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AVENIDA EM ESPERA PARA A CONSTRUÇÃO DE UM PROGRAMA ESTRATÉGICO DE INTERVENÇÃO NA AV. VÍMARA PERES, NO PORTO DISSERTAÇÃO PARA MESTRADO INTEGRADO EM ARQUITECTURA

PEDRO ANDRÉ OLIVEIRA MONTEIRO FAUP ANO LECTIVO 2008\2009


Docente acompanhante: Arq. Luís Viegas Estágio realizado no período de Setembro 2008 a Março 2009, sob a responsabilidade do Arquitecto Joaquim Manuel Couto Portela


Agradeço ao meu orientador pela sua disponibilidade, criticas e sugestões feitas durante a orientação, ao Arq. Pedro Ramalho, à Porto Vivo – SRU e à Fundação Maria Isabel Guerra Junqueiro e Luís de Mesquita Carvalho pela cedência de material imprescindível, aos meus amigos que me foram repetidamente perguntando pelo trabalho e suportaram as minhas ausências, à Lina e à minha família por todo o apoio e compreensão, que de certa forma tornaram este trabalho possível.


Abstract

The increasing desertification of Oporto historic city is proving to be a problem with which architects and other citizens should consider to find solutions. It’s because the historic town is full of meaning and identity (a the result of hundreds of years of accumulation of experiences) and it can not disappear. In it we understand our history and it is our responsibility to preserve it, so we can guarantee that the next generations can achieve some of its and ours identity. This dissertation takes the revitalization of the city’s historical district as the fundamental issue on which it will develop and build the entire structure of the work. It uses the recent changes brought about by the passage of the Metro as the historic theme of understanding of the possible regenerative strategies. To this end, focuses on the Avenue Vímara Peres and his new character pedestrian to the perception of the whole plot around. In this context the results of the analysis, the weaknesses and opportunities arise as the structuring elements of the themes to be developed. But the insights of history and understanding of matter, always appear as relevant issues in interventions in the consolidated city. Intervening in the historic core is tackling one of the most conflicted of architecture. Without underestimating it, and using all the tools, it is possible to synthesize the density of the surrounding references, creating solutions. This practical work tries to reach an understanding of posible and good ways to achieve solution, more than an absolute solution. While considering the fact that the avenue is in hopes that other major projects are realized to its revitalization, such as Avenida da Ponte.

A crescente desertificação do centro histórico da cidade do Porto afirma-se como um problema sobre o qual os arquitectos e os restantes cidadãos deverão reflectir para encontrar soluções. Porque a cidade histórica plena de significado e identidade, resultado de centenas de anos de acumulação de experiências, não poderá desaparecer. Nela compreendemos a nossa história e por ela, temos a responsabilidade de a preservar. Para que esta ensine também as próximas gerações a sua e nossa identidade. A presente dissertação assume a revitalização do centro histórico do Porto como o tema fundamental, sobre o qual se irá desenvolver e assentar toda a estrutura do trabalho. Utiliza as recentes alterações provocadas pela passagem do Metro pelo centro histórico como mote de compreensão das possíveis estratégias regenerativas. Para tal, debruça-se sobre a Avenida Vímara Peres e no seu novo carácter pedonal, para a percepção de toda a


trama ao redor. Neste contexto os resultados da análise, as fragilidades e as oportunidades, surgem como os elementos estruturadores dos temas a desenvolver. Mas também no descortino da história e na compreensão da matéria, temas sempre relevantes nas intervenções na cidade consolidada. Intervir nos centros históricos é afrontar um dos temas mais conflituosos da arquitectura. Sem a subestimar, ao utilizar todas as ferramentas, é possível sintetizar a densidade de referências da envolvente, criando soluções. O presente trabalho prático procura, mais do que uma solução absoluta, a compreensão dos caminhos para a alcançar. Sem descurar o facto de que a avenida se encontra em espera de que outros projectos de maior dimensão se concretizem para a sua revitalização, como é exemplo a Avenida da Ponte.


ÍNDICE


ÍNDICE

1 INTRODUÇÃO

1

2 DIAGNÓSTICO – CARACTERIZAÇÃO DO PROBLEMA

5

2.1 Entidades reguladoras do património

11

2.2 Edificado

13

2.3 Funções do edificado

15

2.4 Equipamentos culturais

17

2.5 Turismo

19

2.6 Espaços verdes

21

2.7 Estrutura viária e comercial

22

3 CARACTERIZAÇÃO DO LUGAR

27

3.1 Muralha românica

31

3.2 Cidade alta | Cidade baixa

33

3.3 Ponte Luís I

34

3.4 Intervenção Avenida da Ponte

35

4 BASES TEÓRICAS

39

4.1 Revitalização dos centros históricos

42

4.2 O conceito de incerteza na projectação urbanística

45

4.3 Vazios urbanos

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5 PROPOSTA DE INTERVENÇÃO

49

5.1 Objectivos do projecto de estudo

53

5.2 Potencialidades

55

5.3 Espaços públicos

59

5.4 Valorização cultural

66

5.5 Ampliação à fundação e reabilitação de área em abandono 69

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

79

7 FONTES BIBLIOGRÁFICAS FONTES BIBLIOGRÁFICAS

85

8 ANEXOS

89


INTRODUÇÃO


1 INTRODUÇÃO

A recente intervenção da Metro do Porto sobre a Ponte D. Luís I, na sua extensão a Gaia, provocou um “esvaziar” de conteúdo funcional e uma mudança de carácter da Avenida Vímara Peres ao impedir a circulação automóvel. Esta que outrora era uma importante entrada viária na cidade tornou-se apenas utilizável a transições pedestres e como parque de estacionamento. Neste momento, a Avenida demonstra-se presa à funcionalidade do passado e inadaptada à sua função actual, apresentase como um espaço desarticulado e expectante por uma nova definição. A resolução deste problema será o objecto fulcral, sobre o qual se irá desenvolver e fundamentar toda a estrutura do trabalho. Numa primeira fase é elaborada a descrição do problema, através da decomposição e leitura das diferentes camadas urbanas sobrepostas, presentes na área de estudo. Este permitirá o entendimento dos problemas e das oportunidades que deste modo ajudarão a entender o tipo de abordagem a realizar. A individualização da observação urbana em diferentes “layers” permite a colocação dos sujeitos semelhantes ao mesmo nível, clarificando o estudo. Deste modo, evita conexões erradas entre sujeitos que só num panorama superficial se relacionam. A localização da Avenida no centro histórico da cidade do Porto, torna a compreensão da especificidade do “lugar” como o resultado de uma intensa sedimentação de acções e intenções à qual a sociedade reconhece como parte da sua identidade e da sua história. Essa percepção impõe que o exercício projectual tenda para a sua valorização. Para tal, não será realizado um estudo amplo de contextualização histórica do desenvolvimento da cidade do Porto, mas sim uma abordagem minuciosa apenas dos elementos que considero imprescindível evidenciar. No 3


acto de projectar, a escolha dos elementos do tecido envolvente a estabelecer relações assume-se como o primeiro gesto do arquitecto. Este modo prático e emotivo de actuação assume a solução do problema (propósito da presente dissertação) e do projecto como os elementos estruturadores das referências históricas necessárias à sua elaboração. A disciplina da arquitectura finaliza o “tripé” necessário para a construção de um programa estratégico de intervenção na Av. Vímara Peres. O problema e o “lugar” determinam a escolha dos temas arquitectónicos fundamentais a considerar, que no presente caso se considera pertinente: o tema do estudo da revitalização dos centros históricos; da incerteza na projectação urbanística; e dos vazios urbanos. A proposta de intervenção sintetiza de um modo prático todos estes diferentes parâmetros resolvendo o problema actual. Que se desenvolve desde o campo do urbanismo, passando pelo “espírito do lugar” até à pele da cidade. Este estudo não ambiciona ser mais do que uma análise do problema e uma proposta para aquilo que poderia ser o início do desenrolar de uma reflexão projectual mais consistente.

4


DIAGNÓSTICO CARACTERIZAÇÃO DO PROBLEMA

2.1 Entidades reguladoras do património

2.2 Edificado

2.3 Funções do edificado

2.4 Equipamentos culturais

2.5 Turismo

2.6 Espaços verdes

2.7 Estrutura viária e comercial


2 DIAGNÓSTICO – CARACTERIZAÇÃO DO PROBLEMA

“O conhecimento de uma cidade será tanto maior, quanto maior for a eficácia de análise das suas componentes, ou seja, as distintas funções sobrepostas da vida quotidiana.”1

O seguinte diagnóstico tem como objectivo melhorar a compreensão das fragilidades e potencialidades da área de estudo. Este, tal como o nome indica, complementa a análise com uma abordagem propositada, quase projectual, não se limitando a uma simples observação objectiva. Deste modo, clarifica as fragilidades existentes e reflecte sobre as suas possíveis soluções. Este capítulo propõe estudar a zona de diferentes formas, com a intenção de encontrar as oportunidades aí presentes. As conclusões provenientes servirão de base para o tipo de abordagem que será realizado no estudo prático. A Avenida Vímara Peres localiza-se no centro histórico da cidade do Porto, entre o bairro da Sé e o da Vitoria. Caracteriza-se sobretudo por receber o fluxo proveniente do tabuleiro superior da ponte Luís I. Esta inserese no histórico sistema axial de ligação entre os núcleos administrativos das cidades do Porto e Gaia, que outrora foi um importante eixo viário de ligação Norte/ Sul. O carácter deste eixo foi completamente alterado com a inserção do metro na Ponte Luís I, em substituição do tráfego automóvel. Provindo da ponte, o metro utiliza a avenida para o seu percurso descendente, realizando em túnel a ligação com a estação de S. Bento, libertando assim a restante área da avenida. Confinante à Ponte Luís I na margem do Porto, a Avenida assume actualmente uma utilização predominantemente pedonal, apesar do calibre BENÉVOLO, Leonardo, Diseño de la ciudad – 5: El arte y la ciudad contemporânea, Barcelona, 1977. 1

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1

8


abastado que possui, proveniente do seu anterior carácter suportando duas vias viárias e passeios pedestres. Possui sensivelmente 145m de extensão e um declive moderado descendente em relação ao rio, utilizando um pavimento único em micro cubo de granito. A compreensão do novo carácter da Avenida Vímara Peres passa de modo indiscutível pelo entendimento das diferentes redes morfológicas da cidade na qual está inserida, indo da macro-escala até à característica mais particular.

1 Foto aérea de localização da Avenida Vímara Peres e área de estudo 9


2

Área Crítica de Recuperação e Reconversão Urbanística (ACRRU) Zona de Itervenção Prioritária (Z.I.P.) Património Mundial da UNESCO

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2.1 Entidades reguladoras do património

LEGISLAÇÃO INTERNACIONAL a. Convenção do Património Mundial, sobre a Protecção do Património Mundial, Cultural e Natural, Paris, 16 de Novembro de 1972 (aprovada a adesão através do Decreto n.º 49/79 de 6 de Junho). LEGISLAÇÃO NACIONAL b. Lei de bases da política e do regime de protecção e valorização do património cultural (Lei n.º 107/2001 de 8 de Setembro). LEGISLAÇÃO LOCAL c. Regulamento do Plano Director Municipal do Porto (Resolução do Conselho de Ministros nº 19/2006 de 26 de Janeiro). d. Código Regulamentar do Município do Porto (Edição da Câmara Municipal do Porto, publicado no D.R. n.º 56, Série II de 2008-03-19 e separata ao Boletim Municipal nº 3720, de 3 de Agosto). PLANOS LOCAIS e. Masterplan - Revitalização Urbana e Social da Baixa do Porto, desenvolvido pela Porto Vivo, SRU.

2 Enquadramento dos Limites Administrativos in Proposta de Masterplan da Porto Vivo - SRU

A crescente consciencialização da importância da reabilitação do património físico e cultural surge como elemento de valorização e desenvolvimento da cidade. Consequentemente, estamos perante um aumento na criação de planos e intervenções no centro histórico, não apenas o de carácter monumental, mas também de unidades significantes da cidade existente. Estes trabalhos visam articular a “cidade antiga” e a “cidade recente”, trabalhando o organismo urbano de forma a salvaguardar a sua qualidade de vida e as relações assentes entre a população e o seu cenário físico. No âmbito da preservação do Património Urbano do centro histórico do Porto existem actualmente, várias entidades nacionais e internacionais que o regularizam. Cada uma delas possui poderes diferentes, mas actuam coordenadamente de forma a salvaguardar os interesses patrimoniais da cidade. A Avenida e o edificado envolvente inserem-se na área classificada como Património Mundial da UNESCO, na qual qualquer projecto deverá ter em consideração a imagem e o carácter da zona. A inscrição desta área na lista do Património Mundial demonstra que toda a zona de estudo lhe foi reconhecido o valor urbanístico e sócio-económico, sendo-lhe conferidas medidas e procedimentos de excepção. No âmbito do Plano de Gestão do Centro Histórico do Porto Património Mundial, pedido pela UNESCO para assegurar “uma intervenção guiada para todos os intervenientes e agentes que actuam nestes espaços”2, foi criada a Sociedade de Reabilitação Urbana, Porto Vivo. A Porto Vivo, SRU tem como objectivo coordenar o processo de reabilitação urbana do património degradado da Área Crítica de Recuperação e Reconversão Urbanística (ACRRU) do conselho do Porto, de elaborar estratégias de intervenção e de actuar como mediador entre proprietários e investidores, ou em casos excepcionais, de realizar a obra de reabilitação. Operacionalmente foi delimitada uma área menor, sobre a qual será realizado um esforço extra de reabilitação urbana, intitulada Zona de Intervenção Prioritária (Z.I.P), tendo como principais objectivos: - A re-habitação da Baixa do Porto; - O desenvolvimento e promoção do negócio; - A revitalização do comércio; - A dinamização do turismo, cultura e lazer; - A qualificação do domínio público; De modo a orientar e conduzir o processo de reabilitação urbana, foi criado o “Masterplan” que define os objectivos e metas a atingir, a estratégia e os instrumentos operacionais. Este instrumento caracteriza-se pela sua flexibilidade, orientando uma estratégia operativa enquanto comunica e capta novos agentes de transformação. 2

Em Plano de Gestão do Centro Histórico do Porto Património Mundial

11


3

TOTALMENTE OCUPADO PARCIALMENTE OCUPADO TOTALMENTE DEVOLUTO

4

BOM ESTADO DE CONSERVAÇÃO MEDIO ESTADO DE CONSERVAÇÃO MAU ESTADO DE CONSERVAÇÃO RUINA EDIFÍCIOS EM OBRA

5

EDIFÍCIOS COM HABITAÇÃO OUTRAS OCUPAÇÕES EDIFÍCIOS DEVOLUTOS/ EM RUINA/ EM OBRA

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2.2 Edificado

6

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Tanto a área de estudo como o núcleo central da cidade do Porto possuem actualmente um grave problema de desertificação. O qual podemos comprovar no esquema anterior, de análise face ao estado de conservação do edificado. Podemos depreender que o índice de ocupação da zona é preocupante, dado que no total dos 40 edifícios presentes apenas 9 se encontram totalmente ocupados, não sendo na sua maioria por usos habitacionais. Estes dois terços de edificado totalmente devoluto deverão representar um desafio para as entidades competentes para a sua revitalização. A fraca existência de actividades comerciais e de residentes permanentes diminui a frequência dos movimentos pedonais na avenida, que intensifica a sua desertificação. As más condições de habitabilidade e segurança do edificado contribuem para o seu abandono. Tendo como base uma análise ao nível do estado de conservação verifica-se que 6 edifícios se encontram em ruína, 16 em mau estado, 11 em médio estado e apenas 6 em bom estado de conservação. Esta análise demonstra a necessidade imediata na recuperação e revitalização do edificado. Pois, a demora na actuação poderá ditar a sua total destruição e uma perda na globalidade do património edificado do centro histórico do Porto.

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3 Planta do estado de ocupação do edificado 4 Planta do estado de conservação do edificado 5 Planta de usos dos pisos superiores 6 Foto Avenida Vímara Peres 7 Foto Avenida Vímara Peres 8 Foto Avenida Vímara Peres 13


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4 MESAS DE ESPLANADA

45 LUGARES DE ESTACIONAMENTO a

a’

6 MESAS DE ESPLANADA

PERCURSO TURISTICO HABITAÇÃO COMÉRCIO TRADICIONAL EQUIPAMENTO RESTAURANTES BARES E CAFÉS EDIFÍCIOS DEVOLUTOS ESPLANADAS ZONA DE ESTACIONAMENTO

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2.3 Funções do edificado

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9 Planta de usos do piso térreo 10 Corte aa’ 11 Foto Avenida Vímara Peres 12 Foto Avenida Vímara Peres

Na acção projectual sobre um tecido consolidado é necessário compreender as funções existentes. Só deste modo as acções projectadas podem possibilitar a sua valorização ou, se incompatíveis, a sua alteração. Em qualquer um dos casos, facilitará o entendimento do tipo de frequentadores da área, modos e zonas de intervenção. A diversidade funcional assume um papel importante na sustentabilidade e humanização do ambiente urbano, preenchendo a área de actividade e serviços fundamentais para a vida da cidade. “A necessidade principal das grandes cidades reside na mistura e integração de funções”3 Apesar do elevado número de instalações desocupadas podemos encontrar alguma diversidade ao nível funcional no piso térreo. Com acesso pela avenida, subsistem actividades do nível comercial como cafés, lojas tradicionais e um restaurante. Os cafés apropriam-se da avenida para a colocação das suas esplanadas, que vivem em comunhão com o estacionamento automóvel. É notório que estes lugares de estacionamento são para quem usufrui da cidade e não das actividades locais. Não existe neste momento quantidade suficiente de espaços comerciais ou habitações ocupadas para assegurar a ocupação constante da avenida, aumentando o sentimento de insegurança. Nos pisos superiores as funções variam entre equipamentos e funções residenciais. Sendo interessante ressaltar o vasto número de equipamentos com entrada pela rua de D. Hugo, contrastando com os restantes habitacionais. E desta forma, se distinguem os acessos que os infraestructuram. Aqui encontra-se instalada a sede da Ordem dos Arquitectos e o arqueo-sitio (parcela 1), na parcela 11 funciona o Museu da Fundação Maria Isabel Guerra Junqueiro e Luís de Mesquita Carvalho, que para além da biblioteca do pintor Guerra Junqueiro, das salas de pintura e faiança portuguesa, possui um auditório num piso inferior e exterior ao corpo principal do edifício.

JACOBS, Jane; Morte e vida de grandes cidades; Livraria Martins Fontes Editora Ltda. São Paulo, 2000. pág. 148 3

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11

1 9

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2 3

6

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7

1 Sé Catedral 2 Paço Episcopal 3 Igreja e Colegio de S. Lourenço 4 Casa - Museu Guerra Junqueiro 5 Igreja de Santa Clara 6 Ponte Luís I 7 Praça da Ribeira 8 Casa do Infante 9 Pelourinho da Sé 10 Estação de S. Bento 11 Igreja da misericórdia

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13


2.4 Equipamentos culturais

14

O núcleo da Sé possui um importante dinamismo cultural e turístico devido à presença de edifícios únicos, com alto valor patrimonial, religioso e histórico. Tais como a Sé do Porto, o Paço Episcopal e o Convento de Santa Clara, todos eles monumentos nacionais. A envolvência é completada com uma série de vários edifícios de interesse público como o Fontenário do Largo da Sé, a Casa-Museu Guerra Junqueiro, a Capela de São Sebastião e a Ponte Luís I. Este dinamismo preenche a zona quotidianamente de visitantes, que poderão ser o elemento catalisador do comércio e do desenvolvimento das actividades aí presentes. A rua de D. Hugo outrora denominada rua de trás da Sé devido ao seu posicionamento, sustenta vários museus como o Arqueossítio, edifício onde se encontram expostas ruínas arquitectónicas desde os séculos IV-III a.C., a Casa-Museu Guerra Junqueiro e o Museu da Fundação Maria Isabel Guerra Junqueiro e Luís de Mesquita Carvalho. A concentração de um número tão vasto de referências culturais e históricas potencializa o arruamento. Contudo estes espaços possuem uma fraca utilização, muito devido à escassa divulgação e visibilidade. Num esforço para atrair mais visitantes, as diversas entidades deverão colaborar entre si, coordenando exposições e eventos conjuntos. O espaço público deverá ser o elemento estruturador da deambulação entre os museus e seus jardins, edifícios e elementos históricos.

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13 Planta de património classificado 14 Foto Rua D. Hugo, Fundação Maria Isabel Guerra Junqueiro 15 Foto Rua D. Hugo, Casa museu Guerra Junqueiro 16 Foto Rua D. Hugo, Capela Nossa Senhora das Verdades 17


17

3

1

6

4

2 5

1 Largo da Sé 2 Praça da Ribeira 3 Rua Mouzinho da Silveira 4 Rua de S. João Novo 5 Ponte Luís I 6 Av. Vímara Peres

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2.5 Turismo

18

17 Planta de interesse históricocultural 18 Planta pormenor de área passível de transformação

O esquema 17 apresenta-nos os diversos locais de interesse histórico, cultural e religioso bem como os principais percursos pedonais. Na realidade, o verdadeiro motor gerador de maior vitalização do centro do Porto é traduzido pelos interesses culturais, históricos e patrimoniais, tanto da população residente como dos visitantes. Muito embora, tanto uns como outros percorram a cidade com diferentes motivações, que podem passar pelas tradições, eventos, equipamentos, etc. Quando os movimentos se tornam constantes, e quantitativamente qualificáveis, poderão tornar-se estruturadores da cidade em si. Tendo em consideração esta análise, as entidades responsáveis pela promoção cultural e turística deverão repensar a articulação da organização de eventos. A oferta turística e cultural da cidade poderá estender-se a esta área, incluindo tanto a dinamização dos já existentes bem como a criação de novos equipamentos. O largo da Sé assume-se como o espaço de maior proximidade e importância. A relação deste com a Praça da Ribeira e marginal proporciona a deambulação no centro histórico. Mas estes percursos, ao invés de se realizarem pelas vielas do castro histórico, fazem-se ao redor deste pela Rua Mousinho da Silveira e Rua de S. João Novo. O atravessamento da Ponte Luís I em direcção ao Mosteiro da Serra do Pilar é também um percurso muito utilizado. Um percurso que vitaliza a avenida Vímara Peres, utilizado por dezenas de turistas diariamente. De modo a seduzir a deambulação no centro histórico e suas vielas medievais, é necessário diminuir o sentimento de insegurança. Este facto poderá ser ultrapassado através do investimento das acções públicas em impulsionar a ocupação e reabilitação do edificado. Em conjunto, poderão também actuar os incentivos aos investimentos privados. No esquema 17 podem ver-se discriminados, com base no MASTERPLAN da Porto Vivo SRU, potenciais percursos e locais de interesse. Estes espaços permanecem expectantes mas poderão ser importantes para a implementação de equipamentos para a sua estruturação. Inserido nessa área total, pode ser referido o terreno implantado a uma cota mais baixa da avenida (ver fig. 18). Este é limitado pelo alto muro que o separa dos logradouros, bem como pela rua da Sra. Das Verdades e pela travessa de Santa Clara. A área encontra-se totalmente desocupada, tanto internamente como nas construções envolventes. No seu interior predomina o vasto arvoredo, cobrindo as ruínas existentes. Topograficamente este terreno apresenta-se mais natural. Ou seja, em contraste com a avenida, a diferença altimétrica existente impede a leitura continua do espaço; a artificialidade da avenida evidencia-se e a sua relação com a envolvente continua por resolver. Desta forma, este apresenta-se como uma área potencial de investimento por parte das organizações dinamizadoras. 19


19

1 2 3

4

1 Jardim Casa - Museu Guerra Junqueiro 2 Jardim do Paço Episcopal 3 Área verde privada em abandono 4 Área verde de espaçamento da muralha Fernandina

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2.6 Espaços verdes

As áreas centrais consolidadas manifestam normalmente uma carência de espaços verdes, muito devido à forte procura desses terrenos pelos diversos agentes transformadores. No entanto, na encosta Sul da Sé foram deixados vários espaços livres em contraste com o lado contrário que se apresenta densamente construído. Estas zonas verdes são na sua maioria de propriedade privada, sendo o seu acesso bastante restrito. O Paço Episcopal e a Casa-Museu Guerra Junqueiro estão entre os proprietários destas áreas, sustendo amplos jardins muito bem preservados. A cidade do Porto dispõe de várias estruturas verdes, contudo a presença de espaçamentos permeáveis no núcleo central é extremamente importante. Permite a criação de sentimentos de desafogo face à alta densidade. A potencial abertura dos jardins do Paço Episcopal e a CasaMuseu Guerra Junqueiro daria aos residentes e visitantes a oportunidade de usufruir de um espaço verde privilegiado para um momento de pausa e contemplação. Revertendo para uma maior utilização dos ditos museus. A área em torno da Avenida Vímara Peres do lado Sul, intensamente marcada pelo abandono e pela ruína, surge como espaço possível de suportar uma zona verde. Para tal, esta teria de passar para o domínio público e de compreender a sua relação com o edificado que a remata a sul. O seu uso público permitiria a valorização da sua envolvente próxima, como uma zona de contemplação de grande exposição solar. Contudo, a mudança de usos só poderia acontecer se houvesse forte vontade da população residente. Sem o devido cuidado, esta poderia se tornar numa zona de práticas marginais, aumentado a insegurança e por consequência invertendo a revitalização da área circundante.

19 Planta de espaços verdes

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20

PONTE LUIS I Ligação Porto-Gaia -Tabuleiro superior: metro e pedestre -Tabuleiro inferior: automovel e pedestre

22


PONTE DO INFANTE Ligação automovel Porto-Gaia

20 Foto aérea de análise da estrutura viária 23


1

2

6

5

3

7

4

1 Estação de S. Bento 2 Av. D. Henrique 3 Av. Vímara Peres 4 Ponte Luís I 5 Mercado da Vandoma 6 Rua da Banharia 7 Rua dos Mercadores

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21


2.7 Estrutura viária e comercial

Uma das maiores vantagens das áreas centrais está no aproveitamento das infra-estruturas e acessibilidades existentes. A área dispõe de várias infra-estruturas viárias ao nível intermunicipal. Com a passagem do metro para a Ponte Luís I, o trânsito para a Ponte do Infante desvia pela Rua Saraiva de Carvalho, proveniente da Av. D. Afonso Henriques. A Rua Mousinho da Silveira serve de ligação da “alta” com os percursos marginais pela Av. Do Infante e Av. Gustavo Eiffel. A 300m da área de estudo encontra-se a estação de S. Bento com ligações ferroviárias. Um ponto estratégico de serviços de transportes públicos (Metro e CP), onde diariamente circulam centenas de pessoas. A proximidade deste local de alta intensidade de transportes públicos possibilita aos moradores a diminuição do uso do automóvel nas deslocações diárias. Facultando um modo de vida mais saudável. O funicular dos Guindais é também um meio de transporte mecânico de grande preponderância na zona. Este, permite a ligação entre as duas cotas da cidade, relacionando a cidade alta com a ribeirinha. O parqueamento automóvel é limitado. Para além do estacionamento anexo às vias de maior dimensão, existe apenas um parque junto à estação de S. Bento. A avenida Vímara Peres tem sido usada como parque de estacionamento entrando em conflito com as esplanadas que a pretendem ocupar. Actualmente a cidade do Porto possui várias ruas de carácter comercial elevado. Tendo em alguns casos restrito o tráfego automóvel, como é exemplo a Rua de Santa Catarina ou a Rua das Flores prevista no MASTERPLAN do Porto. Estas ruas surgem normalmente indexadas a importantes eixos de tráfego pedonal e assumem uma lógica de comércio tradicional. A Rua da Banharia e a dos Mercadores possuem, segundo a Porto Vivo SRU, capacidade de se tornarem importantes vias comerciais. O mercado da Vandoma poderia englobar-se neste eixo mas apresenta graves índices de degradação e de desajuste com as necessidades funcionais contemporâneas. Contudo, a existência de um mercado ou a realização de feiras periódicas aumentaria a coesão económico-social das actividades locais. Este estudo pretende entender a potencialidade comercial da Avenida Vímara Peres. Principalmente de que modo poderá ser incluída como uma importante via de comércio local, no prolongamento das vias propostas pelo projecto da Porto Vivo SRU.

21 Planta de análise da estrutura viária 25


CARACTERIZAÇÃO DO LUGAR

3.1 Muralha românica

3.2 Cidade alta | Cidade baixa

3.3 Ponte Luís I

3.4 Intervenção Avenida da Ponte


3 CARACTERIZAÇÃO DO LUGAR

“chegamos à História, não por ela, mas pela necessidade que dela sentimos para o ensino ou melhor para a aprendizagem da arquitectura”1

O presente capítulo pretende caracterizar o “lugar” objecto de estudo. Compreender a sua definição formal e seu conteúdo, de modo a clarificar intenções e condicionamentos dos processos simbólicos inerentes à sua localização no centro histórico. “A posição que se assume sobre este complexo passado de sedimentos vários e todos significativos é tão importante como a manifestação do desejo de construir o futuro. Assim, de forma obrigatoriamente cultivada, se constrói o conceito/desenho e se decide sobre a linguagem. O que queremos com a história é tornar este processo de conceptualização consciente e responsável”2 Ao invés de um contexto histórico abrangente da cidade do Porto, e em reforço do âmbito prático da prova, os seguintes sub-temas provêm da anterior análise do problema. Sintetizando as referências históricas aos elementos essenciais para construção de um programa estratégico de intervenção na Avenida Vímara Peres.

ALVES COSTA, Alexandre, Requalificação urbana = urban redevelopment, Arquitectura Ibérica, nº 18, Caleidoscópio, Ed. Casal de Cambra, 2007. 2 Idem 1

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4 5

b

c

1

a 2 3

d

1 Sé Catedral 2 Rua D. Hugo 3 Av. Vímara Peres 4 Av. D. Henrique 5 Rua do Chã a Porta da Vandoma b Porta de São Sebastião c Porta de Sant’Ana d Porta das Mentiras

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3.1 Muralha românica

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A área de estudo localiza-se junto à zona onde vários autores consideram ter existido “uma povoação de certa importância e provavelmente anteromana”3, primeiro numa zona de média altitude, a Cividade no século VIII a.C.4 e mais tarde nas “colinas que dominam a costa atlântica e o vale do Douro especialmente Penaventosa (82 metros).”5 Os povos sucederam-se mas todos eles se estabeleceram ali, no alto de Pena Ventosa. Crê-se que esta escolha topográfica estaria relacionada com a natureza da sua implantação defensiva, com a ligação com outros aglomerados cívicos e ainda com a existência de três cursos de água em redor, um ribeiro a nascente, o Rio da Vila a Oeste e o rio Douro a Sul. Na era romana a zona adquiriu uma nova importância como ponto estratégico de atravessamento do rio, inserida na via romana de ligação Norte – Sul. Possivelmente “a comandar as operações do tráfego de passagem na beira-rio; a fornecer mão-de-obra indígena a essas tarefas e às da carroçagem que para Norte se reiniciava.”6 Toda esta situação permitiu a fortificação através da construção de uma cerca amuralhada no século III. Até ao século XIII, tal como refere Luís de Oliveira Ramos, “o Porto era um muro fosco e diminuto, lá no alto, em torno da Pena Ventosa. A cidade era o Morro da Sé.” 7 No fundo, o Porto limitava-se ao espaço interior da muralha românica. Esta cerca, com aproximadamente 750 metros de perímetro e 3 hectares de área, delimitava o morro que continha a Sé como centro. A muralha primitiva possuía quatro portas: a Porta de Vandoma, a de São Sebastião, a de Sant’Ana e ainda a Porta das Mentiras. A primeira localizavase no enfiamento da actual Rua Chã, próxima do local onde no século XV se construiu o paço municipal. Já a Porta de São Sebastião destacava-se por ser a mais nobre, pois permitia a passagem de carros. Por seu lado, a Porta de Sant’Ana, conhecida na Idade Média como o Portal, localizava-se na rua do mesmo nome paralela à rua dos Mercadores. Por fim, a Porta das Mentiras, que no século XIV se torna na Porta da Nossa Senhora das Verdades, está inserida já na zona Sul da muralha e no percurso mais íngreme de quem procedia da ribeira. A Muralha Românica não é perceptível nos dias de hoje. O único trecho visível desta encontra-se junto ao arque-sítio edifício cunhal entre a Avenida Vímara Peres e a calçada da Vandoma. No entanto, assume um papel importante na compreensão da organização e disposição urbana do morro da Sé, para além do seu valor simbólico como limite da cidade antiga e noção OLIVEIRA, J. M. Pereira de; O espaço urbano do Porto : Condições naturais e desenvolvimento; Coimbra : Centro de Estudos Geográficos, Instituto de Alta Cultura, 1973. Pág 182 4 GUARDIÁ, Manuel; Atlas histórico da ciudades europeas : Península Ibérica; Barcelona : Salvat, 1994-1996. Vol.1- Peninsula Ibérica. pág. 128 5 Idem 6 OLIVEIRA, J. M. Pereira de; O espaço urbano do Porto : Condições naturais e desenvolvimento; Coimbra : Centro de Estudos Geográficos, Instituto de Alta Cultura, 1973. Pág 183 7 RAMOS, Luís A. de Oliveira; História do Porto; Porto: Porto Editora, 1994. pág. 124 3

22 Planta do edificado e da muralha Românica 23 Foto da muralha Românica junto à Avenida Vímara Peres

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de evolução urbana. A reminiscência da cidade medieval perdura na disposição do edificado. Do lado poente desta, um maciço casario cobre a área. Uma zona de alta densidade atravessada por estreitas vielas, onde o sol tem dificuldade em entrar. Do lado inverso, ao invés, observamos a dispersão do edificado. Não ocupando a totalidade das frentes de rua, cria grandes espaçamentos entre edificações. A escala de construções recentes embate com a das construções do sec. XVII, num gesto que eleva a tensão subjacente do espaço. Com acesso pela rua de D. Hugo, palacetes com extensos logradouros voltam-se para sudoeste, aproveitando a exposição solar e a maravilhosa vista para o Douro. Este volume faz frente de rua com a avenida Vímara Peres próximo do cruzamento da Vandoma, mas de seguida afasta-se e acompanha a topografia do terreno. A avenida e este mesmo volume vêem-se divididos por um conjunto solto de edificado. O construído percorre o antigo trajecto da muralha primitiva, remetendo-nos para a sua memória. Ou melhor, apenas conseguimos criar uma imagem da muralha ao ler sobre ela, pois verdadeiramente nunca saberíamos como era. A imagem que remanesce é a da fortificação, apesar das numerosas aberturas do casario. Compreendo que a forma convexa do alto muro que divide os logradouros do vasto terreno desocupado tem uma enorme importância na imaginabilidade de espaço fortificado. Linch caracteriza o desenvolvimento da imagem como um “processo duplo entre observador e observado,”sendo possível “reforçar a imagem quer através de projectos simbólicos, quer através do exercício contínuo do receptor, quer através da remodelação do ambiente de cada um”.8 A importância da memória na projectação no centro histórico é nos referida pelo Arquitecto Siza Vieira a quando do seu projecto para a requalificação da Av. D. Afonso Henriques, diz que o seu projecto e o de Távora “ concorrem para a reinserção do morro da Sé no Centro Histórico, assente no estudo da evolução da cidade e das suas pequenas e grandes transformações, utilizando documentos históricos e observando os testemunhos directos ou indirectos gravados no território, articulando esse estudo com o que neste momento é projecto.”9

LYNCH, Kevin; A Imagem da Cidade; Lisboa: Edições 70, 1996. Pag. 21 COSTA, Alexandre Alves in REAL, Manuel Luís; A ponte e a avenida : contradições urbanísticas no centro histórico do Porto / coord. Manuel Luís Real, Maria Helena Gil Braga; Porto : Câmara Municipal do Porto, 2001, pág. 83 8 9

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3.2 Cidade alta | Cidade baixa

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24 Vista para a Sé 25 Vista do enquadramento vertical do edificado 26 Gravura do Porto na época Mercantilista

A cidade do Porto desde cedo se desenvolveu em dois pólos, um eclesiástico implantado à cota elevada e outro privilegiadamente burguês situado na zona ribeirinha. A zona “alta” da cidade, simbolicamente marcada pela presença da catedral, afirmou-se como unidade religiosa e do poder sobre a cidade. Enquanto que a “baixa” lugar ligado ao comércio, somente na segunda metade do século XIV garantiu uma importância fulcral para o desenvolvimento da cidade. “ Foi assim que o Porto viu fugir lentamente a sua Baixa, subindo encosta acima…, instalando-se na Praça das Hortas em plena alta da cidade que passou a ser moderna”10 O comércio efervescente que se fazia sentir na cidade, em grande parte proveniente das exportações do vinho do Porto, levou ao desmedido crescimento da cidade. Os dois pólos deixaram de se compreender fisicamente, pois a “Baixa” mercantilista e do “poder monárquico e municipal”11 alcançou a “Alta”, descaracterizando a bipolaridade do Porto. O objecto de estudo encontra-se nesta “alta”, que outrora se poderia designar como “acrópole eclesiástica”, mas que com o decorrer dos anos foi “ficando cada vez mais à desbanda do Porto progressivo e acabou por se tornar, rápida e definitivamente, o símbolo majestoso de um poder defunto – o dos senhores eclesiásticos sobre a sociedade política.”12 A Avenida Vímara Peres viveu, até à introdução do Metro na ponte, do fluxo viário de ligação entre o Porto e Gaia. Mas a recente intervenção distinguindo-a como espaço pedonal, obriga a repensar as suas ligações com a malha envolvente. Na verdade o seu novo uso pedonal facilita a sua conexão com os percursos, actualmente marginais, com a baixa da cidade. Na garantia de um espaço privilegiado que estrutura as ligações entre a cota alta e cota baixa, definindo um início, um meio e um fim de um percurso que considero importante revitalizar.

Domingos Tavares - REAL, Manuel Luís; A ponte e a avenida : contradições urbanísticas no centro histórico do Porto / coord. Manuel Luís Real, Maria Helena Gil Braga; Porto: Câmara Municipal do Porto, 2001 11 RAMOS, Luís A. de Oliveira; História do Porto; Porto: Porto Editora, 1994. 12 RAMOS, Luís A. de Oliveira; História do Porto; Porto: Porto Editora, 1994. 10

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3.3 Ponte Luís I

No final do séc. XIX, com o crescimento da industrialização na cidade do Porto, e com os melhoramentos da rede viária e transportes, surge a necessidade de substituição da antiga ponte pênsil por uma estrutura que unisse as duas cidades separadas pelo Rio Douro. Pretendia-se uma ponte metálica que duplicasse as ligações entre o Porto e Vila Nova de Gaia, de modo a manter a travessia à cota inferior na zona ribeirinha, mas acrescentando uma ligação à cota elevada inserida no novo eixo de ligação Norte/Sul. Desta forma, os centros administrativos aproximar-se-iam num ponto onde ambas as margens se apresentam à mesma cota. Inaugurada a 31 de Outubro de 1886, a Ponte Luís I solucionou as necessidades viárias do território. Torna-se num importante eixo viário e na única ligação da cidade do Porto a Sul, até à construção da ponte da Arrábida. Esta construção assume-se como um gesto simbólico e progressista demonstrando a vontade de expansão da cidade à cota alta. “A ponte é, antes de mais nada, para além de ser muito bem resolvida, um gesto de modernidade e de afirmação da própria cidade, enquanto cidade burguesa.”13 No local onde desemboca a Ponte Luís I nasce a avenida Vímara Peres. É de destacar a intenção generalizada de a coligar directamente com a antiga praça de D. Pedro (actual Praça da Liberdade), que até então não se realizava directamente. Ou seja, para alcançar o centro vindo da avenida existiam apenas dois trajectos, ou em direcção à Praça da Batalha ou então pelas estreitas ruas do Chã e Loureiro. A extensão da avenida Vímara Peres assemelhava-se à actual, até à entrada da calçada da Vandoma e rua Chã. Sendo que a ligação directa com o centro do Porto, através da demolição do corpo da guarda, se concluiu apenas em 1954, ainda que sem um projecto que a clarificasse.

DIAS, Manuel Graça - Ao volante, pela cidade : dez entrevistas de arquitectura. Lisboa : Relógio D’Água, 1999. pág. 205 13

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3.4 Intervenção Avenida da Ponte

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27 Foto do Porto e da Ponte Pênsil 28 Foto construção da Ponte Luís I 29 Foto da Ponte Luís I antes da demolição da Ponte Pênsil 30 Planta do Corpo da Guarda antes das demolições 31 Foto aérea da Avenida D. Henrique

No percurso de subida da Av. D. Henrique, observamos ao longe as torres da Sé e o volume de construído envolvente. A caminhada parece longa, e tudo parece longe: a Sé, o bairro da Sé e o da Guarda. Os amplos passeios sugerem-se demasiado largos para o fluxo de pessoas que os transitam. Chegado ao cume, o sentimento perdura e tudo parece amplo de mais. As referências perderam-se. A definição do remate da Rua do Chã ocupa uma potencialidade estratégica para a definição do percurso para a Sé. Contém em si a possibilidade de organizar e coligar a malha existente, promovendo o sentido do lugar. A catedral envolve a zona. Centraliza e vive da relação com o edificado periférico e seus percursos. Não busca a monumentalidade, mas sim a proximidade e a relação com o espaço envolvente. Este, quando percorrido, permite-nos compreender a sua escala, a nossa escala. De um modo que facilmente o entendemos como um todo, uma unidade. Mas tal entendimento provém muito da construção do edifício dos Paços do Conselho pelo Arquitecto Fernando Távora, no qual “consagra uma alteração radical dos propósitos de visibilidade integral da Sé, de “higienização” geral do espaço e de monumentalização do conjunto”14, evocando o edifício original num gesto entendido como um “obstáculo” vertical que envoca a história mas tem, também, uma legitimidade moderna, permite quebrar a horizontalidade que envolve a Sé e o Paço Episcopal e retomar uma escala e uma tensão de proximidade que está arredada deste lugar desde os anos 40.”15 Depois de inúmeros projectos e de mais que um século de incerteza, face às demolições ocorridas para a abertura da ligação directa entre a ponte Luís I e o centro do Porto, a clarificação deste trecho de cidade continua por resolver. Só a circulação viária e pedestre Norte – Sul foi resolvida, permanecendo uma desarticulação dos movimentos transversais e do restante construído. A ligação directa e monumental com o centro dos percursos viários vindos do Sul foi desde os primeiros estudos de Barry Parker o principal parâmetro a resolver. Estes projectos assumem a catedral como um elemento a enaltecer, sendo o restante tecido urbano passível de demolição. Tal modo de pensar, propunha uma cidade renovada nas suas infra-estruturas viárias e edificação em detrimento das construções e vias tradicionais consideradas infuncionais e de pouca salubridade. Tais demolições acabariam por se concretizar na década 50 abrindo uma “ferida”16 na cidade que nunca mais COSTA, Alexandre Alves in REAL, Manuel Luís; A ponte e a avenida : contradições urbanísticas no centro histórico do Porto / coord. Manuel Luís Real, Maria Helena Gil Braga; Porto : Câmara Municipal do Porto, 2001, pág. 85 15 Idem 16 expressão proferida por Alexandre Alves Costa em Dias, Manuel Graça - Ao volante, pela cidade : dez entrevistas de arquitectura. Lisboa : Relógio D’Água, 1999. pág. 207 14

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se resolveu. Com uma maior sensibilidade face à morfologia local, os projectos de Fernando Távora e Luís Cunha centraram-se na requalificação e integração da zona, alterando os pressupostos objectivos. Estas intervenções vêm em concordância com o actual modo de pensar a reabilitação do património, no qual se compreende que o valor e o sentido do património provêm das relações entre o monumento e seu tecido urbano, como uma unidade simbólica compreendida no tempo. A proposta de Siza de 2001 distingue-se claramente daquela apresentada em 68. Ao invés de uma construção de linguagem e funcionalidade nova, assumindo o contraste com a cidade existente, a nova proposta adopta o lugar e a memória como elementos estruturadores da solução que visa unificar a complexidade urbana. “…superada a fase da arquitectura em que se pensava que a unidade da linguagem resolvia alguma coisa e reconhece a complexidade da cidade constituída por fragmentos que se adicionam ou sobrepõem.”17 A reinserção do morro da Sé no Centro Histórico demonstra ser o objectivo estrutural da proposta para a Avenida da Ponte. Através da realização de um complexo conjunto de edifícios, que constituem um novo equipamento da cidade (Museu da Cidade), Siza refaz alinhamentos e percursos antigos de modo a reestruturar o Bairro e envolvente da Sé. A sua intervenção caracteriza-se pelo modo sensível como as construções propostas se relacionam com a envolvente, de tal forma que todos os SIZA, Álvaro Vieira; CASTANHEIRA, Carlos; As Cidades de Álvaro Siza; 1ª Edição; Lisboa: Livraria Figueirinhas; 2001 17

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elementos existentes neste trecho urbano se assumem como parte integrante da solução, reforçando a sua unidade. A proposta de Siza para a Avenida propõe devolver parte da amarração do tecido urbano, perdida com as demolições, mas também o assumir do gesto funcional levado a cabo pela abertura da avenida, caracterizado pela permanência da pedreira. Observando a cidade como um conjunto de elementos fragmentados no tempo, a extensão de granito

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irregular resultante do corte deste trecho urbano garantiu, com o decorrer dos anos, a possibilidade de existir. A introdução do Metro do Porto sobre a Ponte Luís I, ao impedir a circulação automóvel, provocou um “esvaziar” de conteúdo funcional e uma mudança de carácter da Avenida Vímara Peres. Apesar da consciência da notoriedade da articulação do projecto da Avenida Afonso Henriques com a Ponte, o projecto de Siza não propôs mais que a sua pavimentação. Relegando à Avenida Vímara Peres um carácter pedonal, associado ao percurso de ligação a Gaia, o tráfego viário passa a ser desviado para nascente ou para a zona da Sé. Neste momento, a Avenida demonstra-se presa à funcionalidade do passado e inadaptada à sua função actual. Apresenta-se como um espaço desarticulado e expectante por uma nova definição. A construção da proposta para a Avenida da Ponte seria um enorme impulso, talvez o maior, para a revitalização de toda a zona da Sé. Que para além de rematar um espaço inóspito e incompreensível ao olhar, traria a vida que esta zona de tanto carece.

32 Planta projecto Arq. Távora para a Av. da Ponte 33 Desenho Arq. Távora Av. da Ponte 34 Desenho Arq. Távora Av. da Ponte 36 Desenho Arq. Siza Av. da Ponte projecto de 68 37 Desenho Arq. Siza Av. da Ponte projecto de 68 37 Maqueta Arq. Siza Av. da Ponte 38 Maqueta Arq. Siza Av. da Ponte 39 Planta projecto Arq. Siza para a Av. da Ponte 37


BASES TEÓRICAS

4.1 Revitalização dos centros históricos

4.2 O conceito de incerteza na projectação urbanística

4.3 Vazios urbanos


4 BASES TEÓRICAS

O Projecto de Estudo, posteriormente desenvolvido, apresenta propostas relacionadas com temas críticos que inúmeras vezes são referidos em estudos teóricos relativos à conservação e revitalização de aglomerados centrais históricos. Neste capítulo, são enumeradas e descritas as reflexões teóricas nas quais se baseará o referido Projecto de Estudo. O contexto histórico mostra-nos que, ao longo de vários anos o tema da conservação e revitalização de aglomerados centrais históricos foi tema central de várias reflexões de arquitectos e urbanistas. Em 1964 a aprovação da Carta de Veneza deu forma aos princípios fundamentais do restauro e conservação dos monumentos, exigindo responsabilidades às nações na sua preservação como testemunho do património comum da humanidade. Porém actualmente, os esforços pretendem compreender o que se poderá fazer face às alterações profundas que tem vindo a acontecer nos centros históricos. Que temas da disciplina da arquitectura são abordados e como o urbanismo tenderá para a sua resolução.

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4.1 Revitalização dos centros históricos

A cidade do Porto, tal como a maioria das cidades europeias, conserva no seu centro um aglomerado histórico. Consegue manter o seu traçado de génese medieval apesar das várias intervenções na abertura de novas ruas para a sua modernização. De acordo com Benévolo, uma cidade, na sua essência, apresenta “um organismo unitário e bem distinto da coroa dos bairros periféricos; a rede de estradas e de canais corresponde ainda em parte à antiga, isto é, forma um sistema coerente, em que despontam as novas artérias modernas como episódios parciais; os limites do agregado estão ainda marcados por muralhas e fossos, ou então pelas avenidas e espaços verdes que os substituíram; as casas antigas formam ainda a maior parte da textura de construção actual, de tal forma que as casas modernas se distinguem com excepções mais ou menos evidentes.”1 Por sua vez, o Porto conseguiu manter os “edifícios de habitação das áreas mais antigas da cidade, erguidos em lotes de frente estreita e grande profundidade, concordantes e aderentes à modelação do relevo”, que conforme referido pelo arquitecto Francisco Barata Fernandes “são um facto urbano e arquitectónico que imediatamente se interioriza e memoriza, como caracterizador da cidade do Porto”2 Nem sempre se considerou a velha cidade como património específico, susceptível de ser preservado como um monumento histórico. “A conversão da cidade material em objecto de saber foi provocada pela transformação do espaço urbano consecutivo à revolução industrial: abalo traumático do meio tradicional, emergência de outras escalas viárias e parcelares. É então que, pelo efeito da diferença e pelo contraste, a cidade antiga se torna em objecto de investigação.”3 Nasce desta forma uma nova disciplina a que se deu o nome de urbanismo. “Mas este estudo que opõe a cidade do passado à do presente não significa por isso querer conservar as primeiras”4 Contudo, “quer o urbanismo se ocupe em destruir os conjuntos urbanos antigos, quer tente preservá-los, é ao tornar-se num obstáculo ao livre desenvolvimento de novas modalidades de organização do espaço urbano que as formações antigas adquiriram a sua identidade conceptual. A noção de património urbano histórico constitui-se na contracorrente do processo de urbanização dominante.”5 “il territorio è un palinsesto: le diverse generazioni vi hanno scritto,   BENÉVOLO, Leonardo; A cidade e o Arquitecto: trad. Rui Eduardo Santana Brito; Lisboa, Edições 70, 1998; pág. 75 2  FERNANDES, Francisco Barata; Transformação e permanência na habitação portuense : as formas da casa na forma da cidade; Porto : Faup Publicações, 1999; pág. 79 3  CHOAY, Françoise; A alegoria do património, trad. Teresa Castro, Lisboa: edições 70, 2000; pág. 158 4   Idem 5   Idem 1

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corretto, cancelato e aggiunto”6 Na cidade depositamos os nossos sonhos, os nosso projectos, as acções de cada pessoa, criando-lhe significações e enraizando-a no sítio. Na cidade reconhecemos parte da nossa identidade e da nossa história, ligando o que foi ao que virá a ser, assumindo a responsabilidade perante os nossos antepassados. Siza cita Hitler para a compreensão da importância do património onde escreve “que para destruir um povo, para nele apagar a consciência de si próprio, basta destruir os seus monumentos, o meio físico a partir do qual ele se identifica. A cidade de Varsóvia, vítima da aplicação deste «pensamento», sentiu a necessidade imperiosa de reconstruir o seu centro histórico, e nem as dificuldades do pós-guerra limitaram esta vontade.”7 O valor patrimonial do construído histórico da cidade do Porto assume actualmente uma enorme preponderância nas políticas governamentais como área a preservar, muito devido ao seu valor histórico e de identidade da cidade. A fase da limpeza e valorização somente dos monumentos mais importantes parece estar ultrapassada, sacrificando o tecido urbano através de demolições. “Tudo isto não faz senão acentuar o contraste entre a cidade antiga desaparecida e a cidade recente construída em seu lugar”8, descaracterizando os ambientes característicos e possivelmente as estruturas sociais contidas nesses trechos urbanos. As mudanças no tecido económico e social transformam as cidades. Sujeitos a uma maior influência destes factores, os bairros antigos deixam de responder às novas necessidades de conforto, funções e escalas. Estes, progressivamente abandonados e trocados por zonas preferencialmente periféricas, transformam-se em zonas com graves carências sociais e económicas. Face à indiferença e falta de manutenção, estas unidades urbanas vão-se degradando tanto construtivamente, como também as condições de vida dos habitantes e das actividades que vão permanecendo. “O problema da conservação do centro histórico passa a ser principalmente um problema social, porque o objectivo a salvaguardar é uma qualidade de vida, não uma forma que se admira.”9 “Isso quer dizer que eles devem ser seguros e também viáveis para a vida urbana. Precisam, entre outras coisas, de personagens públicas informais, espaços públicos vivos, bem vigiados e usados com constância, acompanhamento fácil e natural das crianças e interrelação de usos com as pessoas de fora. Em resumo, na sua reintegração à estrutura urbana, esses projectos precisam adquirir as virtudes de uma estrutura urbana sadia.”10 No acto de intervir nos centros históricos, principalmente sobre a André Carboz citado por Bernardo Secchi em SECCHI, Bernardo; Prima lezione di urbanística, Editori Laterza 7   SIZA, Álvaro; 01 textos Álvaro Siza; Civilização Editora 2009; pág. 19 8   BENÉVOLO, Leonardo; A cidade e o Arquitecto: trad. Rui Eduardo Santana Brito; Lisboa, Edições 70, 1998; pág. 73 9   BENÉVOLO, Leonardo; A cidade e o Arquitecto: trad. Rui Eduardo Santana Brito; Lisboa, Edições 70, 1998; pág. 78 10   JACOBS, Jane; Morte e vida de grandes cidades; Livraria Martins Fontes Editora Ltda. São Paulo, 2000. pág. 439 6 

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problemática da revitalização que se caracteriza como um tema cada vez mais comum nas cidades portuguesas, os urbanistas deverão conseguir diagnosticar as alterações que surtam efeitos “geradores de diversidade”11 e vida urbana. Em simultâneo, com a garantia de melhores condições de habitabilidade aos residentes, possivelmente através da reestruturação tipológica das habitações. A análise da cidade em diferentes perspectivas tipológicas assume-se inevitável para a compreensão do tipo de propostas a desenvolver. Quando adicionamos um novo corpo à cidade consolidada estamos inevitavelmente a trabalhar sobre a “pele das cidades”, tema intensamente estudado pelo Arq. Manuel Solà-Morales. É possível perceber a forma como este tema se reflecte sobre a urbanidade material, da superfície da cidade experimentada na sua materialidade concreta, nas suas sensações físicas e suas sugestões, está na origem e na forma de qualquer urbanidade. É a matéria urbana que nos transmite, tanto os seus pontos mais sensíveis como as suas zonas mais neutrais, a energia qualitativa que acumula o carácter colectivo sobre certos espaços, carregando-os de significado e referências culturais, e fazendo deles matéria semântica, construção de memória intersubjectiva, social.12 A intervenção sobre a revitalização urbana passa muito pela relação entre estes dois parâmetros: a compreensão das diversas redes da cidade e o estudo da sua matéria. Uma boa compreensão do problema garante melhores resultados face às intervenções urbanas, mesmo que estas sejam limitadas. “La acupuntura proyectual no tiene que ver tanto com lo pequeño, lo minucioso o lo delicado, como com lo estratégico, sistémico e interdependiente. Actuando sobre la oreja, dicen los sábios chinos, se curará el pulmón o la rodilla. La acupuntura tiene que ver sobre todo con una apreciación muy superior de la epidermis como membrana rica, compleja e enormemente influyente. En la piel de la ciudad, nuestros instrumentos de arquitectos, nuestra experiencia de ciudadanos y nuestras sensaciones corporales son la materia real de trabajo, útiles y sustanciales en sí miesmas, incluso para las relaciones causa-efecto de natureza más abstracta. Intervir en la piel de la ciudad tiene, así, cierta analogía con la acción de la acunpuntura. No por el uso de las agujas o incisiones de pequeño tamaño, sino por entender la natureza sistémica de la epidermis.”13

Idem   SOLÀ-MORALES, Manuel; De cosas urbanas; Gustavo Gili. Barcelona, 2008. pág. 24 13   Idem 11  12

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4.2 O conceito de incerteza na projectação urbanística

“O ritmo acelerado da mutação social e económica, a rápida inovação tecnológica, a natureza sem precedentes de alguns problemas urbanos, determina: por um lado, uma estrutural dificuldade de previsão das transformações (o que corresponde a uma análoga dificuldade na definição de soluções correctas), e por outro, um processo de forte diferenciação e articulação dos grupos sociais, o que provoca uma grande instabilidade na representação do interesse comum.”14 Nos anos ’60, o projecto urbano referia-se à criação de “projectos unitários de arquitectura”, que procuravam representar a “forma exemplar da cidade moderna”.15 Tais projectos faliram, na grande maioria, devido à “estrutural impossibilidade de defrontar os problemas da cidade só através do controlo da forma física” e da predefinição de “soluções completamente desenhadas em situações de rápida mudança social e económica.”16 As recentes elaborações teóricas sobre a projectação urbanística colocam a incerteza como um elemento privilegiado, não só como fonte dos problemas da planificação mas também como parte da sua resolução. Permitem ainda a utilização de mecanismos de regulamentação mais flexíveis, que “sustentam o habitual determinismo das regras sobre o que se pode fazer (divisão em zonas de uso dos solos) e (…) sobre como e com que critério deve ser tomada a decisão administrativa.”17 Neste contexto, os mais recentes estudos sobre a projectação urbanística passam a definir dois modos complementares de planificação: a actuação sobre um plano regulador, e ainda aquela que é gerada através de um “processo de planificação estratégico”.18 Este segundo caso propõe desenvolver um projecto de planificação, com a definição por antemão dos objectivos e da “tecnologia da intervenção”. O planner deverá regular o processo da acção. Incitando a conversação social, tornando os complexos e incertos problemas urbanos em concretos objectivos. Os procedimentos para alcançar tais objectivos assentam-se num carácter preferencialmente pró-activo. Com base na negociação, normalmente de iniciativa pública, cativando parceiros (agentes da transformação) e capital de investimento para a viabilização do projecto. Em síntese, o processo de planificação estratégico define-se como um modo reciprocamente flexível de “combinação e interligação necessária dos diferentes interesses dos mais variados agentes públicos e privados, individuais e colectivos. Cria, como   Disegnare il futuro: il problema delléfficacia nella pianifiacazione urbanística – Alessandro Balducci; Bologna, 1991 15   PORTAS, Nuno; El surgimiento del proyecto urbano; Urbanística, n.110, 1998 16   Disegnare il futuro: il problema delléfficacia nella pianifiacazione urbanística – Alessandro Balducci; Bologna, 1991 17   PORTAS, Nuno; El surgimiento del proyecto urbano; Urbanística, n.110, 1998 18   Disegnare il futuro: il problema delléfficacia nella pianifiacazione urbanística – Alessandro Balducci; Bologna, 1991 14

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estratégia integrada, dependências e reacções recíprocas num processo abrangente e sustentável na reprodução diária da vida urbana.”19 Este é método que actualmente serve de base à gestão do centro histórico do Porto, segundo a Porto Vivo, SRU que o intitula de “Urbanismo de Conveniência”.20 Considero importante que as novas intervenções não comprometam o bem-estar comum, mas os planos cartográficos reguladores (Planos Directores Municipais) apenas induzem restrições às actuações dos privados. Não organizam e coordenam todos os interesses dos múltiplos actores, num processo em que a negociação deveria de ser preponderante. De modo à construção do planeamento urbano, tendo como base um objectivo concreto (macroplano), as entidades governamentais deveriam ouvir os diferentes actores, compreender as suas vontades e os parceiros para a intervenção, resultando em propostas mais positivas ao bem-estar e a coesão social.

  Plano de gestão do centro Histórico do Porto; Masterplan Porto Vivo, SRU   Plano de gestão do centro Histórico do Porto; Masterplan Porto Vivo, SRU

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4.3 Vazios urbanos

Na linha do pensamento actual, os “vazios urbanos” assumem uma importância estratégica para a reavaliação da cidade contemporânea. Este objecto, além de ter sido escolhido como tema central da primeira Trienal de Arquitectura de Lisboa, está também em foco nas reflexões teóricas arquitectónicas contemporâneas. Os vazios urbanos são espaços “esquecidos” ou “obsoletos” na cidade consolidada ou na sua extensa periferia. Contendo em si o potencial, se bem transformados, de poder impulsionar a reformulação da cidade. Tal como os caracteriza Solà-Morales “Uma área sem limites claros, sem uso actual, vaga, de difícil compreensão na percepção colectiva dos cidadãos, constituindo normalmente um rompimento no tecido urbano. Mas é também uma área disponível, cheia de expectativas, de forte memória urbana, com potencial original: o espaço do possível, do futuro”.21 Compreendo o objecto de estudo da presente dissertação, como um “vazio urbano”. Um vazio de gente, um vazio de uso ou até mesmo um vazio de construção, particularizado com o último lote na avenida voltado para o rio. Um vazio situado bem no centro da cidade histórica do Porto e de grande proximidade daquele que foi o ponto inicial da cidade. Depreendo que a memória reminiscente do lugar assume um valor fulcral na sua transformação, encarando-o com a enorme importância que assume para o imaginário colectivo. No entanto, considero possível que num trabalho minucioso de compreensão das várias camadas de desejos sociais e económicos será possível a sua revitalização. Ou seja, através da inserção da área nos planos estratégicos da cidade será possível, ao invés da sua avaliação isolada, a sua transformação propulsionando “efeitos de contaminação positiva”22 para a vitalização da cidade. Ao aproveitar as acessibilidades e infra-estruturas existentes, estas áreas possuem uma enorme potencialidade, se garantirem aos novos ou ainda residentes as bases de comodidade para aí se instalarem. Assumindo a residência como programa privilegiado e não esquecendo os equipamentos locais ou da metrópole. A área de estudo escolhida por se localizar numa zona de grande valor simbólico e de forte visibilidade, junto à margem do rio Douro e incluída na frente do Porto para Sul, privilegia e impulsiona a sua intervenção. Não obstante, tal intervenção deverá somente ser levada avante, no cabo de um processo contínuo de compreensão dos objectivos e no modo para que tal possa ser possível.

  SOLÀ-MORALES, Manuel. “Terrain Vague”, in Anyplace, Cambridge: MIT/Any. p.118-123   PORTAS, Nuno. Do vazio ao cheio; Publicações da pós-graduação da Faculdade de Arquitectura e Urbanismo da Universidade de Brasilia 21 22

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PROPOSTA DE INTERVENÇÃO

5.1 Objectivos do projecto de estudo

5.2 Potencialidades

5.3 Espaços públicos

5.4 Valorização cultural

5.5 Ampliação à fundação e reabilitação de área em abandono


5 PROPOSTA DE INTERVENÇÃO

No desenvolvimento de este capítulo será apresentado um estudo para a construção de um programa estratégico de intervenção. Depois de analisada a zona de intervenção ao nível histórico e do desenvolvimento urbano, será agora realizada uma experiência projectual, na qual procuro resolver os graves índices de degradação e desertificação verificados pelas entidades responsáveis pela preservação da zona. De modo a obter os elementos necessários para a elaboração de um plano estratégico de intervenção na Av. Vímara Peres, era necessário uma leitura exaustiva sobre o actual estado e quais os usos do espaço público e do edificado confinante. A anterior descrição da área de estudo será fundamental para o retirar de conclusões, problemas ou oportunidades, que servirão de mote para o desenvolvimento das seguintes estratégias de intervenção. É de percepção imediata que a revitalização da Avenida Vímara Peres e do edificado confinante estará sempre relacionada com a vertente económica da sociedade portuense. Contudo o meu papel, como estudante de arquitectura, é analisar e explorar a área ao abrigo dos parâmetros da minha disciplina. Nesse âmbito, enquadra-se a abodagem do espaço físico através de um método coordenado entre a análise e o projecto, ou seja, através do estudo de propostas estratégicas de matriz arquitectónica que visam a reabilitação da área. A diversidade dos temas abordados leva a uma melhor compreensão dos diversos problemas que poderão surgir numa intervenção projectual em contexto de cidade consolidada de alto valor patrimonial histórico.

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5.1 Objectivos do projecto de estudo

A desertificação e a falta de vivência da zona são os principais problemas aos quais este projecto de estudo se propõe a indicar soluções. O núcleo central da cidade do Porto, apesar da sua tradição histórica, encontrase num ciclo regressivo. Ou seja, quanto maior for a desertificação do edificado e consequentemente do espaço público, maior será a resistência da população para aí permanecer. Neste sentido, o processo de reabilitação deverá incidir sobre recuperação do património, da disponibilidade de infraestruturas básicas, da garantia de segurança e da sustentabilidade ambiental. Todos esses esforços deverão convergir para as melhorias significativas ao modo de vida da população residente. A vitalização do centro histórico está intimamente relacionada com a reabilitação comercial e residencial. Entendo que só com políticas de valorização social, que garantam o acesso a bens, serviços e inserção profissional, se poderá atrair a população. Paralelamente às iniciativas de melhoramento da vida local, deverão ser criadas novas estratégias de valorização dos equipamentos e percursos culturais e turísticos. O turismo é uma indústria em franco desenvolvimento. Se esta for uma componente bem desenvolvida poderá impulsionar a economia local e a criação de novos empregos. Nos dias que correm, a presença diária de centenas de visitantes ao centro histórico do Porto permitiu-lhe já o reconhecimento de valor histórico-cultural. No entanto, acredito que a criação de novas estratégias de organização dos diferentes equipamentos e percursos, aliadas ao desenvolvimento local, daria um novo impulso à revitalização do centro histórico. Apoiado na análise exaustiva do lugar, o presente estudo prático visa intervir pontualmente no espaço urbano, de modo que destas intervenções resultem “efeitos de contaminação positiva”1. Tais efeitos transformarão as simples propostas pontuais em propostas estratégicas de organização e revitalização urbana de uma área mais vasta. Segundo Manuel de Sola-Morales, o projecto urbano actual “puede estar más en lo estratégico y lo material, en intenciones acupunturales sobre la piel urbana para afectar al organismo entero. Proyecto urbano que para ser efectivo es concentrado y puntual, limitado en su tiempo y espacio de intervención, pero abierto y extenso en su influencia más allá de sí mismo. Con la exigencia técnica, presupuestaria, infraestructural y arquitectónica del proyecto constructivo. Con la superposición de funciones y la mescla de usos, privados y públicos, y la caducidad de un programa ejecutivo.”2

PORTAS, Nuno. Do vazio ao cheio; Publicações da pós-graduação da Faculdade de Arquitectura e Urbanismo da Universidade de Brasilia 2   SOLÀ-MORALES, Manuel; De cosas urbanas; Gustavo Gili. Barcelona, 2008. pág. 153 1 

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5.2 Potencialidades

A baixa do Porto assume um grave problema de desertificação, de envelhecimento e abandono da população, bem como no estado de conservação do edificado e na coesão social. Parece consensual que a cidade antiga necessita de projectos de conservação e requalificação do seu património social e cultural, de um modo economicamente sustentável, tendo como base o valor da sua localização central e das infra-estruturas existentes. A Avenida Vímara Peres, ao ser analisada como área de estudo, contém em si vários factores que a privilegiam como um espaço onde podem ser levadas a cabo políticas regenerativas pelas entidades governamentais. Tais factores são clarificados por Nuno Portas como “situações cuja legitimação social e política é mais favorável junto da opinião pública”, tais como a revitalização dos centros históricos, o urbanismo comercial, a revitalização de edifícios e a atenção dada ao “espaço público”. Nuno Portas descreve ainda cada uma das situações. A revitalização dos centros históricos apresenta-se “reforçada pela tendência da patrimonialização, da identidade, e dos sectores económicos em expansão nas áreas do turismo e da cultura”. Por sua vez, urbanismo comercial, ou a intervenção no parque residencial vazio e/ou degradado, surge no combate à crise do pequeno comércio, à fuga da população residente ou ainda à degradação física e social dos bairros críticos. A revitalização de edifícios de frente fluvial mostra-se ajustável aos “projectos de excelência”, de forte visibilidade e impacto social, enquanto que a atenção dada ao “espaço público”, que surge inesperadamente, reflecte as modificações consequentes pela utilização do automóvel e pelas “novas vivências urbanas”. Porém, as estratégias e intervenções daí provenientes deverão assumir a valorização da qualidade de vida dos residentes e da população que se pretende que re-habite o centro. Ao invés de projectos sensacionalistas, da imagem pela imagem, deixando um vazio que normalmente aumenta a ruptura social.

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1 2

4 3

EDIFICADO A RESTAURAR OU CONSERVAR EQUIPAMENTO DE ENSINO PERCURSO PEDONAL A CONSOLIDAR MERCADO DA VANDOMA TERRENO MUNICIPAL PROPOSTO PARA AMPLIAÇÃO À FUNDAÇÃO POTENCIAL ESPAÇO VERDE PÚBLICO

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1 Avenida Vímara Peres 2 Rua D. Hugo 3 Rua e Escadas das Verdades 4 Rua do Codeçal


SÍNTESE DAS INTERVENÇÕES: - REQUALIFICAÇÃO E CONSERVAÇÃO DO EDIFICADO EXISTENTE; - REABILITAÇÃO DOS PERCURSOS PEDONAIS DE LIGAÇÃO À COTA BAIXA DA CIDADE; - DINAMIZAR A ACTIVIDADE COMERCIAL, ATRAVÉS DA RECUPERAÇÃO OU RECONSTRUÇÃO DO MERCADO DA VANDOMA; - CONTRIBUIR PARA A EXPANSÃO DAS ACTIVIDADES ECONÓMICAS TRADICIONAIS COMO FEIRAS MENSAIS, AUMENTANDO A COESÃO ECONÓMICOSOCIAL DAS ACTIVIDADES LOCAIS; - INCREMENTAR A ATRACTIVIDADE DO CENTRO HISTÓRICO EM TERMOS TURÍSTICOS, PROMOVENDO A COOPERAÇÃO ENTRE OS DIFERENTES ESPAÇOS CULTURAIS; - CRIAÇÃO DE UM NOVO ESPAÇO VERDE PARA USUFUIÇÃO PÚBLICA;

40 Planta síntese das intervenções 57


5.3 Espaços públicos

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41 Foto Avenida Vímara Peres 42 Foto Avenida Vímara Peres 43 Foto de área em abandono sobre a Ponte Luís I

O processo para a revitalização da baixa do Porto, através da Porto Vivo – SRU na qual estipula os quarteirões como áreas sujeitas a projectos de intervenção, tende a isola-os como projectos “abstraídos da cidade”. Estes podem tornar-se em simples propostas de limpeza e conservação, “musificando” a área, num gesto que poderá aumentar a sua ruptura com a cidade. Perante um projecto de revitalização o “objectivo deveria ser costurar novamente esse projecto, esse retalho da cidade, na trama urbana – e, ao mesmo tempo, fortalecer toda a trama ao redor.”3 Para tal focalizo o objecto de estudo para o espaço público, como elemento estruturador da massa construída, onde a compreensão do seu carácter, tanto de permanência como de fluxo permitirá o entendimento do tipo de proposta a desenvolver. Ao observarmos os mapas XX, a avenida apresenta um forte atravessamento pedestre de carácter turístico, impulsionado pela ligação entre a Sé do Porto e o Mosteiro da Serra do Pilar. Este movimento introduz vivência à área durante o dia, contudo não nos deparamos com a usufruição de serviços existentes nem de permanência nas pequenas esplanadas dos cafés. Talvez devido à sua configuração física. Quando percepcionamos a avenida, esta não nos sugere a ideia de uma área de “estar” por excelência. Em ambas as entradas, o acesso faz-se através de um afunilamento. No fundo, o que é percepcionado é uma passagem de zonas de grande espaçamento (o rio; a avenida D. Henrique) para um espaço que cognitivamente o encaramos como uma via, um espaço estreito, longo e sem um limite visível. O piso térreo do edificado é ocupado em exclusividade por funções comerciais como cafés, restaurantes e lojas tradicionais, no entanto na sua grande maioria encontram-se devolutos e em mau estado de conservação. O retirar do estacionamento automóvel ao longo da avenida traria uma melhor visibilidade das montras e funcionamento das esplanadas dos cafés. Mas para garantir a exclusividade pedonal à Avenida Vímara Peres, devido ao seu calibre abastado, esta teria de ter um alto índice de utilização tanto de atravessamento como de permanência. Podendo, ao invés de melhorar as condições comerciais e de ocupação do edificado, afastar ainda mais a sua vitalização. O tipo de análise da zona, realizada especificamente para o presente estudo, não foi suficiente para garantir que os restantes parques da zona poderiam suportar a anulação desta área de estacionamento. Nem a influência que esta acção traria ao modo de vida da população que o utiliza. Face a este conflito de funções, opto por não valorizar uma escolha em detrimento da outra dada a falta de conteúdos. A permanência do estacionamento automóvel deveria de estar relacionada com as necessidades e desejos   JACOBS, Jane; Morte e vida de grandes cidades; Livraria Martins Fontes Editora Ltda. São Paulo, 2000. pág. 437 3

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dos residentes e utilizadores, que num primeiro momento poderia ser de utilização sazonal através da implementação de horários e áreas restritas. Contudo, a solução estará sempre relacionada com a modificação do carácter da sua utilização, ou seja com a conclusão das intervenções na área, se esta não se vitalizar será impossível fundamentar a retirada do estacionamento.

“Não se pode fazer com que as pessoas usem as ruas quando elas não têm razões para as usar.”4 A inexistência de percursos alternativos à ponte, inibe a usufruição da Avenida Vímara Peres – que se posiciona numa situação limite da cidade. A valorização dos percursos ligação entre a Avenida e a cota baixa, permitiria uma maior coligação desta com a trama urbana adjacente, invertendo o seu carácter maioritariamente de ligação intermunicipal com Gaia por um aumento da importância dos percursos locais. Os percursos de ligação com a zona ribeirinha encontram-se muito degradados, o edificado confinante devoluto e sem a existência de elementos geradores de diversidade. Deparamo-nos com uma área que teve outrora funções residenciais, onde as entradas das habitações se fazem directamente da rua. Portas, janelas e varandas desventram o edificado em quantidade tal que as estreitas escadarias e vielas se assumem intensamente vigiadas. Desta forma, o espaço fica conotado por uma forte promiscuidade existente entre o espaço público e o espaço privado. O valor patrimonial deste construído resume-se principalmente ao modo de vida das populações que aí residiam e o particular relacionamento que mantinham com o espaço público. Para a sua preservação é essencial manter a sua função residencial, dotar as habitações com as actuais necessidades de conforto, possivelmente com a diminuição do número de habitantes por fogo. A impossibilidade ao acesso automóvel diminui o público-alvo, contudo poderiam servir a jovens casais, estudantes e trabalhadores na cidade do Porto que veriam com bons olhos uma localização central de fácil acesso a infra-estruturas de transporte público. A proximidade de dois equipamentos de ensino faculta condições atractivas à área para o assentamento de famílias. Com a utilização dos percursos pedonais através da Rua do Codeçal e da Rua e Escadas das Verdades, assumindo um trajecto seguro para as crianças, longe do tráfego automóvel. E desta maneira seria ainda possível contribuir para a ligação da Avenida Vímara Peres com os percursos na encosta da Sé, aumentando a sua vitalidade e permitindo uma maior coesão na trama urbana. É notável a carência de espaços verdes que valorizem o lazer e a socialização, um ponto essencial para a qualidade da cidade e da sua vida pública. Uma maior abertura dos jardins privados do Paço Episcopal e da JACOBS, Jane; Morte e vida de grandes cidades; Livraria Martins Fontes Editora Ltda. São Paulo, 2000 4 

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44 Foto da maqueta, reabilitação do edificado 45 Foto da maqueta, reabilitação do edificado 46 Esquema de percursos e fotos da Rua do Codeçal e Travessa das Verdades 61


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Casa Museu Guerra Junqueiro (associado à reabilitação da área abandonada descrita na fig. 47 como espaço verde) poderia ser a opção para favorecer as condições ambientais e de desafogo à densidade do construído. Pretendese desta forma melhorar as condições base para tornar atractivo re-habitar o centro histórico do Porto, ultrapassando o seu aspecto patrimonial, estudando estratégias para a agregação do organismo urbano, de um modo estável entre a estrutura social e o seu ambiente físico.

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47 Foto do edificado voltado a Sul 48 Foto de área em abandono sobre a Ponte Luís I 63


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LOCAL DE INTERESSE CULTURAL ESPAÇO PÚBLICO DE INTERESSE TURISTICO EQUIPAMENTO CULTURAL A VALORIZAR PERCURSO PEDONAL A CONSOLIDAR HOTEL PREVISTO TERRENO MUNICIPAL PROPOSTO PARA AMPLIAÇÃO À FUNDAÇÃO POTENCIAL ESPAÇO VERDE PÚBLICO

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1 Arqueossítio 2 Casa-Museu Guerra Junqueiro 3 Museu da Fundação Maria Isabel Guerra Junqueiro e Luís de Mesquita Carvalho 4 Capela da Nossa Senhora das Verdades


SÍNTESE DAS INTERVENÇÕES DE MODO A INCREMENTAR A ATRACTIVIDADE TURISTICA: - CRIAÇÃO DE POLO MUSEOLÓGICO, ATRAVÉS DA COLABORAÇÃO ENTRE OS DIFERENTES ESPAÇOS CULTURAIS DA RUA DE D. HUGO (ARQUEOSSÍTIO, CASA MUSEU GUERRA JUNQUEIRO E O MUSEU DA FUNDAÇÃO MARIA ISABEL GUERRA JUNQUEIRO E LUÍS DE MESQUITA CARVALHO) - AMPLIAÇÃO AO MUSEU DA FUNDAÇÃO MARIA ISABEL GUERRA JUNQUEIRO E LUÍS DE MESQUITA CARVALHO COM A REALIZAÇÃO DE UMA NOVA ENTRADA PELA AVENIDA VÍMARA PERES, ESPAÇO PARA EXPOSIÇÕES TEMPORÁRIAS, LOJA, DEPÓSITO E CAFETARIA. - REABILITAÇÃO DE ÁREA EM ABANDONO E PROPOSTA DE USO PÚBLICO COMO ÁREA VERDE - INCENTIVAR A DEAMBULAÇÃO TURÍSTICA NO CENTRO HISTÓRICO ATRAVÉS DA DIMINUIÇÃO DO SENTIMENTO DE INSEGURANÇA - PROPOSTA DE USOS DE HOTELARIA A EDIFICADO EXISTENTE - REABILITAÇÃO DE ANTIGO PERCURSO PEDONAL DE ACESSO A LOGRADOUROS

49 Planta síntese das intervenções turísticas 65


5.4 Valorização cultural

A proximidade da Sé e de outros edifícios de grande importância para a cidade, fundamenta a possibilidade da elaboração de propostas que visem unificar a variedade de equipamentos culturais, tornando a zona num “pólo” cultural colaborante nos diversos espaços, convertendo-se numa zona de maior atractividade e mais facilmente reconhecida. A avenida beneficia da proximidade de vários edifícios e locais de interesse, tal como se pode verificar no esquema 13, que lhe confere a potencialidade de elemento estruturador dos percursos entre os diversos equipamentos e de contemplação do património edificado. Tanto a nascente como a poente da avenida é possível compor um quadro que possibilite o início de um percurso histórico e cultural. Por um lado, a nascente, a revitalização da ligação da avenida com as escadas do Codeçal (e consequentemente com a Igreja de Santa Clara); por outro, a criação de uma nova ligação com a Rua de D. Hugo (aumentando a sua visibilidade e a frequência de visitas). Este percurso englobaria a fundação Maria Isabel Guerra Junqueiro e Luís Mesquita Carvalho, a Casa Museu Guerra Junqueiro, o arqueo-sítio existente no edifício da Ordem dos Arquitectos, a capela e a escada da Nossa Senhora das Verdades A potencialidade existente neste trajecto, para que seja mais frequentado, exige uma recuperação das vias entre o núcleo antigo da cidade e a ribeira, bem como a resolução de problemas de ligação entre a cota alta e a cota baixa da cidade; ambas através da recuperação de elementos do edificado. Estes percursos pedonais realçam ainda a memória do lugar através da exploração das velhas calhas e escadarias, às quais confinam igrejas e edifícios característicos do casario do Porto.

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50 Foto da maqueta, síntese das intervenções culturais 51 Foto da maqueta, síntese das intervenções culturais 52 Foto da maqueta, síntese das intervenções culturais 53 Esquema de percursos e fotos da Rua de D. Hugo 67


5.5 Ampliação à fundação e reabilitação de área em abandono

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54 Foto da maqueta 55 Foto da maqueta 56 Foto da maqueta

Consultada a direcção da fundação Maria Isabel Guerra Junqueiro e Luís Mesquita Carvalho, foi diagnosticada a necessidade de criação de um novo espaço de complemento à fundação existente. A construir na parcela 10, terreno municipal adquirido em 1969, adjacente à fundação e à Avenida Vímara Peres. O edifício da fundação foi recuperado em 77, com um projecto de autoria do Arq. Pedro Ramalho, estando actualmente em perfeitas condições de utilização. Contudo, a falta de visibilidade e de conhecimento, aliada à não existência de um espaço para exposições temporárias, condicionou desde sempre o número de visitantes. Na presente implantação a entrada é realizada pela rua D. Hugo. Esta não apresenta um carácter muito apelativo, sendo mesmo de difícil percepção. A articulação de uma nova entrada pela avenida, para além de oferecer uma maior visibilidade ao museu (utilizando os percursos turísticos para o mosteiro da Serra do Pilar) possibilita um novo dinamismo para a zona. Surgindo em concordância com a proposta anteriormente estudada, o tema da ampliação da fundação acrescenta fundamento à acção de coligação das diferentes tramas urbanas. Estas, para além de permitirem a conectividade entre os percursos, trariam um melhoramento das condições museológicas. Ou seja, um espaço que tanto sugira a deambulação pela cidade como a permanência e contemplação da vista ou de uma obra exposta. O Museu Fundação Maria Isabel Guerra Junqueiro e Luís Mesquita Carvalho, segundo a opinião da direcção, necessita de uma nova zona de entrada com respectivo atrium e zona de recepção, bem como de uma loja, uma sala para exposições temporárias, um gabinete para a direcção, uma zona de reserva e depósito de peças não expostas, e a possibilidade de criação de uma zona de miradouro complementando um espaço de cafetaria. Este novo equipamento aliado ao museu existente, poderia tornar-se num edifício âncora para o aumento da identidade da Avenida. A área referida na figura 18, contém em si o potencial de coligar a avenida Vímara Peres com as escadarias que se dirigem à marginal. Ou seja, procura soluções para a implementação de um equipamento público que faça a ligação da cota alta da cidade com a zona ribeirinha. Com base em vários estudos realizados, a proposta que melhor resolve os problemas funcionais e adaptação à sua envolvente seria a implementação de um edifício de cobertura ajardinada que proporcionaria um novo espaço público à cidade. Este teria frente para o rio Douro, virado a Sul, oferecendo vistas panorâmicas e permitindo a realização de várias actividades. Deveria ser encarado como um espaço propício ao recolhimento e à contemplação, onde na zona superior funcionaria como porta da cidade e de remate do aglomerado construído. Um espaço que faria a articulação entre os diversos 69


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PLANTA DO R\ CHÃO: 1 Átrio 2 Portaria 3 Galeria 4 Sala de exposição 5 Biblioteca do autor

a 3

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a_Rua de D.Hugo 1

2

4

5 4 4

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PLANTA DA CAVE: 6 Bar 7 Foyer 8 Acesso ao auditório 9 Sanitários - Homens 10 Sanitários - Senhoras 11 Bengaleiro 12 Arrumos 13 Casa forte

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9 7 13

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PLANTA AUDITÓRIO: 14 Foyer 15 Plateia 16 Palco e Écran 17 Sanitário 18 Camarim 19 Cabine de projecção 20 Saida de emergência

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b_Avenida Vímara Peres

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18 20

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57 Plantas da fundação existente 58 Planta 1/1000 do existente 59 Corte 1/1000 pela avenida 59

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60 Esquiço da Ponte Luís I 61 Esquiço da Ponte Luís I 62 Esquiço de memória da Avenida 63 Esquiço de memória da Avenida

museus locais e os diversos percursos na malha histórica. Seria também um espaço de encontro para quem vive na cidade, onde o predomínio do “verde” traria algum desafogo à densidade do construído. Em suma, seria um equipamento multidisciplinar que apesar de ter uma base essencialmente expositiva de complemento à fundação, se assumiria como uma plataforma de distribuição dos percursos verticais através da avenida. Tanto de ligação à rua de D. Hugo através do museu da fundação, como descendo e desembocando numa zona verde de pausa e ligação à cota baixa. Os primeiros estudos para a abertura da Avenida da Ponte, principalmente os realizados pelos arquitectos Italianos, colocavam o tema “porta da cidade” como um parâmetro fulcral para a acção a desenvolver. Estes propunham a criação de edifícios para monumentalizar a entrada na cidade, aliado à ligação directa com a Praça da Liberdade (centro da cidade), criando deste modo um eixo cenográfico caracterizado pela ordem e altivez. Quem entra na cidade do Porto pelo Sul tem a percepção do limite da cidade ao invés da entrada pelo sentido contrário, onde a construção extensiva diluiu as fronteiras com as cidades circundantes. O rio Douro é o responsável por essa compreensão, criando um limite físico entre a cidade do Porto e Vila Nova de Gaia, mas também uma imagem da cidade. Kevin Lynch em “A Imagem da Cidade” define limite urbano como “barreiras mais ou menos penetráveis que mantém uma região isolada das outras, podem ser «costuras», linhas ao longo das quais regiões se relacionam e encontram.”5 A imagem que a cidade do Porto faz para Sul distingue-a das demais cidades, possui significado e identidade. Caracteriza-se pela aglomeração de construções, que não são mais do que o produto da sedimentação das diferentes gerações, transmitindo-nos através da arquitectura um legado histórico pleno de significado. Deste ponto de vista a travessia da ponte Luís I é como a passagem numa porta que divide entidades distintas. Existe um enorme contraste entre os volumes de topo da Avenida Vímara Peres com o rio, do lado direito um edifício em betão com 7 pisos, que utiliza uma estrutura modular e abrindo-se para todos os lados menos a Norte; do lado inverso, uma construção do Séc. XIX que faz frente apenas para a avenida, expondo uma empena para Sul. A exposição desta parede lateral ao qual deveria encostar-se um novo edifício, remete ao observador o sentimento de inacabado. A intervenção no lote vazio adjacente deverá alterar este sentimento, servindo de remate do construído. O construído a poente desenvolve uma curvatura que provém da muralha Românica. Este pequeno movimento do edificado transmite significado e referências culturais, que numa reflexão projectual anexa é impossível ignorar. O projecto do Arq. Pedro Ramalho, apesar de só ter   LYNCH, Kevin; A Imagem da Cidade; Lisboa: Edições 70, 1996. Pag. 58

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PLANTA PISO 2 1 Sala de exposições temporareas 2 Escadaria 3 Cobertura jardinada

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2 1

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PLANTA PISO 1 4 Bar 5 Escadaria 6 Pátio 7 Entrada pela recuperação de caminho 8 Foyer 9 Auditório

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intervido na recuperação do interior do edifício e na construção do auditório

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64 Planta ampliação à fundação, Piso 2 (Rua D. Hugo) 65 Planta ampliação à fundação, Piso 1 66 Foto de maqueta, ampliação à fundação 67 Foto de maqueta, ampliação à fundação 68 Foto de maqueta, ampliação à fundação 69 Esquiço a rigoroso da solução do Arq. Pedro Ramalho

que se posiciona no alinhamento dos logradouros, desenvolveu uma perspectiva que sugere a valorização simbólica da muralha. Este, propõe a demolição do conjunto solto de edifícios vizinhos ao terreno municipal, limitando-os ao piso térreo, enaltecendo desta forma a curvatura do restante edificado. A área restante de separação entre o auditório e a avenida seria ocupada como área arbórea em continuidade dos terrenos à cota inferior. Tal como é proposto no presente projecto de intervenção. De igual modo as duas propostas prevêem a recuperação de um caminho muito degradado que se inicia na travessa das verdades, anexo ao muro poente de limite da referida área, permitindo assim acessos aos logradouros das construções com entrada pela rua D. Hugo e terminando à cota da Avenida Vímara Peres. A proposta de Arq. Pedro Ramalho propõe também a criação de uma pala de marcação de início deste percurso. A presente proposta para o terreno municipal parte da obrigação material da construção de um novo espaço expositivo de complemento à fundação. Este novo elemento construtivo deveria permitir a visualização do edificado da rua de D. Hugo, sem entrar em conflito com este, e simultaneamente impor-se como parte estrutural da Avenida Vímara Peres rematando o edificado. O edifício proposto tem entrada a um piso inferior da cota do auditório, num corpo contínuo que cria um alargamento do passeio. Este espaço mais amplo antevê a entrada no edifício, marcada pela consola do volume superior que alinha pelo edificado envolvente. Nesta mesma zona é realizado um miradouro para Sul, que aproveita as excelentes panorâmicas da paisagem do Douro. O volume superior paralelipipédico distancia-se da empena, em conformidade com os vários espaçamentos que vão existindo no mesmo corpo volumétrico. Da avenida é possível observar uma multiplicação 75


PLANTA PISO 0 1 Alargamento do paseio 2 Miradouro 3 Recepção 4 Escadaria 5 Serviços

3 4 5 2

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PLANTA PISO 0 6 Recepção 7 Escadaria 8 Serviços 9 Espaço expositivo

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de plataformas à qual o antigo edifício da fundação remata. Considero que o trabalho sobre um projecto urbano, principalmente na cidade histórica, se situa muito neste contexto de “pele das cidades”. Esta é feita de construções, texturas, contrastes e de toda a materialidade que define a cidade. Pois é mesmo do contacto entre os nossos corpos e esta matéria física que nasce a experiência urbana.6

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70 Planta ampliação à fundação, Piso0 (Av. Vímara Peres) 71 Planta ampliação à fundação, Piso -1 72 Esquiço, entrada da Rua D. Hugo 73 Esquiço, construído 74 Esquiço, construído de entradada Av. Vímara Peres 75 Esquiço, Av. Vímara Peres 76 Esboço da solução   SOLÀ-MORALES, Manuel; De cosas urbanas; Gustavo Gili. Barcelona, 2008. pág. 23

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77 Alçado poente da Avenida Vímara Peres com projecto de intervenção 78 Corte pelo projecto de ampliação à fundação


CONSIDERAÇÕES FINAIS


6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A construção de infra-estruturas para grande escala do território da cidade introduz alterações de carácter ao nível local. Na maioria dos casos, rompe o tecido urbano separando zonas que têm uma lógica conjunta. Contudo, a introdução do metro na Avenida Vímara Peres poderá se tornar no gesto catalizador de revitalização do construído periférico. A avenida convertida em espaço público pedonal assume uma tipologia semelhante à totalidade dos percursos de ligação à zona ribeira. A sua afirmação como plataforma distributiva dos movimentos locais e dos seus usos, servindo-se do seu posicionamento, assegura-lhe um carácter renovado de amarração da envolvente urbana. A análise da zona distingue o abandono do construído como o principal problema à qual um programa estratégico de intervenção deverá dar respostas. A sua localização no centro histórico da cidade do Porto potencia a garantia de melhores resultados para a sua vitalização. Tirando proveito dos equipamentos existentes e da forte presença cultural e histórica. A solução passa pela criação de novos eixos estruturantes da diversidade de equipamentos culturais, num esforço que reverta para o aumento do seu reconhecimento. Para a construção do presente trabalho a maior dificuldade residiu na compreensão do problema e a delimitação do objecto de estudo. Tal entendimento esboçou a estrutura organizativa da dissertação. A estratégia escolhida adopta os resultados da análise do problema como a base que define os parâmetros para os restantes capítulos. Contudo, o urbanismo foi desde inicio o tema subjacente ao trabalho e foi com alguma surpresa, que a proposta estratégica chegou à escala do elemento pontual do edificado. O tema da ampliação à Fundação Maria Isabel Guerra Junqueiro e Luís de Mesquita Carvalho foi me dado a conhecer, a quando da entrevista com a direcção da fundação, e desde cedo compreendi que poderia ser um elemento 81


catalizador do local. Este equipamento ancorava a avenida trazendo-lhe significado e vitalidade, e ao mesmo tempo dava um importante passo para a resolução distributiva dos percursos periféricos. Uma oportunidade que não poderia deixar de evidenciar. Como síntese das potencialidades e fragilidades da avenida e da abordagem sobre a matéria física do edificado. Na construção da presente dissertação fui levado a utilizar todas as ferramentas que aprendi como aluno da Faculdade de Arquitectura do Porto. A utilização da maqueta, do desenho a rigor e à mão levantada, do esquiço e do esboço, de memória ou à vista, da presença no local e do contacto com os seus intervenientes, das referências históricas e da teoria disciplinar, na tentativa de “compreender um complexo processo de relações cruzadas, estabelecidas para um tempo longo e um espaço dilatado”1. E assim compreendo, que a minha formação mudou o meu olhar sobre o mundo, sintetizando-o através das ferramentas próprias da arquitectura.

ALVES COSTA, Alexandre, Requalificação urbana = urban redevelopment, Arquitectura Ibérica, nº 18, Caleidoscópio, Ed. Casal de Cambra, 2007. 1 

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FONTES BIBLIOGRテ:ICAS


7 FONTES BIBLIOGRÁFICAS

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REAL, Manuel Luís; A ponte e a avenida : contradições urbanísticas no centro histórico do Porto / coord. Manuel Luís Real, Maria Helena Gil Braga; Porto : Câmara Municipal do Porto, 2001 ROSSI, Aldo; A Arquitectura da Cidade; Edições Cosmos, 2001. SECCHI, Bernardo; Prima lezione di urbanistica / Bernardo Secchi. -  5ª ed. - Roma : Laterza, 2003

SIZA, Álvaro Vieira; CASTANHEIRA, Carlos; As Cidades de Álvaro Siza; 1ª Edição; Lisboa: Livraria Figueirinhas; 2001. SIZA, Álvaro; 01 textos Álvaro Siza; Civilização Editora, 2009 SOLÀ-MORALES, Manuel; De cosas urbanas; Gustavo Gili. Barcelona, 2008 SOLÀ-MORALES, Manuel; “Terrain Vague”, in Anyplace, Cambridge: MIT/Any TÁVORA, Fernando; Da Organização do Espaço; 4ª Edição; Porto: FAUP Publicações, 1999. Fontes: trabalhos académicos FREITAS, Leonardo José Dias - Serra do Pilar. Porto : Faup, 2007 SILVA, Hugo Machado da - Avenida da ponte : impasse em continuidade. Porto : Faup, 2007 MESQUITA, Sara Viegas Queirós - Quarteirão Erasmus : proposta de uma estratégia de intervenção no centro histórico do Porto. Porto: Faup, 2008

Fontes: Páginas Web Porto Vivo – Sociedade de Reabilitação Urbana Url: http://portovivosru.pt A Baixa do Porto Url: http://porto.taf.net

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Iconografia 1 Foto aérea de localização da Avenida Vímara Peres e área de estudo [www. googleearth]

2 Enquadramento dos Limites Administrativos [Porto Vivo – SRU, Proposta de Masterplan, 2006, in http://www.portovivosru.pt]

3 Planta do estado de ocupação do edificado [baseado em Porto Vivo – SRU, Proposta de Masterplan, 2006, in http://www.portovivosru.pt] 4 Planta do estado de conservação do edificado [baseado em Porto Vivo – SRU, Proposta de Masterplan, 2006, in http://www.portovivosru.pt] 5 Planta de usos dos pisos superiores [baseado em Porto Vivo – SRU, Proposta de Masterplan, 2006, in http://www.portovivosru.pt] 6 Foto Avenida Vímara Peres [do autor] 7 Foto Avenida Vímara Peres [do autor] 8 Foto Avenida Vímara Peres [do autor] 9 Planta de usos do piso térreo [do autor] 10 Corte aa’ [do autor] 11 Foto Avenida Vímara Peres [do autor] 12 Foto Avenida Vímara Peres [do autor] 13 Planta de património classificado [baseado em Porto Vivo – SRU, Proposta de Masterplan, 2006, in http://www.portovivosru.pt] 14 Foto Rua D. Hugo, Fundação Maria Isabel Guerra Junqueiro [do autor] 15 Foto Rua D. Hugo, Casa museu Guerra Junqueiro [do autor] 16 Foto Rua D. Hugo, Capela Nossa Senhora das Verdades [do autor] 17 Planta de interesse histórico-cultural [baseado em Porto Vivo – SRU, Proposta de Masterplan, 2006, in http://www.portovivosru.pt] 18 Planta pormenor de área passível de transformação [do autor] 19 Planta de espaços verdes [baseado em Porto Vivo – SRU, Proposta de Masterplan, 2006, in http://www.portovivosru.pt] 20 Foto aérea de análise da estrutura viária [do autor] 21 Planta de análise da estrutura viária [baseado em Porto Vivo – SRU, Proposta de Masterplan, 2006, in http://www.portovivosru.pt] 22 Planta do edificado e da muralha Românica [baseado no cartograma 3, pág. 128 in GUARDIÁ, Manuel; Atlas histórico da ciudades europeas : Península Ibérica; Barcelona : Salvat, 1994-1996. Vol.1- Peninsula Ibérica] 23 Foto da muralha Românica junto à Avenida Vímara Peres [do autor] 24 Vista para a Sé [do autor] 25 Vista do enquadramento vertical do edificado [do autor] 26 Gravura do Porto na época Mercantilista [REAL, Manuel Luís; A ponte e a avenida : contradições urbanísticas no centro histórico do Porto / coord. Manuel Luís Real, Maria Helena Gil Braga; Porto : Câmara Municipal do Porto, 2001] 27 Foto do Porto e da Ponte Pênsil [DIAS, Marina Tavares; Porto desaparecido, Quimera Editores, 2002] 28 Foto construção da Ponte Luís I [DIAS, Marina Tavares; Porto desaparecido, Quimera Editores, 2002] 29 Foto da Ponte Luís I antes da demolição da Ponte Pênsil [DIAS, Marina Tavares; Porto desaparecido, Quimera Editores, 2002] 30 Planta do Corpo da Guarda antes das demolições [REAL, Manuel Luís; A ponte e a avenida : contradições urbanísticas no centro histórico do Porto / coord. Manuel Luís Real, Maria Helena Gil Braga; Porto : Câmara Municipal do Porto, 2001] 31 Foto aérea da Avenida D. Henrique [www.googleearth] 32 Planta projecto Arq. Távora para a Av. da Ponte [REAL, Manuel Luís; A ponte e a avenida : contradições urbanísticas no centro histórico do Porto / coord. Manuel Luís Real, Maria Helena Gil Braga; Porto : Câmara Municipal do Porto, 2001] 33 Desenho Arq. Távora Av. da Ponte [REAL, Manuel Luís; A ponte e a avenida : contradições urbanísticas no centro histórico do Porto / coord. Manuel Luís Real, Maria Helena Gil Braga; Porto : Câmara Municipal do Porto, 2001] 34 Desenho Arq. Távora Av. da Ponte [REAL, Manuel Luís; A ponte e a avenida : contradições urbanísticas no centro histórico do Porto / coord. Manuel Luís Real, Maria Helena

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Gil Braga; Porto : Câmara Municipal do Porto, 2001]

36 Desenho Arq. Siza Av. da Ponte projecto de 68 [SIZA, Álvaro Vieira; CASTANHEIRA, Carlos; As Cidades de Álvaro Siza; 1ª Edição; Lisboa: Livraria Figueirinhas; 2001] 37 Desenho Arq. Siza Av. da Ponte projecto de 68 [SIZA, Álvaro Vieira; CASTANHEIRA, Carlos; As Cidades de Álvaro Siza; 1ª Edição; Lisboa: Livraria Figueirinhas; 2001] 37 Maqueta Arq. Siza Av. da Ponte [SIZA, Álvaro Vieira; CASTANHEIRA, Carlos; As Cidades de Álvaro Siza; 1ª Edição; Lisboa: Livraria Figueirinhas; 2001] 38 Maqueta Arq. Siza Av. da Ponte [SIZA, Álvaro Vieira; CASTANHEIRA, Carlos; As Cidades de Álvaro Siza; 1ª Edição; Lisboa: Livraria Figueirinhas; 2001] 39 Planta projecto Arq. Siza para a Av. da Ponte [SIZA, Álvaro Vieira; CASTANHEIRA, Carlos; As Cidades de Álvaro Siza; 1ª Edição; Lisboa: Livraria Figueirinhas; 2001] 41 Foto Avenida Vímara Peres [do autor] 42 Foto Avenida Vímara Peres [do autor] 43 Foto de área em abandono sobre a Ponte Luís I [do autor] 44 Foto da maqueta, reabilitação do edificado [do autor] 45 Foto da maqueta, reabilitação do edificado [do autor]

46 Esquema de percursos e fotos da Rua do Codeçal e Travessa das Verdades [do autor] 47 Foto do edificado voltado a Sul [do autor] 48 Foto de área em abandono sobre a Ponte Luís I [do autor] 49 Planta síntese das intervenções turísticas [do autor] 50 Foto da maqueta, síntese das intervenções culturais [do autor] 51 Foto da maqueta, síntese das intervenções culturais [do autor] 52 Foto da maqueta, síntese das intervenções culturais [do autor] 53 Esquema de percursos e fotos da Rua de D. Hugo [do autor] 54 Foto da maqueta [do autor] 55 Foto da maqueta [do autor] 56 Foto da maqueta [do autor] 57 Plantas da fundação existente [baseado em plantas cedidas pelo arq. Pedro Ramalho]

58 Planta 1/1000 do existente [do autor] 59 Corte 1/1000 pela avenida [do autor] 60 Esquiço da Ponte Luís I [do autor] 61 Esquiço da Ponte Luís I [do autor] 62 Esquiço de memória da Avenida [do autor] 63 Esquiço de memória da Avenida [do autor] 64 Planta ampliação à fundação, Piso 2 (Rua D. Hugo) [do autor] 65 Planta ampliação à fundação, Piso 1 [do autor] 66 Foto de maqueta, ampliação à fundação [do autor] 67 Foto de maqueta, ampliação à fundação [do autor] 68 Foto de maqueta, ampliação à fundação [do autor] 69 Esquiço a rigoroso da solução do Arq. Pedro Ramalho [baseado em plantas cedidas pelo arq. Pedro Ramalho]

70 Planta ampliação à fundação, Piso0 (Av. Vímara Peres) [do autor] 71 Planta ampliação à fundação, Piso -1 [do autor] 72 Esquiço, entrada da Rua D. Hugo [do autor] 73 Esquiço, construído [do autor] 74 Esquiço, construído de entrada da Av. Vímara Peres [do autor] 75 Esquiço, Av. Vímara Peres [do autor] 76 Esboço da solução [do autor] 77 Alçado poente da Avenida Vímara Peres com projecto de intervenção [do autor]

78 Corte pelo projecto de ampliação à fundação [do autor]

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Avenida em espera