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BACULEJO_ P I L O T O

JOão HENRIQUE • PORCOS • MOVIMENTO ESTUDANTIL • CARNAVAL • LONDRES FEDERER • GRAMA • CHAPADA • MULHERES • CARTUNS • CUÍCA DE SANTO AMARO CRACK • CONTO • CINEMA PORNÔ • ESPECIARIAS • HACKERS • DIUMBANDA

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JOão HENRIQUE • PORCOS • MOVIMENTO ESTUDANTIL • CARNAVAL • LONDRES FEDERER • GRAMA • CHAPADA • MULHERES • CARTUNS • CUÍCA DE SANTO AMARO CRACK • CONTO • CINEMA PORNÔ • ESPECIARIAS • HACKERS • DIUMBANDA


ABORDAGEM

FRAGMENTOS DE UM DISCURSO CARNAVALESCO

Vagalumes

RAFAEL MARTINS

ZÉ MARQUES

O que acontece no Cine Tupy, fica no Cine Tupy................................

REGIONAL

Um Galo na Testa de Diumbanda

FRANCIEL CRUZ

Cuíca de Santo Amaro e as extorsões na TV baiana...........................

PIGGY

ELCIO CARRIÇO

ELCIO CARRIÇO

O que vem depois da chuva.............................................................

COMANDO

Na Grama

DAVID KUSHNER

O garoto de 17 anos que dobrou a Sony............................................

LONDRES

PAULO CLETO

À PAISANA ATIVIDADE SUSPEITA LIBERADO

MARIA PALÁCIOS

O que as especiarias realmente significam para a história ocidental.......

Coringa

CALVIN TOMKINS

Roger Federer e a reinvenção do tênis..............................................

Oriente-se

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THIAGO KALU

A decadência do Centro Histórico na poesia deThiago Kalu....................

Holifield vs Todo-Duro

54 55

LEOVIGILDO FERREIRA

Sexo e juventude na ficção ..............................................................

A pedra no centro da história

38 42 43 52

EDITORIAL Não há “F5” numa revista e meus pêsames pela morte do factual nesse meio. Mas outra coisa é ser atual. E o bom texto – e tomara que se encontre bom texto nesse projeto de revista – este, sim, será sempre atual. Aqui há republicações. Há releituras de ocasiões passadas. Há traduções. Muitas coisas anteviam momentos que aconteceram (ou não). Há coisas novas também. A revista foi idealizada em cima de uma folha em branco. Idealizada na lacuna de um mercado desconfiado. Idealizada também na ausência que a academia se acomete. No entanto, a Baculejo é mercado e academia. Aqui fica uma proposta de mostrar o que talvez tenha passado despercebido pela janela, no trânsito. Ou o que foi visto e não entendido. Ou o que só deu pra passar o olho. Aqui fica uma proposta de leitura. E, no mais, alguém ainda sonha em VIVER SEUS DIAS fazendo revista sobre o que ACREDITA? Elementos suspeitos, estes.

A importância dos relvados ingleses para o esporte moderno.................

Ansiedade na grama

PAULO SATURNINO

Um movimento estudantil, quando cliente, tem sempre razão?..........

Máquina Política

FELIPE CAMPOS

Um prefeito, quatro jornalistas e uma mapa.....................................

Militância e fotocópias

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Evisceração de porcos, pra começo de conversa....................................

Um João Henrique na parede

PABLO REIS

Aposta gastronômica na Boquinha da Garrafa..................................

A Casa Nunca Cai

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Luz e cores nas ruínas de Igatu.............................................................

Trocando sonhos no cinema

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VICTOR UCHÔA

Quem é que faz o carnaval?.................................................................

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Crônica histórica de Ricardo Sangiovanni.........................................

Os intervalos são de Minêu e Duardo Costa. A capa é de João Galdea

BOLETIM DE OCORRÊNCIA DOCUMENTO DOS CONDUTORES E DO VEÍCULO: Felipe Campos e Pedro Britto; Revista Baculejo, produção realizada como Trabalho de Conclusão de Curso da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (Ufba). ANO: Atrasado. 2012.2 PROCEDÊNCIA, OCUPAÇÃO: Felipe, habilitação em Jornalismo. Pedro, Produção em Comunicação e Cultura. RESPONSÁVEL: Maurício Nogueira Tavares, professor associado e doutor em Comunicação e Semiótica. SITUAÇÃO: Elementos suspeitos retidos na instituição citada acima. Liberação pendente à averiguação de material apreendido.


“V

ai pra onde, Amanda? Volte, Amanda! Que merda!”, bradou a jovem no meio do Carnaval. Amanda não deu a mínima. Virou de costas e, braço entrelaçado com o de outra garota, partiu para um destino incerto. Do lado de fora da corda, a jovem que gritava Amanda num misto de raiva e tristeza segurou o choro. Um cidadão com cara de quem não sabia o que ocorrera tentou consolar. “Fica assim não, Mô”, arriscou, sem sucesso. Aí, Ivete passou e o jovem voltou seu olhar para as pernas no trio. Do seu lado, Mô começou a chorar de verdade. E ele nem tchum. Por que Mô e Amanda brigaram? Para onde foi Amanda? Voltou Amanda ao encontro de Mô? E Mô perdoou o cidadão que trocou seu pranto pelas

hipnóticas pernas de Ivete? Vai saber... Quem circula pelo Carnaval fica assim, capturando pequenos frames da folia, aqui e acolá. Dificilmente se sabe o início da história e não há tempo para esperar o desfecho. Equilibrando-se entre a lama de cerveja e mijo e a tropa da PM, entre a corda do bloco e o tapume do camarote erguido em área pública, entre a chapa quente do espetinho proibido e o isopor sem alvará, a pipoca se alimenta de fragmentos da festa. E segue a vida. No caminho, vê outra moça que chora. Chora a cântaros. Amparada por duas amigas e um rapaz, sintetiza o dilema da existência humana: “É sempre assim. Quando eu acho que tô botando pra foder, vem alguém de lá e...”. Terminou a frase com um gesto abrupto e derrotista, derretendo-se em lágrimas.

Foi abraçada por uma das amigas. Abraço não existente na história do casal que, deixando o circuito, começou uma discussão sabe-se lá por qual motivo. De salto alto e tudo, ela desata da mão do parceiro e marcha na frente, como quem demonstra poder. Ele, com aquele ar resignado de quem discordará da namorada até o fim dos dias, mas, somente naquele instante, quer apenas encerrar a querela e voltar em paz para casa, tenta ser brando: “nós vamos continuar brigando é?”. Mas a mulher - estes seis dias de Carnaval em forma de gente - vira pra trás e rebate de boca cheia: “Foda-se!”. De salto alto e tudo, dá meia volta e parte. É claro que a folia não se faz só de desencontros. Há encontros mil, quase todos devidamente catalogados nas raras rimas entre paixão e Verão, amor

e calor, solteiro e fevereiro. Dá pra não usar as fantasias desgastadas? Dá, mas isso é coisa pra um Chico (Se você sentir saudade, por favor não dê na vista, bate palmas com vontade, faz de conta que é turista), um Caetano (Não se perca de mim, não se esqueça de mim, não desapareça) ou um Moraes (Pra libertar meu coração eu quero muito mais que o som da marcha lenta. Eu quero um novo balancê, o bloco do prazer que a multidão comenta). Cá do meu camarote, fico com a definição do rapaz que, no meio de três, talvez quatro, mas não mais que cinco amigos, resumiu seus dias de Momo: “Carnaval é muita curtição, véi. Tirando briga e murro na cara, é só beijo na boca”.

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ABORDAGEM

Fragmentos de um discurso carnavalesco

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REGIONAL


Vagalumes RAFAEL

MARTINS


CHICO NOVOA

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TROCANDO SONHOS NO CINEMA ZÉ

MARQUES


é um mero pretexto para a existência legal do espaço. Na tela, a projeção é levemente desfocada – pouco ilumina o rosto dos presentes – e o som de gemidos do filme não passa de música ambiente para os pagantes. O ponto mais iluminado – e frequentado – do cinema é o banheiro no fundo da sala, à esquerda. “Intervenção da segurança, só se houver briga”, explica o bilheteiro. O que acontece no Tupy, fica no Tupy.

R

econstruir, inevitavelmente, implica em destruir – nem que seja o que já estava destruído. No Centro Histórico de Salvador, a destruição já criou vida própria, uma lógica de operação que deverá se extinguir caso as mudanças planejadas para a região comecem a ser feitas. A contagem regressiva para a Copa do Mundo e Olimpíada no Brasil fez os olhos do poder público da Bahia se voltarem mais uma vez para os casarões em torno do Pelourinho e de bairros adjacentes – muitos dos quais ainda abrigam prostíbulos, traficantes, viciados e moradores de rua. Investimentos que prometem “revitalizar” – palavra da moda – a área são anunciados. O objetivo é domesticar o Centro para turistas, aqueles que chegam a Salvador com a esperança de presenciar cenas de um episódio de “Ó Paí, Ó” e acabam voltando para casa com uma fitinha do Senhor do Bonfim de cinco reais no braço – apesar de o vendedor garantir que seria um presente. Quem sintetizou bem a sensação do que é estar na Salvador histórica, hoje, foi o ex-candidato a prefeito Rogério Tadeu da Luz, em entrevista concedida durante a campanha: “Quando chego ao Pelourinho, não sei se faço um tererê ou se compro uma pedra de crack”. No fim de fevereiro de 2013, o governador Jaques Wagner voltou a usar a palavra mágica. Ele anunciou a tal revitalização da Avenida J.J. Seabra – nome formal da Baixa dos Sapateiros. As promessas de mudanças incluem a restauração de antigas construções, que serão transformadas em residências estudantis; do edifício do Corpo de Bombeiros; melhorias na acessibilidade e mobilidade urbana; e a recuperação dos Largos de São Miguel e da Ajuda, da Praça dos

Veteranos e de imóveis para habitação. Se as mudanças serão feitas no prazo proposto, de um ano, situação quase que inédita em se tratando de obra pública na Bahia, ninguém sabe. Nem mesmo se os orixás do Dique do Tororó irão interceder para que os R$ 17,5 milhões estimados no edital sejam mesmo o custo total do projeto. No entanto, as últimas anacronias que resistem na velha Soterópolis podem se reconfigurar facilmente, bastando apenas que prefeitura e governo parem de fazer vistas grossas à ausência de ordem na região.

E

aí seria o fim do Cine Tupy, o maior dos dois últimos cinemas pornográficos da cidade – o outro é o Cine Astor, localizado na Tomé de Souza, uma ruela próxima à Rua Chile, também no Centro. Eles sobreviveram e assistiram ao fim dos vizinhos Cine-Theatro Jandaia e Cine Pax. Todos têm uma história parecida: um início promissor, a decadência com a popularização dos multiplex e a degradação da região, a cessão aos apelos do cinema pornô. O Jandaia foi o primeiro de todos. Inaugurado em 1911, na década de 1930, teve capacidade ampliada para 2,2 mil pessoas. Como era um cineteatro, também recebia peças teatrais e apresentações musicais. Ali, o público viu espetáculos de Carmem Miranda e Lamartine Babo. Já nos seus últimos anos de vida, se manteve precariamente com exibições de filmes de artes marciais e pornográficos, fechando em 1993. O Jandaia era, assim como o Tupy ainda é, administrado pela Orient Filmes, a mesma responsável pelas salas dos shoppings Iguatemi, Paralela, Barra, Center Lapa e Ponto Alto – o que para o jornalista Pablo Reis “é mais ou menos como um empresário ter os direitos federativos de Kaká e também de Gato Preto, goleiro da seleção de Ipiaú no campeonato intermunicipal”. Em seu site, a empresa tem a programação de todos os cinemas que comanda, menos o Tupy. Ela sequer faz referência ao lugar.

É

irônico que um espaço datado ainda sobreviva em uma rede social também datada como o Orkut.

Mas os frequentadores do Cine Tupy e do Cine Astor continuam a utilizar a antiga rede social mais popular do Brasil para marcar encontros e contar peripécias sexuais. Na comunidade “Fãs de Cinema Pornô – Salvador”, perfis falsos com nomes de usuários como “Negro Bem Dotado” destilam suas resenhas sobre o local. “RUMO A PUTARIA... ao chegar lá, o corpo tremia, as mãos suavam, parecia que era a primeira vez, o mesmo cheiro forte de barata no corredor na escada, algumas putas já conhecidas e umas travas bem bonitas... logo na chegada no primeiro andar, um coroa me ofereceu 20 reais pra chupar minha pica, apos mostrar a ele 23 cm de uma pica bem dura, lisinha e cheirando a hidratante, ele me ofereceu 50 pra eu dar uma metida no cu dele”, publicou o suposto frequentador do Astor. Com todo o floreio que o participante da comunidade possa ter feito sobre sua experiência no cinema, boa parte da clientela do Tupy e do Astor procuram vender, comprar, ou fazer sexo sem custos. A maioria do público pagante, quando não está no banheiro, vaga pelos arredores da sala. Os frequentadores não se distinguem em uma faixa etária ou tipo social. Há senhores de meia idade que se masturbam sem se importar com olhares alheios e há jovens sem camisa que procuram pessoas dispostas a pagar por sexo oral. O fedor do espaço seria ainda maior se não houvesse fumantes no interior, disfarçando a mistura de odores. Ali, é possível presenciar cenas como a de um vendedor ambulante que entra com uma guia de doces e salgados na sala. Moreno, baixinho e de bigode ralo, chama para um canto um travesti que, de salto, ultrapassa sua altura em uns 30 centímetros. Cinco minutos depois, o travesti deixa a sala e se dirige para a porta do cinema com um sonho de goiabada em mãos. O vendedor, satisfeito, também abandona a sala. Ele não tem ideia se o Tupy vai continuar aberto no futuro. A tal revitalização pode chegar a qualquer momento e, com ela, a valorização do espaço, dos serviços e da ordem pública. Mas enquanto tudo isso continua na promessa, ele ainda pode se valer da taxa de câmbio: um sonho por um boquete.

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U

ma vez na Baixa dos Sapateiros, não é difícil achar o Cine Tupy. Basta procurar a franquia local da Igreja Universal do Reino de Deus, nas proximidades da Ladeira do Aquidabã, e olhar para o lado esquerdo. A placa com os dizeres “TUPY Todos os dias 2 filmes de sexo explícito”, pintados em um desgastado vermelho, fica pouco abaixo do slogan “Jesus Cristo é o Senhor”, de cor igual. A presença do templo neopentecostal ao lado do ponto de entretenimento profano é estratégica: ali, um sujeito pode pecar e em seguida se arrepender, sem deixar os arredores. E o Tupy permite o pecado por um preço razoável. Fora qualquer serviço extra que eventualmente seja pago nas dependências do cinema, a entrada custa R$ 6,50 e é válida até o encerramento do expediente. Os dois filmes diários são exibidos três vezes cada. O cliente pode entrar no início da primeira sessão, às 10h, e deixar o local após o fim da última, às 18h30. O prédio aberto ao público em 1956 com a promessa de modernizar o cinema baiano acabou se tornando em mais um símbolo da decadência do Centro Histórico de Salvador – processo de degradação e empobrecimento da região iniciado nos anos 70 com a transferência do centro financeiro e comercial da cidade para a região do Iguatemi. Apesar de os funcionários reclamarem que houve, nos últimos cinco ou seis anos, uma queda significativa na venda de ingressos, o Tupy ainda recebe entre 60 a 90 pessoas por dia. Quase todos do sexo masculino. Muitos frequentam o local diariamente, tal qual um barzinho de esquina. As facilidades do acesso à pornografia na internet – a popularização da banda larga provocou o crescimento de sites de streaming de filmes de sexo explícito, como o “xVideos” e o RedTube – e a venda avulsa de DVDs pornôs em bancas e barracas de camelô, que acontece, inclusive, em frente ao Cine Tupy, devem ter contribuído para a queda do lucro do estabelecimento, mas a clientela que insiste em frequentar a sala da Baixa dos Sapateiros não está ali para ver os filmes, necessariamente. Dentro do cinema há um mundo à parte e a exibição

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UM GALO NA TESTA DE DIUMBANDA 2007: O cantor que fez sucesso nacional com a Boquinha da Garrafa tenta superar o ostracismo à base do escaldado de galo PABLO

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TEXTO E FOTO

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N

uma tarde de segunda-feira, sem ser feriado, Diumbanda está bem acomodado num boteco, nos fundos do mercado de hortifruti das Sete Portas, enchendo as vísceras de carne de sertão frita com cebola e uma garrafa de cerveja gelada (outras cinco estão vazias num engradado ao lado). Está sozinho por opção, porque a todo momento ele recebe a visita de um conhecido, que insiste em atrapalhar seu processo de construção criativa. Não lembrar de Diumbanda assim logo de cara não é nenhum caso de desinformação cultural, afinal nos últimos cinco anos ele amargou um ostracismo de fazer qualquer um ficar de crista baixa. Se a imagem dele fica meio difusa nas brumas do esquecimento pagodeiro,

seus refrões inspirados logo viram uma lembrança ao longe no som de cavaquinho: “Vem nhanhá, devagarinho”; “vai descendo na boquinha da garrafa”: “é a dança do maxixe, um homem no meio com duas mulheres fazendo sanduíche”; “eu lhe disse que não bulisse, você buliu assanhou”. Da imaginação fermentada com cerveja e carne de sertão frita já saíram muitos sucessos que viraram disco de ouro e ainda tem uma lavra criativa a ser explorada de sua mente. Diumbanda, um soldado da Polícia Militar baiana que sempre alternava o serviço de farda com os shows no Gerasamba, Terrasamba e Companhia do Pagode, está voltando para a cena graças ao galo. O Galo de Diumbanda é o nome de um show

realizado toda noite de quarta-feira (ingresso masculino por R$5 e feminino por R$2), num palco improvisado nos fundos do mercado das Sete Portas, antiga rodoviária de Salvador. No bom sentido, é uma rinha musical onde até Toni Garrido chegou a se apresentar, depois de provar do tradicional escaldado, com batata, chuchu e quiabo, como alardeia o refrão da mais nova música do artista que é reprodutor das frases possivelmente mais exóticas do cancioneiro baiano. Basta dizer que ele assume tranquilamente a autoria da expressão “conversa de malandro não faz curva” e do fundamento da álgebra moderna “dezenove não é vinte”.

Ave social

O

galo de Diumbanda fez a comunidade do Péla Porco (ou Pela City, como ele começou a batizar) viver em função do seu bico. Antes, era notícia em jornal mais por assassinatos e denúncias de tráfico de drogas, do que por qualquer manifestação artística. Há pouco mais de dois anos, com um grupo de sete amigos, entre eles, um major e um coronel da polícia, um juiz de direito e um motoboy, Diumbanda resolveu que poderia mudar essa imagem a partir da reunião para comer o escaldado que a mulher preparava nas noites de quarta-feira. O samba começou a aumentar até o ponto em que 80 aves tinham que ser abatidas e servidas com chuchu, quiabo e batata para a multidão faminta


de um ensopado e sequiosa de pagode. Na região atrás da Rodoviária Velha, a rua normalmente ocupada por oficinas, carros fazendo serviços de chaparia, se transforma em alameda carnavalesca. Bares continuam como bares, só que bem mais cheios, mecânicas viram bares, janelas de casas viram bares, calçadas viram bares com isopores cheios de cerveja geladas. Só o estabelecimento do pai de Diumbanda vende 300 dúzias de latinhas, volume acompanhado por outros comerciantes de ocasião. Ele deu a esse mercado informal o status de distribuição de renda e colocou na festa de meio de semana o rótulo de projeto social. Virou mais uma criação de Diumbanda.

Líder do gueto

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iumbanda é de uma categoria de artistas que gostam de dizer que são “do gueto”, uma espécie de grife às avessas para comprovar que saiu de um beco da periferia ou de uma comunidade carente, até alcançar a avenida da notoriedade, o que para muitos é “chegar no asfalto”. Sua vizinhança hoje é chamada Vale do Matatu, mas ele prefere o nome original: Baixa do Tubo. Dali, muitos dos colegas que brincavam juntos na bola de gude, ou disputavam partidas de futebol evoluíram por times opostos no campeonato da sobrevivência. Seu rumo foi uma farda de policial, soldado desde 1982, só que antigos conhecidos preferiram o outro lado da lei. Diumbanda não costuma perdoar quem optou ser escalado “no lado certo da vida errada”. Por isso que sempre que alguém chega perto para dizer que fulano “foi derrubado”, ou sicrano “caiu no barro”, ou beltrano vai comer grama pela raiz, ele se limita a um consolo: antes ele do que a gente, que somos trabalhadores. Diumbanda não gosta mesmo de bandido e não faz questão nenhuma de ser politicamente correto nesse sentido. Em termos de segurança pública, o soldado é frio, mas deixa de ser um durão quando lembra da mãe. Ela morreu em 2004, justamente quando o filho, que tinha ajudado ela na infância vendendo acarajé, sonhava em se tornar vereador de Salvador. No auge da campanha, o

falecimento da matriarca tirou a euforia eleitoral do dublê de político (ele ficou com 829 votos, mas sempre faz questão de arredondar para 1000). Subia ao palco nos showmícios e começava a cantar Tim Maia, em lágrimas. O sentimento é tão presente que agora Diumbanda está chorando, em pleno reduto etílico. Não simplesmente uma emoção discreta confundida com olhos marejados, mas um pranto forte e comovente de quem parece ter enterrado a mãe ontem mesmo. “Todo dia vejo minha velha na fotografia em minha cabeceira”, lamenta, num acesso de desespero filial, curado depois de tomar um fôlego e de tomar um gole. O soldado Diumbanda foi pioneiro do grupo Gerasamba (que viraria É O Tchan), no final dos anos 80, época em que o hoje ministro Gilberto Gil fazia campanha para vereador e levava shows para os bairros. O palco ficou pequeno para ele e Washington e partiu para o Terrasamba. Em seguida, criou o Companhia do Pagode, quando conheceu o sucesso nacional em 15 dias, com a pérola Na Boquinha da Garrafa.

Sintomas do sucesso

A

lgumas pessoas medem o êxito de uma carreira em títulos acadêmicos, outros calculam em rendimentos, alguns em longevidade profissional. Diumbanda mensura seu sucesso em número de aparições em programas de auditório: quatro vezes no Faustão, duas vezes na poltrona de Jô Soares, meia dúzia de visitas no sofá de Hebe Camargo, no Domingo Legal, de Gugu, nem se fala, ele praticamente tinha um quartinho lá toda semana. Só foi uma vez no programa De Frente com Gabi, da jornalista Marília Gabriela, experiência que para um “analfa” (assim ele se refere a si mesmo, com o segundo grau completo) se transformou numa verdadeira prova de gramática. Ele tinha a impressão de que estava ali para ser flagrado em erro de português. E o que fez foi apenas cuidar para não deslizar em alguma concordância verbal, ou não falar pobrema. Saiu de lá com a impressão que a entrevistadora tinha alguma coisa contra alguém que dissesse

“me trocou pela garrafa, não agüentou e foi ralar”. Estereótipos de galã passaram distante dele (Diumbanda é um negro com 1,64m de altura, testa larga, olhos que parecem maiores do que a órbita e um bigodinho para estudo geométrico, por formar um triângulo isósceles perfeito), mas ele alardeia sucessos de alcova. Com um pouco mais de papo, ou de cerveja – não se sabe qual seja seu motivador mais forte – ele conta affairs com a atriz Débora Secco, à época uma ninfeta sem papel de protagonista, e que também mostrou as esporas para a cantora e dançarina Márcia, do grupo Banana Split, hoje mulher de Xororó. Na banheira do Gugu, por exemplo, um quadro dominical onde a audiência era medida na proporção inversa da largura dos biquínis das participantes, Diumbanda, um dos mais assíduos competidores, costumava fazer estripulias quase carnavalescas. Coisa que, no bom e velho português de uma piscina do clube dos comerciários, se chama mão boba. As bravatas de macho alfa soam como contradição aparente às juras de amor e homenagens conjugais à dedicação da jornalista Eunice Ferreira, com quem tem um relacionamento de 18 anos. Só que Diumbanda considera todas essas aventuras pretéritas como uma oportunidade de confirmar o valor de sua atual companheira. “Eu poderia estar casado com qualquer mulher, qualquer piriguete, loira, morena ou saruaba. Mas essas só querem tomar de assalto. A minha mulher é brilhante”, elogia. Eunice já teve seus tempos de ciumenta, já sofreu com o assédio extravagante de quem ela sabia ser não apenas fã. Hoje, se considera com mais maturidade até porque acredita que o marido sabe diferenciar o que são “mulheres e mulheres”. Conheceram-se quando ela disputava um concurso para Rainha do Carnaval, ele do Gerasamba, ela classificada em segundo lugar, como a mais bela mulata daquele ano. Graduou-se em jornalismo para ajudar a carreira do artista e cursa MBA para aprender como funciona o terceiro setor e incrementar o projeto social Galo de Diumbanda. “A gente não tá dando o peixe ao

povo, está ensinando a pescar, de uma maneira produtiva”, acredita.

O Malandro

O

pratinho de carne de sertão frita é diminuído aos poucos, enquanto Diumbanda vai recebendo visitantes de todos os gêneros. Uma antiga vizinha de Cosme de Farias leva cinco jovens da banda Inevitável, prometendo que ali estão talentos da música romântica. O suficiente para o cicerone convidar para uma participação especial no Galo da próxima quarta-feira. “Vocês têm os instrumentos? Vão poder tocar uns 20 minutos, eu estarei na portaria, agora só tragam os músicos, não tem essa de trazer namorada, gato, cachorro e periquito”, recomenda, severo. O também policial Ricardo Ramos chega para sondar como foi a apresentação de seu grupo de reggae, o Conexão Rasta, formado quase na totalidade por soldados e sargentos da Companhia Gêmeos da PM. Já combina uma canja para a próxima oportunidade, desde que todos os músicos consigam permutar o horário que fazem as rondas. Diumbanda nasceu Zacarias Higino de Jesus Filho, há 43 anos, e ganhou apelido de candomblé em uma partida de sinuca. Encaçapava as bolas mais improváveis e um dos adversários começou a dizer que ele só podia ser de umbanda. Cada novo acerto no impossível era mais um grito “de umbanda”, “de umbanda”, o que terminou virando rótulo artístico. Ele, que vai toda terça-feira na missa do Bonfim, tem uma forma inusitada de louvar a Deus, a quem chama de O Malandro, assim em maiúsculas, porque, afinal, é melhor ter o mínimo de respeito com o onipotente. “O Malandro já tinha visto que eu assinei minha capivara”, é a forma diumbanda de dizer que Deus percebeu quando ele pagou todas as dívidas e estava pronto de novo para o sucesso. Podem escrever que Diumbanda está de volta, com a bênção de todos os santos, e o reforço alimentar de escaldado de galo com cerveja gelada. Afinal, dezenove não é vinte.

*


A CASA NUNCA cai FRANCIEL

Dezembro de 2007: popular apresentador de tevê é demitido de uma emissora baiana após denúncias de extorsão contra empresários. O texto abaixo se refere a este caso.

A 16

Bahia pode ser acusada de tudo – menos de falta de respeito às suas tradições. E uma das tradições mais caras (às vezes, no sentido literal) a esta província é submeter-se a comunicadores (quase escrevo achacadores) semi-alfabetizados, pretensos defensores da coletividade, especialmente da camada de baixa renda, metidos a valentões e com um senso ético bastante elástico. Muito provavelmente, o triunfo da referida espécie nestas plagas se deve à formação da, digamos assim, civilização baiana – que é essencialmente oral e ágrafa. Por isso, aqui viceja (receba, sacanas, um viceja pelas caixas dos peitos) a ensurdecedora mania de sempre ganhar no grito. Na Bahia, os que tentam argumentar já começam a peleja em sonora desvantagem em relação àqueles que têm um bom timbre de voz. Mas, estes prolegômenos pretensamente erudito-analíticos servem somente para situar o desinformado ouvinte sobre a verdadeira origem desta primeira polêmica do verão baiano envolvendo Zé Eduardo e a TV Aratu. Independentemente se o distinto foi  realmente flagrado com os lábios na botija, uma coisa é certa: os futuros desdobramentos (desculpem-me a redundância, mas ela é necessária) das nebulosas transações nos remete ao passado, mais exatamente à década de 40 do século XX.

Naquela era, pontificava na Bahia José Gomes. Assim como seus sucessores, ele possuía uma irresistível atração pela bizarrice e não menor amor ao alheio. Mas, nécaras de furto puro e simples. Algumas de suas caraterísticas, que o tornaram o pai da matéria e inspirador dos atuais protagonistas da mídia baiana, são assim reveladas por um de seus biógrafos, Mark J. Curran, no livro Cuíca de Santo Amaro:  Controvérsia  no Cordel. Ouçam. “Uma das técnicas de Cuíca para obter histórias sensacionalistas era a extorsão jornalística. Claro que esta palavra, tão forte e direta, nunca foi usada pelo poeta. Porém, é certo que obtinha informações de natureza escandalosa e, para não publicá-las, exigia pagamento dos interessados. Ou publicava-as no folheto “quente” do momento, mas sem revelar nomes, apresentando somente uns poucos detalhes e insinuações. Assim, oferecia às pessoas interessadas a oportunidade de comprar a tiragem inteira da história que estava em preparo, história já prometida a um público curioso, história a ser espalhada às rua (sic) da Bahia”. Além do descrito acima, nosso herói também complementava o orçamento fazendo denúncias por encomenda ou usando a milenar técnica da bajulação. Qualquer semelhança com os métodos atuais não é mera coincidência. Como também não é acaso a aventura na (lucrativa) atividade política trajando o demagógico figurino de Pai dos Pobres.

CRUZ

Escutem um trecho do que Ele, o Tal, disse a respeito no panfleto intitulado  “Porque candidatei-me para vereador”: “Por causa deste povo muito tenho sofrido por defender o povo sempre fui perseguido com toda a perseguição tenho tudo combatido” Pois muito bem. Para que vossos maltratados sacos não transbordem, abstenho-me de falar sobre as dezenas de seguidores do nosso “Gregório de Matos sem gramática”, conforme definição do já citado brasilianista Mark. Apenas encerro lembrando que Cuíca virou um personagem da vida cultural de Soterópolis. Entre outras estripulias, fez o papel dele mesmo no filme A Grande Feira, de Roberto Pires; serviu de inspiração para Dias Gomes criar Dedé Cospe-Rima, em O Pagador de Promessa, além de ser citado por Jorge Amado em Bahia de Todos os Santos e perambular em Tereza Batista cansada de guerra, A morte e a morte de Quincas Berro D’Água e Pastores da Noite. Aliás, o marido de Zélia, sob o pseudônimo de João Garcia, assinou a primeira reportagem nacional na Revista Diretrizes, em 1943, sobre o distinto, que neste 2007 completaria 100 anos. E, por tudo isso, arrisco uma profecia: a casa de Zé Eduardo não cairá. A folclorização na Bahia imuniza gente desta espécie.

*


ANDRÉ LEAL

A POESIAia CUÍCA

DE

SANTO

AMARO

I

II

Nunca disse a ninguém Que eu era Getulista Nem também afirmei  Que eu era Queremista Todos sabem muito bem  Que eu sou propagandista.

III

Nessa história interessante  Você pode acreditar  Conheci uma fulana  Pois muito deu o que falar  Pois a mesma só levava A vida a jogar bilhar. Ela pegou no taco  Ele pegou na bola  Ela se espichou  Como se fosse mola  Com o taco na mão  Dizia, lá vai viola.

IV

Como não sou criança Para ninguém me enganar O livro anunciado Que mandaram me agüentar Por falta de palavra Resolvi a publicar. Esta minha atitude Eu conto aos amigos meus Um parente do monstro Na certa se doeu E uma certa noite Lá em casa apareceu. Sim, caro leitor Chegou ele apavorado E me disse, Seu Cuíca Poupe o degenerado Eu disse... cinco mil Para não ser divulgado.

V

O Cuíca de Santo Amaro Que de fato é o tal  Abre o grande filme Ao povo da capital  Pois o mesmo é, leitores Convidado especial. De fraque e cartola Parecendo um doutor Cuíca de Santo Amaro  Renomado trovador  Faz sorrir a valer Qualquer espectador.

BACULEJO_ P I L O T O

Era imenso o galinheiro Estava mesmo lotado Tudo de camisa verde Era um quadro gozado  Porém só tinha um galo  Era o Plínio Salgado. Porém o galinheiro Muito tempo não durou  Quando foi um belo dia Getúlio Vargas cismou  Agarrou logo o galinheiro E o rabo logo cortou.

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COMANDO


Piggy ELCIO

CARRIÇO


Um João Henrique na parede O QUE VOCÊ GOSTARIA DE TIRAR DO PREFEITO? FELIPE

CAMPOS

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“E

xcelente” foi uma das últimas palavras que o entrevistado deixou em registro no aplicativo de gravação. Para um jornalista que se preze, daqueles que pretendem ir além do balcão de secos e molhados, “excelente” não é lá o que se espera ouvir ao final de uma conversa como aquela. Ainda mais quando o entrevistado em questão carrega em seu nome 79% de rejeição para o cargo em que ocupa. Eu fazia parte de uma equipe de quatro repórteres destacados para sabatinar o atual prefeito da cidade de Salvador. O “excelente” era o sinal de que saíamos derrotados. Saímos derrotados. Eu, com um souvenir em honra ao nosso esforço. Algo que atesta tanto a gravidade da situação não explorada à nossa frente, bem como o tamanho de nossa derrota. Um papel A4 dobrado, advindo do bolso do alcaide e usado por ele durante a entrevista. Uma tosca (e aqui vai um grande pedido de licença para todos os geógrafos e cartógrafos do mundo) representação gráfica da cidade de Salvador. A

península soteropolitana em formato de “V” com duas cores: o verde em uma borda representando a área desenvolvida – a orla oceânica – e grandes traços de marrom no centro e na margem esquerda, mostrando a grande região pobre da cidade. Acima, um filete azul no meio representando algum rio – o Joanes, talvez – e uma desiginação à esquerda em arial para Simões Filho e outra à direita para Lauro de Freitas. Era um mapa. Um absurdo de horroroso mapa. Era mais absurdo ainda eu estar vendo aquilo ali ser usado pelo representante de mais de 2,5 milhões de pessoas. Ao final, pedi a folha. “Para fazermos foto e ajudar a ilustrar a entrevista”, menti. Guardei-a. Fui o responsável por transcrever a conversa de mais ou menos 70 minutos que percorreu todos os grandes temas de sua gestão sem nenhum grande constrangimento ao gestor. Lembro-me bem o momento em que ele tirou o papel. Foi exatamente entre – e isso eu fiz questão de descrever na transcrição – “O PDDU [Plano Dire-

tor de Desenvolvimento Urbano], que tanta gente critica, foi o responsável [...] por ter gerado na cidade 70 mil novos empregos nesses sete anos. Isso também tem sido um ímã para magnetizar pessoas do interior. Agora, eu fiz um mapa aqui para mostrar para vocês da nossa cidade do ponto de vista socioeconômico...” e o “Salvador tem essas manchas verdes aqui, que é onde tem algum poder aquisitivo. É basicamente a orla marítima aberta e um pouco do centro da cidade. Então, Salvador é somente esta extensão de terra aqui, totalmente povoada já. As faixas verdes são as de melhor poder aquisitivo. E essa, marrom, é a pobreza da cidade”. Foi com este documento que o camaleônico político nos venceu naquela tarde de abril de 2012. Era o seu oitavo e derradeiro ano à frente da prefeitura de Salvador após surgir e ressurgir tantas vezes quanto foi decretado o seu fim nas urnas. Este era o meu entrevistado.

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oão Henrique de Barradas Carneiro chegara até aquele momento através de um surpreendente – até mesmo para a política – ziguezague entre partidos, bases aliadas e setores sociais de apoio. Fez trajetória na Câmara dos Vereadores (1989–1995) e na Assembleia Legislativa (1995–2004) até chegar ao Palácio Thomé de Souza [sede do Poder Executivo de Salvador] em 2005 pelo PDT. Tinha boa presença na imprensa e prêmios pela atividade parlamentar – foi congratulado pelo Unicef como “Melhor Vereador da Cidade” em 1992 e em 1998 foi escolhido pela mídia especializada como “Destaque Parlamentar”. Corria as campanhas com um número ridiculamente fácil (12.345) acompanhado de um jingle chiclete (“um- dois-três-quatro-cincô!”) que, se não o ajudou, também não o atrapalhou a vencer todas as eleições legislativas em que participou – aliás, João Henrique é um dos únicos políticos baianos que pode se gabar de nunca ter perdido uma eleição em mais de 20 anos.


(DIAP) como um dos 100 deputados mais infuentes do Congresso. Já JH, como João é abreviado, fazendo jus à heterogênea representação ideológica de sua família, se encontra hoje no Partido Progressista soteropolitano. Passeou por três partidos (PDT-PMDB -PP) e flertou com ao menos mais cinco (PSDB-PR-PV-PTC-PSC) enquanto esteve prefeito da capital. Chegou ao final do mandato com um recorde impressionante: todos os partidos com alguma significância no estado fizeram parte, em algum momento, de sua gestão de oito anos – o que não o poupou de ser alvo de todos os postulantes na campanha de sua sucessão em 2012. Tal o pai, ele também contou com um incomum evento para alavancar sua carreira política: um projeto de lei aprovado, quando ainda deputado estadual, que proíbe até hoje a cobrança de estacionamento em shopping centers de todo o estado. Este e outros fatos que, perdoem o jargão, “dão mídia” transformaram João no queridinho da classe média baiana e, consequentemente, da

imprensa local. À época, em um programa de rádio de participação aberta, ele foi chamado por um ouvinte de “o deputado Piscinão de Ramos, em que cada projeto de lei é um flash”, em alusão ao bordão da personagem vivida por Mara Manzan na novela O Clone.

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aquela tarde em que o entrevistamos, ao aparecer na sala cumprimentando um por um, ele ressurgia após um longo período de raríssimas entrevistas (e flashes) em eventos esporádicos. Um ano antes, trocara o PMDB dos Vieira Lima pelo PP, do então ministro das Cidades Mario Negromonte. O câmbio foi chamado de traição pelos peemedebistas, que o acolheram às vésperas das eleições de 2008 com 14% de indicação de votos para sua reeleição. Na campanha, o PMDB tinha Geddel Vieira Lima como Ministro da Integração Nacional, posto perdido quando ele saiu para tentar ser governador em 2010. Por conta de desavenças com os Vieira Lima e pela falta da “caneta federal”, João debandou em 2011

para o partido bola-da-vez. À época, a crise financeira na inadimplente prefeitura de Salvador, junto à recente decisão de mudança de partido, deixou a máquina soteropolitana como uma torre de babel. Secretários indicados pelos peemedebistas, bem como cargos de confiança da antiga base, tiveram que ser trocados e relocados. As pastas não se entendiam e o nome sujo da prefeitura barrava a tomada de empréstimos e repasses. “Faltava dinheiro até mesmo pra comprar areia e cimento pra se fazer obra. A Transalvador não contava com guincho e só tínhamos uma equipe para podar todas as árvores da cidade”, me confidenciou à época um engenheiro da Superintendência de Conservação e Obras Públicas (Sucop). O departamento responsável pelo trânsito nas vias soteropolitanas – eleito como principal problema da cidade – foi um dos mais prejudicados. Os radares de velocidade da cidade estavam desligados havia meses . Atrasos nos repasses também sucatearam aparelhos essenciais, como as estações de transbordo, planos

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FOTO: TIAGO MELO

Ele, um economista formado pela Universidade Federal da Bahia, é filho do ex-governador (e atual senador pelo PDT) João Durval, um dentista e político de Feira de Santana [segunda maior cidade baiana a 104 quilômetros de Salvador] que ascendeu ao posto máximo do Estado após assumir uma candidatura pelo PDS na última hora, em 1982. Era secretário de Saneamento e Recursos Hídricos do então governador Antônio Carlos Magalhães quando um acidente de helicóptero matou o précandidato Clériston Andrade. Acabou sendo indicado por ACM e venceu a eleição com 60% dos votos válidos. Completa a linhagem política da família o seu irmão Sérgio Carneiro, advogado e deputado federal pelo PT de Feira de Santana, um ano mais novo que João Henrique. Como legislador, tem em seu currículo a relatoria do novo Código de Processo Civil e a autoria da emenda constitucional que instituiu o divórcio direto no Brasil. De 2007 a 2010 esteve na lista do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar

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de Conta dos Municípios... Isso tudo encontrava uma opinião pública que já o rejeitava desde seu primeiro governo. Pouco antes de sua reeleição em 2008, seu índice de aprovação já era um dos mais baixos do país. Agora eles também reclamavam de sua passividade na relação com os grandes chefões partidários que desembarcavam na prefeitura com seus quadros políticos e suas verbas federais. Curiosamente, nos bastidores, muito se falava admiradamente na habilidade política do alcaide em mover-se pelos terrenos mais hostis do tabuleiro baiano sempre se alojando no grupo da vez, naquele que tinha mais a oferecer no momento. Não é para menos que em setembro de 2012, ao responder a MINEU.BLOGSPOT.COM

inclinados e até o Elevador Lacerda – que vivia constantemente “em manutenção”. Havia dificuldades até mesmo para a emissão de multas devido ao débito da prefeitura com os Correios. A crise também fez com que as críticas encontrassem caminho aberto na imprensa local, recém-desfalcada da verba institucional que irrigava jornais, blogs, TVs e rádios da cidade. Questionavam a competência do gestor; davam ampla cobertura a greves e cobranças de terceirizadas; escancaravam escândalos de sua gestão; fraudes em desapropriações de terra; o lobby do empresariado para a aprovação do plano diretor que tornou a cidade um canteiro de obras privadas do setor imobiliário; a máfia das Transcons; a rejeição de suas contas pelo Tribunal

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uma provocação de João Henrique, o mesmo Geddel o citou como “o gigolô do PMDB” – este partido que vem se destacando na nova república como, bem, alguém que está sempre próximo ao poder.

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assim chegava o prefeito de Salvador e o seu mapa de Paint Brush para aquela entrevista. Eu queria desvendar João Henrique. Eu encarava aquele momento como uma grande chance, não só de descolar um excelente portifólio (“o jornalista que participou da fatídica entrevista que terminou de derrubar o prefeito”) como também de um belo de um acerto de contas como cidadão soteropolitano. Imaginei-me num Nick vs. Frost lambuzado de dendê – como costumam pintar as coisas por aqui os Franciéis e os Rolims. Mas a verdade é que fomos dobrados tal qual aquela folha de papel A4. A verdade é que qualquer entrevistado que arrote algumas tecnicidades, alguns números, algumas informações de bastidores dobra qualquer repórter na Bahia – que já deve estar se preocupando com a pauta do dia seguinte. Foi mais ou menos o que aconteceu. Além do mais, há a cultura do tratar bem. Perguntamos tudo driblando hostilidades, não queríamos soar arrogantes naquele ambiente de trabalho que agora não parecia mais nosso: era dele – a intimidação da autoridade, o jornalista prudente (ou covarde). A pergunta capciosa, aquela que desequilibraria o poderoso da vez não saiu. Não houve confronto, insistência. Houve somente a satisfação em tirar um ou outro devaneio, outro absurdo de sua garganta. Lembro-me do trecho: “Não é raro você ver projetos mais complexos serem votados sem o aprofundamento maior de estudo”, usado para justificar as votações na Câmara Municipal em urgência-urgentíssima de temas de grande relevância para a cidade e alvos de cobiça do setor imobiliário, como o novo Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano, também chamado de PDDU da Copa. Houve também o mapa e sua infantil representação de Salvador. A minha satisfação em guardá-lo, ficar com aquele pedaço de história, ajudou a amenizar a minha frustração por nossa derrota.

Eu já havia entrevistado o prefeito antes. Não sentado em uma mesa, mas em eventos políticos, como sua adesão ao Partido Progressista. Lembro que no evento do PP, diante de uma pergunta que fiz, algo sobre incoerência ideológica ou fisiologismo político, seus olhos se encheram de lágrimas enquanto respondia. Não me olhava e parecia repetir um mantra, um discurso programado. Aumentava o tom na medida em que falava. Dizia da dificuldade em gerenciar a cidade, o problema do intenso fluxo migratório do interior do estado, do crescimento da frota automobilística e da desigualdade de renda (uma clássica saída à la João Henrique, para quem o conhece). Um diretor da Sedhan [extinta Secretária de Habitação e Meio Ambiente] me confidenciou uma vez que em seus momentos de maior fé – João Henrique já foi um fervoroso membro da Igreja Batista – rezava de mãos dadas com todos antes de uma reunião e chegava a chorar de emoção e abraçar um por um. Havia boatos sobre a condição psicológica do prefeito. Falava-se da administração de remédios pesados que prejudicava o exercício de seu cargo. As primeiras impressões que tive de João Henrique nesses eventos ajudava a construir este cenário para mim. Por isso me impressionou a forma, digamos, estável, em que ele chegou à redação e conversou normalmente sobre tudo. De fato, durante a entrevista ele não se esquivou de nenhuma pergunta. Falou da rejeição de suas contas, da possibilidade de inelegibilidade, ambições políticas, impopularidade, desigualdade de renda da cidade, do PDDU, da Lei de Ordenamento do Uso do Solo (Louos), sua relação com a Câmara de Vereadores, as traições políticas, a organização para a Copa, a licitação do lixo... Enfim, fez uma autoavaliação de todo o seu mandato. Também não tergiversou quando provocado a falar sobre a cereja do bolo de toda e qualquer discussão sobre Salvador: o metrô.

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esde 1997, Salvador amarga a construção de uma linha metroviária que liga a entrada da cidade (acesso à BR-324) ao centro (Estação da Lapa). Praticamente pronta, com tri-


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as se uma coisa João Henrique ensinou a todos nós, foi a não dá-lo como liquidado politicamente, por mais que tudo indique. E superar uma má-reputação não é coisa de hoje para JH. Quando jovem ele já não era um dos mais populares. Adolescente, estudou até 1978 no Centro Educacional Sophia Pinto, em Salvador, tendo a sua mãe, Ieda Barradas, como diretora no colégio. Duas fontes – um colega e um contemporâneo da mesma turma – me relataram que JH teve um sério problema de autoestima por ser chamado de “feio”. Segundo um deles, a pirraça – que hoje nos acostumamos a chamar de bullying – fez com que o jovem ficasse semanas sem aparecer no colégio. Já uma terceira fonte, uma colega sua no Sophia, me contou sobre sua timidez. A caracerística, aliada à importância de sua família na época, fazia-o parecer “arrogante”, segundo ela. “Ele era estranho. Usava um jeans apertado, umas botas esquisitas de vaqueiro. [...] Se achava o dono do colégio porque a mãe era dire-

tora”, disse-me. O instrospectivo e socialmente desajustado garoto que viraria um dos mais controvertidos prefeitos da capital baiana morou com os pais a vida toda – de 1983 a 1986 no Palácio de Ondina (residência oficial do Estado) – e só saiu para casar-se com sua primeira esposa, Maria Luiza Orge, com quem teve dois filhos. Formada em Educação Física e eleita deputada estadual pelo PSC em 2010, Maria Luiza também concedeu a João, além dos dois herdeiros, outro grande marco em sua vida: a participação no maior barraco familiar televisionado da história da política baiana. Um escândalo pessoal revelado no plenário do parlamento, gravado ao vivo pela TV Assembleia e eternizado pelos servidores de internet de todo o mundo. Em novembro de 2011, em meio a uma sessão ordinária, a deputada subiu a tribuna da Casa para anunciar o fim de seu casamento. Em um discurso já eternizado nos anais da história baiana, ela acusou o marido de traição e imortalizou a célebre passagem: “no subterrâneo do Thomé de Souza, tudo acontece até hoje às escondidas, em segredo”, escancarando o caso extraconjugal de João Henrique com a então subsecretária municipal da Saúde, Tatiana Paraíso – que posteriormente virou secretária da pasta ainda em sua gestão. Foi um direto em cheio na imagem

do alcaide. Curiosamente, a ridicularização do fato foi usada apenas por parte dos principais críticos de João na imprensa. Alguns colunistas, bem como alguns opositores políticos, se reservaram a não comentar tal situação – em claro respeito à sua vida pessoal. Só que quem esperou um João Henrique ainda mais contido e indefeso frente ao bombardeio da opinião pública, viu outra vez uma ressurreição do velho João. Ele não só assumiu o namoro com Paraíso, como começou a reaparecer na sociedade baiana ao lado da nova companheira. Era flagrado em eventos sociais, festas e até boates da cidade esbanjando felicidade em um nível de dar inveja a usuário de Facebook. Durante o carnaval de 2012, apareceu de abadá em camarote, pulou atrás do Chiclete com Banana, tirou foto dando beijinho e, no auge de sua paixonite adolescente, fez algo que mais uma vez colocou a sua sanidade em questão: uma tatuagem de henna com o nome da amada. Meses depois, o próprio André Curvello, já responsável por cuidar de sua imagem, rejeitou politizadamente o comportamento. “Eu, particularmente, avalio que ele podia ter se excedido menos.”

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udo isso havia começado a ocorrer seis meses antes daquela entrevista. Ainda não havia a “secretária Tatiana”, e, talvez por isso, e por respeito

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repórter que vos fala quando questionei sobre a impopularidade do prefeito. Para ele, havia pesquisas segmentadas que demonstravam a aprovação de João Henrique em algumas regiões da cidade, como o Subúrbio Ferroviário. Ele buscava a reinserção de João Henrique na mídia. Esta entrevista fazia parte de umas série de outras marcadas na tentativa de consertar “a imagem desgastada do prefeito em alguns setores”, como definia. Deixou-o falar e repetir praticamente o mesmo discurso em todos os veículos. De tudo, o gancho de quase todos foi o mesmo: sua declaração em tom ameaçador de que voltaria forte em 2014 com ambições de ser governador. Aqui em nossa conversa ele também falou sobre o tema. “Aqueles que têm medo de me enfrentar nas urnas, aqueles que viram que, quando eu entro nas eleições, geralmente começo em quinto e chego em primeiro lugar, podem começar a ficar com medo mesmo de 2014.” A afirmação virou deboche no meio, nas redes sociais e na boca de quem mais já havia se acostumado a criticar o gestor e decretado – desrespeitando a história fenixiana de JH – o seu fim político.

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lhos montados e trens armazenados em depósito, o grande entrave na instalação de metrô se dá pela sua operação subsidiada e quem arcará com o custo: Estado ou Município. JH chegou à prefeitura com as obras paradas e viu a construção ser retomada e parcialmente finalizada com recursos do governo federal, após um corte drástico no projeto pela então ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. Durante a entrevista, ao falar sobre o modal, o prefeito gabou-se de ser um dos poucos soteropolitanos (por opção. João Henrique é feirense de nascença) a já ter feito uma viagem no Calça-Curta – como a cidade se acostumou a chamar o monstrengo de seis quilômetros ainda não instalado. Após 15 anos de obra. Esta, sem dúvida, é uma das grandes pérolas do registro: “É muito tranquila [a viagem]. Silencioso, com ar condicionado, som ambiente. Eu fiz uma viagem agora no metrô de Madri [na Espanha] e o nosso é muito mais silencioso, climatizado. O nosso é novo, e o de Madri é antigo. Então o nosso tem tecnologia de ponta. Vocês deviam ter ido dentro do metrô. Foi uma falha nossa não ter colocado a imprensa para ir. E rápida. A viagem toda deu seis minutos.” Apesar do devaneio em comparar um sistema de transporte que tem um tráfego anual de 624 milhões de passageiros, 283 quilômetros e 13 linhas com um grande corredor de concreto nunca dantes utilizado, de fato, ali estava um João Henrique mais sóbrio do que me acostumei. Fora acompanhado apenas de seu assessor de Comunicação, André Curvello, experiente e bem conectado profissional da área que estava em sua segunda passagem pela prefeitura. Um mês antes, recém-empossado, ao ser entrevistado por alguns dos mesmos repórteres que sabatinavam seu chefe, Curvello declarou que “nós, profissionais de comunicação, vivemos de desafios. Esse aí é um desafio profissional que eu avaliei que pode ser interessante”. Esta era sua desculpa para encarar a comunicação do até então incomunicável prefeito, líder em rejeição entre nove capitais. Durante a entrevista, André só fez uma breve aparição. Contestou este

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nal do mandato de JH. Um mês depois, foi acusada de um calote milionário nos hospitais filantrópicos que prestam serviço ao Município e teriam direito a um repasse do Ministério da Saúde liberado em socorro ao setor. O valor chega a R$ 17 milhões. Mas, conforme disse, ainda não havia a “secretária Tatiana” e a entrevista com o alcaide foi focada em outros pontos chaves de sua gestão. Conseguimos declarações que fugiram o padrão joãohenriqueano. “Do buraco da rua onde você cai de manhã quando sai de casa e xinga a mãe do prefeito, até quando você vai dormir de noite e sua rua está escura por causa de uma lâmpada queimada, a culpa é do prefeito”, é uma das minhas preferidas. Em um raro momento de cumplicidade, e lembro exatamente porque ele afirmou isto olhando para mim, ouvi-

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à vida pessoal do prefeito, este assunto ficou de fora. Meses mais tarde ela seria empossada como secretária titular do Município. Médica cardiologista com MBA em Gestão de Saúde e atuação no setor privado antes de ingressar na pasta, ela diz não guardar mágoa da exposição pública que sofreu no discurso da deputada Maria Luiza. Quando perguntada sobre a mudança comportamental de seu novo companheiro, ela deu uma boa dica sobre a sua influência no novo João: “Para mim isso é rotina [sair no carnaval, pular atrás do trio]. Então, é natural que a pessoa que está com você vá com você. Talvez essa nova postura seja uma coisa assim de um novo momento”, sugeriu. Ao final da mesma conversa, não titubeou em responder a provocação do repórter: “Meu paraíso é João Henrique”, decretou. Tatiana Paraíso deixou o cargo no fi-

mos do prefeito um suspiro. Falávamos do problema da concentração de serviços na capital que resulta no fluxo diário de ambulâncias, caminhões e pessoas do interior em busca de trabalho. “É muito injustiçado esse cargo de prefeito. Eu confesso que, ao chegar perto [de deixar o posto], a gente vai sentindo saudade, mas vai sentindo também um certo alívio, viu? Porque eu vou te contar: oito anos sendo culpado por tudo que acontece na cidade...”

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udo, tudo, ele não foi – ainda. Mas para o Tribunal de Contas dos Municípios (TCM), por não haver atingido a cota mínima de investimentos em saúde e educação e por despesas gastas com publicidade não comprovadas, ele foi, sim, culpado. Oito meses após aquele encontro, a Câmara dos Vereadores de Salvador votou de acordo com o parecer e reprovou as contas do exercício do ano de 2009 – num claro sinal de que a prefeitura, de tão falida, não conseguia nem mais segurar a base governista carente de ruas calçadas e postes de luz em seus redutos eleitorais. Em tese, João Henrique se tornou o primeiro prefeito de Salvador a se tornar inelegível de acordo com a Lei da Ficha Limpa – o entendimento é contestado pelo seu advogado Celso Castro. Sua vida segue nesta dúvida: estará ou não apto a disputar, como diz que pretende fazer, o governo do Estado em 2014? Durante os primeiros meses, ainda no calor da troca de comando, JH vem sofrendo em sua aposentadoria do Thomé de Souza. Em notícia recente, o Jornal da Metrópole publicou infomações de que ele estaria sendo hostilizado em um cruzeiro pelo Caribe por conterrâneos na mesma embarcação. Vaias, bilhetinhos anônimos desaforados e trotes em sua cabine foram relatados. Pior que a chacota pública é o que talvez venha por aí. Na reordenação das secretarias pela gestão atual foram encontradas diversas irregularidades, entre elas, uma que chamou a atenção da nova equipe: processos de desapropriações realizados pelo município nos últimos dez anos com suspeita de superfaturamento e até mesmo duplo pagamento, o que teria gerado um prejuízo de R$ 341 milhões

aos cofres públicos. Uma Comissão Especial de Inquérito [versão municipal da CPI] pode estar a caminho. Toda essa revirada em seu governo pode complicar ainda mais a sua imagem, não mais amparada com a força da cadeira de um cargo do Executivo. Dizem que agora ele tirou licença de radialista e planeja um programa de participação popular. Seria nos moldes do programa do também ex-prefeito Mário Kertész – outro que saiu em grande rejeição e que teve uma candidatura fracassada em 2012 pelo PMDB. Ironicamente, Mário é um dos principais críticos a João, chegando ao ponto de chamá-lo de “autista” durante a campanha – a indelicadeza gerou o repúdio de organizações e pessoas ligadas ao tratamento da disfunção. João não respondeu. Também só respondeu timidamente, nesta campanha, quando foi trucidado por todos os candidatos. Mesmo apoiando ACM Neto, viu seu aliado sair vencendor batendo (moderadamente) em sua gestão. Ele assumiu mantendo alguns quadros políticos da antiga prefeitura, mas criticando o caos deixado pelo antecessor. Nada pessoal. Um camaleônico político como João entende isso.

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o final daquela entrevista, convencido de nossa derrota, repito, pedi a folha que o prefeito dobrara novamente e estava para colocar no bolso. “Para fazermos foto e ajudar a ilustrar a entrevista”, foi o que disse. Ela ficou por quase dois anos entulhada com outros papéis na bagunça que compõe a decoração do meu quarto. Quando resolvi escrever sobre João Henrique, decidi levar a sério uma brincadeira que já havia feito: emoldurei o papel e o prendi na parede. Como uma medalha de honra ao mérito pelo oitavo lugar de um campeonato de botão do aniversário de seu primo; como um atestado de que estive lá, na história, no pandemônio em que a gestão da minha cidade se encontrava; ou pela cumplicidade entre o reprovado gestor e o fracassado jornalista que deveria desmascará-lo. Ou, sei lá, porque é sempre um bom assunto quando tenho alguma visita.

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GIL PASSARELLI

Militância e fotocópia COMO FUNCIONA UM DIRETÓRIO ESTUDANTIL DE FACULDADE PARTICULAR EM SALVADOR

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ntre os dias 2 e 3 de outubro de 1968, um banal desentendimento entre alunos de universidades que dividiam a mesma rua no centro de São Paulo transformou-se em um conflito entre duas linhas ideológicas antagônicas que resultou na morte de um estudante secundarista. De um lado, a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP – que abrigava jovens quadros da esquerda do país. Do outro, a instituição privada de raízes presbiterianas Mackenzie, que tinha como característica de parte do alunado a simpatia a um governo guinado à direita, chegando a ser considerada como o ninho do famoso grupo terrorista Comando de Caça aos Comunistas (CCC).

“... paus e pedras, bombas Molotov, rojões, vidros cheios de ácido sulfúrico que ao estourar queimavam a pele e a carne, tiros de revólver e muitos palavrões voaram durante quatro horas pelos poucos metros que separam as calçadas das universidades”, relatou a revista Veja do dia 8 de outubro daquele ano. Quase 45 anos depois, outros estudantes de instituições opostas – uns vinculados a um grupo multinacional de educação com sede em Dallas, nos Estados Unidos; outro advindo da Universidade Federal da Bahia (Ufba) – se encontram de forma mais amistosa, exceto, talvez, por uma pequena e inofensiva observação. “Você não tem cara de Ufba”, ouve o

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repórter de camisa social, calça jeans e sapato. O repórter que não tinha cara de Ufba foi a um encontro na praça de alimentação de um shopping center de Salvador para escrever uma reportagem sobre militância estudantil em faculdades particulares da cidade. À sua frente estavam três representantes de diretórios que declararam o que consideram da atividade política nessas instituições. A conversa variou entre afirmações de que “o movimento estudantil tem um papel muito amplo”, e outras que diziam que “são coisas muito pequenas mesmo, não tem muita coisa... organizar uma festa, uma confraternização... aula inaugural... fora isso é muito tranquilo”.

SAT U R N I N O

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participação política de organizações ligadas à classe estudantil data ainda do começo do século passado e começa a ter relevância para grandes eventos históricos do país a partir da Revolução de 1930, que levou Getúlio Vargas ao poder com o apoio de organizações juvenis. Dois anos mais tarde, secundaristas paulistas tiveram importante papel coordenando frentes na Revolta Constitucionalista. Em 1938, a União Nacional dos Estudantes (UNE) é criada em um congresso que teve como patrono o próprio Vargas. Como havia poucas faculdades ligadas à iniciativa privada, este braço do movimento estudantil só veio a se desenvolver a partir da segunda metade da

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ento isolar ao máximo o DCE dos movimentos que são externos, porque é muito problemático. Possa ser que as bandeiras de luta que eu acredite não sejam as de fulano de tal”, diz a loira baixinha com uma voz que impõe segurança, mesmo em tom exageradamente agudo. Chama a atenção o uso do pronome singular, ao invés do onipresente “nós” nesse tipo de discussão. Amanda Magalhães é presidente do DCE da Unijorge, instituição originalmente chamada Faculdades Jorge Amado, que recentemente foi vendida ao grupo estadunidense Whitney University System, conglomerado de educação que tem em seu conselho administrativo o ex-governador da Flórida Jeb Bush – segundo filho de George Bush. Ela tem 20 anos, cursa Biologia e é contra a venda, assim como a maioria dos alunos. “A gente não pode ser tratado como mercadoria. Não é simplesmente pegar o aluno e ‘ah, você não pagou a mensalidade, tranca a catraca e você não pode entrar.’ E sua vida? A gente foi contra a venda, mas não tinha nada a fazer”, lamenta. Nenhuma ação foi elaborada à época da negociação, nem pelo DCE, nem por nenhum outro tipo de organização do alunado. “Não é minha prioridade. Minha prioridade é consolidar o movimento estudantil. Só consolidando a gente vai mostrar a força que o moviMINEU.BLOGSPOT.COM

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década de 60, principalmente nas Pontifícias Universidades Católicas (PUCs) e na já citada Universidade Mackenzie. A instituição presbiteriana sempre foi um reduto do pensamento liberal no país, mas nunca houve uma homogeneidade ideológica em outras representações estudantis de instituições particulares. Em Salvador, em especial, o único DCE de universidade particular que teve maior relevância foi o da Universidade Catótica de Salvador (Ucsal), que por anos, assim como na Ufba, foi alvo de disputas entre grupos ligados ao PCdoB e outros aliados a tendências do PT – dois dos partidos que dominam os movimentos estudantis desde a reabertura política do país. Hoje o DCE da Católica se encontra desativado. A ligação entre organizações estudantis dentro de faculdades e partidos políticos é um dos temas mais polêmicos em debates sobre o setor. Desde 2002, a UNE vem se enfraquecendo e várias dissidências foram criadas por conta de seu alinhamento com o governo federal na gestão do PT. Mas estas são discussões que hoje passam bem distante dos diretórios de faculdades particulares. Nada de coquetéis Molotov também. Hoje o que pauta os diretórios são as mensalidades, os professores e as fotocópias.

mento tem para a faculdade”, explica. A sua intenção é organizar os diretórios acadêmicos de cada curso, algo difícil pela falta de interesse na maior parte dos discentes. Uma de suas principais articuladoras nesta bandeira é Shérida Raulino, 22 anos, estudante de Psicologia que ocupa o cargo de diretora de Comunicação do DCE. Ela tenta desde 2010 criar o diretório de seu curso, mas não consegue atingir o quórum mínimo de 12 pessoas. “Eu não consegui nem cinco, pra se ter noção”. A faculdade de Psicologia conta com cerca de 300 alunos. Ambas foram eleitas dentro de uma chapa única que incluiu praticamente todas as tendências que se encontravam na universidade. Foram os vencedores da primeira eleição direta da Unijorge, com 673 votos num universo de 20 mil alunos. Pouco mais de 20 pessoas votaram contra. Antes, a escolha era feita de forma indireta pelos diretórios acadêmicos efetivados e o mandato durava cinco anos. “Eram ligados a um grupo politico, uma misturada. PCdoB, PT e algumas pessoas do PDT”, conta Shérida.

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fraca presença do alunado na eleição de seus representantes não é um mal apenas das universidades particulares. Nas últimas eleições que definiram o DCE da Ufba, a participação foi de apenas 5% dos estudantes. Porcentagem que se repete na maior parte das instituições de Salvador. Estudantes da Unijorge dizem que se mantêm alheios à movimentação política pela descrença da militância estudantil. “É uma ação comum em faculdades particulares. Talvez o fato de estar pagando elimine as liberdades necessárias para assumir cargos, para tomar partido em determinadas discussões”, pondera Vinícius Gorender, recém-formado em Jornalismo pela instituição. “Em determinado momento cogitei participar de algum movimento, mas dentro da faculdade percebi que o DCE agia meio que como um organizador de festa”, critica. Outros até se lembram de ações efetivas da agremiação, mesmo se mantendo afastados. “Lembro que houve uma movimentação contra o prazo para requerimento das segundas chamadas. Não

tenho certeza se deu resultados porque foi bem no finalzinho do semestre e eu estava em dia com minhas pendências e tal... Mas não costumo ver muita militância por lá, não”, conta a estudante Fernanda Fahel. Mas tanto Shérida quanto Amanda se orgulham de suas conquistas pela entidade, mesmo ignoradas por parte dos seus representados. Quando a empresa de fotocópia terceirizada ameaçou aumentar para 15 centavos o serviço, foi o diretório que bateu de frente. E nem precisou de vidro de ácido sulfúrico. “A gente ameaçou botar uma maquina de fotocópia dentro do DCE pra tirar xerox a 5 centavos”, lembra Amanda. Recentemente, outra vitória da categoria: a administração de um novo centro empresarial que fica em frente à universidade, na Avenida Paralela, queria retirar o ponto de ônibus que atrapalha o acesso ao seu estacionamento e atende à comunidade da Unijorge. Motoristas já estavam orientados a seguir viagem e não parar mais no local. Amanda protocolou um pedido de reunião e conseguiu ser atendida no mesmo dia pelo secretário municipal de Urbanismo e Transporte, que deu a garantia da permanência do ponto. No outro dia, uma viatura da Transalvador estava lá para a fiscalização. “A gente até se surpreendeu”, conta. As duas dizem que as poucas demandas que chegam de parte do alunado são de difícil resolução. Questões estruturais e obras que atrapalham o entorno da instituição, por exemplo. Há aqueles que pedem o afastamento de professores por estarem “perseguindo” os alunos. Outros reclamam dos preços exorbitantes na praça de alimentação que fica dentro da faculdade. “Há um monopólio de restaurantes. Uma pessoa comprou três pontos com pessoas jurídicas diferentes. Coloca um valor ‘x’ em todos os restaurantes e você, ou é obrigado a comprar, ou tem que comer do lado de fora”, acusa Amanda, “e aí você me diz se pra um estudante é fácil pagar seis reais num pedaço de torta, cinco reais em um lanche?”, questiona com dedo em riste. O diretório da Unijorge, assim como o da maioria dos diretórios de faculda-


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urante o encontro na praça de alimentação, ainda estava Rodrigo Itiúba, 28 anos, representante do Diretório Acadêmico de Administração na Ucsal, que disse sentir-se “muito contemplado” dentro da universidade, embora com algumas ressalvas. “Lógico que se você servir aqui nessa praça de alimentação caviar pra todo mundo, alguém vai vir aqui pra reclamar com você porque ele não gosta de caviar”. Ele explica que o próprio perfil de seus representados não é muito o do embate. Nada de paus, pedras ou bombas, e sim, o diálogo. Questões pontuais. “Vai quando o calo aperta em alguma coisa. Um professor cobrou demais e aí ele se sentiu prejudicado e quer que a gente converse com a direção do curso, com a reitoria... Um grupo maior vem pedir a demissão do professor...”. Rodrigo já foi filiado à corrente “Democracia Socialista”, do PT, ligada aqui na Bahia ao senador Walter Pinheiro. Hoje ele se encontra no PV e, ao contrário das duas meninas, fala como político. O pronome que usa é sempre “nós” e para explicar a sua tentativa de reativar o DCE da Ucsal, falou em “procurar alicerçar”, “levantar muros” e “sanar as feridas”. Perguntado se tinha ambição

política, titubeou por alguns segundos e negou. Um pouco depois refez sua resposta: “A gente sabe que é meio complicado. Tem muita gente hoje que está na política e de uma certa forma começou no movimento estudantil. José Dirceu, Javier Alfaya...” Neste momento Amanda interrompe: “até o prefeito ACM Neto”. Rodrigo rejeita. “Nem tanto. Porque, assim, ele foi de movimento estudantil, mas um movimento estudantil de grêmio, né? Não teve talvez uma fase mais ampla como muita gente teve”. Já Amanda nunca teve vínculo partidário. Shérida, sim, já peregrinou por alguns partidos. “Cheguei a participar de algumas reuniões, algumas coisas assim, aí eu me afastei um pouco porque política é uma coisa muito complicada, eu acho, de se envolver. Já trabalhei com política. Quando mais nova fui estagiária de partido político e era do...”, ela tenta lembrar, “pra você ver como eu sou muito ligada à política, né? Era do partido de Lídice [senadora Lídice da Mata, atualmente no PSB]. Foi o que eu tive contato logo no início E eu já não gostei também. Aí fui pro PDT logo quando iniciei na faculdade e depois me afastei um pouco. Aí depois fui conhecer o PCdoB. Aí tive contato com a galera do PCdoB, mas também, assim, nada aprofundado”, conta Shérida – que havia reclamado da “misturada” da chapa anterior. Depois do DCE, Amanda diz querer fazer política na sua cidade natal, Santo Antônio de Jesus. Em Salvador, nunca. Não chega a pensar em nenhum partido, mas diz que há um que ela não entra de jeito nenhum: o PCdoB. “Eles são muito radicais e eu acredito que o radicalismo não leva a nada”.

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este partido, aliás, é de onde vem a principal oposição ao grupo que hoje controla o DCE da Unijorge. Na figura de um único rapaz que até compôs a chapa vencedora, ganhando o sugestivo cargo de Diretor de Relações Políticas. Segundo as meninas, o sujeito acabou se afastando da linha que hoje toca o DCE. “É desse exemplo aí que eu tiro”, diz Amanda, “é você levar essas bandeiras que você acredita ali pra dentro”.

Caio Botelho tem 25 anos, é estudante de Direito e membro da União da Juventude Socialista – braço juvenil do partido comunista. Recentemente ganhou notoriedade no mundo esquerdista após aparecer como o protestante que leu uma carta de questionamentos à blogueira cubana Yoani Sánchez, durante evento na cidade de Feira de Santana (104 quilômetros da capital), no início de fevereiro. O vídeo postado por ele mesmo no Youtube em que faz uma série de perguntas sobre a idoneidade da jornalista, não sem antes acusá-la de ser membra do “PIG” (Partido da Imprensa Golpista), já conta com mais de 13 mil visualizações. Caio marcou a entrevista no pátio da Biblioteca Central dos Barris, durante o horário de almoço. Ele fala de maneira calma e com boa eloquência. Participa de movimentos estudantis desde o ensino médio, quando era bolsista de um colégio particular em Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador. Diz que sempre tomou cuidado em “separar uma coisa da outra” e que não faz militância de partido dentro da faculdade. “o movimento estudantil precisa ter a sua autonomia resguardada”, defende. Caio fala com propriedade sobre políticas para instituições privadas. Diz que uma de suas principais bandeiras é a regulamentação do ensino superior. “Não dá pra a gente achar que a universidade privada pode fazer o que bem entender”, defende. Ele conta que o seu afastamento da atual chapa veio como algo natural, da percepção de que o grupo estava perdendo a autonomia frente à reitoria. “Há um problema gravíssimo nas instituições privadas. Os DCEs viram meio que um órgão da reitoria e isso estava começando a acontecer”, conta. Ele cita um grave exemplo: parte da gestão conseguiu junto à direção da faculdade um financiamento para que dezenas de estudantes passassem um fim de semana em um hotel-fazenda, em Cachoeira, Recôncavo Baiano. Caio acusa membros de sua própria chapa de terem utilizado do mimo sem prestar contas a ninguém – o “HotelFazendagate” não foi citado em nenhum momento pelas meninas do DCE. “Isso

acabou acirrando um pouco os ânimos”, ele admitiu ao final. O fato de estar se formando o impede de participar de um novo processo eleitoral este ano, que promete novos grupos.

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esde 2005, a estratégia do governo federal em incrementar a população com ensino superior vem sendo ocupar as vagas de instituições particulares com ingressantes bolsistas, ou com financiamentos especiais. O Programa Universidade Para Todos (ProUni) e o Programa de Financiamento Estudantil (Fies) colocaram um número inédito de pessoas de baixa renda nos cursos menos concorridos em comparação a instituições públicas. Somente na Bahia, a estimativa do Ministério da Educação é de que mais de 60 mil bolsas foram disponibilizadas, somente no ProUni. São estudantes que só pagam até 50% da mensalidade, mas que ainda assim precisam gastar com transporte, livros, outros materiais e tempo. Isto tem mudado a característica desses estabelecimentos de ensino, assim como a relação estudante-instituição. “A nossa universidade, tradicionalmente, era de pessoas que não precisavam trabalhar, porque tinham os pais que bancavam e tal e hoje ela mudou esse perfil”, admite Rodrigo. Amanda e Shérida concordam. “A Unijorge sempre teve um público muito elitista. Hoje em dia já não é tanto. A noite você vê que a população maior é mesmo de baixa renda. Não é filhinho de papai. São pessoas que trabalham o dia todo e pagam ali, suado”, conta Amanda. Ela fala que a relação desses estudantes com a representação estudantil é diferente. Há uma cobrança maior da frequência dos professores e da qualidade do ensino. As novas eleições estão marcadas ainda para este ano, e é possível que este novo perfil de alunado se faça mais presente na composição de chapa vencedora. Na tênue linha entre estudante e cliente em uma instituição de ensino feita pra lucrar, Amanda sugere um paradoxal motivo para que essa nova cara de estudante reivindicador ajude a mudar um pouco as coisas. “Porque eles sentem mais no bolso deles”.

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des particulares de Salvador, sobrevive da venda de carteiras de estudante que fazem em parceria com a UNE. Lá se faz uma média de 100 carteirinhas por ano a um preço de 20 reais – R$ 2,50 ficam com a entidade federal que presta contas ao Ministério da Educação. O restante é do DCE que reparte com os DAs e usa o dinheiro para financiar eventos. Outros repasses pontuais são feitos pela diretoria da universidade – que não respondeu às perguntas da reportagem a tempo. Em apoio a feiras, campeonatos de futebol e festas eles também cedem o espaço da instituição. De resto, o DCE sobrevive ainda com doações de prestadoras de serviço que funcionam dentro da faculdade. Somente no pátio central da Unijorge há uma loja de materiais escolares, uma grande variedade de lanchonetes (das mais simples a franquias internacionais), um restaurante e um salão de beleza.

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30 PEDRO BRITTO


Máquina política

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o verão de 2007, a Apple lançou o iPhone em uma parceria exclusiva com a telefônica A.T&T. George Hotz, um rapaz de dezessete anos de Glen Rock, Nova Jérsei, era um assinante da T-Mobile. Ele queria um iPhone, mas também queria continuar fazendo ligações de sua operadora. Deciciu, então, hackear o celular. Todo ato de hackear possui o mesmo desafio básico: como fazer algo funcionar de uma maneira que não fora projetada. De certa forma, hackear é um ato de hipnose. Como Hotz o descreve, o segredo é descobrir como falar com o dispositivo e, então, persuadi-lo a obedecer seus desejos. Após semanas de pesquisa com outros hackers online, Hotz percebeu que, se ele pudesse fazer um chipe dentro do telefone pensar que tinha sido apagado, seria “como se estivesse falando com um bebê. E é realmente fácil persuadir um bebê”. Ele usou uma pequena chave de fenda

de óculos para desenroscar os dois parafusos do fundo do celular. Então, deslizou uma palheta de guitarra pela pequena fenda e torceu, para abrir a caixa num estalo. Logo ele achou seu alvo: um pedaço quadrado de plástico preto chamado processador Baseband, um chipe que limitava os sinais em que o aparelho podia trabalhar. Para fazer o Baseband ouví-lo, ele teve que substituir os comandos que eram recebidos de outra parte do telefone. Hotz soldou um fio ao chipe, emitiu alguma voltagem sobre ele e modificou o seu código. O iPhone estava agora sob seu comando. No seu PC, ele desenvolveu um programa que permitia que o iPhone funcionasse com qualquer sinal. Na manhã seguinte, Hotz, alocado na cozinha de seus pais, apertou “Gravar” numa câmera de vídeo apontada para seu rosto. Ele tinha cachos bagunçados, um queixo fino e falava com o sotaque de Nova Jérsei. “Olá, pessoal. Eu sou

geohot”, disse, referindo-se ao seu apelido virtual e tirando um iPhone do bolso. “Este é o primeiro iPhone desbloqueado do mundo”. O vídeo de Hotz recebeu quase duas milhões de visualizações no Youtube e fez dele o hacker mais famoso do planeta. A imprensa amou a história do adolescente geek [gíria em inglês para designar pessoas obcecadas por tecnologia] de Nova Jérsei que bateu a Apple. Hotz anunciou que estava leiloando o telefone desbloqueado. A proposta vencedora, do CEO da Certicell – uma empresa que remanufatura celulares –, era um Nissan 350Z esportivo e três novos iPhones. Mais tarde, na rede de televisão CNBC, a jornalista Erin Burnett perguntou a Hotz se ele achava que a queda nas ações da Apple daquele dia acontecera em parte devido ao seu feito. “Mais pessoas irão querer iPhones agora, se elas puderem usá-los com qualquer operadora”, disse, acrescentando

que “adoraria ter uma conversa sobre isto agora mesmo com Steve Jobs”. “De homem pra homem?”, Burnett perguntou. “De homem pra homem”. A Apple e a A.T&T permaneceram em silêncio absoluto. Desbloquear um telefone é legal, mas pode permitir a pirataria. Muitas empresas de hardware vendem seus dispositivos com prejuízo, recuperando os custos através de contratos mensais ou com a venda de softwares. Quando Steve Jobs foi perguntado, em uma coletiva de imprensa, sobre o iPhone desbloqueado, ele sorriu de maneira afetada e disse: “esse é um constante jogo de gato e rato que nós jogamos... As pessoas tentarão desbloquear e é o nosso trabalho evitar que eles consigam”. Hotz nunca ouviu nada diretamente de Jobs. Steve Wozniak – co-fundador da Apple –, que hackeou sistemas de telefone no início de sua carreira, enviou a Hotz um e-mail de congratulação. “Era

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O HOMEM QUE INICIOU AS GUERRAS HACKERS

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como uma história saída de um filme, de alguém que resolvia um incrível mistério”, Wozniak me disse. “Eu entendo a mente de uma pessoa que quer fazer isso, e eu não penso que pessoas como essas sejam criminosas. Na verdade, eu acredito que a desobediência está fortemente relacionada e é responsável por pensamentos criativos”. Hotz continou a desbloquear, ou jailbreak [como se diz em inglês], versões posteriores do iPhone até dois anos depois, quando mudou para seu próximo alvo: uma das maiores empresas de entretenimento do mundo, a Sony. Ele queria conquistar o supostamente impenetrável PlayStation 3, a última versão do carro-chefe da Sony. “O PS3 tem estado à venda por quase três anos agora e ainda está para ser hackeado”, ele postou em seu blog no dia 26 de dezembro de 2009. “Está na hora de mudar isso.”

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inha vida inteira é um ato de hackear”, Hotz me disse numa tarde de junho, em Palo Alto, Califórnia. Ele havia se mudado para lá no mês anterior. Estava agora com 21 anos, atarracado e mal vestido. Usava uma camisa cinza por debaixo de um casaco cinza, jeans rasgado e mocassins marrons. “Eu não hackeio por ideologia alguma”, ele disse. “Faço isso porque estou entediado”. A palavra hacker, quando aplicada à tecnologia, inicialmente significava estudantes e amadores explorando máquinas. Em sua pior tradução, hacker era uma pessoa que aprontava brincadeiras cibernéticas. No começo dos anos 70, Wozniak, o arquétipo de hacker, criou um sistema que permitia fazer ligações de graça. Junto com outros, ele ligou para o Vaticano fingindo ser Henry Kissinger [Nobel da Paz] e conseguiu colocar um bispo na linha. Com o tempo, hacker adquiriu um significado mais malicioso: alguém que rouba seus cartões de crédito ou invade uma rede eletrônica. Hoje, existem dois tipos principais de hackers, e apenas um está causando esse tipo de problema. Um hacker white-hat [chapéu branco, em livre tradução] – um programador de antivírus, por exemplo, ou alguém empregado na defesa cibernética das Forças Armadas – têm como foco

fazer computadores trabalharem melhor. São os hackers black-hat [chapéu preto] que armam os ataques, causando estragos. Uma série de ataques aos maiores bancos do Brasil, que acabou por tirar seus websites do ar por um curto período, é um exemplo dos maliciosos hackers black-hat. O número de black-hats invasores está crescendo: nos Estados Unidos, o Departamento de Segurança Nacional reportou um pico – 50 mil entre outubro e março, contra 10 mil no mesmo período do ano passado. Hotz gosta de hackear de acordo com a definição antiga da palavra: adentrar em uma máquina, ver como ela trabalha e mudá-la. Para ele, hackear é quase um esporte jogado contra alguém numa posição de autoridade. “É uma coisa de testosterona”, ele me disse. “É competição, mas não é necessariamente competição com outras pessoas. É você versus o sistema. E eu não digo ‘o sistema’ como uma coisa de governo. Eu digo ‘o sistema’ como um computador. ‘Eu vou entrar no computador. Eu vou conseguir fazer isto!’. E o computador solta uma mensagem de erro dizendo “Não, eu não vou fazer isto’. É realmente uma coisa de macho dizer ‘eu vou forçar você fazer isto!’”. Nós estávamos sentados no apartamento de Hotz no térreo de um prédio perto de Stanford. Latas de Red Bull e menus de comida delivery enchiam a cozinha. Vasilhas de plástico, dinheiro espalhado e gabinetes de computador vazios cobriam a sala. Um gabinete estava de cabeça para baixo e servia como mesa de jantar. Um colchão de ar azul estava murcho num canto. Hotz jogou um maço de dinheiro de seu bolso para o chão e sentou com as pernas cruzadas na cadeira em frente a três monitores gigantes. Segurava um iPad 2 que tinha comprado na loja da Apple na University Avenue naquela tarde. Ao redor da sala, quadros brancos estavam cheios de notas e algoritmos bagunçados. Em um, tinha uma lista rotulada “Rotina matinal”. “7h15, uma soneca?… banho… fiodental, escovar, lavar… vitaminas… vestir-se bem… molhar as plantas”. Outra lista chamada “Coisas Desagradáveis”, incluía “Ligar pro Terapeuta” e “Me matricular numa academia e frequentar”.

Hotz falou sobre como ele escreveu seu primeiro programa de computador, quando tinha cinco anos, enquanto estava sentado no colo do pai, diante de seu Apple II. Na quinta série, ele estava criando seu próprio vídeo-game com um kit eletrônico da loja especializada Radio Shack. Seu pais frequentemente encontravam eletrodomésticos (controles remotos, secretárias eletrônicas) eviscerados. “Ele sempre gostou de aprender coisas e se essa é a maneira com que faz isso, ótimo”, seu pai, Geoge Hotz – um professor de computação do ensino médio – me disse. Hotz, entediado com sua classe e com as notas despencando, ficou conhecido no colégio como um brincalhão criativo que descia os corredores da escola com tênis de rodinhas e que, uma vez, hackeou alguns computadores da sala de aula, fazendo-os tocar a Nona Sinfonia de Beethoven simultaneamente. Sua mãe, Marie Minichiello – uma assistente social –, disse-me que, embora tenha-o punido pelos seus atos de desobediência, ela sempre o apoiou. “Eu não queria que a escola matasse a sua paixão”, disse. Quando Hotz tinha catorze anos, venceu milhares de estudantes de mais de sessenta países e alcançou as finais da Feira Internacional de Ciência e Engenharia da Intel. Ele apareceu no noticiário local com sua invenção, um pequeno robô com rodas que podia traçar as dimensões de uma sala usando sensores infravermelhos e transmitindo, sem fio, os dados para um computador. “Bem, eu acho que é bem legal ser bom em Ciências”, a apresentadora Ketie Couric disse a seus telespectadores, enquanto Hotz, num mal ajambrado terno preto, entrava no palco, “e George Hotz é um exemplo disto”. Couric perguntou se a tecnologia poderia ser aproveitada para melhorar aspiradores de pó. Mas Hotz estava mais empolgado em ajudar soldados a lutar contra terroristas. “Eles podem enviá-lo para um complexo antes que os militares se infiltrem!”, Hotz disse, enquanto não foi interrompido. “Bem, eu estou impressionada, George”, Couric respondeu, cutucando-o no ombro. “Você é um geniozinho, garoto”. No colégio, Hotz construiu o Neuropilot, uma espécie de Segway [um

patinete tecnológico, guiado pelo peso do condutor] controlado pelas ondas do cérebro, que você poderia dirigir por aí apenas pensando sobre isso. Empresas haviam explorado tecnologia similar para vídeo-games, mas desenvolver um hardware controlado por ondas cerebrais ainda parecia coisa de ficção científica. O Neuropilot funcionava, embora os movimentos não fossem sempre precisamente traduzidos do cérebro do condutor. Durante seu ano de formatura no colegial, em 2007, Hotz construiu um visor 3D, inspirado na cultuada série Jornada nas Estrelas, chamado “Eu quero um Holodeck” [espécie de câmara holográfica presente na série], que novamente o fez finalista na Feira Internacional de Ciência e Engenharia. Dessa vez, ele classificou-se na categoria de engenharia elétrica e mecânica e ganhou quinze mil dólares. Antes de uma sessão de fotos para a revista Forbes que escreveria um artigo sobre sua conquista, Hotz fumou maconha pela primeira vez. Na fotografia, ele me disse sorrindo, “meus olhos estão vermelho-sangue. Excelente”. Enquanto falava, Hotz brincava com seu iPad 2. Ele planejava passar a noite hackeando, mas precisava de cabos de computador. Dirigiu até uma loja de eletrônicos. Era perto de meia-noite e, enquanto nós nos aproximávamos de um cruzamento deserto no caminho, com um hip-hop estourando o sistema de som do carro, o semáforo ficou vermelho. Com uma guinada furiosa das rodas, ele cortou por um estacionamento ao lado e continuou dirigindo, enquanto balbuciava: “Fodam-se esse idiotas. O sinal vermelho mais estúpido de todos os tempos. Não faz sentido algum”. “Eu vivo por códigos morais. Eu não vivo por leis”, ele prosseguiu. “Leis são coisas feitas por idiotas”.

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epois do colégio, Hotz se inscreveu no Instituto de Tecnologia de Rochester, mas largou algumas semanas depois para aceitar um estágio na Google, no Vale do Silício. “Nós não ficamos surpresos ou desapontados quando ele decidiu largar a faculdade”, seu pai me disse, embora tenha admitido que às vezes se preocupou com


dualidade], que fez ele “fazer algo”. “Nós deixamos ele passar com essa falta”, seu pai admitiu. “Mas ele nunca fez coisas ruins. Ele sempre fez o que ele achou que era o certo e nós ficamos felizes com isso”. No final de dezembro, Hotz decidiu tentar, mais uma vez, hackear o PS3 de uma maneira que lhe desse total controle e o deixasse restaurar o que a Sony havia removido. Na véspera de Ano Novo, Hotz e alguns colegas do colégio jogavam beer pong [brincadeira com copos de cerveja e uma bola de ping pong] e assistiam o Réveillon da Times Square na tevê. Ele acordou de ressaca no sofá da casa de um amigo – com uma toalha como cobertor – e voltou cambaleante à casa de seus pais para preparar um ma-

carrão instantâneo e começar a botar as coisas nos eixos. Hotz queria o controle do PS3 metldr, uma parte do software que, funcionando como uma chave mestra, “deixa você desbloquear qualquer coisa”. Hotz sabia que a chave do metldr estava escondida no PS3, mas, agora, ele percebia que não precisava necessariamente achar e adentrar o tal local socreto. Ele poderia rodar um programa de descriptografia especial em uma parte diferente da máquina e fazer a chave aparecer lá. Hotz tinha que desvendar como falar com o metldr e, então, fazê -lo aparecer. Em 10 minutos, ele acabou codificando o hack do PS3. O cursor piscou, indicando que Hotz tinha o poder de fazer qualquer coisa

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grama no PS3 e ansiosamente acompanhou no monitor. A máquina mostrava um sublime dígito: 0. Hotz chamou o código de seu “Finnegans Wake” [último romance de James Joyce escrito em linguagem complexa e experimental]. Em 23 de janeiro de 2010, um pouco mais de um mês após postar seu desafio, Hotz anunciou em seu blog: “Eu hackeei o PS3”. Em seguida, postou as instruções para que outros fizessem o mesmo e distribuiu gratuitamente o código. Hotz tinha hackeado dois dos mais icônicos e impenetráveis dispositivos de sua geração. “Nada é inhackeável”, ele disse à BBC. “Agora, eu posso fazer o que quiser com o sistema. É como se eu tivesse um incrível novo poder – eu só não sei como irei manipulá-lo”. A Sony respondeu disponibilizando uma atualização de software que desabilitava o OtherOS, a ferramenta pela qual Hotz tinha acessado o hypervisor. O OtherOS habilitava a máquina a rodar o Linux, um sistema operacional alternativo ao Microsoft Windows e ao Apple OS. Rodando o Linux, essencialmente, o PS3 se transformava de um aparelho com o propósito único de rodar jogos para um computador convencional, que as pessoas poderiam usar para criar programas. Elas ficaram furiosas com a Sony, que havia roubado delas esta capacidade. “Eu estou EXTREMAMENTE desapontado”, diz um comentário num blog da Sony. Alguns queriam se juntar em torno de Hotz e se organizar: “ISSO É LOUCURA!!! HACKERS UNIDOS!!! GEOHOT NOS LEVARÁ PARA A LUZ!”. Mas muitos ficaram nervosos com Hotz, não com a Sony. “Parabéns, geohot, o idiota que fica sentado em casa, sem fazer nada, arruinando a experiência de outros”, publicaram. Alguém postou online o número de telefone de Hotz e ligações hostis se seguiram. Relembrando a controvérsia, Hotz parecia genuinamente impertubado. “Todas essas pessoas reclamando de mim, eu não poderia me importar menos”, ele me disse. Hotz passou o verão de 2010 viajando de bicicleta pela China e, naquele outono, de volta à casa de seus pais, leu Ayn Rand [escritora de origem russa que ressalta o conceito de indivi-

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o filho, que sempre passou muito tempo sozinho. Hotz se mantinha através de doações de pessoas que baixavam softwares desenvolvidos e disponibilizados de graça por ele; um desses programas permitia que as pessoas desbloqueassem o iPhone 3GS. Seus hacks geraram receita suficiente para que ele conseguisse comprar uma velha Mercedes branca. Porém, após alguns meses, ele encheu o saco da Google e, em 2009, voltou a morar em Nova Jérsei. Desde seu feito com o iPhone, geeks frequentemente mandavam aparelhos só para ver se ele conseguia hackeá-los. Neste ano, alguém enviou a Holtz um PlayStation 3, desafiando-o a ser o primeiro no mundo a desbloqueá-lo. Hotz publicou seu anúncio online e mais uma vez foi em busca da parte do sistema que ele poderia manipular para fazer o que queria. Ele focou-se no hypervisor, poderoso software que controla qual programa roda na máquina. Para chegar no hypervisor, ele tinha que passar por dois chipes chamados Cell [“A Célula”] e Cell Memory [“A Memória da Célula”]. Ele sabia como iria modificá-los: conectando um fio à memória e liberando pulsos de voltagem, assim como ele fez quando hackeou seu iPhone. Frequentemente, seus pais lhe davam presentes que eram úteis ao seu hobby: após ele desbloquear seu iPhone, eles compraram um ainda mais caro. De Natal, em 2009, eles lhe deram 350 dólares em ferro de solda. Sentado no chão de seu quarto, Hotz desparafusou seu PS3 preto e desmontou a caixa. Após prensar o ferro ao fio, ele começou a mandar voltagem para os chipes. Em seguida, Hotz teve que programar um elaborado comando que lhe permitiria controlar a máquina. Ele passou longas noites escrevendo rascunhos de programação no PC, tentando usá -los no hypervisor. “O hypervisor estava foda”, Hotz lembrou. O PS3 continuava emitindo a mensagem de erro – o número 5 –, dizendo a Hotz que ele não tinha autorização. Ele sabia que, se conseguisse passar, veria um zero no lugar. Finalmente, após algumas semanas digitando em seu computador, Hotz compôs uma série de códigos de 500 linhas de comprimento. Ele executou o pro-

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nerabilidade. “Você apenas se sente bem a respeito de tudo”, ele lembrou. Hotz apertou o botão do teclado e publicou as instruções do jailbreak do seu PS3.

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o dia 11 de janeiro de 2011, Hotz estava jogando Age of Empires II em seu computador em Nova Jérsei, quando recebeu um e-mail da Sony anunciando uma ação judicial contra ele. A empresa solicitou uma ordem de restrição temporária pela violação do Computer Fraud and Abuse Act [Ato de Fraude e Abuso a Computadores da justiça estadunidense] e por facilitar a violação de direitos autorais, como o download de jogos piratas. De acordo com a Entertainment Software Association [Associação de Softwares de Entretenimento], a pirataria custa cerca de oito bilhões de dólares por ano à indústria. A Sony também queria confiscar seus “equipamentos de circunvenção” e queria que ele tirasse as instruções do ar imediatamente. Assim que a notícia chegou à internet, geeks se apressaram em ir ao site de Hotz, procurando por utilidades enquanto podiam. Na Universidade Carnegie Mellon, David Touretzky – um cientista de computadores e proponente da liberdade de informação online – fez cópias dos arquivos de Hotz. Touretztky postou que a Sony estava “fazendo algo absurdamente estúpido, possivelmente MINEU.BLOGSPOT.COM

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com o PS3: instalar o OtherOS, jogar jogos piratas, ou rodar softwares obscuros do Japão. Ele preparou uma página na internet e um vídeo documentando o que tinha feito. Mas hesitou. Embora a Apple nunca tenha processado ninguém por jailbreak, a Sony havia reagido ferozmente a modificações feitas anteriormente no PlayStation. A Sony também sempre alardeou a segurança do PS3. Hotz não estava apenas desfazendo anos de relações públicas da empresa; ele estava, potencialmente, abrindo as portas para a pirataria. Com esta preocupação em mente, ele programou um código que desabilitava a possibilidade de rodar softwares piratas e adicionou uma nota à sua documentação: “eu não concordo com a pirataria”. Ainda assim, ele queria uma segunda opinião. Antes de colocar o site no ar, ele se inscreveu num chat online, frequentado por amigos hackers, e perguntou a eles se deveria soltar a novidade. “Sim”, um disse a ele. “A informação deve ser livre”. Hotz me disse: “essa é a luta de nossa geração. A luta entre o controle da informação e a liberdade da informação”. Ele também me falou que estava chapado no dia em que descobriu o hack, sem o conhecimento de seus pais. Hotz me disse que havia tomado Vicodin [analgésico] e OxyContin [Oxicodona, poderoso analgésico derivado do ópio], que encheram ele de um senso de invul-

porque eles não conhecem algo melhor... Direito à liberdade de expressão (e liberdade de computação) existe apenas para aqueles determinados a exercê-los. Tentar suprimir esses direitos na era da internet é como cuspir contra o vento”. A Electronic Frontier Foundation, um grupo de advocacia para direitos digitais, soltou uma declaração dizendo que o caso Sony vs Hotz mandava uma “perigosa mensagem” de que a Sony “tinha direitos sobre os computadores que vende mesmo depois de comprados e, por conta disto, decide se o seu manuseio é legal ou não. Nós discordamos. Uma vez que você compra seu computador, ele é seu”. Mas a Sony acreditava que o hack de Hotz estava enviando uma perigosa mensagem para ela própria. Se as pessoas estivessem livres para desbloquear as máquinas, criadores de jogos seriam fraudados em seus royalties. Trapaceiros poderiam modificar os jogos para que pudessem vencer qualquer um que segue as regras. Riley Russel, o conselheiro geral da Sony Computer Entertainment of America [braço estadunidense da empresa] disse em um comunicado à época: “nossa motivação em trazer esse litígio era proteger nossa propriedade intelectual e os nossos consumidores.” No dia 14 de janeiro, Hotz foi a um popular programa de tevê especializado em jogos chamado “Attack of the Show”, no canal fechado G4. Quando o apresentador perguntou o porquê de ele estar sendo processado, Hotz brincou: “por irritar a Sony”. Ele estava sério, no entanto, sobre sua missão em manter a informação livre. Logo depois, Hotz publicou um vídeo de hip-hop no Youtube entitulado “The Light It Up Contest” [A Disputa de Quem Acende, em tradução literal]. Ele sentou-se em frente à sua webcam com uma camiseta azul, seu computador ao fundo. “Ei, aqui é geohot”, ele recitou, enquanto a batida começava, “e para aqueles que não sabem, eu estou sendo processado pela Sony”. Era um surpreendente som bem ritmado sobre o complexo problema do garoto provocador. Hotz continuou, enquanto gingava em sua cadeira, “Mas merda, cara / Eles são uma corporação / e eu sou uma personificação / da liber-

dade para todos”. O rap de Hotz lhe garantiu alguma simpatia nas salas de bate-papo da internet, mas não na Justiça. Uma corte do distrito da Califórnia validou a ordem de restrição da Sony contra Hotz, impedindo-o de hackear ou disseminar mais detalhes sobre suas práticas. A corte também aprovou um pedido da Sony para incluir na ordem qualquer citação no Twitter, Google, Youtube e Bluehost, o provedor de internet de Hotz, incluindo o endereço de IP de qualquer um que tivesse baixado as instruções no seu site – uma manobra que atiçou ainda mais os advogados de direitos digitais. A Sony também ganhou acesso aos registros da conta de Hotz no Paypal [empresa que intermedia pagamentos via internet]. Em alguns meios, o líder rebelde começou a virar um mártir. Como um dos fãs de Hotz postou: “geohot = salvador da humanidade”.

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ártires ganham devotos e, logo, Hotz ganhou a fidelidade de alguns dos mais notórios hackers: um grupo chamado Anonymous. Nos últimos anos, o grupo se tornou famoso por engenhosos e elaborados ataques e protestos, sempre em nome da liberdade de expressão e “lulz” [plural da expressão lol, que, por sua vez, é contração de lot of laugh: “muita risada”] – “gargalhada” na gíria da internet. Membros do grupo lutaram contra a Igreja da Cientologia, que eles acreditavam ser contra o direito ao livre discurso; e derrubaram sites ligados ao governo em defesa do Wikileaks. Mais recentemente, codificadores entraram no movimento Occupy Wall Street e ameaçaram publicar uma lista de pessoas que colaboram com os Zetas, uma gangue de tráfico de drogas mexicana. Na época do hack da Sony, os Anonymous já haviam se transformado em seu próprio meme de cultura pop. No canal fechado Comedy Central, o comediante Stephen Colbert chamou os membros do Anonymous de “brigada global de nerds hackers”; Outros se referiam a eles como “o braço paramilitar da internet.” Anonymous é um aglomerado internacional, descentralizado e mutável. Tudo que você precisa fazer para entrar


À

s 16h15 do dia 19 de abril de 2011, técnicos dos escritórios da Sony em San Diego perceberam que quatro de seus servidores estavam reiniciando sem autorização. A equipe colocou os sistemas off-line e começou a examinar o registro de atividades. A investigação confirmou que alguém havia entrado nos servidores e, possivelmente, em outros. A Sony desligou a rede online do PlayStation imediatamente, sua central de entretenimento online. A empresa concluiu que havia sido vítima de um sofisticado ataque que expôs os endereços, as senhas, os aniversários e os e-mails de 77 milhões de assinantes que pagam para jogar online e assistir a filmes. “Embora não tenham evidências que registros de cartão de crédito foram tomados, nós não podemos descartar essa possibilidade”, Patrick Seybold, um porta-voz da empresa, escreveu no blog do PlayStation. Apesar de continuar não esclarecido se alguém do Anounymous foi o responsável pelo hack ou se foi só alguém tomando vantagem de todo o caos, os eventos estão claramente conectados. Especialistas em segurança chamaram o episódio de um dos maiores vazamentos de dados de todos os tempos. A Sony anunciou que iria manter a rede fora do ar por tempo indeterminado – com um custo estimado de 10 milhões

de dólares em perdas de receita por semana – enquanto corria para tapar os buracos. O Anounymous negou a responsabilidade e temporariamente suspendeu sua campanha contra a empresa. Às 4h51 do dia 28 de abril, Hotz publicou um longo discurso retórico contra os hackers que atacaram a rede. “Pesquisar caseiramente e explorar a segurança nos seus aparelhos é legal”, ele escreveu. “Hackear entrando no servidor de outro e roubar dados de usuários não é legal. Você faz a comunidade hacker aparecer de forma negativa, mesmo se estiver agindo contra idiotas como a Sony”. Hotz estava frisando a diferença entre hacker white-hat e hackers black-hat. Ainda assim, ele sabia que havia ajudado a soltar a pedrinha que agora estava causando a avalanche ladeira abaixo. No dia 1º de maio, a empresa descobriu a violação de dados no serviço online que colocava em exposição 24 milhões de contas pessoais. Técnicos também acharam um arquivo que havia sido plantado em um dos servidores como uma espécie de grafite digital. Ele estava intitulado “Anonymous” e dizia “Nós somos a Legião”. Em uma coletiva de imprensa em Tóquio, naquele dia, Kaz Hirai, o executivo-chefe da Sony Computer Entertainment, e dois outros executivos entraram no palco e encararam a multidão aglomerada. “Nós oferecemos nossos sinceros pedidos de

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inglês em 1605], que o grupo usa como símbolo, um texto dizia: “deixe os companheiros hackers como geohot em paz”. Protestos de internet, como os protestos de rua, podem sair do controle. Pessoas cantam pacificamente, mas alguém joga uma pedra contra uma janela e o conflito começa. Mal havia começado a guerra hacker, quando um Anon anunciou uma facção dissidente, a SonyRecon, incitando ações pessoais contra empregados da Sony e o juiz do caso geohot. Outros Anons publicaram números de telefone, nome de familiares e endereços dos executivos da Sony. Eles até publicaram a descrição da casa do CEO e propuseram vários métodos de ataque: <sonyrecon335> nós iremos cagar na sua porta e depois fugir <e-hippie741> cara <e-hippie741> você cagaria na porta de alguém <Hit_X> ligar para a escola das crianças e passar um trote como se ele tivesse entrado na emergência do hospital: <e-hippie741> você ama geohot tanto assim? De volta à casa de seu pais, defronte ao brilho das telas do computador, em seu quarto bagunçado, Hotz clicou com uma apreensão crescente nas notícias relacionadas aos planos do Anounymous. “Peço a Deus que a Sony não pense que sou eu”, ele lembra ter pensado. Ele não acreditou na secreta campanha de guerra online, muito menos em defecar na porta de alguém. “Eu sou o completo oposto do Anonymous”, ele me disse. “Eu sou George Hotz. Tudo o que faço é com as cartas na mesa, tudo que eu faço é legítimo.” No dia 11 de abril, a Sony anunciou que tinha chegado a um acordo com Hotz, que negou a infração mas consentiu em uma permanente injunção que o impedia de reengenhar produtos da Sony no futuro. Mas os fãs de Hotz sentiram que a injunção era uma forma de censura. Alguns de seus defensores fizeram camisetas com a frase “FREE GEOHOT”, e outros foram às lojas da Sony em cidades como San Diego e Costa Mesa para protestar. Hackers black -hat clamaram por mais ataques destrutivos contra a Sony.

MINEU.BLOGSPOT.COM

é dizer que faz parte. Ninguém vai atrás do nome de ninguém. Como em qualquer grupo anônimo, alguns membros são mais extremistas que outros. Alguns anos atrás, fui convidado para atender a uma reunião secreta dos ativistas do Anonymous num restaurante indiano em Hollywood. Enquanto o Anonymous é comumente caracterizado como um grupo de ciber-terroristas maliciosos, eles me pareceram mais como um grupo de sérios manifestantes jovens com um obscuro senso de humor e uma brilhante habilidade para o marketing viral. Anons – como os membros se chamam – informam, ofendem, e entretêm em maneiras que os Yippies jamais poderiam imaginar. E eles fazem tudo isso de maneira bastante rápida. No começo de abril, um membro do Anonymous criou uma sala de bate-papo na internet chamada “Operation Sony”, ou #OpSony. “É o dever do Anonymous ajudar este jovem rapaz e protestar contra a censura da Sony”, estava descrito como missão. Em todo o mundo, programadores curiosos entraram pelos seus telefones e laptops para discutir planos. Enquanto a sala enchia, Anons começaram a cavar informações pessoais dos advogados da Sony e a debater as táticas mais eficientes: flash mobs em frente às lojas da Sony? Mandar cópias negras de fax para acabar a tinta da empresa? Logo, eles fecharam em um “ataque de negação de serviço”, ou DDoS, que seria sobrecarregar os websites da Sony com visitas simultâneas até que eles caíssem. No dia 4 de abril, o Anonymous anunciou o plano publicamente em um comunicado à imprensa. “Parabéns, Sony. Vocês agora receberam a atenção exclusiva dos Anonymous. Vocês viram um ninho de vespas, e colocaram seus pênis nele. Agora vocês devem encarar as consequências de seus atos, ao estilo Anounymous”. Em questão de horas, tanto o Sony.com quanto o PlayStation. com saíram do ar. O Anonymoys postou um vídeo no Youtube com suas demandas: retirar a ação contra Hotz e permitir as modificações no PS3. Acima de uma imagem da máscara de Guy Fawkes [soldado católico inglês envolvido num plano que visava explodir o parlamento

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desculpas”, Hirai disse e, colocando seu microfone sobre a mesa, curvou-se junto aos outros presentes por oito segundos enquanto os flashes das câmeras não paravam. Eles disseram que alguns serviços da rede iriam retornar em alguns dias. Mas levou-se duas semanas para recuperar o sistema completamente. Logo depois, a Sony tinha uma nova força para ter que se preocupar: um grupo dissidente do Anonymous chamado Lulz Security, comumente chamado de LulzSec. Seus membros eram como estranhos vigilantes da internet que utilizam de um senso de humor bizarro. No Twitter da organização, apelidado de “Lulz Boat”, eles se identificavam como “os líderes mundiais no entretenimento de alta qualidade às suas custas”. Sua primeira amostra de humor negro veio no dia 30 de maio, quando eles hackearam o site da tevê pública estadunidense PBS em retaliação ao que eles consideraram uma cobertura injustamente negativa do fundador da WikiLeaks, Julian Assange. Eles publicaram uma notícia falsa de que os falecidos rappers estadunidenses Tupac Shakur e Biggie Smalls estavam escondidos na Nova Zelândia. “Populares locais se recusaram a comentar por quanto tempo ou porquê os rapper estavam escondidos”, a notícia dizia. “Um homem apenas disse ‘nós não falamos sobre isso aqui’”. Um dia após o trote na PBS, o grupo começou a tuitar uma série de avisos à Sony. “Hey @Sony”, estava escrito, “você sabia que nós estamos vazando um monte do seu material interno agora e você nem sequer notou? De forma lenta e contínua, caras”. Alguns viram os avisos como mais repercussão do caso geohot contra a empresa. “O grupo está mandando uma mensagem à Sony por mexer com um deles, o hacker George Hotz”, um blogueiro escreveu. No dia 2 de Junho, LulzSec hackeou o site da Sony Pictures [braço cinematográfico da empresa], comprometendo o que supostamente significava mais de um milhão de senhas de consumidores que colocaram suas informações pessoais no site (a Sony posteriormente admitiu se tratar de 37 mil). O propósito do grupo, como explicaram em um comunicado, não era aparecer como os “mes-

tres hackers”, mas expor a permanente fragilidade do sistema de segurança da Sony. O comunicado do Lulz dizia que a Sony estava “pedindo por isto” porque a empresa armazenava as senhas em texto simples, ao invés de codificá-las. O comunicado também encorajava “companheiros-hackers” a “dilacerar esta merda de sistema enquanto podiam; tirem deles o que puderem!”. Membros do LulzSec entraram no sistema usando uma rudimentar técnica chamada “Injeção SQL”, que lhes permite acessar informações não autorizadas no site da Sony Pictures. “Por uma simples injeção, nós acessamos TUDO”, eles disseram. “Por que vocês põem tanta fé em uma empresa que se abre a ataques tão simples?”. Hackers black-hat começaram a postar e-mails corporativos, e, durante o verão de 2011, ataques à imprensa, empresas de tecnologia e outras instituições apareceram quase que diariamente. A Nintendo foi hackeada, assim como a Sega, a Eletronic Arts, a News Corporations [terceiro maior conglomerado de mídia do mundo], a Booz Allen Hamilton [empresa de consultoria em tecnologia], a OTAN e Lady Gaga. Até mesmo a CIA foi hackeada, o LulzSec declarou. Era o verão do “Lulz”. Hotz não queria inspirar uma guerra hacker, mas ele não se arrepende do que fez. Uma noite, em um restaurante em Palo Alto, ele deixou claro sua posição em relação aos ataques contra a Sony. “Se ser um tecno-libertário leva à anarquia online, então que seja”, ele disse. “Eu não sou a causa. Eu apenas gosto de lidar com essas merdas”. Hotz define um hacker como “alguém com um conjunto de habilidades”, e aponta que as habilidades sozinhas não fazem de você uma boa ou uma má pessoa. Cabe a você decidir como usá-las. Mark Zuckerberg, do Facebook, pode ser o mais famoso hacker de sua geração, mas Hotz encarna o espírito mais original da coisa. Ele hackeia pelo desafio técnico e por diversão. Ele não se identifica como white-hat ou black-hat, preferindo pensar em si mesmo como alguém torcendo chaves debaixo de uma pia. “Hacker está para o computador, como o encanador está para os canos”, ele disse uma vez em seu blog. Quando eu o encontrei, mais tarde naquele verão,

no DefCon [principal convenção hacker do mundo] em Las Vegas, ele não estava em um bar com caras trajando grandes capas pretas, tramando algum ataque a uma corporação. Ele estava sozinho no sofá em uma sala do fundo, programando em seu laptop.

U

m mês após seu acordo com a Sony, na primavera passada, Hotz se mudou para a Califórnia para pegar um emprego no Facebook. Ele não disse em que iria trabalhar, somente que iria desenvolver tecnologias para melhorar o site. Alguns viram sua transição como uma sagaz estratégia do Facebook em cooptar um hacker antes que ele se virasse contra a empresa. Outros o hostilizaram por pensar com o bolso. “Você tem que amar a quantidade de puxa-sacos que George Hotz tem dentro de sua inconsistente concha nerd”, um detrator escreveu online. Uma de minhas entrevistas com Hotz foi feita em Palo Alto pouco depois dele ter começado seu emprego no Facebook, antes da coisa vazar na internet. Ele apareceu vestindo uma camisa nova, azul e branca do Facebook. Ele estava acordando cedo (como seu quadro de “Rotina Matinal” lembrava a ele) para ir trabalhar. “Tudo é bastante rápido e a cultura é jovem” – ele disse – antes de entregar seu cartão de negócios, que dizia: “eu sou o equipamento de circunvenção mais ilegal de todos”. Oito meses depois, Hotz pediu demissão. Ele não quis dizer o porquê, mas deu a entender que ter um emprego diário não é uma coisa para ele. “Facebook é um lugar legal de trabalhar”, ele me disse, “mas eu fico imaginando como as pessoas conseguem continuar empregadas por tanto tempo”. Ele viajou para o Panamá antes de voltar para Palo Alto. Não disse o que iria fazer em seguida, falou apenas que não iria mais compartilhar suas façanhas na internet. “Eu já estou à frente disso tudo”, disse. Ele não era o único. No dia 6 de março, oficiais dos Estados Unidos anunciaram uma intimação contra seis hackers dos grupos Anonymous e LulzSec. Um oficial da Justiça Federal me disse que as prisões foram “bastante significativas – estes são membros do núcleo principal”.

Hotz nunca fez contato com o LulzSec ou com o Anonymous, mesmo quando eles estavam na cruzada pelo seu nome, e ele era cético quanto ao destino dos dois. O impertinente jovem do vídeo de rap que se descrevia como “a personificação da liberdade de todos” se aposentara da batalha. Ele se recusou a fazer o que chamou de julgamento moral dos hackers indiciados. “Eu irei fazer um julgamento técnico”, ele disse. “Se eles fossem tão bons, não teriam sido pegos”. Mesmo com as prisões, outros Anons juraram continuar a campanha. Empresas estão trabalhando forte também. “O ano passado demonstrou o quão sofisticados os cibercrimes podem ser”, Jim Kennedy, vice-presidente sênior de Comunicação Estratégica da Sony, escreveu para mim num e-mail. A Sony criou um novo cargo – o de executivo corporativo no comando da privacidade e da segurança das informações globais – e promoveu Nicole Seligman – que tem sido alvo dos hackers como conselheira-geral – à presidência da Sony nos Estados Unidos. Kennedy admite que a segurança permanece em uma luta incessante. “No final, deve ser reconhecido que nenhum sistema é absolutamente à prova de fraude”, ele escreveu. “Vigilância constante é essencial”. Em maio passado, engenheiros da Sony convidaram Hotz para um encontro na sede da empresa nos Estados Unidos, a meia hora de carro ao norte de Foster City [Califórnia]. (“Nós sempre estamos interessados em explorar todas as vias para melhor salvaguardar nossos sistemas e proteger nossos consumidores”, Kennedy me disse.) Nervoso, mas curioso, Hotz entrou no prédio comendo uma caixa de marshmallows, deixando cair parte pelo lobby. “Se tivessem advogados lá”, ele lembrou, “eu iria ser o cara mais escroto possível”. Ao invés de advogados, ele encontrou uma sala cheia de engenheiros do PS3 que foram “respeitosos”, ele disse, e queriam aprender mais sobre como ele desbloqueara o sistema. Durante a hora seguinte, ou um pouco mais, o homem que havia começado as guerras hackers descreveu a sua metodologia.

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À PAISANA


London ELCIO

CARRIÇO


HORACE HENRY CAUTY – THE TENNIS MATCH

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NA GRAMA PAULO

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história toda tem suas origens nas garden parties, as reuniões sociais celebrando o bom tempo que os ingleses adoram realizar em seus deslumbrantes jardins, e também nos cortadores de grama, invenção inglesa que apareceu no ano de 1830. Diferente do pic-nic francês, mais informal e quase sempre em petit comité, a garden party se tornou algo prestigioso e com a presença de um maior número de pessoas. Foi, mais do que provavelmente, nas suas origens que os ingleses sentiram a saudável necessidade de inventar brincadeiras e jogos para alegrar, divertir e reunir um grupo. Devia ser, continua sendo, uma tentação deitar e rolar nos gramados, os

CLETO

chamados lawns, que, começando na Idade Média, se desenvolveu no que hoje caracteriza jardins e parques ingleses. No início não eram muito distintos das pastagens e, na verdade, eram mantidos aparados por carneiros, cavalos e coelhos. Mas quando um engenheiro de Gloucestershire, Edwin Budding, inventou o cortador de grama, uma porta se abriu ao possibilitar o corte rente e uniforme da grama, excitando a imaginação de seus conterrâneos. Em breve os ingleses estavam adaptando ou inventando jogos, sempre uma bela maneira de se desfrutar um dia de sol. Com a influência do ainda presente Império Britânico esses jogos se transformaram em esportes e invadiram o

mundo. É verdade que alguns só vingaram mesmo na Grã Bretanha e em algumas possessões inglesas, tais como os sonolentos croquet e o críquete, que por aqui não passou do jogo de taco jogado nas ruas pela molecada de antigamente. O rugby foi ser um sucesso em outros países de influencia britânica como a África do Sul, a Austrália e a Nova Zelândia e originou o quase selvagem futebol americano. Mas três desses esportes inventados pelos gentlemen britânicos derrubaram barreiras e ganharam o planeta – o tênis, o golfe e o futebol. Desses, o tênis encontrou seus caminhos também em outros pisos, tais como o continental saibro e o prático cimento americano. Até hoje, os Grand Slams, os

mais importantes torneios do esporte, espelham essas diferenças. O golfe e o futebol mantiveram a tradição da grama, só aceitando primos pobres como o futsal e o de praia. Estava pensando como os ingleses enxergam a supremacia de outros povos nos esportes que inventaram. Especialmente no futebol e no tênis. No futebol não conseguem se impor como campeões do mundo desde 1966, em uma Copa que argentinos e alemães afirmam ter sido uma patriotada. No tênis o drama é mais evidente. Uma inglesa, Virginia Wade, venceu o torneio de Wimbledon, um dos últimos remanescentes eventos do Lawn Tennis, em 1977. Porém, um súdito da Rainha não vence na grama inglesa desde Fred Perry, em 1936.

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LUCY CLARK / SHUTTERSTOCK.COM

ANSIEDADE NA GRAMA PODERÁ ROGER FEDERER VENCER WIMBLEDON NOVAMENTE? TOMKINS

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C A LV I N

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lgumas pessoas são tão encantadas pela maneira como Roger Federer joga tênis que elas dificilmente suportam vê-lo perder. Eu próprio costumava me sentir envergonhado pelos meus lamentos agonizantes, sozinho em casa, na frente do aparelho de tevê, quando ele errava uma bola ou mandava uma madeirada acima da cabeça, longe da linha. Daí, eu descobri que outros tinham reações similares. “Eu não consigo assistir quando ele está perdendo”, um amigo me confessou outro dia, e em seguida acrescentou, de forma tocante, “eu levanto e vou limpar a cozinha”. Dois anos atrás, quando Federer tinha 26 anos e lutava contra uma mono-


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desligado, ele estava cometendo vários erros não forçados na direita, e, mais preocupante ainda, ele jogava de forma hesitante em pontos cruciais. Hoje, a maioria dos tenistas de topo confiam na força bruta e em um feroz topspin [efeito de rotação vertical da bola, de cima para baixo], acampando atrás da linha de fundo e batendo na bola o mais forte que podem, metronomicamente, até um dos dois errar ou acertar uma deixadinha inalcançável. Federer bate forte como qualquer outro no circuito profissional, mas seu jogo é um complexo e bem afinado instrumento que não se confia somente na força. Em seu melhor, ele surpreende seu oponente com sutis mudanças no efeito e direção, supera-os antecipando seus golpes, e esgota-os abusando dos ângulos acentuados, aparentemente sem esforço, e impossíveis bolas vencedoras que seus fãs se acostumaram a esperar. Para fazer tudo isso se requer confiança absoluta nos seus dons magistrais, ainda que, ultimamente, isso não tenha ficado claro. “Você tem que ser confiante, jogando da maneira como ele joga”, Rod Laver, que venceu todos os quatro grand-slams entre 1962 e 1969, me disse essa primavera. “Você sequer está enxergando a bola tão claramente – você apenas sabe o que ela é e onde ela está.” Quando o chamativo jogador checo Tomas Berdych venceu-o na quarta rodada em Miami, Federer disse após a partida que ele estava “um pouco confuso” com seu jogo, seu timing e “como eu estou sentindo a bola no momento.” Sua confiança parecia estar melhorando no Aberto de Madri. No entanto, ele perdeu na final contra Nadal, que havia retornado à sua melhor forma após meses debilitado com tendinites nos dois tornozelos. A partida foi apertada, e poderia ter ido para Federer caso ele tivesse jogado de forma um pouco mais agressiva em algums break points. Neste ponto de sua carreira, o foco principal de Federer está nos grandes – Wimbledon acima de todos. Depois de vencer Rolland Garros ano passado, ele disse: “agora, pelo resto de minha carreira eu posso jogar relaxado”, mas relaxar não é uma opção para seus fãs. Se ele não vencer Wimbledon no próximo mês,

muitos de nós estarão sofrendo terrivelmente. Wimbledon desde sempre tem sido o verdadeiro templo do tênis, a fonte de suas tradições e o único dos grandes torneiros que ainda se joga na grama. O primeiro torneio de Wimbledon foi realizado em 1877, apenas três anos após o major Walter Clopton Wingfield estabelecer a patente provisória para um jogo chamando lawn tennis [tênis de grama]. Ele chamava assim porque, graças à recente invenção do moedor de grama manual, gramados aparados se proliferavam nos campos do interior britânico, e visitantes de fim de semana estavam em busca de algum entretenimento que fosse de esforço moderado. O esporte pegou rápido, e em 1877, o All England Lawn Tennis and Croquet Club, que havia sido renomeado neste ano para incluir o passatempo do major Wingfield, anunciou um torneio de tênis em seus campos, no vilarejo de Wimbledon, na zona rural de Londres. O evento era aberto a qualquer um com a taxa de um guinéu [primeira moeda de ouro britânica feita à máquina]. Ingressantes eram solicitados a trazer sua própria raquete, assim como sapatos sem salto, mas as bolas para as sessões de prática eram fornecidas pelo clube. O torneio, que se iniciou no dia 9 de julho, foi suspenso por dois dias para que todos pudessem atender a uma partida de críquete entre o Eton College e a Harrow School [um clássico secular entre duas escolas inglesas que dura até os dias atuais]. Spencer Gore, o primeiro campeão de Wimbledon, reclamou posteriormente que os árbitros “julgaram mal pelo menos um terço de meus serviços.”

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ederer venceu os torneios juniores individual e de duplas de Wimbledon em 1998, quando tinha dezesseis anos e estava no caminho para se tornar o número 1 do ranking mundial de juniores. Não por coincidência, este foi o ano em que ele aprendeu a controlar seu temperamento na quadra – até então, ele corriqueiramente se sabotava com chiliques e raquetes quebradas. Ingressou nos profissionais um ano depois e, por algum tempo, seu sucesso foi limi-

tado. Em 2001, no entanto, ele chocou a si e ao mundo do tênis derrotando Pete Sampras, um dos maiores tenistas de grama de todos os tempos, na quarta rodada em Wimbledon. Sampras tinha 29 anos, e estava próximo da aposentadoria – ele havia vencido seu sétimo título em Wimbledon um ano antes. “Foi a primeira e única vez que joguei com Pete, e minha primeira vez na Centre Court”, Federer me disse em abril, quando eu conversei com ele em Miami. “Eu me lembro como ontem. Quando estávamos nos aquecendo, eu ficava pensando, ‘aqui estou eu me preparando para jogar com o cara que era meu herói’”. Eu estava completamente nervoso, com as mãos frias. Mas eu mantive meus primeiros serviços, e daí em diante me bateu que você é um tenista, você tenta um golpe e acredita que talvez possa conseguir. Eu venci por 7 a 5 no quinto set, caí de joelhos e chorei! E então perdi na rodada seguinte para Tim Henman. Depois que eu venci Pete, eu me senti um pouco desconfortável apertando sua mão, quase triste. E depois eu o vi sentando no vestiário cabisbaixo, e pensei ‘claro, eu também irei passar por momentos como esse em minha carreira’”. Federer pessoalmente é mais alto, mais magro e mais jovem do que aparenta na televisão. Ele se mostra confortável consigo mesmo, e deixa as pessoas à vontade com seu inglês de inusitado sotaque – estilo Oxford-Cambridge com um toque continental, entoado em um ressonante barítono. Sua suíte de hotel em Miami estava cheia de brinquedos e parafernálias de bebês, mas Mirka, sua esposa, e suas duas gêmeas de onze meses, Myla Rose e Charlene Riva, não estavam. “A coisa do Pete foi fenomenal”, ele continuou, “mas ao mesmo tempo foi complicado de lidar. Aconteceu cedo demais? Talvez. Eu tive maus torneios depois daquilo. Eu perdi na primeira rodada tanto na França como em Wimbledon em 2002. Eu me perguntaria, depois daquilo, como eu havia jogado tão bem contra Pete – porque Pete, na grama, era o mais duro que se podia ter. Eu ficava um pouco embaraçado em alguns momentos. Claro, grama é diferente, a Centre Court de Wimbledon é diferente. Quando eu venci Wimbledon, um ano

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nucleose e uma dor crônica na coluna, havia muita especulação precipitada a respeito de seu declínio. Seu arquirrival Rafael Nadal, que é cinco anos mais novo, o atropelou em três sets no Aberto da França [Rolland Garros] deste ano, e então quebrou a trajetória de cinco título consecutivos de Federer em Wimbledon num thriller de cinco sets que é constantemente citado como a maior partida já jogada na Centre Court. Embora Federer tenha vencido o Aberto dos Estados Unidos em setembro, como de costume, Nadal o bateu em janeiro nas finais de 2009 do Aberto da Austrália e, numa pública demonstração do laço pessoal entre eles, ofereceu um estranho abraço de consolação quando o perdedor não conseguiu segurar as lágrimas após a partida. Três meses depois, quando Federer estava perdendo para Novak Djokovic em Miami, ele destruiu sua raquete – algo que raramente acontece desde sua tempestuosa carreia como jogador júnior. Pareceu como o fim da Era Federer. Mas, então, em uma brilhante reviravolta, venceu o Aberto da França do ano passado – o único dos quatros grandes, ou grand-slam, que lhe faltava (os outros são Wimbledon, o Aberto dos Estados Unidos e o Aberto da França) – e foi à caça de seu sexto Wimbledon, quebrando o recorde de Pete Sampras de catorze grand-slams. John McEnroe, Sampras, e outros deuses do tênis aderiram ao extasiado coro aclamando Federer como o maior jogador de todos os tempos, e ele seguiu para vencer seu décimo-sexto grand-slam no Aberto da Austrália do início deste ano, dominando Andy Murray nas finais. Federer, que não acredita em falsa modéstia, disse após o jogo na Austrália que ele “jogou algo do melhor tênis de sua vida.” Desde então, no entanto, a angústia de Federer está se materializando novamente. Uma infecção pulmonar interrompeu seu calendário de treinamentos esta primavera, e ele perdeu em rodadas preliminares de três torneios menores. Eu fui a Miami em março, para vê-lo jogar no Sony Ericsson Open, e seu jogo lá estava longe do seu melhor nível. Seu serviço, a mais consistente arma de seu brilhante arsenal, continuou decepcionando a ele próprio. Seu timing estava

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e imaginavam se seus dons naturais – desde o início de sua carreira, ele estava realizando golpes que ninguém jamais havia tentado – iriam algum dia se consolidar nele como um todo. Isso veio a acontecer agora, enfaticamente. Federer estava dominando o circuito profissional durante todo o ano, vencendo três dos quatro majors (algo que nenhum outro fez desde 1988) e desbancando Andy Roddick como o nº 1 do mundo. Eu ainda não estava a par do quão bom Federer era. Na verdade, eu havia ido a Houston principalmente para ver Roddick, o melhor tenista estadunidense desde Sampras. Roddick estava quebrando recordes com seu serviço DUARDO.COM.BR

depois, eu estava perto dos 22 anos e eu senti ‘ok, meu talento está me dizendo que estou pronto agora.’ Veio no momento certo porque, se eu não tivesse vencido Wimbledon em 2003, as coisas poderiam ter sido bem diferentes.” A primeira vez que eu vi pessoalmente Federer jogar foi no Tennis Masters Cup de 2004, em Houston, o torneio anual de final de temporada para os oito mais bem ranqueados tenistas do mundo. Sua carreira até 2004 estava sendo intrigante. Ele havia perdido muitas partidas que deveria ter vencido, com frequência na primeira rodada dos torneios. Os especialistas esportivos questionavam sua capacidade psicológica,

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monstruoso, que várias vezes, durante aquela temporada, foram registrados a 240km/h ou mais, e eu queria ver isto ao vivo ao invés de por uma tela de tevê, na qual você não tem um verdadeiro senso do quão rápido a bola está viajando. Roddick era um garotão, com pernas como troncos de árvore, uma passada imponente, e uma tendência esportiva de aplaudir os pontos de seus oponentes tapeando as cordas da raquete com o pomo de sua mão. Perguntado na conferência de imprensa pós-partida sobre um backhand [golpes na direção contrária ao braço que segura a raquete] em cima da linha que o fez ganhar o set inicial na sua primeira partida contra a decadente estrela britânica Tim Henman, Roddick rebateu ingenuamente: “eu senti que bati bem, mas, na verdade, não vi a bola. Então, olhei pra cima e vi as pessoas comemorando e tal.” Roddick não chegou às finais em Houston, mas Federer chegou, e naquele momento eu tinha decidido que ele era o melhor tenista que eu havia visto jogar – em uma lista que vai de muito, muito tempo atrás. (Meu pai me levou para ver Bill Tilden jogar no final da década de 30, quando eu tinha 11 anos.) O adversário de Federer era Lleyton Hewitt, um cachorrão australiano, ex -número 1 do mundo que o venceu regularmente nas partidas antecedentes. Federer havia resolvido seu jogo até lá, e venceu facilmente, 6–3, 6–2. Apesar de a partida não ter tido muita emoção, foi empolgante assistir a Federer tomar a quadra como um animal predador, sem pressa mas decidido pela caça. Ele estava no controle de quase todos os pontos, colocando Hewitt fora da jogada com precisos, bem colocados e sutilmente variados golpes – topspin, slice [efeito de rotação vertical da bola, de baixo para cima], voleio –, terminando o ponto com um míssil direto dentro da quadra aberta. Eu estava paralisado pela maneira como ele se movimentava – o rápido balé no jogo de pernas que o permitiam parar e mudar de direção de forma mais rápida que qualquer outro jogador – e pelo estilo elegante e impetuoso de seus golpes. Ele fazia as bolas mais difíceis parecerem fácil, e mesmo em partidas acirradas ele raramente pa-

recia se esforçar. Federer não grunhe ou geme quando acerta a bola, como vários tenistas fazem agora (incluindo Nadal), nem mesmo comemora efusivamente após vencer pontos com socos no ar ou grunhidos motivacionais, ou suplica aos deuses do tênis que testemunhem suas frustrações quando ele falha.

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avia outra coisa acontecendo em Houston, também, que eu não havia reparado quando eu o assistia pela televisão. As emoções que seu jogo evoca são intensificadas pela sua frieza sob pressão, mas abaixo dessa serenidade externa eu podia sentir que ele estava curtindo ao máximo o momento – uma intensa, visceral alegria que vibrava como corrente elétrica em alguns pontos. Alguns dos tenistas de topo têm dado a impressão oposta: o semblante triste de Pete Sampras na quadra sempre me fez querer torcer por ele, e Andre Agassi, em sua biografia de 2009, nos diz em vários momentos como ele secretamente odiava o jogo. Federer claramente ama jogar, e isso não é uma parte pequena no prazer de vê-lo em ação. Ao contrário de Agassi e inúmeros outros prodígios do tênis, Federer nunca teve que lidar com a pressão de pais ambiciosos. Seu pai, suíço de nascença, Robert Federer, e sua mãe, Lynette, que era sul-africana, trabalhavam na companhia química Ciba-Geigy em Basel [Suíça], e jogavam tênis por diversão no pequeno clube da empresa próximo à casa onde moravam em uma vila próxima. “Nós passávamos fins de semana na quadra de tênis”, Lynette lembrou, quando eu falei com ela nesta primavera, “e as crianças” – Roger e sua irmã, Diana, que é dois anos mais velha – “se juntavam a nós. Roger tinha uma coordenação motora incrível desde bem cedo. Com um ano de idade, ele conseguia chutar uma bola de futebol na sua direção. Nós percebemos isto, mas não o pressionamos. Todas as grandes decisões de sua carreira esportiva foram tomadas por ele mesmo”. Foi decisão de Roger, aos 12 anos, de parar de jogar futebol e entrar no programa do Swiss National Tennis Center, na cidade de Ecublens, a duas horas e meia a trem de sua casa. Federer teve dificuldades em se adaptar lá. Ele cres-


apenas aproveite mais.”

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afael Nadal jogou contra Federer pela primeira vez no ano de 2004, em Miami, e o venceu em 3 sets. Este jogo foi no ano em que Federer venceu 76 partidas e perdeu apenas seis; Nadal tinha 18 anos, e era o seu primeiro no circuito masculino profissional. Eles se encontraram em 21 torneios desde então, e Nadal venceu 14 vezes. Tirando duas, todas as suas vitórias foram no saibro, onde o piso é relativamente mais lento, desacelera a bola, tende a atenuar o serviço de Federer e a favorecer a fenomenal habilidade de Nadal de correr atrás de todas as bolas e rebatê-las com um mortal topspin. Em quadras duras e na grama, Federer venceu diversos torneios em que Nadal não chegou às finais. Apesar do seu recorde contra Federer, Nadal não se considera o melhor jogador. Perguntado sobre isso em Rolland Garros, no mês passado, Nadal retrucou: “se alguém diz que sou melhor que Roger, eu penso que ele não sabe nada sobre tênis. Ele já venceu 16 grand-slams e eu venci seis.” Pelos últimos cinco anos, a batalha entre eles, muitas delas lutadas acirradamente, tem se estabelecido como a mais excitante rivalidade de qualquer esporte. Eles são quase das mesmas altura (1,85m) e peso (cerca de 85 quilos). Nadal, que nasceu e ainda vive na ilha de Maiorca [Espanha], decidiu abandonar

o futebol pelo tênis quando tinha 12 anos, a mesma idade que Federer tinha quando fez a mesma coisa. Nadal é treinado pelo seu tio, Toni Nadal, um ex-tenista profissional, além de se manter bastante próximo a sua família e de suas raízes espanholas. Fora da quadra, Nadal e Federer são amistosos, embora não sejam amigos íntimos. Ambos são extrovertidos, geniosos e extremamente bem queridos pelos outros jogadores, que de forma consistente elegeram Federer como presidente do Conselho de Jogadores e Nadal como o vice-presidente. Na quadra, seus estilos dificilmente poderiam ser mais distintos. Federer é destro, e segura a raquete em um clássico Eastern [empunhadura versátil que permite, teoricamente, mais força e menos controle], o que possibilita uma grande variedade para suas jogadas – o analista de tênis John Yandell, usando uma câmera lenta, mostrou que Federer tem mais de duas dúzias de maneiras de acertar um forehand [no caso de Federer, os golpes a favor do seu braço direito]. Ele tem o mais completo punho no tênis: sua força vem majoritariamente de uma aceleração de última hora na cabeça de sua raquete, momentos antes de ela acertar a bola. Tio Toni ensinou seu sobrinho a jogar tênis com a mão esquerda, porque ele acredita que canhotos como Rod Laver, Jimmy Connors, e John McEnroe, têm uma vantagem natural contra destros. (Nadal faz qual-

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ranqueada no Top 100 feminino entre os profissionais, ela foi convidada para jogar pelo time suíço na Olimpíada de Sidnei em 2000. Ela perdeu na primeira rodada em Melbourne, mas Federer – o mais jovem integrante do time suíço masculino (ele é três anos mais novo do que Mirka) – reparou na colega e eles se tornaram amigos. Ele ficou com a medalha de bronze e, no último dia dos jogos, superou a sua timidez o suficiente para beijá-la. Tem sido uma notável união feliz (eles se casaram em 2009). Mirka abriu mão do tour feminino em 2002 por conta de uma longa lesão no pé e, nesse momento, Federer relembra: “eu disse, ‘por quê você não viaja junto comigo, me ajuda?’ Eu havia me separado do meu treinador, e não tinha uma comissão técnica. E ela disse ‘sim’”. Por vários anos depois disso, Mirka cuidou da organização de suas viagens e da assessoria de relações públicas, assim como continuou como sua companheira, parceira de treinamento e treinadora. Os pais de Federer cuidaram da parte financeira de sua carreira até 2005, quando as demandas comerciais se tornaram tão complexas – a receita do licenciamento de produtos ultrapassa em muito os 5 ou 6 milhões de dólares por ano que ele recebe em premiações – que ele assinou com a International Management Group (seu agente na I.M.G, Tony Godsick, faz parte do círculo mais próximo de Roger e Mirka). Mirka ainda viaja para todos os lugares com ele. Hoje, eles viajam com as gêmeas e uma babá. Embora eles possuam um modesto flat em Zurique e um apartamento em Dubai, os Federers passam cerca de dez meses por ano no circuito internacional de tênis e Federer decidiu, desde o princípio, que ele faria da vida nômade que eles levam o mais agradável possível, indo sempre de primeira classe e se hospedando nos melhores hotéis. A companhia claramente tem o ajudado em sua carreira no tênis. “Eu nunca me sinto solitário no circuito”, ele me disse. “Nós dificilmente tivemos dias em que ficamos separados nos últimos seis anos. Ela tem me ajudado desde tanto tempo – ela esteve comigo quando eu não tinha vencido nenhum título ainda – mas, agora, eu quero que ela pare um pouco e

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ceu falando alemão suíço, mas Ecublens fica na região de idioma francês, o que lhe fez aprender uma nova língua de maneira bem rápida. Levado, teimoso, com saudades de casa e cheio de conflitos emocionais, ele questionava seus métodos de treino, gritava consigo mesmo em quadra e chorava inconsolavelmente quando perdia uma partida. Mas ele insistiu por três anos, eventualmente, aprendendo a controlar suas emoções com a ajuda de psicólogos esportivos (ele ainda chora, mas, agora, geralmente, é quando ele vence). “Eu tinha o treinamento certo e os pais certos”, ele me disse, “e eles me guiaram para a direção certa.” Não era a direção que a maioria dos pais e treinadores recomenda, ou apoiam. Nas semifinais de Rolland Garros do ano passado, os pais de Federer estavam no espaço reservado ao lado de Mirka e alguns amigos próximos. No quinto set contra o gigante argentino de 22 anos, Juan Martín del Potro – que recentemente emergiu como um perigoso novo rival – Federer teve quatro break points no serviço de del Potro. A tensão aumentava a cada golpe, del Potro salvou três deles. No quarto, seu primeiro saque foi para fora. Ele foi para um arriscado segundo serviço, mas a bola esbarrou no topo da rede e caiu de volta em sua quadra – dupla falta, game para Federer. No espaço reservado, um amigo sentado ao lado de Lynette Federer irrompeu de sua cadeira com um grunhido em comemoração. “Sh-h-h, sh-h-h-h, sente-se,” Lynette disse, rapidamente puxando sua jaqueta. Ele sentou-se, perplexo. Ela cochichou em sua orelha, “Nós não podemos comemorar os erros do adversário!” Como Lynette disse para mim esta primavera, “Nós apenas tentamos ensinar a nossas crianças o respeito pelos outros”. Miroslava Vavrinec, conhecida como Mirka, nasceu na Checoslováquia em 1978. Um ano depois, sua família arranjou uma forma de sair do país e eles se mudaram para a Suíça. No final da década de 80, quando Mirka tinha nove anos, eles conheceram Martina Navratilova, uma tenista campeã de origem checa. Navratilova instou Mirka a fazer aulas de tênis, o que ela fez. Se tornou campeã suíça júnior aos 15, e aos 21,

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quer outra coisa com a mão direita). Ele usa uma empunhadura Western [mais comum entre os jogadores], que é mais parecida como a maneira que você segura um taco de beisebol, e ele realiza seu topspin chicoteando a raquete de forma brusca pra cima após atingir a bola, de forma que o movimento termina acima e atrás de sua cabeça. A jogada parece estranha, mas a bola gira tanto (cerca de 20% a mais de rotações por segundo que um topspin feito por Federer) que passa bem rente à rede, mergulha de forma abrupta próximo à linha e quica muito alto na região de backhand de seus adversários destros, o que os empurra para longe da quadra. O backhand de Federer é algo de grande beleza – fluido, imprevisível e devastadoramente preciso – apesar dele ser o único tenista do Top 10 masculino que bate o backhand de uma mão; os outros usam ambas, para aumentar a força. O backhand de duas mãos permite que jogadores como del Potro ou Djokovic alcancem as bolas altas e retornem-as com topspins semelhantes, mas Federer não consegue fazer isto. Ele consegue cortar a bola para que ela quase trisque a rede e quique baixa e, algumas vez, em uma perfeita antecipação e em incrível velocidade, ele consegue correr em volta da bola e pegá-la com sua direita, mas isso não funciona sempre. Eu perguntei a Federer se ele alguma vez já considerou trocar para um backhand com as duas mãos. “Nunca. Realmente, não”, ele disse. “Algumas vezes eu tento bater com as duas brincando, mas eu não posso realmente fazê-lo – é uma forma muito desconfortável. A liberdade de um backhand de uma mão apenas é ótima para mim”. Até então, em qualquer momento, o implacável ataque ao backhand de Federer tem sido o elemento-chave do sucesso de Nadal contra ele no saibro. Quanto ao temperamento, os dois homens cruzam-se como pólos opostos – Apolo e Ares, talvez. Nadal nunca sorri durante uma partida – não até o derradeiro instante, quando, se ele tiver vencido, sua alegria transparente o transforma em um serafim caravaggiesco. Até então, sua expressão padrão na quadra é algo entre um cão rosnando e uma carranca. Ele dá olhares descon-

fiados de um lado ao outro durante os pontos disputados e, quando sua raquete encontra a bola, sua face contorce-se em um semblante de raivosa vontade, como se a esfera amarela tivesse insultado sua masculinidade. Nadal tem várias manias estranhas, que nunca variam. Durante o intervalo entre os games, enquanto Federer senta calmamente em sua cadeira e permanece com o olhar à frente, Nadal mexe as pernas, reamarra seu tênis, ajusta suas meias na mesma altura, toma goles de duas garrafas de água idênticas e, então, coloca-as no chão próximas a seus pés. Obsessivamente, ele posiciona os rótulos de maneira que fiquem de frente para o lado da quadra em que ele está jogando. Ao se preparar para sacar, puxa o fundo de seu calção até em cima, se inclina pra frente e bate a bola no chão dez ou doze vezes com sua raquete, depois, bate quatro ou cinco vezes usando a mão – alguns oponentes (não Federer) têm reclamado que ele constantemente excede o tempo limite de 20 segundos entre os pontos. “Não é uma superstição”, Nadal já disse. “A rotina me faz ficar mais concentrado.” Nenhum outro tenista já se focou de maneira tão feroz no jogo que tem à disposição. “Eu admiro Nadal por isso”, Federer me disse, “um cara que luta por todos os pontos com aquela incrível intensidade nos olhos. Sua força mental em jogar cada ponto da mesma maneira é incrível, mas eu nunca conseguiria jogar assim. Eu preciso mudar, eu preciso de um ponto diferente toda vez”.

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u perguntei para ele se perder o título de Wimbledon para Nadal em 2008 não o deixou em dúvida sobre a sua própria carreira. “Não, não deixou”, ele disse. “Porque um ano antes eu o venci lá em cinco sets e, um ano antes, eu o venci em um apertado quarto set. Então, eu sabia que a cada ano que ele ganhava mais experiência na grama, suas chances iam crescendo. Ele veio com uma confiança incrível, depois que ele me esmagou na França. Ele estava forte e mereceu aquilo. Foi uma derrota dura para mim, mas eu me senti orgulhoso de fazer parte de uma final tão incrível, que todo mundo falou a respeito como uma das grandes de

todos os tempos. Eu também sabia que iria voltar, com uma grande performance como aquela. E eu consegui apagar aquela derrota vencendo Wimbledon novamente ano passado contra Roddick, 16-14 no quinto set”. Pobre Roddick. Ele jogou o melhor tênis de sua carreira ao perder aquela maratona, e seu recorde contra Federer agora está em duas vitórias e dezenove derrotas. Federer ainda não tinha quebrado o ainda poderoso serviço de Roddick até o game final (os dois sets que ele venceu antes foram fechados no tiebreak), mas Federer, cujo serviço é menos forte porém mais preciso que o de Roddick, finalizou a partida com cinquenta aces, contra 27 do americano. Ele também venceu vários pontos com deixadinhas perfeitamente executadas, coisa que uma vez ele desprezou como algo “que você só usa em uma situação de pânico”. O domínio de Federer no tênis forçou outros jogadores a desenvolver variedades maiores em suas jogadas. Em um rápido encontro com Nadal nesta primavera, eu perguntei a ele se havia alguma habilidade de Federer em particular que ele gostaria de ter. “O serviço”, ele falou, sem hesitação. E o que ele havia aprendido ao jogar contra Federer? Falando em espanhol, através de um intérprete – o inglês de Nadal é funcional, mas limitado –, ele disse: “ele está sempre melhorando, não? O mais importante é melhorar, e eu tento aplicar isso a mim mesmo.” Ninguém na verdade esperava que Federer ganhasse na França este ano. Nadal dominou o saibro em Rolland Garros tão completamente quando Federer tem dominado a grama em Wimbledon. Nadal venceu o torneio quatro vezes seguidas, entre 2005 e 2008, batendo Federer em três das finais. Sua derrota chocante na quarta rodada do ano passado para Robin Solerling, um poderoso mas unidimensional jogador, que nunca havia passado da terceira rodada em um grand-slam, foi atribuída principalmente ao frágil tornozelo de Nadal. Isto abriu a porta para Federer, que correu atrás em várias partidas duras para dominar Soderling na final, vencendo em 3 sets. Este ano, Nadal passeou pelas primeiras partidas sem perder nenhum

set, assim como Federer. Soderling, que do ano passado pra cá, trabalhando com um novo técnico, foi do nº 25 ao nº 7 do ranking, perdeu apenas um set nas suas quatro primeiras partidas. Soderling não parece um jogador de tênis. Alto (1,93m), desengonçado e com as pernas um pouco arqueadas, ele foca em forçar seus adversários a sucumbir com seu poderoso serviço e seus golpes rasteiros com efeito. Seu comportamento na quadra é bruto e ele raramente se importa com as peculiares gentilezas que ainda resistem ao jogo, como levantar uma mão em pedido de desculpas quando sua bola trisca a rede e cai na quadra adversária. (Eu consigo me lembrar de jogadores dando “pontos de cortesia” – se você pensasse que a bola de seu adversário havia sido erradamente marcada como fora da linha, o fair play era abrir mão do ponto seguinte.) Enquanto perdia para Nadal em uma terceira rodada de Wimbledon, em 2007, Soderling ficou tão irritado pelo ritual do espanhol que ele começou a imitá -los, espalhafatosamente, puxando o seu calção até topo, o que provocou Nadal a dizer, depois, que sua conduta era “talvez a pior possível” e que “nós vamos ver o que acontece ao final da vida, não?” (Soderling agora diz que se arrepende e, recentemente, começou a levantar a mão pelos seus pontos vencidos com a ajuda da rede). Soderling nunca havia conseguido vencer Nadal até Rolland Garros do ano passado e, em doze partidas contra Federer, ele conseguiu vencer apenas dois sets. Este ano, no entanto, com Juan Martin del Potro afastado por uma cirurgia de pulso, Novak Djokovic e Andy Murray jogando abaixo do competitivo e Andy Roddick um eterno perdedor no saibro, Soderling emergiu pela primeira vez como um legítimo favorito. Federer surgiu como seu adversário nas quartas-de-final. O tempo em Paris nesta primavera era frio e úmido, com várias partidas interrompidas ou atrasadas pela chuva. Isto contribuiu para quiques de bola mais lentos, o que deu a Soderling mais tempo para aprumar seus pesados forehands. “Eu nunca vi um rapaz bater mais forte que isso,” John McEnroe disse na cabine de transmissão. A artilharia pesada pareceu não ter


break point. Era também um set point, mas não havia muito tempo para se empolgar porque, no ponto seguinte, uma série de longas e agressivas pancadas de Soderling levaram a uma resposta fraca de Federer. Sua bola veio alta e próxima à rede e Soderling estava esperando por isso. Seu smash [quando o jogador rebate uma bola alta de cima para baixo] soou conclusivo – até nós percebermos que Federer estava correndo a toda velocidade à borda final da quadra. Ele foi pra trás e pra trás, saindo da imagem da

câmera no mais extremo canto; nós não podíamos vê-lo mas podíamos ouvir o som crescente da multidão e a voz de McEnroe dizendo: “olha lá! Está voltando”. Antecipando perfeitamente a trajetória, Federer saltou alto – como nós vimos no replay – e alcançou o suficiente da bola para mandá-la de volta, cobrindo a cabeça de Soderling em direção ao fundo oposto da quadra, onde ela deveria ter caído se Soderling – que pensava que o ponto havia acabado – não articulasse, contorcendo-se

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avia muito em jogo aqui. Se Federer vencesse, ele chegaria a uma semifinal de grand-slam pela vigésima-quarta vez consecutiva. Esta marca era de alguma maneira mais impressionante que seus 16 títulos nos grandes; seria algo como o recorde de 56 jogos com rebatidas de Joe DiMaggio [um dos maiores jogadores de beisebol dos Estados Unidos], um recorde de consistência e regularidade sobre-humana (os vices em semi-finais consecutivas de grand-slam são Rod Laver e Ivan Lendl, empatados com dez cada). Além disso, Federer estava há uma semana apenas de quebrar o recorde de Pete Sampras de 286 semanas (no geral, não consecutivas) como o nº 1 do mundo. Coisas dessas significam muito para Federer. Ele às vezes sente que está jogando para os livros de história agora, embora seja um pensamento fugaz. Tendo dominado sua geração de melhores tenistas, ele tem sido desafiado por um grupo de jovens jogadores, talentosos e ferozmente motivados (Berdych, Mur-

ray, Djokovic, Del Potro e, claro, Nadal), cada qual com o sentimento de que não tem nada a perder contra o melhor de todos os tempos. A competitividade no circuito masculino nunca foi tão parelha quanto é neste momento. “Quando eu estava no meu ague”, Tony Trabert, o tenista top dos Estados Unidos na década de 50, me disse recentemente, “se você não cochilasse em campo você não tinha como perder antes das quartas-de-final. Hoje, é melhor se preparar já para a primeira rodada”. Federer nunca encontrou um desafio que não tenha aceitado e, agora, em um dia chuvoso em Paris, ele tinha Robin Soderling. Depois de vencer o primeiro set de uma partida, Federer algumas vezes se desliga no ínicio do segundo. Isso aconteceu dessa vez, e Soderling quebrou seu serviço no primeiro game. Sem se intimidar, Soderling estava batendo na bola ainda mais forte agora, forçando Federer a jogar defensivamente. Ele também estava com o serviço mais forte – alguns dos primeiros saques de Soderling vieram a 225km/h, à la Roddick. Perdendo por uma quebra de serviço e incapaz de fazer o mesmo, Federer acabou por perder o segundo set por 3–6. O que você procura nas grandes partidas de Federer é o momento quando ele recupera a energia, seja aumentando o nível de suas jogadas ou mudando a estratégia para quebrar o ritmo do seu oponente. Eu poderia vê-lo tentar a escalada no próximo set, atraindo Soderling para a rede com slices, mas sua confiança não estava lá. Ele continuou cometendo erros não forçados. Soderling estava jogando um tênis de alto risco, batendo com tudo em todos os pontos. Se seu timing estivesse por uma fração a mais, ele estaria perdendo nos erros, mas suas bolas continuavam triscando a linha. Minha esposa e eu estávamos assistindo a partida em casa, grunhindo aqui e ali (eu estou aprendendo a reprimir os meus lamentos agonizantes). Eles ainda estavam trocando games no terceiro set, mas Federer estava tendo mais trabalho segurando o seu serviço. Então, inesperadamente, com Soderling servido em um 4–5, Federer acertou duas excelentes bolas vencedoras com o backhand, a segunda forçou um

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incomodado Federer. Alguns jogadores são levados para trás contra batedores fortes, recuando mais e mais atrás da linha de fundo e se tornando vulneráveis a bolas curtas, mas Federer segurou sua posição. Ele permaneceu próximo à linha de fundo, recebendo bolas fundas de voleio e mandando-as de volta, no instante após elas atingirem o solo, em ângulos tão agudos que desafiavam as leis da física. Vez ou outra em suas partidas, correndo atrás de uma bola que parece tão difícil, longe do ângulo de seu backhand, ele alcança e risca a bola de volta com um golpe de punho tão precisamente executado que a bola desliza cruzando a quadra e cai intocada, do outro lado da rede. (Esta jogada, que seria impossível para alguém que usa as duas mãos, sempre levanta a torcida). Federer estava ganhando seus games com bastante facilidade, dois deles invictos, enquanto Soderling lutava para vencer seus games em iguais (40-40) e break points. Com Soderling servindo e perdendo de 4–3, Federer finalmente converteu um break point, e terminou fechando com seu serviço o primeiro set em 6-3. Eu dei uma boa respirada.

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estranhamente, para tentar outro smash de último momento que mandou a bola por cima da rede, vencendo o ponto pela segunda vez. Foi um dos momentos que tornam uma partida de Federer em um carnaval de boas sensações. A televisão flagrou um sorriso impressionado de Mirka. A torcida ainda estava gritando. Se a reação de Soderling tivesse sido um tiquinho mais lenta, Federer teria uma liderança de dois a um na partida. Soderling foi em frente para ganhar o game, este set e o seguinte para vencer a partida e impedir que Federer chegasse à 24ª semifinal consecutiva em grandslams. A trajetória de Soderling continuou com uma vitória sobre Berdych nas semis, mas Nadal, em seu estado mais invencível, o derrotou em 3 sets na final, vencendo seu quinto Rolland Garros e superando Federer como o nº 1 do mundo. Wimbledon é onde Federer se sente mais confiante. Vencer o campeonato faz de você um membro honorário do All English Lawn Tennis Club, e Federer – único entre seus pares – gosta de levar sua esposa para jantar na sede, uma ou duas vezes durante o torneio. Ele ama jogar na grama, e adora as tradições e a atmosfera do lugar – os postes de madeira que seguram a rede, a relativa ausência de publicidade na Centre Court, o regimento que obriga os tenistas a se vestirem “quase inteiramente de branco.”. A vestimenta de Federer é tradicional mas estilosa, com uma diferente combinação de cores para cada torneio. Três anos atrás, ele chocou seus admiradores chegando à final de Wimbledon com uma jaqueta dourada sobre seu uniforme branco, com uma brilhante mochila ouro e branca para combinar. Anna Wintour, editora da Vogue, uma ardente fã, que depois se tornou amiga pessoal, aconselhou-o, logo após o jogo, a pegar leve com o dourado – “Roger gosta um pouco do chamativo”, ela confessou.

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stranho o bastante, eu realmente não me importei em ver Federer perder para Soderling em Paris este ano. “Eu não posso ser muito crítico a mim mesmo quando não venço todos os torneios”, Federer já me falou nesta primavera. Por cinco anos, seus maiores

fãs esperaram dele apenas isso. E nossas expectativas, como eu venho a perceber, vieram com o privilégio único de vê-lo jogar. Caso ele ganhe Wimbledon este ano ou mesmo que não, ele nos dará mais momentos como aquele em Paris, quando uma bola voando se torna mais do que o significado da vitória ou derrota. Eu tenho uma teoria de que a beleza do tênis, como a beleza de uma dança, é cinestética, na forma que nós respondemos a certas jogadas como se nós mesmos tivéssemos feito. Pelo menos, é assim que eu me sinto quando estou assistindo a Federer. Com alguma sorte, esta sensação estará disponível em breve. Federer fará 29 anos em agosto, o que começa a ficar pesado para um tenista. Apesar disso, por conta da maneira leve que se move em quadra, ele sofreu poucas lesões. Federer está tão em forma como qualquer outro no circuito e já disse que pretende jogar por mais alguns anos – certamente o bastante para competir pela medalha de ouro na Olimpíada de Londres (a final será disputada em Wimbledon, na Centre Court). “Eu gostaria de continuar no jogo o máximo que puder”, ele me disse, “eu acho que seria legal se as crianças pudessem me ver jogar eventualmente. Com todo o sucesso que eu tive e o talento que tenho, eu sei que serei capaz de vencer grandes torneios enquanto eu estiver jogando, além de reinventar meu jogo. O problema com a experiência é quando você se torna acomodado com a maneira que joga. Eu tenho que me desafiar todos os dias para permanecer uma ameaça, como um jogador júnior – para jogar tênis de forma desprendida, mas com a estabilidade mental de um veterano. O momento em que eu sentir que eu não posso mais fazer isso, eu pararei, mas eu espero que isso dure um bom tempo. Veremos. Ademais, é bom lembrar que, como na Austrália este ano, quando eu encaixo meu jogo, posso vencer todo mundo”.

*

Roger Federer está com 32 anos, ainda joga tênis e não sabe quando irá parar. Ele voltou a vencer Wimbledon em 2012, além de regressar ao posto de nº 1 do mundo, na final contra Andy Murray – o britânico que chegou à decisão do torneio inglês depois de 76 anos.


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ANDRZEJ BOCHENSKI / SHUTTERSTOCK.COM

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ORIENTe-se

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esde a minha primeira incursão a Granby Street, dei-me conta de que a história dos portugueses e das especiarias – que teriam ido buscar na Índia – estava mal contada. Ali, em Liverpool 8, entre a Hope Street do Submarino Amarelo, e Penny Lane, em meio a sacos cheios de cores, perfumes e cheiros extraordinários, senhores de pele cor de cobre e turbantes misturavam dezenas de condimentos, construin-

do blends de curry que, a depender da quantidade de pimenta, iam de Bhuna a Vindalo, passando pelo Madras. Ah! E vindalo, ou bindalo, vem de “vinha d’alho”. Das antigas rotas de comércio do chá, dos incensos e do sal, é a das especiarias que, em suas múltiplas bifurcações, eventualmente, chega ao Brasil. Mas bem antes dos portugueses, hindus, judeus, cristãos, romanos, chineses e ára-

MARIA

PALÁCIOS

bes, além do marinheiro Simbad, mercavam especiarias, sobretudo da Costa do Malabar, ao sul da Índia, berço da pimenta, do cardamomo e da canela. Os portugueses tentaram se estabelecer aí, em Kerala, Calicut e Cochin. Sem sucesso, se instalaram em Goa, grande produtora de canela, no inicio do século XVI. Eles ficaram lá até 1961. Mas a Costa de Malabar, hoje Estado de Kerala, tornou-se um grande centro

de comércio de especiarias não somente pela sua produção, mas também por ser porto de entrada de especiarias das ilhas de Java, Sumatra e Molucas, como também da canela do Ceilão. Embora a cozinha indiana tenha sua variedade natural a um subcontinente, alguns ingredientes do curry são básicos: chile vermelho, cominho, funcho, cardamomo, cravo, canela, macis, noz-moscada, semente de mostarda, semente de


ciantes árabes e às repúblicas italianas que passaram a controlar esse comércio (Veneza, por exemplo), fez os preços das especiarias se elevarem de tal modo que só mosteiros e palácios podiam adquirí-las. Por isso, Carlos Magno decretou que cerca de 70 especiarias e ervas aromáticas fossem cultivadas em todas as propriedades imperiais e nos jardins dos mosteiros. Cobravam-se impostos sobre a pimenta negra, gengibre, cravo-da-índia, açafrão, cominho e açúcar. Majoradas frequentemente, estas taxas às vezes eram vinculadas a projetos especiais. Assim, a Inglaterra em 1305 criou um imposto sobre o anis, o alcaçuz e a pimenta-de-rabo, para pagar a manutenção da Ponte de Londres. Oriundas da Índia, do Sudeste Asiático, da China, dos Himalaias, do planalto iraniano e de algumas das terras da Arábia e do Ponto, onde é grande a produção de resinas aromáticas, todas as especiarias, numa certa época e mesmo ainda hoje, são transportadas por caravanas através das mais diversas rotas. Desde a Antiguidade, açafrão, sésamo, aneto, coriandro, cardamomo, nigela, cominho, papoula-do-oriente, noz-moscada, cravo e pimenta negra, entre outras, deixaram suas marcas nas curas, nas maquiagens e nas cozinhas do Oriente. No Egito, o uso de perfumes, ervas e resinas aromáticas eram entendidos como uma ligação com o além. Mesmo no Egito pós-faraônico, copta e de tradição cristã, a divindade é intensamente ligada aos perfumes. Até os dias de hoje, em templos e outros locais sagrados, o incenso e a mirra são importantes. Foi no Iêmen que se formaram os reinos caravaneiros, especializados em operar as mais seguras linhas de transporte de especiarias e aromas, entre as demais mercadorias da Arábia e da Abissínia. Eram eles que as levavam para as áreas mediterrâneas, através do primeiro canal de Suez, aberto no período dos faraós da XII dinastia. Mas todas as rotas chegavam a Alexandria, ou seguiam para a Síria, outro centro de difusão. Independente da rota, mas comum a todas elas, essas caravanas corriam o mundo levando mercadorias e cultura. Mas desde o século XIV a. C., os fe-

nícios já detinham o monopólio do comércio de especiarias no Mediterrâneo. Os gregos usavam a palavra pharmakon para condimento, aromas, especiarias, medicamento e afrodisíaco. Por isso Safo, poetisa de Lesbos, foi a primeira a celebrar em grego a mirra, o aneto, o açafrão e a canela. Mas a partir do século IV a. C., Alexandre, o Grande, e seus sucessores criaram centros de pesquisa, museus e bibliotecas e foi possível construir um inventário das propriedades terapêuticas das principais ervas e especiarias. Em Roma, no século II a. C., as especiarias eram parte das práticas de curandeiros. De qualquer modo, seu uso era disseminado e até os palcos dos teatros eram perfumados com açafrão, cardamomo, cravo-da-índia e cominho. Em Roma, o uso de especiarias só fez aumentar, especialmente as mais exóticas e luxuosas. Assim, no século I a.C., Roma era a maior importadora de produtos da Ásia. Plínio, o Velho, escreveu que no século II d.C. o gasto de Roma no Oriente já era de 100 milhões de sestércios por ano, ou seja, 18,2 bilhões de rupias indianas. Posteriormente, descobriu-se que a estimativa de Plínio era inferior à realidade e que, embora as mulheres gastassem nesses produtos que usavam como perfume e maquiagem, os homens as suplantavam no gasto de dinheiro com luxo. Além disso, os 100 milhões de sestércios incluíam um grande volume de sedas, madeiras exóticas, pedras e pérolas preciosas que, segundo a literatura, as mulheres tramavam para ganhar. Depois da queda do Império Romano no século V, vai reinar na Europa anarquia, invasões e fome. Falando sobre as privações na Europa medieval, Piero Camporesi relata que muitas mães preferiam lutar para comprar ópio, que mantinha as crianças relaxadas, adormecidas, sem sentir fome, do que pão que, além de ter apenas um efeito, este era menos duradouro. De qualquer modo, a cozinha medieval usava muitas carnes e, tanto para conservá-las como para disfarçar seu gosto quando em principio de decomposição, as especiarias eram necessárias. Sobretudo a pimenta negra, a rainha

delas, como também a não dispendiosa gengibre. O cominho desapareceu da mesa medieval e o açafrão teve seu uso expandido na alimentação. O século VII consolida o desaparecimento de Roma em função de Bizâncio. O centro do comércio de especiarias desloca-se para o Leste, com a chegada do Islã. O profeta Maomé era da tribo coraixita, cujos membros eram mestres do comércio de especiarias, resinas e aromas no mar Vermelho. Mas os contatos com o Oriente serão retomados por Marco Polo, que volta a Veneza em 1295, depois de 25 anos viajando. Preso pelos genoveses, escreve suas memórias do cárcere. As mesmas que ainda nos faz viajar. Mas foram os Cavaleiros da Fé, os Cruzados, os primeiros europeus a redescobrir as especiarias. Eles partiam de Veneza, melhor ponto da Europa para embarque da armada, em direção ao Oriente. Também por Veneza passavam milhares de peregrinos vindos de toda a Europa em busca da Terra Santa. Como muitos demoravam a voltar, os navios faziam a volta com os porões carregados de especiarias e sedas. Poucas chances para Portugal neste cenário. Poucas chances para nós até hoje. Em Salvador, existem 3 pontos de vendas de especiarias: um na Feira de São Joaquim; uma barraca numa daquelas labirínticas passagens; outro na Praça do Mercado do Ouro, a Praça da Mão no Comércio, e uma filial desta, na Barra. O mais conhecido dos temperos orientais é o Curry powder - kari é uma palavra Tami que significa molho. As embalagens comerciais são duvidosas porque preservam os aromas dos seus componentes por pouco tempo. Quarenta dias. As especiarias que constituem o curry, de acordo com Madhur Jaffrey, no clássico da Penguin, An Invitation to Indian Cooking, são as seguintes: cravo, canela, folha de louro, pimenta do reino, noz-moscada, macis, gengibre, cardamomo, alho, cominho, coentro, fenogrego, sementes de mustarda, alho, pimenta seca e açafrão-da-índia.

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Este ensaio foi escrito a partir de livros de Fernanda de Camargo-Moro.

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papoula, coentro, assa-fétida, gengibre, feno-grego, alho, alfavaca. A intensidade de gostos e aromas será diferente se estas especiarias forem usadas cruas, tostadas, inteiras, socadas ou moídas. O uso correto das especiarias e ervas era importante não apenas para a alimentação, mas também no combate e prevenção de males que podem afetar a saúde. Textos sânscritos, de três mil anos atrás, indicam a importância de plantas especiais, mais tarde chamadas “especiarias”, para a prevenção e tratamento de doenças. As propriedades medicinais das especiarias são capazes de suavizar, esquentar ou esfriar o corpo. Por isso, o velho tratado de medicina hindu, o Ayurveda, indica pimenta negra para tratamento digestivo, e a curcuma como anti-séptico. Esta, juntamente com o açafrão, embelezam a pele. Para o fígado e reumatismo, gengibre e alho. Cardamomo era remédio para enjoo, febre, resfriado, dores de cabeça e infecções nos olhos. Cravos inteiros serviam como tônico para o coração, cérebro e desordens dos rins e dos intestinos. Coentro curava insônia e constipação. Os poderes terapêuticos do açafrão e do pimento (chile vermelho), eram intensos, como o da nigela, uma espécie de cominho negro. De qualquer maneira, o Papiro de Erbers, de 1550 a.C., cita essas especiarias aromáticas como fontes de perfumes, unguentos, condimentos e remédios, além de serem cruciais para o embalsamento dos mortos no Egito. Os romanos, de acordo com as receitas coletadas por Apicius, estenderam o gosto pela pimenta negra, o gengibre e a cúrcuma aos povos do norte. Assim, quando foram sitiados pelos godos, tiveram que oferecer grande quantidade de especiarias e de ouro para evitar a pilhagem de Roma. Dois anos depois, Alarico, rei dos visigodos, saqueia Roma. Foi o fim do Império do Ocidente. As trocas entre Ocidente e Oriente diminuíram e quase se interrompem, quando os árabes conquistaram Alexandria no século VII e expandiram seu império da Espanha, às fronteiras da China. Durante os próximos 400 anos, a dependência em relação aos comer-

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ATIVIDADE SUSPEITA

CORINGA LEOVIGILDO

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M

aria Clara olhava a poeira dançando no feixe da luz amarelada do poste que passava pela janela entreaberta da biblioteca da casa de Júlia – sua grande amiga, apesar do pouco tempo. Amizade daquelas. Tinho perguntava o quê é que tinha essa tal de Júlia, como ele dizia no início, que fez Clara realmente se interessar tanto. Não sabia se era a presença constante dos baseados enormes, se a sapiência sutil exposta em drops, não sabia que diabo era. Sabia que agora era Júlia pra cá, Júlia pra lá. Nem Romeu conseguira aquilo. Romeu, aquele médico, amigo de Tinho, que dá aula de filosofia pra uns aposentados na Barra. Ele andou sem dar atenção aos planos de Maria Clara e acabou por querer três filhos depois que já não adiantava. Hoje, nenhum dos dois tem filhos, apesar de transarem às vezes em noites de chuva que lembram outra noite, como Tinho me fez saber num dia de porre. Estavam, na verdade, os quatro – eu, Maria Clara, Júlia e Tinho – na biblioteca. Que biblioteca, como de quando em vez ouve Júlia junto à olhares meio boquiabertos, de passagem, pelo corredor. Sete prateleiras enfileiradas que escorrem até o fim da grande sala,

onde Júlia e seus primos brincaram os melhores esconde-escondes de sempre, lembrados sem exceção nas noites de Natal. História que me faz supor, quase convictamente, que safadiagens juvenis e iniciações sexuais eram com certeza o motivo disso tudo. Maria Clara tinha acabado de dizer que não tinha tempo pra ler e que aquela biblioteca lhe dava desânimo e a sensação de não saber nada. Todas as vezes. E que ela odiava esse sentimento. Tinha começado essa estória porque, antes disso, Tinho e Júlia estavam conversando sobre as festas malucas da época de faculdade. Júlia se dizia Rebordosa e Tinho não hesitou às comparações com as performances de Clara, da época em que faziam Contabilidade juntos na Católica. A conversa estava chegando aos pormenores, e Clara tinha corado, o que só eu percebi. Parecia que queria deixar eles continuarem, mas tinha falado da biblioteca, e meio que se arrependeu depois, mas Júlia já ia dizendo que estava acostumada àquela quantidade de livros. Que saber é saber que não sabe e que o cheiro de poeira e mofo deixava-a em quase transe de prazer. Olhando distraidamente, até se achava que eles falavam mesmo

FERREIRA

sem pompa e com naturalidade. Mas eu tinha visto de perto. Falavam normalmente numa conversa tranquila, mas eu sabia que pensavam duas ou três vezes na possibilidade de estarem errados e serem corrigidos. Eu tenho raiva dessa hipocrisia ridícula. Tinho mesmo não sossegou até comer Clarinha, o que acabou acontecendo depois de um tempo que ela havia rompido com Romeu. Era nela que ele pensava quando se contorcia na cama em masturbação de rítimo acelerado, sendo quase pego com a boca na botija, algumas feitas, pela filha ou pela mulher. Amigaço de Romeu, abraçava-o sinceramente mirando a silhueta arredondada, quase gordinha, de Clarinha. Ele já tinha comido Júlia nessa época. Ouviu, uma vez na adolescência, de um vizinho de rua mais velho, que o próprio tinha passado o rodo em todo mundo do trabalho depois de comer gostoso uma das secretárias, disse que a informação passa numa velocidade impressionante e, sem demora, todas já querem lhe dar. Júlia tinha mesmo dado pra ele com vontade, parece que ela percebia a intenção dele, mas não queria nem saber e deu-lhe uma surra de buceta, como diz seu Zelito, o zelador de meu prédio. A

porra da hipocrisia você sempre acha, é só olhar de perto. Eu moro no subsolo e finjo até hoje que não sei que a vizinha do 101, casada, trinta e cinco anos, mãe de Gabriel, já fornicou umas três vezes na escada com Rafael, do 202, naquela pressa que sempre se tem aos 16 anos, sem contar na tensão constante de um possível flagra. E sem escrúpulo algum, no dia seguinte, brincava alegremente com o filho no playground, com aquela cara de esposa irretocável. Ridículo. Já tinha passado meia hora, certamente um pouco mais, desde que Clarinha tinha se envergonhado com as recordações de Tinho e eu já tava ficando com sono, pelo menos eu disse isso. Fui pra casa dormir na mesma cama de sempre que nunca dividi com ninguém, exceto as putas – que eu me recuso a pagar preferindo me satisfazer em punheta –, putas me dadas de presente em um ou outro aniversário. Creditados, os presentes, à minha virilidade exemplar, com o maior histórico de volúpias já reunidas e pela opção convicta, argumentada em retórica refinada, por estar solteiro. O que todos acreditavam piamente ser verdade, motivo de orgulho e admiração entre os amigos.

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A Pedra no Centro da História Thiago

Kalu

Naquelas ruas de paralelepípedos, Meninos levavam nos bolsos Um punhado de pedras pesadas. Eram tempos estúpidos De cartões postais distorcidos Com seus casarões invadidos Por pedras levadas. A cada arremesso, Um moleque travesso Soltava uma risada daquelas E achava bom ver janelas E portas fechadas Abertas por belas vidraças quebradas. BACULEJO_ P I L O T O

Sentavam na escadaria da igreja da praça E olhavam o bonde passar Fazendo fumaça Calmamente por cima dos trilhos. Deitavam sem pressa E encostavam a cabeça No chão da calçada. Dormiam tranqüilos Debaixo dos anjos - meninos de pedra -, Crianças sagradas...

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Hoje, nas mesmas ruas pedregosas, Meninos um tanto maiores Carregam consigo pedrinhas menores E mais perigosas. Por discrição, Evitam andar em bandos E, já que não há mais o bonde, Com o cigarro aceso na mão, Soltam fumaça E fingem olhar para os carros.

WARNER

Já não deitam perto dos anjos – Assustadoras estátuas. Talvez, a culpa seja da pedra Ou da própria história da pátria.


LIBERADO

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luta, no mito, quem vence é Zeus, que soterra Tifão sob o monte Etna, sua sepultura – cujas chamas e lavas (das quais já pude sentir in loco o odor sulfúrico, ou sulfuroso, não sei) provêm do fogo que o monstro terrível expele. Da luta entre Ipomedonte e Hipérbio, não arrisco precisar o resultado, mas certamente o vencedor terá sido Hipérbio, já que, ao final da história, Tebas resiste à invasão dos argivos.

*** Outra luta que não se explica apenas por si mesma, mais bem como produto de uma rivalidade anterior, foi a que acometeu Maneco Uriarte e Duncan, dois jovens amigos, personagens do escritor argentino Jorge Luis Borges no conto “El encuentro”. Meio ébrios durante um churrasco com um grupo de amigos num sítio nos arrabaldes de Buenos Aires, os dois se desafiam para um duelo de facas. Entre as opções na estante do anfitrião, colecionador de armas brancas, Uriarte escolhe uma adaga com um gavião em forma de U no cabo; e Duncan pega uma faquinha, em cuja empunhadura se via uma pequena árvore. A brincadeira entre amigos perde para o calor da batalha, e por fim Uriarte fere de morte o amigo. O que se descobre, depois, é que dois outros gaúchos (dos argentinos, não dos nossos) lendários, inimigos mortais, já

haviam portado, no passado, facas iguais às dos garotos que se enfrentaram no sítio. Eram Juan de Almada – dono de uma adaga de gavião em U – e Juan de Almanza – dono de uma faquinha de arvorezinha no cabo. O povo contava que os dois se haviam perseguido por anos, tendo morrido sem jamais terem se encontrado. A razão da rivalidade era porque as gentes confundiam um com o outro, dada a semelhança dos nomes. Tudo leva a crer que o ódio ficara impregnado nas facas, que por fim cumpriram por si mesmas seu destino sangrento, usando os jovens como mero veículo.

*** Outras dessas batalhas prefiguradas certamente se encontrarão literatura a fora. Eu, um dia, ainda darei minha contribuição a esse estoque infinito. Contarei, quando já mais ninguém se lembrar que eles um dia existiram, da rivalidade tão mordaz quanto gratuita entre um pugilista baiano – Reginaldo Hollyfield – e outro pernambucano – Luciano Todo-Duro. Lembrarei, ilustrando com detalhes (muitos dos quais registrados no documentário “Vou estraçaiá”, dirigido por Tiago Leitão e produzido pela Opara Filmes, assistam vocês depois), de quão ferrenha terá sido tal rivalidade: eram dois homens simples, do povo, que porém não podiam sentir o cheiro um do outro que se atracavam – em nome, di-


ziam, da rixa histórica entre Pernambuco e a Bahia. Sugerirei, à guisa de uma mitologia nossa, que os dois não passavam de marionetes de uma rivalidade entre duas outras almas, que terão vagado por séculos até encarnar neles. E então falarei das diferenças entre Duarte Coelho, o primeiro donatário da capitania de Pernambuco, e Pereira Coutinho (o Rusticão), primeiro donatário da Bahia de Todos os Santos. Rememorarei a “Nova Lusitânia” que Duarte tentou erguer em Pernambuco. Que não abonava a lambança sexual entre portugueses e índias – queria, em vez disso, que eles casassem com elas. Que era exemplo de disciplina pessoal, austeridade e autoridade. Que era, ademais, como que culto, vide o ter escolhido Olinda, nome de uma das personagens de Amadis de Gaula, livro de cavalaria muito lido naquele tempo, para batizar a vila que fundara na terra a si concedida por El Rei. E que sua colônia é até hoje citada como único exemplo de sucesso na primeira fase da colonização portuguesa do Brasil. Aí oporei Duarte ao Rusticão – cuja fama até no nome o precede. Contarei que, ao aportar na Bahia, este último fundou a Vila Velha, continuidade oportunista da vila onde o Caramuru já vivia em meio aos índios. Que sob sua gestão (se é que assim podemos chamar) não se pretendeu construir uma “Nova” nada; mas que, ao invés disso, grassaram os desmandos, pois ao mandatário faltava autoridade sobre os colonos por ele

próprio trazidos. E que a inimizade com os índios tupinambá fez-se tamanha que, por fim, o Rusticão e boa parte dos seus foram expulsos da terra e, depois, devorados por eles. Apimentarei a história dizendo que, numa carta ao rei de Portugal, Duarte alfinetou o Pereira, dizendo que este não tinha pulso para “resistir às doidices e desmandos dos doidos e mal ensinados”. E que terá surgido daí a rusga com o Rusticão, que porém não viveu o suficiente para desafiar o patrício a um duelo de facas ou de bacamartes. Pois o Rusticão, concluirei, achou de encarnar séculos depois em Hollyfield; e Duarte – um tanto menos culto, é verdade – em Todo-Duro (única forma humana entretanto capaz de se defender da fera baiana). A prova é um depoimento do pernambucano sobre o baiano, que aliás está até no filme: “Eu não tenho nada contra ele, não. Ele é que não gosta de mim, não sei por que.” E a disputa resultará, por fim, em melancólico empate: em seis confrontos nos ringues, três vitórias para cada lado, e as rendas dos embates drenadas por empresários e por toda sorte de oportunistas. O corolário será que os dois, a despeito da fama e da graça que proporcionaram, seguiriam para sempre sendo as mesmas e pobres feras de antes. Tão rivais quanto iguais: vetores de uma rivalidade que nem sequer lhes pertencia. Um dia ainda escreverei essa história. Um dia, porque hoje é sábado, o sol está brilhando e há cerveja gelada – e em dias assim, não se trabalha.

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PEDRO BRITTO

SANGIOVANNI

BACULEJO_ P I L O T O

RICARDO

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MArIA PALÁCIOS • ANDRÉ LEAL • MINÊU • FELIPE CAMPOS • DUARDO COSTA • RAFAEL MARTINS LEOVIGILDO FERREIRA • PEDRO BRITTO • PAULO SATURNINO • CUÍCA DE SANTO AMARO ZÉ MARQUES • CALVIN TOMKINS • VICTOR UCHÔA • DAVID KUSHNER • THIAGO KALU RICARDO SANGIOVANNI • FraNCIEL CRUZ • PAULO CLETO • ELCIO CARRIÇO • PABLO REIS


“PORQUE MUITOS SÃO ASSIM. Só RECONHECEM QUANDO A GENTE SAI.”

JOÃO

HENRIQUE


BACULEJO  

Revista piloto de jornalismo literário. Trabalho de conclusão de curso de Felipe Campos e Pedro Britto na Faculdade de Comunicação da UFBA.

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