4ª a 8ª série da rede pública realmente


aprendem apenas 25% de todo o conteúdo de Língua Portuguesa. Já no PISA, avaliação feita com alunos de 15 anos de 57 países diferentes, o Brasil foi o quinto pior colocado nas provas de língua local na edição de 2003 e o oitavo pior na última edição.

deveriam ser os modelos de leitores e escritores para os alunos, mas isso está longe de acontecer. “Na verdade, a quantidade de professores que realmente tem domínio do conteúdo, sabe ler e interpretar um texto é ínfima.”, diz Marcela.

Segundo o doutor em ensino de leitura, Ezequiel Theodoro da Silva, o bom conhecimento da língua materna é fundamental não só no ambiente escolar, mas também para a formação do cidadão. “Um mau domínio da língua, em termos de produção e compreensão oral e escrita, pode resultar um em um mau entendimento da própria realidade da pessoa. Então, o ensino inadequado não vai causar apenas um desempenho ruim na escola, mas também uma falta de participação social.”, afirma Ezequiel.

Uma pesquisa realizada pela RAC, Rede Anhanguera de Comunicação, com grande parte das escolas de Campinas confirma a grande maioria das teorias. Ela aponta que mais de 16% dos professores entrevistados não se consideram bons leitores e que 10% tem o livro didático como principal leitura. Apenas 10% dos alunos consideram que seus professores são bons leitores. Desse grupo, 3,5% acreditam que os professores sabem interpretar os textos. “Por conta da máformação, os professores recorrem a certos mecanismos que não ajudam efetivamente na formação de um bom leitor.”, afirma Ezequiel.

A teoria mais utilizada para explicar a baixa qualidade no ensino de língua portuguesa no Brasil é a da má formação dos professores. Segundo Marcela Pontara, professora de português há 20 anos e autora de livros didáticos, os professores é que

Para João Bastista Oliveira, Psicólogo e doutor em Pesquisa Educacional, a causa do problema pode ser o fato de que ser professor no Brasil não é nem um


pouco atrativo. “É preciso iniciar um sistema que atraia para o magistério pessoas bem formadas, já que nos países desenvolvidos o magistério é constituído pelos 25% dentre os melhores alunos de cada geração e no Brasil pelos 10% com pior desempenho em testes como o ENEM.”, afirma João. Contudo, ele acredita que essa não é a principal medida a ser tomada com relação à educação. Para ele, o Brasil erra por privilegiar apenas um modelo de expansão, ou seja, quanto mais vagas e mais anos na escola, melhor. “O problema mais evidente é o da falta de qualidade. Com a contínua ampliação do sistema educacional, os custos vem aumentando e não há nenhuma melhora na qualidade.” A qualidade ruim da educação brasileira fica ainda mais evidente quando comparada com países mais desenvolvidos. Enquanto o Brasil teve mais de 80% dos estudantes que realizaram o último PISA situados no nível um, em que ficam os alunos que apresentam resultado muito ruim, o Canadá teve apenas 10%, um dos menores números de todo o exame. No

caso específico de língua local, os canadenses ficaram com a quarta melhor nota dentre todos os países participantes. Contudo, nosso país possui mais alunos em escolas privadas do que os canadenses, 17% contra apenas 8% deles. Para o diretor geral do Conselho dos Ministérios de Educação do Canadá (CMEC), Richard Thérberge, o fato de o país ter mais de uma língua oficial – Inglês e Francês – acaba fazendo com que o ensino das línguas seja enfocado, e a atenção com ele seja redobrada. “Nos primeiros anos de escola, os estudantes passam muito mais tempo estudando língua do que qualquer outra matéria. Mais para frente, os professores das outras matérias complementam os estudos de inglês ou francês – depende do estado em que fica a escola – e também se tornam responsáveis por esse conteúdo.”, afirmou Thérberge em entrevista exclusiva à revista Urbana. Segundo João Oliveira, a melhora da qualidade da educação brasileira começaria justamente com esse enfoque na alfabetização apresentado pelo


modelo canadense. “Primeiro, é preciso alfabetizar corretamente as crianças, no 1º ano do ensino fundamental. Segundo, é preciso desenvolver fluência de leitura e ajudar as crianças a compreender o que lêem. Paralelamente, é preciso criar o hábito e gosto pela leitura desde o berço.”.

O caso de Ângela Junquer, a professora do colégio estadual Gustavo Marcondes, é um raro exemplo de trabalho feito de forma diferenciada e que visa dar melhor formação em língua portuguesa aos alunos. “A grande maioria dos casos que se descolam do ensino ruim de língua portuguesa no Brasil parte de uma iniciativa pessoal de profissionais bem formados e que realmente querem ver alguma coisa diferente acontecendo.”, diz Ezequiel Theodoro.

Pedro Bastos

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