Issuu on Google+

A

Relíquia


No fim de setembro,


FUM FU FUM FU F F FU FU FUM FUM FU FUM FU FUM FU FUM FUM FUM FU FUM FUM FU FUMO FU F FUM FU FUM FUMO FUM FUM FUM FUMO FUM FUMO F FU FUM FUM FUMO FUM FUMO FUMO FUM FUMO FUMO FU FUM FUM FUMO FUMO FUMO FUM FUM FUMO FUM O FUM FUMO F FUMO FUMO F FUM FU FU

FUMO FUMOFUMO FUMO FUMOFUMO FUMO FUMO FUMO FUMO FUMO FUMO FUMO FUMOFUMO FUMO FUMOFUMOFUMO FUMO FUMOFUMO FUMO FUMO

FUMOFUMO FUMO FUMO FUMO FUMO FUMO

FUMO

FUMO FUMO FUMO FUMO FUMO FUMO FUMO

FUMO

FUMO

FUMO FUMO

FUMO FUMO

FUMOFUMO

FUMO

FUMO FUMO FUMO FUMO FUMO FUMO FUMO

FUMO

FUMOFUMO

FUMO

FUMO

FUMOFUMOFUMO FUMO FUMO FUMO FUMO FUMOFUMO FUMO

FUMO

FUMO

FUMO FUMO FUMO FUMO FUMO FUMO

FUMO FUMOFUMO FUMO FUMO FUMO FUMO FUMO FUMO

o _Rinch達o_

O

FUMO

FUMO FUMO FUMO FUMO FUMO FUMO FUMO FUMO

FUM


FUMO MO FUMO UMO FUMO FUMO MO FUMO FUMO FUMO FUMO UMO FUMO FUMO FUMO UMO UMO FUMO MO FUMO FUMO FUMO FUMO MO UMO FUMO MO FUMO FUMO FUMO FUMO UMO MO FUMO UMO FUMO FUMO FUMO MO MO MO FUMO FUMO FUMO FUMO UMO FUMO MO MO FUMO FUMO UMO FUMO FUMO O FUMO UMO FUMO FUMO FUMO MO FUMO UMO FUMO MO FUMO FUMO FUMO FUMO MO FUMO FUMO MO MO FUMO FUMO MO O FUMO FUMO FUMO O FUMO FUMO UMO FUMO MO FUMO MO FUMO MO O FUMO FUMO O FUMO MO FUMO UMO MO MO FUMO FUMO FUMO O FUMO FUMO FUMO FUMO MO MO FUMO O FUMO FUMO MO FUMO FUMO FUMO FUMO FUMO FUMO FUMO MOFUMO UMO UMO FUMO FUMO FUMO FUMO FUMO

O

MO

FU

O

FUMO FUMOFUMO FUMO FUMOFUMO FUMO FUMO FUMO o _Rinchão_ chegou de Paris: e um domingo, á FUMO FUMO FUMO FUMO FUMOFUMO FUMO noitinha, á FUMO volta da Novena de S. Caetano, entranFUMO FUMO FUMO FUMO FUMO do no FUMO Martinho, encontrei-o, rodeado de rapazes, FUMO FUMO FUMO FUMO FUMO FUMO FUMO contando ruidosamente os seus feitos d’amor e de FUMO FUMOFUMO FUMO FUMO FUMO gentilFUMO audacia emFUMO Paris. Tristonho, puxei um banco FUMO FUMO e fiquei aFUMO ouvir o _Rinchão_. Com uma ferradura de rubis na gravata, o monoculo pendente d’uma fita larga, uma rosa amarella no peito, o _Rinchão_ impressionava, quando por entre o fumo do charuto esboçava traços do seu prestigio: «Uma noite no Caffé de la Paix, estando eu a cear com a Cora, com a Valtesse, e com um rapaz muito chic, um principe...» O que o _Rinchão_ tinha visto! o que o _Rinchão_ tinha gozado! Uma condessa italiana, delirante, parenta do Papa, e chamada _Popotte_, amára-o, levára-o aos Campos-Elyseos na sua victoria--cujo velho brazão eram dois chavelhos ncruzados. Jantára em restaurantes onde a luz vinha de serpentinas d’ouro, e os criados, macilentos e graves, lhe chamavam respeitosamente _Mr. le Comte_. E o _Acazar_, com festões de gaz entre as arvores, e a Paulina cantando, FUMO de braços nús, o _Chouriço de Marselha_-- eveláralheFUMO a verdade, a grandeza da civilisação. FUMO FUMO --Viste Victor Hugo? perguntou um rapaz de FUMO lunetas FUMO pretas, que roía as unhas.

chegou de Paris: e um domingo, á noitinha, á volta da Novena de S. Caetano, entrando no Martinho, encontrei-o, rodeado de rapazes, contando ruidosamente os seus feitos d’amor e de gentil audacia em Paris. Tristonho, puxei um banco e fiquei a ouvir o _Rinchão_. Com uma ferradura de rubis na gravata, o monoculo pendente d’uma fita larga, uma rosa amarella no peito, o _Rinchão_ impressionava, quando por entre o fumo do charuto esboçava traços do seu prestigio: «Uma noite no Caffé de la Paix, estando eu a cear com a Cora, com a Valtesse, e com um rapaz muito chic, um principe...» O que o _Rinchão_ tinha visto! o que o _Rinchão_ tinha gozado! Uma condessa italiana, delirante, parenta do Papa, e chamada _Popotte_, amára-o, levára-o aos Campos-Elyseos na sua victoria--cujo velho brazão eram dois chavelhos ncruzados. Jantára em restaurantes onde a luz vinha de serpentinas d’ouro, e os criados, macilentos e graves, lhe chamavam respeitosamente _Mr. le Comte_. E o _Acazar_, com festões de gaz entre as arvores, e a Paulina cantando, de braços nús, o _Chouriço de Marselha_-- evelára-lhe a verdade, a grandeza da civilisação. --Viste Victor Hugo? perguntou um rapaz de lunetas 5 pretas, que roía as unhas.


-NĂŁo, nunca andava cĂĄ na roda chic! 6


Toda essa semana, então, a idéa de vêr Paris brilhou incessantemente no meu espirito, tentadora e cheia de suaves promessas... E era menos o appetite d’esses gozos do Orgulho e da Carne com que se abarrotára o _Rinchão_, que a anciedade de deixar Lisboa, onde igrejas e lojas, claro rio e claro céo, só me lembravam a Adelia, o homem amargo de capa á hespanhola, o beijo na orelha perdido para sempre... Ah! se a titi abrisse a sua bolsa de sêda verde, me deixasse mergulhar dentro as mãos, colher ouro, e partir para Paris!... Mas, para a snr.^a D. Patrocinio, Paris era uma região ascorosa, cheia de mentira, cheia de gula--onde um povo sem santos, com as mãos maculadas do sangue dos seus arcebispos, está perpetuamente, ou brilhe o sol, ou luza o gaz, commettendo uma _relaxação_. Como ousaria eu mostrar á titi o desejo immodesto de visitar esse lugar de sujidade e de treva moral?...

7


arroz


Logo no domingo porém, jantando no Campo de Sant’Anna os amigos dilectos, aconteceu fallar-se, ao cozido, d’um sabio condiscipulo do padre Casimiro que recentemente deixára a quietação da sua cella no Varatojo, para ir esposar, entre foguetes, a trabalhosa Sé de Lamego. O nosso modesto Casimiro não comprehendia esta cubiça d’uma mitra, cravejada de pedras vãs: para elle a plenitude d’uma vida ecclesiastica era estar assim aos sessenta annos, são e sereno, sem saudades e sem temores, comendo o

-inho

do forno da snr.^a D. Patrocinio das Neves... 9


--Porque deixe-me dizer-lhe, minha respeitavel senhora, que este seu arroz está um primor!... E a ambição de ter sempre um arroz d’estes, e amigos que o apreciem, parece-me a mais legitima e a melhor para uma alma justa... E assim se veio a discursar das acertadas ambições que, sem aggravo do Senhor, cada um podia nutrir no seu coração. A do tabellião Justino era uma quintasinha no Minho, com roseiras e com parreiras, onde elle pudesse acabar a velhice, em mangas de camisa, e uietinho. --Olhe, Justino, disse a titi, uma coisa que lhe havia de fazer falta era a sua missa na Conceição Velha... Quando a gente se acostuma a uma missinha, não ha outra que console... A mim, se me tirassem a de Sant’Anna, parece-me que começava a definhar... Era o padre Pinheiro que a celebrava; a titi, enternecida, collocou-lhe no prato outra aza de gallinha;--e padre Pinheiro revelou tambem a ambição que o pungia. Era elevada e santa. Queria vêr o Papa restaurado n’esse throno forte e fecundo em que resplandecera Leão X... --Se ao menos houvesse mais caridade com elle! exclamou a titi. Mas o Santissimo Padre, o vigariosinho de Nosso Senhor, assim n’uma masmorra, em farrapos, sobre palha...

10


É de Caipházes, é de judeus!

11


Bebeu 12

um gole da sua


agua morna


...


e recolheu-se ao retiro da sua alma—a rezar a AveMaria que sempre offertava pela saude do Pontifice e pelo termo do seu captiveiro. O dr. Margaride consolou-a. Não acreditava que o Pontifice dormisse sobre palhas. Viajantes esclarecidos afiançavam-lhe até que o Santo Padre, querendo, podia ter arruagem. -Não é tudo; está longe de ser tudo o que compete a quem usa a tiára; mas uma arruagem, minha senhora, é uma grandissima commodidade... Então o nosso Casimiro, risonho, desejou saber (já que todos patenteavam as suas ambições) qual era a do douto, do eminente dr. Margaride. -Diga lá a sua, dr. Margaride, diga lá a sua! clamaram todos, com affecto.

15


16

Elle sorria,


grave.


-Deixe-me v. exc.^a primeiro, D. Patrocinio, minha senhora, servir-me d’essa lingua guizada, que marcha para nós e que me parece preciosa. Depois de fornecido, o veneravel magistrado confessou que appetecia ser Par do Reino. Não por alarde de honras, nem pelo luxo da farda; mas para defender o principio sacro da authoridade... -Só por isto, acrescentou com energia. Porque desejava tambem, antes de morrer, poder dar, se v. exc.^a, D. Patrocinio, me permitte a expressão, uma cacheirada mortal no theismo e na anarchia. E dava-lh’a! Todos declararam fervorosamente o dr. Margaride digno d’esses fastigios sociaes. Elle agradeceu, seriissimo. Depois volveu para mim a face magestosa e livida: -E o nosso Theodorico? O nosso Theodorico ainda não nos disse qual era a sua ambição.

Córei

18


i:


e Paris logo rebrilhou ao fundo do meu desejo, com as suas serpentinas de ouro, as suas condessas primas dos Papas, as espumas do seu champagne--fascinante, embriagante, e adormentando toda a dôr... Mas baixei os olhos; e affirmei que só aspirava a rezar as minhas corôas, ao lado da titi, com proveito e com descanso... O dr. Margaride porém pousára o talher, insistia. Não lhe parecia um desapego de Deus, nem uma ingratidão com a titi, que eu, intelligente, saudavel, bom cavalleiro e bacharel, nutrisse uma honesta cubiça... -Nutro! exclamei então decidido como aquelle que arremessa um dardo. Nutro, dr. Margaride. Gostava muito de vêr Paris.

20


-Cruzes!


...gritou a snr.^a D. Patrocinio, horrorisada. ir a Paris!... -Para vêr as igrejas, titi! -Não é necessario ir tão longe para vêr bonitas igrejas, replicou ella, rispidamente. E lá em festas com orgão, e um Santissimo armado com luxo, e uma rica procissão na rua, e boas vozes, e respeito, e imagens de dar gosto, ninguem bate cá os nossos portuguezes!... Calei-me, esmagado. E o esclarecido dr. Margaride applaudiu o patriotismo ecclesiastico da titi. Decerto, não era n’uma republica sem Deus, que se deviam procurar as magnificencias do culto... -Não, minha senhora, lá para saborear coisas grandiosas da nossa santa religião, se eu tivesse vagares, não era a Paris que ia... Sabe v. exc.^a onde eu ia, snr.^a D. Maria do Patrocinio? -O nosso doutor, lembrou o padre Pinheiro, corria direito a Roma... -Upa, padre Pinheiro! Upa, minha cara senhora! Upa? Nem o bom Pinheiro, nem a titi comprehendiam o que houvesse de superior a Roma pontifical! O dr. Margaride então ergueu solemnemente as sobrancelhas, densas e negras como ebano. -Ia á Terra Santa, D. Patrocinio! Ia á Palestina, minha senhora! Ia vêr Jerusalem e o Jordão! Queria eu tambem estar um momento, de pé, sobre o Golgotha, como Chateaubriand, com o meu chapéo na mão, a meditar, a embeber-me, a dizer «salvè!» E havia de trazer apontamentos, minha senhora, havia de publicar impressões historicas. Ora ahi tem v. exc.^a onde eu ia... Ia a Sião!

23


Servira-se o lombo assado; e houve,

por sobre os pratos, um recolhimento reverente a esta evocação da terra sagrada onde padeceu o Senhor. Eu parecia-me vêr lá muito longe, na Arabia, ao fim de arquejantes dias de jornada sobre o dorso d’um camêlo, um montão de ruinas em torno d’uma cruz; um rio sinistro corre ao lado entre oliveiras; o céo arqueia-se mudo e triste como a abobada d’um tumulo. Assim devia ser Jerusalem.

24


Linda viagem! murmurou o nosso Casimiro, pensativo. -Sem contar, rosnou padre Pinheiro, baixo e como ciciando uma oração, que Nosso Senhor Jesus Christo vê com grande apreço, e muito agradece, essas visitas ao seu Santo Sepulchro. -Até quem lá vai, disse o Justino, tem perdão de peccados. Não é verdade, Pinheiro? Eu assim li no _Panorama_... Vem-se de lá limpinho de tudo! Padre Pinheiro (tendo recusado, com mágoa, a couve-flôr, que considerava indigesta) deu esclarecimentos. Quem ia á Terra Santa, n’uma devote peregrinação, recebia sobre o marmore do Santo Sepulchro, das mãos do Patriarcha de Jerusalem, e pagando os rituaes emolumentos, as suas Indulgencias Plenarias... -Não só para si, segundo tenho ouvido dizer, acrescentou o instruido ecclesiastico, mas para uma pessoa querida de familia, piedosa, e comprovadamente impedida de fazer a jornada... Pagando, já se vê, emolumentos dobrados. -Por exemplo! exclamou o dr. Margaride inspirado, batendo-me com força nas costas. Assim para uma boa titi, uma titi adorada, uma titi que tem sido um anjo, toda virtude, toda generosidade!... -Pagando, já se vê, insistiu padre Pinheiro, os emolumentos dobrados!

26


!


A titi não dizia nada; os seus oculos, girando do Sacerdote para o Magistrado, pareciam estranhamente dilatados, e brilhando mais com o clarão interior d’uma idéa: um pouco de sangue subira á sua face esverdinhada.

A Vicencia offereceu o Nós rezamos as graças.

28


arroz d么ce.


Mais tarde no meu quarto, despindo-me, senti-me triste, infinitamente. Nunca a titi me deixaria visitar a terra immunda de França: e aqui ficaria enclausurado n’esta Lisboa onde tudo me era tortura, e as mais rumorosas ruas me aggravavam o ermo do meu coração, e até a pureza do fino céo de estio me recordava a torva perfidia d’essa que fôra para mim estrella e Rainha da Graça... Depois, n’esse dia, ao jantar, a titi parecera-me mais rija, solida ainda, duradoura, e por longos annos dona da bolsa de sêda verde, dos predios e os contos do commendador G. Godinho... Ai de mim! Quanto tempo mais teria de rezar com odiosa velha o fastiento terço, de beijar o pé do Senhor dos Passos, sujo de tanta bocca fidalga, de palmilhar novenas, e de magoar os joelhos diante do corpo d’um Deus, magro e cheio de feridas?

Oh vida entre todas 30


amargurosa!


E jรก nรฃo tinha, para me consolar do enfadonho serviรงo de Jesus, os macios braรงos da Adelia...


33


...

E莽a de

Queir贸s Pedro Ramos n. 21728 Design II


A reliquia